perseguição foi o massacre dos valdenses da Durance. Uma parte da
Provença que confina com a Durance chegara, dois seculos atraz, a estar
quasi despovoada, e os proprietarios das terras dirigiram um convite aos
camponezes dos Alpes para irem estabelecer-se nos seus territorios. Os
novos colonisadores eram valdenses, e a sua industria e indole economica
em breve encheram de ferteis herdades aquellas regiões desoladas.
Garantiu-se-lhes que a sua religião seria protegida, pois que os seus
senhorios, catholicos romanos, estavam satisfeitissimos com os serviços
que elles prestavam. Quando na Allemanha e na Suissa começou a Reforma,
estes aldeãos mandaram por alguns dos seus saudar os Reformadores, e em
1535 associaram-se por tal fórma ao movimento que forneceram o dinheiro
necessario para publicar a traducção das Escripturas Sagradas em francez,
feita por Roberto Olivetan, e corrigida por Calvino. Este procedimento
despertou a hostilidade de alguns ecclesiasticos francezes.
O bispo de Aix excitou o parlamento local; fizeram-se prisões, e alguns
dos aldeãos foram submettidos á tortura e soffreram morte violenta. Em
1540 o parlamento intimou quinze aldeãos de Mérindol a comparecer perante
elle como suspeitos de heresia. Os aldeãos, tendo sabido que a sua morte
estava resolvida, não appareceram; pelo que o parlamento fez sair o
infame _Arrêt de Mérindol_, que, em resumo, ordenava a destruição de toda
a aldeia.
A publicação d’este decreto provocou alguns protestos; o rei teve
conhecimento d’elle, mandou proceder a investigações, e em resultado
d’ellas deu ordem para que o referido decreto ficasse sem effeito. Foi,
porém, induzido a revogar essa ordem, organizou-se clandestinamente
uma expedição, e durante sete mezes de carnificina, com todos os seus
acompanhamentos de traição e de infame brutalidade, foram totalmente
destruidas vinte e duas cidades e aldeias, pereceram 4:000 homens e
mulheres, e perto de 700 foram enviados para as galés.
Assim desappareceu uma geração, e a Reforma em França estava ainda
luctando pela sua existencia no meio de perseguições mais terriveis do
que aquellas de que os protestantes foram victimas n’outro qualquer paiz.
=Henrique II e os Guises.=—Em 1547 Francisco I morreu, succedendo-lhe
Henrique II, seu filho, que seguiu a politica de seu pae, a qual
obedecia ao intuito de enfraquecer o imperio da Allemanha e consolidar,
em França, o poder real. Isto obrigava a occasionaes allianças com os
principes protestantes allemães, e dava logar, em França, a uma continua
perseguição aos protestantes. Todos os favoritos que tinha na sua côrte
eram inimigos da fé protestante. O rei desposara a celebre e infame
Catharina de Medicis, sobrinha do papa Clemente VII; e, além da rainha,
o protestantismo tinha por inimigos poderosos e sem escrupulos: Diana de
Poitiers, o Condestavel de Montmorency, primeiro ministro da corôa, que
gozava de grande reputação como perito na arte da guerra e na gerencia
dos negocios publicos, e os Guizes, notavel familia de procedencia
estrangeira, que alcançara grande poder em França. Francisco, duque de
Guize, tinha já conquistado grande renome como general; e seu irmão, o
cardeal de Lorraine, que foi durante vinte e tres annos o conselheiro
de Henrique II, era um dos homens mais sagazes da Europa. A irmã casou
com Jayme V da Escocia, e tiveram por sobrinha Maria Stuart, rainha da
Escocia, educada em França debaixo do cuidado d’elles, e casada por elles
com o Delphim de França.
Francisco fizera da perseguição aos protestantes um negocio tão urgente
que os tribunaes de justiça tiveram de interromper o julgamento de
varias causas. Henrique creou uma nova divisão judicial, que se occupava
exclusivamente dos casos de heresia, e as sentenças proferidas por estes
tribunaes especiaes eram tão severas que o povo chamava-lhes _chambres
ardentes_. Os martyres exhibiram um extraordinario heroismo, e a
perseguição não estorvou o derramamento do Evangelho.
Conta-se que Henrique manifestou em certa occasião o desejo de ver com
os seus proprios olhos, e interrogar, um d’esses obstinados herejes.
Foi levado á sua presença um pobre alfayate, preso sob a accusação de
ter trabalhado n’um dia santo, e esse homem, com grande espanto da
côrte, respondeu ousada e respeitosamente a todas as perguntas sobre
theologia que lhe foram feitas. Diana de Poitiers emprehendeu reduzil-o
ao silencio mediante a zombaria; mas o alfayate, que lhe conhecia o
caracter e estava ao facto da posição occupada por ella, retorquiu-lhe
solemnemente: «Senhora, dê-se por satisfeita em ter contaminado a França,
e não queira tocar com o seu veneno e com a sua immundicie uma coisa tão
pura e tão sagrada como é a religião de nosso Senhor Jesus Christo.» O
rei, encolerisado porque á amante fossem dirigidas estas palavras, deu
ordem para que immediatamente o julgassem e executassem, e quiz assistir
ao supplicio. Quando Henrique assomou a uma janella que dava para a praça
onde o martyr ia ser queimado, este viu-o, e não despregou mais d’elle
os olhos. Mesmo já depois de rodeiado pelas labaredas não deixou de
perseguir o rei com aquelle olhar, e Henrique referiu depois que durante
muito tempo aquelle espectaculo não se lhe varria da memoria durante o
dia e lhe perturbava o somno durante a noite.
Tornou-se manifesto para todo o reino, incluindo a côrte, que estas
repetidas execuções não estavam contribuindo para a repressão da Reforma.
Outros martyres se apresentavam jubilosamente para substituir aquelles
que os tinham antecedido; viuvas, mancebos, estudantes, raparigas
mimosas, fidalgos da mais elevada estirpe, todos preferiam o cruel
martyrio a negarem Christo. A côrte não pensava senão em medidas mais
severas de repressão, e em 1551 foi promulgado um novo edicto, o de
Chateaubriand, o qual, como os edictos de Decio, nos primeiros seculos,
mandava destruir toda a litteratura christã, na idéa de que por essa
fórma se faria desapparecer o christianismo.
Genebra estava situada na fronteira da França. Toda ella se encheu de
refugiados francezes. Um certo numero de rapazes, cheios de coragem
e de fé, instruidos por Calvino e seus companheiros nas verdades do
Evangelho, havia-se offerecido para distribuir livros e folhetos por
todos os pontos da França. O Edicto de Chateaubriand visava estes
colportores, assim como os livros e tratados que elles vendiam. Prohibia
terminantemente a entrada de quaesquer livros provenientes de Genebra
ou de outras localidades notoriamente rebeldes á Santa Sé, a existencia
nas livrarias de obras condemnadas, e toda a impressão clandestina.
Estabelecia uma inspecção semestral a todas as typographias, mandava
examinar todos os volumes que chegassem do estrangeiro, e submettia,
de quatro em quatro mezes, a grande feira de Lyão a uma fiscalisação
especial, pois que mediante ella é que se haviam espalhado pelo reino
muitos livros suspeitos. Foi prohibida a venda ambulante de livros,
fossem elles de que natureza fossem. Todo aquelle em cujo poder fossem
encontradas cartas de Genebra era preso e castigado. Ás pessoas
analphabetas não se consentia que discutissem pontos de fé nas tabernas,
nas officinas, nos campos, ou em reuniões clandestinas. Por determinação
da côrte, ficava, portanto, o povo impedido de se instruir, se é
que edictos e officiaes de justiça o poderiam impedir. A sementeira
proseguia. Dispostos para a vida ou para a morte, partiram de Genebra e
de Strasburgo, para diversos pontos da França, muitos mancebos, levando
comsigo Biblias, assim como livros e folhetos evangelicos. Beza mandou
dizer n’uma carta a Bullinger que foram em numero espantoso os homens que
se offereceram para arrostar com todos os perigos para que a Egreja de
Deus avançasse.
=Organisação da Egreja reformada.=—No meio d’estas terriveis
perseguições, os protestantes de França começaram a organizar-se em
Egreja. Havia mais de trinta annos que elles, ou estudavam isoladamente
a Biblia, ou formavam pequenos nucleos de crentes. A perseguição
augmentou-lhes a coragem, e resolveram por fim constituir uma communidade.
O nascimento de um filho de La Ferriêre, fidalgo francez residente
em Paris, em cuja casa um pequeno grupo de protestantes costumava
reunir-se, é que motivou essa decisão. O pae do recemnascido declarou
aos seus irmãos na fé que não podia ausentar-se de França, afim de obter
que lhe fosse administrado um sacramento puro, e que de fórma alguma
consentiria em que o baptismo se fizesse segundo o rito da Egreja romana.
Implorou-lhes, pois, que formassem uma Egreja, e escolhessem um pastor,
pondo assim termo a todas as difficuldades.
Acharam bom o alvitre, e, depois de jejuarem e fazerem oração, escolheram
para pastor a João Le Maçon, que tinha por sobrenome La Riviére, contava
vinte e dois annos, e havia abandonado familia, riqueza e perspectivas
de um brilhante futuro pela causa de Christo. A pequena assembléa passou
em seguida a escolher os presbyteros e os diaconos, estabeleceu-se uma
Egreja segundo o modelo de Genebra, e foi adoptada uma breve constituição.
Faltava só em França, ao que parecia, quem se collocasse á testa do
movimento. Succedendo-se rapidamente umas ás outras, as communidades
constituiram-se em congregações, com os seus presbyteros e diaconos. Tres
mezes depois da eleição de La Riviére, foi de Paris enviada a Genebra uma
carta em que se pedia outro ministro. Passado um mez, Angers tinha tres
pastores protestantes; e, posto que a perseguição continuasse sempre com
a mesma violencia, nunca deixava de haver quem se offerecesse para esses
perigosos logares, e a Reforma ia fazendo progressos.
=Os Huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon.=—Vendo que eram inuteis
todos os esforços empregados para impedir a Reforma, o cardeal propoz o
estabelecimento, em França, de uma Inquisição, modelada pela de Hespanha,
de que Fillippe se havia servido, com tanta efficacia, para escorraçar
de seus dominios a heresia. O espirito de liberdade constitucional
não estava, porém, tão morto em França que se permittisse a perda
total de todas as garantias que as leis concedem aos innocentes, o
que necessariamente viria a acontecer se se introduzisse a inquisição
hespanhola. Os varios tribunaes, e em particular os parlamentos,
protestaram contra essa proposta. O rei e os seus conselheiros insistiram
na adopção de similhante medida, mas em breve descobriram, para seu
espanto, que o unico resultado colhido foi algumas pessoas nobres, das
que de maior influencia dispunham, se declararem protestantes; e de ahi
em deante (1558) a côrte e os romanistas tiveram de se defrontar com um
forte partido huguenote.
A devassidão da côrte franceza trazia desgostosos muitos dos principaes
representantes da nobreza, e o que elles observaram tambem no
procedimento do clero levou-os a procurarem homens de vida pura que os
instruissem no christianismo. Alguns membros da mais alta aristocracia
que antipathizavam com os Guizes aggregaram-se aos calvinistas, uns por
simples politica, mas muitos outros por convicção. Estes homens faziam
uma opposição moral á licenciosidade da libidinosa vida palaciana,
que Francisco I tinha animado, e uma opposição politica ao systema
absolutista do rei e dos seus conselheiros.
Á testa d’este partido estavam os irmãos Bourbon, o almirante Coligny e
seu irmão Francisco d’Andelot.
Um filho de S. Luiz havia desposado a herdeira da casa Bourbon, e esta
familia era, no meiado do seculo dezeseis, representada por Antonio,
duque de Bourbon, que, na falta do rei e dos filhos d’este, era o
herdeiro do throno de França, e por seu irmão Luiz, duque de Condé.
Antonio Bourbon tinha casado com a piedosa e heroica filha de Margarida
de Angouleme, Joanna d’Albret, herdeira da corôa de Navarra, cujo
filho foi Henrique IV de França. Em virtude do seu casamento, recebeu o
titulo de rei de Navarra, e residia uma grande parte do tempo em Pau,
onde assistia ás prégações dos pastores protestantes. Quando voltou
para a côrte, começou tambem lá a frequentar as reuniões evangelicas, e
declarou-se, por fim, protestante. O duque de Condé fez o mesmo. Andelot,
o irmão mais novo do almirante Coligny, e a quem o povo chamava «o
cavalleiro sem pavor», introduziu prégadores protestantes no seu castello
da Bretanha, os quaes dirigiam a palavra a grandes agglomerações de
gente. Foi preso, mas, em vista da sua gerarquia e do seu poder, não se
atreveram a castigal-o.
Henrique, derrotado pelo partido opposicionista, concluiu um tratado de
paz com a Hespanha para poder dedicar toda a sua actividade á destruição
dos calvinistas. Era vastissimo, segundo se diz, o plano que elle tinha
preparado. Genebra e Strasburgo iam ser destruidas, e a heresia soffreria
um golpe mortal, tanto em França como nos Paizes Baixos. No meio, porém,
d’estes preparativos, Henrique, ferido accidentalmente n’um torneio que
teve logar em Junho de 1559, morreu.
=O primeiro synodo nacional.=—Um caso interessante é que, ao mesmo tempo
em que se estavam planeando novas medidas de repressão, os protestantes
francezes houvessem tomado uma deliberação que era mais um testemunho
da sua progressiva força. Debaixo de muito segredo, reuniram, n’uma
casa do Faubourg St. Germain, o seu primeiro _Synodo Nacional_. O que
motivou essa reunião foi o seguinte: Em 1558, quasi no fim do anno,
Antonio Chandieu, pastor de uma das egrejas de Paris, foi a Poitiers,
afim de auxiliar o serviço da Communhão que se ia celebrar n’esta cidade.
Encontrou-se lá, como era vulgar em similhantes occasiões, com pastores
que tinham vindo de varios pontos, e, conversando ácerca do estado da
Egreja, lamentaram a falta de unidade, assim como de modelos doutrinaes.
Chandieu foi encarregado de apresentar no consistorio de Paris as
opiniões dos irmãos. Resultou de ahi que a congregação parisiense enviou
cartas ás outras congregações, convidando-as a mandar delegados a uma
conferencia que ia realisar-se em Paris. Foi d’esta maneira que teve
origem o primeiro Synodo Nacional. Era uma pequena assembléa, em que
estavam representadas onze congregações apenas; mas proveu a Egreja
franceza de uma Confissão de Fé e de um Livro de Disciplina.
A Confissão, conhecida depois pelo nome de _Confessio Gallica_, foi
provavelmente redigida por Chandieu, e baseava-se n’uma resumida
Confissão que Calvino compoz, chamando para ella a attenção do rei. Foi
mais tarde revista por mais de uma vez, mas podemos ainda chamar-lhe a
Confissão da Egreja Protestante Franceza.
_O Livro da Disciplina Ecclesiastica_ foi modelado pelas _Ordenanças_
que Calvino escreveu para uso das egrejas de Genebra, mas contém
notaveis differenças, e mostra o que o livro de Calvino teria sido se
o conselho de Genebra lhe houvesse dado toda a liberdade de acção. A
constituição da Egreja franceza era inteiramente democratica e de um
caracter representativo. Reconhecia os consistorios, que já existiam
nas congregações, e, para os tornar verdadeiramente representativos,
preceituava que as eleições para presbyteros e diaconos fossem annuaes.
Provia tribunaes de appellação nos synodos provinciaes, que se reuniam
duas vezes por anno, e em que cada congregação era representada por um
pastor e um presbytero; e unia a Egreja toda sob um Synodo Nacional, ou
Assembléa Geral, que constituia o ultimo tribunal de appellação, e a
suprema auctoridade ecclesiastica.
É interessante observar como n’um paiz cujo governo se tornava de anno
para anno mais arbitrario e absolutista esta «Egreja sob o peso da Cruz»
organizava para seu uso um governo, que reconciliava mais perfeitamente
talvez do que todos quantos teem sido organizados desde então, o
principio da soberania popular com o de uma suprema auctoridade central.
Para a constituição do presbyterianismo escocez a França contribuiu
mais do que Genebra, e a organização da primitiva Egreja escoceza, a de
Knox, era quasi uma exacta reproducção da franceza, O facto d’ella se
afastar posteriormente do modelo francez, tornando vitalicios os cargos
de presbytero e diacono, e a usurpação do exclusivo direito, pela junta
mais moderna do presbyterio, de enviar representantes á Assembléa Geral,
privou o presbyterianismo escocez, inglez e americano de uma grande
parte do elemento popular que constituia a força das primitivas egrejas
escocezas e francezas.
=Anne de Bourg.=—A morte do rei não alterou em coisa alguma a politica
da côrte. Succedeu-lhe Francisco II, um mancebo de dezeseis annos. Este
tinha por esposa Maria, rainha da Escocia, e sobrinha dos Guises, e a sua
subida ao throno atirou com o poder para as mãos d’este fanatico partido,
que era capaz de tudo para conseguir os seus fins. Os Guises, porém, não
podiam fazer aquillo que só um legitimo soberano, consciente do poder que
n’elle reside, pode fazer. Pediram com instancia medidas para a repressão
dos protestantes mediante a exterminação, e aquelle seu grande empenho em
que se derramasse sangue veiu por fim voltar-se contra elles proprios.
O partido recebeu um golpe tremendo com o julgamento e execução de Anne
de Bourg, sobrinha de um dos chancelleres de França, que era tambem
juiz. O seu crime consistiu em ter, em conselho publico, dito a Henrique
II que era uma coisa muito seria condemnar aquelles que, no meio das
chammas, invocavam o nome do Salvador dos homens. Quando, mais tarde,
foi interrogada pelos Guises, fallou com tanta eloquencia e ousadia
que ganhou o apoio de uma grande parte do publico. Ao ser proferida a
sentença de condemnação á morte por meio da fogueira, tornou a fallar
com um tão tocante fervor, com uma resolução tão pathetica, que até
os proprios juizes se commoveram «Coisa alguma nos poderá separar de
Christo, sejam quaes forem as ciladas que nos armem, sejam quaes forem
as enfermidades que ataquem os nossos corpos. Sabemos que somos ha muito
como ovelhas que são levadas para o matadouro. Que nos matem, pois, que
nos despedacem; os que morrem no Senhor não deixam jámais de viver, e
todos hão de apparecer na resurreição geral.... E, sendo assim, para que
hei de eu permanecer mais tempo n’este mundo? Apodera-te de mim, verdugo,
e conduze-me ao logar do supplicio.»
Desde a execução de Bourg a historia do protestantismo francez começa a
ser outra. Os protestantes, que a pouco e pouco se haviam compenetrado da
força de que dispunham, começaram de aquelle ponto em deante a reunir-se
para tratarem do modo como se deviam manter na defensiva, e do modo como
deviam aproveitar a crescente impopularidade dos Guises. Alguns dos mais
impetuosos foram de parecer que se arvorasse immediatamente o estandarte
da revolta. Calvino e Beza, a quem consultaram, dissuadiram-n’os de
uma insurreição declarada. Não obstante, organizou-se uma conspiração.
La Renaudie, protestante, e inimigo declarado dos Guises, foi o chefe
d’essa conspiração, e a guerra civil que depois se seguiu teria sortido
bom effeito se a conspiração não houvesse sido denunciada. Os Guises
tiraram uma sangrenta vingança dos humildes adversarios da sua politica,
e houve enormes carnificinas, particularmente em Amboise, que ficaram bem
gravadas na memoria dos huguenotes. Os Guises accusaram judicialmente
Condé de ser o cabeça da conspiração. Este requereu uma assembléa de
todos os principes e de todos os membros do Conselho privado, e desafiou
os seus inimigos a que o denunciassem. O duque de Guise não se sentiu com
animo de o atacar de novo.
=O morticinio de Amboise=, longe de aterrorizar os protestantes, parece
que lhes deu uma nova coragem. Começaram então a ser conhecidos pelo nome
de _Huguenotes_. A origem d’este nome é obscura; tudo o que ao certo
sabemos a seu respeito è que depois da conspiração de Amboise andava na
bocca de toda a gente. Em Valence um bando armado apoderou-se da Egreja
dos franciscanos, onde os serviços religiosos passaram a ser feitos por
prégadores protestantes, sendo enorme a assistencia do povo. A Ceia do
Senhor foi, por bandos armados, celebrada «á moda de Genebra», em Nismes,
no Languedoc. O tempo das assembléas secretas tinha passado, e grandes
reuniões ao ar livre, no norte, meio-dia e sul da França, demonstravam
que a Reforma tinha sido abraçada por uma immensa quantidade de gente.
=Coligny na Assembléa dos Notaveis.=—A côrte, comtudo, estava convencida
de que a unica politica a seguir era a de exterminaçao, e as perseguições
continuavam com o mesmo vigor. Necessitava, porém, de dinheiro, pois
que as despezas do reino foram gradualmente excedendo as receitas, e
em Fontainebleau foi, por fim, convocada uma Assembléa dos Notaveis.
Os protestantes aproveitaram a opportunidade, apresentando o almirante
Coligny, chefe da grande casa de Chatillon, duas supplicas, uma ao rei,
outra á rainha mãe, da parte dos huguenotes da Normandia. Pediam a
cessação das perseguições e a liberdade para celebrarem publicamente o
culto divino.
Este corajoso acto de Coligny fez com que outros ganhassem animo. O
bispo de Valence fallou a favor dos huguenotes da sua diocese, e pediu
que fossem revogadas as leis que se oppunham á entoação dos hymnos
e á leitura das Escripturas, e que se convocasse um concilio geral.
O arcebispo de Vienne ainda se atreveu a mais. Perguntou se «estava
resolvida a morte da França para agradar a Sua Santidade». A côrte viu-se
obrigada a permittir que se realisasse a tal assembléa geral.
Os Guises não desanimaram. Para exterminio do protestantismo, tomaram a
resolução de matar os seus homens de maior nomeada, e, segundo parece,
tinham tambem em mente um massacre geral dos huguenotes. Fizeram com que
o rei chamasse á côrte os Bourbons, isto é, o rei de Navarra, e seu irmão
Luiz, duque de Conde, os quaes, sem se importarem com o perigo, para lá
partiram.
O duque foi preso e sentenciado á morte, e o rei de Navarra por pouco
escapou de ser assassinado. Quando, porém, a tempestade estava prestes a
estalar, o rei adoeceu e morreu.
«Já lêstes ou vos referiram» diz Calvino n’uma carta que enviou a Sturm,
«algum acontecimento mais opportuno do que esta morte do rei? Quando
a desgraça tinha chegado a tal ponto que não se podia remediar, Deus
revela-Se de subito lá do céu. Aquelle que traspassou os olhos do pae
feriu agora os ouvidos do filho».
=Catharina de Medicis.=—Pela morte de Francisco ficou herdeiro do
throno Carlos IX, que tinha então dez annos. Para regente foi nomeado
o protestante Antonio de Bourbon, rei de Navarra. A mãe do joven rei,
Catharina de Medicis, de quem haviam feito pouco caso durante a vida do
marido, e que havia sido offuscada pelos Guises durante o reinado de seu
filho mais velho, reivindicou então o direito de governar, na qualidade
de tutora natural de seu filho. Os amigos do rei de Navarra instaram
com este para que tambem fizesse valer os seus direitos. Se elle assim
tivesse procedido, o futuro da França seria, porventura, mais pacifico.
Ter-se-hia alcançado uma duradoura tolerancia religiosa, e ter-se-hiam
lançado os alicerces de uma monarquia constitucional; elle, porém, teve
a fraqueza de não fazer valer esses seus direitos, e Catharina foi
investida no poder.
As circumstancias, porém, obrigaram-n’a a fazer concessões a todos os
partidos. Não podia passar sem o apoio dos Guises, e ao mesmo tempo era
indispensavel entrar em negociações com os huguenotes. Todos os herejes
que estavam presos recuperaram, por meio de um edicto, a sua liberdade,
mas foram avisados de que deviam não dar mais motivo de queixa. No
entretanto reunia-se o Estado Geral, que havia sido convocado antes da
morte do ultimo rei.
Coligny pediu, em nome dos huguenotes, liberdade de religião; uma reforma
no governo da Egreja, e, em particular, a eleição livre dos bispos e do
clero; um concilio nacional, sob a presidencia do rei, para discutir as
questões religiosas, e, no entretanto, egrejas para os protestantes, e
uma reunião da Assembléa dos Notaveis de dois em dois annos. Offereceu-se
tambem para auxiliar o governo na promulgação de uma lei que auctorizasse
a venda dos bens da Egreja para occorrer ás despezas do Estado.
As reclamações de Coligny constituiam, no dizer de Ranke, o programma
da revolução do seculo dezoito; e, se ellas tivessem sido attendidas,
essa revolução não seria assignalada com o atheismo que a desacreditou,
e não seria necessario derrubar a monarquia e a aristocracia. A côrte
não estava preparada para essas mudanças radicaes, e o mais que se
poude obter de Catharina foi uma conferencia religiosa em Poissy, onde
podessem ser discutidos pontos de fé entre pastores protestantes e padres
catholicos romanos.