=Prégações ruraes.=—O nome de mendicantes foi adoptado com grande

enthusiasmo, e fez-se do distinctivo um uso quasi universal. Por toda

a parte se viam burguezes, advogados, aldeãos e fidalgos com a sacola

de coiro dos mendigos vagabundos. O povo começou a compenetrar-se da

força de aquella aggremiação. Realisaram-se logo grandes conventiculos,

ou prégações ruraes, em todo o paiz. O povo vinha armado, accomodava as

mulheres e as creanças no ponto mais central, e punha sentinellas em

redor, collocando-se os homens, armados, um pouco fóra do ajuntamento,

e assim escutavam as pregações dos ministros excommungados. Liam as

Escripturas, cantavam hymnos, e ouviam orações feitas na sua lingua

natal. Era tal a agglomeração de gente, e estavam tão vigilantes e tão

bem armados, que os soldados não se atreviam a atacal-os. A regente

convenceu-se de que, se não lhe mandassem mais forças hespanholas, não

poderia conter a excitação popular.

O povo, encorajado com a immunidade com que as prégações ao ar livre se

faziam, começou a atacar os logares de culto catholicos romanos. Quando

os padres passavam pelas ruas de Antuerpia levando processionalmente

a milagrosa imagem da Virgem o Povo exclamava: «Mayken! Mayken!

(Mariasinha) chegou a tua hora!» Uma turba de marinheiros invadiu a

cathedral e destruiu os paramentos, as imagens e os quadros. N’outros

pontos, como Tournay e Valenciennes, tiveram logar outros actos de

violencia. A regente via-se sem forças para pôr termo aos tumultos, e,

em desespero, concedeu ao povo a abolição da inquisição e a tolerancia

da doutrina protestante. Confiando na sinceridade d’estas concessões, os

nobres tomaram sobre si o encargo de apaziguar a população e de reprimir

as desordens que se tinham levantado, e Guilherme de Orange e o conde

Egmont tomaram uma parte proeminente na obra da pacificação.

Filippe, encolerizado pelo facto de a regente se haver desviado do

regimen que elle adoptara, de desapiedada repressão, determinou, na

primeira opportunidade, subjugar aquelle paiz e exterminar os cabeças

de motim. Com a sua habitual dissimulação, procurou disfarçar os seus

intentos, e o conde Egmont foi por elle enganado. O principe de Orange,

sempre bem informado, e cauteloso por indole, sabia algumas coisas e

suspeitava de outras que estavam para sobrevir á sua desditosa patria,

e preveniu Egmont do perigo que este corria. Elle sabia que o rei havia

de voltar ao seu velho systema de repressão; que os nobres que haviam

dirigido o movimento não estavam suficientemente unidos para resistir;

que os chefes menos cautos dos Mendicantes se haviam de revoltar; e que o

rei havia de tomar, indescriminadamente, uma furiosa represalia.

Os mendicantes fizeram uma tentativa para se apoderarem de Walcheren;

reuniram-se em grande numero em Anstruweel, e ameaçaram Antuerpia. Na

sua marcha, destruiram reliquias e despojaram as egrejas das imagens e

dos paineis. Egmont, querendo provar a sua fidelidade ao rei, caiu sobre

esses insurgentes e desbaratou-os, terminando, por esse modo, a rebellião.

O rei, porém, tinha achado o pretexto que procurava; e o principe de

Orange tinha tão exactamente interpretado o curso dos acontecimentos que,

quando elle ainda ia a caminho do seu voluntario exilio, da Allemanha, ia

nos Paizes Baixos o duque de Alba, á frente de um novo corpo de exercito

hespanhol.

=O duque de Alba nos Paizes Baixos.=—Fernando Alvarez de Toledo, duque

de Alba, era um dos servidores de Filippe II que mais se parecia

com o seu amo. Era um hespanhol fanatico, um ignorante em todos os

assumptos politicos e economicos, um avarento, e um impudente enganador.

Publicações recentes teem demonstrado que elle possuía muito pouco

do talento que os remotos historiadores lhe teem attribuido. O que o

recommendou a Filippe foi a sua cruel obstinação, a sua dedicação por

elle, rei, a sua fanatica inclinação pela egreja catholica romana, e o

seu desprezo por todas as fórmas constitucionaes e por todos os impulsos

de misericordia.

Filippe, ao mandar o duque de Alba e as tropas, continuava a dissimular.

Assegurou á regente que não era sua intenção fazel-a substituir por elle,

e fez todo o possivel para acalmar as suspeitas dos nobres e dos estados

dos Paizes Baixos. Ao mesmo tempo dava ordem ao duque para acabar com

a Reforma de um modo radical; para tirar uma sanguinolenta vingança de

todos os disturbios que tinham sido commettidos; e para impôr conversões

á ponta da espada. As instrucções que o rei enviou, por carta, ao duque

de Alba eram: «Apoderar-se dos homens mais eminentes que haviam tomado

parte nos tumultos e pôl-os em condições de não tornarem a fazer damno;

prender e castigar os que de entre o povo estivessem criminosos; obter

pela violencia todas as riquezas do paiz para abastecimento dos cofres

de Madrid e para sustento das tropas; pôr em execução, com a maxima

severidade, os edictos contra a heresia; ultimar a organização dos novos

bispados, e punir as cidades rebeldes com a Inquisição e com a imposição

de subsidios.» As tropas embarcaram em Carthagena, desembarcaram em

Genova, e marcharam, atravez de Saboya, da Borgonha e da Lorrena, para o

Luxemburgo e Paizes Baixos.

Alba sabia perfeitamente o que se esperava d’elle, e todo o seu desejo

era desempenhar a missão que Filippe lhe confiara de um modo que

agradasse a seu amo. Uma das suas maximas favoritas era: «Antes assolar

uma nação por meio da guerra, se d’esse modo ella se conservar fiel a

Deus e ao rei, do que deixal-a intacta em beneficio de Satanaz e de seus

adherentes, os herejes.» Elle entrou nos Paizes Baixos inteiramente

convencido de que poderia subjugar o espirito nacional e religioso dos

seus habitantes. «Eu, que já submetti uma gente de ferro, em pouco tempo

domesticarei esta gente de manteiga», disse elle, pouco depois de ter

entrado no paiz.

=A prisão dos Condes Egmont e Horn.=—A primeira coisa que elle fez foi

lançar mão dos dirigentes do povo, e para isso recorreu á mais vil

dissimulação. Convidou-os para irem a Bruxellas, dispensou-lhes todas as

amabilidades, e fez todo o possivel para os conservar ao seu alcance até

ter opportunidade da os mandar prender. Ficou muito desapontado quando

Guilherme de Orange se lhe escapou das mãos, e empregou todos os esforços

para o attrair novamente. De subito, sem o menor aviso, prendeu o Conde

Egmont e o almirante Horn, e mandou encerral-os n’um carcere.

Este facto produziu uma enorme consternação. Ambos aquelles fidalgos

tinham mostrado a sua grande lealdade ao rei. Egmont havia incorrido no

odio do povo pela firmeza com que procurou reprimir a insurreição, e Horn

perdera todos os seus bens e todo o seu dinheiro no serviço de Filippe.

Aquellas prisões mostraram aos neerlandezes e á Europa que o reinado do

«rigor» tinha começado. A fuga de Guilherme de Orange foi publicamente

lamentada pelos hespanhoes. Quando Granvella soube em Roma, do feito de

Alba, perguntou: «Elle tem em seu poder o Silencioso?» E, depois de o

informarem de que Guilherme estava em liberdade, disse que Alba não tinha

conseguido coisa alguma, afinal de contas, pois que o homem que se lhe

havia escapado tinha mais valor do que todos os outros juntos.

Havendo-se apoderado dos dois fidalgos, Alba tratou em seguida de

aterrorisar o povo. Organizou um _Conselho de Disturbios_, que substituiu

o antigo Conselho de Estado, e que teve a sua primeira, reunião em 20 de

Setembro de 1567. Este conselho suspendeu todo o julgamento de causas

pelos tribunaes ordinarios, e o povo chamava-lhe o «Conselho de Sangue».

Alba presidia a elle, e procurava com todo o afan dar os crimes por

provados e infligir o respectivo castigo. Fazia todo o possivel para

evitar que os jurisconsultos interviessem. «Os juizes» dizia elle, «só

teem servido até aqui para lavrar a sentença depois de se fazer prova

do crime; mas agora as coisas passam-se de outra fórma». Este conselho

de disturbios privava toda a gente das suas garantias individuaes, e ia

investigar todos os delictos commettidos no passado. A accusação vulgar

era a de ter conspirado contra o rei e contra a egreja, ou, na linguagem

do codigo medieval, de ser réu de traição a Deus e ao rei. Todos os que

haviam assignado petições para que os edictos contra a heresia deixassem

de ser applicados, todos os que se haviam, de algum modo, opposto á

creação dos novos bispados, todos os que haviam dito que o rei tinha

obrigação de respeitar as liberdades das provincias, eram tidos como

traidores, e castigados com multas, com prisões e com a pena capital.

Todos os que eram apanhados a cantar o hymno dos mendicantes, todos os

que não se haviam opposto activamente ás prégações feitas ao ar livre, ou

que não haviam reagido contra a destruição das imagens, eram egualmente

tidos como traidores. Era sufficiente a suspeita, dispensava-se a

convicção, e em tres mezes o Conselho de Sangue enviou para o cadafalso

mil e oitocentas pessoas. Isto teve logar durante annos. Guilherme de

Orange pasmava da paciencia dos seus compatriotas, que soffreram sem uma

organizada resistencia, e escreveu apaixonadamente: «Onde está o vosso

espirito de liberdade? Onde está a vossa antiga bravura?»

No entretanto os Mendicantes continuavam a existir. Grupos d’elles

vagueiavam pelo paiz, escapando á vigilancia das tropas hespanholas,

roubando egrejas, mosteiros e residencias de clerigos. O paiz havia caido

na anarquia.

=A guerra civil. O principe de Orange.=—Em 1568 o principe de Orange

conjecturou que o paiz estava preparado para a revolta. Seu irmão, Luiz

de Nassau, entrou na Frisilandia, e conseguiu evitar que o inimigo se

apoderasse d’essa provincia. O duque de Alba marchou então contra os

protestantes. Antes de se pôr a caminho, porém, executou, para espalhar

o terror na capital, vinte membros da nobreza, e entre elles os condes

Egmont e Horn. A patriotica milicia não poude bater-se vantajosamente

com os disciplinados soldados de Alba, que derrotou por completo o

exercito de Luiz e o obrigou a sair dos Paizes Baixos. Regressou depois a

Bruxellas, para assistir ás sessões do Conselho de Sangue.

O principe de Orange, á frente de outro exercito, passou a vau o Meuse,

chegando, segundo se diz, a agua ao pescoço dos soldados, marchou sobre

o Brabant, e procurou dar batalha a Alba. O duque, que conhecia a sua

inferioridade, diligenciou evital-o, cançar-lhe as tropas com exhaustivas

marchas, e desalental-as. O exercito protestante, que era composto, na

sua maior parte, de mercenarios allemães, começou a exigir clamorosamente

o seu soldo, e o principe, a quem os hespanhoes deixavam sempre de mau

partido, viu-se obrigado, com a approximação do inverno, a licenciar

as suas tropas. Uma parte do exercito, composta de neerlandezes,

conservou-se junto d’elle; e o principe de Orange, com os seus dois

irmãos (o terceiro havia sido morto em combate) atravessou a fronteira, e

foi em auxilio dos huguenotes francezes.

Guilherme, o silencioso, como os seus contemporaneos lhe chamavam,

tinha até esse tempo sido catholico romano. Havia combatido contra os

hespanhoes mais por patriotismo do que por motivos religiosos; mas

durante o segundo desterro, quando a situação da sua patria se tornou

extremamente precaria, transformou-se, fez-se outro homem. Acceitou as

verdades da religião reformada, e tornou-se um firme protestante. Desde

esse tempo em deante foi um homem sincero e profundamente religioso,

descançando confiadamente na direcção e protecção de Deus.

=Os mendigos do mar.=—A parte mais valente da população neerlandeza eram

os marinheiros e os habitantes da costa, que luctavam quotidianamente com

as ondas do oceano germanico. Essa gente tinha, em grandissima parte,

acceitado as doutrinas dos pastores reformados, e havia sempre nutrido o

amor da liberdade, a despeito da implacavel oppressão dos hespanhoes e

a despeito da inquisição. Diz-se que o almirante Coligny, o prestigioso

chefe dos huguenotes francezes, chamou a attenção do principe de Orange

para a utilidade de constituir com estes marinheiros, pescadores e

traficantes maritimos uma força naval.

Quando Alba regressou á Bruxellas, para continuar a sua obra de execução

por meio do fogo, da agua e da decapitação, o principe conseguiu

pôr-se em communicação com os marinheiros e pescadores hollandezes.

Tinha resolvido crear uma armada para dar caça aos navios hespanhoes,

e conservar acceso o espirito patriotico das provincias. Deu as suas

instrucções aos commandantes dos improvisados vasos de guerra, e os

«Mendigos do Mar» tornaram-se dentro em pouco o terror dos hespanhoes.

Estes corsarios hollandezes recrutavam, ao principio, as suas

tripulações, e abasteciam-se, nos portos inglezes, mas, em virtude de

uma reclamação do embaixador hespanhol, a rainha Isabel prohibiu que

desembarcassem em Inglaterra. Viram-se compellidos a saquear as costas da

Hollanda, tornando-se assim o terror dos hespanhoes tanto no mar como em

terra.

O governo de Alba tinha quasi conduzido o paiz á ruina. As suas

proscripções e execuções haviam diminuido muito a população. O commercio

tinha chegado á ultima; da agricultura ninguem cuidava; as industrias

estavam paralysadas. Alba estava embaraçado por não ter dinheiro com

que pagasse ás tropas. Elle tinha promettido, ao sair de Hespanha, que

havia de fazer com que desde Antuerpia até Madrid o oiro constituisse um

rio com umas poucas de braças de profundidade. Era um leigo no que diz

respeito a economia politica, e não comprehendia que com as disposições

que tomara havia feito seccar os mananciaes da riqueza, transformando

em poucos annos um paiz rico n’um paiz pobre. Julgou que ainda seria

possivel extrair dinheiro dos hollandezes, e para conseguir esse fim

estabeleceu novos impostos. Acudiu-lhe á mente um genero de contribuição

que em Hespanha estava matando a vida commercial, e propoz o introduzil-a

nos Paizes Baixos.

O seu plano consistia em tributar um por cento sobre toda a propriedade;

esse imposto ficou sendo chamado a _Centesima_. A accrescentar a isto,

ficava-se tambem na obrigação de contribuir com cinco por cento, ou seja

a vigesima parte, de todas as rendas de terras, ou bens immoveis, e com

dez por cento, ou a decima parte, de todas as vendas de generos ou de

bens moveis. Este novo imposto, dividido em tres taxas, representava a

ruina completa do paiz. Seria impossivel existir commercio n’uma terra

onde elle tivesse de ser pago. Provocou maior opposição do que tudo

quanto Alba tinha até então posto em pratica. A primeira provincia que

protestou foi a de Utrecht, e logo depois todas as outras fizeram coro

com ella. Alba, comtudo, estava precisadissimo de dinheiro. O seu poder

dependia do exercito, e este tinha de ser pago; reconhecendo, porém,

que tinha avançado de mais, addiou a cobrança das decimas para de ali

a dois annos. A necessidade de dinheiro forçou-o, por fim, a pôr desde

logo em execução o que tinha decretado, e deu ordens terminantes para

se começarem a cobrar os dez e os vinte por cento. O resultado foi parar

logo todo o commercio e industria. Os padeiros não quizeram cozer pão,

os cervejeiros não quizeram fabricar cerveja, os sapateiros recusaram-se

a fazer calçado; e não havia quem vendesse os artigos de primeira

necessidade. E, como coisa alguma se vendesse, é claro que o imposto

sobre as vendas não podia ser cobrado.

=A tomada de Brill.=—Emquanto os estados permaneciam n’uma insurreição

passiva, a esquadra: dos «Mendigos do Mar», organizada por Guilherme,

guerreava incessantemente os hespanhoes, e, com uma ousadia que o bom

exito até ali alcançado lhes dava, aproaram de subito á ilha de Voorn,

e tomaram a cidade de Brill, que era considerada uma das chaves da

Hollanda. A posse d’essa cidade assegurava-lhes um ponto de ataque sobre

toda a costa dos Paizes Baixos e da Islandia, e foi a ella que ficou

devendo a sua origem o Estado das Sete Provincias.

De ahi em deante os hespanhoes nunca mais foram completamente senhores

dos Paizes Baixos. A sorte das armas esteve incerta durante muito tempo,

mas houve sempre uma parte do territorio flamengo independente de

Hespanha. Os «Mendigos do Mar», perfeitamente seguros em Brill, dirigiram

repetidos ataques ás povoações da costa, e em breve todas as principaes

cidades da Hollanda e da Zelandia estavam em seu poder, acabando por

proclamar Guilherme, principe de Orange, chefe da nação. O principe

acceitou esse perigoso cargo. Estava em França quando lhe deram a

noticia, e, disfarçando-se de camponez, atravessou as linhas do inimigo,

e deu-se pressa em tomar o commando dos insurgentes. Antes de chegar até

junto d’elles, a Hollanda e a Zelandia tinham-se pronunciado a seu favor.

Convocou uma assembléa dos Estados em Dordrecht, ou Dort, onde de eommum

accordo se resolveu estabelecer uma nova constituição, e, por unanimidade

de votos, o principe foi reconhecido «o verdadeiro representante do rei

na Hollanda, Zelandia, Frisilandia e Utrecht. Os estados, ali reunidos,

convieram em reconhecer a sua auctoridade, em votar impostos, e em

proseguir na politica d’elle. O seu primeiro decreto foi proclamar

liberdade de culto tanto aos catholicos como aos protestantes.

Organizou-se um novo exercito, e o principe de Orange, atravessando

o Meuse, tomou Oudenarde, Roermonde, e diversas outras cidades. Foi

acclamado em toda a parte, e a sua marcha foi tão facil que elle contava

chegar em pouco tempo a Bruxellas. Uma vez lá, confiou na promessa que

Coligny lhe fez de o ajudar a expulsar os hespanhoes do territorio

flamengo. Quando, porém, parecia estar em pleno successo, eis que

chega uma noticia que o deixou atordoado, como se (segundo as suas

proprias palavras) «tivesse levado com um malho na cabeça». Coligny

e os huguenotes francezes tinham sido massacrados na vespera de S.

Bartholomeu. Tudo estava perdido, pelos modos. Tornava-se necessario

abandonar Mons, que Luiz de Nassau tinha tomado pouco antes; e o exercito

do principe, apoz a retirada, foi dispensado do serviço.

Alba saiu de Bruxellas, e vingou-se atrozmente de Mons, Mechlin, Tergoes,

Naarden, Haarlem e Zutphen. As clausulas da capitulação de Mons foram

ignominiosamente violadas. Mechlin foi, de caso pensado, saqueada e

incendiada pelas tropas hespanholas. O general a quem foi confiado o

esbulho de Zutphen recebeu ordem para queimar todas as casas e matar

todos os habitantes. Haarlem foi sitiada, resistiu desesperadamente,

e por fim capitulou sob a promessa de um tratamento benevolo. Quando

os hespanhoes tomaram posse d’ella, degolaram, a sangue frio, todos os

soldados hollandezes, e com elles muitos centos de cidadãos, e, ligando

os corpos a dois e dois, lançaram-n’os na lagoa de Haarlem. Dir-se-hia

que os catholicos romanos tinham resolvido exterminar os protestantes

quando vissem que não podiam convertel-os.

Algumas cidades resistiram, e a causa da liberdade não estava

inteiramente perdida. O filho de Alba, D. Frederico, o verdugo de

Haarlem, foi derrotado na pequena cidade de Alkmaar, sendo obrigado a

retirar-se. Os «Mendigos do Mar» fizeram frente á esquadra hespanhola

que fôra enviada para os destroçar, dispersaram os navios e fizeram

prisioneiro o almirante. A nação de pescadores e de lojistas, de quem

a Hespanha e a Europa haviam escarnecido por verem a paciencia com

que supportavam as indignidades, tinha-se por fim mostrado uma raça

de heroes resolvidos a não se sujeitarem mais ao jugo hespanhol.

Guilherme o silencioso, a alma da revolta, tornou-se de um momento para

o outro uma importante personagem na Europa, que os reis precisariam de

lisongear. Publicou uma carta dirigida aos principes da christandade,

para justificar a revolta dos seus compatriotas. «Alba», disse elle,

«ha de tingir todos os rios e regatos com o nosso sangue e pendurar

em cada arvore da Hollanda um hollandez para que os seus desejos de

vingança fiquem satisfeitos. Pegámos, pois, em armas contra elle, em

defeza das nossas mulheres e dos nossos filhos. Se elle tiver mais força

do que nós, pereceremos, mas antes ter uma morte honrosa, e legar um

nome aureolado de gloria, do que curvar os pescoços deante do jugo e

permittir que a nossa terra fique escravisada. É por isso que as nossas

cidades se comprometteram a resistir a todos os cercos, a soffrer todas

as calamidades, a mesmo, se tanto necessario fôr, lançar fogo ás casas e

deixar-se morrer nas chammas, o que tudo seria preferivel a obedecer ás

intimativas d’esse algoz sedento de sangue».

A tormenta não podia deixar de inquietar Alba, apezar de toda a

confiança que elle tinha em si proprio. Pediu ao monarca que o mandasse

retirar dos Paizes Baixos. Como todos os tyrannos, considerou sempre

efficacissimo o seu systema, mesmo depois dos revezes soffridos. Era

sua opinião que se tivesse sido um pouco mais severo, se tivesse

accrescentado mais algumas gotas do sangue que fez derramar, o seu exito

seria completo. Quando Filippe, accedendo ao seu pedido, o demittiu do

cargo que occupava, não teve outro conselho a dar ao seu successor senão

o de mandar arrazar as cidades em que elle não podera pôr uma guarnição

hespanhola.

=Requescens y Zuniga, o novo representante do rei.=—A pessoa que Filippe

II escolheu para substituir o duque de Alba foi D. Luiz Requescens y

Zuniga, membro da mais alta aristocracia de Hespanha e cavalleiro de

Malta. Era elle um homem de indole magnanima, de nobre caracter, e, se

tivesse sido enviado á Hollanda dez annos mais cedo, a historia d’esse

paiz teria sido, certamente, muito diversa. Chegou, porém, tarde de

mais, e elle em breve o reconheceu. A Hespanha dispunha ainda, n’aquella

epoca, de um thesouro inexgotavel e de um illimitado numero de soldados.

Os patrioticos defensores da Hollanda não poderiam leval-a de vencida em

campo aberto; comtudo, o novo commandante hespanhol não os intimidou. Em

todas as cidades fortificadas se luctava com a energia do desespero, e os

«Mendigos do Mar» alcançavam triumphos sobre triumphos. E, comtudo, aos

patriotas faltava gente e dinheiro. Requescens, depois de observar tudo

isto, escreveu a Filippe: «Antes da minha chegada aqui, não comprehendia

como os rebeldes podiam sustentar frotas tão consideraveis, quando

vossa magestade nem uma, sequer, podia. Agora vejo que os homens que se

batem pelas suas vidas, pelas suas familias, pelos seus bens, pela sua

religião, embora falsa, pela sua causa, em summa, não exigem paga; dão-se

por satisfeitos com a sua ração quotidiana». Tratou logo de adoptar um

methodo inteiramente opposto ao de Alba. Aboliu os odiados impostos,

dissolveu o Conselho de Sangue, e proclamou uma amnistia geral. Procurou

também chegar a um accordo com os insurrectos.

Os habitantes da Hollanda e da Zelandia tinham tido uma amarga

experiencia de amnistias e accordos hespanhoes. «Temos ouvido demasiadas

vezes», disse Guilherme, «as palavras Combinado e Perpetuo. Ainda mesmo

que dessemos ouvidos ás vossas propostas, quem nos garante que o rei

as não daria depois por não feitas, sendo absolvido d’esse delicto

pelo papa?» A lucta continuou, portanto, e Requescens, que detestava a

politica do seu predecessor, teve de proseguir n’uma guerra que essa

mesma politica havia provocado.

A sorte das armas parecia manter-se inalteravel. Os hespanhoes tinham

saido sempre victoriosos em campo aberto, e quando no principio da

primavera de 1574 Guilherme e seu irmão Luiz entraram na Hollanda á

frente de um novo exercito composto, na sua maioria, de mercenarios

allemães, alcançaram outra victoria na Mooker Haide, mais decisiva,

segundo pareceu, do que qualquer outra que tivessem ganho anteriormente.

O exercito de Guilherme foi inteiramente derrotado, perecendo os seus

dois irmãos Luiz e Henrique, e com elles Christovão, Conde Palatino. Mais

uma vez se afigurou que os hollandezes acabariam, por fim, n’uma completa

submissão aos hespanhoes. Como sempre, porém, os heroes da patria,

vencidos em terra, eram vencedores no mar, e nas cidades fortificadas

combateu-se com tal denodo e perseverança que os hespanhoes não poderam

deixar de reconhecer a sua derrota.

A Reforma · 第 13 / 27 段