O bem

(BEM NEGATIVO, MONGES, ANACHORETAS, ETC.)

Se a morte vos sobresaltêa antes da penitencia, diz-se que sois

condemnado por erro de espirito, por fraqueza dos sentidos, por um lance

d'olhos, por um desejo culposo, e condemnado, sem esperança, tanto como

se houvesseis sido um ladrão calejado, um parricida, um atheu. Lá vos

está esperando o Senhor da vida; e ahi ides enredado em vosso peccado

como ave cahida no laço. E tudo se acabou; tudo, sem que os vossos

longos serviços ao genero humano contrabalancem o peccado final!

Se, no entanto, comparaes tudo que se ha mister fazer para ganhar o ceo

ao pouco que basta para cahir no inferno, sereis forçado a reconhecer

que as probabilidades são dissimilhantes, e que o mais certo,

faça-se o que se fizer, é a condemnação.

D'onde procede nas imaginações vivas a dominante preoccupação de evitar

o inferno; e d'ahi, pelo conseguinte, e desde os primeiros seculos, uma

especie de singulares virtudes, mais espantosas que bellas, mais

extravagantes que insinuativas: virtudes falsas, sem utilidade do

proximo, bem que os theologos no'l-as inculquem por ideal da perfeição

christã. Tal é o retiro ao deserto, a renunciação propria, o morrer

antecipado, o fugir combates da vida, o desquite de deveres da familia e

da cidade, a ociosidade contemplativa e penitente, a maceração, o jejum,

o perpetuo silencio, a insulação, o odio ao mundo, a oração entre quatro

paredes. É, tambem, a santificação do celibato, como se a fecundidade

dos sexos houvesse sido amaldiçoada, como se fosse culpa continuar a

filiação de Adão, e virtude esterilisar em si os embriões da vida

humana.

E certo é que, admittido o inferno, e a queda original, e o ensinamento

que lhe anda annexo, que outra conclusão se colhe? Multiplicar os

homens, para que? para multiplicar os peccados? Se é tão duvidosa a

salvação! Se a condemnação é tão facil! Para que nos enlaçaremos á orla

d'um abysmo onde o esposo póde despenhar-se com a esposa e o pae com os

filhos? Bastantissimos mentecaptos se casam, e povoam terra e inferno de

desgraçados. Não seria melhor deixar acabar o mundo? Bemaventurados os

celibatarios! Os sabios são os reclusos, os anachoretas, os

eremitas. São como os viajantes que, em navio a pique, desamparam os

companheiros, e salvam-se a nado. Cuidam só do seu salvamento; cada qual

por si; soccorrer o irmão tem o risco de naufragio. Fazei como elles,

navegantes; deixae no navio em sossôbro mercadorias, thesouros, e vossas

mulheres, e mães, e vossos filhos, e fazei-vos ao largo: recresce a

borrasca; rasga-se a vela; quem poder salve-se.

Bemditos sejam pois esses foragidos do mundo, mortos ao mundo e seus

modelos, Simeão sobre a columna, João no muladar, esses desvariados

todos macillentos, sujos, comidos de insectos. Grande vantagem levam:

não tem que vêr com a terra, e já estão meios mettidos no ceo: o diabo

já mal os póde aprezar.

Não é, todavia, a perfeição dos ascetas aquella que o Filho do homem nos

exemplificou. Trinta e tres annos habitou Elle a terra, e quarenta dias

sómente ermou no deserto, não para nos lá attrahir; mas, a meu vêr, para

nos distancear, pois que foi no deserto, e ahi tam sómente, que o

espirito das trevas o tentou. Anteriormente havia Elle vivido trinta

annos com a sua familia; e viveu o restante entre peccadores. É para

notar que nas suas modestas occupações, sob o colmado do carpinteiro, e

mais tarde nos campos, nas cidades, nas tavernas, em meio do povo que

ensinou, curou e nutriu, não ousou o diabo tental-o!

Mal imita Christo quem foge o mundo que Elle procurava. O

sepultar-se um homem nos antros, a jejuar e a rezar por longo tempo, o

sequestro da sociedade, o silencio, corpos macerados mal enroupados em

pelles, exorcismos furiosos, luctas no vacuo, intrepidez baldada, e

tantissimos outros piedosos desatinos não recordam exemplos do Salvador,

mas sim as aberrações dos sectarios do oriente. Não póde ser isto a

perfeição que Jesus veio ensinar aos homens; que tal chamada perfeição

muitissimos seculos antes d'Elle já era conhecida dos pagãos idolatras,

que tinham seus corybantes e vestaes, e bem assim dos judeus, mormente

dos Essenios que a tinham aprendido dos magos da Chaldêa. Tal perfeição

praticavam-a na India fanaticos sem numero, cuja raça ainda subsiste.

Importamo'l-a dos mesmos paizes que nos mandaram a doutrina dos anjos

rebeldes e a da reprovação dos homens--doutrinas cujo natural fructo é

tal casta perfeição. Se o ideal da perfeição humana fosse isto, inutil

seria o christianismo; pois que já os brahmanes a tinham ensinado dous

mil annos antes do presepio, e os bouddhistas a tinham realisado mil

annos antes dos monges da Thebaida.

É certissimo que os bouddhistas não visam exactamente ao mesmo scôpo que

os monges catholicos: aquelles buscam em suas austeridades a morte

absoluta, a destruição de sua personalidade, o serem absorvidos no ser

universal, ao mesmo tempo que os monges, se renunciam ao seu _eu_ neste

mundo, é para o retomarem n'outra vida. É, comtudo, egualmente

certo que, sem embargo da diversidade dos fins, vigora em ambas as

seitas um principio commum, sendo que por identicas vias e praticas

procuram a eterna bemaventurança uns, e outros o perpetuo dormir, a

eterna insensibilidade. Só de per si o desejo do ceo não bastaria a

inspirar a uns o mesmo proceder que inspira aos outros o desejo da

anniquilação: pelo que, não é o desejo, senão o medo que povôa os

desertos. Os bouddhistas, por egual com os christãos transviados, temem

os soffrimentos infindos, os males sempre a renascer, se n'este mundo

não attingirem a vida perfeita; e tanto para elles como para os nossos

monges, vida perfeita é o absterem-se da vida, é a virgindade, o jejum,

a penitencia, a soledade, o extasis, o antecipar a morte, um complexo de

estereis virtudes, não filhas do amor, senão do mêdo.

Tal é, na sua mais elevada expressão, o bem que a crença do inferno

produz n'esta vida. Causa espanto que os protestantes hajam conservado

este dogma! É, porém, mais para espantar que elles, ao mesmo tempo que o

conservam, destruam os mosteiros e inpugnem o celibato. Não ha ahi

imaginar maior inconsequencia! A primitiva Igreja, que elles pretendem

resurgir, cria sem duvida nas penas eternas, é isto mais que muito

verdadeiro; mas pelo menos, operava em conformidade com sua fé.

N'aquelle tempo, os esposos, ainda em vigorosa mocidade, guardavam

continencia, sob pena de peccarem, durante o advento e quaresma, e nas

festas e dias de jejum, pouco mais ou menos tres quartas partes do

anno. D'elles alguns, para maior perfeição, não usavam nunca os direitos

conjugaes, e envelheciam sob o tecto nupcial, em voluntario celibato,

denegando-se as frias caricias que o irmão faz a sua irmã. Os ricos

empobreciam-se, despojando-se espontaneamente de seus haveres, e os

pobres lidavam para viver, mas descuidosos de amontoar, nem como

previdencias para a velhice e infermidade, nem para legarem a filhos.

Conta-se que desadoravam empregos publicos, e evitavam, como escolhos da

alma, as emprezas lucrativas nomeadamente as commerciaes. Nunca

espectaculos, nem jogos, nem dansas, nem folias. Sobriedade extrema,

vestidos nem apontados nem de preço, jejuns em barda, orar dia e noite,

lucta incessante e pertinaz contra a natureza. O seu distinctivo de

christãos era aquelle. Uma leve falta, acareava-lhes a excommunhão; e,

antes de absoltos, eram experimentados em seu arrependimento, por espaço

de mezes e annos, quando o não eram até morrerem. Em quanto durava a

penitencia, eram apontados, não só nos templos, durante os mysterios,

senão tambem no exterior e nas relações da vida civil; e, por cima de

ninguem os querer á sua meza, até as esmolas lhes regeitavam.

Diz com rasão Fleury que a vida dos nossos monges regulares corre

parêlhas com a do commum dos fieis da Igreja nascente, cuja continuação

é[2]. E accrescenta[3] que já entre aquelles fieis havia ascetas

d'ambos os sexos vivendo reclusos. Eram os mais perfeitos, e exemplares.

Taes ascetas, verdadeiros ascendentes dos monges contemplativos,

trappistas, cartuchos, carmelitas, claristas, etc., esforçavam-se por

imitar a vida de João Baptista no deserto e a de Elias no Carmelo.

Curavam elles pois, como já dissemos, uma perfeição diversa da de Jesus:

anhelavam a perfeição negativa, qual os judeus e os orientaes a

preconisavam; judaisavam sem darem d'isso tento, e os christãos seus

imitadores continuavam inadvertidamente a tradição, não já de Jesus, mas

de João Baptista e Elias, tradição congruentissima com o inferno. Já no

tempo das perseguições era povoada a Thebaida; não tinha então a Igreja

um tecto debaixo do ceo; e só depois que principiou a erguer templos é

que edificou mosteiros, sua primeira obra depois que sahiu das

catacumbas. É pois evidentissimo, em que peze aos protestantes, que o

catholicismo não se apartou do espirito dos tempos apostolicos, nem das

praticas de então, e que a vida monachal detestada por elles, é ainda

hoje em dia o que outr'ora foi, a mais bella flor, e o mais mimoso

fructo dos dogmas hebraicos, que elles tão piedosamente tem

conservado.

[2] _Costumes dos israelitas e christãos_, tom. II, cap. 53.

[3] _Costumes dos israelitas e christãos_, cap. 26.--Citei esta

excellente obra por que ella é manuseada por todos, e facilima de

consultar. De mais a mais, depara-nos a indicação das fontes onde o

auctor bebeu, dispensando-nos assim de as indicarmos n'este livro.

O Inferno · 第 51 / 158 题