em que os protestantes se achavam envolvidos n’outros paizes. Cecil,
o maior dos ministros que Isabel teve, queria que ella se pozesse á
frente de uma grande liga protestante e prestasse um auxilio efficaz aos
protestantes da Escocia, dos Paizes Baixos e da França. Os ciumes que
Isabel tinha de Maria Stuart forçaram-n’a a coadjuvar em grande medida o
partido protestante da Escocia—a coadjuval-o até ao ponto de elle poder
tornar preponderante aquella fórma de protestantismo em que tanto havia
perseverado. Pelo que, porém, diz respeito aos Paizes Baixos e á França,
Isabel não deu outro auxilio além do que era sufficiente para que o
partido protestante continuasse a existir, e isso mesmo foi feito mais
com o fito de consumir as forças da França e da Hespanha do que com o de
proteger perseguidos correligionarios.
=Luctas intestinas com o catholicismo romano.=—A politica da côrte
romana e especialmente as declarada sintenções e designios dos jesuitas
forçaram Isabel, depois de ter reinado quasi doze annos, a mostrar-se
mais decidida a defender a fé protestante, tanto em Inglaterra como fóra
d’ella. Os jesuitas tinham insistido repetidas vezes em que não se devia
guardar fidelidade aos chefes de estado protestantes; alguns dos seus
emissarios tinham pregado o assassinio como meio licito de desembaraçar
os paizes dos seus soberanos protestantes, e não faltavam exemplos que
advertissem Isabel da sorte que a esperava.
A sua rival, Maria Stuart, expulsa da Escocia, era para a Inglaterra uma
prisioneira perigosa. A morte de Isabel podia tornal-a, a ella que era a
esperança do partido catholico romano, a herdeira mais proxima do throno
inglez.
Em 1570, o regente Moray, que era o chefe politico da Reforma na Escocia,
foi escandalosamente assassinado. Em 1572 foi planeado, e barbaramente
posto em pratica, o massacre de S. Bartholomeu. No mesmo anno o duque
de Alba, Filippe II e o papa conferenciaram com Ridolfi, florentino
que residira durante muito tempo em Inglaterra, sobre a possibilidade
de uma insurreição catholica romana em Inglaterra, dirigida pelo duque
de Norfolk. Descoberta a conspiração, Norfolk foi decapitado. Todos
estes casos mostraram a Isabel que toda a sua salvação estava em entrar
verdadeiramente no caminho da Reforma, e mostraram tambem ao povo o
quanto Isabel era essencial para o triumpho do protestantismo.
É talvez uma evidencia de que a rainha e os seus subditos protestantes
se ligaram mais estreitamente o facto de Edmundo Grindal, clerigo
de pronunciadas tendencias puritanas, ter sido collocado na sé de
Canterbury, vaga em virtude da morte de Matheus Parker.
Em todo o caso, Isabel, se não se mostrou menos intolerante no reino,
reconheceu que era de seu dever enviar mais soccorro aos protestantes
de fóra. Os huguenotes receberam um auxilio pecuniario. Os aventureiros
inglezes, e entre elles Francisco Drake, tiveram permissão para fazerem
todo o mal que podessem ao commercio hespanhol. Isabel mandou, mesmo,
um corpo de exercito para ajudar os neerlandezes na sua guerra com a
Hespanha.
Este procedimento fez com que as forças catholicas romanas trabalhassem
com mais ardor para a ruina da Inglaterra. Estabeleceu-se um seminario
em Douay, e um collegio em Roma, onde se preparassem padres inglezes
que iriam depois para o seu paiz promover agitação entre os romanistas.
E eram continuos os rumores de novas conspirações para collocar Maria
Stuart no throno de Inglaterra.
Isabel e os seus conselheiros compenetraram-se, por fim, do perigo que
ella corria. O parlamento promulgou que os missionarios romanistas
ficavam sujeitos ás penalidades que correspondiam a crimes de alta
traição, e quando se descobriu a conspiração de Babington, para
assassinar Isabel e pôr Maria em liberdade, e se provou que Maria
estava ao facto de toda a trama, ficou decidida a execução da rainha
dos escocezes. Isabel não representou um papel muito heroico n’esta
tragedia, mas adquiriu a certeza de ter, d’esta vez, quebrado todas as
relações com Roma, assim como Roma e os poderes romanos não poderam
deixar de reconhecer que o tempo das conspiratas tinha findado, e que, ou
a Inglaterra seria subjugada, ou ter-se-hia de admittir a Reforma como um
facto consumado.
=A Armada hespanhola.=—Roma e Hespanha descobriram por fim o que o astuto
Guilherme Cecil tinha descoberto desde o principio. «O imperador aspira
á soberania da Europa, coisa que elle jámais poderá conseguir sem que
seja suprimida a religião reformada; e não poderá esmagar a Reforma sem
que primeiro esmague a Inglaterra». Carlos V tinha visto isso, mas não
muito claramente, quando se mostrou tão ancioso por uma alliança com a
Inglaterra, no principio do reinado de Maria. Filippe II viu-o quando
se offereceu para marido de Isabel. Coube, finalmente, a vez ao papa, o
qual, de mãos dadas com Filippe, fez convergir todos os seus esforços no
sentido de subjugar a Inglaterra.
A occasião era propicia. Filippe e a Santa Liga da França tinham,
apparentemente, triumphado. A Inglaterra encontrava-se isolada.
O papa Sixto V excommungou a rainha Isabel, e encarregou Filippe II de
executar a sentença. Sua Santidade contribuiu tambem com uma grande
quantia para ajuda da empreza. Os hespanhoes reuniram uma grande
esquadra, com a qual se propunham atacaria Inglaterra, e, para ter mais
seguro o bom exito, Alexandre de Parma, o mais habil general da Europa,
recebeu ordem para partir dos Paizes Baixos com o mesmo destino, levando
comsigo a flôridas tropas hespanholas.
Isabel appellou para o patriotismo da nação, e esta não se fez surda
ao seu appello. A Escocia, não obstante a execução de Maria, não quiz
levantar-se contra a Inglaterra. A França permaneceu inactiva, pois que
a liga não havia triumphado tanto como se suppozera e não tinha sido
possivel extinguir os huguenotes. Toda a Inglaterra pegou em armas.
Equiparam-se duzentos navios. A nação, fremente de enthusiamo, estava
preparada para o ataque. A Armada, composta de numerosos vasos de guerra
de grandes dimensões, aproou á Inglaterra, mas os ventos produziram-lhe
enormes avarias antes de chegar ao seu destino. Os navios inglezes
cercaram-n’a, e travaram com ella uma serie de combates navaes, que a
pozeram em deploraveis condições. Um temporal medonho completou a obra;
e a soberba frota, que os hespanhoes haviam equipado á custa de mil
sacrificios, deu miseravelmente á costa, sendo pouquissimos os barcos que
conseguiram chegar aos portos de onde haviam saido.
Foi desde então que a protestante Inglaterra ficou sendo a maior potencia
europeia. Não foi possivel supprimir a Reforma porque não foi possivel
vencer a Inglaterra.
É dificil dizer quanto o lado menos nobre de Isabel contribuiu para a
consecução d’este resultado final; o que é certo é que ella administrou
habilmente os recursos da nação, teve o maior cuidado em reprimir o
enthusiasmo d’esta, até que a ella se podesse entregar sem perigo algum,
e determinou, mediante o Acto de Uniformidade, cuja transgressão ficava
sujeita a severas penas, unificar exteriormente a Inglaterra. Pode ser
que os meios de que lançou mão não fossem reputados necessarios, mas
attingiu, pelo menos, o fim que tinha em vista.
=As prophecias.=—A nomeação de um arcebispo puritano não produziu os
beneficios que se esperava. Isabel tinha o costume de demonstrar aos
seus bispos que a supremacia real era uma coisa que existia de facto.
A rigorosa suppressão da não-conformidade havia occasionado uma grande
falta de ministros. Não era raro prover-se individuos sem aptidões para
prégar. Certos pastores animados de bons intuitos promoviam reuniões
clericaes, onde se discutia theologia e havia uma especie de curso
de oratoria. Estas reuniões, que tinham algumas parecenças com os
«Exercicios» da Escocia, e que eram, talvez, uma imitação d’elles,
chamavam-se as «Prophecias». A rainha não gostava d’ellas. Ella não via,
mesmo, a necessidade de se prégar sermões, e entendia que os ministros
se deviam limitar a ler as _Homilias_ ás congregações. O arcebispo
Grindal era favoravel a estas _Prophecias_, e quando a rainha lhe ordenou
para as prohibir recusou-se a fazel-o. A rainha, enfurecida, ameaçou-o
com a deposição, e chegou a suspendel-o do exercicio das suas funcções
episcopaes. Esta suspensão durou até quasi ao fim da vida do arcebispo.
=Os conventiculos.—Os pamphletos anti-prelaticios.=—Quando Grindal
morreu, Whitgift, o irreconciliavel adversario de Cartwright e do
puritanismo, foi elevado a arcebispo de Canterbury. A desastrosa
politica da rainha, rigorosamente executada por elle, teve as suas
naturaes consequencias. O povo, privado dos serviços dos clerigos a
quem respeitava, e obrigado a ouvir outros que não tinham direitos
nenhuns sobre elle, recusou-se a frequentar as egrejas. Reunia-se em
casas particulares e n’outros logares apropriados, e ahi fazia oração e
observava outros pormenores do culto publico. Estes conventiculos foram
declarados illicitos, mas, apezar d’isso, eram cada vez mais numerosos.
Surgiram as seitas não-conformistas.
Knox na Escocia e Beza em Genebra alarmaram-se com o estado da Egreja na
Inglaterra. Elles estavam ao facto das ameaças do poder catholico romano,
e sabiam bem que o protestantismo inglez precisava de estar muito unido.
Não sympathisavam de modo algum com o systema de Isabel, e, comtudo, eram
de opinião que o horror dos puritanos pelos paramentos religiosos era
algum tanto affectado e exaggerado. Escreveram aos dirigentes do partido,
rogando-lhes que se conformassem, mas a espada da perseguição tinha
penetrado demasiadamente nas suas almas. Impedidos de prégar, começaram
a escrever, e por entre o povo foram apparecendo diversos pamphletos por
elles publicados. O que se tornou mais notavel de tudo foi uma serie
de opusculos chamados _Anti-prelaticios_. Esses opusculos atacavam o
systema episcopal da Egreja de Inglaterra, e expunham com uma implacavel
severidade as varias ceremonias papistas que ella ainda conservava. Um
dos auctores, Nicolau Udal, foi descoberto, sendo executado em 1593.
=A Reforma ingleza= ficou firmemente estabelecida depois da derrota da
Armada hespanhola. A Inglaterra reconheceu finalmente que lhe competia
dirigir os Estados protestantes da Europa; e, não obstante o caracter
anomalo da Egreja reformada ingleza, o paiz soube tornar-se digno da sua
posição.
A Reforma ingleza, comtudo, era de um caracter tal que não pode ser
facilmente comparado com o do movimento do mesmo genero que teve logar
n’outros paizes. No primeiro periodo, um monarca caprichoso e absolutista
obrigou o reino a desligar-se do papado, ao mesmo tempo que reprimia
selvaticamente todas as tentativas de uma reforma religiosa, quer na
doutrina quer no culto.
Depois uma minoria da nação, onde figuravam, sem duvida, os homens de
maior capacidade intellectual e de melhores sentimentos, tratou de
promover uma reforma de doutrina e de culto. O movimento, empurrado, por
assim dizer, de fóra, não foi bem acolhido pelo conjunto da nação, que,
com a mudança de governo, voltou para o romanismo.
No reinado de Isabel a nação começou realmente a interessar-se pela
Reforma religiosa que havia agitado outros paizes, mas a supremacia real
encerrou o movimento dentro de uns certos limites que fizeram com que
elle não representasse verdadeiramente as aspirações da Egreja.
Tem sido moda nos ultimos annos entre os escriptores anglicanos e
ritualistas representarem a historia como se a Egreja tivesse sido levada
pelo seu proprio discernimento a assumir a attitude que assumiu para com
o romanismo, de um lado, e para com o decidido protestantismo, do outro;
mas estas representações não são defendidas pela evidencia contemporanea.
Os anglicanos fazem um grande cavallo de batalha do direito que a Egreja
tinha de se governar a si mesma mediante a sua organização episcopal
regularmente estabelecida; e empenham-se, tambem, em provar que a posição
que elles chamam catholica, e que outros chamam anomala, foi assumida
pela propria Egreja, actuando sob a direcção da sua regular jurisdicção
episcopal; mas os factos que se relacionam com este caso são contra
elles. A posição anomala de que se jactam não foi dada á Egreja pelos
seus bispos, mas pelo poder civil que actuava mediante a supremacia real.
Foi a supremacia real, de que elles não gostavam, que fez com que fosse
possivel á Egreja o adquirir uma fórma tal que podesse dar ás suas
theorias uma apparencia de base historica.
Foi a supremacia real que alterou o Livro de Oração Commum de Eduardo
VI, transformando-o n’um outro dentro de cujas formulas havia logar
para pessoas que teriam preferido conservar-se catholicas romanas
se considerações politicas não as obrigassem a passar para o lado
protestante.
Foi a supremacia real que insistiu em reter os paramentos e os ritos
contra os quaes os puritanos se revoltaram, e que diligenciou reter as
imagens, os crucifixos e a agua benta.
Foi a supremacia real e o seu conselho da Alta Commissão—conselho que
nada tinha que ver com o governo episcopal da Egreja, e que era de um
caracter inteiramente erastiano—que estabeleceu a Acta da Uniformidade,
e que impoz a conformidade sob pena de severos castigos, que podiam ser
exoneração, multa, prisão e até perda da vida.
Os cabeças ecclesiasticos, os bispos e o alto clero de Inglaterra
tinham, pela maior parte, o desejo de pôr a Egreja de Inglaterra muito
mais em harmonia, respectivamente á doutrina e ao culto, com as egrejas
reformadas do Continente, que haviam tomado Genebra para modelo.
Os bispos prepararam os _Os trinta e nove Artigos_, que o bispo Jewel,
a quem os seus irmãos confiaram a ultima revisão, declarou que haviam
sido redigidos com o proposito de mostrar que havia perfeita uniformidade
de doutrina, e especialmente da que se refere ao sacramento da Ceia do
Senhor, entre Genebra e Canterbury.
Os bispos, se os deixassem fazer o que entendessem, teriam sensatamente
tolerado as objecções dos puritanos quanto ás capas de asperges e ás
sobrepelizes, e teriam preferido o Segundo Livro de Oração Commum de
Eduardo VI, em uso havia muito tempo na presbyterianna Escocia, aquelle
que foi indicado por Isabel para satisfazer os escrupulos dos catholicos
romanos.
Os bispos obrigaram a rainha a declarar-se contra as imagens, os
crucifixos, a agua benta e o celibato do clero, isto é, contra todas
as coisas que ella desejaria conservar; e compelliram-n’a a acceitar o
Artigo vigesimo nono, que defende a theoria calvinista da Ceia do Senhor.
Se os bispos tivessem tido liberdade de acção, haveria logar na Egreja
de Inglaterra para os não-conformistas da actualidade, pois que a sua
queixa, começando por ahi, não era contra o governo episcopal, mas contra
os symbolos e ritos supersticiosos que lhes foram impostos pela rainha e
pela sua Commissão: difficilmente, porém, haveria logar para os modernos
ritualistas anglicanos.
Devem a posição, que legal e historicamente lhes deve ser concedida, a
duas coisas—(1) á supremacia real, que teve a força sufficiente para
reprimir e ter sujeito a si o episcopal e nacional desejo de uma Reforma
completa; e (2) ao facto de a uma numerosa parte do clero de Inglaterra
serem tão indifferentes as mudanças que poderam conservar-se no exercicio
das suas funcções durante os reinados de Eduardo, Maria e Isabel, isto é,
sob o systema puritano, romanista e anglicano.
A supremacia real deu á Egreja de Inglaterra o caracter claudicante da
sua reforma, e habilitou as pessoas que vivem actualmente a fallar dos
principios catholicos, isto é, medievaes, da Egreja ingleza.
Os historiadores teem mostrado que Isabel tinha necessariamente de
proceder da maneira cautelosa como procedeu, e, com aquella prepotencia
que a caracterizava, obstar a que a Egreja do seu paiz se reformasse por
completo. Ha alguma verdade no seu criticismo. Foi, comtudo, uma politica
myope, que só tratava de acudir ás primeiras necessidades, e que obedecia
muito ao principio de «depois de mim o diluvio.» Foi a supremacia real
de Isabel, imposta mediante o tribunal da Alta Commissão, que preparou
o caminho para a revolta puritana no reinado de Carlos I e para o dia
do Negro Bartholomeu no reinado de Carlos II. Se a Egreja de Inglaterra
tivesse sido entregue aos seus instinctos espirituaes, se a sua acção
não tivesse sido contrariada pelo erastianismo, poder-se-hia ter evitado
estas duas calamidades.
IV PARTE
OS PRINCIPIOS DA REFORMA
CAPITULOS:
I—OS PRINCIPIOS DA REFORMA.
II—COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA.
III—A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES.
IV—OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS.
CAPITULO I
OS PRINCIPIOS DA REFORMA
A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de
particulares condições sociaes, pag. 205.—Uma revivificação
da religião e uma approximação de Deus, pag. 206.—Como a
Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus, pag.
208.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual,
pag. 209.—A imitação de Christo, pag. 209.—Francisco de Assis,
pag. 210.—Os mysticos da Edade Media, pag. 211.—A significação
do perdão, segundo a Reforma, pag. 212.—Previsões de uma
revivificação religiosa operada pela Reforma, pag. 213.
=A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de particulares
condições sociaes.=—O movimento da Reforma surgiu n’um dos mais notaveis
periodos da historia europea. A tomada de Constantinopla pelos turcos
ottomanos no meiado do seculo quinze dispersou por toda a Europa os
thesouros litterarios e os sabios de aquella rica e illustrada cidade.
Muitas pessoas começaram a estudar diligentemente os antigos auctores
latinos; aprenderam a lingua grega, e sentiram despertar-se-lhes a
sympathia pelos nobres pensamentos proferidos pelos velhos poetas
e philosophos gregos; leram o Novo Testamento na lingua em que foi
escripto; e os rabbis judeus encontraram, com grande surpreza sua, no
mundo occidental, homens com immensa vontade de aprenderem a sua antiga
lingua, o hebraico, e de estudarem o Velho Testamento guiados por elles.
Um mundo de novas idéas, quer na poesia, quer na philosophia, quer na
litteratura sagrada, se estava abrindo deante dos homens do periodo em
que a Reforma appareceu.
A descoberta da America por Colombo não só revolucionou o commercio e
tudo quanto se relaciona com elle, como tambem excitou a imaginação da
Europa. O que não poderiam os homens fazer, visto que tanto tinham feito
já, tanto tinham descoberto? Tudo quanto se disse e se escreveu n’aquella
epoca foi dito e escripto por homens que se julgavam em vesperas de
grandes acontecimentos. Foi um tempo de universal expectativa.
As condições politicas da Europa occidental tinham tambem mudado.
Os seculos quatorze e quinze assistiram ao nascimento das modernas
nações europeas. Haviam-se desprendido, umas apoz outras, do systema
politico medieval, e tornado independentes, com sentimentos, sympathias
e aspirações nacionaes, o que fez com que cada nação comprehendesse que
tinha um caminho especial a percorrer.
O resultado de tudo isto foi os homens sentirem que aquelle mundo de
costumes sociaes e de restricção politica e religiosa em que tinham
anteriormente vivido era pequeno de mais para elles; sentiram a
necessidade de mais espaço para respirarem. O mundo era maior; a vida
tinha muito mais aspectos do que aquelles que os paes d’elles tinham
jámais posto na sua idéa. Iam desapparecendo as velhas coisas, e tudo era
agora novo.
Emquanto o medievalismo durou, a Egreja, o Imperio e a philosophia
escolastica tinham dominado sobre as almas, os corpos e as mentes dos
homens, e traçado limites que elles não podiam ultrapassar. Estas
barreiras haviam-se desmoronado sob a influencia da nova vida que por
todos os lados penetrava n’elles, e os homens descobriram que a religião
era uma coisa maior do que a Santa Madre Egreja Catholica; que a vida
social, com todas as suas ramificações, não cabia nos limites do Sacro
Imperio Romano; que havia no coração do homem pensamentos que escapavam á
perspicacia dos mais eminentes sabios.
Em epocas anteriores alguns, mas poucos, pensadores tinham, com toda
a ousadia, dado expressão a essas idéas e aspirações, lucrando apenas
com isso o encontrarem-se na grave situação de isolamento social, como
acontece a todos aquelles cujos pensamentos não são comprehendidos
pelos homens do seu tempo. A invenção da imprensa tornou, porém, esses
pensamentos propriedade commum, e as multidões principiaram a ser
agitadas por elles.
Taes eram as condições sociaes do mundo quando a Reforma appareceu;
mas o movimento, em si, não pode ser explicado simplesmente por meio
de uma descripção d’essas condições sociaes. Teve logar uma verdadeira
renascença da religião, um cumprimento da promessa do derramamento do
Espirito Santo sobre a Egreja, que o esperava, e o movimento religioso
que surgiu n’uma tão especial conjunctura amoldou-se ás circumstancias, e
tirou d’ellas mesmas a sua força.
=Uma revivificação da religião e uma approximação de Deus.=—O que
mais agita os corações dos homens que se encontram no meio de um
grande movimento religioso dentro da Egreja christã é o desejo de se
approximarem de Deus, de se sentirem em communhão pessoal com aquelle
Deus que se mostrou cheio de graça e perdão mediante a vida e obra do
Senhor Jesus Christo. Os homens que estão realmente sob a influencia
de um grande despertamento religioso, e que são arrastados por um
movimento de revivificação, devem sentir este anhelo; e coisa alguma
deve contrarial-os mais do que depararam com o seu caminho atravancado
de obstaculos exactamente no ponto onde esperavam ter accesso á presença
divina.
Quando, no seculo dezeseis, a religião começou a revivescer, e mesmo
durante algum tempo depois, os homens que estavam sob a influencia d’essa
revivificação encontraram no seu caminho as taes barreiras de que já
falámos. A Egreja, que se intitulava a porta que dava accesso á presença
de Deus, tinha atravancado o caminho com a sua classe sacerdotal, com a
sua maneira de administrar os sacramentos, com a sua enfadonha lista de
penitencias e «boas obras». A Egreja, que devia ter mostrado a vereda
que conduzia á presença de Deus, parecia ter rodeiado o Seu santuario
de um triplice muro que tornava difficilima a entrada. Quando um homem
ou uma mulher sentia o peccado a atormentar-lhe o espirito, a Egreja
dizia-lhe que fosse ter, não com Deus, mas com o homem, muitas vezes
de vida immoral, e confessar-lhe tudo quanto havia feito ou pensado.
Quando anhelavam por ouvir consoladoras palavras de perdão, era-lhes
este assegurado, não por Deus, mas por um padre. A graça de Deus, de que
o homem tanto precisa durante a vida, e de que tanto precisa tambem á
hora da morte, era-lhes concedida por meio de uma serie de sacramentos a
que tinham de sujeitar todos os passos que davam n’este mundo. Renasciam
mediante o baptismo; adquiriam a sua maioridade perante a Egreja mediante
a confirmação; o seu casamento ficava isento do peccado da concupiscencia
mediante o sacramento do matrimonio; a penitencia restituia-os á vida,
depois de terem commettido qualquer peccado mortal; o sacramento da
Ceia do Senhor, administrado pelo menos uma vez por anno, alimentava-os
espiritualmente; e, finalmente, a extrema unção garantia-lhes o descanço
eterno quando se encontravam no leito da morte. Estas coisas não
constituiam de maneira alguma os signaes da livre graça de Deus, sob cujo
vasto docel o homem passa a sua vida espiritual. Eram, antes, umas portas
guardadas com toda a vigilancia, e que os padres abriam de mau humor, e
quasi sempre só depois de lhes pagarem, para dispensar aquella graça que
Deus dá gratuitamente.