III

O peccado dos apostolos, n'esta lamentavel historia da Paixão, é, na

essencia, egual ao de Judas, bem que não tanto odioso. Faltou-lhes a

todos a fé; porém, sendo a fé um dom sobrenatural, não devemos arguil-os

desabridamente porque não receberam o dom. O que do seu proceder nos

irrita é deixarem ir até final, sem publico protesto, a obra de Judas; é

que abandonassem o innocente amigo que os outros tinham vendido; é que

não dissessem a Pilato ou Herodes: «Não! este homem não é sedicioso;

quer que se dê a Cezar o que é de Cezar, e a Deus o que é de Deus; paz,

desinteresse, e caridade são a sua doutrinação.» Isto bem o sabiam

elles, e não o disseram, e deviam têl-o dito, sem medo, e não abafarem,

como fizeram, o grito da consciencia. Este é que é o crime dos

apostolos, crime natural, como o de Judas.

Bem se deixa vêr que, se Judas vendeu o seu Deus, não pensava elle que

vendia Deus: vendeu-o sem vêl-o, sem reconhecêl-o divino. O que elle a

sabidas vendeu e quiz vender era um homem, pelo mesmo theor que os

apostolos desampararam e quizeram desamparar um homem, mas o melhor e

mais sabio homem, e o mais carinhoso amigo.

Vender Deus! renegar Deus! É isso crivel quando se crê em Deus? Tal

crime, á força de disparatado, ficaria impune, como acto de sandice!

Judas foi ingrato, ladrão, egoista, traidor doble, fallacioso,

assassino; tudo isso foi e mais ainda; mas o certo é que, no intimo de

seu coração, Judas não se julgava deicida.

O Inferno · 第 112 / 158 题