Um dos primeiros effeitos da perfidia de Judas foi a defecção dos
apostolos. Em vez de seguirem o Mestre, falsamente accusado de sacrilego
e seductor, dispersaram-se: Thiago, Simão, Thadeu, que elle chamava seus
irmãos, João, o seu amigo dilecto, todos por egual covardes, não
cuidaram senão em salvar-se. «Conheces este homem?» perguntaram a
Pedro.--Não,--diz Pedro, o chefe, o mais corajoso de todos--não o
conheço.--Renegou-o trez vezes; trez vezes mentiu; trez vezes
testemunhou de falso em face dos accusadores: depois, chorou na
escuridão, e calou-se. Todos deixaram injuriar, calumniar, chibatar e
morrer Jesus, sem erguerem brado em sua defeza e duvidando que
fosse Deus, duvidando-lhe da missão, das promessas; bem que, para grande
opprobrio d'elles, certos de sua amisade, pureza de vida, e excellencia
da moral. Para se reanimarem foi preciso o milagre que o pae Abrahão
recusou ao rico avarento; nada menos que resuscitarem os mortos, e que
propriamente Jesus saísse do sepulchro, e que elles o vissem, e
conversassem e comessem em sua companhia, e que Thomé lhe tocasse as
chagas. Desde então é que prégaram com inabalavel fé a divindade de
Jesus.