Os «Mendigos do Mar» pozeram em debandada uma frota no principio d’esse

anno. Atacaram outra no Scheldt, apoderando-se de quarenta navios e

mettendo o resto no fundo.

=O cerco de Leyden.=—A cidade conservava-se havia muito tempo em poder

dos patriotas, e os hespanhoes faziam o maximo empenho em se apoderar

d’ella. Luiz de Nassau fez levantar o primeiro cerco que lhe pozeram,

mas desde maio de 1574 que o inimigo lhe dirigia repetidos e vigorosos

ataques. Não foi possivel a Guilherme, depois da batalha de Mooker

Haide, encontrar-se frente a frente com as tropas hespanholas. Precisava

de todos os seus homens para guarnecer as cidades fortificadas. Leyden

estava em perigo de ser conquistada, e não se lhe podia enviar soccorro

algum. Achava-se situada n’uma planicie cheia de pomares e de searas que

já pouco tempo esperariam pela ceifa, e esta planicie, como quasi todas

as da Hollanda, estava abaixo do nivel do mar, sendo, por conseguinte,

facil inundal-a, bastando para isso destruir os diques que se oppunham

á invasão das ondas. Guilherme não viu outro meio de a soccorrer senão

fazendo chegar a esquadra junto dos seus muros, e apresentou esse alvitre

aos respectivos habitantes, que o acceitaram. Foram, pois, abertos os

diques, e a esquadra dos «Mendigos do Mar» preparou-se para entrar com

a maré e navegar em seguida sobre submersas hortas, pomares e campos de

semeadura. O plano era este, mas levantou-se a contrarial-o uma chusma

de difficuldades. Tornou-se uma tarefa difficil arrombar os diques; a

agua começou a entrar, mas lentamente; violentissimos ventos a impelliam

para fóra. Entretanto os viveres eram cada vez mais escassos na cidade,

e a faminta população, subindo aos campanarios, via a agua sempre lá

ao longe, via que os soccorros se approximavam muito vagarosamente,

como se nunca houvessem de chegar, ou então como se houvessem de chegar

tarde de mais. Os hespanhoes, que tambem conheciam o perigo e a miseria

em que a cidade se encontrava, promettiam amnistias e uma honrosa

capitulação. «Temos dois braços», exclamou do alto das muralhas um dos

defensores, «e quando a fome nos apertar muito comemos o esquerdo, e

deixamos o outro para manejar a espada». Quatro mezes se passaram n’um

indescriptivel soffrimento, e por fim, em 3 de outubro, o mar chegou ao

sopé das fortificações, e com elle a frota hollandeza. Os hespanhoes

fugiram aterrorisados, pois que os «Mendigos do Mar» cairam sobre elles,

soltando o seu costumado grito de guerra: «Antes turcos do que papistas».

Os marinheiros e os habitantes da cidade dirigiram-se á sumptuosa egreja

para dar graças a Deus pelo livramento que, por Sua misericordia, lhes

viera do mar. Quando a numerosa congregação estava entoando um psalmo de

libertação, as vozes calaram-se de subito, e não se ouvia senão soluços.

Toda a gente, enfraquecida pelas longas vigilias e pelas privações, tendo

agora uma consciencia nitida do seu inesperado livramento, se pozera a

chorar.

A boa nova foi levada a Delft por Hans de Brugge, que chegou a esta

localidade quando o principe de Orange estava assistindo ao serviço

religioso da tarde, sendo só depois de elle terminar que o povo soube do

succedido. O principe, apezar de doente, montou a cavallo, e partiu logo

para Leyden, para tomar parte no regozijo publico. Propoz que, em acção

de graças, se fundasse na cidade um estabelecimento de instrucção, e foi

assim que teve origem a famosa universidade de Leyden. A cidade tornou-se

o centro do protestantismo das provincias. Picou sendo na Hollanda o que

Wittenberg era na Allemanha, Genebra na Suissa, e Saumur em França.

=Negociações entre as provincias do sul e as do norte.=—O levantamento

do cerco de Leyden mareou um novo periodo na guerra da independencia.

O oommissario hespanhol via que se estava formando, vagarosa e quasi

imperceptivelmente, um novo estado protestante, e as difficuldades que

de todos os lados o assediavam eram, pode-se dizer, invenciveis. Estava

elle luctando com ellas, quando de subito morreu, em 5 de Março de 1576.

A sua morte inesperada foi um golpe para a dominação hespanhola, e os

acontecimentos que se lhe seguiram mostraram aos neerlandeses que eram

catholicos romanos aonde o governo hespanhol poderia tel-os conduzido.

A morte de Requescens produziu uma certa perturbação na politica

hespanhola. Desde o tempo do duque de Alba o pagamento das tropas

tinha sido feito com difficuldade, e agora os cofres publicos estavam

despejados, e os soldados queixavam-se de se lhes dever alguns mezes de

soldo. Por fim, perdida a esperança de que essa divida fosse liquidada,

revolucionaram-se. «Dinheiro ou liberdade para saquear qualquer cidade»,

era o seu grito. A guarnição de Aalst foi a primeira a revoltar-se, sendo

secundada pelas de quasi todas as cidades fortificadas das provincias

do sul. Os revoltosos pozeram a saque as cidades de Aalst, Maestricat

e Antuerpia. Deram-se por toda a parte horriveis scenas de roubo e

assassinio e durante tres calamitosos dias de novembro a populosa e

opulenta cidade de Antuerpia soffreu tudo quanto sobre ella podia ser

exercido por uma soldadesca dissoluta e brutal.

O principe de Orange aproveitou esta sublevação para avançar com as

suas tropas, e dentro em pouco estava de posse da importante cidade de

Ghent. Os habitantes das provincias do sul tanto nobres como plebeus,

tinham, por sua vez, sido victimas de aquellas horrorosas calamidades

que os seus compatriotas os protestantes do norte, tinham, havia muito,

experimentado. Antuerpia tinha soffrido; Bruxellas, mais resoluta, pegou

em armas e expulsou os soldados hespanhoes. Os nobres de Flandres e de

Brabante estavam anciosos por se unirem ás provincias do norte; e pediram

a Guilherme que os livrasse dos hespanhoes. Em Ghent realisou-se um

congresso de representantes das provinciais do norte e do sul, ficando

assentes os preliminares de uma duradoura união. Foi a isto que se chamou

a _Pacificação de Ghent_, que foi assignada por delegados de dezesete

provincias.

Por este tratado eram expulsos os hespanhoes, estabelecia-se uma completa

liberdade de commercio entre as provincias do norte e as do sul, ficavam

revogados todos os edictos contra os protestantes, concedia-se protecção

aos catholicos romanos, todas as provincias se uniam para constituir

um unico Estado, e o principe de Orange ficava sendo _statholder_ até

posterior decisão, que seria tomada depois de se retirarem os hespanhoes.

=D. João de Austria nos Paizes Baixos.=—A _Pacificação de Ghent_ alarmou

em subido grau os politicos de Madrid. D. João de Austria, irmão de

Filippe, e homem de brilhante reputação, foi enviado aos Paizes Baixos

na qualidade de _statholder_ com plenos poderes. Os estados recusaram

reconhecel-o emquanto elle não fizesse sair as tropas hespanholas.

Apoz algumas negociações, as provincias obtiveram, apparentemente,

que elle attendesse ás suas aspirações com a publicação do _Edictum

Perpetuum_, que garantia a expulsão das tropas, a tolerancia para

com os protestantes, e a unificação dos estados; por algumas cartas

confidenciaes que foram interceptadas, viu-se, porém, que Filippe e o

seu regente não haviam abandonado a antiga politica de repressão, e o

conhecimento d’este facto uniu novamente os catholicos romanos do sul

com os protestantes do norte. Os Estados Geraes não reconheceram a

sua auctoridade, e designaram o principe de Orange para governador de

Brabante. Havia, comtudo, muita difficuldade em que o norte e o sul se

unissem por laços affectuosos. A tolerancia era impossivel n’aquelles

tempos, em que os credos differentes se hostilisavam por uma fórma

violenta, e as rivalidades locaes não se podiam vencer facilmente. Os

nobres de Flandres e de Brabante representavam dois papeis, e essa sua

duplicidade animou D. João de Austria a atacar as forças do principe

de Orange. A guerra terminou com a batalha de Gemblours, em que os

hespanhoes alcançaram uma completa victoria. O principe, comtudo,

mostrou-se, como sempre, tão grande na derrota como na victoria, e

o _statholder_ sentia fugir-lhe a esperança de que a totalidade da

Hollanda, se conservasse fiel ao rei hespanhol. Morreu, cercado por todas

estas difficuldades, em 1 de Outubro de 1578, e succedeu-lhe Alexandre de

Parma, o mais habil, talvez, dos representantes de Filippe.

=Alexandre de Parma nos Paizes Baixos.=—Alexandre Farnese, principe de

Parma, filho de Margarida de Parma, já tinha desempenhado anteriormente

aquelle cargo, e, no dizer de alguns auctores, foi o ultimo dos grandes

homens que a Hespanha possuiu no seculo dezeseis. Era um excellente

general, um habil politico, e um homem de tacto. Encontrou as coisas nas

provincias n’uma grande confusão. O seu unico elemento de força era a

rivalidade que existia entre o norte protestante e o sul catholico romano.

O Tratado de Ghent tornou-se letra morta. As provincias do norte

suppozeram que Flandres e Brabante as tinham traido nos negocios de

que resultou a batalha de Gemblours. As provincias do sul não queriam

submetter-se á dominação dos herejes do norte. Alexandre aproveitou-se

habilmente d’esta desunião para prender as provincias do sul á Hespanha,

com o inevitavel resultado de que os protestantes do norte se uniram

mais estreitamente uns aos outros e se tornaram mais resolutos na sua

determinação de permanecerem livres.

=O Tratado de Utrecht.=—Em 1579, a Hollanda, a Zelandia, Guelders,

Zutphen, Utrecht, Overyssel e Gröningen fizeram-se representar n’uma

assembléa, e redigiram o celebre Tratado de Utrecht, que continha, em

esboço, a futura constituição das provincias unidas. As Sete Provincias

não se separaram da Hespanha. Diziam-se ainda subditas da corôa

hespanhola, mas reivindicavam o direito de darem culto a Deus e de se

governarem segundo o seu modo de ver. Dois annos depois repelliram

inteiramente o jugo hespanhol, e proclamaram a sua independencia,

escolhendo Guilherme de Orange para seu governador perpetuo. Isto teve

logar em Julho de 1581, em resposta a uma proclamação de Filippe, em que

este denunciava Guilherme como um inimigo da humanidade, e offerecia uma

recompensa de vinte e cinco mil corôas de oiro, e, além d’isso, um titulo

de nobreza e o perdão de todos os crimes commettidos anteriormente, a

quem assassinasse o principe.

Do Tratado de Utrecht em deante, as Provincias Unidas foram attingindo

gradualmente uma completa independencia politica e tornaram-se uma

potencia protestante. Guilherme da Orange foi em 1584, morto a tiro por

um fanatico catholico romano chamado Gerardo, cujos herdeiros reclamaram

e obtiveram parte da recompensa promettida por Filippe. A sua obra não

terminou com a sua morte. As Sete Provincias elegeram, para Governador

em seu logar, a seu filho Mauricio, mancebo de dezesete annos, mas

já educado por seu pae para ser um habil general e um prudente chefe

politico. Poz-se resolutamente á testa de aquelle conflicto com a

Hespanha, que parecia interminavel. Isabel de Inglaterra prestou-lhe o

seu auxilio, com o qual ella ficou mais prejudicado do que outra coisa.

Depois da destruição da Armada, e do golpe que esse facto vibrou na

monarquia hespanhola, alcançou uma notavel victoria sobre as tropas

catholicas romanas. A guerra durou até 1604, ora vencendo uns ora

vencendo outros, e, por fim, no referido anno os hollandezes abalaram

fortemente o dominio hespanhol, apoderando-se dos navios que voltavam

das indias Occidentaes e Orientaes, carregados de preciosidades. Em 1607

combinou-se um armisticio, e em 1609 ficou resolvido que houvesse treguas

durante doze annos, tendo-se, porém, convertido essas treguas n’uma paz

definitiva. Os hollandezes tinham conquistado a sua independencia, e

constituiam uma poderosa nação protestante, cuja supremacia no mar só era

disputada pela Inglaterra.

=A Egreja Hollandeza. Sua organização e confissão.=—Durante os annos de

dura perseguição que o protestantismo soffreu nos Paizes Baixos desde o

principio da sua existencia, os protestantes, não obstante os rigores

postos em pratica contra elles, poderam organizar-se sob a fórma de

egreja, e publicar uma confissão. Isto não foi feito sem dificuldades,

que até entre elles proprios surgiram. Os habitantes dos Paizes Baixos

tinham recebido de varias origens a nova fé, e cada qual entendia que

só era verdadeira Reforma aquella que primeiramente havia chegado ao

seu conhecimento. Os primeiros reformadores dos Paizes Baixos haviam

aprendido o Evangelho em Wittemberg, com Luthero, e nas provincias do

norte eram numerosos os lutheranos. Um pouco mais tarde as opiniões

de Zwinglio penetraram na Hollanda, e foram adoptadas por pessoas que

tomavam muito a peito a pureza da religião. Nas provincias do sul a

Reforma foi transmittida ao povo por theologos francezes, educados no

calvinismo. E assim, nos Paizes Baixos, havia adherentes de Luthero, de

Zwinglio e de Calvino. Cada um dos partidos differençava-se dos outros,

especialmente pelo que dizia respeito ao governo da egreja; e, posto

que estas differenças fossem quasi vencidas, reappareceram mais tarde

na contestação que teve logar entre a egreja e o Estado Protestante,

acerca da vida e governo da egreja. Gradualmente, comtudo, o calvinismo

foi levando de vencida o lutheranismo e o zwinglianismo, e a egreja dos

neerlandezes tornou-se calvinista, tanto na doutrina como na disciplina.

=A Confissão Hollandeza.=—N’uma epoca relativamente afastada, isto é,

em 1559 (alguns dizem que em 1561) um joven pastor flamengo, Guido de

Brés, juntamente com Adriano de Saravia, Modetus, capellão de Guilherme

de Orange, e Wingen, prepararam uma Confissão de Fé, para, diziam elles,

justificar pela Escriptura a religião reformada.

Guido de Brés, que foi um dos primeiros evangelistas e martyres dos

Paizes Baixos, nasceu em 1540, na cidade de Mons. Havia estudado para

padre, e converteu-se dos erros do romanismo mediante o estudo das

Escripturas Sagradas. Depois da sua conversão fugiu para Inglaterra,

onde, nos dias de Eduardo VI, aprendeu theologia protestante. Foi depois

para a Suissa, e ao voltar tornou-se um ardente evangelista no norte da

França e no sul dos Paizes Baixos. Era um ardente admirador da Confissão

da Egreja Franceza, e modelou a sua Confissão para a Egreja Flamenga pela

celebre _Confessio Gallica_.

Esta Confissão, a Confissão Belga, como lhe chamavam, foi revista por

Francisco Junio, discipulo de Calvino, em 1561, e foi apresentada ao rei,

Filippe II, em 1562, assim como a Confissão de Augsburgo foi apresentada

a seu pae Carlos V. O eloquente discurso que acompanhou a Confissão pode

ser comparado á dedicatoria a Francisco I, que prefaciou os _Institutos_

de Calvino. Os protestantes negam que sejam rebeldes ao governo, e

declaram que só o que desejam é liberdade para adorar a Deus segundo a

consciencia e a Divina Palavra. De modo algum negarão a Christo, ainda

mesmo que tenham, segundo a linguagem que empregaram, de «offerecer as

costas ás chibatas, as linguas ás facas, e os corpos ao fogo, certos

de que os que seguem a Christo devem carregar com a cruz de Christo, e

renunciar-se a si proprios».

Esta Confissão, gradualmente adoptada pelos protestantes dos Paizes

Baixos, introduziu o calvinismo nas egrejas d’essa parte do mundo.

=A Constituição da Egreja Hollandeza.=—Em 1563, isto é, quando ainda

havia perseguição, os delegados de varias congregações protestantes

reuniram-se em synodo, e concordaram n’um systema de governo de egreja,

que copiou, em grande parte, os seus principios das _Ordenanças

Ecclesiasticas_ de Genebra; e a constituição da egreja, quasi desde o seu

inicio, foi baseada no modelo de Genebra. A organização presbyteriana,

com pastores, professores, presbyteros e diaconos, não foi adoptada nos

Paizes Baixos sem protesto da parte dos lutheranos, mas quando veiu sobre

elles a feroz perseguição do duque de Alba a fórma presbyteriana do

governo da Egreja foi a que melhor resistiu a todos os embates, sendo por

fim a que se tornou preponderante. O systema consistorial de Luthero é

apenas possivel quando o Estado esteja em favoraveis disposições para com

a egreja, mas o presbyterianismo, como a França, a Escocia e os Paizes

Baixos mostraram, pode manter-se, até mesmo quando a «Egreja sentir o

peso da cruz.»

N’uma assembléa da Egreja que teve logar em Dordrecht, em 1574, a

primeira assembléa geral da Egreja Hollandeza, foi revista, ampliada e

formalmente adoptada uma serie de artigos que já haviam sido approvados

n’uma reunião em Emden, e que continham os principaes elementos da

organização presbyteriana. Todos os ministros tinham de obedecer ás

_assembléas classicas_, ou presbyterios; e todos os presbyteros e

diaconos tinham de assignar a Confissão de Fé e os artigos respeitantes

ao governo da Egreja.

Torna-se necessario explicar duas particularidades do presbyterianismo

hollandez. As sessões da egreja não são, como na maioria das outras

egrejas presbyterianas, assembléas congregacionaes que se occupem do

governo de uma congregação. A sessão da egreja é composta de ministros e

presbyteros de um certo numero de congregações, e, a certos respeitos,

assimilha-se a um presbyterio. E, comtudo, como as das outras egrejas

presbyterianas, o tribunal de primeira instancia.

A outra particularidade da organização da Egreja hollandeza consiste em

que raras vezes podia deliberar como egreja. Isto era devido em parte

ao ciume do Estado protestante, e em parte á constituição politica

das Provincias Unidas. A Hollanda, ou as Provincias Unidas, era uma

confederação de estados, a muitos respeitos independentes uns dos outros.

A Reforma tendia a descentralizar a Egreja, e a produzir uma organização

ecclesiastica separada para cada estado politico independente. Tambem

se notava na Hollanda a tendencia para a formação de tantas egrejas

separadas quantas eram as provincias.

As Sete Provincias não constituiam uma nação; constituiam, antes, uma

confederação. Tinham-se obrigado a proteger-se umas ás outras na guerra,

e, portanto, a manter um exercito commum, e a contribuir para um fundo

militar commum; mas não formavam um estado. Os negocios internos de cada

provincia estavam sob a superintendencia de cada estado separado.

Quando Guilherme de Orange foi eleito governador vitalicio, uma das

clausulas a que elle ficava obrigado era a de que não reconheceria

qualquer concilio ou consistorio ecclesiastico que não tivesse a

approvação da provincia em que propozesse reunir-se. Os negocios

religiosos de cada provincia tinham de ser regulados por essa provincia.

Isto dava um aspecto de divisão á Egreja hollandeza, e impedia,

realmente, a acção incorporada e unida. A Egreja só podia reunir-se em

assembléa geral quando todas as Sete Provincias concordassem em dar-lhe

permissão. Este embaraço politico obstou muito á utilidade e influencia

da Egreja Reformada Hollandeza, e deu logar a uma continua lucta, na

Hollanda, entre a Egreja e o Estado.

=A força da Egreja na Hollanda.=—A prolongada peleja de quarenta e

cinco annos contra a Hespanha e o papismo parecia estimular as energias

da Egreja hollandeza e das suas universidades, e os seus collegios

theologicos em breve rivalizaram com mais antigas sédes de instrucção. A

universidade de Leyden, erguida em acção de graças quanto a uma milagrosa

libertação, foi fundada em 1575; Franecker começou a existir dez annos

depois (1585); as universidades de Gröningen (1612) Utrecht (1636) e

Harderwyk (1648) seguiram em successão apoz alguns annos de intervallo.

Todas estas universidades eram escolas theologicas, frequentadas por

alumnos procedentes de quasi todos os paizes protestantes da Europa. Os

theologos hollandezes do seculo dezesete tornaram-se famosos quanto á sua

erudição, zelo e agudeza theologica. Quando surgiu a grande controversia

armenia, que agitou mais tarde a Egreja hollandeza, os theologos da

Hollanda foram os que na Europa se celebrizaram mais, tanto pelo que diz

respeito á illustração como pelo que diz respeito á orthodoxia.

A Confissão de Westminster, que se tornou o credo da maior parte das

egrejas presbyterianas em paizes onde se fallava a lingua ingleza, é em

grande parte baseiada na antiga Confissão Hollandeza; e os theologos que

coordenaram os seus artigos copiaram muita coisa d’esses reformadores

hollandezes recentemente emergidos da sua terrivel e prolongada lucta com

o papismo hespanhol.

CAPITULO V

A REFORMA NA ESCOCIA

Preparação para a reforma, pag. 137.—A antiga Egreja celtica

o a Educação, pag. 137.—A Escocia e o lollardismo, pag.

138.—A Escocia e Huss, pag. 138.—A Egreja romana na Escocia

e a situação politica, pag. 142.—João Knox, pag. 141.—A

Congregação e a Primeira Convenção, pag. 142.—A _Confissão

escoceza_, pag. 144.—A rainha Maria e a Reforma, pag. 145.—O

_Livro de Disciplina_, e a _Primeira Assembléa Geral_, pag.

147.—A educação, pag. 148.—A morte de Knox, pag. 149.—Os bispos

tulchanos, pag. 150.—André Melville, pag. 152.—O Segundo Livro

de Disciplina, pag. 152.

=Preparação para a Reforma.=—A Escocia, longe do centro da vida europeia

no seculo dezeseis, recebeu, apezar d’isso, a Reforma quasi tão cedo como

a maioria dos outros paizes, e acceitou-a mais completamente do que elles.

A região tinha sido preparada para ella mediante a educação do povo,

mediante o constante commercio entre a Escocia e as nações continentaes,

especialmente a França e a Allemanha, e mediante a sympathia dos

estudantes escocezes para com os primeiros movimentos religiosos na

Inglaterra e na Bohemia; e por outro lado a condição da Egreja romana,

a pobreza das classes aristocraticas, e a situação politica do paiz

coadjuvaram em certa escala os esforços de aquelles que anhelavam por uma

reformação religiosa na Escocia.

=A antiga Egreja celtica e a Educação.=—A antiga Egreja celtica na

Escocia, que havia conservado a sua influencia no paiz durante perto

de setecentos annos, tinha sempre considerado a educação do povo como

um dever religioso. Os seus regulamentos declaram que é tão importante

ensinar os rapazes e as raparigas a ler e a escrever como administrar os

sacramentos ou tomar parte na _intimidade das almas_, que era o nome que

davam á confissão. O mosteiro celta era sempre um centro educativo, e

n’alguns casos a instrução ahi ministrada era a melhor que se podia obter

fóra de Constantinopla. Carlos Magno, ao estabelecer aquellas escolas

superiores, que depois se tornaram as mais antigas universidades da

Europa, procurou nos mosteiros celtas os primeiros professores. Quando

a Egreja celta da Escocia cedeu o logar á Egreja romana, o seu systema

educativo foi, em grande escala, adoptado, e a educação na Escocia

continuou a ser muito melhor do que se poderia esperar do seu estado de

civilisação.

As escolas cathedraes e monasticas produziram um grande numero de

professores e alumnos que desejavam ver os seus trabalhos continuados

n’uma universidade como as que n’aquella epoca estavam apparecendo em

toda a Europa.

Ao principio os poucos recursos do paiz obstavam á fundação de

universidades na Escocia, e mediante uma provisão feita pelo rei e

pelos bispos foram enviados os melhores estudantes a Oxford, Cambridge

e Paris. Professores viajantes foram da Escocia, com um certo numero

de estudantes, aos centros, inglezes e continentaes, de instrucção. E

era frequente que os jovens escocezes permanecessem fóra da patria na

qualidade de leccionistas ou estudantes nomadas.

A Reforma · 第 14 / 27 段