estavam promptos a dar tudo quanto possuiam, e até a propria vida,
pela causa da Reforma, que elles estavam na convicção de ser a causa
de Christo. No numero d’esses homens figuravam o Protector, Somerset,
e outros membros do conselho da regencia, que deliberaram introduzir
a Reforma na Inglaterra. A intenção de se manter a supremacia real
appareceu sob a fórma de uma carta dirigida aos bispos, intimando-os a
solicitar do novo soberano a renovação das suas licenças. Isto tinha
sido inventado por Cromwell para que não fossem prejudicadas as regias
prerogativas.
=A real inspecção.—O Livro das Homilias.—O Livro de Oração
Commum.=—Ordenou-se uma real inspecção a todo o reino. O paiz foi
dividido em seis circumscripções, e para cada uma d’ellas foi nomeado um
funccionario, que deveria averiguar se os serviços ecclesiasticos estavam
sendo executados segundo as leis vigentes. A jurisdicção episcopal
esteve durante algum tempo suspensa, pois que os inspectores iam em nome
do rei. Providenciou-se tambem para que fossem melhorados os serviços
ecclesiasticos em certas localidades onde foram encontradas deficiencias.
O arcebispo Cranmer, que lá no seu intimo havia sido sempre lutherano,
e que animara o conselho da regencia em todos os planos d’este, compoz
um _Livro de Homilias_, que foi entregue ao clero paroquial, com a
recommendação de ser lido nas egrejas. A _Paraphrase do Novo Testamento_,
de Erasmo, foi adaptado ao uso inglez, e deu-se ordem para que tambem
fosse lida no culto publico.
Estas medidas não foram tomadas sem opposição. Gardiner, bispo de
Winchester, que tinha adquirido grande influencia sobre Henrique VIII
nos ultimos annos da vida d’este, e que fôra um dos auctores do Estatuto
Sanguinario, estava á testa do partido reaccionario, e protestou contra
todas as propostas dos visitadores.
Entretanto o parlamento reuniu-se, aboliu os _Seis Artigos_, declarou
que os clerigos ficavam desobrigados do voto de celibato, que na Ceia do
Senhor o vinho, assim como o pão, devia ser administrado aos leigos, e
approvou a politica ecclesiastica do Protector Somerset.
As inspecções proseguiram. A fim de tornar o serviço nas egrejas mais
simples, mais attrahente e mais uniforme, ordenou-se o uso do _Livro de
Oração Commum_, compilado, por Cranmer, dos antigos rituaes. Foi este o
_Primeiro Livro de Oração Commum de Eduardo VI_, e, posto que mais tarde
passasse por algumas modificações e fosse um tanto augmentado, é, no seu
conjuncto, o de que a Egreja de Inglaterra faz uso actualmente.
Iam apparecer em breve outros indicios de um afastamento do romanismo. As
imagens e reliquias das egrejas foram destruidas. Aboliram-se os antigos
dias de jejum, e o arcebispo Cranmer deu o exemplo, comendo carne, á
vista de todos, na quaresma.
Tudo isto desgostou immenso uma grande parte, talvez a maioria, do povo
e do clero, sem que, comtudo, resistissem abertamente. Bonner, bispo de
Londres, tentou oppôr-se indirectamente á corrente, declarando que o
novo Livro de Orações podia ser tomado n’um sentido romanista; mas isso
apenas levou a uma mais decisiva definição dos seus termos theologicos,
á remoção dos altares das egrejas e á sua substituição por mesas, e á
preparação de um novo _Livro de Ordem_.
Dentro em pouco tempo todo o aspecto da Egreja se havia mudado, e em
doutrina e culto a Egreja de Inglaterra tinha-se tornado protestante.
As mudanças que se haviam feito tinham promovido um grande sentimento
de desagrado para com Somerset; houve tentativas de revolta; e, posto
que estas fossem suffocadas, a falta de bom exito do Protector, tanto na
politica exterior como na interna, combinada com o desagrado produzido
pelas suas medidas religiosas, deu origem á sua queda, sendo succedido
pelo conde de Warwick.
=A alliança com o protestantismo continental.=—A subida de Eduardo
ao throno e a politica protestante de Somerset e Warwick animaram o
arcebispo Cranmer a renovar o seu antigo plano de uma alliança entre a
Egreja Romana e as Egrejas protestantes do Continente. Sob o congenial
patrocinio de Somerset, o plano de Cranmer parece ter incluido uma
assembléa, em Inglaterra, de delegados de todas as egrejas protestantes
com o fim de convocarem um concilio protestante que podesse servir de
resposta ao concilio de Trento e organizar um credo protestante commum.
Isto nunca se levou a effeito; mas Cranmer conseguiu que diversos
theologos estrangeiros o ajudassem a instruir o povo inglez na fé
reformada. Martinho Bucer e Paulo Fagius vieram de Strasburgo para
Inglaterra, e installaram-se em Cambridge, onde fizeram prelecções sobre
theologia e sobre as Escripturas do Antigo Testamento. Dois distinctos
italianos, Pedro Martyr de Florencia e Bernardo Ochino de Sienna,
vieram leccionar para Oxford. Estes theologos estrangeiros, todos
elles abalisados professores, instruiram um grande numero de rapazes
nos artigos da fé reformada, e prepararam uma geração de prégadores
para a futura Egreja de Inglaterra. Sustentaram tambem, segundo o uso
continental, polemicas publicas sobre pontos controversos de theologia,
taes como a Transubstanciação, o Celibato do Clero, o Purgatorio, etc.
Todos estes theologos eram mais calvinistas do que lutheranos, e foi
mediante elles que a Egreja de Inglaterra adquiriu aquella inclinação
para o modo calvinista, opposto ao lutherano, de expôr as doutrinas da fé
christã que serviu de molde aos seus artigos.
=Os Quarenta e Dois Artigos.=—Um dos resultados d’estas discussões e
disputas doutrinaes foi a publicação, em 1553, dos _Quarenta e Dois
Artigos_, que tinham por fim exprimir em fórma confissional o credo
da Egreja Reformada de Inglaterra. Foram obra de Cranmer, coadjuvado
pelos bispos e por outros homens de erudição. Cranmer tinha começado a
escrevel-os em 1549; e acabou-os em 1552.
A apparição d’estes Quarenta e Dois Artigos foi muito opportuna. A
rivalidade dos dois partidos, o romanista e o protestante, as polemicas
publicas dirigidas pelos theologos estrangeiros, e os trabalhos dos
prégadores ambulantes como João Knox, haviam feito com que o povo
desejasse ardentemente uma auctorizada exposição de doutrina tal como
estes artigos forneciam. Definiam com grande clareza os limites das
mudanças que a Egreja havia feito, quanto á sua theologia medieval.
Estes artigos de religião são em quasi todos os pontos eguaes aos Trinta
e nove Artigos que constituem o credo da actual Egreja da Inglaterra.
As sympathias de Cranmer tinham estado sempre voltadas para Luthero, e
elle copiou tres, nem menos, dos seus artigos directamente da Confissão
de Augsburgo. Esses artigos foram omittidos na revisão elizabethana, mas,
pelo que toca aos pontos essenciaes, os Trinta e dois Artigos de Eduardo
e os Trinta e nove Artigos de Isabel são um e o mesmo documento.
=Os principios do puritanismo.=—A livre discussão da theologia reformada
e das idéas da Reforma teve como um dos seus resultados a origem e
desenvolvimento, em Inglaterra, de uma theologia que acceitava cabalmente
os principios essenciaes da renascença da religião promovida pela
Reforma. Um d’estes principios era que Deus se havia collocado tão
perto do homem mediante a revelação da Sua pessoa em Jesus Christo, que
os homens, apezar de sobrecarregados com o peccado, podiam implorar
directamente a Deus o perdão, e, segundo as Suas promessas, recebel-o. As
theses de Luthero tinham estabelecido este grande principio da Reforma,
e todos os theologos insistiram na possibilidade de se ir directamente
ter com Deus sem ser necessaria qualquer mediação humana. A Egreja
medieval, por outro lado, havia negado este «sacerdocio espiritual dos
crentes»—pois que sacerdocio quer dizer o direito de accesso a Deus—e
havia collocado entre Deus e o povo o sacerdocio da Egreja. Tinha
tambem tornado visivel o sacerdocio do clero, insistindo em que cada
clerigo devia, quando exercesse o culto publico, usar um traje especial,
symbolico do seu officio sacerdotal, e havia levantado em cada egreja
um altar, ou logar especial onde se realisava o encontro de Deus com o
sacerdote.
Aquelles que haviam chegado ao conhecimento da verdade e magnificencia
da doutrina da Reforma, de que todos os crentes são sacerdotes que gozam
do direito de se approximarem de Deus por meio da fé, e de que qualquer
porção do solo onde a alma expectante procura o Deus que a pode perdoar
e remir é um altar, não podiam conformar-se com qualquer doutrina ou
symbolo visivel do sacerdocio especial do clero. Não se contentavam com
a exposição doutrinal das verdades da Reforma, não podiam supportar que
o povo fosse desencaminhado por qualquer symbolo ou rito exterior que
houvesse sido empregado, nos dias de superstição, para inculcar a falsa
doutrina medieval da mediação. Objectavam, portanto, á conservação de
todo e qualquer costume ecclesiastico que podesse desencaminhar o povo no
tocante a esta importante doutrina. Oppunham-se, especialmente, ao uso
das vestimentas ecclesiasticas e dos altares nas egrejas. Estes homens
foram os precursores dos puritanos inglezes.
É preciso ter sempre na lembrança que puritanismo não significou ao
principio um systema de governo ecclesiastico, e que nada tinha que ver
nem com o presbyterianismo nem com o congregacionalismo. Os primeiros
puritanos da Inglaterra não protestaram contra o episcopado como
systema de governo. As coisas ter-lhes-hiam succedido melhor por fim se
o houvessem feito. O seu protesto era contra tudo quanto no credo ou
no culto podesse desacreditar a doutrina do sacerdocio universal dos
crentes. Era sua opinião que as vestimentas clericaes e os altares nas
egrejas obscureciam a verdade vital, e recusavam-se a fazer uso das
sobrepelizes e a collocar-se deante dos altares com as costas voltadas
para a congregação.
A questão tomou dentro em pouco tempo uma fórma definida. João Hooper,
que havia sido monge cisterciano, e que adoptara as idéas da Reforma,
tornou-se um prégador de nomeada na Egreja ingleza. Durante os ultimos
annos do reinado de Henrique tivera a vida em perigo e havia fugido
do reino para Genebra. O contacto que teve com os theologos suissos
havia-lhe confirmado os principios, e ao regressar a Inglaterra achava-se
resolvido a oppôr-se a todos os ritos que cheirassem a superstição
medieval. Em 1550, o seu nome foi recommendado ao rei, quando se tratou
de prover o bispado de Gloucester. Ao contrario de João Knox, não fazia
objecção ao governo por meio de bispos, e acceitou a nomeação, mas
não quiz fazer uso das vestes episcopaes; e recusou-se, egualmente, a
proferir a seguinte phrase do juramento: «Assim Deus e todos os santos me
ajudem».
Muitos theologos, incluindo Calvino, haviam-se inclinado a considerar
estas coisas como de pouca importancia, mas Hooper pensava de differente
modo. Martinho Bucer e Pedro Martyr partilhavam a opinião de Calvino,
e tentaram demover Hooper da sua resolução por meio de argumentos. Não
poderam, porém, convencel-o, e elle recebeu ordem da côrte para se
conservar em sua casa e deixar de prégar. Obedeceu, mas no seu forçado
afastamento escreveu uma _Confissão e Protesto_ em que expunha com toda
a clareza as razões que haviam imperado na sua recusa de fazer uso das
vestes prelaticias. Por este seu feito, metteram-n’o na prisão. Passado
algum tempo, porém, fez-se um convenio ácerca das vestimentas, foram
omittidas do juramento as palavras «e todos os santos», e Hooper foi
consagrado bispo de Gloucester. Mas o que havia occorrido fazia prever
novas borrascas n’um futuro proximo.
Ridley, um dos mais habeis cabeças do partido da Reforma no tempo de
Eduardo, homem de vastos conhecimentos, de grande largueza de idéas, e
muito tolerante—havia-se empenhado om que á princeza Maria se concedesse
o servir a Deus conforme a vontade d’ella—quando o fizeram bispo de
Londres em substituição de Bonner, limpou tambem todas as egrejas da sua
diocese das imagens, reliquias e agua benta, e insistiu em que todos
os altares fossem removidos e se pozessem em seu logar mesas para a
communhão.
Estas coisas eram um mau presagio para o timido accordo entre o romanismo
e a Reforma, que era em que consistia o ideal de Cranmer relativamente á
Egreja de Inglaterra.
Despertaram uma mais severa opposição da parte de homens que haviam sido
sempre partidarios da Egreja medieval. Quando Hooper e Ridley mostraram
até onde a Reforma os poderia levar, Gardiner e Bonner redobraram de
furia contra elles. O governo teve de refreiar ambos os partidos. Hooper
tinha estado preso por causa das suas idéas reformistas. Gardiner e
Bonner foram encerrados na Torre por causa das suas idéas medievaes.
=A morte de Eduardo VI.=—O joven rei nunca havia sido muito robusto, e
antes de terminar o anno de 1552 o seu estado de saude alarmou seriamente
os principaes vultos do protestantismo. Á herdeira do throno era a
princeza Maria, filha de Catharina de Aragão. Tanto o parlamento como a
convocação haviam proclamado a sua illegitimidade, mas essas resoluções
não tinham grande peso moral. Toda a gente, estava convencida de que
Catharina tinha sido a esposa legitima de Henrique, e de que Maria era
sua filha, devendo, portanto, esta occupar o throno no caso de Eduardo
fallecer. Além d’isso, segundo a lei de successão ao throno, promulgada
por Henrique VIII, ella tinha de succeder a Eduardo, no caso d’este não
deixar herdeiros.
Maria era uma ferrenha catholica romana, de descendencia hespanhola,
que nunca havia esquecido os aggravos de que a mãe fora victima, e
que considerava a Reforma como uma rebellião contra Deus e um insulto
dirigido a ella propria. Prima de Carlos V, imperador da Allemanha, era
uma grande admiradora dos seus talentos e da sua politica, e de muito boa
vontade se collocaria n’uma completa dependencia d’elle.
O conhecimento d’estas coisas enchia de anciedade os espiritos dos
conselheiros de Eduardo. A subida de Maria ao throno seria um desastre
para a Reforma, que os attingiria tambem a elles. Viram que lhes era
necessario fazer todo o possivel para que o herdeiro do throno fosse um
principe ou princeza protestante.
Eduardo VI havia, em creança, abraçado firmemente o protestantismo,
e todo o seu empenho era que o monarca que viesse depois partilhasse
as mesmas crenças. Quando viu que lhe restava pouco tempo de vida,
resolveu nomear o seu successor. Nada o poude persuadir de que não
tivesse o poder de o nomear; e nada o poude induzir a que a nomeação
recaisse n’uma de suas irmãs. Elle estava convencido de que eram ambas
illegitimas, como o parlamento havia declarado, e que, por conseguinte,
não tinham direito algum á successão. Aquelle rapaz, que estava prestes
a morrer, era, pela sua tenacidade, um digno representante da casa de
Tudor. Poz deliberadamente de parte tanto Isabel como Maria; poz tambem
deliberadamente de parte Maria, a joven rainha da Escocia, representante
de Margarida, a irmã mais velha de seu pae, e escolheu Joanna Grey,
representante de Maria, irmã mais nova de seu pae. Joanna tinha casado
com o filho mais velho do conde de Northumberland, e era protestante.
Eduardo estava convencido de que o povo havia de acceitar a successora
por elle mencionada. Os seus conselheiros estavam convencidos de que o
protestantismo estava tão arraigado no paiz que nenhum catholico romano
poderia ser bem succedido. Enganavam-se ambos.
Assim que se deu o fallecimento de Eduardo, a rainha Joanna foi
devidamente acclamada; mas o povo, tomado de surpreza, não correspondeu
á acclamação. A princeza Maria fugiu, mas em volta d’ella reuniu-se
muita gente, e o povo secundou as suas reclamações. Passada uma semana,
tinha-se vencido toda a opposição, e o throno era de Maria.
A magnanima, formosa e instruida rainha foi presa e decapitada, e o
throno foi occupado, com o apoio geral, por uma soberana catholica romana.
=O estado da Inglaterra por occasião da acclamação de Maria
(1553).=—Quando Maria subiu ao throno, a Reforma, como um edificio
politico e visivel, com tanto custo levantado por Eduardo e pelos
seus conselheiros, desappareceu por completo, como coisa de nenhuma
substancia. É que ella havia sido imposta á Inglaterra pelo governo,
ao contrario do que acontecera em outros paizes, em que foi imposta ao
governo pelo povo ou acceite egualmente por governantes e governados.
Por outro lado, o paiz achava-se em pessimas circumstancias financeiras,
devido em parte á crise economica que a Europa estava atravessando, mas
devido principalmente ao desmedido fausto da côrte de Henrique VIII, e
á depreciação da moeda. O povo attribuia a sua miseria ao governo e a
todos os actos salientes das auctoridades. A extincção dos conventos e a
venda dos terrenos da Egreja foram logo tidas como a causa das desgraças
que affligiam o paiz; e os frades que haviam sido tirados das casas
religiosas, e que estavam espalhados pelo paiz na qualidade de parocos e
curas, ateiavam o fogo da antipathia pela Reforma, e preparavam o povo
para um regimen reaccionario, pelo que dizia respeito á religião.
Gardiner, bispo de Winchester, que havia saido da Torre quando Maria
iniciou o seu reinado, e se havia tornado o seu ministro favorito,
comprehendeu perfeitamente a situação. Elle sabia que o paiz, na sua
quasi totalidade, preferia a antiga religião mas que nunca gostara do
papa. Tratou, pois, de promover um regresso á situação em que se estava
no principio do reinado de Henrique VIII, sem que, porém, se tornasse tão
ostensiva a supremacia real.
Maria, posto que se deixasse guiar por Gardiner, tinha idéas mais
arrebatadas. A facilidade com que ella, apoz longos annos de indifferença
e abandono, havia cingido a corôa parecia-lhe um indicio de que o povo
se estava preparando com regozijo para o restabelecimento da antiga
religião e que tinha na conta de tão malefico o que se havia passado
nos ultimos annos como ella propria. Como filha de Henrique, e como
rainha de Inglaterra, sentia em si o dever de reparar, de accordo com
o papa, os ultrajes que a Egreja Romana havia soffrido ás mãos dos
estadistas inglezes. Como filha de Catharina de Aragão, e como prima de
Carlos V, parecia-lhe que devia prestar o seu auxilio aos hespanhoes,
e unir a Inglaterra á Hespanha, tanto no que dizia respeito á politica
internacional, como, e ainda mais especialmente, no que dizia respeito á
politica ecclesiastica.
=A Hespanha necessitava do auxilio da Inglaterra.=—Maria subiu ao
throno em 1553. O Tratado de Passau, entre os principes protestantes da
Allemanha e Carlos V, foi assignado em 1552. Carlos sentia-se forçado a
confessar que a Reforma o tinha vencido, quando Maria lhe participou a
sua acclamação e lhe supplicou que a aconselhasse. A alliança ingleza era
a unica coisa que poderia annullar o triumpho da Reforma, e restituir o
bom exito á politica austro-hespanhola. Carlos respondeu immediatamente,
e o seu conselho mostrou a anciedade em que elle se encontrava.
Maria, escreveu elle, devia, em primeiro logar, tornar firme o throno; em
seguida devia tornar segura uma alliança hespanhola, casando com Filippe,
herdeiro do imperador; e, executadas estas duas coisas, podia então fazer
as pazes com o papa.
O papa estava tão ancioso por congratular Maria como Carlos havia estado;
mas o imperador não queria despertar os sentimentos anti-papistas do povo
inglez; os interesses em jogo eram muitissimo fortes. E assim o Cardeal
Pole, nuncio do papa, recebeu ordem para se conservar nos Paizes Baixos
até a Inglaterra se achar preparada para o receber.
=Como Maria se firmou no throno.=—Ao principio fel-o com bastante
facilidade. A tentativa de collocar Joanna Grey no throno havia
desacreditado e desanimado os protestantes mais em evidencia, e poucos
d’entre elles appareceram. Foi, pois, facil a Gardiner obter que o
parlamento revogasse todas as leis que diziam respeito ao divorcio de
Catharina e á filiação de Maria. O decreto parlamentar que conferia ao
rei uma supremacia absoluta em todos os negocios ecclesiasticos foi um
meio excellente para fazer com que o paiz mudasse de religião. A rainha,
por occasião da sua acclamação, ouviu missa, segundo o antigo costume.
Cranmer protestou, sendo por esse facto remettido para a Torre, onde em
breve se lhe reuniram Latimer e Ridley. Foi abolido o Livro de Oração
Commum, e todas as mudanças introduzidas no culto no reinado de Eduardo
foram postas de parte. A Egreja de Inglaterra foi reposta nas condições
em que Henrique VII a havia deixado.
=A alliança hespanhola.=—O povo inglez não via com bons olhos a alliança
hespanhola, e era, em especial, hostil ao casamento da sua rainha com
Filippe de Hespanha. O bispo de Gardiner, que conhecia a indole da nação,
tratou de dissuadir a rainha, mas esta achava-se firmemente resolvida a
desposar Filippe. Gardiner, ao ver que nada podia impedir o casamento,
redigiu o contracto nupcial em termos taes que Filippe ficava sem direito
ao titulo real, não podia succeder á consorte e era-lhe defezo exercer
qualquer influencia nos negocios publicos de Inglaterra. O facto de
Carlos e seu filho terem acceitado estas condições mostra o valor que
elles davam a uma alliança estavel com a Inglaterra.
O povo inglez ficou indignado com similhante casamento, e para mostrar
o seu desagrado revoltou-se em diversas partes do reino; Pedro Carew
poz-se á frente dos rebeldes em Cornwall e Devon, o conde de Suffolk nos
condados do Centro, e Thomaz Wyatt em Kent. A unica revolta importante
foi capitaniada por Wyatt, e se não teve consequencias mais graves foi
isso devido á coragem da rainha. A nação reconheceu tambem que Maria era
filha de seu pae, e a legitima herdeira, e não teve grande sympathia
com as rebelliões contra ella. Filippe chegou, com instrucções de seu
pae para fazer tudo quanto estivesse ao seu alcance para agradar ao
povo inglez, as quaes elle, no seu modo extravagante, tratou de seguir,
bebendo cerveja ingleza e fazendo outras coisas do mesmo genero, e o
casamento celebrou-se com toda a pompa. Estava assegurada a alliança com
a Hespanha.
=A reconciliação com Roma.=—Filippe e Maria eram fervorosos catholicos
romanos, e anhelavam por que a Inglaterra se libertasse do anathema papal
que sobre ella havia caido quando Henrique desposou Anna Boleyn; mas
não era facil conseguir isso. O povo inglez obstinara-se sempre em não
reconhecer a supremacia papal, e eram muitos os pontos da sua historia
que o aconselhavam a não se submetter facilmente ao pontifice romano.
Carlos aconselhou o filho e a nora a procederem muito cautelosamente.
Havia, comtudo, uma difficuldade ainda maior: era a questão das terras
que haviam sido arrancadas do poder da Egreja e vendidas a particulares.
Por um lado, o papa não deixaria de insistir na sua restituição, e,
por outro, essa restituição iria, certamente, dar logar a violentos
protestos. Poucas d’essas terras estavam na posse da corôa; a maior parte
d’ellas tinha sido vendida, e o producto da venda gastara-se. A rainha
estava impossibilitada de tornar a compral-as aos respectivos donos e
restituil-as á Egreja.
Carlos V poude, com alguma difficuldade, induzir o papa a renunciar á
reivindicação d’esses bens abbaciaes, e a unica coisa que restava fazer
era predispôr o povo inglez para a chegada do nuncio.