A carmelita ou o ideal da perfeição theologica.
Comvosco admiro as religiosas que, sob diversos nomes e com diversos
habitos, assistem ao genero humano, tanto com suas orações, com o seu
trabalho quotidiano, com toda a celeridade de seus pés, com toda a
agilidade de suas mãos, como com todas as forças de seu ser. Credes que
não é possivel seguir mais do que ellas os divinos vestigios do
Salvador. Ah! quanto vos enganaes! Quanto são baixas e eivadas de
heresia as vossas idêas! A perfeição não consiste na vida activa e
benefica das irmãs da caridade; onde ella está, segundo o ensinamento
dos theologos, é na vida contemplativa.
Se procuraes, senhora, o modêlo para vós e vossos filhos,
encontral-o-eis na carmelita, com preferencia á irmã da caridade.
Aquella morreu para o mundo, jaz no seu cubiculo como em um tumulo. Vá
quem quizer agasalhar orphãos, ensinar ignorantes, restaurar peccadores,
curar doentes, ensinar officios a servos, dar voz a mudos. Affronte quem
quizer o contagio de nossos vicios! Quem quizer que cure a nossa lepra!
Esses cuidados vulgares não os quer a carmelita para si. Aos pés do
altar, com os braços levantados ao Senhor, é o seu posto. Não se bulirá
d'alli, ainda que todo o paiz arda ensanguentado. Não lhe digaes: vosso
irmão está a morrer; vossos sobrinhos vos estão chamando. Não lhe
digaes: arde a peste na cidade; á vossa porta está a maca. Ha muito que
ella concebeu tedio do mundo; não lhes leveis novas d'elle, que
perturbarieis o seu socego. Quanto menos ella se inquieta d'essas
transitorias miserias, mais os theologos a admiram. N'isso
mesmo,--crêl-o-eis?--é que está, segundo elles, a sua superioridade
sobre a irmã da caridade, cujo coração virginal arfa como coração de mãe
ao grito da criancinha[4].
A carmelita não pensa, nem tem que pensar senão em sua propria salvação,
e tal pensar é um manancial das commoções que unicamente lhe são
permittidas. Bem que ella viva dez, vinte, cincoenta annos sob o
veo, fará todos os dias, á mesma hora e da mesma maneira, a mesma coisa
sem poder por seu arbitrio alterar-lhe o minimo. São-lhe pautados os
movimentos, e contados os passos. Em todo o curso de sua vida não ha a
menor surpreza, o minimo abalo, o imprevisto, a menor liberdade, ou
elevação espontanea das faculdades moraes. Estão definidas e immutaveis
as suas relações com todas as coisas animadas ou inanimadas que a
cercam: não se afeiçoa, não escolhe, não se decide. É-lhe prohibido
ganhar affecto a coisas e a pessoas. A abelha é mais livre do que ella
em sua colmeia, e menos inflexivel que as regras monasticas é o
instincto que a dirige. Uma communidade de freiras parece-se a um povo
de automatos e não a um enxame de seres viventes. E essa é que é a
condição pela qual a harmonia subsiste. N'estas sociedades contra
natureza, é prudente que a natureza seja algemada; pois, se lhe dessem
folga, ella se revoltaria; e por tanto é forçoso esmagar a liberdade
como cautela para que a licença não vingue. É pois a carmelita em todos
os seus actos mera machina. Tem alma para obedecer e trabalhar na sua
interior perfeição, destruindo em si, cada vez mais, vontades, desejos,
e individualidade até ás raizes. Onde está a lucta está a vida. N'esse
immutavel centro, solitario e silencioso, onde se caminha sem mudar de
piso, passa a adolescencia sem curiosidade, e a velhice sem experiencia
nem memoria. Ahi nada se renova; o dia que chega nada promette; o dia
que finda nada deixa; é a vida um livro, cujas paginas em vão se
folhêam: sobre essas paginas brancas ha uma só phrase, do começo ao fim,
sempre a mesma: «pensa em ti, pensa na eternidade.»
Ahi vem agora com que espancar o tedio do mosteiro. Á mingoa de grandes
e formidaveis combates do lar domestico e da sociedade, isto é, da vida
real qual Deus a fez, a ociosa carmelita pugna heroicamente contra sua
razão, contra seus sentidos, imaginação, e faculdades inactivas. Crê
resistir ao diabo, resistindo á necessidade de operar, de amar, de
saber, e ser util: estafa em puerilidades a sua virtude. Se durante o
officio, uma mosca lhe pousa no nariz, é um caso, é uma provação. Se
está distrahida, assalteam-na remorsos; se impaciente, vai confessar-se
d'isso. Uma pulga é outro inimigo terrivel, outra occasião de grande
queda ou de grande victoria! Um alfinete mal pregado, um vêo
descomposto, uma lembrança, um gemido, um pensamento clandestino, o
rastilho d'um rato atraz do armario, um _Ave_ esquecido, ó cathastrophe! ó
remorso! ruina de Sião! prantos de Job! brados de Rachel! transportes de
Jeremias! Qualquer bagatella a alvoroça como materia de peccado mortal;
qualquer futilidade lhe avulta com proporções monstruosas; pesa grãos de
areia, e mede os atomos.
Pois se ella conseguiu esquecer sua familia, seu paiz e o mundo, não a
cuideis completamente impassivel como se vos figura: o que ella fez foi
concentrar em si e para si o amor e piedade que nega aos outros.
Idolatra-se, não ao modo dos sybaritas, mas por um theor que, posto não
seja sensual, não é menos egoista: absorve-se em contemplação de sua
alma; no proprio coração preenche o vacuo de familia e de amigos, e de
quantas creaturas de lá expulsou. Contempla-se sósinha, entre o inferno
e o céo, a tremer perante um tal espectaculo, e sempre fluctuando entre
estes abysmos, ora nas alturas, ora nas profundezas, passa de um delirio
a outro, e das palpitações do terror ao extase dos seraphins.
Eu por mim não sei se Deus sorri a taes futilidades, a tal vida que não
é viver, e a tal morte que não é morrer; mas os theologos affirmam que é
n'isto que a perfeição consiste.
E forçoso é concordar que elles tem razão, se ha inferno. Se ha inferno,
a irmã da caridade é imprudente, e nós, os admiradores d'ella, somos
sandeus. O sequestro mais rigoroso é a consequencia legitima, natural,
necessaria e fatal d'este dogma selvagem. O alicerce, a porta e o tecto
do mosteiro é aquelle dogma, que desata as sociedades naturaes e
viventes avinculadas pelo amor; é elle o occulto liame d'aquellas
sociedades de automatos que não permaneceriam um dia, nem hora, nem
momento, se tal dogma fosse proscripto. Sem inferno, a vida claustral
não se percebe; com inferno, não ha imaginal-a mais a ponto, e é
obrigatorio confessar que, de feito, a perfeição está n'ella, visto que
a razão está com ella.
Não obstante, filhos do seculo, não renuncieis afogadilho de
seculo, que vol-o prohibem os theologos.
Ficai entre peccadores, no foco das tentações, dos escandalos, dos
erros, e das ciladas que vos tramam. Razoavel coisa seria fugir para o
porto seguro que vos offerecem; mas não vades; continuae a navegar entre
restingas, á mercê dos tufões, aos clarões dos relampagos. O convento
não vos quadra; porque não foi feito para muitos.
Entendo, direis, que o convento se abriu para os entes mais debeis, para
os incapazes não só de ajudar a outrem, mas tambem da mesma mente se
salvarem, sem se arriscarem ás tempestades. Faz-se mister ás almas
frageis e justamente timidas o estreito cenobio do claustro, a protecção
das gradarias, a escravidão, as regras, o véo sobre os olhos, a mordaça
nos labios; sem o que se perderiam. Em quanto os valentes combatem, vão
ellas esconder-se longe do inimigo.
No seu caminho se arrastam gemebundos alguns fugitivos, fallidos de
animo, cahidos por terra, feridos de suas proprias armas, e quem sabe se
alguns heroes alanciados no coração! Entendo, direis, que o claustro é o
refugio dos pusillanimes, o porto dos naufragados, o hospital dos
infermos, e aqui se mostra a apparente razão porque nem toda a gente lá
póde entrar.
Está enganado o duro leitor, que nada percebe dos mysterios theologicos.
Saiba pois que o claustro é o asylo dos fortes; e que só lá são
recebidos os athletas a primor, mais puros e intrepidos, a flôr da
juventude christã. Não soffre a menor duvida que é mil vezes mais de
perigo a sociedade onde os soccorros são muito menos do que os retiros
abençoados. Que nos faz isso! De logar abrigado e onde a graça
superabunda é que os poucos são repulsos, com quanto, ao primeiro
intuito, nos pareça creado para elles; ao mesmo tempo que do baluarte
das luctas angustiosas se retiram os fortes, com quanto pareça tambem
este o seu logar proprio.
Os coxos, os cegos e os inermes são postos na liça sanguinosa; os mais
aguerridos soldados enclaustram-se. Espantem-se e riam-se, que a coisa é
assim; e, senão, perguntem-no á Sorbonna.
E assim é preciso que seja, pois que a perfeita vida é a claustral, que,
no entender dos theologos, vem a ser a mais avêssa ás inclinações de
nossa natureza viciosa, e, por conseguinte, a de mais difficil
observancia; mas, porque é impraticavel na sociedade, não se lhe
dispensa de ser exemplo á sociedade; e, sem presumpções de lá chegar,
devemos propender para ella continuamente, visto que estamos tanto mais
á beira do inferno quanto longe d'aquella vida perfeita.
Que se hade fazer, pois? Eis o problema. Cada qual tem no mosteiro um
trilho feito, e o futuro certo, portanto está quite de cuidados que fóra
d'ahi seguem a pobreza, o trabalho, e até a riqueza, além das
responsabilidades que a toda a hora pendem dos actos de uma vontade
livre, n'um viver sempre fluctuante.
No mosteiro é tudo exemplos edificantes; e, posto que seja defezo ahi
grangear um amigo, em compensação não se adquirem inimigos.
Nem impeços, nem disputas, nem conflictos, males que a liberdade produz,
sendo que a servidão lhes esmaga os embriões. No exterior é tudo
recolhimento, paz, ordem, silencio, e esforço; perturbações, se as ha
lá, vem do intimo e do recondito do nosso ser. O unico inimigo que ahi
ha que recear é o diabo, tal invisivel e impalpavel adversario que todos
trazem comsigo, fracos e fortes, mundanos e frades; porém tal inimigo
perde no claustro boa parte das suas prerogativas; porque alli não está
elle como em sua casa, e no seu reino: são-lhe menos os ministros, os
vassallos, e os recursos. O recluso, afóra a pessoal energia de que é
dotado e lhe assignala a vocação, topa ahi de todos os lados conselhos e
amparos; e como quer que tenha em frente aquelle unico inimigo,
soccorre-se de mil auxilios, que faltam ao homem do seculo, e, máo grado
a sua fraqueza original, vence-os. Que fazemos pois n'este misero mundo
em que a infermidade nos algema? Ha aqui o rir, o chorar, o renhir, o
disputar, o abraçar-mo-nos, o odiarmo-nos, perseguirmo-nos, e o
aniquillar-se o homem contra homem: é uma reluctancia sem fim, e sem
regra, um retinir de espadas, um estrondear de martellos, de carros, de
machinas, de cantares, de gemidos, um cháos, uma desordem, da qual a
clausura não poderia dar-nos sombra de idêa. Aqui, são mil os objectos
em que a alma anda repartida; as diminutas forças que temos
dispersam-se. Acolá o inimigo identificado comnosco, traz escolta de
auxiliares, e a lucta interna de que ninguem se izempta, complica-se com
as luctas externas e inevitaveis. Cada homem tem de bater-se com uma
legião. Quantos cuidados! Quantos deveres! Quantas incertezas e
anciedades! Quantas encruzilhadas sem nome, sem pharol, sem sahida! Que
poeiras, e que sombras!
Considerae aquella mãe de familia a quem encareceis as virtudes da
carmelita.
É pobre, todos os seus parentes são pobres, os filhinhos rotos,
famintos, quasi sempre doentes, o marido alquebrado do trabalho, ou que,
desanimando, se envileceu e a espanca, um patrão, um proprietario,
credores, mestres, amos, amigos, e que amigos! conselheiros, mas
conselheiros de Job! Se tal mãe é rica, tem uma casa que reger, creados
a dirigir, os quaes nem fizeram voto de pobreza, nem de obediencia;
filhos a educar, sagrados interesses que defender, relações que receber,
um marido a contentar, quer seja honrado ou não, quer seja piedoso ou
impio. Com vontade ou sem ella está continuamente a braços com as
paixões alheias, com caprichos, interesses, vontades e affectos
contrarios; de continuo em face de circumstancias imprevistas, casos
litigiosos e incertos, onde lhe é forçoso resolver-se quando qualquer
resolução é perigosa, não o sendo menos os perigos, se se absteem. É
preciso que ella, se quer salvar-se, seja a um tempo economica e
caritativa; communicativa, mas discreta; umas vezes branda, e outras
inflexivel; expedita, mas reflexiva; previdente, mas conformada a todos
os sobresaltos da fortuna; que viva ao mesmo tempo em si, e nos outros,
para si, e para todos: missão indefinivel, cheia de contrastes, de
atravancos, de cruzes, mais ardua e mais difficil que a missão da
freira.
Digam embora que esta mãe de familia tem na sua miseria satisfações,
tranquillidade e jubilos que não goza a carmelita: depende isso de saber
se os jubilos de que fallam são comparaveis ás dôres que a freira
ignora. De mais, esqueceis que esses prazeres são um engodo e que se
prendem n'elle sem o conhecer, e se prendem tambem quando o conhecem. A
saciedade, o desgosto, e o cansaço são as naturaes barreiras da
voluptuosidade. Chegará até ahi a mulher christã? Não o permitta Deus.
Até onde irá? É ponto mathematico que separa o peccado do prazer licito;
e, quando o limite se procura, onde fica elle já? Raras vezes estamos a
sós com a serpente como Eva no Eden, e a freira na cella. Á mesa e em
toda a parte ha quem vos distraia, seduza e arraste; bebemos sem sêde;
está a bocca repleta, mas os olhos famintos; o gozo que satisfaz a
precisão aguilhôa o desejo. Quem houver de parar a tempo na ladeira onde
o aventurarmo-nos é permittido, ha de ter mil vezes mais vigilancia,
cuidado e poder sobre si, do que lhe seria preciso para lá não pôr o pé.
Conceder alguma coisa á natureza é contiçar o fogo que quizeramos
extinguir; é alimentar o leão que desejaramos estrangular. Das
delicias menos carnaes, toucador, conversação, emprego de teres e do
tempo, é ainda mais desconhecido o limite, maior a liberdade, e mais
temivel a responsabilidade.
Não me fallem de umas satisfações mentirosas que o terror empeçonha
quando se pensa n'ellas, e que o inferno corôa, quando se não pensa no
inferno. Por certo que é duro, mas o mais prudente é regeital-as. A
abstenção é uma lei simples, clara, e breve: é bastante que haja coragem
para a praticar sobretudo nos votos conventuaes. A freira, com o andar
do tempo, afaz-se á lucta; curva-se ao jugo; os sentidos privados de
excitações amortecem, até que, por fim, a coragem se torna tão inutil
quanto lhe foi em todo o tempo inutil o espirito de proceder. Mas, se a
lucta intima se prolongasse, a freira para evitar os desvios e as
fugitivas rebeldias do corpo e da vontade, careceria de ter até ao seu
derradeiro suspiro o inferno diante dos olhos, o cilicio na cintura, e o
terror na alma. Assim é, mas que importa? Comparado aos soffrimentos de
uma mãe, o que é o cilicio de uma virgem? Quem ousará comparar essas
duas existencias? Comparar receios pessoaes com receios generosos?
Combates sem testemunhas a combates exemplares? Trabalhos infructiferos
a fecundos suores? E fallando sisudamente, e na melhor fé, se uma
d'essas duas pessoas devesse copiar a outra, não é de certo a mãe que
deveria servir de modelo? A irmã da caridade não é já de si mãe? E
a esposa de José que trouxe em seu seio, e nutriu com seu leite o Filho
do Homem, e ao pé da cruz lhe recebeu o ultimo alento, não foi ella, em
sua amargura, a mãe adoptiva de João, o amigo d'Aquelle por quem
chorava?
Que jactancia é essa então d'um desprendimento de affectos e vontades?
Para que querem insinuar em nossos lares taes inquietações, terrores e
escrupulos, unicas occupações do claustro? E para que é, em nome do ceo,
sobrecarregar de jejuns e abstinencias a jornaleira, a camponeza, a mãe,
que já vacillam sob o fardo do padecer e trabalhar?
Vê-se que theologia e bom siso são coisas infelizmente contradictorias.
Vê-se que seria preciso abolir o inferno para que depois viesse a
renuncia das macerações, terrores e falso ideal que um claro
entendimento reprova.
Mas porque não se apaga o inferno? Extincto elle, brilharia o purgatorio
com luz mais viva e salutar. O inferno é que faz odiosa a liberdade,
rebaixando-a e vilecendo-a; o purgatorio volve-a estimavel,
realçando-lhe bellezas, dignidade e grandeza, sem lhe dissimular os
perigos e as penas. Quem crê no castigo eterno, enterra o talento para
que o Senhor lhe não toque. Quem melhor conhece o Senhor e sua justiça
faz render cinco talentos em casa do banqueiro, arriscando-se a
perdel-os. O purgatorio actualmente de que vos serve? Dizem que a pobre
carmelita se abalança a lá arder milhares de annos, por causa de
algum secreto estremecimento do seu corpo que ella tanto
disciplinou; por causa do captivo espirito que tão enfreado trazia, ou,
emfim, á conta do coração generoso, cujas pulsações tantas vezes
abafára.
O purgatorio deve aterrar principalmente a freira e os que vivem como
ella; ora os mundanos não tem razão de se affligirem, antes devem
consolar-se, pensando n'aquelle logar de supplicio. A nós, filhos do
seculo, não nos é racionalmente permittido aspirar áquella dolorosa
felicidade, que é castigo dos sanctos e o seu primeiro galardão ao mesmo
tempo. Em vez, porém, de o desejar, e desejar em vão, como nós o
temeriamos, se elle fosse a unica estancia em que se cumprisse a justiça
de Deus! Que mudança se faria em tudo d'este mundo! A perfeição e a
salvação não estaria na ociosidade em joelhos, no terror em oração, no
fugir ao proximo, no entregarmo-nos a algumas privações e dôres
corporaes, arbitrariamente substituidas ás dôres e sacrificios de uma
vida proveitosa. Então se entenderia que ha dous modos de abusar de
nossas faculdades, uma que está no desprezo d'ellas, com receio de as
usar inconvenientemente; outra que consiste em nos servirmos d'ellas
indiscretamente e ao avesso das intenções da Providencia que nol-as deu.
A doutrina do Evangelho não é doutrina de abstenção; é doutrina de
acção: causa porque o purgatorio lhe quadra melhor que o Evangelho.
Carecemos menos de frades que de christãos. Se o inferno refreia o mal,
tambem impede o bem. A ameaça seria salutar; mas ella faz mais que
ameaçar, empedra como a cabeça de Meduza quem a encara a fito. Tende a
supprir com uma especie de passibilidade estupida a livre e intelligente
actividade da alma. Não derime o egoismo, exalta-o a mais não poder, e
tal exaltação devidamente localisada no deserto, n'uma gruta, no
claustro, é medonha de vêr-se no seio das familias.
[4] Elles comparam as irmãs da caridade áquella mulher de Bethania
chamada Martha, a qual, vendo entrar Jesus em sua casa, se deu
pressa em lhe servir a ceia; e comparam a carmelita á Magdalena que,
em vez de ajudar Martha nas suas diligencias, lavava e perfumava os
pés do divino hospede, enxugando-os com os seus cabellos. Diz porém
o Evangelho que Jesus estava á meza quando Magdalena lhe abraçou e
ungiu de lagrimas os pés. Não ha palavra na relação dos apostolos,
d'onde possamos colher que é melhor orar pelos famintos do que
alimental-os. O contrario é que lá se diz; e quando Jesus nos faz
assistir de antemão ao julgamento do dia final, exclama: tive fome,
e vós me alimentastes; tive frio, e me vestistes. A scena de
Bethania, e o louvor dado a Magdalena, não desluz o claro ensino do
Evangelho. Este episodio prova sómente que não basta alimentar os
pobres, mas que tambem é mister instruil-os como filhos de Deus, os
melhores amigos de Jesus, e sua visivel imagem na terra: o que
rigorosamente fazem as irmãs da caridade, e não fazem as
contemplativas.