começaram a trabalhar juntos em Genebra, e, não obstante a differença
das edades, tornaram-se amicissimos um do outro. «Tinhamos um coração e
uma alma», diz Calvino. Farel apresentou-o aos conselheiros da cidade.
Principiou a sua obra fazendo conferencias na cathedral, e immediatamente
se reconheceu que a sua palavra era attrahente e efficaz. A junta
nomeou-o pastor, e, de collaboração com Farel, metteu hombros á grave
tarefa de organizar a Reforma. Somos informados de que elle redigiu os
artigos de fé e os regulamentos para o governo da Egreja, tendo antes
d’isso, isto é, pouco depois da sua chegada a Genebra, escripto um
catecismo para a infancia. A obra dos reformadores foi approvada pelo
conselho da cidade, e esta, pelo que dizia respeito a todos os seus
aspectos exteriores, adoptou por completo a religião reformada.
Farel sabia, porém, havia muito, e Calvino em breve o reconheceu tambem,
que o de que Genebra necessitava era uma reforma moral. A cidade era
o mais que podia ser de dissoluta, e havia muito tempo que permanecia
n’aquelle estado. Os que durante muitas gerações tinham estado á testa
dos negocios publicos conheciam esse facto, e tinham promulgado leis
contra o viver licencioso. Entre os arquivos de Genebra relativos ao
principio do seculo dezeseis, e ainda entre alguns do seculo quinze,
apparecem leis sumptuarias contra o jogo, a embriaguez, as mascaradas,
as danças e o luxo no vestuario; e, examinando os documentos judiciaes,
encontram-se referencias a condemnações por infracções d’essas leis,
commettidas muito antes de Calvino ter fixado lá a sua residencia.
Isto tem sido esquecido pelos historiadores quando accusam Calvino de
ter tentado reformar o povo, mediante, como nós diriamos, leis votadas
no parlamento. Calvino não fez essas leis, nem ha evidencia de elle as
considerar muito importantes. Era, porém, de opinião, que sustentou
sempre com toda a firmeza, de que ás pessoas que tinham uma vida immoral,
cujas acções e linguagem não estavam em harmonia com a sua profissão
christã, não se devia permittir que participassem da solemne instituição
da Ceia do Senhor, e esse seu modo de vêr não tardou em indispôl-o com os
habitantes de Genebra.
Ao cabo de muitas admoestações, os reformadores resolveram, por fim,
exercer a disciplina ecclesiastica, afastando solemnemente da Mesa do
Senhor os commungantes indignos. Os magistrados, que estavam sempre
promptos a promulgar leis restrictivas do vicio, e até mesmo do viver
faustoso, não quizeram consentir em que se pozesse em execução esta
ordem de quem tinha a superintendencia na Egreja, e, ainda mais, o
pulpito ficou de ahi em deante vedado a Calvino e a Farel. Estes não
se submetteram, e no domingo de Pascoa de 1538 prégaram a uma multidão
excitada e armada, recusando administrar á congregação a Ceia do Senhor,
para evitar que esta fosse profanada.
No dia seguinte a junta da cidade reuniu-se para apreciar a conducta de
Calvino e Farel. Os reformadores foram accusados de pretender usurpar
o poder mediante os seus regulamentos ecclesiasticos, entre os quaes
figuravam o da abolição de todos os dias santos, excepto o domingo, e o
do desuso da pia baptismal e do pão asmo na Ceia do Senhor.
Estas accusações eram, evidentemente, meros pretextos, pois que o proprio
Calvino havia declarado que lhe era quasi indifferente que as coisas que
atraz mencionamos fossem ou não postas em pratica. O que os realmente
predispunha contra Calvino e Farel era a supposição em que estavam de que
elles pretendiam estabelecer um novo papado; os magistrados desejavam
conservar nas suas mãos, não só a administração civil como a disciplina
da Egreja. O resultado de tudo isto foi Calvino e Farel serem expulsos
da cidade, não pelos papistas, mas por aquelles que até ali tinham
contribuido para o avanço da Reforma.
O facto d’este conflicto entre os reformadores e os genebrenses ter
ocorrido logo no principio da vida publica de Calvino revela uma grande
differença entre os dois ramos da Reforma, o reformado, ou calvinista,
e o lutherano. Calvino mostrou ter, desde o inicio da sua carreira,
noções muito claras ácerca da disciplina da Egreja e do direito que
a communidade christã tinha de se governar a si propria em assumptos
espirituaes e do direito dos que estavam em auctoridade na Egreja
tinham de excluir dos privilegios a todos aquelles que fossem indignos
de participar d’elles. Luthero e Melanchthon tinham as mesmas idéas,
mas não as pozeram em pratica. Luthero não modificou o modo como a
superintendencia era exercida, limitando-se a transferil-a das mãos dos
bispos para as das auctoridades civis; e o effeito pratico, posto que não
premeditado, d’isto foi ficarem sendo os magistrados os que arbitravam
se esta ou aquella pessoa devia ou não approximar-se da mesa do Senhor.
Calvino, por outro lado, viu logo desde o principio que a Egreja, para
ter uma existencia visivel, e conservar-se distincta do Estado, devia
ter o direito de declarar quaes as pessoas que estavam no caso de ser
admittidas como membros da Egreja e partilhar todos os privilegios da
mesma, e ter a auctoridade para censurar os aggravos espirituaes e
punil-os mediante a perda dos sacramentos.
Não consta que Calvino pedisse em tempo algum outra coisa além de que a
disciplina da Egreja fosse exercida pela propria Egreja, representada
pelos seus officiaes. Calvino, logo no começo da sua carreira, proclamou
a independencia da Egreja em assumptos espirituaes, taes como a admissão
á mesa do Senhor e a exclusão d’ella.
=Calvino é expulso de Genebra.=—Expulso de Genebra, Calvino foi para
Basiléa, e d’ahi para Strasburgo, onde permaneceu tranquillamente tres
annos, ministrando a uma numerosa congregação de refugiados francezes,
e occupando-se com trabalhos litterarios. Strasburgo tinha sido um
logar intermediario entre a Allemanha e a Suissa, e Calvino travou ahi
conhecimento com muitos theologos allemães. Contraiu uma intima amizade
com Melanchthon, e encontrou-se com elle e com outros reformadores
allemães nas conferencias religiosas que se realizaram em Francfort,
Worms e Regensburgo. Em Setembro de 1540 casou com Idelette de Bure,
viuva de João Storder. Idelette era uma senhora muito temente a Deus
e muito instruida, e teve, do seu casamento com Calvino, tres filhos,
que morreram todos na infancia. Calvino não se refere muito, na sua
correspondencia, á sua vida domestica, mas as cartas que escreveu
a alguns amigos muito intimos ácerca do fallecimento da esposa e
do fallecimento dos filhinhos demonstram que no peito do austero e
ceremonioso francez batia um coração susceptivel de grandes affectos.
=Genebra não pode passar sem Calvino.=—No entretanto, Genebra continuava
agitada. Farel e Calvino haviam sido expulsos, e estavam longe da cidade,
mas o povo sentia a necessidade da sua presença. Não havia agora ali
uma influencia que a todos dominasse, e as coisas caminhavam de mal
para peior. Calvino tinha dito que a infidelidade tinha por origem a
depravação a que elle se oppozera, e os cidadãos mais esclarecidos
começaram a ver o quanto de verdade havia n’esta observação. As desordens
sociaes iam quasi conduzindo a desastres politicos. Os bernenses
intentaram apoderar-se da cidade; os catholicos romanos, tendo á frente
o cardeal Sadolet, trabalharam por submettel-a de novo ao papismo; os
anabaptistas, inimigos de toda a organização ecclesiastica e social, os
libertinos, os livres pensadores, todos luctaram por obter o predominio
em Genebra, e por fim a população começou a sentir-se cançada de aquella
tumultuosa situação e a anhelar pelo regresso dos seus desterrados
ministros.
A junta da cidade dirigiu-se a Calvino, pedindo-lhe que voltasse. Elle
ao principio recusou. «Não ha localidade que me aterrorize tanto como
Genebra», escreveu elle a um amigo. Continuaram, porém, a instar com elle
para que voltasse; muitos dos amigos que elle tinha entre os reformadores
francezes e allemães solicitaram-lhe que accedesse ao pedido dos
genebrenses, e as cidades suissas de Berne, Zurich e Basiléa fizeram côro
com elles. Condescendendo finalmente, regressou a Genebra.
Os magistrados offereceram-lhe para moradia uma casa com jardim situada
nas proximidades da sumptuosa egreja, nomearam-n’o ministro e professor
de theologia, e fixaram-lhe um estipendio annual de quinhentos florins,
doze medidas de trigo e duas cubas de vinho. Além d’isso, prometteram que
na Egreja de Genebra seria posta em vigor a disciplina ecclesiastica,
pois que Calvino havia insistido n’esse ponto. A convivencia que tivera
com os lutheranos ainda o tornara mais cuidadoso em manter o direito que
á Egreja assiste de velar pela sua pureza. Voltou triumphante a Genebra,
e foi recebido com as mais extravagantes manifestações de regozijo.
Foi mais uma vez desapontado no seu grande desejo de uma tranquilla
vida litteraria, e durante o resto dos seus dias teve de dedicar-se
inteiramente á causa publica.
Depois d’isso nunca mais saiu de Genebra, de que foi, segundo dizem,
durante vinte e quatro annos o senhor. Os historiadores teem-n’o
comparado a individualidades de indole muitissimo differente. Segundo
uns, foi o Lycurgo de Genebra; segundo outros, um dictador romano, ou um
novo Hildebrando, ou um Califa musulmano. O que é certo é que fez uma
grande obra, e passou a vida n’uma incessante actividade, apezar de estar
quasi sempre doente, soffrendo muito de dôres de cabeça e de asthma.
Prégava umas poucas de vezes por semana, e todos os dias dava aula.
Escreveu commentarios a todos os livros da Biblia, compoz tratados
theologicos, e tinha sempre que attender a uma immensa correspondencia.
Era elle quem dirigia a Egreja reformada em toda a Europa, e, segundo a
idéa de muitas pessoas, era, por assim dizer, omnipotente em Genebra,
tendo sido attribuidos á sua influencia tanto os bons como os maus
resultados da chamada theocracia genebrense.
É inquestionavel que durante o seu governo em Genebra o caracter da
cidade mudou inteiramente. Tendo sido a mais frivola e mais devassa
de todas as cidades europeas, tornou-se o berço do puritanismo, tanto
francez, como hollandez, como inglez, como escocez. As danças e
mascaradas passaram a ser coisas desconhecidas; as tabernas e o theatro
estavam sempre ás moscas, ao passo que as egrejas e os salões de
conferencias se enchiam até á porta.
=As ordenanças ecclesiasticas.=—O que effectuou tudo isto foram as
famosas ordenanças ecclesiasticas da Egreja de Genebra, e o modo em que
ellas foram applicadas pelos magistrados. Estas ordenanças eram, segundo
as poucas palavras do preambulo, o «regimen espiritual, que Deus ordenou
na Sua Egreja, e que, sob uma fórma propria, tinha de ser observado
na cidade de Genebra», e teem sido adoptadas por todas as egrejas
presbyteriannas.
Em conformidade com estas ordenanças, ha quatro especies ou graus
de officio na Egreja christã, estabelecidos por Deus para o governo
da mesma, e os que os exercem são chamados pastores, professores,
presbyteros e diaconos.
Compete aos pastores, que teem tambem o nome de superintendentes e
bispos, expôr a Palavra, administrar os sacramentos, e, conjunctamente
com os presbyteros, exercer a disciplina; eram geralmente escolhidos
pelos ministros em exercicio, e nomeados pelos magistrados, com
o consentimento do povo; tinham de dar contas dos seus actos nas
conferencias que para esse fim tinham logar trimestralmente na Egreja, e
eram, outrosim, responsaveis perante o consistorio e a junta da cidade.
Da classe dos professores faziam parte todos os lentes da universidade e
os mestres das escolas. Os presbyteros tinham a seu cargo a disciplina.
Não eram eleitos pela congregação, mas, sim, nomeados pela junta da
cidade, com previa consulta dos pastores; e todos elles tinham de ser
membros das juntas. Conjunctamente com os pastores, faziam uma visita
annual a toda a area que lhes pertencia, e experimentavam, de um modo
simples, a fé e o proceder de todos os membros da egreja.
A assembléa de todos os presbyteros e de todos os pastores constituia
o _Consistorio_, que era o conselho executivo e legislativo da Egreja.
O Consistorio reunia-se todas as semanas, sob a presidencia de um dos
quatro syndicos, ou primeiros magistrados, de Genebra, afim de receber
e examinar todos os documentos relativos a irregularidades na vida e
na conducta de quaesquer membros da Egreja, e deliberar ácerca da pena
ecclesiastica a applicar a este ou áquelle caso, pena que podia ir até á
exclusão da Mesa do Senhor. Não estavam auctorizados a infligir qualquer
censura ou castigo que não fosse espiritual, mas tinham obrigação de
participar todos os delictos á auctoridade civil, que era a unica que
tinha o direito de punil-os. Todos os presbyteros eram escolhidos
pela junta, e tinham de ser membros d’ella, resultando de ahi que os
magistrados genebrenses que tomavam assento no consistorio na qualidade
de presbyteros recolhiam as informações relativas a factos criminosos
e transmittiam-n’as a si proprios quando tomavam assento na junta na
qualidade de magistrados.
Os diaconos cuidavam dos pobres e dos enfermos, e eram egualmente
nomeados pela junta.
O plano do governo da Egreja concorda, nas linhas geraes, com os
principios que Calvino expoz nos seus _Institutos_, mas differe d’elles
em tantos detalhes importantes que se torna impossivel acreditar que todo
elle fosse obra do Reformador.
Nos _Institutos_ expoz Calvino com a maxima clareza quaes são os
verdadeiros principios do governo e disciplina ecclesiasticos. Prova que
Deus educa e aperfeiçôa o Seu povo n’esta vida mediante a Sua Egreja,
e que para a edificação da Egreja proveu uma variedade de dons, que
não são concedidos indescriminadamente a todos os christãos, sendo
limitado o numero d’estes que os teem recebido em maior escala. Estes
dons podem ser classificados em tres categorias, instrucção, governo
e caridade, ou, como os reformadores escocezes disseram, doutrina,
disciplina e distribuição, e a Egreja pode verificar que alguns dos seus
membros teem um talento especial para instruir, outros para dirigir, e
outros para tomarem conta das collectas e da distribuição do dinheiro.
Deus conferiu estes dons, e collocou na Egreja homens capazes de os
exercerem, para edificação do Seu povo, e, por consequencia, as funcções
que se desempenham na Egreja são de caracter ministerial e não tendem
a exaltar pessoa alguma. Os officiaes são homens que melhores serviços
podem prestar á communidade, e são, portanto, responsaveis perante
esta e perante Deus pelo modo como os prestam. Calvino insistiu muito
na verdadeira natureza e valor do presbytereado, que elle considerava
a mais efficaz barreira contra a conquista de uma supremacia sobre a
Egreja, como aquella que tinha sido uma das mais censuraveis usurpações
da Egreja de Roma. Mediante este officio tem a Egreja aquelle governo
methodico sem o qual nenhuma sociedade pode existir, e a communidade
christã pode conservar-se livre da usurpação do poder e da tyrannia
ecclesiastica por meio de um governo verdadeiramente representativo, isto
é, livremente escolhido pelos membros da congregação. Calvino affirmou
tambem, com muita insistencia, que este governo era espiritual, e que
só lhe pertencia julgar as infracções espirituaes e infligir castigos
espirituaes. O maior castigo espiritual era, segundo elle, a excommunhão.
=As ordenanças ecclesiasticas differem, a muitos respeitos, dos
principios expostos nos Institutos.=—Calvino combateu sempre
energicamente qualquer confusão entre a jurisdicção civil e a jurisdicção
ecclesiastica, declarando que as duas deviam estar completamente
separadas uma da outra. Nas _Ordenanças_ não se mantem esta separação. A
censura do consistorio era de continuo seguida, como veremos, de multa,
de desterro, e, até, de morte; quando, segundo a theoria de Calvino,
só castigos espirituaes se devem seguir a offensas espirituaes. Os
anciãos que exerciam o governo ou a disciplina não eram escolhidos pela
Egreja, nem eram realmente seus representantes. Eram designados pelos
magistrados civis da cidade, e só eram elegiveis os que já fossem membros
de uma organização politica. Os direitos da communidade christã eram
praticamente desprezados, posto que Calvino houvesse declarado que o
poder ecclesiastico pertencia realmente a toda a assembléa dos crentes. A
junta escolhia os pastores, podendo a Egreja impôr o seu veto; escolhia
d’entre si os presbyteros, e escolhia egualmente os diaconos.
Esta notavel desharmonia com os principios de Calvino era devida aos
magistrados de Genebra, que assim procediam em opposição aos desejos
do Reformador. Sentia-se especialmente molestado com o modo como eram
escolhidos os presbyteros, e declarou que não considerava as _Ordenanças_
um plano perfeito de governo ecclesiastico; pareceu-lhe evidentemente,
porém, que era o melhor que n’aquella occasião se poderia obter, e
acceitou-o, alimentando a esperança de que seria, mais tarde, modificado.
Agradava-lhe tanto, apezar dos seus defeitos, que o considerava um
modelo que podia ser copiado n’outros logares, e exprimiu a esperança de
que Genebra, situada na fronteira da França, da Allemanha e da Italia,
incitaria esses paizes a uma Reforma de caracter, perfeita e permanente.
Não obstante, os pontos em que as _Ordenanças_ divergiam dos principios
que Calvino expoz nos seus _Institutos_ deram occasião a esses
caracteristicos do governo genebrense que mais teem sido reprovados pelos
historiadores. É fóra de duvida que a corrupção moral que predominava
em Genebra foi combatida por leis severissimas, que chegavam mesmo
a ser crueis. A antiga legislação genebrense era, em muitos casos,
bastante severa, e quando se tratava de delictos especiaes a sua
severidade tornava-se extrema; mas depois de publicadas as _Ordenanças
Ecclesiasticas_ as leis foram applicadas com um rigor anteriormente
desconhecido.
O consistorio reunia-se todas as semanas, ás quintas feiras, e eram-lhe
fornecidas informações ácerca da maneira como o povo se comportava; e
essas informações eram communicadas á junta, ou conselho, que era o mesmo
Consistorio, mas revestido da auctoridade civil. Eram prohibidos os
divertimentos ruidosos, os jogos de azar, as danças, as canções profanas,
as pragas e as blasphemias. Todo o cidadão tinha de estar em casa ás nove
horas, sob pena de uma pesada condemnação. O adulterio era punido com
a morte. Uma creança que atirou com umas pedras á mãe foi publicamente
açoitada, e depois suspensa do patibulo pelos braços. Foram abolidas
todas as folganças que tinham logar por occasião dos casamentos; os
cortejos deixaram de levar tambores ou instrumentos musicaes á frente, e
não mais se dançou nas bodas. Os theatros só podiam levar á scena peças
biblicas. Ficou inteiramente prohibida a leitura de romances, e o auctor
de qualquer obra que desagradasse ao Consistorio era mettido na prisão.
Era preciso o maximo cuidado com o que se dizia, chegando as coisas a
tal ponto que os hoteleiros eram obrigados a referir as conversas que os
seus hospedes tinham tido á mesa. Nas hospedarias era tambem prohibido
fornecer comida ou bebida a quem não pedisse, antes de se servir, a
benção de Deus. Não era permittido jejuar, e um certo individuo foi
castigado por não comer carne á sexta-feira.
É impossivel dizer que parte tomou Calvino n’estes regulamentos, de uma
desnecessaria severidade. Muitos historiadores teem affirmado que elle
dispunha de todo o poder em Genebra, e que poderia ter evitado muita
coisa se quizesse. Elle era francez, e nenhuma nação tem como a França
apresentado, em epocas de grande crise, tão duros legisladores. Calvino
não tinha, por outro lado, abjurado a parte mais odiosa da theoria
medieval quanto á disciplina da Egreja, isto é, a que auctorizava os
tribunaes ecclesiasticos a recorrerem ao poder civil para que a certas
offensas espirituaes fosse applicada multa, prisão ou execução capital,
com o fundamento de que constituiam crimes contra a ordem e a paz da
sociedade. Calvino acceitou esta doutrina; e o mesmo fez Beza, que
chamava á liberdade de consciencia uma doutrina diabolica. Os theologos
de Westminster admittiram egualmente a theoria medieval, e trabalharam
para que ella fosse posta em pratica, em detrimento da reforma da egreja
de Inglaterra. Não só Calvino como todos os principaes reformadores
approvaram a morte de Servetus pelo motivo de haver negado a doutrina da
Trindade e apresentado blasphemas asserções em defeza da sua opinião.
Tudo isto tem de ser admittido.
=As ordenanças ecclesiasticas e a reforma dos costumes.=—Devemos
lembrar-nos, por outro lado, de que não podemos dizer o que seria preciso
para obter uma reforma de costumes n’uma cidade tão immoral e tão
turbulenta como Genebra.
A Reforma, justamente porque era um protesto contra o então existente
estado de coisas, teve de navegar contra a corrente do mal, que ella
propria provocou. É-nos quasi tão impossivel comprehender o perigo dos
excessos anabaptistas e outros como comprehender a corrupção moral
da epoca em que o christianismo surgiu e se propagou. Professava-se
o libertinismo pantheistico como se fosse um credo, e os documentos
litterarios do periodo da Renascença revelam uma desaforada sensualidade
que deve ser tomada em conta. O que Calvino viu deante de si em Genebra
foi uma indulgencia para tudo quanto fosse immoral, indulgencia que a
propria religião prescrevia, visto tratar-se de uma coisa natural. Era
este o lado sombrio da Reforma, para o qual não era agradavel olhar,
mas que existia, e que deve ser tomado em conta antes de se julgar o
procedimento do conselho de Genebra ou o de Calvino.
O governo de Calvino, se é que era d’elle, não causou a decima
parte do soffrimento que, a instigação de Luthero, os principes da
Allemanha infligiram aos camponezes revoltosos, e aos seus cabeças,
os enthusiasmados prophetas; mas o soffrimento causado pela paixão
cega, quer provenha do medo quer provenha do odio, tem, o que é coisa
curiosa, sido sempre olhado com maior brandura do que o soffrimento que é
infligido no proseguimento de um rigoroso proposito de reforma.
Á parte de tudo isto, comtudo, não é improvavel que Calvino fosse menos
omnipotente em Genebra do que se suppõe ter sido. A um francez, e de mais
a mais logico como elle era, custa a attribuir as incoherencias que se
notam entre os _Institutos_ e as _Ordenanças Ecclesiasticas_. É preciso
não esquecer que o que tornou possiveis estes castigos que teem sido
tão condemnados foram aquelles pontos das _Ordenanças_ que não eram da
responsabilidade de Calvino, e contra os quaes escreveu. A verdadeira
causa do mal era a relação que havia entre o consistorio e o governo
civil da cidade. Supponhamos que uma das nossas camaras municipaes
se constituia uma vez por semana em commissão zeladora da moralidade
publica. Não se sentiriam escandalizados os vereadores se os casos que
elles apresentassem á commissão, e que mereciam a reprovação d’ella,
ficassem impunes? Não seriam tentados quando, no mesmo dia ou no dia
seguinte, se encontrassem em plena sessão camararia, e revestidos de
toda a sua auctoridade, a insistir na applicação do castigo? Não se deve
attribuir a culpa de todos estes males a Calvino, ou mesmo ao conselho
de Genebra. Surgiram naturalmente das tres vezes abominavel mistura da
direcção dos negocios seculares com a direcção dos negocios espirituaes,
que constitue habitual peccado contra o qual a Egreja e o Estado se devem
precaver.