=Henrique de Navarra.=—Ao principio foi apenas reconhecido pela parte

protestante da França. A Liga dispunha de grande poder, e estava

resolvida a impedir que o throno fosse occupado por um huguenote. Até

mesmo os catholicos romanos moderados com dificuldade podiam admittir que

reinasse em toda a França um rei que professava a religião da minoria.

O papa recusava-se a reconhecer um soberano protestante, e Filippe

II de Hespanha fez a ameaça de uma invasão das suas tropas. N’estas

circumstancias, Henrique de Navarra fez uma coisa extraordinaria: pediu

para ser instruido nas doutrinas da religião catholica romana. Isto

chamou para o seu partido um grande numero de romanistas moderados, e o

rei poude desbaratar a Liga nas batalhas de Arques e Ivry.

A Liga continuava ainda a intimidai-o muito e projectava levar ao throno

Carlos de Guise, duque de Mayenne, ou o Cardeal Bourbon, tio de Henrique,

(que reinou effectivamente sob o nome de Carlos X), ou Filippe II de

Hespanha, que tinha casado com uma Valois.

Em face de todas estas complicações, Henrique deu um passo que a sua

heróica mãe nunca teria dado. Fez-se catholico romano. O effeito d’isto

foi que n’um maravilhosamente curto espaço de tempo a Liga se dissolveu,

e Henrique IV foi acclamado rei por quasi toda a França. Os seus velhos

companheiros de armas e correligionarios, posto que deplorassem a sua

apostasia, não abandonaram o joven que desde a infancia havia sido seu

associado e chefe, e que, depois dos afflictivos dias de Bartholomeu,

havia deixado a côrte assim que isso lhe fôra possivel, para combater

junto d’elles. Elle, em troca, concedeu-lhes aquillo por que haviam

luctado durante trinta annos.

=O Edicto de Nantes.=—Em 1598 foi assignado o famoso Edicto de Nantes,

que se adeantava mais em tolerancia religiosa do que qualquer outro

edicto do seculo dezeseis. Tinha, porém, um grande defeito, e era que as

circumstancias em que a França se encontrava tornavam impossivel garantir

liberdade religiosa sem conceder aos protestantes certos privilegios

politicos que os constituiam um estado no estado, e que mais tarde

obstaram á completa fusão dos dois partidos n’um governo.

Este edicto outorgava completa liberdade de consciencia; de ahi em deante

ninguem mais seria perseguido por causa das suas idéas religiosas.

Todos os nobres que possuissem aquillo a que se chamava «superior

jurisdicção» tinham auctorização para ensinar o calvinismo, e toda a

gente podia aproveitar-se das suas lições. Os nobres que não possuissem

essa jurisdicção gozavam do mesmo privilegio, e podiam ter ao seu

serviço quantas pessoas quizessem, quando residissem em localidades

onde não houvesse catholicos romanos com a «superior jurisdicção». Dava

licença para que continuasse, ou fosse restaurado, o culto publico «a

que chamam reformado» em todas as cidades onde elle já existia em Agosto

de 1597. Quando os protestantes estivessem espalhados por um districto

provinciano, designar-se-hia para local do culto uma das povoações.

Prohibia-se aos protestantes o culto publico em Paris, ou a cinco milhas

de distancia d’essa cidade, e nas seguintes cidades, onde predominava

o fanatismo catholico romano: Reims, Toulouse, Dijon e Lyon. N’outra

qualquer parte os protestantes podiam ter egrejas, sinos, escolas, etc.

Os principaes limites da liberdade religiosa consistiam em que a religião

romana era declarada a religião estabelecida, e em que os protestantes

tinham de pagar dizimos ao clero official, não podiam trabalhar nos dias

santificados, e eram obrigados a conformar-se com as leis matrimoniaes da

egreja catholica.

Os protestantes, ficou também declarado, tinham os mesmos deveres civis e

os mesmos privilegios dos catholicos romanos, e podiam concorrer a todos

os empregos e dignidades do Estado. Estabeleciam-se tribunaes de justiça

especiaes, para julgamento dos protestantes. Estes retinham durante oito

annos todas as cidadellas que lhes pertenciam anteriormente a 1597,

com todo o material de guerra; e n’essas cidades os governadores eram

nomeados pelos huguenotes.

CAPITULO IV

A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS

Os Paizes Baixos, pag. 113.—A politica de Carlos V, pag.

114.—Os principios da Reforma, pag. 115.—Filippe II e os

Paizes Baixos, pag. 115.—A inquisição, pag. 117.—Os novos

bispados, pag. 118.—Tornar-se-ha hespanhol o paiz? pag. 119.—Os

_mendicantes_, pag. 120.—Prégações ruraes, pag. 120.—O duque de

Alba nos Paizes Baixos, pag. 121.—A prisão do conde Egmont e

do conde Horn, pag. 122.—A guerra civil. O principe de Orange,

pag. 124.—Os mendigos do mar, pag. 124.—A tomada de Brill, pag.

126.—Requescens y Zuniga, pag. 128.—O cerco de Leyden, pag.

129. Negociações entre as provincias do sul e as do norte, pag.

130.—D. João de Austria, pag. 131.—Alexandre de Parma, pag.

132.—O tratado de Utrecht, pag. 132.—A Egreja hollandeza, sua

organização e confissão, pag. 133.—O _Confessio Belgica_, pag.

134.—A constituição da Egreja hollandeza, pag. 134.—A força da

Egreja na Hollanda, pag. 136.

=Os Paizes Baixos.=—A revolta dos Paizes Baixos contra Roma foi talvez a

ultima d’esse genero se a datarmos do triumpho final, mas aquelle paiz

teve a honra de fornecer os primeiros martyres da fé protestante.

Os Paizes Baixos ficavam em volta das boccas do Scheldt e do Rheno, e

na edade media constituiam o lado norte do velho reino de Lotharingia,

ou Lorrena, o celebre reino central, como era chamado. A sua situação,

com uma extensa costa maritima, e os grandes rios que o atravessavam,

tornava-o naturalmente um paiz commercial. O mar estava constantemente

usurpando a parte secca, e era necessario oppôr-lhe diques; os rios

trasbordavam, e era necessario evitar que os campos ficassem submergidos.

A perpetua lucta com a natureza a que estes perigos forçavam o povo

fez d’elle uma gente endurecida e apta para tratar de si sem o auxilio

alheio. O paiz abundava em grandes cidades, habitadas por gente livre e

opulenta. A vida burgueza começou mais cedo nos Paizes Baixos do que na

maioria das nações europeas. A liberdade civica era conhecida apreciada.

N’alguns pontos os dirigentes eram principes, ou bispos-principes;

n’outros havia um conselho districtal, o qual, como succedia em Utrecht,

considerava seu subdito o bispo da provincia.

Outras influencias contribuiam, para que se preservasse o espirito da

liberdade. O sul dos Paizes Baixos tinha sido a terra dos Trouvères, e a

sua influencia era ainda bastante para que no povo se conservasse vivo o

espirito anti-clerical. O clero romano nunca teve muito predominio nas

cidades mais importantes, e mesmo nas provincias não conseguiu jámais

levar de vencida as «Camaras de Oradores», como eram chamadas, as quaes

algumas vezes, sob o disfarce de clubs de archeiros, ou sociedades

de canto, eram na realidade agrupamentos que tinham por fim cultivar

os talentos dramaticos dos seus membros, ou para representarem os

oratorios medievaes, ou, mais frequentemente, para comporem e recitarem

poesias satyricas e comicas em que os vicios dos homens da Egreja eram

inexoravelmente atacados.

Os Paizes Baixos tinham sido tambem o theatro dos labores de Gerardo

Groot, o fundador das escolas para creanças pobres e dos asylos para

orphãos; e os seus collaboradores, os Irmãos da Vida Commum, tinham

diffundido os seus sentimentos de mystico desprezo por uma Egreja

mecanica e politica, e a sua ambição de que todos os paizes em redor

fossem devidamente educados e seguissem a religião do coração. Thomaz á

Kempis, João Wessel, João Goch, e outros reformadores que viveram antes

da Reforma, todos elles eram dos Paizes Baixos.

=A politica de Carlos V.=—No seculo quinze a maior parte d’estes estados

livres e d’estas cidades opulentas tinha caido sob o dominio dos duques

de Borgonha, que eram ao mesmo tempo vassalos da corôa franceza e do

Imperio. Não vem agora a proposito relatar a avidez com que Filippe o

Bom, e seu filho, Carlos o Ousado, luctaram para fazer do seu ducado um

reino, e para mostrar como o genio violento de Carlos deu motivo a que

os seus planos fracassassem. Os paizes arrancados ás garras da França

constituiram o dote de Maria de Borgonha, filha de Carlos, quando casou

com Maximiliano de Austria, que era neto de Carlos V, o imperador na

epoca em que se deram os primeiros episodios da Reforma.

Carlos V, que era conde de Hollanda, e _stadtholder_ dos Paizes Baixos,

assim como rei de Hespanha e imperador da Allemanha, nasceu e foi

educado nos Paizes Baixos, e reputava essas provincias suas propriedades

exclusivas. A politica constante do imperador foi a de auxiliar, até

onde podesse ser, os privilegios provinciaes e a liberdade civica, e nos

Paizes Baixos fez tudo quanto estava ao seu alcance para centralizar

o governo e remover os antigos privilegios constitucionaes. O povo

não recebia com agrado estas medidas, mas attribuia-as a conselhos de

procedencia hespanhola.

=Os principios da Reforma.=—Quando a Reforma começou na Allemanha, e

foi publicado o famoso edicto de Worms, collocando Luthero, os seus

adherentes e as suas obras sob o anathema do Imperio, Carlos fez sair nos

Paizes Baixos um decreto que continha disposições similhantes. O edicto

foi inefficaz na Allemanha, mas Carlos poude constranger á obediencia

nos Paizes Baixos. Em 1523, dois frades agostinhos, Henrique Voes e João

Esch, foram detidos pelas auctoridades, e, apoz um inquerito, foram

queimados em Bruxellas, sendo elles os primeiros martyres da Reforma.

Luthero compoz um hymno em sua honra, que intitulou «Cantico dos dois

martyres de Christo em Bruxellas, queimados pelos Sophistas de Louvain.»

Foram prohibidas as reuniões religiosas, assim como a introducção das

obras de Luthero.

Não obstante estas restricções, o Novo Testamento de Luthero foi

traduzido em hollandez, e impresso em Amsterdam em 1523, e as doutrinas

da Reforma tornaram-se largamente conhecidas.

Os regentes que estavam á frente das dezesete provincias em nome de

Carlos não deram plena execução aos severos edictos que lhes foram

confiados. Margarida de Saboya, tia de Carlos, era inclinada á tolerancia

em materia de religião, e Maria da Hungria, sua irmã, era, segundo

se diz, secretamente partidaria da Reforma. N’estas circumstancias o

movimento alastrou-se com rapidez no meio do povo, que estava acostumado

a ler, pensar e julgar por si proprio; pois que, diz um historiador, «até

nas cabanas dos pescadores da Frisilandia se depara com pessoas aptas não

somente para ler e escrever, como tambem para discutir, quaes letrados,

as interpretações biblicas.»

O movimento soffreu um grande revez com uma irupção do fanatismo

anabaptista em 1534. Em Leyden os fanaticos tentaram apoderar-se da

cidade e incendial-a. Em Amsterdam percorreram as ruas soltando loucos

vaticinios. Na Frisilandia penetraram n’um convento, e combateram

desesperadamente com os soldados que pretendiam fazel-os abandonar o

edificio. O governo foi inexoravel com elles. Deu-se-lhes uma verdadeira

caça, e foram torturados e mortos, affirmando-se que pereceram quasi

trinta mil pessoas, e entre ellas muitos e pacificos protestantes que não

approvavam de modo algum aquelles ardores anabaptistas. A Reforma, apezar

d’este contratempo, foi fazendo progressos nos Paizes Baixos, até que, em

1555, Carlos V abdicou em seu filho Filippe II, começando então o povo a

luctar pela liberdade politica e religiosa.

=Filippe II nos Paizes Baixos.=—Carlos viu todos os seus projectos

transtornados pela Reforma; seu filho Filippe resolveu adoptar a mesma

politica, usando, porém, do maior rigor e severidade. «Queria impôr,

illimitada e incondicionalmente, o despotismo temporal e espiritual a

que o restabelecido poder pontificio aspirava.» Sabemos agora que o

empreendimento de Filippe era, desde o principio, irrealisavel; mas o

elle ser ou não bem succedido constituiu um problema que teve a Europa

suspensa durante quasi meio seculo. Por fim só em Hespanha é que logrou

bom exito, para desgraça d’esta nação. O interesse que a lucta nos

Paizes Baixos desperta provém do facto de ser a primeira revolta contra

a politica de Filippe, e devido a ella o poder de Hespanha ficou tão

abalado que a Europa poude sentir-se em segurança.

Ao tomar conta dos dominios hereditarios de seu pae, Filippe achava-se

nos Paizes Baixos. Elle tinha observado com desgosto os progressos que

a religião reformada fazia n’essa terra. A Hespanha estava segura, pois

que se havia inteiramente extinguido n’ella toda a liberdade civil e

religiosa. Filippe podia, portanto, permanecer nos Paizes Baixos, e

superintender pessoalmente o inicio da sua obra de repressão. Descobriu

que a Biblia estava toda traduzida em hollandez, por Jacob Liesfeld, que

muitos dos nobres estavam em constante communicação com os principes

lutheranos da Allemanha, e que os protestantes dos Paizes Baixos se

entendiam tambem perfeitamente com os huguenotes francezes. As suas

medidas para exterminio da heresia foram cuidadosamente elaboradas e

com muita paciencia postas em pratica. Confiava, para o bom exito, na

presença do exercito hespanhol, n’uma especie de conselho que lhe fosse

dedicado e executasse a sua vontade nos mais minuciosos detalhes, no

estabelecimento da inquisição, e n’uma remodelação do episcopado das

provincias.

Os territorios da Hespanha, incluindo a parte que ficava ao sul dos

Pyrenéus e os Paizes Baixos, confinavam com a França, tanto ao norte como

ao sul, e quando em guerra com este paiz as tropas hespanholas haviam-se

aquartellado nas dezesete provincias, com o fim de se encontraram com o

exercito francez n’essa fronteira. Filippe resolveu conservar ahi essas

tropas e servir-se da presença d’ellas para impôr os seus designios.

Esta permanencia de tropas estrangeiras no seu territorio sem o seu

consentimento representava um attentado contra um dos privilegios que as

provincias mais apreciavam; o paiz, além d’isso, tinha acabado de passar

por uma grande fome, e a brutalidade dos soldados ainda mais exasperava

o povo, chegando os habitantes da Zelandia a declarar que antes queriam

morrer afogados do que continuarem por mais tempo sujeitos aos ultrajes

da soldadesca.

Filippe não podia ficar para sempre nos Paizes Baixos, pois que a sua

presença era necessaria na Hespanha, e antes de se retirar precisava

de nomear uma pessoa que ficasse governando em seu nome. As provincias

queriam que esse encargo recaisse sobre um dos seus nobres, e os nomes

de dois membros da aristocracia, Guilherme de Orange e o Conde Egmont,

que eram tambem principes do Imperio Allemão, foram frequentemente

pronunciados na presença do rei. Tinham sido ambos muito affeiçoados

a Carlos V, havendo demonstrado por meio de actos a sua dedicação, e

possuíam todos os requisitos para o desempenho de aquelle logar. A

escolha de Filippe, porém, caiu em sua cunhada, Margarida de Parma, que

estava inteiramente dependente d’elle, era estranha ao paiz, cuja lingua

ignorava, e conforme Filippe suppunha, lhe obedeceria cegamente. Deixou

junto d’ella, como primeiro conselheiro, Antonio Perrenot, mais conhecido

pelo cardeal Granvella, creatura sua, e mais um ou dois que elle sabia ao

certo que executariam sem hesitação qualquer ordem que mandasse.

=A Inquisiçao.=—O mais importante elemento de repressão, comtudo,

foi a inquisição. Esta terrivel instituição differia inteiramente da

organização que, com o mesmo nome, existiu antes da Reforma. A primeira

inquisição, estabelecida para exterminio dos albigenses do sul da

França, causou grandes soffrimentos aos não-conformistas da edade media,

mas as suas funcções eram geralmente entregues aos dominicanos e aos

franciscanos, e a rivalidade que havia entre uns e outros, combinada com

o facto de terem sido estas duas grandes ordens as que deram acolhida á

heresia medieval, obstou a que ella fosse o perseverante instrumento de

repressão de que os papas de epocas posteriores á da Reforma, os jesuitas

e os monarcas como Filippe II careciam. Foi, por conseguinte, remodelada

em Roma sob a superintendencia do cardeal Caraffa, que mais tarde se

chamou Paulo IV, separada das ordens monasticas, e restabelecida sobre

uma base independente.

Tinha por fim, segundo a bulla que presidiu á sua fundação, extirpar

a heresia, primeiro em Italia, e em seguida em todo o mundo; e no seu

funccionamento havia quatro regras a observar. Em materias de fè não se

permittia um momento de demora, e a inquisição tinha de proceder com

o maior rigor á mais leve suspeita, não se respeitava as pessoas dos

principes ou dos prelados, por mais elevada que fosse a sua posição;

usar-se-hia de um rigor especial para com aquelles que se acolhessem á

protecção de um rei ou de uma personagem equivalente; e não se concederia

uma falsa tolerancia a qualquer heresia, sobretudo ao calvinismo.

A idéa do cardeal Caraffa era tornar a inquisição alliada do Estado,

prestando o poder civil a sua coadjuvação para que as ordens da Egreja

fossem cumpridas, e acoimando esta de heresia qualquer acto ou phrase

que um Estado despotico entendesse que lhe era hostil. A inquisição

tornava-se assim uma terrivel maquina nas mãos de um governo despotico,

e, na verdade, onde quer que a sua presença se fez sentir por muito

tempo, toda a liberdade civil e religiosa foi suffocada.

A Italia e a Hespanha ainda não se restabeleceram das feridas por ella

abertas.

Carlos V estabeleceu a Inquisição tanto em Hespanha como nos Paizes

Baixos, e, de accordo com o que ella preceituava, publicou alguns edictos

cheios de violencia, aos quaes, não obstante a passiva opposição dos

regentes, não houve remedio senão obedecer. Foi prohibido imprimir,

copiar, conservar escondido, comprar, vender ou dar qualquer livro de

Luthero, Œcolampadius, Zwinglio, Bucer, Calvino, ou qualquer outro

hereje. Foi tambem prohibido damnificar, de uma ou outra fórma, a imagem

de qualquer santo canonizado, assistir a reuniões hereticas, ler as

Escripturas, e entrar n’uma discussão ou controversia religiosa. Os

transgressores, se se retractassem, eram mortos á espada ou enterrados

vivos; se não se retractassem, eram queimados, com confiscação de todos

os seus bens. Aquelle que denunciasse um hereje recebia uma boa parte

da sua fortuna, logo que fosse provada a veracidade da accusação. Os

suspeitos de heresia eram obrigados a abjurar, e, se tornava a haver

duvidas a seu respeito, procedia-se com elles como se fossem herejes

declarados. Durante o reinado de Carlos houve todos os annos um bom

numero de execuções, e, não obstante, a Reforma ia-se propagando. Em 1550

já tinham fugido á inquisição 10:000 pessoas, que procuraram refugio em

paizes estrangeiros. Filippe, a cujo conhecimento isto chegou, era de

opinião que o terrorismo ainda não tinha sido exercido senão em pequena

escala; concedeu, portanto, mais amplos poderes á inquisição, e ordenou á

regente e ao seu conselho que prestassem aos inquisidores todo o auxilio

que lhes fosse necessario.

=Os novos bispados.=—No principio do seculo dezesseis havia nos Paizes

Baixos quatro bispados: o de Arras, o de Cambray, o de Tournay e o de

Utrecht. Filippe, só com uma pennada, propoz que se acerescentassem

quatorze. O cardeal Caraffa, já então o papa Paulo IV, deu logo o

seu apoio a essa proposta, pois que, disse elle, a heresia andava

desenfreiada pelos Paizes Baixos, e a seara era abundante mas poucos

os obreiros. O clero dos Paizes Baixos protestou; o povo, indignado,

appellou para a constituição do paiz, que não permittia que o clero

fosse augmentado sem o consentimento d’este. Todos os protestos, porém,

foram baldados. Em 1560 o paiz foi dividido em quinze bispados, que

ficaram sobre as ordens de tres arcebispos, tendo por primaz o arcebispo

de Mechlin; e Filippe alcançou assim um bom numero de voluntarios

instrumentos de repressão, assim como uns poucos de tribunaes onde os

casos de heresia fossem julgados e sentenciados.

=Tornar-se-ha hespanhol o paiz?=—No entretanto o paiz ia-se alarmando.

Estas mudanças foram para a maioria dos neerlandezes indicios de que se

intentava reduzir os Paizes Baixos á condição de Hespanha. O patriotismo

identificou-se com a Reforma, e a causa nacional e a religião evangelica

caminharam, por assim dizer, de mãos dadas.

Isto deu um grande impulso ao movimento protestante. Tornou-se a causa

popular. Multidões intervieram nos castigos ecclesiasticos, apoderaram-se

das victimas condemnadas á morte pela inquisição, promoveram tumultos

por occasião da missa, e por vezes atacaram as egrejas e derrubaram as

imagens.

Os nobres assustaram-se, e reuniram-se para formularem as suas queixas.

O objecto da sua ira era Granvella, que tornaram culpado de todas as

medidas dignas de censura. Filippe, fingindo concordar com os nobres,

transferiu Granvella para outro ponto; mas o velho systema de terrorismo

continuou, e os nobres perceberam que o rei, com a sua usual duplicidade,

os queria fazer passar por culpados da tyrannia contra a qual haviam

protestado.

A proclamação dos decretos do Concilio de Trento provocou uma nova

resistencia. O principe de Orange, com toda a intrepidez, fallou

contra a proposta em termos violentos; houve uma assembléa de nobres,

e resolveu-se encarregar o conde Egmont da missão especial de informar

o rei dos sentimentos do povo das provincias; porque ainda se julgava

que Filippe ignorava certas coisas de que aliás estava perfeitamente

informado.

Egmont era um zeloso romanista, e tinha provado ser um subdito leal

do monarca hespanhol. Se alguem podia tirar partido de Filippe, esse

alguém, segundo a opinião geral, era Egmont. Partiu para Madrid em 1565,

onde foi recebido com apparente cordialidade, e assegurou-se-lhe que as

representações dos nobres seriam attendidas.

Como de costume, Filippe II não tinha intenção alguma de cumprir as suas

promessas. Deu, pelo contrario, ordem para que em todas as cidades fossem

proclamados, de seis em seis mezes, os decretos de Trento, os edictos com

caracter de perseguição e os sanguinarios mandatos da inquisição. Segundo

contam os historiadores, o effeito d’isto foi quasi indescriptivel; o

commercio ficou paralysado, as industrias desappareceram, e todo o paiz

parecia ter passado por um enorme cataclismo. Distribuiam-se pamphletos,

que eram avidamente lidos, contendo apaixonados appellos ao povo para

que pozesse termo á tyrannia. Um d’elles, que tomou a fórma de uma carta

aberta ao rei, dizia: «Estamos prontos a morrer pelo Evangelho, mas lemos

n’elle «Dae a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus.» Damos

graças a Deus por até os nossos inimigos se verem constrangidos a dar

testemunho da nossa piedade e da nossa innocencia, e tanto assim que se

diz commummente: «Fulano não pragueja, porque é protestante.» «Fulano não

pratíca immoralidades nem se embriaga, porque pertence á nova seita».

«E, comtudo, atormentam-nos com toda a especie de castigo que se pode

inventar.»

=Os mendicantes.=—Os que entre os jovens fidalgos e burguezes tinham

um espirito mais ousado resolveram unir-se para resistirem á tyrannia.

Os seus chefes naturaes, que eram o principe de Orange e os condes de

Egmont e de Horn, conservaram-se afastados, por considerarem insensata

aquella empreza. Os confederados resolveram começar dirigindo-se em

solemne procissão á regente para lhe pedirem a abolição da inquisição

e a revogação de alguns dos edictos. Encontraram-se com a duqueza em 5

de Abril de 1556, e leram-lhe a representação que tinham preparado; e a

regente, perturbada com a imponencia do acto, convocou a toda a pressa

o conselho para saber o que havia de responder. Barlaymont, um dos seus

conselheiros, e pessoa muito da intimidade de Filippe, foi de opinião

que «aquelle bando de mendicantes» devia ser posto, á força, fóra do

palacio, A duqueza despediu-os cortezmente, mas houve quem lhes referisse

as palavras de Barlaymont. Achando-se trezentos d’elles reunidos n’um

banquete para deliberarem, o conde Brederode levantou-se, e disse:

«Chamam-nos mendicantes. Acceitamos esse nome. Empenhamos a nossa palavra

em como havemos de resistir á Inquisição, e conservar-nos fieis ao rei e

á Sacola do Pedinte.» Em seguida poz aos hombros uma sacola de coiro como

as que usam os mendigos que andam de terra em terra, e, deitando vinho

n’um copo de madeira, bebeu á prosperidade da causa.

A Reforma · 第 12 / 27 段