Discurso de uma mulher de sociedade que havia tocado
a perfectibilidade theologica
De que serve amar-se a gente n'este mundo? Acaso nascemos uns para os
outros?
Somos apenas companheiros de viagem que uma eventualidade ajuntou por
momentos, mas que breve se hão de apartar, e talvez para sempre.
Prestemo-nos de passagem alguns serviços, mas por amor de Deus, sem nos
ligarmos reciprocamente. Por que ha de a gente amar-se? Vós que me
ouvis, sabeis quem sou? E eu que vos fallo sei quem vós sois? Tendes um
ar angelical, ó meu irmão, mas o interior de vossa alma não o vejo; o
semblante do homem é enganador; a sua lingua é atraiçoada, as suas
proprias virtudes são perfidas.
N'este mundo é tudo armadilha e mentira. Que demencia o amar, quando,
com certeza, ninguem póde fiar-se d'outrem! Que injustiça querer um que
o amem, quando nem a si mesmo se conhece alguem, e a cada hora se
altera o genio, e ninguem póde fiar mais da duração de seus sentimentos
que da duração de sua vida! Viajamos mascarados, só conhecidos de Deus,
mas tão occultos a nós mesmos quanto aos outros. A que propendemos? Mal
o sabemos, tão fluctuante é a nossa razão. Se melhor nos conhecessemos,
a maior parte de nós se mutuaria rancores; em vez, porém, de se odiarem,
os homens se entre-buscam no seio das trevas, attrahidos pelo mysterio
que os innubla, e que devêra, se elles fossem discretos, afugental-os
uns dos outros.
Ah! não nos amemos, não nos amemos! Ai d'aquelle que dá seus amores á
creatura! Ai dos que se amam sobre a terra! É sombra que abraça a
sombra, é o nada que se une ao nada. Amavel é só o bem: o restante é
detestavel. Meu pai, honro-te e sirvo-te, por que vai n'isso um dever
meu, e porque podes ser, sem que eu o saiba, um santo; amar-te, porém,
não posso, porque, se n'este instante morresses, ninguem me certificaria
de que Deus te perdoára. Eu devo amar em ti, sómente o bem occulto que
ahi póde estar, e o amo em ti como nas outras creaturas, sem predilecção
por alguma; porque esse bem occulto não provém d'ellas; e, se em ti
existe--o que eu não sei, mas muito desejo--não procede de ti. Não te
julgo, meu pai. Se eu escutasse o sangue, creio que te amaria até
culpado, unicamente porque és meu pai, e eu me lembro de ter dormido em
teus braços. Mas estes momentos da natureza corrompida já eu
venci. Nada me és. Tracto da minha salvação servindo-te e
honorificando-te; mas amar-te seria perder-me, por que amar o homem em
si mesmo é amar o peccado. Na outra vida não ha maridos, nem esposas,
nem paes, nem filhos, nem familia. Pais e filhos, mães e filhas, irmãos
e irmãs serão separados no dia do juizo, desatados todos os vinculos.
Não amemos ninguem, ninguem! Já póde ser que o inferno se esteja
escancarando para aquelle que amarmos, e quem sabe se nós não cahiremos
lá tambem empurrados pelo nosso amor? Nada de sentimentos cegos; nada de
sentimentos corruptores. A ternura do homem é um disfarce de odio; e
mais valera que elle nos odiasse francamente. Não amemos ninguem!
ninguem! Póde ser que por ao pé de nós andem condemnados, cujos nomes
ignoramos. Não amemos alguem, que nos não vá sahir algum reprobo.
Sou tua serva, ó meu esposo; servir-te-hei, obedecer-te-hei; e para te
agradar o dever me forçará a cumprir o que me pedires do coração, que
não é teu.
São doentes os nossos filhos? Por que te assustas? São hospedes que te
foram confiados, e que tu deves esperar vêr irem-se ao primeiro aceno de
quem t'os mandou. Eu que os trouxe no seio e os criei, vel-os-hei ir,
sem lagrimas. Quem sabe onde irão quando nos deixarem? Cumpria que lhes
vissemos o fundo d'alma para os amarmos. Praza a Deus que elles morram
na sua divina graça! É o meu mais ardente voto; e, se mais além eu
fosse, a minha ternura seria fraqueza. Se elles vão ao céo, hei de
eu chorar-lhe tamanha dita! E se são condemnados.... Não amemos ninguem,
ninguem, nem os nossos filhos sequer! Familia temos só uma: é Deus com
os seus anjos, e confessores e santos. Tudo mais não merece uma lagrima
nem um sorriso. Roguemos, por tanto, uns pelos outros, filhos do
peccado, mas nada de nos amarmos.