Deus é uno, com infinita variedade de attributos, cuja manifestação lhe
não lesa a unidade. Conhecemol-o n'este mundo por fé unicamente, porque
o não vemos qual é, e não temos d'elle, em nossos corações, senão uma
imagem imperfeita, e, para assim dizer, mutilada. Por tanto, aquelle
sagrado nome exprime o que sabemos realmente, mas tambem o que não
sabemos, e o que saberemos de Deus, no dia derradeiro. Encerra Deus
todas as perfeições, cujo complexo, de que apenas concebemos parte
minima, é o mysterio que adoramos atravez d'um véo, que a morte
levantará, assim para santos como para pecadores.
Sem duvida que os mais obdurados peccadores hão de vêr Deus; e
hão de vêr não sómente alguns attributos seus, mas todos; não hão de vêr
sómente a sua eternidade, por quanto a eternidade está em Deus, mas a
eternidade não é Deus; não hão de vêr sómente a sua justiça e infinita
omnipotencia, por quanto a justiça infinita e omnipotencia são em Deus,
mas não constituem toda a sua essencia; não hão de vêr sómente a sua
justiça, por quanto a justiça está em Deus; mas só ou unida ao poder
eterno a justiça não é Deus: senão seriam tantos os deuses quantos são
os attributos e virtudes distinctas na unidade divina.
Quando os peccadores virem Deus, então hão de vêr quanto ha em Deus, sua
bondade, misericordia e justiça; vel-o-hão a toda a luz, d'um só lance
de olhos, por que tudo o que a nossa lingua separa é inseparavel em
Deus; e, se elle retrahisse dos peccadores um só resplendor de sua face,
ficaria sendo o Deus abscondito que a nossa fé adora, e não o Deus
visivel perante o qual toda a incredulidade se dissipa. Pelo que, ao
mesmo tempo que sua justiça encher de medo as almas, a sua bondade as
consolará mediante a confiança e arrependimento.