Advogados do inferno, que sabeis a tal respeito? Sereis acaso mais
innocentes do que eu? É verdade que sou peccador. Se todavia as minhas
acções e as vossas fossem pezadas, talvez eu podesse estar a respeito do
futuro tão tranquillo como vós. Mas Deus não me ha de comparar comvosco
para absolver-me ou condemnar-me: será com o modêlo de perfeição que eu
tenho no espirito, e que eu devêra ter copiado no decurso de minha vida.
Não pratiquei--de mais o sei--todo o bem que podia; condescendi com
fraquezas que vós, por ventura, não conhecestes; mas talvez que eu, sem
que o soubesseis, me esforçasse e vencesse nos conflictos em que
succumbistes. Eu não vos julgo, ó crentes no inferno, que encaraes sem
impallidecer; eu, porém, que não creio no vosso inferno, não posso sem
pavor meditar no julgamento divino. Não desespero na bondade de Deus,
mas creio em sua justiça, e nutro viventissimo sentimento da perfeição
evangelica, e por isso mesmo sinto grandissimo pezar de minhas culpas, e
não me considero isento de expiação.
Oxalá que eu podesse dar de mim melhor testemunho! Podesse eu chegar
mais confiadamente ao tribunal do soberano juiz! Tivesse eu tão socegado
o espirito como inculcais o vosso, ou tão puro como vós imaginais
que o tendes! Quem me dera ser santo, não aos meus proprios olhos, como
dir-se-ha que sois aos vossos, mas aos olhos das pessoas de bem e das
multidões. Então impugnaria eu a eternidade das penas, não já com
melhores razões, nem com argumentos de mais justiça, mas com a
auctoridade que uma vida santa e reconhecida como tal imprime na palavra
humana. Ha ahi quem se não renda ao vigor de um discurso, e se docilise
á virtude ou ao renome de quem discorre.
Não discutamos, pois, a minha vida, que eu não tenho que entender com a
vossa. Em meu soccorro valho-me unicamente do raciocinio; desadoro outro
prestigio, e não me dobro a outro poder. Refutai-me, se podeis, com
razões tão claras como as minhas; mas deixemo-nos de insinuações
calumniosas; nada de injurias. Isso que prova? Quando fosse verdade que
todos sois pessoas virtuosas que vão direitas ao paraizo, e que eu sou
máo, e o peor dos homens, sêde francos, seria isso prova de que eu
argumento mal, e vós argumentais bem? Inferirieis d'ahi o que quer que
seja contra a infinita misericordia de Deus? A isto é que é preciso
responder, senhores. Eu por mim digo que a dôr, n'este e no outro mundo,
é meio de expiação; digo que a dôr, n'este e no outro mundo, acarêa a
piedade; digo que o castigo mais justo deve ter fim, e que o perdão é o
fim, a corôa, a perfeição e explendor das obras da justiça; que um
castigo infindo seria um castigo desarrasoado, sem escopo, sem
moralidade, inutil ao culpado, ás testemunhas e ao juiz;--um acto de
colera, de odio e furor--um feito sombrio e sinistro como transportes de
demencia incuravel. Digo que tal crença é mal cimentada, e assim funesta
em este mundo, como odiosa no outro; que nem o mal nem o castigo são
eternos; que eterno é só o bem, a omnipotencia, a bondade, a justiça e
misericordia de Deus, e que estas coisas, que separais, são inseparaveis
em Deus. Digo, conforme a S. Paulo, que ceo e terra hão de passar; que a
fé ha de passar tambem, e tambem ha de passar a Esperança, e que tudo ha
de acabar, salvante a Caridade.
Que vos parece isto? que redarguís? Ser-vos-ha mister mudar a
propriedade das palavras, crear linguagem nova, dirimir as leis da
razão, e cuidar em extinguir tanto em vós como nos outros as vivas luzes
da consciencia, se quereis impugnar estas proposições.