O peccado dos apostolos, n'esta lamentavel historia da Paixão, é, na
essencia, egual ao de Judas, bem que não tanto odioso. Faltou-lhes a
todos a fé; porém, sendo a fé um dom sobrenatural, não devemos arguil-os
desabridamente porque não receberam o dom. O que do seu proceder nos
irrita é deixarem ir até final, sem publico protesto, a obra de Judas; é
que abandonassem o innocente amigo que os outros tinham vendido; é que
não dissessem a Pilato ou Herodes: «Não! este homem não é sedicioso;
quer que se dê a Cezar o que é de Cezar, e a Deus o que é de Deus; paz,
desinteresse, e caridade são a sua doutrinação.» Isto bem o sabiam
elles, e não o disseram, e deviam têl-o dito, sem medo, e não abafarem,
como fizeram, o grito da consciencia. Este é que é o crime dos
apostolos, crime natural, como o de Judas.
Bem se deixa vêr que, se Judas vendeu o seu Deus, não pensava elle que
vendia Deus: vendeu-o sem vêl-o, sem reconhecêl-o divino. O que elle a
sabidas vendeu e quiz vender era um homem, pelo mesmo theor que os
apostolos desampararam e quizeram desamparar um homem, mas o melhor e
mais sabio homem, e o mais carinhoso amigo.
Vender Deus! renegar Deus! É isso crivel quando se crê em Deus? Tal
crime, á força de disparatado, ficaria impune, como acto de sandice!
Judas foi ingrato, ladrão, egoista, traidor doble, fallacioso,
assassino; tudo isso foi e mais ainda; mas o certo é que, no intimo de
seu coração, Judas não se julgava deicida.