SURSUM CORDA

I

Fujamos d'este lamaçal. Lavemos pés, mãos, cabeça e vestidos.

Cauterisemos os beiços com um carvão acceso. Demonios, chammas impuras,

espiritos malfeitores, odios, vinganças, carnificinas, ferozes alegrias,

estupidos terrores, sonhos do homem primitivo adormecido em antro á

ourela de lagôas turbidas, com o estomago regorgitado de carnes

sanguentas, com a mão sobre a clava, e a alma ainda fremente das paixões

do dia; mystagogia antiga; sapiencia idolatra; delirios renovados dos

barbaros orientaes e occidentaes; confuso acervo de subtilezas

methaphysicas e torpes fabulas e aspirações, sublimes e baixos erros,

inferno velho e inferno novo, palacios oscillantes edificados com

ruinas, Naraka, Amenthi, Tartaro e Géhenna, sumi-vos! O tempo

avança; é já dia; a calhandra já cantou, vamos á serra vêr o repontar do

sol. Acima, ainda mais para o alto, subamos ás espigas da montanha, onde

o ar é mais sadio e o horisonte mais amplo. Azas, azas! vamos admirar o

sol que regenera a vida e a fecundidade da terra, e a todo o ser a sua

vera fórma, e aos homens, que desperta do somno fundo, a consciencia de

si mesmos e o sentimento das realidades que o rodeam. Mais ao alto! Mais

ainda! azas, azas, ó minha alma! Voemos até á origem da luz, de que este

pallido sol é apenas sombra!

O Inferno · 第 90 / 158 题