voltou para França muita gente que se tinha refugiado na Inglaterra, na
Allemanha, nos Paizes Baixos, e até mesmo na Italia. Vieram tambem alguns
pastores de Genebra, não faltando, d’esse modo, homens bem instruidos
que dirigissem as congregações protestantes. Era impossivel, porém,
mudar todas as coisas por meio de um compromisso politico. Os Guises
ameaçavam vingar-se. O idoso condestavel de Montmorency, que se tinha na
conta de ser o campeão da antiga fé, resolvera oppôr-se áquella corrente
conciliatoria, e fanaticas turbas se levantaram contra as assembléas
protestantes. Nas localidades onde os huguenotes estavam em maioria,
tornou-se difficil evitar que elles decisiva e energicamente defendessem
os seus direitos. N’algumas cidades o povo correu em massa ás egrejas,
derrubou as imagens e os quadros, e queimou as reliquias. Os que entre os
huguenotes occupavam os primeiros logares fizeram todo o possivel por
conter os seus correligionarios. Calvino escreveu de Genebra, protestando
energicamente contra toda e qualquer illegalidade. «Deus nunca disse a
pessoa alguma que destruisse os idolos, exceptuando aquelles que cada
um tenha em sua casa, ou os que em publico se encontrarem revestidos de
auctoridade.... A obediencia é melhor do que o sacrificio, e devemos ver
bem o que nos é licito fazer, e manter-nos dentro de certos limites».
=A Conferencia de Poissy.=—A data designada para a Conferencia
approximava-se com rapidez, e por toda a parte eram convidados todos os
francezes que tivessem qualquer coisa a dizer em materia de religião a
apresentarem-se na proxima assembléa de Poissy, na certeza de que não
correriam perigo algum e seriam escutados com a maxima attenção. Os
huguenotes tinham grande empenho em que Beza comparecesse, e pediram-lhe
encarecidamente que fosse lá represental-os. Elle ao principio não queria
ir, pois que estava convencido de que de similhante rainha se não tiraria
resultado algum. Por fim acquiesceu, e os huguenotes ficaram descançados
por saberem que os seus interesses estavam entregues em tão boas mãos.
Francez, nascido, em 1519, em Vezelay, e de nobre ascendencia, renunciara
a um brilhante futuro ao abraçar a causa da Reforma. Era um homem
de magestosa presença, muito illustrado, e de um trato captivante.
Abaixo de Calvino, era elle a pessoa por quem as egrejas reformadas se
deixavam guiar com maior confiança, e em quem viam o seu mais legitimo
representante. Foi recebido pelo rei de Navarra, e por seu irmão, Luiz
de Condé, e apresentado por elles á rainha mãe e ao cardeal de Lorraine.
O seu porte, a sua erudição, e os seus modos de grande personagem,
produziram sensação na côrte.
Quando teve logar a discussão publica, tornou-se tristemente manifesta a
ignorancia dos bispos francezes, e o cardeal de Lorraine e outros mais
trataram logo de pôr termo á conferencia, ou, no caso de não conseguirem
esse proposito, de a tornarem completamente esteril. O resultado da
discussão foi ambas as partes nomearem delegados para conferirem sobre
determinados pontos, e d’essas conferencias proveiu um Edicto de
Tolerancia, publicado em Janeiro de 1562.
Os protestantes tinham de renunciar ás suas egrejas e ás suas reuniões
secretas, mas era-lhes permittido fazer os seus cultos ás claras, e a
qualquer hora do dia, fora das povoações; e todos os seus ministros eram
obrigados a declarar, sob juramento, que não ensinariam coisa alguma que
não estivesse de accordo com as Escripturas e com o Credo de Nicéa. A
tolerancia era, como se vê, muito limitada; mas desapparecia o fundamento
legal para qualquer perseguição, e Calvino e Beza foram de parecer que um
tal compromisso, não obstante as pouco favoraveis condições em que era
feito, devia ser acceite. «Se a liberdade que o Edicto nos promette fôr
duradoura», escreveu Calvino, «o papismo cae por si mesmo».
Os catholicos romanos não estavam de fórma alguma dispostos a chegar a
um accordo com os protestantes. Os funccionarios civis, nas cidades e
nas provincias, pertenciam á religião do estado, e os parlamentos, ou
tribunaes de justiça permanentes, abominavam o protestantismo. Sabia-se,
além d’isso, que o Edicto da Tolerancia era apenas um ardil de Catharina
para ganhar tempo. Por outro lado, os Guises eram formalmente oppostos
a qualquer convenio, e todas estas circumstancias incitaram os dois
partidos a prepararem-se para uma guerra civil.
=O massacre de Vassy: outros massacres.=—O signal foi dado pelo duque de
Guise, o qual, com o maior atrevimento, violou o Edicto da Tolerancia.
No dia 1.º de Março de 1562, a um domingo de manhã, entrou, á frente de
um grupo de cavalleiros armados, na cidade de Vassy, onde uma pequena e
indefeza congregação de protestantes estava prestando culto a Deus n’um
celleiro. Quasi no fim levantou-se um tumulto, e as pessoas presentes,
que não tinham armas para se defender, foram, na sua grande maioria,
assassinadas. Foi este o inicio d’essas medonhas guerras civis que tanta
devastação produziram em França até Henrique IV subir ao throno.
O exemplo da carnificina que teve logar em Vassy foi seguido em muitos
outros pontos em que os catholicos romanos estavam em maioria. Em
Paris, em Sens, em Rouen, em toda a parte, emfim, os logares de culto
protestantes foram atacados e os que n’elles se haviam reunido tiveram
morte violenta. Em Toulouse os protestantes, temendo uma carnificina,
fecharam-se no Capitolio; foram atacados pelos catholicos romanos, e, ao
cabo de uma certa resistencia, entregaram-se sob a promessa de que lhes
seria permittido sair da cidade sem serem molestados. Uma vez cá fóra,
foram todos massacrados—homens, mulheres e creanças, tendo perecido, ao
todo, para cima de 3000 pessoas. Este morticinio de protestantes, em
que houve violação de um juramento, foi commemorado pelos catholicos
romanos de Toulouse em 1662 e 1762, e tel-o-hia sido egualmente em 1862
se o governo de Napoleão III se não houvesse opposto á celebração do
centenario.
Estes sanguinolentos massacres provocaram represalias. Os huguenotes
precipitaram-se para as egrejas papistas, e destruiram as imagens, os
altares e as reliquias. Destruição de imagens e derramamento de sangue
era a ordem do dia na maior parte das provincias de França.
=A guerra civil. Os iconoclastas.=—No meio de tudo isto os dois partidos
formaram-se gradualmente em dois exercitos inimigos, ficando um, o
papista, sob o commando de Francisco, duque de Guise, e o outro, o
protestante, sob o commando de Luiz, duque de Condé, e do almirante
Coligny. A França poude então presenciar todos os horrores de uma guerra
civil, em que o fanatismo religioso accrescentou, ás barbaridades communs
a todas as guerras, as mais atrozes crueldades.
O embaixador de Veneza, escrevendo aos chefes do seu Estado, exprimiu
a opinião de que esta primeira guerra religiosa obstou a que a França
se tornasse protestante. As crueldades dos papistas tinham desgostado
um grande numero de cidadãos francezes, que, sem serem impulsionados
por fortes sentimentos religiosos, ter-se-hiam de muito bom grado
alliado áquelles que, pela sua moderação, se mostravam competentes para
inaugurar, e manter na pratica, um systema de tolerancia. Os chefes
huguenotes faziam o maximo empenho em poder provar que os seus adherentes
sabiam fugir aos excessos, e Calvino e Beza recommendaram que não se
interviesse no culto dos catholicos romanos, excepto quando o caso fosse
tratado judicialmente, e ainda assim com muita serenidade. Não, foi,
porém, possivel evitar que os protestantes despedaçassem as imagens e
dessem cabo de tudo quanto encontraram nas egrejas.
Em Orleans foram umas poucas de egrejas atacadas ao mesmo tempo. Condé,
acompanhado de Coligny e de outros vultos importantes, dirigiu-se a
toda a pressa para a egreja de Santa Cruz, onde o tumulto era maior.
Ao chegarem á egreja, Condé reparou n’um soldado huguenote, que havia
subido a um ponto elevado da frontaria e se preparava para atirar cá para
baixo com a imagem de um santo. O duque pegou n’um arcabuz, apontou-o ao
dito soldado, e ordenou-lhe que descesse quanto antes. Elle não parou
com o que estava fazendo, proferindo, porém, estas palavras: «Deixe-me
primeiro fazer este idolo em migalhas, e depois mate-me, se isso fôr da
sua vontade». Tratando-se de gente assim, que preferia morrer a deixar
de destruir as imagens, era impossivel esperar que se podesse pôr um
dique á iconoclastia, e onde quer que as tropas protestantes entrassem
as egrejas ficavam n’uma completa desordem. Este procedimento foi tomado
em toda a França como um indicio de que os protestantes, se chegassem
a ter o poder nas mãos, seriam tão intolerantes como os catholicos, e,
por consequencia, a sympathia pela sua causa, que até ali fôra sempre
crescendo, começou a declinar.
O desenvolvimento da guerra foi, no seu conjuncto, desfavoravel aos
huguenotes. Francisco, duque de Guise, era um admiravel general, e os
papistas estavam bem providos de dinheiro e recebiam auxilio de fóra;
ao passo que os huguenotes estavam quasi exclusivamente dependentes dos
seus proprios recursos, e achavam-se muito mal fornecidos de fundos para
o proseguimento da lucta. Os huguenotes perderam a batalha de Dreux,
em Dezembro de 1562, graças, principalmente, á admiravel disciplina dos
auxiliares suissos de Guise; mas, por seu turno, os papistas perderam o
duque de Guise, que foi assassinado em Fevereiro de 1563.
Com a morte do duque, Catharina adquiriu maior poder, e tornou-se mais
facil a paz. Os huguenotes não tinham conseguido vencer os papistas;
e, do mesmo modo, os papistas não tinham conseguido exterminar os
protestantes. Não se haviam reconciliado uns com os outros, mas
achavam-se cançados; e convieram n’uma suspensão de hostilidades. O
Edicto da Paz garantia aos protestantes os privilegios que lhes haviam
sido concedidos um anno atraz, e accrescentava outros, sendo o mais
importante este: «Em cada baliado será escolhida uma cidade em cujos
arrabaldes os protestantes poderão realisar os seus cultos, e em todas
as cidades, excluindo Paris, onde em 7 de Março do anno corrente era
praticada a religião protestante, será a pratica d’esta permittida em
dois recintos _intra-muros_, que serão opportunamente designados pelo
rei». O Edicto de Amboise, saido em 12 de Março de 1563, só resolveu as
coisas por metade, o que irritou ambas as facções. Os catholicos romanos
não gostavam d’elle por tolerar a religião reformada, e os protestantes
por não lhes conceder tudo quanto elles desejavam. Foi obra de Catharina
e de Condé, cada um dos quaes confiava em que o futuro se encarregaria de
tornar inoffensivas para o seu partido as concessões que fazia.
As treguas duraram cerca de cinco annos, ao cabo dos quaes arrebentou a
segunda guerra religiosa. A lucta durou mais de um anno. A unica acção
decisiva foi a batalha de St. Denis, em que Montmorency foi morto.
Seguiu-se então o armisticio de Longjumeaux, cujas condições eram
identicas ás do Edicto de 1562.
Este armisticio durou apenas alguns mezes, findos os quaes começou a
terceira guerra religiosa. Os protestantes receiavam-se do duque de Alba,
o feroz governador dos Paizes Baixos, que se estava preparando para
ajudar a côrte franceza a exterminar todos aquelles que não quizessem
submetter-se á Egreja Catholica Romana, e resolveram tomar a offensiva.
Condé e Coligny souberam que o duque tinha aconselhado a rainha a tirar
a vida aos chefes huguenotes, cair depois sobre o povo, e, finalmente,
supprimir a obnoxia fé.
Os cabeças fugiram para La Rochelle, e a guerra começou. Combateu-se
durante quasi todo o anno de 1569, com alternativas de bom e mau
exito, tanto diplomatico como militar. Por fim, teve logar a batalha
de Jarnac, onde os huguenotes foram derrotados, e onde Condé e varios
outros encontraram a morte. A sorte parecia ter-se tornado crudelissima
para os huguenotes. Os chefes hereditarios do partido eram Henrique de
Navarra, moço de quinze annos, e seu primo Henrique de Conde, que não
tinha muito mais edade do que elle, de modo que Gaspar de Coligny é que
teve de arcar com toda a responsabilidade. Tratou de reunir as forças
dispersas, e, não obstante alguns revezes, poude obter um tratado de paz
que offerecia vantagens como nunca os huguenotes tinham logrado alcançar.
Foi auctorizado o culto publico n’um grande numero de cidades, e quatro
d’ellas—La Rochelle, Montauban, Cognac e La Charité—foram dadas aos
protestantes como logares de refugio.
=Coligny e Carlos IX.=—O almirante Coligny ficou sendo, em virtude d’este
tratado de paz, o chefe em quem os huguenotes mais confiavam. Deixou-se
ficar em La Rochelle, no meio dos seus correligionarios, e encarregou-se
da tutella dos dois jovens principes que eram as esperanças dos
protestantes, Henrique de Navarra e Henrique de Condé. O fim principal
que elle tinha em vista era de tornar permanentes as vantagens que os
reformados tinham conquistado mediante as terriveis guerras religiosas.
Convidaram-n’o a ir á côrte, e, a despeito de todos os avisos em
contrario, foi. «Prefiro», disse elle, «morrer mil vezes do que, por uma
indevida solicitude pela minha vida, dar occasião a que se avente uma
suspeita em todo o reino».
Como quer que fosse, o nescio, fraco e dissoluto Carlos IX sympathizou
com o velho fidalgo. O pobre rei, que tinha então uns vinte annos, não
havia conhecido nunca um homem como aquelle. A enfermidade não o havia
deixado desde a infancia, e estivera rodeiado por pessoas que tinham
interesse em o educar na imbecilidade e na devassidão. Assim que se poz
em contacto com Coligny, que era um homem que inspirava um instinctivo
respeito, que nada dizia ou fazia que não estivesse de accordo com as
suas convicções, que se havia tornado a mais celebre individualidade da
França, que fora o organisador do partido protestante, que era quasi
adorado pelos seus amigos, e que, apezar da sua edade avançada, estava
ainda em todo o vigor da vida, não poude deixar de confiar n’elle como
nunca tinha confiado em pessoa alguma.
Catharina, Henrique de Anjou, seu filho, e os Guises conheceram que o rei
estava sob uma nova influencia, a que precisavam de subtrahil-o a todo o
transe. Tinham medo de que o rei, tendo a seu lado um homem pundonoroso,
lhes escapasse das mãos; e esta extraordinaria affeição que o debil
Carlos sentiu por Coligny foi, segundo affirmam alguns historiadoros, a
causa do massacre de S. Bartholomeu.
Catharina e Henrique de Guise tramaram o assassinio de Coligny. O
attentado, porém, falhou. Catharina foi então ter com seu filho, e
referiu-lhe que Coligny e todos os demais huguenotes estavam convencidos
de que elle, Carlos, entrara também na conspiração que tinha por fim
a sua morte, e que, portanto nunca havia de ter paz emquanto os
protestantes não fossem exterminados. Em seguida propoz uma chacina dos
vultos preponderantes, em que o rei, fortemente instado, consentiu.
=A matança de S. Bartholomeu.=—Esta terrivel carnificina de protestantes,
que teve logar na vespera de S. Bartholomeu (24 de Agosto de 1572) foi
obra de Catharina de Medicis, de Henrique de Anjou e dos Guises. A
matança foi feita em Paris por 20:000 milicianos da cidade, coadjuvados
por alguns soldados e pelos mercenarios suissos, que eram pagos pelo
duque de Guise. As forças a que se commetteu aquella tarefa eram
commandadas pelos irmãos Guise.
Assassinaram em primeiro logar Coligny e alguns dos principaes cabeças,
e depois o massacre tornou-se geral. As casas dos protestantes tinham
sido previamente marcadas com cruzes brancas, e os assassinos, para
reconhecimento mutuo, traziam faxas brancas, além de outros signaes. Só
em Paris foram mortos, pelo menos, 2000 homens, metade dos quaes eram
pessoas de distincção. O historiador protestante Crespin diz que foram
mortos em Paris 10:000; e Brantôme, creatura sceptica e dissoluta, fixa o
numero em 4000. Organizaram-se carnificinas pelas provincias, e o numero
das victimas tem sido calculado entre 30:000 e 100:000. Sully, primeiro
ministro de Henrique IV, que estava provavelmente bem inteirado, affirma
que cairam sem vida 70:000 pessoas.
Ultimamente os escriptores catholicos romanos não se teem mostrado muito
orgulhosos de aquelle commettimento, mas quando a matança teve logar
muitos d’elles exultaram. Sabe-se perfeitamente que, se o acto não foi
instigado de Roma, o papa e a curia estavam, pelo menos, scientes de
que elle ia realisar-se. Houve illuminações em Roma para festejar o
acontecimento, os canhões do castello de S. Angelo salvaram, organizou-se
uma procissão que foi até á egreja de S. Marcos, e cunhou-se uma medalha
para commemorar o _Hugonotorum Strages_. Alguns dos principes catholicos
romanos enviaram mensagens de congratulação, e diz-se que o pobre e
corrompido Filippe II de Hespanha sorriu, pela primeira e ultima vez na
sua vida, quando a noticia lhe constou.
O massacre diminuiu cruelmente o poder dos huguenotes, e privou-os de
quasi todos os seus caudilhos; mas elles continuavam a existir, e, em
vez de se intimidarem, de se darem por vencidos, perante aquelle acto
sanguinario, resolveram em seus corações vingar-se d’elle. Ainda restavam
algumas cidades em poder dos protestantes; La Rochelle, Sancerre, Nismes,
Montauban, e ainda outras, fecharam as suas portas, e negaram-se a dar
entrada aos governadores que de Paris lhes enviaram.
La Rochelle foi atacada pelas tropas reaes commandadas por Henrique de
Anjou, e os habitantes soffreram todas as calamidades de um cerco,
obrigando, por fim, os sitiantes a retirar-se. Uma egualmente bem
succedida resistencia da parte de outras cidades forçou a côrte a entrar
em negociações com os seus odiados subditos protestantes, e ficou
restabelecida a paz.
D’esta vez os huguenotes convenceram-se de que deviam estar sempre
preparados para a guerra. Os horrores da vespera de S. Bartholomeu
haviam-lhes mostrado o quão implacaveis eram os seus inimigos, e a
traição por elles commetida quando foi do cerco e capitulação de Sancerre
deu-lhes uma prova da sua deslealdade. Os protestantes estiveram sitiados
oito mezes, e durante esse periodo morreram de fome quinhentos homens,
pelo menos, e todas as creanças com menos de doze annos. «Porque chora»,
exclamou um rapazito de dez annos, «ao ver-me morrer de fome? Eu não lhe
peço pão, mãe; sei que não tem nenhum para me dar. Visto Deus querer que
eu morra d’esta forma, devemos acceitar isso alegremente. Lazaro, aquelle
homem santo, não tinha tambem fome? Não o li eu na Biblia?» E depois de a
cidade se haver rendido teve logar, não obstante a promessa que lhe tinha
sido feita sob juramento, uma horrivel scena de homicidio e pilhagem.
Os huguenotes, que não tinham quem os dirigisse, resolveram organizar-se,
para que podessem estar sempre promptos, e tão diligentemente pozeram
os seus planos em execução que n’um curto prazo se encontraram aptos
para pôrem 20.000 homens em campo, á primeira voz. Foi em Montauban que
tudo organizaram, e foi de lá que dirigiram uma representação ao rei,
em que Coligny havia insistido pouco antes de principiarem as guerras
religiosas. A côrte ficou sabendo que o espirito huguenote não se havia
extinguido. Desde a matança de S. Bartholomeu um outro partido ia
adquirindo lentamente importancia em França. Era elle constituido pelos
catholicos romanos moderados, que estavam fartos de carnificinas, e que
attribuiam todos os males do Estado ao poder de que os estrangeiros
dispunham no reino. Exigiam a expulsão dos florentinos e dos lorrenezes,
isto é, da rainha-mãe e dos Guises; e insistiam na reintegração
das antigas liberdades da nação. Estes «Politicos», como também
eram chamados, ainda mais se aferraram ás suas idéas quando tiveram
conhecimento do traiçoeiro ataque a La Rochelle, e do programma politico
que os huguenotes expozeram em Milhau, e, revestidos de paciencia,
esperaram a occasião de intervir.
Posto que o cerco de La Rochelle e de outras cidades protestantes—a
quarta guerra religiosa, como lhe chamaram—fosse seguido de um tratado
de paz, nunca, de um modo ou do outro, se deixou de combater, e a
rejeição do pedido feito pelos huguenotes não permittia duvidas quanto á
imminencia de outra guerra ainda. Entretanto Carlos IX morria, em Maio
de 1574, de uma terrivel enfermidade em virtude da qual o sangue lhe
sahia por todos os poros da pelle, e o povo attribuiu-a a um castigo da
carnificina de S. Bartholomeu. Succedeu-lhe Henrique de Anjou, o terceiro
e mais vil dos filhos de Catharina, e que era o favorito d’esta. Henrique
era ao mesmo tempo um papista cheio de superstições e um libertino cheio
de impudencia.
Henrique III tinha-se, durante a vida de seu irmão, associado aos Guises,
e adherira ao partido papista; pouco depois de subir ao throno, porém,
como o amedrontasse a possibilidade de uma alliança entre os «politicos»
e os huguenotes, concedeu, por meio de um edicto, uma parte do que os
protestantes pediam. Concedeu, exceptuando em Paris, uma illimitada
liberdade religiosa, egualdade de privilegios sociaes, o direito de ser
julgado por um tribunal composto, em partes eguaes, de romanistas e de
protestantes, e, além d’isso, ficavam oito fortalezas, como penhor, nas
mãos dos protestantes.
=A Santa Liga.=—Este procedimento do rei deu logar á fundação da Santa
Liga, sociedade formada pelos Guises e pelos jesuitas, cujo fim era
promover uma alliança dos catholicos francezes com Filipe II de Hespanha
e com o papa. Visava, em primeiro logar, a governar a França no interesse
da fé catholica romana, não transigir em coisa alguma com os huguenotes,
e impôr-se ao rei; para mais tarde ficaria o aniquilar os Bourbons, ou,
pelo menos, o impedir que a corôa passasse para Henrique de Navarra.
Originaram-se de aqui as chamadas Guerras da Liga, em cujos variados
incidentes não necessitamos de entrar. Tanto a quinta, como a sexta,
como a setima guerra civil concluiu por um tratado de paz favoravel aos
protestantes.
Em 1585 a Liga foi remodelada, consolidando-se o poderio dos Guises. A
oitava guerra civil terminou em julho, mediante o tratado de Nemours,
que não era tão favoravel para os protestantes. A nona guerra civil teve
logar pouco depois. Foi denominada a Guerra dos Tres Henriques—Henrique
III, Henrique de Guise, e Henrique de Navarra, o qual, apezar da sua
pouca edade, havia ganho a confiança dos huguenotes. Essa guerra teve
o seu termo na batalha de Coultras, em que os huguenotes ficaram
victoriosos.
As luctas foram interrompidas pelas questões que surgiram entre o
rei e o duque de Guise, presidente da Liga. O rei percebeu que a sua
auctoridade diminuia rapidamente. Os Estados Geraes, que se reuniram
em Blois, em Outubro de 1588, mostraram-lhe que a França estava sob o
dominio do duque; e a insurreição que teve logar algumas semanas antes
foi uma revelação do quanto a Liga se havia ramificado. Não querendo
sujeitar-se por mais tempo áquella dependencia, resolveu libertar-se da
Liga mediante a morte dos seus dirigentes. Henrique, duque de Guise, e
Carlos, o cardeal, foram, portanto, assassinados em Dezembro de 1588,
juntamente com muitos dos seus amigos; mas a Liga continuou a existir.
É que ella havia estabelecido em toda a França associações similhantes
aos clubs jacobinos do periodo revolucionario; e, quando os Guises foram
assassinados, a sociedade mãe, ou, por outra, a Liga dos Dezeseis, como
era conhecida, apoderou-se do governo, collocou adherentes seus em todos
os logares de confiança, e submetteu os actos do rei á apreciação do
parlamento. Henrique III, accomettido de um desprezivel medo, fugiu
para o meio dos huguenotes, entregando-se ao seu grande rival, o rei de
Navarra. Jacques Clemente, frade dominicano, e um dos fanaticos da Liga,
foi, porém, em sua perseguição, e apunhalou-o. Algumas horas depois
Henrique III expirava, e o general huguenote ficava sendo o legitimo
herdeiro da corôa de França.