II

A carmelita ou o ideal da perfeição theologica.

Comvosco admiro as religiosas que, sob diversos nomes e com diversos

habitos, assistem ao genero humano, tanto com suas orações, com o seu

trabalho quotidiano, com toda a celeridade de seus pés, com toda a

agilidade de suas mãos, como com todas as forças de seu ser. Credes que

não é possivel seguir mais do que ellas os divinos vestigios do

Salvador. Ah! quanto vos enganaes! Quanto são baixas e eivadas de

heresia as vossas idêas! A perfeição não consiste na vida activa e

benefica das irmãs da caridade; onde ella está, segundo o ensinamento

dos theologos, é na vida contemplativa.

Se procuraes, senhora, o modêlo para vós e vossos filhos,

encontral-o-eis na carmelita, com preferencia á irmã da caridade.

Aquella morreu para o mundo, jaz no seu cubiculo como em um tumulo. Vá

quem quizer agasalhar orphãos, ensinar ignorantes, restaurar peccadores,

curar doentes, ensinar officios a servos, dar voz a mudos. Affronte quem

quizer o contagio de nossos vicios! Quem quizer que cure a nossa lepra!

Esses cuidados vulgares não os quer a carmelita para si. Aos pés do

altar, com os braços levantados ao Senhor, é o seu posto. Não se bulirá

d'alli, ainda que todo o paiz arda ensanguentado. Não lhe digaes: vosso

irmão está a morrer; vossos sobrinhos vos estão chamando. Não lhe

digaes: arde a peste na cidade; á vossa porta está a maca. Ha muito que

ella concebeu tedio do mundo; não lhes leveis novas d'elle, que

perturbarieis o seu socego. Quanto menos ella se inquieta d'essas

transitorias miserias, mais os theologos a admiram. N'isso

mesmo,--crêl-o-eis?--é que está, segundo elles, a sua superioridade

sobre a irmã da caridade, cujo coração virginal arfa como coração de mãe

ao grito da criancinha[4].

A carmelita não pensa, nem tem que pensar senão em sua propria salvação,

e tal pensar é um manancial das commoções que unicamente lhe são

permittidas. Bem que ella viva dez, vinte, cincoenta annos sob o

veo, fará todos os dias, á mesma hora e da mesma maneira, a mesma coisa

sem poder por seu arbitrio alterar-lhe o minimo. São-lhe pautados os

movimentos, e contados os passos. Em todo o curso de sua vida não ha a

menor surpreza, o minimo abalo, o imprevisto, a menor liberdade, ou

elevação espontanea das faculdades moraes. Estão definidas e immutaveis

as suas relações com todas as coisas animadas ou inanimadas que a

cercam: não se afeiçoa, não escolhe, não se decide. É-lhe prohibido

ganhar affecto a coisas e a pessoas. A abelha é mais livre do que ella

em sua colmeia, e menos inflexivel que as regras monasticas é o

instincto que a dirige. Uma communidade de freiras parece-se a um povo

de automatos e não a um enxame de seres viventes. E essa é que é a

condição pela qual a harmonia subsiste. N'estas sociedades contra

natureza, é prudente que a natureza seja algemada; pois, se lhe dessem

folga, ella se revoltaria; e por tanto é forçoso esmagar a liberdade

como cautela para que a licença não vingue. É pois a carmelita em todos

os seus actos mera machina. Tem alma para obedecer e trabalhar na sua

interior perfeição, destruindo em si, cada vez mais, vontades, desejos,

e individualidade até ás raizes. Onde está a lucta está a vida. N'esse

immutavel centro, solitario e silencioso, onde se caminha sem mudar de

piso, passa a adolescencia sem curiosidade, e a velhice sem experiencia

nem memoria. Ahi nada se renova; o dia que chega nada promette; o dia

que finda nada deixa; é a vida um livro, cujas paginas em vão se

folhêam: sobre essas paginas brancas ha uma só phrase, do começo ao fim,

sempre a mesma: «pensa em ti, pensa na eternidade.»

Ahi vem agora com que espancar o tedio do mosteiro. Á mingoa de grandes

e formidaveis combates do lar domestico e da sociedade, isto é, da vida

real qual Deus a fez, a ociosa carmelita pugna heroicamente contra sua

razão, contra seus sentidos, imaginação, e faculdades inactivas. Crê

resistir ao diabo, resistindo á necessidade de operar, de amar, de

saber, e ser util: estafa em puerilidades a sua virtude. Se durante o

officio, uma mosca lhe pousa no nariz, é um caso, é uma provação. Se

está distrahida, assalteam-na remorsos; se impaciente, vai confessar-se

d'isso. Uma pulga é outro inimigo terrivel, outra occasião de grande

queda ou de grande victoria! Um alfinete mal pregado, um vêo

descomposto, uma lembrança, um gemido, um pensamento clandestino, o

rastilho d'um rato atraz do armario, um _Ave_ esquecido, ó cathastrophe! ó

remorso! ruina de Sião! prantos de Job! brados de Rachel! transportes de

Jeremias! Qualquer bagatella a alvoroça como materia de peccado mortal;

qualquer futilidade lhe avulta com proporções monstruosas; pesa grãos de

areia, e mede os atomos.

Pois se ella conseguiu esquecer sua familia, seu paiz e o mundo, não a

cuideis completamente impassivel como se vos figura: o que ella fez foi

concentrar em si e para si o amor e piedade que nega aos outros.

Idolatra-se, não ao modo dos sybaritas, mas por um theor que, posto não

seja sensual, não é menos egoista: absorve-se em contemplação de sua

alma; no proprio coração preenche o vacuo de familia e de amigos, e de

quantas creaturas de lá expulsou. Contempla-se sósinha, entre o inferno

e o céo, a tremer perante um tal espectaculo, e sempre fluctuando entre

estes abysmos, ora nas alturas, ora nas profundezas, passa de um delirio

a outro, e das palpitações do terror ao extase dos seraphins.

Eu por mim não sei se Deus sorri a taes futilidades, a tal vida que não

é viver, e a tal morte que não é morrer; mas os theologos affirmam que é

n'isto que a perfeição consiste.

E forçoso é concordar que elles tem razão, se ha inferno. Se ha inferno,

a irmã da caridade é imprudente, e nós, os admiradores d'ella, somos

sandeus. O sequestro mais rigoroso é a consequencia legitima, natural,

necessaria e fatal d'este dogma selvagem. O alicerce, a porta e o tecto

do mosteiro é aquelle dogma, que desata as sociedades naturaes e

viventes avinculadas pelo amor; é elle o occulto liame d'aquellas

sociedades de automatos que não permaneceriam um dia, nem hora, nem

momento, se tal dogma fosse proscripto. Sem inferno, a vida claustral

não se percebe; com inferno, não ha imaginal-a mais a ponto, e é

obrigatorio confessar que, de feito, a perfeição está n'ella, visto que

a razão está com ella.

Não obstante, filhos do seculo, não renuncieis afogadilho de

seculo, que vol-o prohibem os theologos.

Ficai entre peccadores, no foco das tentações, dos escandalos, dos

erros, e das ciladas que vos tramam. Razoavel coisa seria fugir para o

porto seguro que vos offerecem; mas não vades; continuae a navegar entre

restingas, á mercê dos tufões, aos clarões dos relampagos. O convento

não vos quadra; porque não foi feito para muitos.

Entendo, direis, que o convento se abriu para os entes mais debeis, para

os incapazes não só de ajudar a outrem, mas tambem da mesma mente se

salvarem, sem se arriscarem ás tempestades. Faz-se mister ás almas

frageis e justamente timidas o estreito cenobio do claustro, a protecção

das gradarias, a escravidão, as regras, o véo sobre os olhos, a mordaça

nos labios; sem o que se perderiam. Em quanto os valentes combatem, vão

ellas esconder-se longe do inimigo.

No seu caminho se arrastam gemebundos alguns fugitivos, fallidos de

animo, cahidos por terra, feridos de suas proprias armas, e quem sabe se

alguns heroes alanciados no coração! Entendo, direis, que o claustro é o

refugio dos pusillanimes, o porto dos naufragados, o hospital dos

infermos, e aqui se mostra a apparente razão porque nem toda a gente lá

póde entrar.

Está enganado o duro leitor, que nada percebe dos mysterios theologicos.

Saiba pois que o claustro é o asylo dos fortes; e que só lá são

recebidos os athletas a primor, mais puros e intrepidos, a flôr da

juventude christã. Não soffre a menor duvida que é mil vezes mais de

perigo a sociedade onde os soccorros são muito menos do que os retiros

abençoados. Que nos faz isso! De logar abrigado e onde a graça

superabunda é que os poucos são repulsos, com quanto, ao primeiro

intuito, nos pareça creado para elles; ao mesmo tempo que do baluarte

das luctas angustiosas se retiram os fortes, com quanto pareça tambem

este o seu logar proprio.

Os coxos, os cegos e os inermes são postos na liça sanguinosa; os mais

aguerridos soldados enclaustram-se. Espantem-se e riam-se, que a coisa é

assim; e, senão, perguntem-no á Sorbonna.

E assim é preciso que seja, pois que a perfeita vida é a claustral, que,

no entender dos theologos, vem a ser a mais avêssa ás inclinações de

nossa natureza viciosa, e, por conseguinte, a de mais difficil

observancia; mas, porque é impraticavel na sociedade, não se lhe

dispensa de ser exemplo á sociedade; e, sem presumpções de lá chegar,

devemos propender para ella continuamente, visto que estamos tanto mais

á beira do inferno quanto longe d'aquella vida perfeita.

Que se hade fazer, pois? Eis o problema. Cada qual tem no mosteiro um

trilho feito, e o futuro certo, portanto está quite de cuidados que fóra

d'ahi seguem a pobreza, o trabalho, e até a riqueza, além das

responsabilidades que a toda a hora pendem dos actos de uma vontade

livre, n'um viver sempre fluctuante.

No mosteiro é tudo exemplos edificantes; e, posto que seja defezo ahi

grangear um amigo, em compensação não se adquirem inimigos.

Nem impeços, nem disputas, nem conflictos, males que a liberdade produz,

sendo que a servidão lhes esmaga os embriões. No exterior é tudo

recolhimento, paz, ordem, silencio, e esforço; perturbações, se as ha

lá, vem do intimo e do recondito do nosso ser. O unico inimigo que ahi

ha que recear é o diabo, tal invisivel e impalpavel adversario que todos

trazem comsigo, fracos e fortes, mundanos e frades; porém tal inimigo

perde no claustro boa parte das suas prerogativas; porque alli não está

elle como em sua casa, e no seu reino: são-lhe menos os ministros, os

vassallos, e os recursos. O recluso, afóra a pessoal energia de que é

dotado e lhe assignala a vocação, topa ahi de todos os lados conselhos e

amparos; e como quer que tenha em frente aquelle unico inimigo,

soccorre-se de mil auxilios, que faltam ao homem do seculo, e, máo grado

a sua fraqueza original, vence-os. Que fazemos pois n'este misero mundo

em que a infermidade nos algema? Ha aqui o rir, o chorar, o renhir, o

disputar, o abraçar-mo-nos, o odiarmo-nos, perseguirmo-nos, e o

aniquillar-se o homem contra homem: é uma reluctancia sem fim, e sem

regra, um retinir de espadas, um estrondear de martellos, de carros, de

machinas, de cantares, de gemidos, um cháos, uma desordem, da qual a

clausura não poderia dar-nos sombra de idêa. Aqui, são mil os objectos

em que a alma anda repartida; as diminutas forças que temos

dispersam-se. Acolá o inimigo identificado comnosco, traz escolta de

auxiliares, e a lucta interna de que ninguem se izempta, complica-se com

as luctas externas e inevitaveis. Cada homem tem de bater-se com uma

legião. Quantos cuidados! Quantos deveres! Quantas incertezas e

anciedades! Quantas encruzilhadas sem nome, sem pharol, sem sahida! Que

poeiras, e que sombras!

Considerae aquella mãe de familia a quem encareceis as virtudes da

carmelita.

É pobre, todos os seus parentes são pobres, os filhinhos rotos,

famintos, quasi sempre doentes, o marido alquebrado do trabalho, ou que,

desanimando, se envileceu e a espanca, um patrão, um proprietario,

credores, mestres, amos, amigos, e que amigos! conselheiros, mas

conselheiros de Job! Se tal mãe é rica, tem uma casa que reger, creados

a dirigir, os quaes nem fizeram voto de pobreza, nem de obediencia;

filhos a educar, sagrados interesses que defender, relações que receber,

um marido a contentar, quer seja honrado ou não, quer seja piedoso ou

impio. Com vontade ou sem ella está continuamente a braços com as

paixões alheias, com caprichos, interesses, vontades e affectos

contrarios; de continuo em face de circumstancias imprevistas, casos

litigiosos e incertos, onde lhe é forçoso resolver-se quando qualquer

resolução é perigosa, não o sendo menos os perigos, se se absteem. É

preciso que ella, se quer salvar-se, seja a um tempo economica e

caritativa; communicativa, mas discreta; umas vezes branda, e outras

inflexivel; expedita, mas reflexiva; previdente, mas conformada a todos

os sobresaltos da fortuna; que viva ao mesmo tempo em si, e nos outros,

para si, e para todos: missão indefinivel, cheia de contrastes, de

atravancos, de cruzes, mais ardua e mais difficil que a missão da

freira.

Digam embora que esta mãe de familia tem na sua miseria satisfações,

tranquillidade e jubilos que não goza a carmelita: depende isso de saber

se os jubilos de que fallam são comparaveis ás dôres que a freira

ignora. De mais, esqueceis que esses prazeres são um engodo e que se

prendem n'elle sem o conhecer, e se prendem tambem quando o conhecem. A

saciedade, o desgosto, e o cansaço são as naturaes barreiras da

voluptuosidade. Chegará até ahi a mulher christã? Não o permitta Deus.

Até onde irá? É ponto mathematico que separa o peccado do prazer licito;

e, quando o limite se procura, onde fica elle já? Raras vezes estamos a

sós com a serpente como Eva no Eden, e a freira na cella. Á mesa e em

toda a parte ha quem vos distraia, seduza e arraste; bebemos sem sêde;

está a bocca repleta, mas os olhos famintos; o gozo que satisfaz a

precisão aguilhôa o desejo. Quem houver de parar a tempo na ladeira onde

o aventurarmo-nos é permittido, ha de ter mil vezes mais vigilancia,

cuidado e poder sobre si, do que lhe seria preciso para lá não pôr o pé.

Conceder alguma coisa á natureza é contiçar o fogo que quizeramos

extinguir; é alimentar o leão que desejaramos estrangular. Das

delicias menos carnaes, toucador, conversação, emprego de teres e do

tempo, é ainda mais desconhecido o limite, maior a liberdade, e mais

temivel a responsabilidade.

Não me fallem de umas satisfações mentirosas que o terror empeçonha

quando se pensa n'ellas, e que o inferno corôa, quando se não pensa no

inferno. Por certo que é duro, mas o mais prudente é regeital-as. A

abstenção é uma lei simples, clara, e breve: é bastante que haja coragem

para a praticar sobretudo nos votos conventuaes. A freira, com o andar

do tempo, afaz-se á lucta; curva-se ao jugo; os sentidos privados de

excitações amortecem, até que, por fim, a coragem se torna tão inutil

quanto lhe foi em todo o tempo inutil o espirito de proceder. Mas, se a

lucta intima se prolongasse, a freira para evitar os desvios e as

fugitivas rebeldias do corpo e da vontade, careceria de ter até ao seu

derradeiro suspiro o inferno diante dos olhos, o cilicio na cintura, e o

terror na alma. Assim é, mas que importa? Comparado aos soffrimentos de

uma mãe, o que é o cilicio de uma virgem? Quem ousará comparar essas

duas existencias? Comparar receios pessoaes com receios generosos?

Combates sem testemunhas a combates exemplares? Trabalhos infructiferos

a fecundos suores? E fallando sisudamente, e na melhor fé, se uma

d'essas duas pessoas devesse copiar a outra, não é de certo a mãe que

deveria servir de modelo? A irmã da caridade não é já de si mãe? E

a esposa de José que trouxe em seu seio, e nutriu com seu leite o Filho

do Homem, e ao pé da cruz lhe recebeu o ultimo alento, não foi ella, em

sua amargura, a mãe adoptiva de João, o amigo d'Aquelle por quem

chorava?

Que jactancia é essa então d'um desprendimento de affectos e vontades?

Para que querem insinuar em nossos lares taes inquietações, terrores e

escrupulos, unicas occupações do claustro? E para que é, em nome do ceo,

sobrecarregar de jejuns e abstinencias a jornaleira, a camponeza, a mãe,

que já vacillam sob o fardo do padecer e trabalhar?

Vê-se que theologia e bom siso são coisas infelizmente contradictorias.

Vê-se que seria preciso abolir o inferno para que depois viesse a

renuncia das macerações, terrores e falso ideal que um claro

entendimento reprova.

Mas porque não se apaga o inferno? Extincto elle, brilharia o purgatorio

com luz mais viva e salutar. O inferno é que faz odiosa a liberdade,

rebaixando-a e vilecendo-a; o purgatorio volve-a estimavel,

realçando-lhe bellezas, dignidade e grandeza, sem lhe dissimular os

perigos e as penas. Quem crê no castigo eterno, enterra o talento para

que o Senhor lhe não toque. Quem melhor conhece o Senhor e sua justiça

faz render cinco talentos em casa do banqueiro, arriscando-se a

perdel-os. O purgatorio actualmente de que vos serve? Dizem que a pobre

carmelita se abalança a lá arder milhares de annos, por causa de

algum secreto estremecimento do seu corpo que ella tanto

disciplinou; por causa do captivo espirito que tão enfreado trazia, ou,

emfim, á conta do coração generoso, cujas pulsações tantas vezes

abafára.

O purgatorio deve aterrar principalmente a freira e os que vivem como

ella; ora os mundanos não tem razão de se affligirem, antes devem

consolar-se, pensando n'aquelle logar de supplicio. A nós, filhos do

seculo, não nos é racionalmente permittido aspirar áquella dolorosa

felicidade, que é castigo dos sanctos e o seu primeiro galardão ao mesmo

tempo. Em vez, porém, de o desejar, e desejar em vão, como nós o

temeriamos, se elle fosse a unica estancia em que se cumprisse a justiça

de Deus! Que mudança se faria em tudo d'este mundo! A perfeição e a

salvação não estaria na ociosidade em joelhos, no terror em oração, no

fugir ao proximo, no entregarmo-nos a algumas privações e dôres

corporaes, arbitrariamente substituidas ás dôres e sacrificios de uma

vida proveitosa. Então se entenderia que ha dous modos de abusar de

nossas faculdades, uma que está no desprezo d'ellas, com receio de as

usar inconvenientemente; outra que consiste em nos servirmos d'ellas

indiscretamente e ao avesso das intenções da Providencia que nol-as deu.

A doutrina do Evangelho não é doutrina de abstenção; é doutrina de

acção: causa porque o purgatorio lhe quadra melhor que o Evangelho.

Carecemos menos de frades que de christãos. Se o inferno refreia o mal,

tambem impede o bem. A ameaça seria salutar; mas ella faz mais que

ameaçar, empedra como a cabeça de Meduza quem a encara a fito. Tende a

supprir com uma especie de passibilidade estupida a livre e intelligente

actividade da alma. Não derime o egoismo, exalta-o a mais não poder, e

tal exaltação devidamente localisada no deserto, n'uma gruta, no

claustro, é medonha de vêr-se no seio das familias.

[4] Elles comparam as irmãs da caridade áquella mulher de Bethania

chamada Martha, a qual, vendo entrar Jesus em sua casa, se deu

pressa em lhe servir a ceia; e comparam a carmelita á Magdalena que,

em vez de ajudar Martha nas suas diligencias, lavava e perfumava os

pés do divino hospede, enxugando-os com os seus cabellos. Diz porém

o Evangelho que Jesus estava á meza quando Magdalena lhe abraçou e

ungiu de lagrimas os pés. Não ha palavra na relação dos apostolos,

d'onde possamos colher que é melhor orar pelos famintos do que

alimental-os. O contrario é que lá se diz; e quando Jesus nos faz

assistir de antemão ao julgamento do dia final, exclama: tive fome,

e vós me alimentastes; tive frio, e me vestistes. A scena de

Bethania, e o louvor dado a Magdalena, não desluz o claro ensino do

Evangelho. Este episodio prova sómente que não basta alimentar os

pobres, mas que tambem é mister instruil-os como filhos de Deus, os

melhores amigos de Jesus, e sua visivel imagem na terra: o que

rigorosamente fazem as irmãs da caridade, e não fazem as

contemplativas.

O Inferno · 第 52 / 158 题