IV

Discurso de um mundano, após bastos estudos ácerca

da perfeição theologica

Em continuo pavor do inferno viveram os santos: orações, jejuns,

cilicios, meditar nas escripturas, vigilias ao pé da cruz, bençãos de

pobres soccorridos por elles, perpetua immolação, indigencia de cella,

ninhos de palha, alimento a pão e agua, nem com tudo isto socegavam.

Viviam como anjos, e temiam. Tremiam guerreiros, padres, doutores,

pontifices--Mauricio á frente da sua legião; Gregorio, o Grande, sob a

tiara; Agostinho, no pulpito; Jeronymo, em suas estudiosas viagens;

Antonio e Pacomio no reconcavo das penedias. Noites alvoroçadas de pavor

passava Thereza no claustro. Nem a innocencia da vida, nem a adoravel

castidade das almas, nem a tunica immaculada, nem as mãos impollutas,

nem o acerbo arrependimento dos penitentes, com o rosto sulcado de

lagrimas, nada, nada lhes aquietava o medo da colera divina.

Redobravam cada dia austeridades e sacrificios, persuadidos de que

não mereciam a misericordia que tão precisa lhes era.

Ah! se a alma só assim se salva, perdidos estamos todos, ó meus amigos!

Bem ouço o theologo que nos diz: Não é assim; a salvação ganha-se com

menores trabalhos. Deus não exige que todos os seus filhos sejam

egualmente perfeitos. Mas ao theologo respondo: Estás perdido como nós,

tu e tambem os teus mestres, e os teus discipulos, estaes perdidos

todos. Os exemplos que nos cumpre seguir são os dos santos, não são os

vossos. Mostrae-nos na Legenda um só santo que subisse ao céo pelo

caminho commodo que descobristes. Debalde hei buscado, com fim de o

imitar, um homem meio santo e meio peccador, servindo Deus e o mundo,

temendo, como eu, a miseria, a dôr, as humilhações, condescendente

comsigo proprio, almejando viver no coração de outra creatura, chorando

sobre as illusões esmaecidas como Pedro sobre o seu peccado. Não

encontrei tal homem. O mais que vi foi milagres de stoicismo, maridos

que deixavam as mulheres, mulheres que deixavam os maridos, filhos que

fugiam ao abrigo dos paes, ricos que todos seus haveres dispendiam,

bispos que fallavam verdade aos reis da terra, á custa da vida até;

ninguem que se contentasse de cumprir no rigor da palavra os preceitos

de Deus e da Egreja; por toda a parte almas ardentes de zelo

super-natural, tendo apenas de humanas os incançaveis escrupulos, os

inquietos terrores; justos sem socego, penitentes sem repouso,

virgens lagrimosas e anachoretas angustiados.

Vós, porém, que vos quereis salvar e salvar-nos com menos custo; vós,

que viveis regalados em quanto o Christo mendiga á vossa porta; vós que

tendes riquezas ao sol e riquezas á sombra, quando na vossa parochia

tantas familias laboriosas carecem do mais urgente; vós, que cubiçaes a

estola, a murça ou mitra; e achaes nas Escripturas louvores para outrem,

além de Deus, oh! quanto differentes sois d'aquelles heroes christãos

cujas imagens campêam nos nossos altares! Sois o que somos: haveis mais

pavor das praticas dos santos que do proprio inferno; espanta-vos e

desespera-vos a perfeição d'elles; a pesar vosso, amaes o que elles

aborreciam, e aborreceis o que elles amavam; as vossas virtudes são

mesmamente humanas, taes quaes as nossas, que não vem do alto, que se

enroscam nos nossos vicios e nos acorrentam ao demonio.

Ai! que perdidos estamos, ó meus amigos! Que lucramos em fechar os

olhos? Estamos todos condemnados! Que monta o desprezo proprio pregoado

pelos labios, se no intimo do coração tendes a propria estima sempre

desvelada? Que aproveitam as momentaneas conversões, seguidas de quedas

mais desastrosas? Que vos fazem certas privações associadas a tanto

regalos? Em verdade vos digo que estamos perdidos!

Ora pois, se assim é, se o abysmo está aberto e o cahir é irremediavel,

cerremos os olhos e não cogitemos mais em tal. Entre o céo inacessivel e

o inferno d'onde não ha mais sahir, resta-nos um momento só: gozemol-o,

ó meus amigos. Que é isto de estar a gente a empeçonhar, com terrores

vãos, prazeres, tão raros quão fugitivos? Não pensemos no que será;

pensar n'isso e desesperar é a mesma coisa: desesperar de entrar no céo,

e desesperar de sahir do inferno. Saboreemos o presente. Vivamos

terrenamente: aqui ha creaturas ridentes que nos alegram, fragrancias

que nos deliciam, e licores que atrophiam a memoria.

Quem é ahi o sandeu que falla em inferno? Não ha inferno, minha mãe!

Conclue em paz os teus dias extremos. Não contristes com visões

pavorosas essas creancinhas que te escutam, e que talvez falleçam antes

de nós. Ride, ó meus filhinhos: a vida vos será breve e repleta de

miserias, quando crescerdes.

Eu desejo, senhora, que a minha casa seja mansão de jubilos e não de

tedios: quero ser amado pelo que sou e não por caridade; quero ser

obedecido amorosamente e não com submissão de escrava; aliás, buscarei

quem me ame, e me corresponda. Engrinalda-te de rosas, minha bella! Não

ha inferno, e o paraizo tem-l'o ahi á mão. Enche-me o copo, e dorme

placidamente nos meus joelhos. Amar! amemo'-nos, até á morte; que da

morte para além começa o odio!

Ah! que bizarra invenção não foi esta do inferno! Um abysmo para onde

naturalmente nos inclinamos, attrahidos, impellidos por quanto ha,

cahidos em fim, e depois, o abysmo... fechado para sempre! Oh! primorosa

perspectiva para que façamos da terra uma estancia de delicias

peccaminosas!

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O Inferno · 第 54 / 158 题