Em virtude da tolerancia que havia sido concedida aos huguenotes,

voltou para França muita gente que se tinha refugiado na Inglaterra, na

Allemanha, nos Paizes Baixos, e até mesmo na Italia. Vieram tambem alguns

pastores de Genebra, não faltando, d’esse modo, homens bem instruidos

que dirigissem as congregações protestantes. Era impossivel, porém,

mudar todas as coisas por meio de um compromisso politico. Os Guises

ameaçavam vingar-se. O idoso condestavel de Montmorency, que se tinha na

conta de ser o campeão da antiga fé, resolvera oppôr-se áquella corrente

conciliatoria, e fanaticas turbas se levantaram contra as assembléas

protestantes. Nas localidades onde os huguenotes estavam em maioria,

tornou-se difficil evitar que elles decisiva e energicamente defendessem

os seus direitos. N’algumas cidades o povo correu em massa ás egrejas,

derrubou as imagens e os quadros, e queimou as reliquias. Os que entre os

huguenotes occupavam os primeiros logares fizeram todo o possivel por

conter os seus correligionarios. Calvino escreveu de Genebra, protestando

energicamente contra toda e qualquer illegalidade. «Deus nunca disse a

pessoa alguma que destruisse os idolos, exceptuando aquelles que cada

um tenha em sua casa, ou os que em publico se encontrarem revestidos de

auctoridade.... A obediencia é melhor do que o sacrificio, e devemos ver

bem o que nos é licito fazer, e manter-nos dentro de certos limites».

=A Conferencia de Poissy.=—A data designada para a Conferencia

approximava-se com rapidez, e por toda a parte eram convidados todos os

francezes que tivessem qualquer coisa a dizer em materia de religião a

apresentarem-se na proxima assembléa de Poissy, na certeza de que não

correriam perigo algum e seriam escutados com a maxima attenção. Os

huguenotes tinham grande empenho em que Beza comparecesse, e pediram-lhe

encarecidamente que fosse lá represental-os. Elle ao principio não queria

ir, pois que estava convencido de que de similhante rainha se não tiraria

resultado algum. Por fim acquiesceu, e os huguenotes ficaram descançados

por saberem que os seus interesses estavam entregues em tão boas mãos.

Francez, nascido, em 1519, em Vezelay, e de nobre ascendencia, renunciara

a um brilhante futuro ao abraçar a causa da Reforma. Era um homem

de magestosa presença, muito illustrado, e de um trato captivante.

Abaixo de Calvino, era elle a pessoa por quem as egrejas reformadas se

deixavam guiar com maior confiança, e em quem viam o seu mais legitimo

representante. Foi recebido pelo rei de Navarra, e por seu irmão, Luiz

de Condé, e apresentado por elles á rainha mãe e ao cardeal de Lorraine.

O seu porte, a sua erudição, e os seus modos de grande personagem,

produziram sensação na côrte.

Quando teve logar a discussão publica, tornou-se tristemente manifesta a

ignorancia dos bispos francezes, e o cardeal de Lorraine e outros mais

trataram logo de pôr termo á conferencia, ou, no caso de não conseguirem

esse proposito, de a tornarem completamente esteril. O resultado da

discussão foi ambas as partes nomearem delegados para conferirem sobre

determinados pontos, e d’essas conferencias proveiu um Edicto de

Tolerancia, publicado em Janeiro de 1562.

Os protestantes tinham de renunciar ás suas egrejas e ás suas reuniões

secretas, mas era-lhes permittido fazer os seus cultos ás claras, e a

qualquer hora do dia, fora das povoações; e todos os seus ministros eram

obrigados a declarar, sob juramento, que não ensinariam coisa alguma que

não estivesse de accordo com as Escripturas e com o Credo de Nicéa. A

tolerancia era, como se vê, muito limitada; mas desapparecia o fundamento

legal para qualquer perseguição, e Calvino e Beza foram de parecer que um

tal compromisso, não obstante as pouco favoraveis condições em que era

feito, devia ser acceite. «Se a liberdade que o Edicto nos promette fôr

duradoura», escreveu Calvino, «o papismo cae por si mesmo».

Os catholicos romanos não estavam de fórma alguma dispostos a chegar a

um accordo com os protestantes. Os funccionarios civis, nas cidades e

nas provincias, pertenciam á religião do estado, e os parlamentos, ou

tribunaes de justiça permanentes, abominavam o protestantismo. Sabia-se,

além d’isso, que o Edicto da Tolerancia era apenas um ardil de Catharina

para ganhar tempo. Por outro lado, os Guises eram formalmente oppostos

a qualquer convenio, e todas estas circumstancias incitaram os dois

partidos a prepararem-se para uma guerra civil.

=O massacre de Vassy: outros massacres.=—O signal foi dado pelo duque de

Guise, o qual, com o maior atrevimento, violou o Edicto da Tolerancia.

No dia 1.º de Março de 1562, a um domingo de manhã, entrou, á frente de

um grupo de cavalleiros armados, na cidade de Vassy, onde uma pequena e

indefeza congregação de protestantes estava prestando culto a Deus n’um

celleiro. Quasi no fim levantou-se um tumulto, e as pessoas presentes,

que não tinham armas para se defender, foram, na sua grande maioria,

assassinadas. Foi este o inicio d’essas medonhas guerras civis que tanta

devastação produziram em França até Henrique IV subir ao throno.

O exemplo da carnificina que teve logar em Vassy foi seguido em muitos

outros pontos em que os catholicos romanos estavam em maioria. Em

Paris, em Sens, em Rouen, em toda a parte, emfim, os logares de culto

protestantes foram atacados e os que n’elles se haviam reunido tiveram

morte violenta. Em Toulouse os protestantes, temendo uma carnificina,

fecharam-se no Capitolio; foram atacados pelos catholicos romanos, e, ao

cabo de uma certa resistencia, entregaram-se sob a promessa de que lhes

seria permittido sair da cidade sem serem molestados. Uma vez cá fóra,

foram todos massacrados—homens, mulheres e creanças, tendo perecido, ao

todo, para cima de 3000 pessoas. Este morticinio de protestantes, em

que houve violação de um juramento, foi commemorado pelos catholicos

romanos de Toulouse em 1662 e 1762, e tel-o-hia sido egualmente em 1862

se o governo de Napoleão III se não houvesse opposto á celebração do

centenario.

Estes sanguinolentos massacres provocaram represalias. Os huguenotes

precipitaram-se para as egrejas papistas, e destruiram as imagens, os

altares e as reliquias. Destruição de imagens e derramamento de sangue

era a ordem do dia na maior parte das provincias de França.

=A guerra civil. Os iconoclastas.=—No meio de tudo isto os dois partidos

formaram-se gradualmente em dois exercitos inimigos, ficando um, o

papista, sob o commando de Francisco, duque de Guise, e o outro, o

protestante, sob o commando de Luiz, duque de Condé, e do almirante

Coligny. A França poude então presenciar todos os horrores de uma guerra

civil, em que o fanatismo religioso accrescentou, ás barbaridades communs

a todas as guerras, as mais atrozes crueldades.

O embaixador de Veneza, escrevendo aos chefes do seu Estado, exprimiu

a opinião de que esta primeira guerra religiosa obstou a que a França

se tornasse protestante. As crueldades dos papistas tinham desgostado

um grande numero de cidadãos francezes, que, sem serem impulsionados

por fortes sentimentos religiosos, ter-se-hiam de muito bom grado

alliado áquelles que, pela sua moderação, se mostravam competentes para

inaugurar, e manter na pratica, um systema de tolerancia. Os chefes

huguenotes faziam o maximo empenho em poder provar que os seus adherentes

sabiam fugir aos excessos, e Calvino e Beza recommendaram que não se

interviesse no culto dos catholicos romanos, excepto quando o caso fosse

tratado judicialmente, e ainda assim com muita serenidade. Não, foi,

porém, possivel evitar que os protestantes despedaçassem as imagens e

dessem cabo de tudo quanto encontraram nas egrejas.

Em Orleans foram umas poucas de egrejas atacadas ao mesmo tempo. Condé,

acompanhado de Coligny e de outros vultos importantes, dirigiu-se a

toda a pressa para a egreja de Santa Cruz, onde o tumulto era maior.

Ao chegarem á egreja, Condé reparou n’um soldado huguenote, que havia

subido a um ponto elevado da frontaria e se preparava para atirar cá para

baixo com a imagem de um santo. O duque pegou n’um arcabuz, apontou-o ao

dito soldado, e ordenou-lhe que descesse quanto antes. Elle não parou

com o que estava fazendo, proferindo, porém, estas palavras: «Deixe-me

primeiro fazer este idolo em migalhas, e depois mate-me, se isso fôr da

sua vontade». Tratando-se de gente assim, que preferia morrer a deixar

de destruir as imagens, era impossivel esperar que se podesse pôr um

dique á iconoclastia, e onde quer que as tropas protestantes entrassem

as egrejas ficavam n’uma completa desordem. Este procedimento foi tomado

em toda a França como um indicio de que os protestantes, se chegassem

a ter o poder nas mãos, seriam tão intolerantes como os catholicos, e,

por consequencia, a sympathia pela sua causa, que até ali fôra sempre

crescendo, começou a declinar.

O desenvolvimento da guerra foi, no seu conjuncto, desfavoravel aos

huguenotes. Francisco, duque de Guise, era um admiravel general, e os

papistas estavam bem providos de dinheiro e recebiam auxilio de fóra;

ao passo que os huguenotes estavam quasi exclusivamente dependentes dos

seus proprios recursos, e achavam-se muito mal fornecidos de fundos para

o proseguimento da lucta. Os huguenotes perderam a batalha de Dreux,

em Dezembro de 1562, graças, principalmente, á admiravel disciplina dos

auxiliares suissos de Guise; mas, por seu turno, os papistas perderam o

duque de Guise, que foi assassinado em Fevereiro de 1563.

Com a morte do duque, Catharina adquiriu maior poder, e tornou-se mais

facil a paz. Os huguenotes não tinham conseguido vencer os papistas;

e, do mesmo modo, os papistas não tinham conseguido exterminar os

protestantes. Não se haviam reconciliado uns com os outros, mas

achavam-se cançados; e convieram n’uma suspensão de hostilidades. O

Edicto da Paz garantia aos protestantes os privilegios que lhes haviam

sido concedidos um anno atraz, e accrescentava outros, sendo o mais

importante este: «Em cada baliado será escolhida uma cidade em cujos

arrabaldes os protestantes poderão realisar os seus cultos, e em todas

as cidades, excluindo Paris, onde em 7 de Março do anno corrente era

praticada a religião protestante, será a pratica d’esta permittida em

dois recintos _intra-muros_, que serão opportunamente designados pelo

rei». O Edicto de Amboise, saido em 12 de Março de 1563, só resolveu as

coisas por metade, o que irritou ambas as facções. Os catholicos romanos

não gostavam d’elle por tolerar a religião reformada, e os protestantes

por não lhes conceder tudo quanto elles desejavam. Foi obra de Catharina

e de Condé, cada um dos quaes confiava em que o futuro se encarregaria de

tornar inoffensivas para o seu partido as concessões que fazia.

As treguas duraram cerca de cinco annos, ao cabo dos quaes arrebentou a

segunda guerra religiosa. A lucta durou mais de um anno. A unica acção

decisiva foi a batalha de St. Denis, em que Montmorency foi morto.

Seguiu-se então o armisticio de Longjumeaux, cujas condições eram

identicas ás do Edicto de 1562.

Este armisticio durou apenas alguns mezes, findos os quaes começou a

terceira guerra religiosa. Os protestantes receiavam-se do duque de Alba,

o feroz governador dos Paizes Baixos, que se estava preparando para

ajudar a côrte franceza a exterminar todos aquelles que não quizessem

submetter-se á Egreja Catholica Romana, e resolveram tomar a offensiva.

Condé e Coligny souberam que o duque tinha aconselhado a rainha a tirar

a vida aos chefes huguenotes, cair depois sobre o povo, e, finalmente,

supprimir a obnoxia fé.

Os cabeças fugiram para La Rochelle, e a guerra começou. Combateu-se

durante quasi todo o anno de 1569, com alternativas de bom e mau

exito, tanto diplomatico como militar. Por fim, teve logar a batalha

de Jarnac, onde os huguenotes foram derrotados, e onde Condé e varios

outros encontraram a morte. A sorte parecia ter-se tornado crudelissima

para os huguenotes. Os chefes hereditarios do partido eram Henrique de

Navarra, moço de quinze annos, e seu primo Henrique de Conde, que não

tinha muito mais edade do que elle, de modo que Gaspar de Coligny é que

teve de arcar com toda a responsabilidade. Tratou de reunir as forças

dispersas, e, não obstante alguns revezes, poude obter um tratado de paz

que offerecia vantagens como nunca os huguenotes tinham logrado alcançar.

Foi auctorizado o culto publico n’um grande numero de cidades, e quatro

d’ellas—La Rochelle, Montauban, Cognac e La Charité—foram dadas aos

protestantes como logares de refugio.

=Coligny e Carlos IX.=—O almirante Coligny ficou sendo, em virtude d’este

tratado de paz, o chefe em quem os huguenotes mais confiavam. Deixou-se

ficar em La Rochelle, no meio dos seus correligionarios, e encarregou-se

da tutella dos dois jovens principes que eram as esperanças dos

protestantes, Henrique de Navarra e Henrique de Condé. O fim principal

que elle tinha em vista era de tornar permanentes as vantagens que os

reformados tinham conquistado mediante as terriveis guerras religiosas.

Convidaram-n’o a ir á côrte, e, a despeito de todos os avisos em

contrario, foi. «Prefiro», disse elle, «morrer mil vezes do que, por uma

indevida solicitude pela minha vida, dar occasião a que se avente uma

suspeita em todo o reino».

Como quer que fosse, o nescio, fraco e dissoluto Carlos IX sympathizou

com o velho fidalgo. O pobre rei, que tinha então uns vinte annos, não

havia conhecido nunca um homem como aquelle. A enfermidade não o havia

deixado desde a infancia, e estivera rodeiado por pessoas que tinham

interesse em o educar na imbecilidade e na devassidão. Assim que se poz

em contacto com Coligny, que era um homem que inspirava um instinctivo

respeito, que nada dizia ou fazia que não estivesse de accordo com as

suas convicções, que se havia tornado a mais celebre individualidade da

França, que fora o organisador do partido protestante, que era quasi

adorado pelos seus amigos, e que, apezar da sua edade avançada, estava

ainda em todo o vigor da vida, não poude deixar de confiar n’elle como

nunca tinha confiado em pessoa alguma.

Catharina, Henrique de Anjou, seu filho, e os Guises conheceram que o rei

estava sob uma nova influencia, a que precisavam de subtrahil-o a todo o

transe. Tinham medo de que o rei, tendo a seu lado um homem pundonoroso,

lhes escapasse das mãos; e esta extraordinaria affeição que o debil

Carlos sentiu por Coligny foi, segundo affirmam alguns historiadoros, a

causa do massacre de S. Bartholomeu.

Catharina e Henrique de Guise tramaram o assassinio de Coligny. O

attentado, porém, falhou. Catharina foi então ter com seu filho, e

referiu-lhe que Coligny e todos os demais huguenotes estavam convencidos

de que elle, Carlos, entrara também na conspiração que tinha por fim

a sua morte, e que, portanto nunca havia de ter paz emquanto os

protestantes não fossem exterminados. Em seguida propoz uma chacina dos

vultos preponderantes, em que o rei, fortemente instado, consentiu.

=A matança de S. Bartholomeu.=—Esta terrivel carnificina de protestantes,

que teve logar na vespera de S. Bartholomeu (24 de Agosto de 1572) foi

obra de Catharina de Medicis, de Henrique de Anjou e dos Guises. A

matança foi feita em Paris por 20:000 milicianos da cidade, coadjuvados

por alguns soldados e pelos mercenarios suissos, que eram pagos pelo

duque de Guise. As forças a que se commetteu aquella tarefa eram

commandadas pelos irmãos Guise.

Assassinaram em primeiro logar Coligny e alguns dos principaes cabeças,

e depois o massacre tornou-se geral. As casas dos protestantes tinham

sido previamente marcadas com cruzes brancas, e os assassinos, para

reconhecimento mutuo, traziam faxas brancas, além de outros signaes. Só

em Paris foram mortos, pelo menos, 2000 homens, metade dos quaes eram

pessoas de distincção. O historiador protestante Crespin diz que foram

mortos em Paris 10:000; e Brantôme, creatura sceptica e dissoluta, fixa o

numero em 4000. Organizaram-se carnificinas pelas provincias, e o numero

das victimas tem sido calculado entre 30:000 e 100:000. Sully, primeiro

ministro de Henrique IV, que estava provavelmente bem inteirado, affirma

que cairam sem vida 70:000 pessoas.

Ultimamente os escriptores catholicos romanos não se teem mostrado muito

orgulhosos de aquelle commettimento, mas quando a matança teve logar

muitos d’elles exultaram. Sabe-se perfeitamente que, se o acto não foi

instigado de Roma, o papa e a curia estavam, pelo menos, scientes de

que elle ia realisar-se. Houve illuminações em Roma para festejar o

acontecimento, os canhões do castello de S. Angelo salvaram, organizou-se

uma procissão que foi até á egreja de S. Marcos, e cunhou-se uma medalha

para commemorar o _Hugonotorum Strages_. Alguns dos principes catholicos

romanos enviaram mensagens de congratulação, e diz-se que o pobre e

corrompido Filippe II de Hespanha sorriu, pela primeira e ultima vez na

sua vida, quando a noticia lhe constou.

O massacre diminuiu cruelmente o poder dos huguenotes, e privou-os de

quasi todos os seus caudilhos; mas elles continuavam a existir, e, em

vez de se intimidarem, de se darem por vencidos, perante aquelle acto

sanguinario, resolveram em seus corações vingar-se d’elle. Ainda restavam

algumas cidades em poder dos protestantes; La Rochelle, Sancerre, Nismes,

Montauban, e ainda outras, fecharam as suas portas, e negaram-se a dar

entrada aos governadores que de Paris lhes enviaram.

La Rochelle foi atacada pelas tropas reaes commandadas por Henrique de

Anjou, e os habitantes soffreram todas as calamidades de um cerco,

obrigando, por fim, os sitiantes a retirar-se. Uma egualmente bem

succedida resistencia da parte de outras cidades forçou a côrte a entrar

em negociações com os seus odiados subditos protestantes, e ficou

restabelecida a paz.

D’esta vez os huguenotes convenceram-se de que deviam estar sempre

preparados para a guerra. Os horrores da vespera de S. Bartholomeu

haviam-lhes mostrado o quão implacaveis eram os seus inimigos, e a

traição por elles commetida quando foi do cerco e capitulação de Sancerre

deu-lhes uma prova da sua deslealdade. Os protestantes estiveram sitiados

oito mezes, e durante esse periodo morreram de fome quinhentos homens,

pelo menos, e todas as creanças com menos de doze annos. «Porque chora»,

exclamou um rapazito de dez annos, «ao ver-me morrer de fome? Eu não lhe

peço pão, mãe; sei que não tem nenhum para me dar. Visto Deus querer que

eu morra d’esta forma, devemos acceitar isso alegremente. Lazaro, aquelle

homem santo, não tinha tambem fome? Não o li eu na Biblia?» E depois de a

cidade se haver rendido teve logar, não obstante a promessa que lhe tinha

sido feita sob juramento, uma horrivel scena de homicidio e pilhagem.

Os huguenotes, que não tinham quem os dirigisse, resolveram organizar-se,

para que podessem estar sempre promptos, e tão diligentemente pozeram

os seus planos em execução que n’um curto prazo se encontraram aptos

para pôrem 20.000 homens em campo, á primeira voz. Foi em Montauban que

tudo organizaram, e foi de lá que dirigiram uma representação ao rei,

em que Coligny havia insistido pouco antes de principiarem as guerras

religiosas. A côrte ficou sabendo que o espirito huguenote não se havia

extinguido. Desde a matança de S. Bartholomeu um outro partido ia

adquirindo lentamente importancia em França. Era elle constituido pelos

catholicos romanos moderados, que estavam fartos de carnificinas, e que

attribuiam todos os males do Estado ao poder de que os estrangeiros

dispunham no reino. Exigiam a expulsão dos florentinos e dos lorrenezes,

isto é, da rainha-mãe e dos Guises; e insistiam na reintegração

das antigas liberdades da nação. Estes «Politicos», como também

eram chamados, ainda mais se aferraram ás suas idéas quando tiveram

conhecimento do traiçoeiro ataque a La Rochelle, e do programma politico

que os huguenotes expozeram em Milhau, e, revestidos de paciencia,

esperaram a occasião de intervir.

Posto que o cerco de La Rochelle e de outras cidades protestantes—a

quarta guerra religiosa, como lhe chamaram—fosse seguido de um tratado

de paz, nunca, de um modo ou do outro, se deixou de combater, e a

rejeição do pedido feito pelos huguenotes não permittia duvidas quanto á

imminencia de outra guerra ainda. Entretanto Carlos IX morria, em Maio

de 1574, de uma terrivel enfermidade em virtude da qual o sangue lhe

sahia por todos os poros da pelle, e o povo attribuiu-a a um castigo da

carnificina de S. Bartholomeu. Succedeu-lhe Henrique de Anjou, o terceiro

e mais vil dos filhos de Catharina, e que era o favorito d’esta. Henrique

era ao mesmo tempo um papista cheio de superstições e um libertino cheio

de impudencia.

Henrique III tinha-se, durante a vida de seu irmão, associado aos Guises,

e adherira ao partido papista; pouco depois de subir ao throno, porém,

como o amedrontasse a possibilidade de uma alliança entre os «politicos»

e os huguenotes, concedeu, por meio de um edicto, uma parte do que os

protestantes pediam. Concedeu, exceptuando em Paris, uma illimitada

liberdade religiosa, egualdade de privilegios sociaes, o direito de ser

julgado por um tribunal composto, em partes eguaes, de romanistas e de

protestantes, e, além d’isso, ficavam oito fortalezas, como penhor, nas

mãos dos protestantes.

=A Santa Liga.=—Este procedimento do rei deu logar á fundação da Santa

Liga, sociedade formada pelos Guises e pelos jesuitas, cujo fim era

promover uma alliança dos catholicos francezes com Filipe II de Hespanha

e com o papa. Visava, em primeiro logar, a governar a França no interesse

da fé catholica romana, não transigir em coisa alguma com os huguenotes,

e impôr-se ao rei; para mais tarde ficaria o aniquilar os Bourbons, ou,

pelo menos, o impedir que a corôa passasse para Henrique de Navarra.

Originaram-se de aqui as chamadas Guerras da Liga, em cujos variados

incidentes não necessitamos de entrar. Tanto a quinta, como a sexta,

como a setima guerra civil concluiu por um tratado de paz favoravel aos

protestantes.

Em 1585 a Liga foi remodelada, consolidando-se o poderio dos Guises. A

oitava guerra civil terminou em julho, mediante o tratado de Nemours,

que não era tão favoravel para os protestantes. A nona guerra civil teve

logar pouco depois. Foi denominada a Guerra dos Tres Henriques—Henrique

III, Henrique de Guise, e Henrique de Navarra, o qual, apezar da sua

pouca edade, havia ganho a confiança dos huguenotes. Essa guerra teve

o seu termo na batalha de Coultras, em que os huguenotes ficaram

victoriosos.

As luctas foram interrompidas pelas questões que surgiram entre o

rei e o duque de Guise, presidente da Liga. O rei percebeu que a sua

auctoridade diminuia rapidamente. Os Estados Geraes, que se reuniram

em Blois, em Outubro de 1588, mostraram-lhe que a França estava sob o

dominio do duque; e a insurreição que teve logar algumas semanas antes

foi uma revelação do quanto a Liga se havia ramificado. Não querendo

sujeitar-se por mais tempo áquella dependencia, resolveu libertar-se da

Liga mediante a morte dos seus dirigentes. Henrique, duque de Guise, e

Carlos, o cardeal, foram, portanto, assassinados em Dezembro de 1588,

juntamente com muitos dos seus amigos; mas a Liga continuou a existir.

É que ella havia estabelecido em toda a França associações similhantes

aos clubs jacobinos do periodo revolucionario; e, quando os Guises foram

assassinados, a sociedade mãe, ou, por outra, a Liga dos Dezeseis, como

era conhecida, apoderou-se do governo, collocou adherentes seus em todos

os logares de confiança, e submetteu os actos do rei á apreciação do

parlamento. Henrique III, accomettido de um desprezivel medo, fugiu

para o meio dos huguenotes, entregando-se ao seu grande rival, o rei de

Navarra. Jacques Clemente, frade dominicano, e um dos fanaticos da Liga,

foi, porém, em sua perseguição, e apunhalou-o. Algumas horas depois

Henrique III expirava, e o general huguenote ficava sendo o legitimo

herdeiro da corôa de França.

A Reforma · 第 11 / 27 段