Por mais infame que haja sido, Judas não o era tanto que não
comprehendesse a torpeza do seu acto. Tanto a comprehendeu que não se
pôde afazer á sua villania; e, em quanto os apostolos se escondiam, foi
elle--dolorosissimo acto!--confessar sua perfidia no templo, e restituir
o dinheiro aos compradores, dizendo: «Vendi o sangue do innocente.» Mas
ninguem se desata do seu remorso, como de um dinheiro que encrava
espinhos na consciencia; e, na bôcca de um traidor, o testimunho a favor
da innocencia perde muito de sua efficacia. Sentiu-o vivissimamente
Judas quando, apoz confessar-se do crime, os phariseus lhe responderam:
«Que se nos dá d'isso? Lá te avém.» Saíu então do templo, convicto de
que não estava em sua mão sustar as consequencias do seu crime, corrido,
desesperado, indo ao encontro da morte que merecêra, mas que ninguem lhe
dava, para que a sua penitencia fosse maior n'este mundo.
V
Vida de opprobrio e remorsos é expiação. Judas deveria viver. Porque se
matou? Se elle cresse na divindade de Jesus, não se mataria, pois que,
matando-se, ía entregar-se nas mãos d'Aquelle que atraiçoára. Por que
se matou? O suicidio nada remedeia, e tira da contemplação dos homens o
salutar espectaculo d'um criminoso contricto. Procurava elle
anniquilar-se? A anniquilação ser-lhe-hia doce refugio: o nada não é
pena. Ora é certo que ninguem disse que Judas fosse atheu. Se elle
descrêsse de Deus e da vida futura, como explicar-lhe os remorsos? Que é
crime, quando se crê que tudo acaba comnosco? Se não cresse em Deus,
Judas guardaria os trinta dinheiros. Que temia elle? Como cumplices de
seu crime tinha todo Israel, os padres que o corromperam, os senadores,
Pilato, Caiphás, e a côrte de Herodes, e os proprios apostolos que
negaram a victima. Então por que se matou?