Se não podem accusar-me de má fé na exposição dos principios que tentei
impugnar, não faltará quem me accuse de máo juiz em tudo o mais. Estejam
certos que não ficará aqui. O inferno tem seus devotos que não
sacrificam ás Graças, mas ás Eumenides. Bem os ouço gritar: impio!
incredulo! ignorante! detestavel pensador! monstro! scelerado! por que o
não prendem, e mandam ás galés! Ousar descrer das penas eternas! Que faz
o ministerio publico? Onde está o carrasco? Em França já não há lenha
para uma fogueira? Votamos pelo inferno, queremos que os nossos paes e
os nossos filhos sejam condemnados. Ao fogo com os selvagens, idolatras
musulmanos, judeus, indianos, herejes! Ao fogo com os peccadores
recalcitrantes! fogo eterno com os philosophos impenitentes! Não nos
esbulhem d'esta amavel crença. Que havia de ser da moral? Queremos
inferno e diabo, a maldição e o mal. Se muita gente se condemna, peior é
isso, mas a culpa é d'ella. Que ardam para sempre! É vontade de Deus. O
teu debil sopro, ruim pensador, não apagará as chammas salutares
que não corrigem os mortos, que pouco emendam os vivos, mas fazem tremer
as freiras nas suas cellas e alegrar os santos no paraiso. Viva o
inferno! Se se elle apagasse, haviamos de accendêl-o com os teus livros.
Queremos o inferno e seus supplicios, embora lá vamos cahir com as
nossas mães e com as creancinhas que riem no collo d'ellas. Sem inferno
não ha fé, nem Egreja, nem religião, nem lei, nem familia, nem
moralidade, não ha nada. Conservemos o inferno! É absurdo? mais um
motivo. _Crédo quia absurdum._ Parece-te isto injusto, incredulo, impio,
perverso que não queres acreditar que Deus creasse tantos entes fracos
para perdel-os sem missão! Imprudente! que ousas escutar a tua
consciencia, quando a tradição falla! Malvado! coração de pedra que não
dás dinheiro ao Papa para lhe redourar a thiara e vais dal-o a pobres e
proscriptos, e estás ahi a lastimar os billiões de creaturas que povoam
o abysmo. Ó sandeu! Ó miseravel! Algum proveito colhes atacando verdades
tão uteis. És como os malfeitores que quebram os lampeões. Se assim
vais, arrasarás os carceres. É bem de vêr, lá tens as tuas razões para
querer destruir o inferno; se fosses de melhor casta havias de crêr
n'elle.