doutrina reformada da justificação pela fé.=—A doutrina da justificação
pela fé é um outro modo de asseverar que o anhelo pelo accesso a Deus
não é um desejo vão, mas uma coisa que pode ter um positivo cumprimento.
Segundo a theologia medieval, o peccador não podia implorar directamente
a Deus o perdão. Tinha que ir ter com o padre, e esse padre ficava
auctorizado a metter-se de permeio entre elle e Deus, e a negar o perdão
de Deus, se isso lhe fosse ordenado pelo papa ou por um seu superior
hierarquico. Por muito sincero que fosse o seu pezar, por muito forte
que fosse a sua confiança, o padre collocava-se entre elle e o seu
clemente Deus, e elle não podia confessar a Deus os seus peccados nem
ouvir de Deus a sentença do perdão senão pela bocca do padre. A doutrina
da justificação pela fé significa, na sua fórma mais simples, que é Deus
em pessoa quem profere o perdão, e que perdoa em attenção de tudo quanto
Christo fez e pode fazer pelo peccador; e que o homem pode ouvir proferir
este perdão se tiver fé na misericordia, na salvação e nas promessas de
Deus.
=A doutrina reformada da Escriptura, em contraste com a medieval.=—A
doutrina reformada da Escriptura é muitas vezes apresentada sob uma
fórma que não a põe em immediata connexão com o impulso preponderante
no movimento da Reforma. Os reformadores deram mais credito á Biblia, o
livro infallivel, do que á palavra de uma Egreja fallivel. Na Edade Media
os homens appellavam para a Egreja em ultima instancia, e acceitavam as
decisões dos papas e dos concilios como constituindo a ultima palavra
em todas as controversias sobre a doutrina e a moral; os reformadores
substituiram a Egreja, isto é, as decisões dos concilios e dos papas,
pela Biblia, e ensinaram que era para ella que se devia appellar em
ultima instancia. Este modo de expôr a differença entre os reformadores
e os seus antagonistas teve uma expressão mais concisa no dito de
Chillingworth, famoso theologo inglez, de que a Biblia, e só a Biblia, é
a religião dos protestantes.
Tudo isto é verdade, e, comtudo, não é a inteira verdade, podendo,
portanto, dar logar a uma noção erronea. Os catholicos romanos e os
protestantes não dão o mesmo sentido á palavra Biblia, e essa differença
de sentido traz á luz uma verdade que é algumas vezes esquecida. Quando
os catholicos romanos fallam da Biblia querem dizer uma coisa, e quando
os protestantes fallam da Biblia querem dizer outra, e n’esta differença
no emprego da palavra está uma parte importantissima da doutrina
reformada da Escriptura.
A Egreja medieval não se oppunha, em regra, a que o povo lesse a Biblia
para sua edificação. Era, pelo contrario, uma maxima na theologia da
Edade Media que todo o systema doutrinal da Egreja se fundava na Palavra
de Deus. Thomaz de Aquino, a maior auctoridade entre os theologos
medievaes, diz expressamente, no principio da sua importante obra, A
_summula da theologia_, que todo o circulo da doutrina christã se apoia
na Escriptura, que é a Palavra de Deus. Durante a Edade Media fizeram-se
continuamente traducções das Escripturas nas linguas dos povos da Europa;
é um perfeito erro suppôr-se que as primeiras traducções da Biblia se
fizeram durante o tempo da Reforma; em regra geral, animava-se o povo
a ler e estudar as Escripturas. Nos primeiros periodos da controversia
reformada, os arguentes catholicos romanos recorriam tanto á Biblia como
Luthero e os que estavam do seu lado. Estava guardado para a Egreja
Catholica posterior á Reforma o prohibir aos leigos a leitura da Palavra
de Deus.
=A doutrina medieval da Escriptura.=—Os theologos medievaes faziam,
comtudo, da Biblia um uso muito differente de aquelle que os protestantes
faziam, e na controversia protestante a differença de sentido não tardou
em fazer-se notar. Os theologos da Edade Media jámais consideraram
a Biblia um meio de graça; tinham-n’a na conta de um livro cheio de
informações, divinas informações, ácerca da doutrina e da moral. Era para
elles um repositorio de verdades doutrinarias e preceitos moraes, e mais
nada.
Os protestantes vêem n’ella um repositorio de verdades infalliveis,
mas vêem mais alguma coisa. É um meio de graça. Crêem que os homens
alcançam com a simples leitura da Biblia não só instrucção como tambem
communhão com Deus, não só o conhecimento de Deus como tambem intimidade
com Elle. Não se limita a apresentar verdades novas ácerca das coisas
divinas; excita para a vida espiritual. É para o protestante tudo o que
era para o theologo da Edade Media, e é mais alguma coisa. É um tão
efficaz estimulo de fé e vida santa como os sacramentos, ou a oração ou
o culto. Mediante um diligente uso da Biblia, os homens, na opinião dos
theologos protestantes, não sómente adquirem o conhecimento de Deus;
podem tornar-se participantes de aquella bemdita communhão entre Deus e o
Seu povo de que a Biblia faz menção.
=O quadruplo sentido da Escriptura.=—Esta noção medieval ácerca da
Biblia—que ella é um repositorio de informações ácerca das doutrinas e
da moral, e nada mais—encontra uma seria difficuldade: é que similhante
descripção não parece ser applicavel a uma grande parte de Biblia. As
Escripturas conteem longas listas de genealogias, capitulos que tratam
quasi exclusivamente dos utensilios do templo, ou são descripções
da vida humana, ou da historia nacional. N’essas porções da Biblia,
que constituem uma não pequena parte d’ella, não parece haver muita
informação doutrinal ou muitas regras para uma vida santa, e, não
obstante, são estas coisas que, segundo a definição medieval, compõem
a Biblia toda. O theologo medieval tinha, portanto, ou de cortar o
que lhe parecesse materia inapplicavel, ou inventar alguma maneira de
transformar as taboas genealogicas em doutrinas ou preceitos moraes.
Optou pela ultima d’estas coisas, e declarou que em todas as passagens
da Biblia havia mais do que um sentido. A Biblia, disse elle, tinha um
quadruplo sentido. Havia, em primeiro logar, o sentido _historico_ da
passagem lida, que era aquelle que se inferia das regras grammaticaes
e de interpretação. Seguiam-se depois os outros tres sentidos: O
_allegorico_, o _moral_ e o _anagogico_. Estes varios sentidos differiam
do historico, e os expositores medievaes extrahiam complicadas doutrinas
das genealogias de Abrahão e de David, e regras de conducta da descripção
das vestes do summo sacerdote ou da narrativa da viagem que nosso Senhor
fez de Capernaum a Naim.
É algumas vezes difficil saber qual é o verdadeiro sentido de certas
passagens da Biblia, mesmo quando o leitor se occupa simplesmente da
significação historica; e a difficuldade quadruplicará, se é verdade
que cada passagem tem quatro sentidos. Qualquer trecho da Biblia pode
significar aquillo que o leitor quizer, bastando para isso que o tome
n’um sentido mystico, ou allegorico.
=Definição medieval da fé salvadora. A interpretação
infallivel.=—Emquanto os theologos medievaes faziam quasi perder a
esperança de vir a saber-se ao certo o que a Biblia dizia segundo a sua
doutrina do quadruplo sentido, uma outra theoria d’elles tornava de
summa importancia que o crente tivesse precisas informações ácerca do
contheudo da Biblia. Diziam que fé não era confiança n’uma pessoa, mas
assentimento ás informações correctas; a fé que salva era, sustentavam
elles, assentimentos ás proposições acerca de Deus, do universo, e da
alma humana, contidas na Biblia. Por um lado, a sua doutrina do quadruplo
sentido tornava quasi impossivel a qualquer pessoa o certificar-se do que
a Escriptura ensinava; por outro, a sua definição de fé salvadora tornava
importantissimo, tanto no que diz respeito a esta vida, como no que diz
respeito á futura, que cada um tivesse noções claras e exactas do texto
biblico. E assim a Egreja medieval era obrigada a asseverar que havia,
não indicada por ella, uma maneira auctorizada de interpretar a Biblia,
e isso conduziu-a á sua doutrina da infallibilidade das declarações dos
concilios e dos papas no tocante ao ensino da Biblia.
É escusado dizer que, se a Biblia é por si propria de duvidosa
interpretação, e se é essencial para a salvação que o crente possua uma
verdadeira e correcta interpretação a que possa dar o seu assentimento,
o que fornecer uma interpretação infallivel tem mais valor do que
aquillo que é interpretado. E foi isso o que effectivamente succedeu.
As decisões dos concilios e dos papas, e a tradicional e auctorizada
interpretação da Biblia pela Egreja, adquiriram mais valor pratico do que
a propria Biblia. Os homens que consultassem simplesmente a Biblia podiam
cair no erro, e cair no erro era a morte; aquelles que confiassem na
interpretação biblica da Egreja nunca seriam induzidos ao erro.
Tudo isto, porém, tornava impossivel que a Biblia fosse um meio de
communhão entre Deus e o homem. Entre a Biblia e o crente collocavam os
theologos medievaes as opiniões dos concilios e dos papas, ou, n’uma
palavra, a Egreja. A Egreja interceptava o caminho para Deus mediante a
Sua Palavra interpondo-se ella propria e a sua auctorizada interpretação
entre o crente e a Biblia.
Os reformadores, anhelando pela communhão com Deus, e sabendo por aquillo
que o seu espirito havia experimentado que era possivel têl-a mediante
a simples leitura da Biblia, compenetraram-se do dever de deitar abaixo
essa barreira, e assim o fizeram. Essa barreira, porém, não podia ser
derrubada simplesmente com o dizer-se que a Biblia, e não as tradições
da Egreja, é que era a guia infallivel. A Biblia como os catholicos
romanos a entendiam, essa Biblia que expunha apenas preceitos de doutrina
e de moral, e cujas passagens tinham quatro sentidos, era simplesmente
um livro embaraçoso. Os reformadores tinham de mostrar a Biblia atravez
de outro prisma para que podessem dizer que era infallivel e que era o
arbitro supremo em todas as controversias.
=Os reformadores e a Biblia.=—Deram á Biblia a significação que ella
realmente tinha. Deus havia-lhes fallado por meio d’ella. O Deus pessoal,
que os creara e que os remira, havia-lhes fallado nas paginas da
Biblia, e tornara-os scientes do Seu poder e da Sua vontade de salvar.
A linguagem era algumas vezes obscura, mas encontraram outras passagens
mais claras, e os pontos faceis explicaram-lhes os difficeis. Podia ser
que os homens simples não a comprehendessem toda, não soubessem ligar
todas as suas asserções de modo a constituir um encadeado systema de
theologia; mas toda a gente, fosse ou não fosse theologa, podia ouvir a
voz de seu Pae, inteirar-se do proposito do seu Redemptor e ter fé nas
promessas do seu Senhor. Seria uma boa idéa fazer uma selecção de textos
e formar o systema de theologia protestante que tornasse as coisas mais
comprehensiveis; mas o essencial era ouvir o Deus pessoal e obedecer-Lhe;
era Elle fallar-lhes como em todos os seculos fallou ao Seu povo,
promettendo-lhes a salvação, ora directamente, ora mediante a narrativa
do Seu procedimento com o povo escolhido ou com homens excepcionalmente
favorecidos. Detalhe algum de vida, nacional ou individual, era inutil;
pois que ajudava a completar o quadro da communhão entre Deus e o Seu
povo de outr’ora, esse povo que havia de reviver n’elles e perpetuar
assim o grato sentimento de communhão com o Deus da alliança, bastando
para isso que tivessem a mesma fé dos santos do Antigo e Novo Testamentos.
Animados, como estavam, d’estas idéas, a Biblia não podia ser para elles
o que era para os theologos medievaes. Deixava de existir o quadruplo
sentido. A Biblia era Deus fallando com elles, um Pae fallando com Seus
filhos, do mesmo modo que um homem falla com os seus similhantes; e
ficava subsistindo apenas o sentido manifesto, o sentido historico. Era
mais do que um repositorio de doutrinas e de regras de moral; era, acima
de tudo, uma memoria e uma descripção da bemdita communhão que os santos
haviam tido com o Deus dos pactos desde a primeira revelação da promessa.
A fé era mais do que um frio assentimento ás verdades concernentes á
doutrina e á moral; era uma confiança pessoal no Salvador pessoal que Se
lhes dirigia por meio da Biblia.
Deram-se, por conseguinte, pressa em traduzir a Biblia em todas as
linguas, e collocar a Biblia nas mãos de todos, e declararam que um homem
que possuisse a Biblia, isto é, que ouvisse a voz de Deus, estava mais ao
facto do caminho da salvação do que os concilios e os papas sem ella.
A sua doutrina, que era fructo de tudo aquillo que elles haviam
espiritualmente experimentado, inculcava que o anhelo pela communhão com
Deus era satisfeito mediante a leitura e prégação da Palavra de Deus. A
Biblia porporcionava aos homens o encontrarem-se na presença de Deus e
ouvirem as Suas palavras de conforto.
=A doutrina reformada da justificação, em contraste com a medieval.=—O
segundo grande principio da theologia da Reforma é, por consenso
universal, a doutrina da justificação pela fé sómente. Pode-se tambem
pôl-a em directa connexão com o principio fundamental da Reforma, o
sacerdocio de todos os crentes, ou o direito de accesso, promettido na
Palavra de Deus, á Sua presença.
Ao contrastar a doutrina reformada com a medieval no tocante á
justificação, occorre a mesma difficuldade com que já deparámos
no contraste entre as duas doutrinas ácerca da Escriptura. Diz-se
vulgarmente que os reformadores apregoaram uma justificação pela fé
sómente, ao passo que os seus antagonistas apregoaram uma justificação
pelas obras; mas, posto que isto seja perfeitamente verdadeiro, devemos
lembrar-nos de que a palavra «justificação» é usada em dois sentidos
distinctos pelos dois disputantes.
Para os theologos medievaes, _justificar_ significa tornar justo; para
os reformadores significa declarar justo. Para aquelles é uma operação
que se faz durante um certo tempo; para estes é um acto momentaneo, é
um acto da livre graça de Deus, pelo qual Elle perdoa todos os nossos
peccados e nos acceita como justos a Seus olhos. Para aquelles é uma
obra de purificação do peccado, uma obra de santidade; para estes é a
formação de um juizo, ou, como os theologicos dizem, um acto _forense_.
Os reformadores viram que os theologos medievaes empregavam a palavra
justificação no sentido mencionado, e trataram de apresentar a sua outra
significação. E justificaram esse seu procedimento dizendo que o sentido
que deram ao termo é o que o Novo Testamento lhe dá, pois que o emprega
na accepção de acto, de sentença, de juizo, e nunca na de obra.
O primeiro contraste não é, portanto, entre a justificação medieval e
a doutrina da Reforma, mas entre a doutrina reformada da justificação
pela fé e a que lhe corresponde na Egreja medieval. Justificação, na
theologia reformada, quer dizer o acto de perdoar e de acceitar como
justo; corresponde a essa doutrina, na egreja medieval, a da absolvição
dada pelos padres, pois que era o unico modo como poderia ser concedido o
perdão dos peccados.
=A absolvição clerical e a justificação pela fé.=—Segundo a theologia
da Edade Media, o perdão divino do peccado tinha sempre de ser
proferido por um sacerdote. Quando o penitente se confessasse e se
mostrasse arrependido, tanto por palavras como por actos, o padre tinha
auctorização para pronunciar a sentença absolutoria, e essa sentença era
acceite como sendo proferida pelo proprio Deus, pois que o clero era o
orgão mediante o qual, e sómente mediante o qual, Deus perdoava.
Luthero e os outros reformadores viram que o padre que se suppunha
occupar o logar de Deus e fallar em nome de Deus commettia acções impias,
e a consciencia disse-lhes que, em vista de similhante facto, o perdão
do padre não podia ser o perdão de Deus. Luthero viu que um homem,
munido de um certificado de indulgencias, ia ter com um padre e recebia
perdão sem mostrar arrependimento quer por palavras quer por obras, sem
que, apparentemente, sentisse tristeza alguma no seu coração. Viu que
os padres pretendiam ser a trombeta de Deus, e que concediam perdão em
certos casos em que elle seria negado por um Deus justo e santo.
Luthero e os seus amigos tinham presenciado ou ouvido fallar de casos em
que o perdão de Deus havia sido recusado quando um Deus misericordioso
o teria concedido. Uma successão de papas havia castigado a cidade de
Strasburgo com uma interdicção pelo facto de ella ter tomado uma attitude
na politica allemã que não era do agrado da côrte pontificia, e durante
todo esse tempo não podia ser proferida uma palavra de perdão a qualquer
peccador contricto e arrependido. Os padres perdoavam quando Deus não
perdoava, e recusavam perdoar quando Deus estava prompto a conceder o Seu
perdão.
Luthero, vendo isto, e sabendo como havia sido perdoado por confiar
simplesmente nas promessas de Deus, declarou que o peccador pode ir ter
directamente com Deus, pezaroso por haver peccado e cheio de confiança
nas promessas de Deus, e obter d’Este o perdão. Asseverou que a não
ser que se alcance primeiramente o perdão de Deus, o do padre não tem
valor algum, e que, depois de se alcançar o perdão de Deus, o do padre
é inutil. O perdão alcançava-se indo ter com Deus, e não indo ter
com o padre e ouvindo d’elle a absolvição. A doutrina protestante da
justificação mostra o direito de accesso a Deus para Lhe rogar perdão,
e declara que padre algum está auctorizado a interpôr-se entre Deus e
o peccador arrependido. Deitou por terra a doutrina medieval de que o
perdão divino só pode ser alcançado mediante a absolvição clerical, e
de que o peccador arrependido não se deve prostrar aos pés de Deus mas
deante do confissionario.
=Justificação pela fé e justificação pelas obras.=—Segundo a theoria
medieval, antes de o perdão ser obtido pela fórma ordinaria, mediante
a absolvição sacerdotal, era indispensavel confessar os peccados,
mostrar contricção e fazer penitencia. Na confissão o peccador deve
mencionar ao padre todos os peccados que commetteu desde a ultima vez
que se confessou, e n’este catalogo de peccados não se deve faltar a
um só pormenor. Peccado algum pode ser perdoado sem que se tenha feito
menção d’elle. A confissão deve ser mecanicamente completa. Em seguida
á confissão vem a contricção, ou a dôr por haver offendido a Deus, e
esta, segundo a doutrina medieval, deve manifestar-se de certos modos
esteriotypados que a Egreja tem sanccionado. Depois, e só depois, é que é
possivel a absolvição, quer dizer, o perdão.
A Egreja da Edade Media collocava duas coisas entre o peccador e o perdão
divino proferido pelo sacerdote: uma completa confissão, mecanicamente
feita, em se que fizesse menção de todos os peccados cujo perdão se
desejava, e uma contricção manifestada de certos modos estabelecidos,
taes como a recitação de um grande numero de orações, a abstenção da
comida, etc., e a absolvição dependia da automatica integridade da
confissão e da contricção.
Os reformadores tinham a convicção de que o peccado era uma coisa séria
de mais para que o seu perdão dependesse de uma completa confissão, e
de uma contricção exteriormente manifestada. Deus perdoava por amor de
Christo, não em virtude de uma completa confissão ou de uma perfeita
contricção. Declararam, por consequencia, que, posto que o peccador deva
confessar os seus peccados, e esforçar-se seriamente por se conservar
no caminho da obediencia, o perdão depende da soberana graça de Deus,
revelada em Christo.
Tornou-se-lhes evidente a necessidade de derrubar os obstaculos que
a Egreja medieval havia erguido entre Deus e o homem, e que eram
constituidos pela confissão mecanica, e pela contricção, ou penitencia. O
arrependimento sincero, o arrependimento do coração, é que era de grande
importancia, porque abrangia confissão, contricção e confiança; e Deus, á
vista d’estas coisas, perdoava por amor de Christo.
Justificação pela fé, portanto, significa que o peccador contricto
pode dirigir-se immediatamente a Deus, confiando na consummada obra
de Christo, e alcançar o perdão sem a intervenção de padres ou de uma
serie de rotineiras ceremonias. Deus perdoa em attenção áquillo que
Christo fez, não em attenção áquillo que nós possamos fazer; e, desde
que o perdão se alcança mediante a obra de Christo, e não pelo nossos
esforços, pode ser, e é, dado no principio da carreira christã, não sendo
necessario esperar penosamente por elle até ao fim, como uma doutrina de
justificação pelas obras implicaria.
A doutrina da justificação pela fé, segunda columna da theologia
reformada, provém de aquelle anhelo pela approximação de Deus, ponto de
apoio da Reforma. Significa que o peccador que se sente arrependido, e
tem confiança nas promessas de Deus, pode ir immediatamente implorar-Lhe
o perdão e obtel-o sem interferencias clericaes e sem o cumprimento de
praticas mecanicas.
=Conclusão.=—A Reforma, que foi uma grande revivificação da religião,
tendo por base principal o anhelo pela presença de Deus, a Quem só era
possivel chegar-se mediante o arrependimento e a confissão, acompanhados
de plena confiança nas Suas promessas, aconselhava, pois, os crentes a
terem communhão com Elle por intermedio da Biblia, e a rogarem o perdão
prostrados junto do escabello de Seus pés, e derrubou as barreiras
que foram erguidas pela Egreja politica da Edade Media em frente da
livre e soberana graça de Deus. A nova espiritualidade que animava os
reformadores e os seus adherentes tinha, alimentada pela Palavra de
Deus, e ensinada pelo Seu Espirito, desabrochado por todos os lados,
dando logar a uma theologia reformada, onde a doutrina da predestinação
substituiu a theoria da communhão com Deus por intervenção do papa
e dos seus bispos onde a theoria dos sacramentos foi purificada pela
doutrina do Espirito Santo, onde as Escripturas arbitravam em todas as
controversias, e onde o perdão era proferido por Deus, e não pelo homem;
e em todas as suas ramificações se encontra como idéa predominante o
sacerdocio espiritual conferido por Deus a todos os crentes.
SUMMARIO CHRONOLOGICO
Acontecimentos contemporaneos
1493-1515.—Jan. 12, Maximiliano I. Imperador. Por sua morte ficou como
vice-rei Frederico, o Sabio, da Saxonia (1480-1525).
1499-1535.—O eleitor Joaquim I (Nestor) de Brandenburgo.
1500-1539.—O duque Jorge da Saxonia.
1509-1547.—Henrique VIII de Inglaterra.
1515-1547.—Francisco I de França.
1518-1567.—Filippe, o Magnanimo, de Hesse. (Nasc. em 1504).
1519.—Junho, _Carlos V, (Rei de Hespanha desde 1516)_—27 de Agosto de
1556, _Imperador da Allemanha (fall. em 1558)_.
1519-1566.—O sultão Suliman I.
1519-1521.—Fernando Cortez descobre e conquista o Mexico.
1520.—Magalhães faz uma viagem de circumnavegação.
1521-26.—Primeira guerra entre Carlos V e Francisco I.
1525.—Batalha de Pavia.
1526.—Paz de Madrid.
1523-33.—Frederico I da Dinamarca.
1523-60.—Gustavo Vasa, da Suecia.
1525.—Alberto de Brandenburgo (fall. em 1568); chefe dos cavalleiros
allemães; duque da Prussia, sob o dominio polaco.
1525-32.—O Eleitor João, o Constante, da Saxonia (irmão de Frederico, o
sabio).
1526.—Ago. 29: Luiz, rei da Hungria e da Bohemia, morre em Mohacz, em
combate com os turcos.
O seu successor, Fernando de Austria (Em Out., rei eleito da Bohemia),
tem de defender os seus direitos á Hungria, em detrimento dos turcos.
1527.—Saque de Roma.
1527-29.—A segunda guerra entre Carlos V e Francisco I; Paz de Cambrai,
em Agosto de 1529.
1527.—Henrique VIII de Inglaterra procura divorciar-se de Catharina do
Aragão (tia de Carlos V); 1529, Wolsey cae no desagrado; o chanceller
Thomaz More.
1529.—Set. a 14 de Out.; Suliman põe cerco a Vienna.
1531.—Fernando de Austria, rei dos romanos; opposição da Baviera e
Saxonia.
1532.—Ago. de 1547, João Frederico o Magnanimo, Eleitor da Saxonia, fall.
em 1554.
Henrique VIII divorciado, pelo parlamento, de Catharina de Aragão; Nov.
desposa Anna Boleyn.
1534.—O duque Ulrico de Würtemberg é rehabilitado por Filippe de Hesse.
1535.—Joaquim II, Eleitor de Brandenburgo.
1536-38.—Terceira guerra entre Carlos V e Francisco I.
1538.—A convenção de Nice: dez annos de treguas.
1541-53.—O duque Mauricio da Saxonia; recebeu o titulo de Eleitor em 1547.
1541.—Dieta em Regensburgo; Suliman submette os hungaros ao seu dominio.
1542-44.—Quarta guerra de Carlos V com Francisco I; a Paz de Crespi.
1542.—Dieta de Spira; união contra os turcos.
1544.—Dieta de Spira; reconhecimento dos protestantes; tudo em socego, na
expectativa de um Concilio Geral.
1545.—_Reformatio Wittenbergensis._
1546.—Segunda Conferencia Religiosa em Regensburgo; 18 de fev., Luthero
morre em Eisleben; os protestantes não apparecem na Dieta.