esta adquirindo cada vez mais opulencia e preponderancia. Os magistrados
fundaram uma universidade, cujo primeiro reitor foi Theodoro Beza,
e as suas aulas foram, durante o primeiro anno, frequentadas por
oitocentos estudantes. Procuraram refugio na cidade, onde receberam um
excellente acolhimento, numerosissimos protestantes italianos, francezes
e escocezes. «Calvino converteu Genebra n’uma outra Roma». Pelas suas
cartas se vê o poder de que elle dispunha e a influencia que exercia.
Pediam-lhe conselhos, que nunca eram negados, os huguenotes da França, os
reformadores de Inglaterra, a congregação escoceza, e os dirigentes da
Reforma na Allemanha.
Morreu novo. O seu organismo, que nunca fôra robusto, resentiu-se do
excessivo trabalho a que elle se entregava. Prégou o seu ultimo sermão
no dia 6 de fevereiro de 1564, e falleceu a 27 de maio do mesmo anno,
contando cincoenta e cinco annos incompletos.
Conhecendo a approximação da morte, chamou para junto de si os syndicos,
ou primeiros magistrados de Genebra, e em seguida todos os ministros.
Prohibiu que sobre a sua sepultura se erigisse qualquer monumento,
acontecendo, d’esse modo, que se desconhece o sitio onde foi enterrado.
Era de pequena estatura, magro, de feições delicadas, nariz proeminente,
testa elevada, e olhos que em dadas occasiões chammejavam. Trajava sempre
com o mais escrupuloso esmero, e alimentava-se muito sobriamente.
Contrastando com Luthero, era um aristocrata pela educação e pelo
temperamento; grande observador de todas as regras da etiqueta, sentia-se
muito mais á vontade no meio das pessoas de posição do que no meio
do povo baixo. Tem-lhe alguem chamado frio e insensivel, mas o que é
facto é que os seus amigos e contemporaneos se referem sempre a esse
frio, timido, austero e polido francez em termos os mais affaveis e
respeitosos; e os mancebos davam-se perfeitamente com elle.
Muitos escriptores teem começado a estudar o caracter de Calvino com
um certo sentimento de hostilidade, e, depois de o haverem estudado,
descobrem que a sua antipathia se transformou em affectuosa admiração.
Como será sufficiente um exemplo, vejamos o que Ernesto Renan diz d’elle:
«Calvino era um de aquelles homens absolutos que parecem ter sido vasados
de um só jacto n’um molde, e que se estudam por meio de um simples olhar;
uma carta das que escrevam, um acto dos que pratiquem, é o bastante
para se fazer um juizo d’elles.... Não se importava com riquezas, nem
com titulos, nem com honras; indifferente ás pompas, modesto no viver,
apparentemente humilde, tudo sacrificava ao desejo de tornar os outros
eguaes a si. Exceptuando Ignacio de Loyola, não conheço outro homem que
podesse rivalisar com elle n’estes raros predicados. É surprehendente
como um homem cuja vida e cujos escriptos attrahem tão pouco as nossas
sympathias, se tornasse o centro de um tão grande movimento, e que as
suas palavras tão asperas, a sua elocução tão severa, podessem ter uma
tão espantosa influencia sobre os espiritos dos seus contemporaneos.
Como se pode explicar, por exemplo, que uma das mulheres mais distinctas
do seu tempo, Renée de França, que no seu palacio de Ferrara se via
cercada dos mais brilhantes talentos da Europa, se deixasse captivar por
aquelle severo doutrinador, enveredando, por sua influencia, n’uma senda
que tão espinhosa lhe deveria ter sido? Similhantes victorias só podem
ser alcançadas por aquelles que trabalham com sincera convicção. Sem
manifestar aquelle ardente desejo de promover o bem dos outros, que foi
o que assegurou a Luthero o bom exito dos seus trabalhos, sem possuir o
encanto, a perigosa, posto que languida, doçura de S. Francisco de Sales,
Calvino saiu victorioso, n’uma epoca e n’um paiz em que tudo annunciava
uma reacção contra o christianismo, e isso simplesmente por ser o maior
christão do seu tempo».
=Beza, o successor de Calvino.=—Theodoro Beza succedeu a Calvino em
Genebra, e manteve a reputação que a Egreja tinha adquirido; e até ao
meiado do seculo dezesete a voz de Genebra foi a que as numerosas egrejas
protestantes escutaram com maior acatamento.
=A influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma.=—Sob a influencia
de Calvino, desappareceram as differenças theologicas que havia na
Suissa, e todas as egrejas que se chamavam reformadas adoptaram um typo
de doutrina. Estas egrejas não tinham, como as lutheranas, um Catecismo
e uma Confissão, mas, não obstante os varios credos, notava-se n’ellas
uma perfeita unidade de pensamento e de sentimento. Calvino não escreveu
Confissão alguma que viesse occupar o primeiro logar entre os credos das
egrejas que se chamam do seu nome, mas a sua influencia em toda a parte
se manifesta. Elle vive novamente, na obra dos seus discipulos.
Os seus mais importantes trabalhos que teem relação com o assumpto de que
nos estamos occupando são o Catecismo para a Infancia e a Confissão de
Zurich.
O Catecismo tinha por fim, disse elle, repôr no devido logar a instrucção
religiosa das creanças, que tão lamentavelmente havia sido descurada
pelos romanistas. Calvino, para a confecção do seu catecismo, serviu-se
do Credo dos Apostolos, dos Dez Mandamentos e da Oração Dominical.
Tiveram origem n’elle dois grandes Catecismos da Egreja Reformada: o
de Heidelberg, que contém o Credo das Egrejas da Allemanha, e o Breve
Catecismo da Assembléa de Westminster.
=A Confissão de Zurich= foi muito proveitosa, porque uniu as Egrejas
Reformadas quanto á doutrina dos sacramentos pelo facto de reconciliar
n’uma mais profunda unidade as opiniões de Luthero e de Zwinglio. Poz de
parte a metaphysica medieval com que Luthero havia sobrecarregado a sua
theoria, e ao mesmo tempo repudiou as idéas mais superficiaes de Zwinglio
e dos primeiros reformadores suissos, que ensinavam que os sacramentos
eram apenas signaes, ou imagens, das bençãos espirituaes.
Calvino fez um resumo da sua doutrina ao expôr esta Confissão: «Os
sacramentos são auxiliares por meio dos quaes ou somos implantados no
corpo de Christo, ou, no caso de já o estarmos, nos ligamos a Elle cada
vez mais, até que seja perfeita a nossa união com Christo, na vida
celestial».
A influencia de Calvino e de Genebra é, porém, mais nitidamente visivel
na geração de protestantes que ella educou e enviou a combater com o
romanismo. «N’uma occasião em que a Europa», diz Haüsser, «não podia
mostrar solidos resultados da reforma, este pequeno estado de Genebra
erguia-se como uma grande potencia; anno após anno, enviava apostolos
para todo o mundo, mediante os quaes eram apregoadas as suas doutrinas,
e tornou-se o mais temido contrapeso de Roma.... Os missionarios
provenientes d’este pequeno nucleo manifestavam o elevado e intrepido
espirito que procede de uma estoica educação e adestramento; tinham o
cunho da abnegação e do heroismo, que em toda a parte era absorvido pela
estreiteza theologica. Constituiram uma raça para a qual coisa alguma era
demasiadamente ousada, e que deu uma nova direcção ao protestantismo,
separando-o da velha e tradicional auctoridade monarquica, e fazendo com
que elle adoptasse o evangelho da democracia como parte do seu credo....
Genebra dictou um pequeno trecho da historia universal, trecho que
constitue a parte de que os seculos dezeseis e dezesete mais se devem
orgulhar. O seu Credo foi professado por muitos dos mais eminentes homens
da França, dos Paizes Baixos e da Gran-Bretanha; estes homens possuiam
almas fortes, caracteres de ferro vasados n’um molde em que havia uma
mistura de elementos romanos, germanicos, medievaes e modernos; e as
consequencias nacionaes e politicas da nova fé foram por elles defendidas
com o maximo rigor e coherencia.»
A Reforma lutherana fez poucos progressos fóra da Allemanha. A pequena
republica de Genebra uniu primeiro a Reforma suissa, e em seguida deu os
caracteristicos distinctivos aos movimentos reformadores da França, da
Hollanda, da Escocia, da Bohemia, da Hungria, da Moravia e de uma grande
parte da Allemanha. Luthero, o homem de festiva disposição de espirito,
tão humano em todos os sentidos, foi, afinal de contas, o reformador
de uma parte, apenas, da Allemanha; Calvino, tão insensivel, tão frio,
tão ceremonioso, tão sarcastico, de uma logica tão desapiedada, foi o
reformador de uma grande parte da christandade. A Reforma suissa passou
muito para além da Republica Helvetica, e abrangeu as egrejas da França,
da Hollanda e da Gran-Bretanha, com tudo o que d’ellas brotou.
CAPITULO III
A REFORMA EM FRANÇA
Principios da Reforma em França, pag. 87.—Francisco I, pag.
89.—A _Concordata_ de 1516, e a feição que ella deu á Reforma,
pag. 89.—«Uma egreja debaixo da cruz», pag. 90.—O anno dos
placards, pag. 92.—O Vaudois da Durance, pag. 92.—Henrique
II e os Guises, pag. 93.—Organisação da Egreja Reformada,
pag. 95.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, pag.
96.—O primeiro Synodo Nacional, pag. 97.—Anne de Bourg, pag.
98.—O massacre de Amboise, pag. 99.—Coligny na Assembléa
dos Notaveis, pag. 100.—Catharina de Medicis, pag. 100.—A
Conferencia de Poissy, pag. 102.—O massacre de Vassy, e outros,
pag. 103.—A guerra civil, os iconoclastas, pag. 103.—Coligny e
Carlos IX, pag. 106.—O massacre de S. Bartholomeu, pag. 107.—A
Santa Liga, pag. 109.—Henrique de Navarra, pag. 110.—O edicto
de Nantes, pag. 110.
=Principios da Reforma em França.=—Antes da Reforma se ter tornado em
França um grande e importante movimento, appareceram dois typos da
cristandade reformada, sellados com as individualidades de dois homens:
Luthero e Calvino, o Pedro e o Paulo da Reforma, Na renhida lucta que em
seguida teve de ser sustentada com o romanismo, o movimento mais moderno
foi o que adquiriu maior importancia; foi Genebra, deixando Wittenberg
em segundo plano, que se mostrou em condições de se defrontar com Roma.
A dupla corrente da Reforma partiu d’estes dois centros para toda a
Europa, mas nos terriveis combates que se travaram a feroz democracia do
Calvinismo poude desenvolver uma força que era o dobro da do claudicante
conservantismo do movimento lutherano. A historia do progresso da Reforma
fóra da Allemanha é quasi inteiramente a historia do calvinismo, e do
triumpho das idéas calvinistas. Foi assim em França.
Os principios da Reforma franceza ficam lá muito para traz, datam de
uma epoca muito anterior á do nascimento de Calvino. Havia no sul e no
sueste, no fim do seculo quinze e no principio do seculo dezesseis,
uns taes ou quaes vestigios dos velhos albigenses; e os valdenses
mantiveram-se, e foram protegidos, em virtude de antigos tratados,
durante as perseguições dos huguenotes. A Egreja franceza havia-se
distinguido sempre pela sua opposição ás reivindicações da côrte
pontificia e do papa. Quando o papado, no seculo quinze, chegou a uma
grande decadencia, e papas libertinos occuparam a sé de Roma, a Egreja
franceza, tendo á frente os famosos chancelleres da universidade de
Paris, João Gerson e Pedro d’Ailly, desempenhou a parte principal na
convocação dos concilios reformadores de Pisa, Basiléa e Constancia, e no
refreamento da curia romana. A Egreja franceza tinha-se sempre opposto
energicamente ao ultramontanismo, e, protegida pela Sancção Pragmatica
de Bourges, era talvez mais genuinamente nacional do que qualquer outro
ramo da Egreja medieval. Muitas pessoas esperavam que a França, em vista
da sua historia passada, tomasse a iniciativa de um movimento reformador.
A Reforma, porém, que as summidades ecclesiasticas promoveram no seculo
quinze não foi uma reforma de doutrina ou uma revivificação da religião
espiritual. Os reformadores de Constancia queimaram João Huss.
Além d’isso, havia na Egreja franceza, pouco antes da Reforma, a mesma
immoralidade, a mesma incuria, a mesma ignorancia que desacreditou a
Egreja medieval do seculo dezeseis na Allemanha e na Italia; o inicio da
Reforma em França proveiu do despertamento das lettras e da leitura das
Escripturas nas linguas originaes.
Os primeiros sermões reformistas foram prégados em Meaux, onde o bispo,
Guilherme Briçonnet, viu que havia urgente necessidade de reprehender a
immoralidade monastica, e que o povo anhelava por um verdadeiro ensino
religioso. Elle tinha ouvido fallar da erudição de Jayme Lefévre, de
Etaples, e da perseguição que elle soffrera da parte dos doutores da
Sorbonne por causa dos seus estudos biblicos; e convidou-o, a elle e
ao seu ardente e joven discipulo, Guilherme Farel, o futuro amigo de
Calvino, para irem para a sua diocese e estudarem, ensinarem e prégarem
debaixo da sua protecção. Lefévre publicou, em 1523, uma traducção
do Novo Testamento em francez, e o povo comprou o livro e leu-o com
soffreguidão.
Os franciscanos, anciosos por se vingarem do que Briçonnet n’outro tempo
lhes havia feito, accusaram-n’o de heresia, e de favorecer herejes. No
meio da tempestade que então se levantou, o bispo perdeu a coragem. Farel
fugiu para Strasburgo, seguido pouco depois por Lefévre e Roussel, outro
prégador, e a Reforma ficou, apparentemente, suffocada. O povo, porém,
que possuia a Biblia, lia tratados de Luthero, e conservava na memoria os
sermões de Farel e de Roussel persistiu na fé evangelica. Alguns crentes
tiveram de soffrer o martyrio, mas o fermento espalhou-se, ainda que
occultamente, por toda a França.
=Francisco I.=—O rei de França, n’esses primeiros annos da Reforma,
era Francisco I, a quem depois Calvino dedicou os seus _Institutos da
Religião Christã_. Enthusiasta, e dotado de alguma intelligencia, havia
saudado a revivificação das letras, protegeu Lefévre durante o tempo em
que este sabio residiu em Paris, e orgulhava-se da correspondencia que
mantinha com homens de grandes conhecimentos, taes como Erasmo e Budaeus.
Suppunha-se um grande protector das letras, e toda a sua ambição era que
o considerassem como tal; a universidade de Paris havia-lhe merecido
uma especial attenção, e interessou-se tambem immenso na famosa maquina
de impressão inventada por Henrique Estevão. Estabeleceu as cadeiras de
Grego, Hebraico, e oratoria latina. Julgava-se poeta, e escreveu algumas
poesias. A irmã, Margarida de Angouleme, mais tarde rainha de Navarra,
foi uma das mais espirituosas conversadoras e uma das mais brilhantes
escriptoras do seu tempo. Francisco não sympatizava nada com o desleixo e
ignorancia de muitos dos clerigos de aquella epoca, e, particularmente,
considerava o movimento da Reforma uma lucta da intelligencia com
a estupidez. Protegeu os primeiros reformadores, chegando mesmo a
auxilial-os. Francisco era um principe frivolo e egoista, que ambicionava
brilhar como habil guerreiro, e cujo intento era estabelecer a absoluta
supremacia do soberano. Não sympatizava com o caracter profundamente
espiritual da Reforma, e as suas necessidades politicas não tardaram a
prevalecer sobre o seu amor pela instrucção.
=A Concordata de 1516, e a feição que ella deu á Reforma.=—A
independencia da Egreja franceza e os direitos do reino de França em
opposição ao papado haviam sido mantidos pela Sancção Pragmatica de
Bourges, que definia as liberdades das egrejas nacionaes de uma maneira
clara e energica. Declarou que o papa estava sujeito a um concilio
ecumenico, e que este concilio se devia reunir de dez em dez annos.
Declarou que todos os provimentos de elevados cargos ecclesiasticos,
taes como os bispados e abbadias, deviam ser feitos por eleição, e não
por designação do papa. Restringiu os dispendiosos e incommodos appellos
a Roma, e sanccionou o principio de que nenhum interdicto pode abranger
tanto os innocentes como os culpados. A Sancção Pragmatica tinha sido
sempre cuidadosamente defendida pela Egreja franceza, e pela maioria dos
soberanos de França. Era intensamente abominada pelos papas, e não podia
ser olhada com muito amor por um rei que pretendia a absoluta supremacia
do throno. Uma egreja independente deve zelar a independencia do povo.
Francisco comprehendia que, se podesse collocar a Egreja debaixo do seu
dominio, ser-lhe-hia mais facil chegar ao absolutismo. Entendeu-se,
portanto, com o papa, e trocou a Sancção Pragmatica por uma Concordata,
que foi, no futuro, uma grande desgraça para a França.
Mediante esta Concordata o rei renunciou aos principios dos Concilios
reformistas de Basiléa e de Constancia, e consentiu em que o papa ficasse
com direito ao _Annates_, isto é, o vencimento relativo ao primeiro anno
de todos os beneficios que eram providos, concedendo o papa, em troca,
que a nomeação de todos os cargos ecclesiasticos ficasse dependente do
rei. Por outras palavras, era reconhecida a posição dos papas como chefes
supremos da Egreja, e dava-se-lhes annualmente uma consideravel somma
de dinheiro; e o rei de França era praticamente, dentro do seu reino,
o chefe da Egreja, podendo dispôr de todos os arcebispados, bispados,
abbadias e priorados. Fez-se denuncia d’esse tratado, e de todos os modos
se trabalhou para o annullar, mas conseguiu vencer todas as opposições, e
permaneceu em vigor até á Revolução.
A Concordata de 1516 é a chave da historia da Reforma franceza, e
não é possivel exaggerar a importancia que ella tem para a historia
ecclesiastica franceza desde o principio do seculo dezeseis. Por um lado,
secularizou a Egreja franceza. Todos os officios ecclesiasticos de valor
eram doados pelo rei, e tinham de ser disputados por cortezãos que só nas
coisas do mundo pensavam. Por outro lado, tornou identicos os interesses
da Egreja e os do throno. Opposição ao systema ecclesiastico da Egreja
franceza era necessariamente opposição ao absolutismo do soberano. Esta
Concordata deu uma indole particular á lucta que a Reforma produziu em
França. Os reformadores não podiam deixar de ser tambem os adversarios do
absolutismo; e o rei, para ter o paiz sujeito a si na sua qualidade de
chefe da Egreja, via-se obrigado a sustentar o papa, que lhe concedera a
supremacia.
Aconteceu d’este modo que os protestantes tiveram em França um trabalho
muito diverso do trabalho de Luthero na Allemanha, porque tinham de se
oppôr não só á Egreja como ao Estado. Succedeu-lhes como aos reformadores
escocezes e aos protestantes dos Paizes Baixos; na Escocia, porém, a
Reforma poude, por fim, estabelecer uma monarquia limitada, e na Hollanda
uma republica. Em França, por outro lado, o poder real foi augmentando
lentamente; e, quando chegou a um ponto elevado, a um absolutismo como
o de Luiz XIV, o soberano encontrou-se apto para exterminar a egreja
protestante, por meio de uma sanguinolenta perseguição.
=«A Egreja que estava debaixo da Cruz».=—Luthero tinha, na Allemanha, um
principe do seu lado, e Calvino foi, em Genebra, auxiliado pela suprema
auctoridade civil. Em França os reformadores tiveram de luctar não só
contra o poder do rei como contra o poder da Egreja. A Egreja reformada,
em França, não recebeu, portanto, auxilio algum do poder civil, e
teve de sustentar um combate tão severo e tão rude como o que teve de
sustentar a Egreja dos primeiros tres seculos. A Egreja antenicena tinha
duas coisas contra si; a religião estabelecida, que era o paganismo, e
o Estado, que era egualmente pagão. A Egreja reformada de França teve
duas coisas contra si; foi perseguida pela egreja estabelecida no reino,
que era a romana, e foi perseguida pelas auctoridades civis, pois que
o poder do rei era, pela Concordata, em grande escala dependente do
reconhecimento do pontifice. Foi creando lentamente forças, sob uma dupla
perseguição, como a Egreja primitiva dos martyres e dos apologistas. Eram
dois os emblemas que ella gravava nos seus livros e esculpia nos seus
monumentos: a sarça que ardia sem se consumir, e a bigorna que levava
martelladas e estava sempre inteira. O grande Beza disse um dia ao rei
de Navarra: «Sire, a Egreja de Deus é uma bigorna que tem partido muitos
martellos».
Francisco, ao principio, não incommodou muito os protestantes que
existiam nos seus dominios; mas a sua derrota em Pavia, em 1525, e a sua
alliança com o papa, mostrou-lhe que era prudente, lá no seu modo de
ver as coisas, mostrar alguma vontade de expurgar da heresia as terras
de que era senhor, e deu licença para que se pozessem em pratica as
perseguições que tão ardentemente lhe eram pedidas pela Sorbonna, pelo
Parlamento de Paris, por muitos dos bispos, pela mãe, a rainha Luiza, e
por Du Pratt, o chanceller do reino. Foi só, porém, depois de Francisco
ser feito prisioneiro pela segunda vez, e n’uma occasião em que precisava
de dinheiro para as suas guerras, dinheiro que já não era possivel obter
por meio de impostos, que elle permittiu que a heresia fosse exterminada
de vez. O clero pôz á sua disposição elevadas quantias, exigindo-lhe em
troca que o coadjuvasse no aniquilamento dos herejes, e o rei viu-se
fornecido dos recursos de que necessitava, á custa da tortura e da
carnificina dos seus subditos protestantes. Isto foi em 1528.
Severas medidas foram decretadas contra os protestantes. Era prohibida a
leitura de obras protestantes; a ligação com pessoas suspeitas de heresia
importava condemnação; e os herejes, onde quer que fossem descobertos,
eram entregues ás auctoridades civis para serem castigados. Luiz de
Berguin, homem erudito e de nobre estirpe, e n’outro tempo amigo do
rei, e correspondente de Erasmo, foi a mais notavel victima d’estas
disposições.
A inconstancia da politica do rei veiu alterar o estado das coisas.
Francisco I intentou fazer uma alliança com os principes protestantes
allemães, e recusou, portanto, associar-se a um plano geral para a
exterminação da heresia.
=O anno dos placards.=—Em breve, porém, poz de parte este seu intento,
e começaram novamente as perseguições. Os protestantes, por seu lado,
mostraram uma grande somma de coragem. Imprimiram curtos folhetos em
que se atacava a missa e outros ritos da Egreja Catholica Romana, e
espalhavam-n’os pelas ruas e pelas escadas. O anno de 1535 foi chamado
o anno dos placards. Um imprudente introduziu nos aposentos do rei
um d’esses papeis em que a missa era apreciada com extrema dureza, e
Francisco ficou indignadissimo. No primeiro impulso, prohibiu que se
imprimisse fosse o que fosse, mas depois, revogando este decreto, entrou
a serio no seu papel de perseguidor. Decretou que a heresia fosse punida
com a morte; aquelle que denunciasse um hereje tinha direito á quarta
parte dos bens que este possuisse, no caso de se provar a veracidade
da accusação. Isto redobrou a perseguição, e em toda a França os
protestantes eram accusados, condemnados, e punidos com prisão, perda
de bens, e morte. Foi por este tempo que Calvino dedicou ao rei os seus
_Institutos_.
Os ultimos annos do reinado de Francisco I foram uns annos de terrivel
effusão de sangue e oppressão; e, comtudo, os protestantes augmentaram em
numero, e a repressão, posto que sanguinolenta, mostrava-se inefficaz.
O sangue dos martyres era a semente da Egreja. Em 1540 o Edicto de
Fontainebleau intimava os officiaes de justiça a processarem todos
aquelles em que houvesse mancha de heresia; a essas pessoas era negado
o direito de appellação; os juizes negligentes eram ameaçados com o
desagrado do rei, e os ecclesiasticos tiveram ordem para mostrar maior
zelo. «Todos os subditos leaes», dizia o edicto, «devem denunciar os
herejes, e empregar todos os meios para os extirparem, do mesmo modo
que são obrigados a contribuir para que se ponha termo a qualquer
conflagração publica». Seguiram-se outros edictos ainda mais severos,
mas a Reforma foi progredindo, e tanto homens como mulheres soffriam
resignadamente, por amor de Christo, todas aquellas calamidades.