Discurso de um mundano, após bastos estudos ácerca
da perfeição theologica
Em continuo pavor do inferno viveram os santos: orações, jejuns,
cilicios, meditar nas escripturas, vigilias ao pé da cruz, bençãos de
pobres soccorridos por elles, perpetua immolação, indigencia de cella,
ninhos de palha, alimento a pão e agua, nem com tudo isto socegavam.
Viviam como anjos, e temiam. Tremiam guerreiros, padres, doutores,
pontifices--Mauricio á frente da sua legião; Gregorio, o Grande, sob a
tiara; Agostinho, no pulpito; Jeronymo, em suas estudiosas viagens;
Antonio e Pacomio no reconcavo das penedias. Noites alvoroçadas de pavor
passava Thereza no claustro. Nem a innocencia da vida, nem a adoravel
castidade das almas, nem a tunica immaculada, nem as mãos impollutas,
nem o acerbo arrependimento dos penitentes, com o rosto sulcado de
lagrimas, nada, nada lhes aquietava o medo da colera divina.
Redobravam cada dia austeridades e sacrificios, persuadidos de que
não mereciam a misericordia que tão precisa lhes era.
Ah! se a alma só assim se salva, perdidos estamos todos, ó meus amigos!
Bem ouço o theologo que nos diz: Não é assim; a salvação ganha-se com
menores trabalhos. Deus não exige que todos os seus filhos sejam
egualmente perfeitos. Mas ao theologo respondo: Estás perdido como nós,
tu e tambem os teus mestres, e os teus discipulos, estaes perdidos
todos. Os exemplos que nos cumpre seguir são os dos santos, não são os
vossos. Mostrae-nos na Legenda um só santo que subisse ao céo pelo
caminho commodo que descobristes. Debalde hei buscado, com fim de o
imitar, um homem meio santo e meio peccador, servindo Deus e o mundo,
temendo, como eu, a miseria, a dôr, as humilhações, condescendente
comsigo proprio, almejando viver no coração de outra creatura, chorando
sobre as illusões esmaecidas como Pedro sobre o seu peccado. Não
encontrei tal homem. O mais que vi foi milagres de stoicismo, maridos
que deixavam as mulheres, mulheres que deixavam os maridos, filhos que
fugiam ao abrigo dos paes, ricos que todos seus haveres dispendiam,
bispos que fallavam verdade aos reis da terra, á custa da vida até;
ninguem que se contentasse de cumprir no rigor da palavra os preceitos
de Deus e da Egreja; por toda a parte almas ardentes de zelo
super-natural, tendo apenas de humanas os incançaveis escrupulos, os
inquietos terrores; justos sem socego, penitentes sem repouso,
virgens lagrimosas e anachoretas angustiados.
Vós, porém, que vos quereis salvar e salvar-nos com menos custo; vós,
que viveis regalados em quanto o Christo mendiga á vossa porta; vós que
tendes riquezas ao sol e riquezas á sombra, quando na vossa parochia
tantas familias laboriosas carecem do mais urgente; vós, que cubiçaes a
estola, a murça ou mitra; e achaes nas Escripturas louvores para outrem,
além de Deus, oh! quanto differentes sois d'aquelles heroes christãos
cujas imagens campêam nos nossos altares! Sois o que somos: haveis mais
pavor das praticas dos santos que do proprio inferno; espanta-vos e
desespera-vos a perfeição d'elles; a pesar vosso, amaes o que elles
aborreciam, e aborreceis o que elles amavam; as vossas virtudes são
mesmamente humanas, taes quaes as nossas, que não vem do alto, que se
enroscam nos nossos vicios e nos acorrentam ao demonio.
Ai! que perdidos estamos, ó meus amigos! Que lucramos em fechar os
olhos? Estamos todos condemnados! Que monta o desprezo proprio pregoado
pelos labios, se no intimo do coração tendes a propria estima sempre
desvelada? Que aproveitam as momentaneas conversões, seguidas de quedas
mais desastrosas? Que vos fazem certas privações associadas a tanto
regalos? Em verdade vos digo que estamos perdidos!
Ora pois, se assim é, se o abysmo está aberto e o cahir é irremediavel,
cerremos os olhos e não cogitemos mais em tal. Entre o céo inacessivel e
o inferno d'onde não ha mais sahir, resta-nos um momento só: gozemol-o,
ó meus amigos. Que é isto de estar a gente a empeçonhar, com terrores
vãos, prazeres, tão raros quão fugitivos? Não pensemos no que será;
pensar n'isso e desesperar é a mesma coisa: desesperar de entrar no céo,
e desesperar de sahir do inferno. Saboreemos o presente. Vivamos
terrenamente: aqui ha creaturas ridentes que nos alegram, fragrancias
que nos deliciam, e licores que atrophiam a memoria.
Quem é ahi o sandeu que falla em inferno? Não ha inferno, minha mãe!
Conclue em paz os teus dias extremos. Não contristes com visões
pavorosas essas creancinhas que te escutam, e que talvez falleçam antes
de nós. Ride, ó meus filhinhos: a vida vos será breve e repleta de
miserias, quando crescerdes.
Eu desejo, senhora, que a minha casa seja mansão de jubilos e não de
tedios: quero ser amado pelo que sou e não por caridade; quero ser
obedecido amorosamente e não com submissão de escrava; aliás, buscarei
quem me ame, e me corresponda. Engrinalda-te de rosas, minha bella! Não
ha inferno, e o paraizo tem-l'o ahi á mão. Enche-me o copo, e dorme
placidamente nos meus joelhos. Amar! amemo'-nos, até á morte; que da
morte para além começa o odio!
Ah! que bizarra invenção não foi esta do inferno! Um abysmo para onde
naturalmente nos inclinamos, attrahidos, impellidos por quanto ha,
cahidos em fim, e depois, o abysmo... fechado para sempre! Oh! primorosa
perspectiva para que façamos da terra uma estancia de delicias
peccaminosas!
V