=A Reforma desfez a noção medieval de uma sociedade politica.=—Segundo

as noções medievaes, a sociedade estava dividida em Egreja e em Estado

politico. O poder ecclesiastico estava todo centralizado na pessoa

do papa, que era o sacerdote universal; e o poder civil estava todo

centralizado na pessoa do imperador, que era o soberano universal. Um era

sacerdote dos sacerdotes, e o bispo dos bispos, e o outro era o rei dos

reis. Um homem pertencia á Egreja se estava sob a jurisdicção do papa;

era membro da sociedade civil se estava sob o dominio do imperador.

Tres poderosos chefes francos tinham, uns apoz outros, no fim do seculo

oitavo, proporcionado ao christianismo o dilatar-se, sem ser incommodado,

n’uma parte da Europa occidental. Com os seus fortes exercitos obstaram

ao avanço das hordas dos barbaros frisios e saxonios que pretendiam

opprimir a Europa com uma nova Dispersão das Nações, e obrigaram os

serracenos a retroceder para alem dos Pyrinéus. Como preito de gratidão,

o papa havia conferido a Carlos Magno, o ultimo dos tres, o titulo de

Imperador dos Romanos e reunido em volta d’elle o prestigio do nome

romano e tudo quanto restava das leis, artes e sciencias romanas. O

imperio assim estabelecido apresentava um estranho dualismo. Tinha um

chefe civil e outro espiritual, Cesar e o papa; e toda a jurisprudencia

europea se fundava na dupla theoria da representação; o imperador era

reputado o vigario de Deus nos negocios civis, ou terrestres, ao passo

que o papa governava em nome de Deus nas coisas espirituaes.

Segundo as noções medievaes, quando um homem recusava obedecer ao papa

no que dizia respeito ás materias espirituaes rebellava-se contra a

sociedade, pois que esta se baseava na idéa de que o papa e o imperador

eram os senhores supremos. O protestantismo quebrou esta união dos dois

elementos da christandade, que se affigurava necessaria para dar á

sociedade uma existencia politica e mantel-a sobre uma firme base moral.

=Revolta contra o medievalismo, anteriormente á Reforma.=—As idéas

medievaes tinham soffrido alguma coisa antes de apparecer a Reforma. O

nascimento das nações modernas, com os seus interesses em separado, o

que dava origem a constantes conflictos, e com as suas aspirações de

completa independencia, vibrou um golpe á noção medieval de christandade

indivizivel. Este sentimento de independencia nacional significava

revolta contra o imperador, a qual foi seguida, de uma fórma menos

perceptivel, de sedições nacionaes contra o papa. A lei ingleza de

_Proemunire_, que prohibe appellações para Roma, significava que existia

no reino de Inglaterra uma jurisdicção de que não se podia appellar;

e isso era uma revolta contra a noção medieval da christandade unida,

segundo a qual todas as appellações deviam ser depostas junto do throno

do imperador ou da cadeira do papa.

Noções independentes queria dizer egrejas independentes, e a revolta

de Henrique VIII não teve maior significação do que a de Eduardo III ou

a de Filippe, o Bello. A theoria gauleza foi, n’uma epoca posterior,

uma revolta contra a mesma idéa medieval de centralizar em Roma o poder

ecclesiastico.

A Reforma intensificou esta revolta. Deu-lhe um sentido mais amplo;

tornou-a permanente; animou a tendencia para a descentralização.

Depois de ter surgido a Reforma as nações tiveram mais um motivo para

dissenções, pois que a differença de credo indispôl-as umas com as outras.

Os mysticos medievaes, com as suas theorias de religião espiritual,

tinham dado pouca importancia ás idéas de unidade politica e

ecclesiastica que prevaleciam então na Europa, mas não as atacaram. A

convicção em que estavam de que a religião consiste n’uma communhão

espiritual com Deus tornava-os extremamente indifferentes a todas as

combinações e associações extrinsecas. De todos os reformadores só

Luthero mostrou partilhar o seu quietismo, ou passiva indifferença,

perante a união politico-ecclesiastica. A Reforma, porém, não era um

simples movimento individualista; fez ver a conveniencia de os homens se

ligarem uns com os outros, com a differença, comtudo, de que o centro

d’esse movimento associativo, d’essa força colligadora, não era aquelle

que as nações medievaes indicavam. Nutria a vida nacional; os homens,

pela razão de terem combatido lado a lado, de terem vivido no mesmo

paiz, de terem herdado as mesmas tradições, de terem soffrido os mesmos

infortunios, mantinham entre si uma especie de unidade espiritual.

As egrejas nacionaes, as protestantes, obedeciam a esta nova lei de

desenvolvimento do interior para o exterior. A Reforma, que operou uma

tão completa separação de Roma, e que, apezar d’isso, não destruiu a

sociedade, mostrou a todos os homens que podia haver vida social e

communhão religiosa sem aquella pressão exterior, sem que as idéas de

ordem e associação andassem ligadas á idéa de um imperio e uma egreja

universaes. A noção medieval de uma Europa unificada constrangia todas as

nações a obedecerem a um poder central, que residia no imperador; a noção

reformista era a de uma fraternidade de povos.

=A De Monarchia de Dante (1311-1313), e o Defensor Pacis (1324-1326), de

Marcello de Padua.=—Appareceram dois notaveis livros antes da Reforma, um

que pertencia ao passado que ia desapparecendo, e outro que pertencia ao

futuro que se avisinhava.

Dante, lamentando as interminaveis contendas dos estados italianos e

das nações europeas, escreveu a sua _De Monarchia_ para mostrar aos

seus contemporaneos como podiam viver em paz. O que elle propunha era

o restabelecimento, em toda a sua força, do velho imperio medieval, o

qual, mesmo visto do seu lado melhor, pouco mais era do que um sonho,

conservando o seu poderio mediante o poder que tinha de arrebatar a

imaginação, O reinado da paz universal teria logar, pensava elle, quando

se restabelecesse o poderoso imperio dos Cesares ou de Carlos Magno,

isto é, quando um energico imperador, com a sua côrte no centro do mundo

civilisado, ouvisse e julgasse os casos que de todos os pontos da terra

fossem submettidos á sua decisão final, e fizesse sentir o peso da sua

ferrea mão a todos aquelles que armassem contendas com os seus irmãos.

Este livro é o epitaphio do medievalismo.

Marcello de Padua, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo, escreveu o

seu livro, o _Defensor Pacis_, que explicava como a verdadeira paz e

segurança nacional começam de dentro. Para Marcello o Estado é o povo,

e do povo—dos seu desejos, das suas aspirações, dos seus temores, dos

seus intentos—é que provém a vida nacional. O governo é do povo e para

o povo. E o mesmo se dá com a Egreja. O seu governo é ministerial; o

seu poder é derivado de aquelles sobre quem se exerce. Emquanto Dante

procurava um poder compellidor que operasse de fóra, Marcello predizia

que a força que havia de dominar as nações não podia deixar de ser uma

força auto-coerciva que tivesse a sua origem no proprio povo. A Reforma

contribuiu para que essa predicção se cumprisse, e para que as suas

theorias viessem a constituir uma descripção da vida politica e social da

actualidade.

Tal foi a revolução politica effectuada pela Reforma. Mudou o centro

da vida nacional de uma força repressora exterior para uma invisivel

fonte de acção. Fez para a vida politica da Europa o que Kepler fez para

a astronomia e Kant para a metaphysica: mudou o centro de fóra para

dentro.

CAPITULO III

A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES

Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja,

pag. 221.—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á

Constituição do Imperio medieval, pag. 221.—A catholicidade da

Reforma, segundo Luthero e Calvino, pag. 222.—A sua posição

reivindicada pelo Credo dos Apostolos, pag. 223.

=Os reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja.=—Nenhum dos

reformadores—nem Luthero, nem Zwinglio, nem Calvino—pensou que procurando

dar culto a Deus da maneira mais simples que a Escriptura aconselhava,

e que a sua experiencia espiritual approvava, se estava afastando da

Egreja. Estavam abandonando o papa, e recusando ter communhão espiritual

com elle; mas continuavam, no seu entender, a pertencer á Egreja em que

tinham nascido, pela qual haviam sido baptizados, e em cuja communhão

tinham prestado culto a Deus desde a infancia.

Elles não pensavam que a Reforma queria dizer deixarem a Egreja de seus

antepassados. Não tinham desejo algum de fazer uma nova Egreja, e ainda

menos de crear uma nova religião. A religião que elles professavam era

a religião do Velho e do Novo Testamento, a religião dos santos de Deus

desde os dias de Pentecoste. A Egreja a que elles pertenciam desde a sua

separação de Roma era a Egreja doa Apostolos, dos Martyres e dos Padres.

Era a Egreja em que Deus tinha sido adorado, em que Christo havia sido

acreditado, e em que se havia sentido a presença do Espirito Santo, desde

o tempo dos apostolos até aos seus dias.

A Reforma conservava-os dentro da Egreja de seus paes, pensavam elles;

não os tirava d’ella. Como poderiam elles mostrar a toda a gente a

evidencia d’esse facto, a que davam tão grande importancia?

=Reivindicaram a sua posição por meio de um appello á Constituição do

Imperio medieval.=—Os reformadores tinham-se desligado do papa, e não

viviam mais em communhão com elle ou com a curia romana. No seu tempo,

porém, estar na Egreja era ter communhão com o papa e com Roma. Estar

fóra do districto dos cuidados pastoraes do papa significava, n’aquelles

tempos de excommunhões e interdicções por atacado, estar fóra dos

privilegios da Egreja.

Se o papa recusava ter communhão com qualquer homem, ou cidade, ou

provincia, e a tornava interdicta, ou a excommungava, eram, por esse

facto, interrompidos todos os serviços religiosos. Emquanto sobre aquella

area pesasse a excommunhão, não podia haver baptismos, nem casamentos,

nem confortos espirituaes á hora da morte. As egrejas permaneciam

fechadas, e todos os serviços do culto publico ficavam suspensos até ser

levantada a excommunhão. Segundo as idéas da epoca, não ter communhão com

o papa era estar fóra da Egreja. Era difficil demonstrar o contrario, de

um modo claro, sem auxilio de uma argumentação theologica.

O intelligentissimo espirito de Luthero descobriu um meio de mostrar

ao povo que a Egreja não se limitava ao circulo formado por aquelles

que estavam em communhão com o papa. O Santo Imperio Romano da Edade

Media era mais do que um estado politico; era tambem, sob um certo ponto

de vista, uma Egreja. O seu imperador recebera ordens de sub-diacono.

Chamava-se-lhe a Christandade. E, acima de tudo, os seus cidadãos deviam

a posição que occupavam dentro dos seus limites protectores ao facto

de terem acceite o Credo Niceno sob a fórma latina approvada pelo papa

Damaso. A Edade Media apresentava, portanto, a Egreja de Christo sob dois

aspectos: um era o da communhão com o papa, e o outro o da posição que

occupava no Imperio Romano.

Luthero manteve ostensivamente o seu direito de cidadão do imperio.

Declarou uma e outra vez a sua adhesão ao Credo Niceno sob a fórma

prescripta. Era, segundo a distincção feita pelo imperador, um christão

orthodoxo. Estava dentro da christandade, era membro da grande

communidade christã, posto que não estivesse em communhão com o papa.

Luthero aproveitou-se do caracter ecclesiastico do imperio da Edade

Media; teve o cuidado de declarar, o mais manifestamente possivel,

que era subdito do imperio, e que era, portanto, segundo a antiga

classificação ecclesiastica, christão, e membro da Egreja christã,

ainda que não estivesse em communhão com Roma. Fez com que aos seus

contemporaneos se tornasse evidente que a Egreja era mais ampla,

mesmo segundo as noções medievaes, do que a communhão com Roma. Elle

proprio estava fóra da communhão com Roma, e, comtudo, era membro da

christandade, e estava, por conseguinte, dentro da Egreja.

=A catholicidade da Reforma, segundo Luthero e Calvino.=—O imperio

medieval tinha o Credo Niceno como marca dos seus cidadãos, e a sua

dilatação era, portanto, egual á da Egreja christã. Luthero, para mostrar

que, não obstante haver-se desligado de Roma, não tinha abandonado a

Egreja Catholica de Christo, pegou no Credo dos Apostolos, no Credo

Niceno, e no Credo de Athanasio, e publicou-os como sendo a sua confissão

de fé. Diz elle no seu prefacio: «Reuni e publiquei estes tres Credos, ou

Confissões, em allemão, Confissões que teem sido até hoje sustentadas por

toda a Egreja; e com estas publicação testifico, de uma vez para sempre,

que adhiro á verdadeira Egreja de Christo, que até agora tem mantido

estas Confissões, mas não aquella falsa e pretenciosa Egreja, que é a

peor inimiga da verdadeira Egreja, e que tem collocado subrepticiamente

muita idolatria a par d’estas bellas Confissões.»

Além d’isso, no seu tratado de controversia contra os erros da Egreja

Romana, seguiu a orientação do prefacio que acabamos de citar.

Intitulou-o _Sobre o Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus_.

Diligenciou provar que a Egreja tinha sido levada captiva pelo papa e

pela curia, exactamente como acontecera aos israelitas quando foram

transportados para Babylonia. A Egreja, libertada do jugo romano, ficava

com todos os privilegios que a Egreja de Deus sempre tivera, e ficava,

além d’isso, livre da escravidão.

A Reforma, na opinião de Luthero, tirou a Egreja de um captiveiro peior

do que o de Babylonia, e os vultos da Reforma eram homens comparaveis

a Zorobabel, Esdras e Nehemias. Não estavam fundando uma nova Egreja,

estavam reconduzindo a antiga Egreja dos Apostolos da servidão para a

liberdade.

Calvino era tambem um extremo defensor d’esta idéa, posto que não a

expozesse de um modo tão descriptivo. No prefacio aos seus _Institutos_

diz-nos que escreveu o livro para responder áquelles que diziam que as

doutrinas dos reformadores eram novas, duvidosas, e contrarias ás dos

Paes da Egreja. E refuta essas accusações, mostrando a catholicidade da

theologia da Reforma. Prova que todos os reformadores sustentaram as

grandes doutrinas catholicas que a Egreja manteve em todos os seculos,

e que, quando se afastaram do ensino da Egreja de Roma, ou de outra

qualquer doutrina, o fizeram justamente no ponto onde as idéas pagãs e

as praticas supersticiosas foram, de uma maneira bastante censuravel,

introduzidas.

=A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apostolos.=—Os cabeças

da Reforma, que se encontravam á frente de uma grande revivificação

religiosa, não imaginavam que estavam dirigindo um movimento novo, e

muito menos que estavam fundando uma nova religião. Tinham, no seu

entender, uma ascendencia espiritual, e reputavam-se os verdadeiros

herdeiros e successores da Egreja dos Apostolos, dos Martyres e dos Paes,

e, tambem, da Edade Media. Nova era a Egreja Romana, e não a d’elles.

Pertenciam á antiga Egreja, reformada, e eram os verdadeiros herdeiros

dos seculos de vida santa que os tinham precedido.

Eram, porém, accusados pelos seus adversarios de serem scismaticos

e herejes, de terem abandonado a Egreja Catholica de Christo, e

de procurarem crear uma nova Egreja e fundar uma nova religião.

Disseram-lhes que a Egreja de Roma era a unica communidade christã, e a

unica Egreja Catholica e Apostolica.

Como responderam elles a isto tudo? A sua resposta estava-lhes preparada

pela propria Egreja Catholica Romana. A Egreja de Roma acceita o Credo

dos Apostolos, e esse Credo faz uma descripção da Egreja que está em

completo desaccordo com aquillo que o romanismo insinúa. O Credo dos

Apostolos diz «Creio na Santa Egreja Catholica e na communhão dos

santos», e não «Creio na Santa Egreja Catholica, e na communhão de Roma».

Não ha em nenhum dos credos antigos uma palavra que dê a entender que

catholicidade significa communhão com Roma; catholicidade quer dizer,

pelo contrario, _communhão com os santos_. Este ponto é bem frisado pelos

principaes reformadores. O Credo diz que a Santa Egreja Catholica se

baseia n’uma santa communhão, e que a santa communhão se baseia no perdão

dos peccados. A verdadeira catholicidade provém de uma santa communhão,

e esta existe em virtude do perdão que se alcança para todos os peccados

mediante a obra redemptora de nosso Senhor Jesus Christo.

CAPITULO IV

OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS DA REFORMA

Os principios _formaes_ e _materiaes_ da Reforma, pag. 225.—O

sacerdocio de todo os crentes: o grande principio da Reforma,

pag. 226.—Explica a _Doutrina da Escriptura_, pag. 227, e da

_Justificação pela Fé_, pag. 228.—A _Doutrina da Escriptura_

da Reforma em contraste com a medieval, pag. 228.—A Doutrina

medieval da Escriptura, pag. 229.—O quadruplo sentido da

Escriptura, pag. 229.—A definição medieval de _fé salvadora_.

Interpretação infallivel, pag. 230.—Os reformadores e a Biblia,

pag. 231.—A doutrina da _justificação pela fé_ da Reforma em

contraste com a medieval, pag. 232.—A absolvição clerical

e justificação pela fé, pag. 233.—Justificação pela fé e

justificação pelas obras, pag. 234.—Conclusão, pag. 235.

=Os principios formaes e materiaes da Reforma.=—Os principios

theologicos, ou doutrinarios, que deram um caracter distinctivo á

revivificação da religião promovida pela Reforma costumam ser divididos

em duas cathegorias, sendo uma d’ellas constituida pelos _formaes_ e a

outra pelos _materiaes_.

O dr. Dorner, historiador sagrado, estabelece este modo de encarar o

movimento reformista com muita clareza e energia na sua _Historia da

Theologia Protestante_. Segundo o dr. Dorner, a doutrina da Palavra de

Deus é o principio _formal_ da theologia da Reforma, e a doutrina da

Justificação pela Fé é o principio _material_ da mesma.

O uso d’estes termos technicos pode, comtudo, obscurecer, tanto na vida

religiosa como na theologia, o verdadeiro sentido do movimento que com

elle se quer explicar. O principio da Reforma, o impulso predominante

no movimento, era simplesmente aquelle que deve inspirar todas as

revivificações da religião, isto, é o fervoroso desejo, a ancia, de uma

approximação de Deus, o anhelo por estar na presença de Aquelle que Se

revelou, para que podessemos ser salvos, na pessoa de Jesus Christo.

Aquillo a que se tem chamado os principios, _formaes_ e _materiaes_, da

Reforma está unido a este mais simples, mas mais energico, impulso, e é

proveniente d’elle. O direito de chegar á presença de Deus foi, segundo a

crença dos reformadores, conferido por Elle a todos os que fazem parte do

Seu povo; mas o direito de chegar á presença de Deus é o que se chama o

sacerdocio, e o grande principio da Reforma baseia-se no _sacerdocio de

todos os crentes_—o direito que teem todos os homens e mulheres crentes,

todos os clerigos e seculares, de se dirigirem a Deus, e de procurarem

alcançar d’Elle o perdão mediante a confissão dos seus peccados, a luz

que lhes illumine os entendimentos, a communhão que os faça sair do seu

solitario isolamento, e o vigor necessario para viverem diariamente em

santidade.

=O sacerdocio de todos os crentes: grande principio da Reforma.=—Quando

Luthero e Zwinglio se revoltaram contra os abusos com que o romanismo

havia desfigurado a Egreja medieval, os dois grandes abusos eram a

venda das indulgencias e a excommunhão. Quanto ao primeiro d’esses

abusos, a venda das indulgencias, a Egreja medieval dizia praticamente

que não era necessario ir ter com Deus para obter o perdão, pois que a

Egreja podia concedel-o em melhores condições. O perdão que Deus dava,

mediante a obra de Christo, áquelles que se apresentassem contrictos

e arrependidos fornecia-o a Egreja a troco de uns tantos ducados.

Punha-se deliberadamente entre os pecadores e Deus, e afastava-os d’Elle,

insinuando-lhes, de uma maneira blasphema, que podia vender-lhes o

perdão mais barato. O homem não necessitava de ir ter com Deus cheio

de tristeza e arrependimento, nem de incutir na alma a confiança

nas Suas promessas. A Egreja sahia ao caminho de todo aquelle que

possuisse dinheiro. N’outras occasiões a Egreja recusava absolutamente

o perdão. Se uma cidade, ou uma diocese, ou um paiz offendia, mediante

os seus governantes, o papa ou a sua côrte de Roma, era-lhe imposta a

interdicção, e emquanto esta não fosse levantada não havia perdão para

peccado algum. A Egreja colocava-se entre a creança recemnascida e o

baptismo, entre o christão moribundo e a graça que lhe era concedida

á hora da morte, entre o mancebo e a donzella e o laço matrimonial

abençoado por Deus, entre o povo e o culto quotidiano. Ninguem se podia

approximar do Deus de toda a misericordia pelo motivo dos magistrados,

dos bispos ou do rei e seus conselheiros terem offendido o papa. A Egreja

tinha a faculdade de impedir o caminho, pois que havia declarado que

só por intervenção dos padres é que se poderia ter accesso a Deus; e

quando aos padres se prohibia o exercerem as suas funcções eclesiasticas,

o ministrarem os sacramentos, ficava cortada toda a comunicação com

Deus. O papa podia, com uma pennada, impedir que uma nação inteira se

approximasse de Deus, pois que tinha o direito de ordenar aos padres que

suspendessem os serviços religiosos; e, segundo a theoria medieval, essas

funcções exercidas pelos padres eram o unico meio de ter accesso a Deus.

Os reformadores, por outro lado, diziam: «O homem deve approximar-se

de Deus por meio da oração, por meio do perdão, por meio da communhão,

por meio do esclarecimento espiritual, sempre que fielmente o procurar

fazer; é impossivel que o caminho para Deus se feche de aquella maneira.»

Luthero disse que não fazia objecção alguma ás indulgencias se ellas

fossem consideradas o unico meio de se declarar que Deus é sempre

misericordioso. Recusava, porém, acreditar n’ellas, ou n’outro qualquer

rito da Egreja medieval, quando se fazia uso d’ellas para declarar que

os homens podiam alcançar o perdão sem se approximarem de Deus com um

espirito contricto, ou que podiam ser inteiramente excluidos da presença

de Deus por determinação de quaesquer outros homens.

Era esta idéa—que a presença de Deus é livre para quem fielmente a

procurar, que Deus não recusa ouvir a oração de qualquer penitente, e que

Elle faz com que as Suas promessas fallem directamente aos corações de

todos aquelles que compõem o Seu povo—que se enleiava em volta de base da

theologia da Reforma, e era a fonte de onde brotavam, em particular, as

doutrinas da Escriptura e da justificação pela fé.

=O principio do sacerdocio dos crentes explica a doutrina reformada

da Escriptura.=—Todos os reformadores criam que na Biblia Deus lhes

fallava da mesma maneira em que, em tempos remotos, havia fallado á

Egreja pelos Seus prophetas e apostolos. Diziam elles que o povo, tendo

nas mãos a Biblia traduzida do grego e do hebraico para uma lingua que

elle comprehendesse podia ouvir a voz de Deus, podia chegar-se a Elle

para receber instrucção, admoestação e lenitivos. Nos tempos do Antigo

Testamento Deus fallou ao Seu povo, umas vezes em sonhos e outras por

meio de visões, mas principalmente mediante embaixadores instruidos

por Elle, a que se chamava prophetas. Nos tempos do Novo Testamento

Deus fallou no meio do povo mediante Seu Filho, e o Seu Espirito fallou

tambem por intermedio dos apostolos de Christo. Todas estas revelações,

inseridas na Escriptura do Velho e Novo Testamento, são apresentadas

de tal fórma que Deus falla, na Biblia, ao Seu povo exactamente como

lhe fallou pela bocca dos homens santos da antiguidade. Os reformadores

proclamavam que na Biblia todos os crentes podem ouvir Deus, que lhes

falla directamente, e que a Sua voz pode ser ouvida por todos aquelles

em cujas mãos estiver a Biblia. A doutrina reformada da Palavra de Deus

exprime simplesmente um dos lados do cumprimento de aquelle anhelo pelo

accesso á presença de Deus, que constitue o elemento essencial, não

apenas da Reforma, mas de toda a verdadeira revivificação religiosa.

A Reforma · 第 23 / 27 段