=O caracter excepcional do Principio da Reforma inglesa.=—A Egreja

e o povo inglez romperam com o systema ecclesiastico medieval em

circumstancias tão excepcionaes que é impossivel considerar esse

rompimento como fazendo parte da Reforma, ou como tendo muita coisa

em commum com os movimentos contemporaneos na Allemanha e na França.

Emquanto durou o reinado de Henrique VIII, a Egreja de Inglaterra, que

se havia separado do papa, pouco ou nada tinha de commum com a Reforma.

O que durante aquelle reinado se fez foi simplesmente demolir a Egreja

da edade media. A verdadeira Reforma começou no reinado de Eduardo VI,

e a sua adopção formal teve logar no de Isabel. Henrique VIII destruiu

a supremacia do papa, tanto espiritual como temporal; derrubou a grade

ecclesiastica que unia a Egreja de Inglaterra á grande Egreja Occidental

governada pelo bispo de Roma, mas não poz coisa alguma duradoura em seu

logar. O seu fim era estabelecer um papado real, tão despotico e ainda

mas secular do que aquelle que elle estava destruindo, sobre as minas

da jurisdicção do bispo de Roma. A Egreja que elle construiu segundo o

seu modelo não durou mais do que a vida d’elle; mas a sua obra durou o

bastante para dar á Reforma da Egreja de Inglaterra, quando ella mais

tarde se tornou um facto, aquelle caracter particular que a distinguiu

dos movimentos do mesmo genero occorridos n’outros paizes. O objecto

de Henrique era modificar de tal modo as condições ecclesiasticas da

Inglaterra que o rei occupasse o logar do papa, e ficasse governando,

não só temporal como espiritualmente, de modo que, mediante a Egreja,

tivesse sobre os seus subditos um dominio absoluto. Todas as reformas de

doutrina, de culto e de costumes eram tão abominaveis para Henrique como

para o bispo de Roma.

=Antecipações da Reforma em Inglaterra.=—Os historiadores ecclesiasticos

fazem, geralmente, datar os principios da Reforma do tempo de João

Wycliffe, o qual, no seculo quatorze, era, por assim dizer, a bocca da

Inglaterra, revoltando-se contra a supremacia espiritual e temporal que

o papa tinha no reino; mas é muito para duvidar que a sua influencia

continuasse a ser exercida sobre o povo inglez até ao seculo dezeseis,

e por tal fórma que a ella se devam attribuir os desejos de Reforma que

enchiam os corações de muitas pessoas de bons sentimentos religiosos.

Como Francisco de Assis e outros reformadores e revivificadores da

Edade Media, Wycliffe tinha abraçado apaixonadamente a idéa de que os

beneficios da salvação só podem ser aproveitados por aquelles que imitam

Christo, e que para imitar Jesus Christo torna-se indispensavel viver na

pobreza como Elle. Declarou, portanto, guerra aberta ao bem estipendiado

clero da opulenta Egreja de Inglaterra, e prégava que a Egreja, para ser

realmente de Christo, devia ser, pobre. Dizia que o Estado não faria mais

do que beneficiar a Egreja tirando-lhe a riqueza, pois que era esta um

obstaculo a que ella se parecesse com o seu Mestre. Em conformidade com

estas idéas, organisou um corpo de prégadores ambulantes, denominados

prégadores pobres, os quaes, tendo, a muitos respeitos, parecenças com

os evangelistas do movimento wesleyanno, andavam por toda a Inglaterra,

proclamando a doutrina da humildade. Era um fervoroso admirador dos

grandes juristas medievaes, taes como Guilherme de Ockham, o querido

mestre de Luthero, Marsillio de Padua, e Pedro Dubois de Paris. Elles

haviam proclamado, n’uma epoca muito anterior, que o Estado não era outra

coisa senão o povo; e Wycliffe, seguindo-lhes o exemplo, insistia em que

a Egreja não era outra coisa senão o povo. Ora isto atacava o systema

da Egreja medieval, que se apoiava na noção de que a verdadeira Egreja

era o clero, e de que o povo só fazia parte d’ella quando se punha em

contacto com os clerigos, que eram depositarios dos sacramentos. Foi por

esse motivo que elle traduziu a Biblia, que era o Livro da Egreja, e,

portanto, do povo christão, e não sómente do clero. As idéas da Wycliffe

foram avidamente adoptadas por uma grande parte da população ingleza,

e os seus discipulos, os lollardos, constituiram, por algum tempo, uma

fortissima aggremiação.

O lollardismo foi indubitavelmente uma preparação para a Reforma,

e os homens biblicos, como lhes chamavam, teriam exercido uma

grande influencia sobre o povo, no sentido de o predisporem para uma

revivificação da religião espiritual se tivessem existido na epoca em

que se operou o movimento reformador. Não se pode, porém, provar que

elles communicassem com essa geração, e não ha indicio algum de que

nos reinados de Henrique VII e Henrique VIII estivesse desenvolvido o

gosto pela leitura da Biblia ou houvesse uma corrente de sympathia pelos

prégadores pobres. O povo inglez, tomado na sua totalidade, parece não se

ter inclinado para a Reforma antes do tempo de Isabel.

=O estado ecclesiastico da Inglaterra no principio da Reforma.=—Quando

começou na Allemanha o movimento da Reforma, houve, sem duvida, muitos

inglezes que se sentiram attraidos para o reformador saxonio, e que

desejaram ver introduzido na Egreja um credo mais simples e mais em

harmonia com a Palavra de Deus, e uma fórma de culto como a que era

usada nos tempos apostolicos; mas a maioria não partilhava essas idéas.

Havia, certamente, muitissimas pessoas que desejariam ver modificados os

costumes dos clerigos, e especialmente o caracter moral dos frades, e

que ficariam satisfeitas se as propriedades da Egreja fossem sujeitas a

impostos e os grandes rendimentos dos bispados e das abbadias soffressem

alguma diminuição. E eram em numero sempre crescente as que se sentiam

desgostosas com a ignorancia do clero, e que, por motivos politicos ou

sociaes, desejavam ver cerceada a influencia do bispo de Roma. Não lhes

agradava a sua interferencia nas questões politicas, e indignava-os a

saida de grossas quantias para fóra do reino.

Não é provavel que o caracter moral do clero romano fosse peior em

Inglaterra do que em qualquer outro paiz, mas o que é verdade é que os

padres, com a sua conducta, desacreditavam a Egreja. O clero era de uma

ignorancia crassa, e havia, talvez, em Inglaterra menos conhecimento das

Escripturas do que na França ou na Allemanha, pois que, desde a epoca

do lollardismo, a leitura da Biblia era considerada um acto criminoso.

A Biblia era um livro desconhecido para os padres, e Erasmo conta que

viu, preso por uma corrente a uma coluna da cathedral de Canterbury um

Evangelho de Nicodemos que era lido como fazendo parte da Escriptura

canonica.

O alto clero pouco tinha que fazer na Egreja, e occupava-se em dirigir

os negocios do Estado, ou em presidir ás audiencias nos tribunaes de

justiça. O arcebispo de Canterbury era Lord Chanceller, o bispo de

Winchester director geral da Thesouraria, o bispo de Durham secretario de

Estado, e o bispo de Londres guarda-mór dos arquivos. Os bispos de Bath,

Hereford, Llandaff e Worcester nem sequer residiam no reino.

Dadas estas circunstancias, não é para estranhar que aquelles que amavam

sinceramente a instrucção se sentissem indignados perante a ignorancia

do clero, e procurassem abrir os olhos, não só a estes como ao povo em

geral; e que os patriotas inglezes, lembrando-se das antigas tradições de

um paiz que durante seculos havia mantido uma attitude altiva e reservada

para com as pretensões da Curia Romana, tivessem immensa vontade de

annular o poder do papa em Inglaterra. Como que exteriorisando o desejo

preponderante, surgiu um grupo de mancebos instruidos, capitaneados por

Colet, deão de S. Paulo, e Thomaz More, cujo intuito era purificar a

Egreja, o povo e o clero, e incitar a Egreja nacional de Inglaterra a

resistir ás usurpações do bispo de Roma.

=As relações de Inglaterra com o pontificado.=—Os bispos de Roma,

na Edade Media, reivindicavam a supremacia, tanto espiritual como

temporal, e o povo inglez havia resistido, por mais de uma vez, ás suas

reivindicações. Os papas, desde o tempo de Innocencio III, sustentavam

que todos os reis e principes eram seus vassallos, tanto pelo que dizia

respeito ás coisas sagradas como aos negocios civis. Este direito

havia sido imposto no reinado de João, que pagara tributo a Roma em

reconhecimento da supremacia papal. Quando, porém, foi exigido esse

tributo aos sucessores de João, elles, indignados, recusaram pagal-o. E

a Inglaterra, sem deixar de pertencer á Egreja Catholica medieval, havia

repudiado o direito do papa a intervir nas questões nacionaes. Rei algum

inglez, excepto João, se considerou vassallo do papa. Não era uma coisa

nova em Inglaterra, o não reconhecer a supremacia do papa nos negocios

temporaes.

Os papas tinham, desde o principio da Edade Media, exigido que os

reputassem arbitros supremos em todos os negocios espirituaes, e, por

consequencia, a Egreja ingleza devia estar sujeita ao seu dominio

absoluto. Estas reivindicações apresentavam-se, na pratica, debaixo

das seguintes fórmas: Os papas queriam que lhes fosse reconhecida a

decisão final em todas as nomeações ecclesiasticas; isto é, nenhum

bispo, ou abbade, ou outro qualquer dignitario da Egreja podia ser

collocado n’este ou n’aquelle posto sem a approvação do papa em ultima

instancia, e esta sua supremacia queriam que lhes fosse reconhecida de

uma fórma prática mediante o pagamento do primeiro anno do estipendio

que correspondia a cada oficio ecclesiastico. Queriam ter a decisão

final em todas as questões que se levantassem no seio da Egreja ingleza.

E isto significava, praticamente, que todos os clerigos, bispos,

abbades, simples padres e frades só podiam ser julgados pelos tribunaes

ecclesiasticos, e que o accusador ou o defensor tinha sempre o direito de

appellar dos tribunaes inglezes para o tribunal pontificio. Reivindicavam

tambem que as leis canonicas, isto é, as leis da Egreja promulgadas pelos

concilios e pelos papas, fossem reconhecidas em Inglaterra e tivessem a

mesma força que as leis ordinarias.

A supremacia espiritual do papa tinha sido repetidas vezes repellida pelo

povo inglez. Os reis de Inglaterra tinham declarado e tornado a declarar

que em caso algum se poderia appellar dos tribunaes inglezes para a Curia

Romana. Estas declarações tinham tomado a fórma de decretos, e no reinado

de Ricardo II ficaram englobadas no famoso codigo de _Proemunire_.

Segundo este codigo, ou estatuto, como lhe chamavam, qualquer appellação

para um tribunal de justiça estrangeiro, romano ou de outra qualquer

nacionalidade, era um crime a que correspondia um castigo severo.

Sustentava, de uma maneira peremptoria, que o rei era o arbitro supremo

em todas as questões civis ou ecclesiasticas, e tornava punivel qualquer

appellação de sentenças proferidas nos tribunaes civis para juizos

ecclesiasticos, quer da Inglaterra quer da Italia.

Além dos protestos do rei e do parlamento, reunidos n’este estatuto, o

povo, n’uma grande occasião pelo menos, negou solemnemente a supremacia

do papa, e asseverou a independencia da Egreja ingleza. A _Magna Charta_

foi feita com o intuito de restringir o poder pontificio, assim como de

reprimir o do rei; e a sua primeira clausula reivindicou a independencia

da Egreja de Inglaterra—_Quod ecclesia anglicana libera sit et habeat

omnia jura sua integra et libertates suas illaesas._

E Egreja e o povo inglez haviam-se acostumado a protestar contra a

interferencia papal, e os reformadores que tinham simplesmente em vista

promover a instrucção do clero, e reprimir a auctoridade que o papa

exercia na Inglaterra, podiam dizer, com exactidão historica, que não

punham em pratica uma coisa nova.

As aspirações d’esses reformadores podem ser apreciadas no romance

politico escripto por um dos mais intelligentes d’entre elles,—a

_Utopia_, de Thomaz More. Para esses homens a Reforma era apenas um

movimento intellectual e politico. Não era uma revivificação religiosa.

Podiam sympathizar com os concilios reformistas do secolo quinze, mas

entre elles e Wittenberg ou Genebra havia poucos pontos de contacto.

=As primitivas relações de Henrique VIII com o pontificado. Defensor

da Supremacia papal.=—Estes reformadores do estudo e da camara do

conselho saudaram com regozijo a subida de Henrique VIII ao throno

de Inglaterra. Suppunha-se, exactamente como aconteceu com o seu

contemporaneo, Francisco I de França, que o joven rei fosse um amigo

da nova litteratura, e um soberano predisposto a extirpar abusos. A

desillusão não se fez esperar. Logo de principio mostrou ser um dedicado

defensor da supremacia papal. A sua posição era estranha, e necessita de

uma explicação.

Henrique VII, o primeiro rei da casa de Tudor, havia conquistado o throno

de Inglaterra no campo de Bosworth, e conservava-o mediante uma precaria

subemphyteuse. Anhelava por tornar mais firme o seu poder mediante uma

alliança com um paiz estrangeiro, e, passando a Europa em revista,

certificou-se de que Fernando de Hespanha era quem o poderia auxiliar

melhor. Effectuou, portanto, com alguma dificuldade, o casamento de seu

filho mais velho, Arthur, com Catharina de Aragão, uma das filhas de

Fernando. Arthur morreu passado pouco tempo; e Henrique, desejando manter

a todo o transe a alliança hespanhola, tratou com todo o afan de casar

Catharina com o seu segundo filho, Henrique, que foi depois Henrique

VIII. O papa concedeu uma dispensa, e o casamento realisou-se. Henrique

VIII teve, pois, por mulher a viuva de seu irmão.

Nunca se poude saber ao certo se Arthur e Catharina foram realmente

casados. Se o casamento não passou de um contracto legal, não havia

motivo para que a dispensa do papa não fosse bem acceite mesmo por

aquelles que não viam com muito bons olhos a supremacia papal; se

foi, porém, um casamento em toda a accepcão da palavra, ficou então

demonstrado que o papa tinha auctoridade para conceder uma dispensa

que ia de encontro as leis divinas de parentesco. Segundo a opinião

geral, Arthur e Catharina viveram conjugalmente, de modo que Henrique

casou realmente com a viuva de seu irmão, e assim a dispensa do papa

só poderia ser concedida no caso de elle possuir aquelles supremos

poderes que os ultramontanos lhe atribuem. A legalidade do casamento de

Henrique e a legitimidade de sua filha Maria baseiava-se, portanto, na

supremacia do papa. E não é para admirar que Henrique VIII, no principio

do seu reinado, se conduzisse, no tocante a essa supremacia, mais em

conformidade com a opinião dos ultramontanos do que com as tradições da

corôa de Inglaterra. É que a validade do seu casamento, a legitimidade

de seus filhos, e o direito que a estes assistia de lhe succederem no

throno, dependiam, como já dissemos, da supremacia do papa.

Quando Luthero atacou o papa, Henrique tomou ostensivamente a defeza do

Bispo de Roma, e rei algum, depois de João, apoiou mais em absoluto as

reivindicações do papa do que elle. Os seus interesses pessoaes, assim

como os interesses de sua mulher e de seus filhos, estavam dependentes

d’esse seu apoio. A Inglaterra, no principio do reinado de Henrique,

estava positivamente avassallada á Sé de Roma. Henrique, posto que se

sentisse inclinado, pela educação recebida, a adoptar as idéas de Colet,

More e Erasmo, via-se obrigado, em vista da situação particular em que se

encontrava, a manter-se n’uma attitude de irreconciliavel hostilidade, e

o facto de ter reprovado os actos de Luthero conquistou-lhe o titulo de

Defensor da Fé.

=Henrique muda de opinião.=—Henrique nunca deixou de reconhecer a

supremacia do papa em todos os assumptos, durante os primeiros dezoito

annos do seu reinado. De um momento para o outro, porém, começou a

pensar de differente modo, e podem-se apresentar bastantes razões para

essa subita mudança de idéas. Parece que elle teve sempre duvidas

ácerca da legitimidade do seu casamento com Catharina, e que essas

duvidas se avolumaram á medida que ia perdendo a esperança de ter um

filho varão que lhe succedesse, chegando a convencer-se de que esse

facto representava um castigo divino por haver desposado a viuva de seu

irmão. Durante todo esse tempo, comtudo, a alliança hespanhola, que fôra

tratada primeiramente com Fernando, e mais tarde com o neto d’este, o

imperador Carlos V, havia sido de grande utilidade para Henrique e para

a Inglaterra; e essa mesma aliança é que havia, na opinião do rei, de

firmar o throno de sua filha, cuja legitimidade, declarada pelo papa,

encontraria no imperador um inabalavel sustentaculo.

Carlos V, porém, estava absorvido nos seus planos de anniquilar a

Reforma, e estabelecer o imperio medieval, e o papa só pensava em

conquistar para si uma posição independente, em se tornar o primeiro

dos principes italianos, revestido de todo o poder secular, de modo que

nenhum d’elles correspondia á expectativa de Henrique. Este deixou de ter

confiança na fidelidade d’elles á sua casa, quanto á sucessão do throno.

Encontrava-se n’uma situação embaraçosa, e, como meio mais rapido de

sair das suas difficuldades, resolveu pedir ao papa que o divorciasse

de Catharina de Aragão. Cessariam d’esse modo os seus escrupulos de

consciencia por haver casado com a cunhada; poderia contrair novo

casamento, a alimentar a esperança de ter um filho macho, seu legitimo

herdeiro. Entendeu-se, pois, com o cardeal Wolsey, seu ministro, e

dirigiu ao papa um pedido de divorcio.

N’aquela ocasião, porém, o papa queria evitar qualquer desintelligencia

com Carlos V, sobrinho de Catharina, e recusou dar o seu consentimento

para o divorcio, sendo então que Henrique, homem muito exaltado, e a

quem os obstaculos não faziam recuar, decidiu divorciar-se não obtante a

recusa do papa. Todos os interesses pessoaes que até certo tempo levaram

o rei a apoiar a supremacia papal se ligavam agora para que elle fizesse

exactamente o contrario. Se o papa tivesse sanccionado o divorcio, não

teria havido, provavelmente, ruptura com Roma, porque o rei continuaria a

ter interesse em que se mantivesse a supremacia papal; as circumstancias,

porém, aconselhavam-n’o a enveredar por outro caminho, e foi o que elle

fez.

Thomaz Cromwell alvitrou que se consultassem as universidades da Europa

sobre a legalidade do casamento de Henrique e este acceitou o alvitre

com grande alvoroço. Tratou-se, por conseguinte, de pôr esta idéa em

execução, entregando-se a eminentes vultos, a verdadeiras summidades,

o decidirem a questão segundo as leis canonicas, tendo ao mesmo tempo

na devida consideração a sensivel consciencia do rei. Apoz algum tempo,

e tendo-se dispendido com isso uma fabulosa quantia, as universidades

declararam, por uma muito pequena maioria, que o casamento de Henrique

com Catharina não era valido, concluindo-se d’esta decisão que Henrique

não tinha herdeiro algum legitimo.

Animado com este veridictum, resolveu pôr em pratica qualquer das

duas coisas seguintes: alarmar o papa, obrigando-o assim o conceder o

divorcio, ou repudiar a sua auctoridade suprema.

Foram muitos os motivos secundarios que contribuiram para que elle

tomasse esta ultima deliberação. Henrique, que gostava de viver com

muita ostentação, tinha desbaratado, havia muito, as riquezas que o

pae amontoara, e era-lhe impossivel augmentar os impostos. Os cofres

do Estado estavam despejados, e para os encher bastaria o espolio dos

conventos e mosteiros. Isto constituiu uma das razões, mas havia uma

outra que appellava mais fortemente para a sua vaidade.

=Henrique VIII, Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre

elles.=—As tres grandes potencias europêas no tempo da Reforma eram

Hespanha, França e Inglaterra, e não podia deixar de haver rivalidade

entre os respectivos monarcas. O rei de Hespanha, que era o mais poderoso

dos tres, era tambem imperador da Allemanha, e todo o seu empenho

consistia em restabelecer no imperio o esplendor que este tivera na Edade

Media. Segundo as antigas noções medievaes, não havia mais do que uma

christandade, o imperador era supremo e soberano, e todos os outros reis

estavam sob a sua dependencia. Se Carlos fosse bem succedido nos seus

esforços, Francisco e Henrique passavam a occupar uma posição inferior

á que tinham, e, portanto, convinha-lhes trabalhar para que o plano

de restauração não vingasse. Uma christandade medieval implicava uma

egreja indivisa, centralizada no papa, o bispo de Roma. A politica dos

reis da França e de Inglaterra insistia em obstar a essa centralização

ecclesiastica, e fazer com que as egrejas das suas respectivas nações se

tornassem o mais independentes de Roma que fosse possivel.

Francisco havia conseguido isso quanto á França, e de um modo que

contribuiu bastante para que o seu prestigio augmentasse, e o seu

poder se consolidasse dentro do proprio reino. O papa, mediante a

Concordata de 1516, havia, sob a condição de que os _annates_ seriam

pagos com regularidade, e de que lhe seriam feitas certas e determinadas

concessões, investido praticamente o rei de França na chefatura da

egreja franceza, dando-lhe liberdade para prover como entendesse os

differentes cargos ecclesiasticos.

Henrique, rival de Francisco, era tambem seu imitador, e havia de lhe

ser difficil deixar de ter inveja das regalias que o papa lhe tinha

concedido. O que Francisco recebeu pela Concordata de 1516, deu o

parlamento inglez a Henrique quando o proclamou chefe supremo, sobre a

terra, da egreja de Inglaterra. De modo que em França a supremacia do rei

sobre a egreja fez com que fossem toleradas as reivindicações papaes, ao

passo que em Inglaterra promoveu a revolta contra Roma. A França, liberta

do dominio papal por livre vontade do proprio papa, podia ficar por ahi,

mantendo, a todos os outros respeitos, as velhas tradições da egreja. A

Inglaterra, que alcançara a sua independencia contra a vontade do papa,

e por meio de um acto de rebellião contra a sua auctoridade, tinha de

ir mais longe; para conservar a posição que tomara era-lhe necessario

afastar-se cada vez mais de Roma.

Sucedeu, assim, que a Reforma em Inglaterra foi o avanço quasi

involuntario de uma nação revoltada contra Roma, pois que a sua

resistencia á curia romana foi, em primeiro logar, o meio de que um

imperioso monarca se serviu para conseguir o seu engrandecimento pessoal,

e, em segundo logar, o meio de que um povo se serviu para conseguir a

sua independencia. A França, a despeito dos huguenotes, conservou-se

catholica romana; a Inglaterra, a despeito de Henrique VIII, tornou-se

uma nação protestante.

=A submissão do clero.=—Henrique depressa se certificou de que não

era possivel constranger o papa, mediante o medo, a conceder-lhes o

divorcio, mas resolveu obrigar o clero inglez a conformar-se pelo medo

com as suas deliberações. O cardeal Wolsey foi nomeado nuncio do papa

em Inglaterra, e todos os bispos e mais clerigos o reconheceram como

tal. Ora em 1531 o rei acusou-o abruptamente de haver transgredido a lei

do _Proemunire_ pelo facto de acceitar aquelle cargo e cumprir, ainda

que só apparentemente, os deveres que lhe eram inherentes, e accusou

egualmente todos os clerigos de Inglaterra de serem cumplices d’esse

crime pelo facto de o aceitarem na qualidade de embaixador do papa.

Declarou, outrosim, que tanto Wolsey como todos os clerigos da egreja

ingleza haviam incorrido, em virtude d’esse delicto, na perda de todos

os bens ecclesiasticos de que estavam de posse. O clero ficou seriamente

alarmado, e, para evitar uma catastrophe maior, sujeitou-se a pagar

uma multa de 118:000 libras e a assignar, ainda que de má vontade, uma

declaração de que o rei era «o unico protector, o unico senhor supremo,

e, _até onde é permittido pela lei de Christo_, o supremo cabeça da

egreja e do clero». A ambiguidade que se nota n’este reconhecimento foi

intencional. Era um subterfugio para as consciencias fracas, mas o rei

ficou satisfeito com a phrase, certo como estava de que poderia obrigar o

clero a proceder segundo a interpretação que elle proprio lhe dava.

Tratou sem demora de mostrar como era por ele compreendido o sentido

pratico de similhante declaração, desdobrando-o em tres artigos, que

os clerigos tiveram tambem de assignar. Declaravam que regulamento

ou preceito algum ecclesiastico seria de ali em deante promulgado ou

publicado pelo clero sem previo consentimento do rei; que approvavam

a nomeação de uma commissão de trinta e duas pessoas para rever os

antigos canones da egreja e cortar todos aqueles que fossem prejudicaes

á autoridade do rei; e, finalmente que os canones ecclesiasticos só eram

validos depois de ratificados com auctorização do rei. Estas proposições

foram submetidas á Convocação, ou Assembléa Geral da Egreja de

Inglaterra, e, depois de alguma hesitação, o clero, reunido, acceitou-as.

A Convocação foi um pouco mais longe do que o rei, pois que pediu para

que o clero inglez não pagasse mais os _annates_ á sé de Roma.

A Reforma · 第 17 / 27 段