Resulta que os fieis creiam cegamente coisas profundamente
contradictorias--a verdade radiosa e o erro inintelligivel, Deus e
inferno. Tambem resulta que as multidões sempre a multiplicarem-se
rejeitem cegamente o inferno, e com o inferno os mais idoneos dictames
da moral, indiscretamente sumidos n'esse abysmo. Imaginam uns que a
mesma voz que ensina uma injustiça não póde ensinar uma verdade;
imaginam outros que a mesma voz que ensina consoladoras verdades, não
póde ensinar erros. A má educação, que, no rodar de muitos seculos, lhes
deram, torna-os a todos egualmente incapazes de discernir o que é
falso do que é verdadeiro, na mesma idêa: encaram-na a vulto, qual lh'a
offerecem, e ou a guardam ou rejeitam á tôa, verdade e mentira de
mistura, porque ambas as idêas estão identificadas em uma no espirito
d'elles.
Todavia todos os partidos são máos, e nenhum póde, relativamente á
questão presente, socegar a alma. Ainda não encontrei fiel que se me
confessasse impassivel ao horror das penas eternas, quando pensava
n'isso. E tambem não encontrareis incredulo que não haja confusamente
sentido a precisão de sobreviver a si proprio, e não haja suspirado pela
justiça do céo, vendo as iniquidades da terra. A verdade falla assim ao
coração de todo homem, alvoroçando-o até que elle a comprehenda.
O fiel diz de si para comsigo: «Deus é cruel»; mas, reportando-se á
Egreja, cuida que as inspirações de sua consciencia são suggestões
diabolicas, e vai aterrado rezar diante da cruz um acto de fé em um Deus
sem misericordia. Pelo contrario, o incredulo diz entre si: «Deus
existe; os máos serão castigados»; e, se em seguida se aturde e apaga no
intimo aquelle presentimento lucido da justiça divina, é porque lhe
estão sempre figurando o brazido inextinguivel e as atrocidades sem fim
que enterneceriam tigres e fariam chorar as pedras sobre o destino dos
condemnados.