=O Livro de Disciplina e a primeira assembléa geral.=—Pouco depois

de o parlamento de 1560 ter encerrado as suas sessões, os auctores

da Confissão foram encarregados de apresentar uma breve exposição do

melhor systema de governo de uma egreja reformada. Surgiu então aquelle

notavel documento que depois se chamou o Primeiro Livro de Disciplina, e

que constituiu a primeira formula de governo ecclesiastico na Escocia.

Dividia-se em sessões da egreja, synodos e assembléas geraes; e concedia

o titulo de officiaes da egreja aos ministros, professores, presbyteros,

diaconos, superintendentes e ledores. Os auctores do Livro de Disciplina

declararam ter ido procurar directamente ás Escripturas as linhas

geraes de aquelle systema de governo ecclesiastico a adoptar o qual

elles aconselhavam os seus compatriotas, e havia, indubitavelmente,

muita sinceridade, a par de muita exactidão, n’essa sua affirmativa.

Eram, comtudo, todos elles, homens affeiçoados á Egreja de Genebra,

e tinham tido relações pessoaes com os protestantes da França. A sua

fórma de governo foi, evidentemente, inspirada pelas idéas de Calvino,

e segue de perto as Ordenanças Ecclesiasticas da Egreja franceza. Os

officios de superintendente e leitor foram addicionados aos outros tres,

ou quatro, que caracterizam a fórma de governo presbyteriana. O cargo

de superintendente devia a sua origem á situação incerta do paiz e á

escassez de pastores protestantes. Os superintendentes tinham a seu cargo

divisões territoriaes que não correspondiam exactamente ás dioceses

episcopaes, e competia-lhes apresentar á Assembléa Geral relatorios

annuaes do estado ecclesiastico e religioso das respectivas provincias.

Os leitores deviam a sua existencia ao reduzido numero de pastores

protestantes, á grande importancia que os primitivos reformadores

escocezes davam a um ministerio educado, e tambem á difficuldade de obter

fundos para a sustentação dos pastores de todas as paroquias. O Livro de

Disciplina contém um capitulo sobre o patrimonio da egreja, que insiste

na necessidade de reservar os dinheiros possuidos pela egreja para a

manutenção da religião, as despezas com a educação, e os socorros dos

pobres. Foi a existencia d’este capitulo que fez com que os Estados não

aceitassem o livro com tanta promptidão como o fizeram com a Confissão

de Fé. Os barões de diversas categorias, que tinham assento na camara,

haviam-se, em muitos casos, apropriado do patrimonio da egreja em seu

beneficio particular, e não queriam assignar um documento que condemnava

o seu modo de proceder. O Livro de Disciplina, approvado pela Assembléa

Geral, e assignado por um grande numero de nobres e burguezes, nunca

recebeu a sancção official concedida á Confissão.

A Assembléa Geral da Egreja Reformada da Escocia reuniu-se pela primeira

vez em 1560, e, a despeito da luta em que a egreja se achava envolvida,

houve, pelo menos, uma reunião por anno, e algumas vezes mais, podendo

assim a egreja organizar-se e entrar em plena actividade.

Fez-se uma traducção do _Catecismo para a Infancia_, de Calvino, e

deu-se ordem para que se fizesse uso d’ella. O Livro de Ordem Commum,

ou a Lithurgia de Knox, foi substituindo a pouco e pouco a Lithurgia do

rei Eduardo VI, e a Egreja Reformada da Escocia, com a sua Confissão,

a sua constituição ecclesiastica, o seu methodo de culto publico e as

suas provisões para a instrucção das creanças, espalhou-se pelo paiz,

levantando egrejas, melhorando o estado moral do povo e contribuindo

efficazmente para a educação do mesmo.

Uma das principaes dificuldades com que a egreja teve de luctar foi

falta de dinheiro para pagar aos ministros. A Egreja Catholica Romana

tinha sido officialmente abolida, e, comtudo, não se havia feito

provisão alguma para a manutenção do clero reformado. A propriedade

ecclesiastica estava em condições anormaes. Até 1560 a Egreja Catholica

Romana da Escocia vinha sido muito opulenta, e havia estado de posse

de uma grande parte do territorio da nação. Emquanto a egreja estivera

luctando com Maria e procurando frustrar os esforços que ella empregava

para introduzir de novo a religião e hierarquia romanista, os prelados

distribuiram uma grande parte dos bens ecclesiasticos por quem elles

muito bem entenderam, os nobres apoderaram-se de uma parte d’elles ainda

maior, e o que restava e nominalmente pertencia á egreja estava nas mãos

de homens que se intitulavam bispos, abbades, priores, deãos e curas,

mas que nunca haviam recebido ordens, eram protestantes só no nome, e

se serviam de aquelles titulos ecclesiasticos para poderem usufruir as

propriedades a que o cargo dava direito. Depois de alguma discussão,

a Assembléa obteve do Estado que aquelas pessoas que conservavam em

seu poder bens que nominalmente pertenciam á egreja ficassem com dois

terços de rendimento para as suas despezas particulares, e entregassem

a restante terça parte para a manutenção do ministerio e das escolas,

e para os encargos de beneficencia. A Egreja Reformada, porém, teve

muita difficuldade em ver esta disposição convertida em lei, e assim,

durante os primeiros annos da Reforma os ministros e as escolas

foram principalmente mantidos por meio de offertas voluntarias, ou

«benevolencias», como Knox pittorescamente lhes chamava.

=A Educação.=—As idéas democraticas do presbyterianismo, avolumadas pela

necessidade de cooperar com o povo, fizeram com que os reformadores

escocezes se ocupassem seriamente da educação popular. Todos os

impulsionadores da Reforma, quer na Allemanha, quer na França, quer na

Hollanda, tinham reconhecido a importancia de esclarecer o povo; mas a

Hollanda e a Escocia foram talvez os dois paizes onde a tentativa foi

mais bem succedida. A educação do povo não era uma novidade na Escocia

e, posto que nos agitados tempos que precederam a Reforma as escolas

superiores tivessem desapparecido, e as universidades tivessem caido em

decadencia, o desejo de aprender não se havia extinguido por completo.

Knox e o seu amigo Jorge Buchanan tinham um plano magnifico para crear

escolas em todas as freguezias, estabelecer collegios superiores

em todas as cidades importantes e augmentar o poder e influencia

das universidades. O seu plano, devido á cubiça dos barões que se

haviam apoderado dos bens da egreja, pouco mais era do que uma devota

imaginação, mas havia-se apossado do espirito da Escocia, e a falta de

dotações era mais do que compensada pelo desejo ardente que o povo tinha

de se instruir. As tres universidades, de Santo André, de Glasgow e de

Aberdeen, receberam uma nova vida, e fundou-se uma quarta universidade,

a de Edinburgo. Alguns estudantes escocezes que haviam recebido educação

nas escolas continentaes, e que haviam abraçado a fé reformada, foram

encarregados de superintender o re-organizado systema educativo do

paiz, e tudo se fez em harmonia com o viver do povo, preferindo-se,

nas escolas, e externato ao internato, e estabelecendo um systema de

inspecção que era exercido, em cada circumscripção escolar, por um dos

homens mais espirituaes e de maiores conhecimentos. Knox estava tambem

disposto a impôr ás duas classes da sociedade, a mais baixa e a mais

elevada, uma frequencia obrigatoria ás aulas; quanto á classe media,

elle confiava no seu natural desejo de aprender. E desejava que o Estado

exercesse a sua auctoridade no sentido de compellir os mancebos de

posição a matricularem-se nas escolas superiores e nas universidades,

para que podessem prestar serviços uteis á nação.

=A morte de Knox.=—João Knox morreu em novembro de 1572. O assassinio do

seu amigo, o conde de Moray, o Bom Regente, havia-lhe feito uma grande

impressão, e a noticia do massacre de S. Bartholomeu, que havia chegado

recentemente á Escocia, produziu-lhe um tremendo abalo. Elle nunca havia

sido um homem robusto, e durante a sua vida havia passado por muitos

trabalhos, mas o seu intrepido espirito a tudo resistira. «Ignoro» diz

Smeaton, «se Deus poz jámais n’um corpo debil e franzino uma alma maior e

mais santa do que a d’elle». As forças começaram a faltar-lhe muito antes

de adoecer gravemente, mas luctou sempre contra o seu precario estado de

saude, e nunca deixou de prégar e exhortar como costumava fazer. James

Melville, que teve occasião de o ver quando estudava em Santo André,

apresenta-nos um retrato d’elle pouco antes da sua morte. «Via-se que

andava doente. Todos os dias eu o via passar para a egreja paroquial,

andando muito cautelosamente, com o pescoço resguardado por uma pelle, de

bengala na mão, e acompanhado pelo seu creado, o bom Ricardo Ballanden.

Era esse dito Ricardo e um outro creado que o ajudavam a subir para o

pulpito, a que elle se encostava durante algum tempo; logo, porém, que

entrava no sermão, enchia-se de uma actividade e de um vigor taes que

esse mesmo pulpito por pouco escapava de ficar feito em cavacos.»

Morreu antes de ter effectuado por completo a sua obra, pois que a Egreja

Reformada ainda tinha muitos obstaculos a vencer, e o facto de Knox não

tomar parte na batalha tornava-lhe mais difficil o sair victoriosa. Elle

não possuia a erudição de Calvino, nem uma disposição para se tornar

popular, como Luthero, mas nenhum homem o poderia egualar em coragem.

«Elle nada temia da carne, nem tão pouco a lisongeava.» E foi isso o que

fez o reformador da Escocia.

Como os seus contemporaneos francezes, tinha tanto de estadista como de

dirigente ecclesiastico, e emquanto viveu foi o guia do povo escocez.

Os nobres de bom grado teriam intervindo no movimento, e lhe teriam

dado uma feição mais em obediencia ao seu modo de pensar, mas Knox fez

do pulpito a força mais poderosa da Escocia, e com as suas ousadas

prégações creou uma opinião publica com que era preciso contar. Elle era,

individualmente, um homem de profunda espiritualidade, e «temia a Deus,

mas coisa alguma fóra d’Elle lhe mettia medo».

=Os bispos tulchanos.=—O poder da Egreja Reformada da Escocia foi

consideravelmente fortalecido e consolidado mediante o caracter

representativo dos seus conselhos, e, mais especialmente, da sua

Assembléa Geral, e a liberdade com que todos os assumptos de interesse

para a nação eram ahi tratados e discutidos deu á Assembléa da Egreja o

caracter de um parlamento nacional onde o povo da Escocia encontrava uma

defeza mais efficaz do que nos Estados do reino. Os olhos perspicazes

da rainha Maria haviam discernido esta força da egreja, e ella empregou

varios esforços, sempre infructiferos, para impedir a reunião da

Assembléa Geral. Depois da morte do conde Moray, o Bom Regente, isto é,

durante as regencias de Lennox, Mar e Morton, e durante o reinado de

James, a Assembléa foi sempre mal vista por aquelles que ambicionavam um

poder exclusivo. Sabia-se, porém, que era perigoso dirigir-se á Assembléa

um ataque directo, e aqueles que no Estado dispunham do poder tentaram

diminuir-lhe a auctoridade promovendo ecclesiasticos e elevando-os a

posições que lhes permittissem tomar assento nos Estados e defender ahi

as prerogativas da egreja. Depois da morte do regente Moray, a nobreza

tratou constantemente de derrubar o governo episcopal, e collocar a

Egreja sob o dominio dos bispos.

Uma outra, e talvez mais visivel, causa por que aquelles estavam em

auctoridade antipathisavam com a simples constituição presbyteriana que

o Livro de Disciplina havia preceituado á Egreja era o facto de ella

dar pouca occasião a que as receitas fossem espoliadas, ao passo que a

nomeação de bispos reunia uma grande proporção dos dinheiros da Egreja em

meia duzia de mãos, habilitava os patronos e entrar em negocios com os

ecclesiasticos que elles nomeassem para esses cargos, desviando-se assim

uma grande parte dos fundos de que a Egreja ainda estava de posse para as

algibeiras dos fidalgos de primeira plana.

Pouco antes da morte de Knox, a Assembléa, não sem protesto, tinha, a

instancias dos Lords do Conselho, concordado em acceitar ecclesiasticos

com o titulo de bispos, debaixo de certas condições, sendo as

principaes as seguintes: os bispos não teriam um poder superior ao dos

superintendentes, haviam de estar sujeitos á Assembléa Geral, e não

seriam nomeados sem que devidamente se providenciasse quanto ao sustento

do ministerio regular. Este accordo, chamado a _Convenção de Leith_, foi

devido principalmente ás diligencias de João Erskine, o antigo amigo

de Knox, um dos primitivos superintendentes, e que por mais de uma vez

exerceu na Assembléa o logar de Moderador. Alguns annos de experiencia

mostraram á egreja escoceza o perigo que para a sua vida livre, para a

sua vida democratica, provinha das disposições desta convenção, e pouco

depois da morte de Knox appareceram symptomas de um proximo conflicto.

O mais flagrante exemplo do uso que os nobres mais proeminentes faziam

d’estes bispos para defraudar a Egreja occorreu em 1581, que foi quando

Boyd, o arcebispo de Santo André, morreu. Assim que o edoso prelado

faleceu, o duque de Lennox resolveu apoderar-se das propriedades da

sé. Era impossivel pôr similhante coisa em pratica sem um legalisado

artificio, e o plano escolhido foi induzir Roberto Montgomery, ministro

em Stirling, a acceitar o cargo de arcebispo, tornar-se d’esse modo

herdeiro dos bens da sé, e passar depois os respectivos rendimentos para

as mãos de Lennox. Este caso foi, talvez, o peior d’elles todos; mas em

toda a Escocia se procedeu de uma fórma analoga, nomeando-se bispos,

abbades, etc., para que podessem tomar legalmente posse dos dinheiros

da Egreja, e, em vez de se lhes dar a devida applicação, passal-os para

os bolsos dos patronos seculares. O povo chamava a estes bispos, assim

como a quaesquer outros dignitarios que se prestavam a essas burlas,

tulchanos, e a primeira lucta com os bispos escocezes não foi uma

contestação entre o presbyterio e o episcopado, mas entre a Egreja, que

queria a todo o custo conservar o seu patrimonio, e esses tulchanos.

Quando na Assembléa se tratou do caso de Montgomery, «o moderador, David

Dickson, pediu licença para expôr a significação de bispos tulchanos.

Tratava-se de uma palavra em uso vulgar entre os montanhezes da Escocia.

Quando uma vacca não se deixa mungir, põem junto d’ella uma pelle de

vitello, empalhada, e é a essa pelle que chamam _tulchan_. Ora para

esses bispos que possuíam o titulo e o beneficio, sem desempenharem o

cargo, não se encontrou denominação mais significativa do que a de bispos

tulchanos.»

=André Melville.=—João Knox morreu quando este conflicto entre a Côrte

e a Egreja estava no principio, e era necessario fazel-o substituir

por outro dirigente. Entre os escocezes illustrados que o triumpho da

Reforma e a renascença das letras haviam attraido para o seu paiz natal,

André Melville era o que mais se tinha distinguido. Nascido, em 1545, em

Baldovy, perto de Montrose, recebeu a sua educação na Escola Primaria

d’essa cidade, e no Collegio de St.ª Maria, em St.º André. De ahi foi

para Paris, onde teve por professor o celebre Pedro Ramus. Depois de

terminar os estudos, obteve em Genebra uma cadeira de latim, e em 1574

voltou á Escocia, com a reputação de um dos mais eminentes sabios da

Europa. Pouco depois do seu regresso foi nomeado reitor da universidade

de Glasgow, e por tal fórma dirigiu esse estabelecimento de instrucção

que correu a matricular-se n’elle um elevadissimo numero de mancebos, não

só escocezes como estrangeiros.

Foi um dos membros da Assembléa de 1575, em que a questão do presbyterio

e do episcopado tomou pela primeira vez um caracter serio; e fez parte

da comissão nomeada por essa Assembléa para considerar se o nome e

deveres de um bispo tinham alguma auctorização biblica, isto é, se os

bispos que havia n’aquelle tempo na Egreja da Escocia estavam ali, e

desempenhavam os seus cargos, em obediencia á Palavra de Deus. A decisão

a que se chegou foi que o nome de bispo pertencia a todos os pastores da

Egreja de quem se havia confiado congregações, mas que tambem podia ser

applicado aos ministros escolhidos por seus irmãos para implantar egrejas

e inspeccionar as egrejas existentes, e o sentimento geral da Egreja a

este respeito pode colligir-se d’estas tres expressões, que indicam tres

especies de bispos: My Lord Bishop (_Meu Senhor Bispo_), My Lord’s Bishop

(_Bispo do Meu Senhor_), e Lord’s Bishop (_Bispo do Senhor_), sendo os

primeiros catholicos romanos, os segundos tulchanos, e os terceiros

pastores das congregações.

=O Segundo Livro de Disciplina.=—Quando a Egreja Reformada da Escocia se

encontrou face a face com estes novos problemas ecclesiasticos, sentiu

necessidade de um mais distincto e mais completo schema de governo da

egreja do que aquelle que o Primeiro Livro de Disciplina continha. Esse

systema de governo da egreja havia sido preparado á pressa, e fazia

menção de differentes materias que estavam fôra da esphera de um livro

de preceitos ecclesiasticos. A Assembléa de 1576 nomeou uma commissão

para tratar d’esse assumpto, e redigir um livro que podesse substituir

a obra de Knox e de Row. O dito livro foi escripto de vagar, com muita

perseverança, e finalmente em 1578 deu-se ordem para que o _O Segundo

Livro de Disciplina_ fosse impresso, afim de sujeital-o á critica e se

fazerem as necessarias correcções. Tres annos se dispenderam em ponderar

todos os seus pontos, todas as suas phrases, e o Livro de Politica, como

se lhe chamou, foi então acceite pela Assembléa e incluido nas suas Actas.

Este livro, que apresenta, n’um estylo conciso e claro, o esboço do

governo da Egreja Presbyteriana na Escocia, começa por fazer distincção

entre as leis ecclesiasticas e civis, e reivindica para a Egreja «uma

politica differente da politica do Estado». O conjuncto do governo da

egreja, diz o livro, comprehende doutrina, disciplina e distribuição; e

para este triplice governo ha um triplice officialato, que se divide em

pastor, ou bispo, presbytero e diacono. O Livro de Disciplina addiciona

um quarto oficio, ou de doutor, ou ensinador. N’um curto capitulo vem

descripta a natureza da vocação, assim como o modo da eleição e ordenação

dos pastores. Faz-se tambem uma descripção dos deveres que cabem a cada

uma das dignidades, e das varias assembléas em que aquelles que estão

d’ellas revestidos teem de comparecer, no exercicio dos seus cargos. É

singular que no anno que precedeu o da adopção do Livro de Disciplina

pela Assembléa recebesse o seu complemento a organização presbyteriana

da Egreja Escoceza mediante o universal reconhecimento do presbyterio

como um tribunal superior á sessão da egreja, mas inferior ao synodo;

e que este livro de politica não faça menção especial de similhante

tribunal, que actualmente exerce funcções tão importantes na organização

presbyteriana escoceza.

Como a publicação do _Segundo Livro de Disciplina_ a Egreja Reformada da

Escocia completou a sua organização ecclesiastica, e terminou a primeira

parte da sua historia. A Reforma estava por esse tempo firmemente

estabelecida, e o protestantismo tinha empolgado o povo da Escocia. A

Egreja tinha deante de si uma longa lucta; o conflito, porém, não era com

o papismo, mas com o Estado; não era no sentido de reformar a religião,

mas de desenvolver e preservar a fórma democratica do governo da Egreja,

que se impunha ao povo como sendo a mais conforme com a Palavra de Deus,

e a mais adequada para a habilitar a desempenhar os seus deveres de

Egreja de Christo.

Em 1574 a Escocia achava-se em curiosas circumstancias ecclesiasticas.

Haviam-se conservado as paroquias que existiam antes da Reforma, e cujo

numero era superior a mil. Para seu funccionamento havia 289 ministros

e 715 leitores, e muitos d’estes ultimos eram os padres catholicos

romanos que tinham vindo para a religião reformada mas que não possuiam

uma educação sufficiente para justificar a sua ordenação como pastores

protestantes. Estas paroquias passaram depois a constituir presbyterios,

os presbyterios foram agrupados em synodos, e o conjuncto estava sob a

direcção da Assembléa Geral. A organização presbyteriana era, n’um certo

sentido, completa. A par d’isto, porém, existiam as velhas dioceses,

anteriores á Reforma, em numero de treze, na sua maior parte occupadas

por homens que eram ministros protestantes, que haviam tomado o titulo

de bispos, mas que não exerciam funcções episcopaes. Apenas tres

d’esses bispos, o de St.º André, o de Glasgow e o de Aberdeen, haviam

tentado exercer a jurisdicção episcopal, e não o tinham feito tanto na

qualidade de bispos, como de superintendentes. Os bispos tinham assento

no parlamento escocez, e os seus deveres principaes eram administrar as

receitas da cathedral e desempenhar as funcções judiciaes que eram da

competencia dos bispos n’outro tempo, anteriormente á Reforma.

Esta organização episcopal vivia lado a lado com a activa e aggressiva

constituição presbyteriana da Egreja. O estado dos negocios ainda mais

anomalo se tornava com o facto de ainda viverem, e exercerem a sua

fiscalização, tres dos antigos superintendentes; e os districtos dos

outros superintendentes eram governados por commissarios provisorios

nomeados pela Assembléa, que podia demittil-os quando entendesse.

O fim que a Egreja tinha em vista com o conflicto que durou desde 1574

até 1638 era acabar inteiramente com aquillo a que chamava a inutil e

nociva organização episcopal, que não tinha ligação alguma com a obra

espiritual da Egreja, e substituir os superintendentes e commissarios

por presbyteros, unindo assim a Egreja n’um todo harmonico. O fim que a

côrte tinha em vista era conservar o velho systema episcopal, e, mediante

elle, ir gradualmente dividindo a Egreja em fragmentos, cada um d’elles

governado por um bispo que só era responsavel para com o parlamento; e,

no fim de tudo, restabelecer o episcopado no velho sentido da palavra, e

derribar por completo a constituição presbyteriana.

O anno de 1638 foi o do triumpho da Egreja, mas a historia completa

d’esta lucta ultrapassa os limites da presente obra.

III PARTE

A REFORMA ANGLICANA

CAPITULOS:

I—A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII.

II—A REFORMA SOB EDUARDO VI, E A REACÇÃO SOB MARIA.

III—A REFORMA SOB ISABEL.

CAPITULO I

A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII

O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, pag.

157.—Antecipações da Reforma em Inglaterra, pag. 158.—O

estado ecclesiastico de Inglaterra no principio da Reforma,

pag. 159.—As relações de Inglaterra com o pontificado, pag.

160.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado,

pag. 161.—Henrique muda de opinião, pag. 163.—Henrique VIII,

Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre elles,

pag. 164.—A submissão do clero, pag. 165.—O progresso da

separação de Roma, pag. 166.—Separação de Roma e Reforma: duas

coisas differentes, pag. 168.—Execução da sir Thomaz More, pag.

169.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades

da Egreja, pag. 170.—_Os Dez Artigos_, pag. 171.—_O Estatuto

Sanguinario_, pag. 173.—A Egreja de Inglaterra em 1547, pag.

173.

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