O nuncio escolhido pelo papa foi Reginaldo Pole, segundo sobrinho de

Eduardo IV. Pertencia, portanto, á aristocracia ingleza, mas havia

preferido o desterro a reconhecer a supremacia real de Henrique VIII ou

a legalidade do divorcio de Catharina de Aragão. Era parente de Maria, e

fôra um dos que haviam soffrido por terem tomado a defeza da mãe d’ella.

Solicitou-se do parlamento a sua reabilitação. Esta foi proclamada,

e Pole foi recebido em Inglaterra como membro da nobreza. Apresentou

então as suas credenciaes, que o acreditavam como legado do papa. O povo

acolheu a noticia com indifferença. Por fim o parlamento approvou uma

proposta para que se tratasse de promover a reconciliação com Roma. Em

1554, no dia de Santo André, o cardeal nuncio absolveu solemnemente a

nação. Filippe e Maria, com ambas as casas do parlamento, ajoelharam-se

na presença do cardeal emquanto este os restituia á communhão da Santa

Madre Egreja. O parlamento revogou todas as leis que affirmavam a

supremacia real e que rejeitavam a supremacia do papa. O clero, por outro

lado, renunciou solemnemente a todas as reivindicações quanto aos bens

abbaciaes e a outras propriedades da Egreja que haviam sido sequestradas.

A união com Roma estava novamente restabelecida por completo.

=Porque não foi bem succedida a reacção.=—No espaço de dois annos

a Inglaterra estava, segundo todas as apparencias, inteiramente

reconciliada com o papa. Como que parecia que o reinado de Eduardo nunca

tinha existido, e que Henrique tinha vivido em harmonia com o papa até ao

fim da sua vida. Tinha-se estabelecido a reacção catholica romana, que

parecia disposta a levar tudo de vencida; mas apoz um curto periodo o

movimento reaccionario foi obrigado a deter-se, e dentro de alguns annos

a Inglaterra havia-se transformado n’uma grande nação protestante. Como

se operou esta transformação?

É talvez impossivel distinguir todas as causas, mas apparecem tres

d’ellas á superficie da historia: as perseguições que tiveram logar

durante o reinado de Maria, as questões por causa dos terrenos

ecclesiasticos, e o alastramento da opinião favoravel á Reforma como

resultado das predicas evangelicas no curto reinado de Eduardo.

=As perseguições no reinado de Maria.=—Os protestantes que existiam em

Inglaterra no tempo de Maria não soffreram tão atrozes perseguições como

as que dizimaram os huguenotes da França ou victimaram os reformadores

dos Paizes Baixos. Despertaram, comtudo, no paiz um tal horror ao papismo

que ainda hoje subsiste. A razão d’isso foi devida, em parte, ao modo

barbaro como se arrancou a vida aos martyres, e em parte á idéa, que

se arraigou, de que as execuções eram instigadas por Filippe, fazendo

parte do vasto plano que elle havia formado para reduzir a Inglaterra ao

dominio hespanhol.

A politica de Maria e de seus conselheiros era a de exterminar todos

os que durante o reinado anterior haviam fomentado a Reforma. Os

homens condemnados ao exterminio eram todos bem distinctos, tanto pelo

nascimento, como pela eloquencia, como pela illustração, como pela

piedade. Eram: Cranmer, o edoso primaz, Hooper, bem conhecido pela

sua férvida eloquencia, Ridley, um dos mais sabios e mais tolerantes

theologos reformados. O povo conhecia bem os homens que acabavam de ser

derrubados, e não foi indifferente á morte d’elles. A Inglaterra viu

serem entregues ao carrasco e queimados em vida os seus homens mais

eruditos e de maior capacidade moral.

E por que motivo? perguntaram todos. Por causa da alliança com a

Hespanha. Era preciso agradar a Pilippe, o beato, o hypocrita, o homem

insensivel a todos os males, e estar de bem com aquella nação que havia

consentido que os seus proprios filhos e filhas fossem torturados pela

inquisição, e, sem a menor sombra de revolta, se havia submettido ao mais

esmagador despotismo.

Os martyres encararam os ultimos momentos com um valor christão. Durante

a vida não conseguiram despertar a confiança universal, mas com as suas

mortes provaram que estavam bem convencidos do que apregoavam, e fizeram

penetrar no coração do povo a verdade das opiniões que haviam forcejado

por tornar dominantes emquanto poderam e pelas quaes morriam agora com

satisfação.

=As terras da Egreja.=—Maria havia sido prevenida por Carlos V de que

não devia tentar restituir á Egreja os bens abbaciaes. Estes tinham sido

vendidos, e, em virtude da venda, estavam divididos por cerca de quarenta

mil pessoas. Tocar-lhes era atacar o direito de propriedade. A Egreja e

o papa haviam renunciado á reivindicação da sua posse, antes mesmo do

parlamento ter abolido as leis que eram contrarias ao pontificado e á

religião catholica romana. Maria, porém, tinha o coração desasocegado.

Aquellas terras pesavam-lhe na consciencia. Como poderia a Inglaterra

ser abençoada emquanto tantos dos seus subditos e ella propria estavam

aproveitando dos roubos feitos á Egreja?

O papa Paulo IV, que havia sido consagrado em 1555, não approvou a

conducta do seu predecessor no que dizia respeito áquella questão, e

pediu repetidas vezes á rainha que fizesse a restituição. Maria accedeu,

por fim, ás suas instancias, e conseguiu com alguma difficuldade, que as

camaras dessem o seu consentimento para que as terras da Egreja, ainda em

poder da corôa, passassem para os seus primitivos donos. Isto produziu um

grande descontentamento. Fez com que os possuidores dos restantes bens

abbaciaes deixassem de considerar garantidos os seus direitos, e a perda

de dinheiro que a rainha soffreu obrigou-a a augmentar os impostos. A

Egreja mostrava-se, como sempre, inexoravel, e o povo começou a odial-a.

=O effeito do ensino da Reforma no reinado de Eduardo VI.=—Os theologos

estrangeiros que no reinado anterior tinham vindo ensinar para Oxford

e Cambridge haviam educado uma geração de jovens estudantes que,

convencidos da verdade das suas opiniões, as acceitaram e as espalharam

por entre o povo, e que com muita satisfação davam agora a sua vida por

ellas. Até ali pouco tinha havido na Reforma ingleza que despertasse

o enthusiasmo. O povo tinha passado, com a maior das facilidades, de

uma profissão de fé nacional para outra. As perseguições de Maria

tornaram heroica a Reforma; e jovens prégadores, amestrados por Martinho

Bucer e Pedro Martyr, arriscavam com muito gosto as suas vidas para

conseguirem que os seus compatriotas acceitassem as doutrinas biblicas

dos reformadores. As traducções da Biblia, e em especial a de Tindal e a

de Coverdale, eram lidas por centenas de pessoas, e a Inglaterra ia sendo

esclarecida ácerca da significação da Reforma.

O povo estava fartissimo de perseguições, e indignado contra a Egreja

que as havia occasionado; sentia desdem pela avidez que a Egreja havia

mostrado quando chamada a tomar de novo posse das propriedades que lhe

haviam sido tiradas, e conhecia agora melhor as Escripturas e estava mais

ao facto do que era a Reforma. Tudo indicava que a grande força de que a

reacção poderia dispôr não se manifestaria por muito tempo.

=A morte de Maria.=—Maria morreu em 1558, de uma hydropesia, escapando,

talvez, d’esse modo, de ser victima de uma revolução. «A mais infeliz das

rainhas, das esposas e das mulheres», o seu nascimento tinha enchido de

regozijo uma nação, e tivera por mãe uma princeza da mais altiva casa da

Europa. Na sua infancia havia recebido o tratamento de futura soberana

de Inglaterra, e era, no dizer de todos, uma encantadora e sympathica

rapariga. Depois, aos dezesete annos, foi-lhe vibrado um golpe esmagador,

que a cobriu de trevas para toda a vida, O seu pae, o parlamento, e

a Egreja do seu paiz chamaram-lhe filha illegitima, e, marcada com

este ferrete maldito, foi chorar na solidão a sua ignominia. Quando a

Inglaterra a saudou como rainha no seu trigesimo-setimo anno, era já uma

velha de faces cavadas e voz aspera, conhecendo-se apenas pelos olhos,

negros e cheios de fulgor, o quão formosa havia sido out’ora. O povo,

porém, parecia amar aquella mulher, que durante tanto tempo anhelava

por um affecto; casara com um marido da sua escolha, e ella propria se

reputava um instrumento predestinado pelo céu para que se reintegrasse no

divino favor uma nação excommungada. O marido, a quem ella idolatrava,

aborrecendo-se d’ella passado um anno ou dois, retirou-se para Hespanha.

A creança cujo nascimento ella desejava apaixonadamente não chegou a

nascer. A Egreja e o papa, a quem ella tanto sacrificara, fizeram-se

surdos ás suas supplicas, e pareciam não se importar com os desgostos que

a affligiam. E o povo, que a recebera com tanto enthusiasmo, e a quem

ella realmente amava, chamava-lhe Maria a Sanguinaria, e esse cognome

tem sido transmittido de geração em geração até aos nossos dias. Cada

tribulação por que passava era, no seu entender, um aviso do céu, por não

ter ainda feito plena propiciação pelos crimes da Inglaterra, e, assim,

as fogueiras da perseguição foram de novo accesas, e novas victimas se

arremessaram para ellas, para aplacar o Deus do romanismo do seculo

dezeseis.

CAPITULO III

A REFORMA NO TEMPO DE ISABEL

A successão de Isabel, pag. 189.—Como se liquidou a questão

religiosa, pag. 190.—_Os trinta e nove artigos_, pag.

197.—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes, pag.

192.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, pag.

194.—A lucta interna com o catholicismo romano, pag. 195.—A

Armada hespanhola, pag. 196.—As prophecias, pag. 197.—Os

_conventiculos_, pag. 198.—_Os pamphletos anti-prelaticios_,

pag. 198.—A Reforma ingleza, pag. 198.

=A sucessão de Isabel.=—Por morte de Maria, Isabel foi, sem opposição,

proclamada rainha. O partido catholico romano, que se poderia ter opposto

á sua successão, não dispunha de força para isso, pois que a Inglaterra

estava em guerra com a França, e a unica rival de Isabel era a esposa do

Delfim, Maria, a rainha da Escocia. E, comtudo, a sua legitimidade era

para todos os catholicos romanos em extremo duvidosa. Isabel era filha de

Anna Boleyn, e Catharina de Aragão ainda estava viva quando ella nascera.

A Inglaterra achava-se em deploraveis condições quando ella subiu ao

throno. Nos cofres do Estado não havia dinheiro, apezar de se terem

cobrado adeantadamente as receitas, e a guerra com a França estava

levando a ruina a todos os lares. A situação individual da rainha era

a mais precaria que se póde imaginar. A sua legitimidade era mais do

que duvidosa. A França, na primeira occasião opportuna, havia de fazer

valer os direitos de Maria Stuart. A Hespanha, que era, apparentemente,

a unica nação com que ella podia contar, era odiada pelos inglezes. A

força do protestantismo nas provincias era duvidosa. Vendo os perigos

de uma questão religiosa logo no principio do seu reinado, a rainha

contemporizou. Ia á missa para agradar aos catholicos romanos. Prohibiu

a elevação da hostia para agradar aos protestantes. E poz-se á espera de

ver o que a Hespanha e a Inglaterra diziam.

A Hespanha parecia estar em amigaveis disposições. Filippe II

ofereceu-lhe a mão de esposo, mas a alliança hespanhola dependia tanto

de Filippe como do papa, e Isabel não tardou em certificar-se de que da

Curia Romana não acolheria benevolamente a filha de Anna Boleyn. Quando

o embaixador anunciou a sua acclamação ao papa, este respondeu: «Isabel,

na sua qualidade de filha illegitima, não podia subir ao throno sem o meu

consentimento; é um desproposito da parte della, se o fizer. Que ella, em

primeiro logar, submetta á minha decisão as suas reivindicações.» Não era

preciso mais. Isabel não podia, de ahi em deante contar com a Hespanha.

Não teve, tão pouco, de esperar muito tempo pela resposta da Inglaterra.

O seu primeiro parlamento era quasi todo composto de protestantes.

As côrtes reuniram-se em 1559, e restabeleceram a supremacia real,

posto que de uma fórma modificada. Henrique VIII havia-se chamado a

si proprio «o unico chefe supremo da Egreja de Inglaterra no mundo».

Isabel contentou-se com um titulo menos pomposo, o de «Chief Governor»

(Governador Geral), e o parlamento decretou que todos os clerigos

e magistrados a reconhecessem, sob juramento, como rainha, «a quem

pertencia o governo de todos os estados, quer civis quer ecclesiasticos.»

Uma commissão de doutores em theologia, nomeada para rever o Livro de

Oração Commum do rei Eduardo, modificou-o de maneira que podesse ser

usado pelos catholicos romanos, e essa revisão foi, por recommendação

d’elles, adoptada.

A Inglaterra quiz abraçar o protestantismo, e Isabel, privada por Maria

da Escocia de uma alliança com a França, e pelo papa de uma alliança com

a Hespanha, não teve outro recurso senão o de conquistar as sympathias do

povo inglez e fazer-se egualmente protestante.

=Como se liquidou a questão religiosa.=—Isabel não era, de maneira

nenhuma, o que se chama uma boa protestante. Não possuia fortes

convicções religiosas. Parecia-se n’isso com a grande massa do povo e do

clero que lhe coubera em sorte governar. Quando Eduardo subiu ao throno,

era ella uma rapariga de dezeseis annos; apezar de tão nova, porém, sabia

conduzir-se muito ajuizadamente, e provou-o conformando-se com a religião

patrocinada pela côrte. Quando Maria cingiu, por sua vez, a corôa,

contava ella vinte annos, e era dotada de um espirito muito resoluto.

Conformou-se outra vez com o culto catholico romano. Era, pelo que tocava

aos sentimentos, uma digna filha de seu pae, e preferia as doutrinas e o

systema catholicos romanos, occupando o soberano o logar do papa.

Era uma Tudor, e amava o luxo e a sumptuosidade. Havia herdado uma grande

disposição para dominar, e a Egreja Catholica Romana era então o modelo

por excellencia de um governo despotico. Ella havia recebido uma boa

educação litteraria, e comprazia-se muito em ler os antigos auctores

gregos. Gostava de uma Egreja que mostrasse reverencia pelas opiniões e

praticas patristicas. Era muito amiga de festas e ceremonias, e preferia,

por esse motivo, o ritual apparatoso da Egreja de Roma. O que, porém, não

queria era encontrar o papa no seu caminho.

Detestava João Knox, e, mediante elle, Calvino e toda a escola

genebrense. Não gostava da doutrina da justificação pela fé, nem da

simplicidade do culto genebrense, e, acima de tudo, abominava aquelles

principios democraticos de governo da Egreja que se haviam identificado

com o presbyteriannismo. Os reformadores da envergadura de Knox, com as

suas doutrinas da predestinação, do livre perdão obtido directamente de

Deus, e do sacerdocio espiritual de todos os crentes, temiam sómente

a Deus. Isabel queria que os homens temessem tambem o rei, e estava

convencida de que o temor da Egreja era uma boa preparação para o temor

do monarca. Ella não possuia a subtileza de espirito para dizer como o

seu successor, «Sem bispo não pode haver rei», mas pensava-o.

O parlamento havia-lhe demonstrado que a Inglaterra era mais protestante

do que ella desejaria que fosse, e submetteu-se acceitando o Livro de

Oração Commum e outras usanças protestantes.

Os bispos catholicos romanos que haviam sido promovidos a essa dignidade

durante o reinado de Maria tiveram a coragem de protestar contra taes

mudanças. Resignaram os seus cargos ou foram d’elles exonerados. Em 1559

estavam vagas todas as sés episcopaes, á excepção da de Llandaff.

Foi instituido um novo episcopado, e á sua frente collocou a rainha

Matheus Parker, que havia sido um dos capellães de sua mãe.

Conseguiu-se completar o numero indispensavel de bispos para uma

consagração legal, chamando do isolamento a que se haviam acolhido os

bispos de Eduardo VI que a rainha Maria tinha deposto. As idéas de

Parker eram muito mais protestantes do que as de Isabel, mas parece

que elle não se preocupou muito com as innovações introduzidas pela

rainha. Escolheram-se outros bispos do mesmo caracter, e o todo ficou

constituindo uma Egreja protestante que descançava sobre uma visivel base

catholica romana.

Isabel em breve descobriu, porém, que os seus bispos eram muito mais

protestantes do que ela desejaria que fossem. As perseguições executadas

por ordem de Maria fizeram com que muitas familias inglezas se retirassem

para fóra do reino. Tinham formado colonias em Francfort, em Genebra,

e n’outras partes, tinham adquirido intimidade com os theologos

calvinistas, e, ao voltarem para Inglaterra, eram tambem calvinistas.

Eram pessoas que não podiam estar silenciosas; tinham soffrido, e os

martyres do ultimo reinado eram tidos em grande honra; tinham opiniões,

e podiam apresentar um motivo da sua fé. Os bispos sabiam que a Egreja

de Inglaterra não podia ser aquillo que Isabel desejava que fosse, e

devia possuir uma auctorizada exposição de doutrinas, um credo cujos

delineamentos principaes fossem calvinistas. A rainha viu-se obrigada

a consentir n’isso, e os bispos prepararam uma profissão de fé chamada

_Os Onze Artigos_. Isabel queria conservar as imagens, os crucifixos e

os paramentos, mas os bispos sabiam que o povo não se conformaria com

similhantes coisas. A questão prolongou-se tanto que os bispos, n’uma

occasião, ameaçaram-n’a com um pedido collectivo de demissão. O artigo

undecimo declarava, portanto, que «as imagens eram coisas vãs».

=Os trinta e nove artigos.=—Este curto formulario de doutrinas foi,

passado algum tempo, considerado insufficiente, e, além d’isso, a rainha

teimava em dar á Egreja uma orientação que a tornava muito parecida

com a catholica romana. Queria, por exemplo, tornar obrigatorio o

celibato clerical. Os bispos reconheceram a necessidade de uma serie,

ou exposição, auctorizada dos pontos dogmaticos da Egreja. O arcebispo

Parker, com a assistencia dos bispos de Ely e de Rochester, pegou nos

_Quarenta e dois Artigos_ de Cranmer, omittiu tres, e reviu os restantes.

A revisão foi apresentada ás Casas da Convocação, que lhe fizeram uma

segunda revisão. A rainha leu e esquadrinhou os Artigos antes de dar o

seu consentimento, e fez duas muito caracteristicas alterações. Inseriu a

primeira clausula do Artigo XX: «A Egreja tem poderes para decretar ritos

ou ceremonias, e auctoridade nas controversias sobre a fé»; e riscou

o Artigo XIX: «Dos impios, que não comem o corpo de Christo á Mesa da

Communhão». Os bispos, porém, insistiram na re-introducção d’esse Artigo,

e a rainha submetteu-se. Estes Artigos são, e houve intenção de que o

fossem, calvinistas na sua theologia. O bispo Jewel, que lhes fez uma

definitiva revisão em 1561, escreveu a Pedro Martyr, que se encontrava

em Zurich: «Quanto a pontos de doutrina, fomos cortando tudo até chegar

á carne viva, e não differimos de vocês na espessura de uma unha.» Assim

a Egreja, que havia alterado o seu Livro de Oração Commum para o amoldar

ao gosto catholico romano, formulou os seus artigos de religião, o seu

credo, de tal modo que ficou em conformidade com as egrejas reformadas da

Suissa.

=O puritanismo e as vestimentas clericaes.=—A rainha não gostava dos

trinta e nove artigos, e havia-o manifestado. A sua approvação tinha

sido uma victoria para o partido protestante com que ella dificilmente

se conformava. Animados com o bom exito alcançado, os puritanos

tentaram, de uma maneira vigorosa abolir o Livro de Oração Commum, e

desembaraçar-se de todos os ritos e paramentos que procediam da Egreja

medieval, e estiveram a ponto de ser bem succedidos. Isabel resistiu com

toda a força e tenacidade de que era dotada, e saiu, por fim, victoriosa.

Este conflicto com os puritanos começou cerca do anno de 1564, e

durou durante toda a vida de Isabel. Ao principio o ponto principal

em discussão era o uso da capa de asperges e da sobrepeliz, que é uma

sobrevivencia da toga branca, ou traje de ceremonia, do imperio romano.

Os puritanos do tempo de Isabel mantinham-se n’uma posição identica á de

seus irmãos no reinado de Eduardo VI. Sustentavam que os cargos na Egreja

christã não são sacerdotaes nem senhoriaes; ninguem era eleito bispo pelo

facto de ser clerigo, e poder por essa razão approximar-se mais de Deus

do que os seculares, ou porque o governo lhe havia sido conferido por uma

auctoridade de fóra da Egreja, mas porque os officios de superintendente

e pastor são de utilidade para a Egreja, e porque a Egreja chama esses

homens para a servirem no limite das suas funcções. Recusavam fazer uso

dos paramentos, porque estes significavam uma coisa em que elles não

criam.

A contestação tomou em breve um caracter violento. Os bispos sentiam-se

inclinados a contemporizar, pois que sabiam o quanto se havia espalhado

e quão profundamente arraigada estava aquella opposição ás vestes

clericaes; mas a rainha não lh’o permittiu. Fez uso do poder que a

supremacia lhe dava sobre os bispos para os obrigar a pôrem em execução a

Acta da Uniformidade, e isso deu logar a que o puritanismo fosse como que

um protesto contra a supremacia real e contra a constituição episcopal,

e como que um brado para que o povo tivesse voz activa no governo da

Egreja, o que só o presbyteriannismo ou o congregacionalismo pode

proporcionar. Durante os annos de 1565 e 1566 foram em grande numero os

ministros que perderam os seus logares por não se quererem conformar com

os usos estabelecidos.

A rainha entendia que a sua posição como governadora da Egreja a

auctorizava a proceder a continuos inqueritos ao modo como era conduzido

o culto publico nas paroquias de Inglaterra. Nomeou commissarios

reaes para inspeccionar e dar-lhe as necessarias informações, e estes

agentes de Isabel vieram a constituir o Tribunal da Alta Commissão,

que se tornou um instrumento de tyrannia ecclesiastica nos reinados

de seus successores. Por estes commissarios foi Isabel informada da

existencia dos não-conformistas, e insistiu n’uma submissão ás praticas

estabelecidas.

O povo fez, na sua maioria, causa commum com os ministros que estavam

inhibidos de tomar parte nos serviços. As prisões e as multas só

serviram, como sempre aconteceu, para ateiar as chammas da dissidencia.

Esta fez a sua apparição nas universidades. Os estudantes recusaram fazer

uso da sobrepeliz ou assistir aos serviços religiosos feitos por clerigos

paramentados. Foram tantas as paroquias que vagaram que não era possivel

arranjar ministros para todas; e, quando qualquer ministro submisso era

collocado n’uma d’ellas, o povo, em geral, apupava-o. Alguns dos mais

zelosos ministros separaram-se da Egreja nacional.

O grande dirigente dos puritanos era Thomaz Cartwright, que, tendo sido

educado no Collegio de S. João, em Cambridge, veiu a ser depois professor

de theologia. Era um homem piedoso e illustrado, e um eloquente prégador,

e, tendo perdido a sua cadeira de lente por causa das suas opiniões,

ainda por cima teve de soffrer o exilio. Dois puritanos, Field e Wilcox,

escreveram um folheto moderado—_Uma advertencia ao parlamento_—sobre

a disciplina da Egreja e as medidas violentas que haviam sido tomadas

contra os puritanos. Foram mandados para Newgate, como dois criminosos

quaesquer. Cartwright escreveu uma _Segunda Advertencia_ em defeza

dos seus amigos, e teve, pela segunda vez, de fugir do paiz. A rainha

respondia a cada pedido de tolerancia com novas exonerações, a ponto

de haver n’uma só diocese, a de Norwich, segundo consta, não menos

de trezentos ministros suspensos. O arcebispo Parker morreu em 1575,

havendo-lhe o cargo de executor da rainha, que desempenhava bem contra

sua vontade, tornado amargosissimos os ultimos annos da sua vida.

=A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino.=—Ha alguma desculpa

para as medidas tomadas por Isabel contra os puritanos no principio do

seu reinado. A Inglaterra estava fraca, estava empobrecida, e o throno

de Isabel não offerecia estabilidade. Não sympathisava com a Reforma no

que ella mais profundamente significava, e não a animava o desejo de

ver o seu povo convertido n’uma nação de enthusiasticos reformadores. A

Inglaterra, segundo a sua opinião, precisava de descanço e de paz para

recuperar as suas esgotadas energias. Se a Inglaterra tivesse abraçado

o protestantismo com verdadeiro enthusiasmo, não assistiria de braços

cruzados ás crueldades commettidas para com os protestantes francezes e

hollandezes pela França e pela Hollanda. Desempenharia na Escocia, nos

Paizes Baixos e na França o papel de campeão protestante. Isabel, com a

sua impassivel politica, conservou o povo inglez de reserva para o grande

futuro que o esperava. «Nada de guerra, meus senhores, nada de guerra»,

exclamava ella invariavelmente quando Cecil ou outro qualquer ministro

manifestava o desejo de a ver collocada á frente de uma liga protestante.

Isabel não obstante a sua anterior attitude de resistencia, não desejava

romper por completo com os papistas, ou apresentar-se quer aos seus

subditos catholicos romanos, quer ás nações continentaes, como uma rainha

forte e resoluta. A Inglaterra necessitava de descanço, e a rainha havia

determinado conservar em paz o seu paiz.

A Reforma · 第 20 / 27 段