III

Discurso de uma mulher de sociedade que havia tocado

a perfectibilidade theologica

De que serve amar-se a gente n'este mundo? Acaso nascemos uns para os

outros?

Somos apenas companheiros de viagem que uma eventualidade ajuntou por

momentos, mas que breve se hão de apartar, e talvez para sempre.

Prestemo-nos de passagem alguns serviços, mas por amor de Deus, sem nos

ligarmos reciprocamente. Por que ha de a gente amar-se? Vós que me

ouvis, sabeis quem sou? E eu que vos fallo sei quem vós sois? Tendes um

ar angelical, ó meu irmão, mas o interior de vossa alma não o vejo; o

semblante do homem é enganador; a sua lingua é atraiçoada, as suas

proprias virtudes são perfidas.

N'este mundo é tudo armadilha e mentira. Que demencia o amar, quando,

com certeza, ninguem póde fiar-se d'outrem! Que injustiça querer um que

o amem, quando nem a si mesmo se conhece alguem, e a cada hora se

altera o genio, e ninguem póde fiar mais da duração de seus sentimentos

que da duração de sua vida! Viajamos mascarados, só conhecidos de Deus,

mas tão occultos a nós mesmos quanto aos outros. A que propendemos? Mal

o sabemos, tão fluctuante é a nossa razão. Se melhor nos conhecessemos,

a maior parte de nós se mutuaria rancores; em vez, porém, de se odiarem,

os homens se entre-buscam no seio das trevas, attrahidos pelo mysterio

que os innubla, e que devêra, se elles fossem discretos, afugental-os

uns dos outros.

Ah! não nos amemos, não nos amemos! Ai d'aquelle que dá seus amores á

creatura! Ai dos que se amam sobre a terra! É sombra que abraça a

sombra, é o nada que se une ao nada. Amavel é só o bem: o restante é

detestavel. Meu pai, honro-te e sirvo-te, por que vai n'isso um dever

meu, e porque podes ser, sem que eu o saiba, um santo; amar-te, porém,

não posso, porque, se n'este instante morresses, ninguem me certificaria

de que Deus te perdoára. Eu devo amar em ti, sómente o bem occulto que

ahi póde estar, e o amo em ti como nas outras creaturas, sem predilecção

por alguma; porque esse bem occulto não provém d'ellas; e, se em ti

existe--o que eu não sei, mas muito desejo--não procede de ti. Não te

julgo, meu pai. Se eu escutasse o sangue, creio que te amaria até

culpado, unicamente porque és meu pai, e eu me lembro de ter dormido em

teus braços. Mas estes momentos da natureza corrompida já eu

venci. Nada me és. Tracto da minha salvação servindo-te e

honorificando-te; mas amar-te seria perder-me, por que amar o homem em

si mesmo é amar o peccado. Na outra vida não ha maridos, nem esposas,

nem paes, nem filhos, nem familia. Pais e filhos, mães e filhas, irmãos

e irmãs serão separados no dia do juizo, desatados todos os vinculos.

Não amemos ninguem, ninguem! Já póde ser que o inferno se esteja

escancarando para aquelle que amarmos, e quem sabe se nós não cahiremos

lá tambem empurrados pelo nosso amor? Nada de sentimentos cegos; nada de

sentimentos corruptores. A ternura do homem é um disfarce de odio; e

mais valera que elle nos odiasse francamente. Não amemos ninguem!

ninguem! Póde ser que por ao pé de nós andem condemnados, cujos nomes

ignoramos. Não amemos alguem, que nos não vá sahir algum reprobo.

Sou tua serva, ó meu esposo; servir-te-hei, obedecer-te-hei; e para te

agradar o dever me forçará a cumprir o que me pedires do coração, que

não é teu.

São doentes os nossos filhos? Por que te assustas? São hospedes que te

foram confiados, e que tu deves esperar vêr irem-se ao primeiro aceno de

quem t'os mandou. Eu que os trouxe no seio e os criei, vel-os-hei ir,

sem lagrimas. Quem sabe onde irão quando nos deixarem? Cumpria que lhes

vissemos o fundo d'alma para os amarmos. Praza a Deus que elles morram

na sua divina graça! É o meu mais ardente voto; e, se mais além eu

fosse, a minha ternura seria fraqueza. Se elles vão ao céo, hei de

eu chorar-lhe tamanha dita! E se são condemnados.... Não amemos ninguem,

ninguem, nem os nossos filhos sequer! Familia temos só uma: é Deus com

os seus anjos, e confessores e santos. Tudo mais não merece uma lagrima

nem um sorriso. Roguemos, por tanto, uns pelos outros, filhos do

peccado, mas nada de nos amarmos.

O Inferno · 第 53 / 158 题