a Escocia dos grandes movimentos intellectuaes da Europa. No período
em que os estudantes escocezes iam em grande numero para Oxford,
Wycliffe exercia o professorado, e o lollardismo triumphava na grande
universidade ingleza. Os estudantes escocezes voltavam contaminados
com as maximas constitucionaes e as aspirações religiosas dos grandes
homens de Inglaterra, e o lollardismo propagou-se na Escocia. Depois das
universidades de Aberdeen, Glasgow e St.º André terem sido fundadas,
no seculo quinze, os velhos arquivos dizem-nos que as auctoridades
ecclesiasticas effectuaram inspecções com o fim de expurgar o corpo
docente dos erros de Lollard. A seu devido tempo, o lollardismo passou
das universidades para o publico, e os primeiros chronistas da Reforma
nunca deixam de se referir aos lollards, ou homens biblicos de Kent, e á
entrevista que tiveram com James IV.
Havia estudantes escocezes em Paris quando Pedro Dubois, Marsilio de
Padua e Guilherme de Ockham ensinavam publicamente que a egreja è o povo
christão, e que pode existir uma egreja sem papa e sem padres.
=A Escocia e Huss.=—A Bohemia e os actos de João Huss n’esse paiz eram
bem conhecidos na Escocia. Calderwood falla-nos de Paulo Craw, bohemio
que foi convencido de heresia a instancias de Henrique Wardlaw, bispo de
St.º André, perante sete doutores em theologia, por divulgar as doutrinas
de João Huss e de Wycliffe, «negando que houvesse qualquer modificação da
substancia do pão e do vinho na Ceia do Senhor, e reprovando a confissão
auricular e as orações aos santos defuntos.» Foi condenado á fogueira,
e no momento da execução «metteram-lhe uma bola de cobre na bocca; para
que o povo não ouvisse o seu justo protesto contra a injusta sentença
d’elles.» Recentes investigações arqueologicas teem tornado evidente uma
mais intima connexão entre a Escocia e a Bohemia do que até então se
suspeitava.
=A Egreja romana na Escocia o a situação politica.=—A Egreja romana na
Escocia era muito rica, e era talvez mais corrupta do que em qualquer
outra parte fóra da Italia. A herança que lhe foi legada pela Egreja
celta não era toda boa; os satyricos tinham começado a chamar a attenção
para o contraste entre as profissões e as vidas dos ecclesiasticos,
e os seus livros produziam grande impressão no povo baixo. «Quanto
aos modos mais particulares por que muita gente na Escocia adquiriu
algum conhecimento da verdade de Deus na epoca das grandes trevas,»
diz João Row, «havia alguns livros, taes como _Sir David Lindsay, e as
suas poesias ácerca das Quatro Monarquias_, que trata tambem de muitos
outros pontos, e expõe os abusos do clero de aquelle tempo; os _Psalmos
de Wedderburn_ e as _Balladas de Godlie_, em que se alteram para fins
piedosos muitos dos antigos canticos papistas: e uma _Queixa_ feita
pelos estropiados, cegos e pobres de Inglaterra contra os prelados,
padres, freiras e outras individualidades da egreja que dispendiam
prodigamente todos os dizimos e outros rendimentos ecclesiasticos em
prazeres illicitos, de modo que elles, os queixosos, não podiam adquirir
alimentação nem allivio, como Deus tinha ordenado. Estas coisas foram
impressas, e penetraram na Escocia. Havia tambem peças dramaticas,
comedias e outras historias notaveis, que eram representadas em publico;
a _Satyra_ de Sir David Lindsay foi representada no amphitheatro de S.
Johnston (Perth), na presença do rei James V, e de uma grande parte da
nobreza e da classe abastada, durando a representação um dia inteiro,
e fazendo sentir ao publico as trevas em que estava envolvido, e a
perversidade dos homens da egreja, e mostrando-lhe como a Egreja de Deus
seria se fosse dirigida de uma maneira differente, o que tudo foi muito
benefico n’aquella ocasião.
As riquezas da Egreja romana da Escocia tinham, havia muito, excitado a
inveja dos barões, que esperavam a ocasião em que podessem, sem risco,
apoderar-se de parte dos bens ecclesiasticos. Durante muito tempo não
occorreu similhante opportunidade. O clero era um senhorio que gozava da
estima geral. Os vassallos da Egreja estavam em muito melhores condições,
e tinham uma vida mais descançada, do que aquelles que cultivavam as
terras dos barões e de outras personagens de menor cathegoria. Os
camponezes escocezes rir-se-hiam, talvez, com as satyras de David
Lindsay, mas gostavam da Egreja, e perdoavam-lhe os defeitos.
Quando os prégadores escocezes que tinham estado em Wittenberg, ou que
tinham estudado as obras de Luthero e dos outros reformadores, ou que
sabiam pela Escriptura o que era desejar ardentemente o perdão e a
salvação, começaram a prégar um Evangelho reformado, então, e só então,
é que o povo principiou a comprehender a mordaz significação das satyras
que alvejavam a clerezia. As auctoridades ecclesiasticas fizeram todo
o possivel para supprimir estes reformadores. Patricio Hamilton, Jorge
Wishart e muitos outros prégadores cheios de fervor e de espiritualidade
foram martyrisados; e estas crueldades contribuiram mais do que os
sermões ou as satyras para que o povo escocez se desgostasse da Egreja
romana. A sanguinaria Maria tinha tornado a Inglaterra protestante; e
o cardeal Beaton, com os seus homicidios judiciaes, e particularmente
com o homicidio do velho Walter Mill, fez com que o povo da Escocia se
preparasse para Knox e para os lords da Congregação.
Durante umas poucas de gerações a politica exterior da Escocia tinha
sido de inimizade para com a Inglaterra e de amizade para com a França.
A alliança com esta nação havia motivado o casamento da James V com uma
princeza da casa de Guise, e, mais tarde, os esponsaes e casamento da
herdeira do throno da Escocia com o delphim da França. James V morreu,
ficando regente a rainha franceza, cuja conducta incutiu nos espiritos
de muitos escocezes o receio de que a Escocia viesse a tornar-se uma
provincia de França. Tinham sido nomeados francezes para cargos de
confiança na Escocia; o castello de Dunbar tinha uma guarnição franceza;
e a regente projectava crear um exercito permanente, segundo o systema
francez. Este alarme foi tomando tal vulto que o partido nacional, que
por fim triumphou, chegou a inverter a politica hereditaria da Escocia,
e ficou tendo por objecto uma alliança com a Inglaterra e uma guerra
com a França. A Inglaterra era protestante, emquanto que os verdadeiros
senhores da França eram os Guises, os cabecilhas do fanatico partido
romanista, os homens que planearam a carnificina de S. Bartholomeu.
Tal era o estado das coisas na Escocia quando João Knox começou a sua
admiravel obra de reformador.
O povo estava educado acima da sua civilisação, e podia comprehender
e saudar as novas idéas, tendo, como tinha, costumes grosseiros, e
vivendo, como vivia, uma vida rude. A egreja tinha perdido a confiança da
nação em virtude da immoralidade do clero, e por ultimo tinha excitado
as paixões do povo contra si com a sua cruel perseguição de homens de
uma vida immaculada que prégavam um Evangelho puro. Alguns dos barões
tinham partilhado a revivificação religiosa começada pelos prégadores
reformados; outros estavam anciosos por livrar o paiz do dominio francez,
e outros, ainda, queriam a todo o transe seguir o exemplo da Inglaterra
e enriquecer á custa da egreja. Todos estes motivos, uns puros e outros
não, estavam agitando o povo da Escocia nos annos que precederam o de
1560.
=João Knox=, nascido em Giffordsgate, nos arredores de Haddington, em
1505, educado na universidade de Glasgow, e ordenado padre em 1542,
tornou-se primeiramente conhecido do povo da Escocia quando, muito novo
ainda, andou em companhia de Jorge Wishart para proteger este prégador
reformado emquanto elle dirigia a palavra a immensos auditorios.
Depois do martyrio de Wishart, e do assassinio do cardeal Beaton, Knox
aggregou-se á facção que havia tomado de assalto o castello de St.º
André. Quando os defensores se viram forçados a capitular, os poucos
membros da guarnição que estavam, incluindo Knox, foram enviados para
França e condemnados á escravidão das galés. N’uma occasião em que puxava
pelos remos, foi-lhe apresentada uma imagem da Virgem, de pau, para elle
a beijar como meio de adoração. Knox recusou-se a honrar «o madeiro
pintado», e atirou com a imagem ao mar, dizendo que, como ella era de
pau, «não havia de ir para o fundo». Apoz um captiveiro de dezenove
mezes, elle, juntamente com outros que haviam sido aprisionados em
St.º André, foi solto a pedido de Eduardo VI de Inglaterra. Restituido
á liberdade em fevereiro de 1549, foi direito a Inglaterra, onde se
empregou como prégador viajante. A sua eloquencia, zelo e incomparavel
coragem em breve o collocaram em primeiro plano. Foi-lhe offerecida a
diocese de Rochester, mas recusou-a sob o fundamento de que não era sua
crença que similhante cargo fosse auctorizado pelas Escripturas. Foi
consultado ácerca da revisão dos _Artigos da Religião_, e suggeriu a
celebre _declaração sobre o assumpto de ajoelhar na Communhão_, que ficou
inserta no Segundo Livro de Oração Commum de Eduardo VI (1552). A subida
de Maria ao throno obrigou-o, apoz uma arrojada tentativa de proseguir na
sua obra de prégador nomada, a retirar-se para o continente.
Um anno foi gasto a visitar varias localidades da França e da Suissa. Em
Genebra tornou-se o intimo amigo de Calvino. Apoz uma curta estada em
Frankfort sobre o Maine, onde foi pastor da congregação de refugiados
inglezes que se haviam ajuntado ahi, tornou-se o pastor da Congregação
ingleza de Genebra em 1555. Durante a sua curta permanencia ahi tomou
parte na composição de aquelle directorio do culto publico, que, sob os
varios nomes de Livro de Ordem Commum, Livro de Genebra e Lithurgia de
Knox, serviu de guia no culto publico da Egreja reformada da Escocia
até á publicação e adopção do Directorio dos Theologos de Westminster.
Collaborou tambem ma traducção da mais popular das primitivas versões da
Sagrada Escriptura, a Biblia de Genebra.
Durante a sua ausencia foi ganhando a pouco e pouco a reputação de ser o
unico homem competente para conduzir os esforços do partido reformista da
Escocia a satisfactorio resultado final; e no outomno de 1555 regressou
á sua terra natal. Com a sua coragem habitual, começou logo a fazer
predicas nos aposentos que occupava em Edinburgo, e fez alguns gyros
predicativos, como, por exemplo, a Forfarshire, sob a protecção de
Erskine de Dun, e a West Lothian, sob a protecção de Lord Torphichen. Foi
durante esta visita que Knox principiou a administrar a Ceia do Senhor á
moda reformada. A primeira celebração foi em casa do conde de Glencairn,
na primavera de 1556.
O Reformador, provavelmente, não achou o paiz em estado de entrar em
qualquer grande movimento que o approximasse da Reforma, e partiu da
Escocia para Genebra em Julho de 1556. Queixou-se da lentidão, timidez
e falta de união entre os protestantes, quando alguns dos fidalgos
lhe solicitaram, em Março de 1557, que voltasse, e mandou dizer que
achava melhor addiar o seu regresso. Esta reprehenção deu logar a uma
Confederação dos nobres, que depois se tornou bem conhecida na Escocia
sob o titulo de Lords da Congregação.
=A Congregação e a Primeira Convenção.=—O turbulento caracter dos
barões escocezes, e a fraqueza da auctoridade central, tanto do rei
como dos estados, eram origem de constantes confederações de homens de
todas as classes para realisarem, com segurança, emprezas, umas vezes
legaes, e outras illegaes. Os confederados promettiam ajudar-se uns aos
outros na obra que se propunham executar, e defender-se mutuamente das
consequencias que se lhe seguissem. Estas combinações eram geralmente
redigidas em fórma legal por notarios publicos, e o seu cumprimento
tornava-se obrigatorio mediante todas as formulas de garantia que a lei
facultava. Estes Lords da Congregação seguiram um costume predominante
em todas as confederações quando se alliaram para manter e dar maior
desenvolvimento á bemdita palavra de Deus e á Sua congregação, e
para renunciar á congregação de Satanaz com todas as supersticiosas
abominações e idolatria que lhe eram inherentes; mas introduziram um
novo sentido espiritual n’esta alliança quando o seu pacto de federação
se tornou tambem uma promessa feita a Deus em publico, como as que
encontramos no Antigo Testamento, de serem verdadeiros e fieis á Sua
palavra e direcção. Esta «faixa assignada pelos Lords», como Calderwood
lhe chama, foi a primeira das cinco convenções que se tornaram famosas na
historia da Egreja Reformada da Escocia.
A esta convenção estavam ligadas duas resoluções, em que os confederados
resolveram insistir no uso do Livro de Oração de Eduardo VI nas paroquias
que estivessem debaixo do seu governo e dar incremento á exposição das
Escripturas, particularmente, pelas casas, até que as auctoridades
permittissem a prégação publica «por verdadeiros e fieis ministros».
Este acto reanimou grandemente todos aquelles que desejavam uma
reformação, e fez com que o povo tivesse ousadia para exprimir a sua
aversão pelas supersticiosas ceremonias da Egreja Catholica Romana. A
Côrte, em 1559, prohibiu de prégar todos aquelles que não estivessem
auctorizados pelos bispos; e, como não se fizesse caso d’essa prohibição,
os prégadores foram intimados a apresentar-se no tribunal de Stirling.
N’este entretanto Knox voltou á Escocia. Desembarcou em Leith, a 2 de
Maio, e dirigiu-se a Perth, onde os Lords da Congregação se haviam
reunido para proteger o seu prégador. Chegou a Perth a noticia, emquanto
Knox estava prégando, de que os ministros reformados estavam proscriptos,
e no dia seguinte, depois do sermão, quando um padre tentou dizer
missa na presença de uma excitada multidão, produziu-se um tumulto, e
a «vil turbamulta», segundo a expressão de Knox, entrou nos conventos
dos franciscanos e dos cartuxos, e pôl-os a saque. A rainha regente
marchou a atacar os sediciosos; o conde de Glencairn saiu a proteger
os reformados; estava prestes uma guerra civil. Quasi immediatamente,
porém, a rainha cedeu; de ambos os lados se entrou em negociações sem
uma mutua confiança. Por fim os Senhores da Congregação marcharam sobre
Edinburgo, tomaram posse da cidade em Outubro de 1559, e, convocando os
estados, depozeram a regente. Concluiu-se um tratado com a Inglaterra,
e Isabel mandou tropas inglezas para protegerem a Congregação. Houve um
combate entre a facção romanista, auxiliada pelo exercito francez, e a
Congregação, auxiliada pelas tropas que tinham ido de Inglaterra, e os
francezes foram repellidos. A rainha regente morreu em junho do anno
seguinte, e a Congregação ficou senhora da Escocia.
Os estados do reino reuniram-se, e foi posto á sua deliberação um pedido
da Congregação, referente a uma reforma de doutrina, de disciplina,
de administração dos sacramentos, e da distribuição do patrimonio da
egreja. Em resposta, os estados requisitaram um summario das desejadas
reformas doutrinaes; e de ali a quatro dias foi-lhes apresentado um
decumento, conhecido depois pelo nome de _Confissão Escoceza_. Foi tomado
em consideração, os prelados fizeram algumas, poucas, observações,
e, posto a votos, foi approvado quasi por unanimidade. Egual sorte
tiveram as outras tres Actas, que aboliam a jurisdicção do papa no
interior do reino, revogavam todas as anteriores determinações do
parlamento que eram contrarias á Palavra de Deus e á Confissão de Fé
recentemente adoptada, e prohibida a assistencia á missa e a outras
ceremonias idolatras. E a religião reformada ficou sendo a religião da
Escocia legalmente auctorizada. A auctoridade, comtudo, era o poder dos
Estados, independentemente do soberano; pois que a rainha regente tinha
fallecido, e a sua filha, Maria, rainha da Escocia, ainda não havia
regressado da França.
=A Confissão Escoceza, ou Confessio Scotica.=—Apresentada aos Estados,
e englobada nas suas Actas quando adoptada por elles, foi a obra de
seis reformadores escocezes: Knox, Spottiswood, Willock, Row, Douglas e
Winram. Diz-se que Maitland de Lethington, tido na conta de um dos mais
habeis estadistas do seu tempo, reviu o livro e attenuou algumas das suas
declarações. Redigido á pressa por um pequeno numero de theologos, é mais
complacente e humano do que a maioria dos credos, e por essa razão tem-se
recommendado a muitas pessoas que não se conformam com a logica impessoal
da Confissão de Westminster. As primeiras phrases do prefacio dão uma
idéa geral do todo. «Ha muito tempo que anceiavamos, queridos irmãos, por
notificar ao mundo a summula de aquella doutrina que professamos, e pela
qual nos havemos sujeitado ás ignominias e aos perigos. Tal tem sido,
porém, a ira de Satanaz contra nós e contra Jesus Christo, cuja verdade
eterna se manifestou ultimamente entre nós, que até hoje não nos tem
sido concedido tempo para desobstruir as nossas consciencias, o que com
muito regozijo teriamos feito.» O prefacio expõe tambem mais claramemte
do que qualquer outra Confissão do mesmo genero a reverencia com que os
vultos da Reforma tratavam a Palavra de Deus. «Pedimos a qualquer pessoa
que notar n’esta nossa Confissão algum artigo ou phrase que esteja em
desacordo com a Santa Palavra de Deus, que, dando prova da sua caridade
christã, nos advirta d’esse erro por escripto, e, pela nossa honra e
fidelidade, promettemos dar-lhe satisfação pela bocca de Deus, isto é,
mediante a Sua Santa Escriptura, ou então emendarmos aquillo que se
demonstrar que precisa de correcção. Perante Deus deixamos escripto nas
nossas consciencias que abominamos, do fundo do coração, todas as seitas
hereticas, e todos os promulgadores de doutrinas erroneas; e que com toda
a humildade abraçamos a pureza do Evangelho de Christo, que é o unico
alimento das nossas almas.»
A Confissão contém as crenças communs a todas as ramificações da Reforma.
Encerra, outrosim, todas as doutrinas chamadas ecumenicas, isto é, as
verdades expostas nos primeiros concilies ecumenicos, e incorporadas no
Credo dos Apostolos e ao Credo Niceno; e accrescenta aquellas doutrinas
de graça, de perdão e de luz mediante a Palavra e o Espirito que com a
reviviscencia da religião adquiriram uma proeminencia especial. Esta
Confissão é mais notavel pelos seus titulos suggestivos do que por
qualquer peculiaridade de doutrina. A doutrina da revelação é, por
exemplo, definida por si propria, independentemente da doutrina da
Escriptura, mediante este titulo: «A Revelação da Promessa». A Eleição
é considerada, segundo o antigo calvinismo, um meio de graça, uma
evidencia do «invencivel poder» de Deus quanto á salvação. Os pontos
em que a verdadeira egreja se distingue da falsa são, diz-se na dita
Confissão a genuina prégação da Palavra de Deus, a adequada administração
dos sacramentos, e a justiça na applicação da disciplina ecclesiastica.
A auctoridade das Escripturas, affirma tambem, procede de Deus, nada
tem que ver nem com homens nem com anjos; e a egreja sabe que ellas são
verdadeiras, porque «a verdadeira egreja ouve e obedece sempre á voz do
seu Esposo e Pastor.»
Esta Confissão foi primeiro lida toda de uma vez no parlamento, e depois
tornada a ler clausula por clausula. Randolpho, o embaixador inglez, que
assistiu a essa leitura, descreveu-a a Cecilio, o grande ministro de
Isabel, e entre outras coisas diz-nos que, quando se leram os artigos,
alguns dos barões ficaram tão commovidos que se levantaram dos seus
logares, declarando que estavam promptos a derramar o seu sangue em
defeza da Confissão», e que Lord Lindsay, com uma gravidade raras vezes
presenciada, disse: «Tenho vivido muitos annos; sou o mais edoso de todos
quantos aqui se encontram; e agora que aprouve a Deus deixar-me chegar a
este dia, em que tantas pessoas, algumas d’ellas pertencentes á nobreza,
sanccionaram uma obra tão digna, direi como Simeão, _Nunc dimitis_».
=A rainha Maria e a Reforma.=—A Reforma não tinha de triumphar na
Escocia tão de repente e com tanta facilidade. Sir James Sandilands,
encarregado de levar a Paris a Confissão de Fé, não só não conseguiu que
a joven rainha a assignasse, como o informaram do desagrado com que ella
soube dos acontecimentos occorridos na Escocia; e só apoz sete annos
de lucta, que terminou com a deposição da soberana, é que a Confissão
foi finalmente ratificada e a Egreja Reformada alcançou na Escocia um
completo reconhecimento official.
Francisco II, esposo de Maria, morreu em 1561, e a joven rainha chegou
á Escocia em agosto do mesmo anno. Vinha acompanhada de um numeroso
e brilhante sequito, do qual tambem faziam parte tres de seus tios,
membros da casa de Guise, e o filho do famoso Condestavel de Montmorency.
O duque de Guise e o cardeal de Lorena acompanharam-n’a até Calais.
Os reformadores escocezes conheciam bem os homens que rodeiavam a sua
rainha, e que tão ostensivamente se achavam dispostos a protegel-a.
Era do dominio publico que o duque de Guise estava á frente de aquelle
partido que ambicionava exterminar os protestantes francezes por meio
de um massacre geral. Fôra elle, segundo se presumia, o instigador do
assassinio judicial de Anne de Bourg, e que havia planeada a, carnificina
de Amboise. A devassidão dos Guises só era excedida pela sua deshumana
crueldade. Taes eram os homens que passaram á Escocia para acompanhar e
aconselhar a joven rainha.
Não é, pois, para surprehender que, ponderando estas coisas, Knox e os
seus amigos reputassem a vinda da rainha uma grande calamidade, e que
vissem no nevoeiro e chuva que durante dois dias caiu sobre a costa
oriental da Escocia, um como que aviso do céu, uma manifesta exposição da
felicidade que ella trouxera comsigo para aquelle paiz, felicidade que
se poderia traduzir por estas palavras: afflicção, dôr, obscurantismo e
impiedade.
A belleza physica, o privilegiado talento, os infortunios e o tragico fim
da joven rainha teem-n’a circumdado de uma aureola romantica. E, comtudo,
nem mesmo os seus admiradores teem feito inteira justiça á sua indomavel
coragem e aos seus grandes dotes intellectuaes. Estava quasi só ao voltar
para o seu paiz natal, e viu immediatamente que coisa alguma devia
esperar da França e que necessitava de crear um partido em que podesse
descançar confiadamente. Era uma rapariga de dezenove annos quando saiu
de França; apezar d’isso, Knox, que teve com ella algumas entrevistas
pouco depois da sua chegada, parece ter reconhecido n’ella uma mulher
superior, e ter-se compenetrado de que havia motivo para receiar que uma
das duas, ou a rainha ou a Reforma, tivesse de ir a terra. O combate que
ella sustentou sósinha com a Reforma foi observado com anciedade por toda
a Europa; e, se ella não tivesse sido educada n’uma côrte tão corrompida,
e se não tivesse convergido para ella o odio que aquelles seus parentes,
os Guises, haviam inspirado, podia muito bem ser que ficasse victoriosa.
Poderá parecer cruel fallar d’este modo, agora que o perigo já lá vae
ha seculos, mas o que é verdade é que bastantes familias pacificas e
religiosas, tanto na Hollanda, como na França, como no Paiz do Rheno, e
com mais razão ainda na Escocia e na Inglaterra, só respiraram á vontade
quando o machado poz finalmente, em Fotheringay, termo á triste e agitada
vida da rainha Maria.
A lucta começou com a sua chegada. Ella e a sua côrte foram, com todo
o espavento, ouvir missa logo no primeiro domingo, posto que fosse
prohibido dizer e ouvir missa, sob pena de um severo castigo. Principiou,
pois, por infringir as leis do estado, d’esse mesmo estado que havia
implantado a Reforma. Se quizessemos contar detalhadamente o que de ahi
em deante se passou encheríamos umas poucas de paginas. Apoz sete annos
de lucta, Maria foi aprisionada no castello de Lochleven, e deposta,
sendo collocado no throno o seu filho, ainda na infancia, James VI, e
ficando como regente do reino seu irmão James Stewart, conde de Moray.
O parlamento escocez votou novamente a Confissão de Fé; o regente
assignou-a em nome do soberano; e, assim ratificado, foi incluido na
legislação do paiz e a religião reformada ficou sendo a reforma do
christianismo legalmente reconhecida na Escocia.