enthusiasmo, e fez-se do distinctivo um uso quasi universal. Por toda
a parte se viam burguezes, advogados, aldeãos e fidalgos com a sacola
de coiro dos mendigos vagabundos. O povo começou a compenetrar-se da
força de aquella aggremiação. Realisaram-se logo grandes conventiculos,
ou prégações ruraes, em todo o paiz. O povo vinha armado, accomodava as
mulheres e as creanças no ponto mais central, e punha sentinellas em
redor, collocando-se os homens, armados, um pouco fóra do ajuntamento,
e assim escutavam as pregações dos ministros excommungados. Liam as
Escripturas, cantavam hymnos, e ouviam orações feitas na sua lingua
natal. Era tal a agglomeração de gente, e estavam tão vigilantes e tão
bem armados, que os soldados não se atreviam a atacal-os. A regente
convenceu-se de que, se não lhe mandassem mais forças hespanholas, não
poderia conter a excitação popular.
O povo, encorajado com a immunidade com que as prégações ao ar livre se
faziam, começou a atacar os logares de culto catholicos romanos. Quando
os padres passavam pelas ruas de Antuerpia levando processionalmente
a milagrosa imagem da Virgem o Povo exclamava: «Mayken! Mayken!
(Mariasinha) chegou a tua hora!» Uma turba de marinheiros invadiu a
cathedral e destruiu os paramentos, as imagens e os quadros. N’outros
pontos, como Tournay e Valenciennes, tiveram logar outros actos de
violencia. A regente via-se sem forças para pôr termo aos tumultos, e,
em desespero, concedeu ao povo a abolição da inquisição e a tolerancia
da doutrina protestante. Confiando na sinceridade d’estas concessões, os
nobres tomaram sobre si o encargo de apaziguar a população e de reprimir
as desordens que se tinham levantado, e Guilherme de Orange e o conde
Egmont tomaram uma parte proeminente na obra da pacificação.
Filippe, encolerizado pelo facto de a regente se haver desviado do
regimen que elle adoptara, de desapiedada repressão, determinou, na
primeira opportunidade, subjugar aquelle paiz e exterminar os cabeças
de motim. Com a sua habitual dissimulação, procurou disfarçar os seus
intentos, e o conde Egmont foi por elle enganado. O principe de Orange,
sempre bem informado, e cauteloso por indole, sabia algumas coisas e
suspeitava de outras que estavam para sobrevir á sua desditosa patria,
e preveniu Egmont do perigo que este corria. Elle sabia que o rei havia
de voltar ao seu velho systema de repressão; que os nobres que haviam
dirigido o movimento não estavam suficientemente unidos para resistir;
que os chefes menos cautos dos Mendicantes se haviam de revoltar; e que o
rei havia de tomar, indescriminadamente, uma furiosa represalia.
Os mendicantes fizeram uma tentativa para se apoderarem de Walcheren;
reuniram-se em grande numero em Anstruweel, e ameaçaram Antuerpia. Na
sua marcha, destruiram reliquias e despojaram as egrejas das imagens e
dos paineis. Egmont, querendo provar a sua fidelidade ao rei, caiu sobre
esses insurgentes e desbaratou-os, terminando, por esse modo, a rebellião.
O rei, porém, tinha achado o pretexto que procurava; e o principe de
Orange tinha tão exactamente interpretado o curso dos acontecimentos que,
quando elle ainda ia a caminho do seu voluntario exilio, da Allemanha, ia
nos Paizes Baixos o duque de Alba, á frente de um novo corpo de exercito
hespanhol.
=O duque de Alba nos Paizes Baixos.=—Fernando Alvarez de Toledo, duque
de Alba, era um dos servidores de Filippe II que mais se parecia
com o seu amo. Era um hespanhol fanatico, um ignorante em todos os
assumptos politicos e economicos, um avarento, e um impudente enganador.
Publicações recentes teem demonstrado que elle possuía muito pouco
do talento que os remotos historiadores lhe teem attribuido. O que o
recommendou a Filippe foi a sua cruel obstinação, a sua dedicação por
elle, rei, a sua fanatica inclinação pela egreja catholica romana, e o
seu desprezo por todas as fórmas constitucionaes e por todos os impulsos
de misericordia.
Filippe, ao mandar o duque de Alba e as tropas, continuava a dissimular.
Assegurou á regente que não era sua intenção fazel-a substituir por elle,
e fez todo o possivel para acalmar as suspeitas dos nobres e dos estados
dos Paizes Baixos. Ao mesmo tempo dava ordem ao duque para acabar com
a Reforma de um modo radical; para tirar uma sanguinolenta vingança de
todos os disturbios que tinham sido commettidos; e para impôr conversões
á ponta da espada. As instrucções que o rei enviou, por carta, ao duque
de Alba eram: «Apoderar-se dos homens mais eminentes que haviam tomado
parte nos tumultos e pôl-os em condições de não tornarem a fazer damno;
prender e castigar os que de entre o povo estivessem criminosos; obter
pela violencia todas as riquezas do paiz para abastecimento dos cofres
de Madrid e para sustento das tropas; pôr em execução, com a maxima
severidade, os edictos contra a heresia; ultimar a organização dos novos
bispados, e punir as cidades rebeldes com a Inquisição e com a imposição
de subsidios.» As tropas embarcaram em Carthagena, desembarcaram em
Genova, e marcharam, atravez de Saboya, da Borgonha e da Lorrena, para o
Luxemburgo e Paizes Baixos.
Alba sabia perfeitamente o que se esperava d’elle, e todo o seu desejo
era desempenhar a missão que Filippe lhe confiara de um modo que
agradasse a seu amo. Uma das suas maximas favoritas era: «Antes assolar
uma nação por meio da guerra, se d’esse modo ella se conservar fiel a
Deus e ao rei, do que deixal-a intacta em beneficio de Satanaz e de seus
adherentes, os herejes.» Elle entrou nos Paizes Baixos inteiramente
convencido de que poderia subjugar o espirito nacional e religioso dos
seus habitantes. «Eu, que já submetti uma gente de ferro, em pouco tempo
domesticarei esta gente de manteiga», disse elle, pouco depois de ter
entrado no paiz.
=A prisão dos Condes Egmont e Horn.=—A primeira coisa que elle fez foi
lançar mão dos dirigentes do povo, e para isso recorreu á mais vil
dissimulação. Convidou-os para irem a Bruxellas, dispensou-lhes todas as
amabilidades, e fez todo o possivel para os conservar ao seu alcance até
ter opportunidade da os mandar prender. Ficou muito desapontado quando
Guilherme de Orange se lhe escapou das mãos, e empregou todos os esforços
para o attrair novamente. De subito, sem o menor aviso, prendeu o Conde
Egmont e o almirante Horn, e mandou encerral-os n’um carcere.
Este facto produziu uma enorme consternação. Ambos aquelles fidalgos
tinham mostrado a sua grande lealdade ao rei. Egmont havia incorrido no
odio do povo pela firmeza com que procurou reprimir a insurreição, e Horn
perdera todos os seus bens e todo o seu dinheiro no serviço de Filippe.
Aquellas prisões mostraram aos neerlandezes e á Europa que o reinado do
«rigor» tinha começado. A fuga de Guilherme de Orange foi publicamente
lamentada pelos hespanhoes. Quando Granvella soube em Roma, do feito de
Alba, perguntou: «Elle tem em seu poder o Silencioso?» E, depois de o
informarem de que Guilherme estava em liberdade, disse que Alba não tinha
conseguido coisa alguma, afinal de contas, pois que o homem que se lhe
havia escapado tinha mais valor do que todos os outros juntos.
Havendo-se apoderado dos dois fidalgos, Alba tratou em seguida de
aterrorisar o povo. Organizou um _Conselho de Disturbios_, que substituiu
o antigo Conselho de Estado, e que teve a sua primeira, reunião em 20 de
Setembro de 1567. Este conselho suspendeu todo o julgamento de causas
pelos tribunaes ordinarios, e o povo chamava-lhe o «Conselho de Sangue».
Alba presidia a elle, e procurava com todo o afan dar os crimes por
provados e infligir o respectivo castigo. Fazia todo o possivel para
evitar que os jurisconsultos interviessem. «Os juizes» dizia elle, «só
teem servido até aqui para lavrar a sentença depois de se fazer prova
do crime; mas agora as coisas passam-se de outra fórma». Este conselho
de disturbios privava toda a gente das suas garantias individuaes, e ia
investigar todos os delictos commettidos no passado. A accusação vulgar
era a de ter conspirado contra o rei e contra a egreja, ou, na linguagem
do codigo medieval, de ser réu de traição a Deus e ao rei. Todos os que
haviam assignado petições para que os edictos contra a heresia deixassem
de ser applicados, todos os que se haviam, de algum modo, opposto á
creação dos novos bispados, todos os que haviam dito que o rei tinha
obrigação de respeitar as liberdades das provincias, eram tidos como
traidores, e castigados com multas, com prisões e com a pena capital.
Todos os que eram apanhados a cantar o hymno dos mendicantes, todos os
que não se haviam opposto activamente ás prégações feitas ao ar livre, ou
que não haviam reagido contra a destruição das imagens, eram egualmente
tidos como traidores. Era sufficiente a suspeita, dispensava-se a
convicção, e em tres mezes o Conselho de Sangue enviou para o cadafalso
mil e oitocentas pessoas. Isto teve logar durante annos. Guilherme de
Orange pasmava da paciencia dos seus compatriotas, que soffreram sem uma
organizada resistencia, e escreveu apaixonadamente: «Onde está o vosso
espirito de liberdade? Onde está a vossa antiga bravura?»
No entretanto os Mendicantes continuavam a existir. Grupos d’elles
vagueiavam pelo paiz, escapando á vigilancia das tropas hespanholas,
roubando egrejas, mosteiros e residencias de clerigos. O paiz havia caido
na anarquia.
=A guerra civil. O principe de Orange.=—Em 1568 o principe de Orange
conjecturou que o paiz estava preparado para a revolta. Seu irmão, Luiz
de Nassau, entrou na Frisilandia, e conseguiu evitar que o inimigo se
apoderasse d’essa provincia. O duque de Alba marchou então contra os
protestantes. Antes de se pôr a caminho, porém, executou, para espalhar
o terror na capital, vinte membros da nobreza, e entre elles os condes
Egmont e Horn. A patriotica milicia não poude bater-se vantajosamente
com os disciplinados soldados de Alba, que derrotou por completo o
exercito de Luiz e o obrigou a sair dos Paizes Baixos. Regressou depois a
Bruxellas, para assistir ás sessões do Conselho de Sangue.
O principe de Orange, á frente de outro exercito, passou a vau o Meuse,
chegando, segundo se diz, a agua ao pescoço dos soldados, marchou sobre
o Brabant, e procurou dar batalha a Alba. O duque, que conhecia a sua
inferioridade, diligenciou evital-o, cançar-lhe as tropas com exhaustivas
marchas, e desalental-as. O exercito protestante, que era composto, na
sua maior parte, de mercenarios allemães, começou a exigir clamorosamente
o seu soldo, e o principe, a quem os hespanhoes deixavam sempre de mau
partido, viu-se obrigado, com a approximação do inverno, a licenciar
as suas tropas. Uma parte do exercito, composta de neerlandezes,
conservou-se junto d’elle; e o principe de Orange, com os seus dois
irmãos (o terceiro havia sido morto em combate) atravessou a fronteira, e
foi em auxilio dos huguenotes francezes.
Guilherme, o silencioso, como os seus contemporaneos lhe chamavam,
tinha até esse tempo sido catholico romano. Havia combatido contra os
hespanhoes mais por patriotismo do que por motivos religiosos; mas
durante o segundo desterro, quando a situação da sua patria se tornou
extremamente precaria, transformou-se, fez-se outro homem. Acceitou as
verdades da religião reformada, e tornou-se um firme protestante. Desde
esse tempo em deante foi um homem sincero e profundamente religioso,
descançando confiadamente na direcção e protecção de Deus.
=Os mendigos do mar.=—A parte mais valente da população neerlandeza eram
os marinheiros e os habitantes da costa, que luctavam quotidianamente com
as ondas do oceano germanico. Essa gente tinha, em grandissima parte,
acceitado as doutrinas dos pastores reformados, e havia sempre nutrido o
amor da liberdade, a despeito da implacavel oppressão dos hespanhoes e
a despeito da inquisição. Diz-se que o almirante Coligny, o prestigioso
chefe dos huguenotes francezes, chamou a attenção do principe de Orange
para a utilidade de constituir com estes marinheiros, pescadores e
traficantes maritimos uma força naval.
Quando Alba regressou á Bruxellas, para continuar a sua obra de execução
por meio do fogo, da agua e da decapitação, o principe conseguiu
pôr-se em communicação com os marinheiros e pescadores hollandezes.
Tinha resolvido crear uma armada para dar caça aos navios hespanhoes,
e conservar acceso o espirito patriotico das provincias. Deu as suas
instrucções aos commandantes dos improvisados vasos de guerra, e os
«Mendigos do Mar» tornaram-se dentro em pouco o terror dos hespanhoes.
Estes corsarios hollandezes recrutavam, ao principio, as suas
tripulações, e abasteciam-se, nos portos inglezes, mas, em virtude de
uma reclamação do embaixador hespanhol, a rainha Isabel prohibiu que
desembarcassem em Inglaterra. Viram-se compellidos a saquear as costas da
Hollanda, tornando-se assim o terror dos hespanhoes tanto no mar como em
terra.
O governo de Alba tinha quasi conduzido o paiz á ruina. As suas
proscripções e execuções haviam diminuido muito a população. O commercio
tinha chegado á ultima; da agricultura ninguem cuidava; as industrias
estavam paralysadas. Alba estava embaraçado por não ter dinheiro com
que pagasse ás tropas. Elle tinha promettido, ao sair de Hespanha, que
havia de fazer com que desde Antuerpia até Madrid o oiro constituisse um
rio com umas poucas de braças de profundidade. Era um leigo no que diz
respeito a economia politica, e não comprehendia que com as disposições
que tomara havia feito seccar os mananciaes da riqueza, transformando
em poucos annos um paiz rico n’um paiz pobre. Julgou que ainda seria
possivel extrair dinheiro dos hollandezes, e para conseguir esse fim
estabeleceu novos impostos. Acudiu-lhe á mente um genero de contribuição
que em Hespanha estava matando a vida commercial, e propoz o introduzil-a
nos Paizes Baixos.
O seu plano consistia em tributar um por cento sobre toda a propriedade;
esse imposto ficou sendo chamado a _Centesima_. A accrescentar a isto,
ficava-se tambem na obrigação de contribuir com cinco por cento, ou seja
a vigesima parte, de todas as rendas de terras, ou bens immoveis, e com
dez por cento, ou a decima parte, de todas as vendas de generos ou de
bens moveis. Este novo imposto, dividido em tres taxas, representava a
ruina completa do paiz. Seria impossivel existir commercio n’uma terra
onde elle tivesse de ser pago. Provocou maior opposição do que tudo
quanto Alba tinha até então posto em pratica. A primeira provincia que
protestou foi a de Utrecht, e logo depois todas as outras fizeram coro
com ella. Alba, comtudo, estava precisadissimo de dinheiro. O seu poder
dependia do exercito, e este tinha de ser pago; reconhecendo, porém,
que tinha avançado de mais, addiou a cobrança das decimas para de ali
a dois annos. A necessidade de dinheiro forçou-o, por fim, a pôr desde
logo em execução o que tinha decretado, e deu ordens terminantes para
se começarem a cobrar os dez e os vinte por cento. O resultado foi parar
logo todo o commercio e industria. Os padeiros não quizeram cozer pão,
os cervejeiros não quizeram fabricar cerveja, os sapateiros recusaram-se
a fazer calçado; e não havia quem vendesse os artigos de primeira
necessidade. E, como coisa alguma se vendesse, é claro que o imposto
sobre as vendas não podia ser cobrado.
=A tomada de Brill.=—Emquanto os estados permaneciam n’uma insurreição
passiva, a esquadra: dos «Mendigos do Mar», organizada por Guilherme,
guerreava incessantemente os hespanhoes, e, com uma ousadia que o bom
exito até ali alcançado lhes dava, aproaram de subito á ilha de Voorn,
e tomaram a cidade de Brill, que era considerada uma das chaves da
Hollanda. A posse d’essa cidade assegurava-lhes um ponto de ataque sobre
toda a costa dos Paizes Baixos e da Islandia, e foi a ella que ficou
devendo a sua origem o Estado das Sete Provincias.
De ahi em deante os hespanhoes nunca mais foram completamente senhores
dos Paizes Baixos. A sorte das armas esteve incerta durante muito tempo,
mas houve sempre uma parte do territorio flamengo independente de
Hespanha. Os «Mendigos do Mar», perfeitamente seguros em Brill, dirigiram
repetidos ataques ás povoações da costa, e em breve todas as principaes
cidades da Hollanda e da Zelandia estavam em seu poder, acabando por
proclamar Guilherme, principe de Orange, chefe da nação. O principe
acceitou esse perigoso cargo. Estava em França quando lhe deram a
noticia, e, disfarçando-se de camponez, atravessou as linhas do inimigo,
e deu-se pressa em tomar o commando dos insurgentes. Antes de chegar até
junto d’elles, a Hollanda e a Zelandia tinham-se pronunciado a seu favor.
Convocou uma assembléa dos Estados em Dordrecht, ou Dort, onde de eommum
accordo se resolveu estabelecer uma nova constituição, e, por unanimidade
de votos, o principe foi reconhecido «o verdadeiro representante do rei
na Hollanda, Zelandia, Frisilandia e Utrecht. Os estados, ali reunidos,
convieram em reconhecer a sua auctoridade, em votar impostos, e em
proseguir na politica d’elle. O seu primeiro decreto foi proclamar
liberdade de culto tanto aos catholicos como aos protestantes.
Organizou-se um novo exercito, e o principe de Orange, atravessando
o Meuse, tomou Oudenarde, Roermonde, e diversas outras cidades. Foi
acclamado em toda a parte, e a sua marcha foi tão facil que elle contava
chegar em pouco tempo a Bruxellas. Uma vez lá, confiou na promessa que
Coligny lhe fez de o ajudar a expulsar os hespanhoes do territorio
flamengo. Quando, porém, parecia estar em pleno successo, eis que
chega uma noticia que o deixou atordoado, como se (segundo as suas
proprias palavras) «tivesse levado com um malho na cabeça». Coligny
e os huguenotes francezes tinham sido massacrados na vespera de S.
Bartholomeu. Tudo estava perdido, pelos modos. Tornava-se necessario
abandonar Mons, que Luiz de Nassau tinha tomado pouco antes; e o exercito
do principe, apoz a retirada, foi dispensado do serviço.
Alba saiu de Bruxellas, e vingou-se atrozmente de Mons, Mechlin, Tergoes,
Naarden, Haarlem e Zutphen. As clausulas da capitulação de Mons foram
ignominiosamente violadas. Mechlin foi, de caso pensado, saqueada e
incendiada pelas tropas hespanholas. O general a quem foi confiado o
esbulho de Zutphen recebeu ordem para queimar todas as casas e matar
todos os habitantes. Haarlem foi sitiada, resistiu desesperadamente,
e por fim capitulou sob a promessa de um tratamento benevolo. Quando
os hespanhoes tomaram posse d’ella, degolaram, a sangue frio, todos os
soldados hollandezes, e com elles muitos centos de cidadãos, e, ligando
os corpos a dois e dois, lançaram-n’os na lagoa de Haarlem. Dir-se-hia
que os catholicos romanos tinham resolvido exterminar os protestantes
quando vissem que não podiam convertel-os.
Algumas cidades resistiram, e a causa da liberdade não estava
inteiramente perdida. O filho de Alba, D. Frederico, o verdugo de
Haarlem, foi derrotado na pequena cidade de Alkmaar, sendo obrigado a
retirar-se. Os «Mendigos do Mar» fizeram frente á esquadra hespanhola
que fôra enviada para os destroçar, dispersaram os navios e fizeram
prisioneiro o almirante. A nação de pescadores e de lojistas, de quem
a Hespanha e a Europa haviam escarnecido por verem a paciencia com
que supportavam as indignidades, tinha-se por fim mostrado uma raça
de heroes resolvidos a não se sujeitarem mais ao jugo hespanhol.
Guilherme o silencioso, a alma da revolta, tornou-se de um momento para
o outro uma importante personagem na Europa, que os reis precisariam de
lisongear. Publicou uma carta dirigida aos principes da christandade,
para justificar a revolta dos seus compatriotas. «Alba», disse elle,
«ha de tingir todos os rios e regatos com o nosso sangue e pendurar
em cada arvore da Hollanda um hollandez para que os seus desejos de
vingança fiquem satisfeitos. Pegámos, pois, em armas contra elle, em
defeza das nossas mulheres e dos nossos filhos. Se elle tiver mais força
do que nós, pereceremos, mas antes ter uma morte honrosa, e legar um
nome aureolado de gloria, do que curvar os pescoços deante do jugo e
permittir que a nossa terra fique escravisada. É por isso que as nossas
cidades se comprometteram a resistir a todos os cercos, a soffrer todas
as calamidades, a mesmo, se tanto necessario fôr, lançar fogo ás casas e
deixar-se morrer nas chammas, o que tudo seria preferivel a obedecer ás
intimativas d’esse algoz sedento de sangue».
A tormenta não podia deixar de inquietar Alba, apezar de toda a
confiança que elle tinha em si proprio. Pediu ao monarca que o mandasse
retirar dos Paizes Baixos. Como todos os tyrannos, considerou sempre
efficacissimo o seu systema, mesmo depois dos revezes soffridos. Era
sua opinião que se tivesse sido um pouco mais severo, se tivesse
accrescentado mais algumas gotas do sangue que fez derramar, o seu exito
seria completo. Quando Filippe, accedendo ao seu pedido, o demittiu do
cargo que occupava, não teve outro conselho a dar ao seu successor senão
o de mandar arrazar as cidades em que elle não podera pôr uma guarnição
hespanhola.
=Requescens y Zuniga, o novo representante do rei.=—A pessoa que Filippe
II escolheu para substituir o duque de Alba foi D. Luiz Requescens y
Zuniga, membro da mais alta aristocracia de Hespanha e cavalleiro de
Malta. Era elle um homem de indole magnanima, de nobre caracter, e, se
tivesse sido enviado á Hollanda dez annos mais cedo, a historia d’esse
paiz teria sido, certamente, muito diversa. Chegou, porém, tarde de
mais, e elle em breve o reconheceu. A Hespanha dispunha ainda, n’aquella
epoca, de um thesouro inexgotavel e de um illimitado numero de soldados.
Os patrioticos defensores da Hollanda não poderiam leval-a de vencida em
campo aberto; comtudo, o novo commandante hespanhol não os intimidou. Em
todas as cidades fortificadas se luctava com a energia do desespero, e os
«Mendigos do Mar» alcançavam triumphos sobre triumphos. E, comtudo, aos
patriotas faltava gente e dinheiro. Requescens, depois de observar tudo
isto, escreveu a Filippe: «Antes da minha chegada aqui, não comprehendia
como os rebeldes podiam sustentar frotas tão consideraveis, quando
vossa magestade nem uma, sequer, podia. Agora vejo que os homens que se
batem pelas suas vidas, pelas suas familias, pelos seus bens, pela sua
religião, embora falsa, pela sua causa, em summa, não exigem paga; dão-se
por satisfeitos com a sua ração quotidiana». Tratou logo de adoptar um
methodo inteiramente opposto ao de Alba. Aboliu os odiados impostos,
dissolveu o Conselho de Sangue, e proclamou uma amnistia geral. Procurou
também chegar a um accordo com os insurrectos.
Os habitantes da Hollanda e da Zelandia tinham tido uma amarga
experiencia de amnistias e accordos hespanhoes. «Temos ouvido demasiadas
vezes», disse Guilherme, «as palavras Combinado e Perpetuo. Ainda mesmo
que dessemos ouvidos ás vossas propostas, quem nos garante que o rei
as não daria depois por não feitas, sendo absolvido d’esse delicto
pelo papa?» A lucta continuou, portanto, e Requescens, que detestava a
politica do seu predecessor, teve de proseguir n’uma guerra que essa
mesma politica havia provocado.
A sorte das armas parecia manter-se inalteravel. Os hespanhoes tinham
saido sempre victoriosos em campo aberto, e quando no principio da
primavera de 1574 Guilherme e seu irmão Luiz entraram na Hollanda á
frente de um novo exercito composto, na sua maioria, de mercenarios
allemães, alcançaram outra victoria na Mooker Haide, mais decisiva,
segundo pareceu, do que qualquer outra que tivessem ganho anteriormente.
O exercito de Guilherme foi inteiramente derrotado, perecendo os seus
dois irmãos Luiz e Henrique, e com elles Christovão, Conde Palatino. Mais
uma vez se afigurou que os hollandezes acabariam, por fim, n’uma completa
submissão aos hespanhoes. Como sempre, porém, os heroes da patria,
vencidos em terra, eram vencedores no mar, e nas cidades fortificadas
combateu-se com tal denodo e perseverança que os hespanhoes não poderam
deixar de reconhecer a sua derrota.