I
Eu escolheria d'entre os condemnados o mais desprezivel, se no inferno
existisse um miseravel maior do que Judas.
Este vivia na amisade de Jesus; ninguem lhe conhecia mais de perto a
innocencia; e, como elle fosse o particular distribuidor das esmolas
(_João_, c. 13, v. 29), ninguem lhe conhecia melhor a bondade. Não
obstante, vendeu-o; e, depois de o atraiçoar, voltou, ceou com elle, e,
ao escurecer, guiou os soldados que o prenderam; e, como os soldados o
não conhecessem, deu-lhes signal, abraçando-o. Eis aqui o crime
circumstanciado. Premeditação, cubiça, villeza, tem de tudo. Judas vende
o mestre e o amigo, o sabio e o justo. Vende-o sem colera, sem paixão,
por bom dinheiro de contado, como venderia na feira um jumento ou
um boi. Sabe que desejam matal-o; não importa! vende-o. E que será
depois da Mãe de Jesus? e dos doentes que elle curava? e dos ignorantes
que ensinava? Ah! que tem Judas com as lagrimas de mãe e com a
ignorancia e lastimas do povo? Negociou com todas essas dores como
mercadejou com a amisade, com a sabedoria, com a innocencia, com tudo
que ahi ha divinal n'este mundo. Embolsou o preço; e, a fallar verdade,
nem os phariseus nem elle avaliaram cara a mercancia: trinta dinheiros!
dez vezes menos que a libra dos perfumes de Magdalena.