serviço de Deus todos os talentos que possuia. Para se viver santamente
era necessario observar umas tantas coisas que a Egreja prescrevia,
como, por exemplo, os frequentes jejuns, as interminaveis rezas, as
flagellações, e um conjuncto de tediosas ceremonias, que, se eram
manifestações de amor a Deus, não o eram, comtudo, em conformidade com a
maxima de S. João, beneficiando o proximo.
A Egreja estava sempre como que de sentinella á presença, de Deus,
proclamando a todos que, se almejassem por se approximar do compassivo
Redemptor só o poderiam fazer passando pelas estreitas portas que ella
guardava, e exigindo por essa passagem, isto é, pelo baptismo, pela
confirmação, pelo casamento, e pelos restantes sacramentos, umas vis
moedas, e inpondo de quando em quando uma compra de indulgencias, para
acabar de encher os seus cofres.
A grande Reforma foi um movimento religioso inspirado pelo irresistivel
desejo de uma approximação de Deus, e satisfez cabalmente esse desejo
levando deante de si, e fazendo desapparecer, todas as barreiras e
obstaculos.
=Como a Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus.=—É natural
que occorra esta pergunta: Como é possivel que a Egreja se esquecesse a
tal ponto da sua missão e do verdadeiro fim da sua existencia que, como
os reformadores constataram, estivesse fazendo exactamente o contrario de
aquillo que devia fazer? A Egreja está no mundo para conduzir os homens
a Deus, e para os conservar junto d’Elle; mas Luthero e os seus irmãos
na fé haviam descoberto que ella se interpunha entre elles e Deus, e
que os conservava longe d’Elle. Como poude a Egreja tornar-se uma coisa
inteiramente opposta ao que era licito esperar que ella fosse? Como poude
a Egreja de Deus converter-se, segundo a graphica expressão de Knox,
«n’uma synanoga de Satanaz»? Para respondermos integralmente, ser-nos-hia
necessario um espaço de que não podemos dispôr; vamos, porém, dar uma
idéa geral do que se passou.
«A separação do mundo» é uma das maximas da vida christã, symbolisada
nos preceitos do Antigo Testamento, e incorporada nas normas da vida do
Novo testamento. A Egreja devia viver separada do mundo, e, em todos os
seculos, aquelles a quem coube a educação religiosa do mundo teem-se
esforçado por mostrar que isso pode ser facilmente posto em pratica.
Gregorio VII, mais conhecido pelo seu nome secular de Hildebrando, e
que viveu no principio da Edade Media e foi o grande organizador da
Egreja medieval, declarou que essa separação devia ser perfeitamente
visivel; trabalhou para que a Egreja se convertesse no reino de Christo;
e aquella sua opinião influiu muito no modo de ser da Egreja medieval.
Nos seus dias todo o governo politico estava nas mãos do chefe do Imperio
Romano, e Gregorio VII diligenciou fazer com que o reino de Christo fosse
tão visivel como esse imperio, e se constituisse em seu rival sobre a
terra. A idéa não era original, e quem a havia inspirado fôra o grande
Agostinho, mas Gregorio deu-lhe uma fórma pratica. Nas suas mãos a Egreja
tornou-se um reino em contraposição ao Imperio Romano da Edade Media, seu
adversario visivel. Isto não se poderia fazer sem transformar a Egreja
n’uma monarquia politica, pois que não pode haver comparação entre duas
coisas a não ser que sejam fundamentalmente analogas. O grande, o fatal,
defeito n’aquela idéa de separação do mundo, em que Gregorio andava
absorvido, proveiu do facto d’elle tomar uma parte do mundo, isto é, o
Imperio politico, pelo mundo todo de que era necessario haver separação,
de modo que a Egreja ficou separada do imperio, mas não ficou separada do
mundo.
A Egreja era santa, era espiritual, era o reino de Deus; todas estas
phrases, empregadas na Escriptura para descrever o parentesco espiritual
entre Deus e o seu povo foram malignamente applicadas a esta organização
politica visivelmente separada do Imperio politico da Edade Media. Um
homem era chamado _santo_ se pertencia a um dos reinos, e secular se
pertencia ao outro; um frade era um homem _santo_, um guarda do imperador
era um homem secular. Um campo era _santo_ se um papa ou um clerigo
qualquer recebia a respectiva renda; era secular se o proprietario não
tinha ordens ecclesiasticas. Todas as palavras e phrases que se deviam
reservar para quando se tratasse de assumptos espirituaes eram applicadas
na descripção de aquillo que era visivel e externo, de aquillo que
pertencia áquelle reino visivel a que se dera o nome de Egreja.
A Egreja era aquella organização dentro da qual se rendia culto a Deus;
era a esphera da religião; e quando, de caso pensado, ou em virtude
do modo habitual de fallar, se ensinou aos homens que a Egreja era
simplesmente uma sociedade visivel, a religião espiritual decaiu, sendo
substituida por uma outra que consistia apenas na observancia de um certo
numero de ceremonias. Esta petrificação da Egreja e da religião tornou-se
cada vez mais intoleravel, e contra ella se protestou praticamente
mediante diversas tentativas de revivificação. Quando a Reforma appareceu
era já impossivel supportal-a por mais tempo, e os homens insistiram em
que os nomes espirituaes fossem applicados ás coisas espirituaes, ou,
por outra, em que não se fizesse uso d’elles para desencaminhar as almas
piedosas.
=Revoltas medievaes em favor da religião espiritual. A imitação de
Christo.=—Posto que a Egreja medieval tivesse tendencia para se tornar
cada vez mais um reino politico, e cada vez menos uma egreja, não se
deve suppôr que durante a Edade Media não houvesse religião espiritual.
O Livro de Oração Commum da Egreja de Inglaterra era quasi todo copiado
de antigos livros cultuaes, escriptos n’uma epoca em que a idéa de Egreja
andava geralmente ligada á idéa de politica, e é innegavel que esse livro
está impregnado de um profundo sentimento religioso. Muitos dos hymnos
que eram cantados no culto publico por todas as egrejas protestantes
foram originalmente compostos por devotos poetas medievaes, que dedicavam
os seus talentos á causa de Christo. Esta religião espiritual tinha a
sua existencia dentro da Egreja medieval, e não estava em antagonismo
com o ritual d’esta. É que quasi nunca se chegou a pôr em contacto com
as theorias e doutrinas que eram não-espirituaes e friamente politicas.
Vivia comsigo mesma, n’uma verdadeira separação do mundo, sem procurar
definir as suas idéas, ou descutir o facto de terem os guias politicos
da Egreja restringido o sentido das phrases evangelicas. Vieram, porém,
tempos em que os homens se sentiram estimulados a exprimir os seus
pensamentos, e o modo como os exprimiam nem sempre estava em harmonia com
as definições dos estadistas ecclesiasticos. Para exemplificação d’isto,
vamos passar em revista dois periodos de reviviscencia.
=Francisco de Assis.=—Francisco de Assis, commovido pelas dolorosas
scenas que observava nas cidades, onde a população indigente, pela
maior parte composta de camponezes que haviam deixado as suas terras
para se livrarem do pagamento das contribuições e dos pesados serviços
a que os senhores feudaes, cheios de rapacidade, os obrigavam, vivia em
miseraveis e repellentes bairros, resolveu consagrar a sua vida ao ensino
espiritual d’esses parias da sociedade. E poz enthusiasticamente mãos á
obra, não com infatuação, nem movido por qualquer interesse, mas como
sob a influencia de uma grande idéa. Essa grande idéa era a tal maxima
da «separação do mundo», a mesma que, erradamente interpretada, havia
tornado politica a Egreja; mas elle deu-lhe outro sentido. A separação do
mundo não podia, segundo a sua opinião, ser explicada por meio de dois
espaços—um d’elles occupado pela Egreja e outro pela sociedade politica;
tinha de baseiar-se na conducta individual. Gregorio VII tinha definido a
separação de uma maneira negativa; havia dito «A Egreja é uma coisa que
o mundo não é, e está onde o mundo não está.» Francisco definiu-a de um
modo mais claro e mais descriptivo. A separação do mundo não consiste em
estar onde Christo está, mas em fazer o que Christo fez.
Francisco havia-se apossado de uma idéa que Anselmo de Chanterbury
expozera n’uma arida fórma escolastica, a da _imitação de Christo_;
e foi com o auxilio d’essa idéa que poude descrever a verdadeira e
individual separação do mundo, muito differente da separação politica
de Gregorio VII. Anselmo e Bernardo de Clairvaux tinham, um de uma
maneira fria e dogmatica, e outro n’um estylo de fervoroso prégador da
renascença, feito uso d’esta imitação de Christo, affirmando ser ella o
unico meio de os homens se aproveitarem dos beneficios que Christo lhes
alcançou. Os peccadores podem tomar parte na obra de Christo imitando-O.
Francisco pegou, por assim dizer, n’esta idéa e, ligando-a com a maxima
da separação do mundo, disse: «Eis aqui a verdadeira separação. Christo
não era d’este mundo. O Seu reino não era d’este mundo. A separação do
mundo é posta em pratica quando os homens teem sentimentos analogos aos
de Christo.»
Francisco, porém, vivia n’uma epoca em que os homens não tinham grande
largueza de vistas, e a vida e obra de Christo, assim como a Sua
separação do mundo, apresentavam-se-lhe claramente, mas de uma maneira
limitada. Nosso Senhor não era casado; estava separado da vida social
que provém do casamento. Era pobre; estava separado do mundo da riqueza,
do mundo possuidor de bens. Levou a Sua obediencia até ao ponto de Se
deixar matar; estava separado do mundo da livre vontade, da independencia
de vida e de acção. Prendeu-se a estes aspectos exteriores da vida de
Christo; fez consistir a imitação de Christo e a consequente separação do
mundo n’estes modos visiveis de proceder como Christo; e imitar Christo
ficou significando, entre os seus adeptos, fazer votos monasticos de
pobreza, castidade e obediencia.
O movimento revivificador dirigido por elle produziu grandes resultados
e teve um rapido successo; mas, como todos os outros movimentos que se
baseiam em imitaçõees exteriores da vida divina, depressa deixou de
impulsionar os espiritos, e os homens piedosos pozeram-se á procura de
uma melhor separação do mundo, uma separação mais profunda, e de uma mais
genuina imitação de Christo.
=Os Mysticos medievaes.=—Os mysticos julgaram ter encontrado uma solução
para o problema. A imitação de Christo e a separação do mundo á maneira
de Christo deviam, disseram elles, ser mais profunda e mais intima.
Deviam ser postas em connexão com uma religião espiritual, pois que é
a alma, e não aquillo que a cerca, que deve approximar-se de Christo,
afim de O imitar e de O seguir na Sua separação do mundo. O homem tem,
disseram elles, uma vida dupla; uma vida intrinseca, que é propriamente
a vida da alma, e uma vida exterior, uma vida visivel, passada no
meio da sociedade. Põe-se em communhão com Deus, não mediante aquella
vida exterior, que todos os homens vivem, mas mediante a que possue
espiritualmente, mediante a vida da alma. A separação do mundo não
consiste n’uma norma de proceder, n’uma separação de parte de aquella
vida visivel que todos teem necessariamente de viver, pois que separação
do mundo significa communhão com Deus, e essa communhão não tem logar de
uma fórma visivel, mas muita reconditamente, quando a alma se encontra a
sós com Elle. Os homens deviam renunciar a todas as affeições, a todos
os desejos, a todos os actos que podessem impedir a communhão da alma
com Deus, e entregar-se, n’uma deliberada solidão, áquelle Christo que
está sempre prompto a acolher o Seu povo. Tinham, como se vê, ácerca da
separação do mundo, a mesma idéa de Gregorio. Ligavam-n’a com aquella
idéa de imitação de Christo, em que Francisco de Assis tanto insistia.
Vivendo, porém, n’uma epoca calamitosa, em que abundavam as guerras, em
que abundavam as fomes, em que abundavam as epidemias, foram levados a
reconhecer, como a ninguem, antes ou depois d’elles, tem succedido, que
o reino de Deus está no interior dos corações. A renuncia ficou sendo a
sua senha, e essa sua renuncia era toda espiritual, e com ella se armaram
para soffrer pacientemente tudo quanto a Deus, na Sua Providencia,
aprouvesse enviar-lhes. Mostraram a Luthero o que vinha a ser religião
espiritual, mostraram-lhe que a religião deve, para ter esse nome, ser
espiritual, e approximaram-se, indubitavelmente, mais de Christo do que
Gregorio com a sua Egreja politica ou do que Francisco de Assis com a sua
pictorica imitação dos aspectos da vida de Christo no mundo.
=A significação do perdão, segundo a Reforma.=—Todos estes movimentos
eram revivificações da religião. Eram todos elles tentativas para
se chegar a uma verdadeira separação do mundo, que é o mesmo que
approximação de Deus. A Egreja sustentou esta prolongada lucta como
preparação para a Reforma, fazendo dos seus proprios desenganos outras
tantas alpondras para attingir coisas mais elevadas. E Luthero passou
por todas ellas. Como Gregorio VII, reconheceu a irresistivel força das
reivindicações da consciencia quando, a despeito da opposição da familia,
deixou de estudar direito para estudar theologia.
Foi Francisco de Assis quando pensou que a vida monastica e a imitação
de Christo segundo as regras monacaes lhe proporcionariam aquella
paz da alma que é o fructo de uma convivencia com Christo. Foi João
Tauler ou Nicolau de Basiléa quando se inteirou de que a religião,
para ser verdadeira, deve ser espiritual. Mas ainda assim elle não
ficou satisfeito. Não se sentiu tão perto de Deus em Christo como sabia
que lhe era indispensavel estar senão depois de experimentar aquella
bem-aventurada sensação de perdão pela qual anhelava. E porque havia
feito esta pergunta, «Como hei de eu adquirir a certeza do perdão? Como
hei de eu transpôr essa insuperavel barreira do peccado que se ergue
entre mim e o Deus de toda a santidade?» e considerara este ponto como de
summa importancia durante todo o periodo em que o seu espirito passou por
varias vicissitudes, é que poude fallar em nome de milhares de pessoas
piedosas que almejavam por aquella revivificação da religião que a
Reforma effectuou.
Durante toda a Edade Media, de que a devoção foi um dos principaes
caracteristicos, se desejou ardentemente viver perto de Deus, mas esse
desejo era manifestado mediante differentes perguntas, e cada tentativa
de revivificação tornava mais evidente a possibilidade de que elle
fosse satisfeito, Gregorio perguntava: «Como posso eu separar-me do
mundo?» Francisco de Assis dizia: «Como posso eu tornar-me similhante
a Christo?» Os mysticos perguntavam: «Como posso eu ter o sentimento
do perdão, e saber que Deus me perdoou os pecados?» Todos luctam com a
mesma dificuldade, todos desejam a mesma coisa; está-se cada vez mais
perto da solução do problema, á medida que as gerações se succedem,
até que por fim vieram os reformadores, que com tanto zelo procuraram
revivificar a religião, e pozeram em primeiro logar a questão do perdão,
e, conseguintemente, a do peccado, tocando assim no ponto principal.
Desembaracemo-nos do peccado, disseram elles; alcancemos o perdão, e
haverá então separação do mundo, imitação de Christo e communhão com Deus.
A revivificação da religião operada pela Reforma fez da espiritualidade
o ponto de partida, e corresponde-lhe sempre do mesmo modo. Os homens
alcançam o perdão de Deus indo pedil-o directamente a Deus, e confiando
na Sua promessa de que perdoaria. A livre e clemente graça de Deus,
revelada na pessoa e obra de Christo, e a confiança do homem n’essa
promettida graça são os dois polos entre os quaes vibra sempre a vida
religiosa da Reforma. Deus, por amor de Christo, prometteu perdoar o
peccado do Seu povo. O peccador confia n’essa promessa. Tal é o simples
aspecto religioso do movimento da Reforma. Todos aquelles que, sentindo a
necessidade do perdão, e tendo perfeita confiança na promessa do perdão
que Deus fez mediante Christo Jesus, vão ter com Elle, e, deixando de
pensar em si e no que podem fazer, descançam simplesmente n’essa promessa
e entregam tudo a Deus, são perdoados e teem a consciencia d’isso.
=Previsões de uma revivificação religiosa operada pela Reforma.=—Sendo
este o verdadeiro modo de encarar o movimento da Reforma, é manifesto que
elle não constituiu um caso singular, isolado, na historia da Egreja.
Todos os christãos piedosos teem sentido pouco mais ou menos a mesma
coisa, o seu espirito tem passado pelos mesmos transes. Teem ido ter com
Deus para serem perdoados; teem confiado na obra de Christo e na promessa
de Deus revelada n’essa obra. As orações de todas as gerações christãs
dão d’isso testemunho, os hymnos que se referem á vida do christão dizem
a mesma coisa, e o que a Reforma fez foi definir claramente que todos os
christãos tinham, com mais ou menos consciencia do facto, sentido.
Os christãos medievaes não tinham reconhecido que o que espiritualmente
experimentavam, e que era a linha central da sua vida religiosa, estava,
n’uma multiplicidade de modos, em contradicção com o credo, o culto e a
organização theoretica da sua Egreja. Não ha nada mais surprehendente
do que o contraste entre as exposições doutrinaes e as posições
ecclesiasticas de muitos e distinctos vultos da Egreja medieval e os
hymnos que elles não sómente cantavam como escreviam e as phrases que
empregavam nas suas orações. A sua theologia tinha muitos pontos de
contacto com a philosophia pagã de Aristoteles, no seu culto estavam
consubstanciados muitos ritos do paganismo, a fórma como a Sua Egreja
era dirigida era mais modelada na constituição do imperio romano do que
na constituição da Egreja do Novo Testamento; os christãos piedosos
viveram n’estas heterogeneas circumstancias até ao momento em que os
elementos pagãos que haviam sido introduzidos na sua Egreja se tornaram
tão preponderantes que elles se viram forçados a protestar contra elles.
Luthero achou o perdão antes de se haver desligado de Roma, e talvez que
nunca fosse compellido a revoltar-se se o paganismo que havia na Egreja
não tivesse tido a audacia de vender o perdão de Deus por dinheiro. Isso
levou-o, a elle e a muitos outros, a dar attenção a certos assumptos,
e compenetrou-se de que a venda do perdão dos peccados não era uma
horrivel profanação enxertada na Egreja que elles veneravam, mas sim uma
verdadeira e logica deducção de principios com que elles não se tinham
até ali preoccupado. Quando, pois, quizermos investigar os antecedentes
da Reforma, devemos procural-os n’aquelle evangelismo que sempre existiu
na Egreja medieval, manifestando-se na santidade da vida, na nobreza dos
hymnos, nas confissões do peccado, e na confiança nas promessas do Deus
do pacto. Os protestantes não precisam de reivindicar a sua affinidade
com homens cujo unico signal de vida religiosa consiste em não terem
reconhecido a auctoridade do papa, ou terem protestado contra o viver
religioso do seu tempo, em favor de idéas extraidas do mahometanismo
ou dos auctores pagãos. Teem uma mais nobre ascendencia em todos esses
homens e mulheres piedosas que, mesmo nos seculos mais obscuros da
Egreja, foram ter directamente com Deus, confiados, tanto no tocante á
vida presente como no tocante á vida futura, n’aquelle perdão e graça
renovadora que Elle revelou em Christo.
CAPITULO II
COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA
O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado
na vida social da epoca, pag. 215.—A Reforma desfez a nação
medieval de uma sociedade politica, pag. 216.—Revolta contra
o medievalismo, anteriormente á Reforma, pag. 217.—O _De
Monarchia_ de Dante e o _Defensor Pacis_ de Marcello de Padua,
pag. 218.
=O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado na vida
social da epoca.=—A Reforma começou simplesmente como uma tentativa de
dar o culto a Deus de uma maneira mais simples, segundo os dictames da
consciencia e os impulsos da vida interior, da vida espiritual; mas não
podia ficar por ahi; significou por fim uma revolução nas condições da
sociedade e uma grande mudança na situação politica da Europa.
A Egreja medieval era muito rica, e possuia muitos bens de raiz, e quando
uma freguezia, ou uma provincia, ou um paiz se tornava protestante,
levantavam-se discussões sobre o destino a dar a estas propriedades.
Deviam ficar em poder dos padres, deviam passar para o do pastor
protestante, ou deviam as auctoridades civis tomar conta d’ellas e
administral-as como bens do Estado? A Egreja tinha o direito de cobrar
dizimos—o dizimo grande, ou a decima parte da colheita do trigo ou do
vinho, e o dizimo pequeno, ou a decima parte das ovelhas, dos vitellos,
dos porcos e dos ovos. Os padres e os frades recebiam remuneração pelos
baptismos, pelos casamentos, pelas confirmações e pelos enterros.
Quando as familias se tornavam protestantes, e dispensavam os serviços
dos clerigos da Egreja medieval, por não se quererem sujeitar a ritos
supersticiosos, aonde ir buscar aquelles dizimos e aquelles emolumentos?
A permissão para se render culto a Deus segundo as consciencias
preceituavam envolvia questões de dinheiro, que eram muitas vezes levadas
aos tribunaes, e que obrigaram, mesmo, a uma modificação das leis
concernentes á propriedade.
A Egreja medieval tinha o seu systema de celibato. Os clerigos não
podiam casar, e, alem dos parocos e dos curas, havia frades e freiras
celibatarias e que haviam feito votos de castidade, sanccionados
pelo Estado. Quando qualquer d’estes homens ou mulheres se tornasse
protestante, ser-lhe-hia permittido desligar-se dos votos e abandonar
o convento? e, no caso de ter levado dinheiro comsigo para o convento,
ser-lhe-hia restituido? Se todos os moradores de uma casa religiosa
abraçassem a fé protestante, poderiam conservar-se n’essa casa, e
continuar disfructando a respectiva dotação? A todas estas questões
juridicas deu logar a Reforma.
Mas havia outras questões muito mais graves. A Egreja medieval, segundo o
costume da epoca, tinha jurisdicção sobre muitos pleitos, que na Europa
moderna são julgados pelos tribunaes civis. As questões entre marido
e mulher, entre paes e filhos, e as que diziam respeito a heranças e
testamentos, estavam na alçada dos tribunaes ecclesiasticos, e nunca eram
submettidos ás instancias ordinarias do reino. A Egreja é que decidia se
um casamento era ou não legal, se este ou aquelle grau era prohibido, se
este ou aquelle filho era legitimo, etc. Estas questões levantavam sempre
comsigo uma outra, a da propriedade, pois que só os filhos ligitimos
podiam herdar os bens de seus paes. Só era licito o casamento que fosse
feito dentro dos graus auctorizados, e effectuado á face da Egreja por
um sacerdote ordenado. E isto porque, em conformidade com as idéas da
Egreja medieval, o matrimonio era um sacramento. E assim protestante
algum podia estar legalmente casado, porque a legalidade de um matrimonio
só podia provir de um sacramento que não podia ser administrado a
rebeldes, por constituir um acto de desobediencia á auctoridade da
Egreja. E a lei da Egreja era a lei da nação; pois que antes da Reforma
a Egreja tinha o direito de resolver todos estes casos. A não ser que
as leis fossem alteradas, filho algum de protestantes, casados por
pastores protestantes, podia herdar de seus paes, pois que, segundo a
lei da Egreja medieval, os paes não tinham contraido um casamento legal.
E, portanto, não andavam sómente envolvidas n’isto as questões que
diziam respeito á propriedade; affectava-se tambem a honra pessoal, e a
dignidade das esposas e dos filhos.
Poderiamos multiplicar os casos indefinidamente; mas os que citámos são
sufficientes para mostrar como o simples desejo de dar culto a Deus
segundo a consciencia alterou todas as condições da vida social. O
velho systema ecclesiastico descia até aos proprios alicerces da vida
quotidiana, e tudo apertava nas suas garras. A Reforma, ao atacal-o,
atacou por esse facto todas as leis: a da propriedade, a do casamento, e
a da hereditariedade.