A Reforma estendeu-se aos cantões circumvisinhos, taes como Basiléa,

Berne, Schaffhausen e Appenzell.

=Basiléa= era a séde de uma famosa universidade, muito frequentada pelos

sabios; Erasmo fazia d’ella o seu quartel general. Era tambem o centro da

industria do papel, e a maquina de impressão de Froben deu-lhe uma grande

celebridade. Era muito visitada pelos artistas, e n’ella habitou o grande

Holbein durante o periodo tumultuoso da Reforma. Muitos dos lettrados

que n’ella residiam estavam sob a influencia de Wyttenbach, professor de

Zwinglio, e achavam-se predispostos para acolher benevolamente as novas

doutrinas. Capito, o futuro reformador de Strasburgo, Polyhistor, o

eminente hebraista e celebre physico, Œcolampadius, o sabio de Reuchlin

e futuro companheiro de Zwinglio, e Farel, joven francez natural do

Delphinado, que tanto insistiu mais tarde com Calvino para que não

deixasse de ser o campeão da Reforma, eram, todos elles, habitantes de

Basiléa.

A polemica de Zurich estimulou alguns d’elles, e Œcolampadius e Farel

começaram a prégar contra a superstição.

=Berne=, a mais aristocratica das pequenas republicas suissas, fez-se

tambem representar na polemica de Zurich, e dentro em pouco a Reforma

começou a palpitar no meio dos cidadãos que a compunham. O conselho foi

instigado a annunciar que na cidade só seria prégado o Evangelho puro, e

tres prégadores, Kolb, Haller e Sebastião Meyer, aproveitaram a permissão

para fallarem contra a missa e contra as ceremonias papistas.

Uma lucta similhante teve logar em quasi todos os outros cantões, durante

a qual a Reforma foi, ainda que lentamente, ganhando sempre terreno, e

por fim a Suissa ficou dividida em duas partes pela questão religiosa.

=Os cantões florestaes= foram os unicos que se conservaram aferrados

ás suas antigas tradições, constituindo um centro de opposição a toda

e qualquer mudança em materia de religião. Quando a Reforma começou a

mostrar um indiscutivel progresso, não só em Zurich como nos outros

cantões, e Berne e Basiléa a haviam adoptado por completo, produziu-se

uma tal exacerbação entre os estados catholicos romanos e os estados

protestantes que a guerra parecia inevitavel. Em 1529 estava, em ambos

os lados, tudo preparado para a lucta, e Zwinglio alimentava a esperança

de que tudo se liquidasse rapidamente e de uma maneira decisiva. Ao

primeiro recontro, porém, não se poude dar o nome de batalha, e os

cantões florestaes, sem terem combatido, assignaram o Tratado de Cappel

em 1529, cuja clausula principal era esta: «Como a palavra de Deus e a fé

não são coisas em que seja licito usar de compulsão, ambos os partidos

ficam com a liberdade de observar o que entenderem ser justo, e tanto nas

provincias communs como nos territorios independentes as congregações

determinarão se a missa e outras usanças devem ser conservadas ou

abolidas.»

Este tratado não foi rigorosamente observado por nenhum dos partidos,

e deu logar a novas contendas, que terminaram com a vinda subita dos

Cantões Florestaes sobre Zurich, cujo exercito derrotaram, ficando

Zwinglio morto. Esta victoria não deu um grande avanço á causa romanista.

O segundo Tratado de Cappel contém quasi as mesmas disposições que o

primeiro, e o resultado foi que, tanto na Suissa como na Allemanha, cada

estado ficou com a liberdade de escolher a sua religião.

=Caracteristicos da Reforma de Zwinglio.=—Com a morte de Zwinglio

termina a primeira phase da Reforma suissa, e, antes de elle morrer,

a conferencia de Marburgo, assim como a antipathia de Luthero por uma

constituição popular na egreja, mostrou claramente que na Reforma tinha

de haver dois movimentos distinctos, que jámais se poderia unificar.

Esta falta de união foi causa de um grande prejuizo, e as culpas não

devem ser atiradas para cima de Zwinglio, mas sim para cima de Luthero.

Ambos tinham o mesmo fim em vista; ambos criam nos mesmos principios

evangelicos; as suas divergencias eram insignificantes, em comparação

de tudo aquillo em que concordavam. O feitio caracteristico da Reforma

de Zwinglio, porém, torna-se muito mais manifesto na sua ultima fórma

sob Calvino, e é referindo-nos a esse periodo que a vamos comparar com o

movimento lutherano.

Zwinglio e os que com elle cooperaram na obra da reforma fizeram muito

pouco no sentido de resolver uma questão que em breve tomou na egreja

reformada uma importancia capital: a maneira como a egreja tinha de ser

governada. Para elle era um ponto indiscutivel a necessidade de ter

sempre presente no espirito de todos que não havia ordem ou classe alguma

de homens que podessem ser chamados _espirituaes_, simplesmente pelo

facto de exercerem certas funcções. O que elle desejava era que todos se

compenetrassem do sacerdocio espiritual de todos os crentes, ministros ou

leigos. Mostrou tambem que era dever de todos os magistrados administrar

em nome de Christo e obedecer ás Suas leis. D’estas inteiramente boas e

verdadeiras idéas passou a perfilhar a opinião de que na egreja não devia

haver um governo separado do que estivesse á testa dos negocios civis

da republica. N’essa conformidade, todos os regulamentos respectivos ao

culto publico, ás doutrinas e á disciplina da egreja foram feitos, no

tempo de Zwinglio, pelo Conselho de Zurich, que era, n’aquelle estado,

o supremo poder civil. Esta sua idéa, mesmo durante a vida d’elle,

apresentou muitos inconvenientes, sendo um dos mais manifestos a ligação

que se formou entre a Reforma protestante e certas emprezas puramente

politicas. Zwinglio entendia que as nações modernas deviam ter, como o

antigo reino de Israel, governos theocraticos. Se as idéas de Zwinglio

tivessem continuado a prevalecer, não é provavel que a Reforma suissa

tivesse exercido o poder que exerceu para além das fronteiras da

republica; posto que, sob a influencia directa de Zwinglio, se adaptassem

facilmente a um pequeno estado como o de Zurich, não se podiam ter

applicado a outros maiores, e de maneira alguma convinham a uma pequena

egreja protestante que tivesse de luctar pela sua existencia contra um

governo secular que lhe fosse hostil.

CAPITULO II

A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO

Genebra perante a Reforma, pag. 67.—Farel em Genebra, pag.

68.—A mocidade de Calvino, pag. 69.—_Institutos da Religião

Christã_, pag. 71.—Calvino em Genebra, pag. 73.—A sua

expulsão, pag. 75.—Genebra não pode passar sem elle, pag.

76.—As _Ordenanças ecclesiasticas_, pag. 77.—Em que differem

dos _Institutos_ pag. 79.—O seu effeito sobre uma reforma de

costumes, pag. 81.—A morte de Calvino, pag. 82.—Succede-lhe

Beza, pag. 83.—A influencia de Calvino sobre a theologia da

Reforma, pag. 83.—A _Confissão de Zurich_, pag. 84.

=Genebra perante a Reforma.=—Depois da morte de Zwinglio e da segunda

Paz de Cappel, em 1531, os incidentes mais notaveis da Reforma suissa

localisaram-se n’uma cidade que estava quasi desligada da confederação.

Genebra era, desde o seculo doze, a séde de um bispado, e os seus bispos

tinham, como muitos outros do Imperio Allemão, jurisdicção sobre os

negocios civis. Os duques de Saboya reivindicavam tambem os seus direitos

sobre a cidade, e os dois partidos, o do bispo e o do duque, andavam

quasi constantemente em guerra.

Durante o seculo quinze a população da cidade foi adquirindo gradualmente

o direito de se governar a si propria, podendo, por fim, eleger um

conselho constituido pelos seus concidadãos. Em 1513 o papa Leão X poz

á testa da diocese um bispo que pertencia á casa de Saboya, e d’este

modo os dois partidos oppostos fundiram-se n’um só. Temos, pois, que no

principio da Reforma estavam em frente uma da outra, em Genebra, duas

facções rivaes: a dos saboyannos e a dos habitantes da cidade. Um dos

partidos trabalhava para que a cidade ficasse por completo sob o dominio

da casa de Saboya; o outro pretendia tornal-a uma republica livre, como

os cantões da Suissa, e para conseguirem o fim que tinham em vista

contrairam uma alliança com Berne e com Freiburgo. Os saboyannos, que com

os seus modos atrevidos e licenciosos se haviam tornado muito mal vistos

pela pacifica população, eram conhecidos pelo nome de «mamelukos», ao

passo que os do partido republicano eram cognominados «Eidgenossen»,

isto é, confederados. Este ultimo nome desperta algum interesse, por ser

provavelmente d’elle que se originou o nome do grande partido protestante

francez, os huguenotes.

A erudição do periodo da Renascença havia penetrado na cidade, assim

como a devassidão italiana. O partido aristocratico tinha-se tornado

notorio pela sua má vida. O palacio do bispo e o castello do duque de

Saboya eram theatro dos mais impudentes excessos, e estes maus exemplos

tinham corrompido muito a gente da cidade. O clero seguia o exemplo do

seu superior, e consta que havia apenas uma casa religiosa, o convento

das freiras franciscanas, em que se observava uma certa pureza de vida.

Os republicanos não eram isentos dos vicios que deshonravam os seus

adversarios; o seu desejo de liberdade era muitas vezes um desejo de

licença, e o seu enthusiasmo republicano tinha em muitos casos uma origem

pagã. Eram filhos da Renascença, e possuiam todos os defeitos d’esse

estranho movimento. A cidade estava cheia de scepticismo, licenciosidade

e superstição. As indulgencias do papa tiveram sempre muito boa venda em

Genebra.

=Farel em Genebra.=—Estavam as coisas n’este pé quando, em 1532,

veiu residir para Genebra, começando a prégar violentos e impetuosos

sermões contra o «anti-christo romano» e a idolatria e superstições da

egreja romanista, um joven francez, Guilherme Farel, que fôra um dos

reformadores de Berne. As suas predicas produziram um grande alvoroço;

os partidarios do bispo denunciaram-n’o, e os burguezes tinham a seu

respeito opiniões desencontradas.

Em 1525 os «eidgenossen» estavam definitivamente alliados a Berne e

a Freiburgo. Berne era protestante, e havia enviado Farel a Genebra;

Freiburgo era romanista, e havia encarregado algumas pessoas de instarem

com os burguezes para que pozessem fóra da cidade o impetuoso orador.

Elles pensaram muito no caso, e por fim pediram a Farel que se retirasse.

Este assim fez. O conselho resolveu depois manter a alliança com Berne,

que era o cantão mais forte, e dar uma das egrejas á gente de Berne, para

celebrarem n’ella o culto protestante. Farel voltou para Genebra, e foi

nomeado pastor d’essa egreja. O povo vinha em grandes multidões ouvil-o

prégar, e a Reforma foi avançando.

O duque de Saboya e o cantão de Freiburgo fizeram causa commum contra

Genebra, atacaram-n’a, e foram repellidos. O Conselho declarou abolida a

diocese, concedeu a Farel plena liberdade para prégar, e os seus sermões

sobre liberdade civil e religiosa accenderam o enthusiasmo do povo. Em

1535 teve logar, por ordem do conselho, uma assembléa publica, em que

Farel e tres companheiros seus desafiaram todos os presentes, como os

cavalleiros faziam nos torneios, para discutirem com elles os pontos

sobre theologia e moral que estavam em debate entre a egreja de Roma e os

reformadores.

O povo de Genebra, impetuoso e desordenado, que não sabia conter-se,

nem comprehendia que as coisas tinham de ser feitas devagar e com a

devida legalidade, precipitou-se, depois da polemica, para as egrejas,

destruiu as reliquias, derrubou as imagens, rasgou os paramentos, e

commetteu muitos outros actos de violencia. Em 27 de agosto o conselho

declarou abolido o catholicismo romano, e ordenou a todos os cidadãos

que adoptassem a religião reformada. A conversão forçada de uma cidade

inteira, por mandado do conselho municipal, suprema auctoridade civil,

não poderia, decerto, melhorar o caracter do povo. Havia, sem duvida,

muita gente sobre quem a prégação de Farel produzira bom effeito, mas

o Evangelho não pode conquistar os corações quando é imposto d’aquella

fórma. O estado moral da cidade era tão mau como no tempo do bispo, e

tudo indicava uma mudança para peior. Uns certos enthusiastas devassos

começaram a apregoar doutrinas falsas e immoraes ácerca da natureza da

liberdade christã. Parecia não haver meio de suster o povo. Farel tinha

esgotado todos os recursos da sua intelligencia. Por fim teve mão n’um

moço estudante francez que, quasi accidentalmente, se encontrava na

cidade, e supplicou-lhe que se conservasse junto d’elle e o auxiliasse.

Esse moço estudante era João Calvino, e aquella visita casual foi o

inicio da obra de Calvino em Genebra, tão importante para todas as

egrejas reformadas da Europa.

=A mocidade de Calvino.=—João Calvino, ou Chauvin, nasceu em Noyon, na

Picardia, em 10 de Julho de 1509. Era, portanto, uma creança quando

Luthero e Zwinglio começaram a atacar a egreja romanista, e pode-se

dizer que pertence á segunda geração da Reforma. O pae exercia um cargo

publico em Noyon, e era, além d’isso, secretario do bispo; a mãe, uma

senhora muito religiosa, chamava-se Joanna Le Franc de Cambrai. As

relações que o pae mantinha com as familias nobres da região e com o

bispo habilitaram-n’o a dar ao filho a melhor educação que n’aquelle

tempo era possivel adquirir-se. O rapaz foi creado com os filhos da nobre

familia de Mommor, e havia-lhe sido destinada, desde os primeiros annos,

a carreira ecclesiastica.

Quando o joven Calvino contava apenas treze annos, o pae obteve para

elle a apresentação para um beneficio ecclesiastico, e mandou-o para a

universidade de Paris. Foi primeiro para o Collegio de La Marche, onde

teve por professor o celebre Mathurino Corderier,[1] e em seguida para o

Collegio Montaigu, que mais tarde recebeu um outro alumno que egualmente

se celebrizou, Ignacio de Loyola.

Consta que o joven Calvino era pouco sociavel, e que os seus

condiscipulos lhe pozeram a alcunha de «caso accusativo», pelo motivo de

estar sempre a queixar-se d’este ou de aquelle. Quando elle tinha dezoito

annos, o pae obteve-lhe outro beneficio, e, para receber o respectivo

estipendio, teve de sujeitar-se á tonsura, sendo esta a unica coisa

que elle teve em commum com os padres da egreja de Roma. Não chegou a

ordenar-se, nem fez voto de celibato.

Em 1528 o pae teve uma desintelligencia com o bispo, e resolveu que o

filho, em vez de padre, fosse advogado, mandando-o, com esse intuito,

estudar jurisprudencia em Orleans. O mancebo obedeceu; tornou-se um

applicado estudante de direito, posto que similhantes estudos não fossem

do seu gosto; e, trabalhando de dia e de noite, conseguiu cursar com

egual exito tanto aquella faculdade como a de theologia. Alcançou fama

de ser o estudante mais distincto do seu tempo, e era voz corrente que

com as suas aptidões podia aspirar á mais elevada posição na carreira

juridica.

Com a morte do pae, em 1531, Calvino adquiriu a liberdade para seguir a

vida que mais lhe agradasse. Abandonou os estudos de direito, voltou,

em 1532, para Paris, e aggregou-se socegadamente á pequena communidade

de protestantes que costumavam reunir-se n’essa cidade para lerem e

estudarem as Escripturas, e para fazerem oração. Elle não nos diz

porque deu esse passo. Fêl-o tão naturalmente que com certeza já havia

muito que andava pensando no caso. Calvino fugia sempre de fallar no

que se tinha passado com elle sob o ponto de vista religioso. Era, a

este respeito, muito differente de Luthero. Este contava a sua historia

com a maxima franqueza, a todos expunha as suas duvidas, os seus

temores, a sua fé. Cada um tinha a sua natureza especial. Só uma vez é

que Calvino tirou de cima de si o véu com que se cobria. No prefacio

ao assombroso _Commentario ao Livro dos Psalmos_ diz-nos que Deus o

attraiu a Si mediante uma «subita conversão». Devia ter acontecido isso

quando Calvino estava em Orleans. Desde esse momento renunciou a uma

brilhante carreira, não quiz acceitar mais os proventos ecclesiasticos,

e ajuntou-se á pequena communidade evangelica de Paris, disposto a

partilhar os perigos que ella corresse.

Entregou-se a uma tranquilla vida litteraria, e já tinha começado a

publicar algumas obras, quando teve de fugir de Paris a toda a pressa,

para não ser preso por causa da sua religião. Foi para Strasburgo, onde

travou conhecimento com o reformador Martinho Bucer, e de ahi para

Basiléa e varios outros pontos, levando uma vida de estudante nomada.

[1] Corderier, Corderius, ou Cordery era, ha cincoenta annos,

um nome bem conhecido nas escolas paroquiaes da Escocia, onde

se fazia uso dos seus exercicios em todas as aulas de latim.

Converteu-se á fé reformada mediante o seu famoso discipulo,

e fez tudo quanto estava ao seu alcance para espalhar as

doutrinas evangelicas, utilisando para esse fim as phrases

que nos seus exercicios deviam ser traduzidas em latim. Na

edição que publicou pouco depois da sua conversão, as referidas

phrases eram breves exposições das verdades evangelicas,

ou energicos, ainda que laconicos, ataques ás superstições

romanistas. Seguiu Calvino para Genebra, e falleceu ahi aos 88

annos.

=Os Institutos da Religião Christã.=—Na primavera de 1536 publicou em

Basiléa a primeira edição dos seus _Institutos da Religião Christã_. A

obra estava escripta em latim, e foi depois traduzida em francez, para

uso, como elle proprio disse, dos seus compatriotas. A primeira edição

era mais pequena, e a todos os respeitos inferior, ás edições revistas de

1539 e 1559; mas como producção de um rapaz de vinte e seis annos, que

era a edade que Calvino tinha quando a publicou, não tem talvez rival.

Grangeou para o seu auctor o titulo de «Aristoteles da Reforma», e, mais

do que qualquer outro trabalho theologico, influiu nas idéas e amoldou o

caracter da Reforma Protestante.

Calvino diz-nos, no seu prefacio, que escreveu este livro com um

duplo fim. Quiz, com elle, «preparar os estudantes de theologia para

a leitura da Palavra divina, fornecendo-lhes uma facil introducção, e

habilitando-os a vencer todos os embaraços». Mas tinha tambem em vista

justificar o ensino dos reformadores e desfazer as calumnias dos seus

inimigos, que haviam instado com o rei de França para que os perseguisse,

e os expulsasse de França. Tinha a seguinte dedicatoria: «_A Sua

Christianissima Magestade, Francisco, rei de França, e seu soberano, João

Calvino deseja paz e salvação em Christo_». E ajuntava: «Exponho-vos a

minha confissão, para que conheçaes a natureza d’essa doutrina que tem

provocado uma tão ilimitada raiva a esses desvairados que estão agora,

por meio do fogo e da espada, pondo o vosso reino em desasocego. Pois

não tenho receio algum de confessar que este tratado contém um summario

d’essa mesma doutrina que, segundo os clamores d’elles, merece ser

castigada com prisão, desterro, proscripção e fogueira, e exterminada da

superficie da terra».

Quiz, de um modo preciso, e com toda a brandura, mostrar o que os

protestantes queriam, e fêl-o tão habilmente que incitou logo á

comparação d’essas crenças com o ensino da egreja medieval. Luthero fez

grande ostentação do Credo dos Apostolos, e nunca se cançava de dizer

que elle e os seus correligionarios acceitavam aquella antiga e venerada

summula da fé christã, e que, portanto, os protestantes pertenciam á

Egreja Catholica de Christo. Calvino reivindicou o mesmo; mas não ficou

por ahi: mostrou que aquella asserção era verdadeira, ainda mesmo quando

se descesse aos mais pequenos detalhes, e que, postos á prova do Credo

dos Apostolos, os protestantes eram catholicos mais genuinos do que os

romanistas.

Para ver claramente o que Calvino tinha na idéa com a publicação dos seus

_Institutos_ é necessario lembrar o que era o Credo dos Apostolos. Nosso

Senhor, antes da Sua ascensão, disse aos Seus discipulos que fossem a

todas as nações, baptizando-as em nome do Pae, do Filho e do Espirito

Santo; e assim os pastores christãos da era apostolica e post-apostolica,

quando recebiam na Egreja as pessoas que se convertiam, exigiam d’ellas

que fizessem a seguinte profissão de fé: «_Creio em Deus Pae, e em Seu

Filho Jesus Christo, e no Espirito Santo_, sendo esta a mais antiga e

mais simples formula do Credo. Depois accrescentou-se-lhe mais estas

palavras: _e na Santa Egreja Catholica_. Estas quatro orações eram

proferidas por todos os neophytos por occasião do baptismo. O Credo

dos Apostolos e todos os outros credos primitivos são simplesmente

desenvolvimentos d’essas quatro phrases; e os primeiros livros

theologicos que explicavam todos os pontos referentes á doutrina christã

eram exposições do Credo, assim como o Credo era, por seu turno, uma

exposição da confissão baptismal. Isto mostra-nos, entre outras coisas,

que a verdadeira theologia nasceu da simples expressão de uma confiança

em Deus acompanhada de adoração.

Os _Institutos_ de Calvino são, na realidade, uma exposição do Credo, e

dividem-se em quatro partes, cada uma d’ellas explicando uma porção do

Credo. A primeira parte falla de Deus o Creador, ou, como o Credo diz:

«Deus, Pae Omnipotente, Creador do céu e da terra»; a segunda parte

de Deus Filho, o Redemptor, e da Sua redempção; a terceira parte, de

Deus Espirito Santo e dos Seus meios de graça; e a quarta, da Egreja

Catholica, e da sua natureza e distinctivos.

A disposição, pois, que elle deu á sua obra, seguindo passo a passo

o Credo dos Apostolos, mostra que Calvino mantinha ácerca da Reforma

aquella mesma opinião que Luthero diligenciou expôr nitidamente no seu

tratado sobre o _Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus_. Nunca lhe

acudiu á mente que estivesse contribuindo para a fundação de uma nova

egreja, ou que estivesse elaborando um novo credo, ou escrevendo uma nova

theologia. Não cria que os protestantes fossem homens que mantivessem

opiniões originaes, até então desconhecidas. A theologia da Reforma era

a velha theologia da Egreja de Christo, e as opiniões dos protestantes

eram convicções da verdade que se baseiavam na Palavra de Deus, e que,

conforme constava da historia da Christandade, haviam sido partilhadas

por todo o povo religioso. A theologia em que elle cria e que elle

ensinava era a velha theologia dos primitivos credos, exposta com toda

a clareza, e despojada das supersticiosas e falsas noções que pelos

pensadores medievaes haviam sido copiadas dos ritos e philosophia do

paganismo. A Reforma, dizia-se nos _Institutos_, não engendra opiniões

novas, trata apenas de desmascarar as falsidades e apresentar, em toda a

sua pureza, as verdades antigas.

=Calvino em Genebra.=—A publicação dos _Institutos_ fez com que Calvino

se tornasse bem conhecido dos primeiros vultos da Reforma; e quando, nas

suas peregrinações, deu comsigo em Genebra, tencionando passar ali a

noite e abalar em seguida, Farel pediu-lhe que ficasse ali com elle e o

auxiliasse nas difficuldades em que se encontrava. Calvino não queria de

fórma alguma abandonar aquella sua vida de estudante, mas ao mesmo tempo

reconhecia que era um dever para elle deitar mãos ao trabalho que podia

executar em Genebra, e por fim resolveu ficar na companhia de Farel.

Diz elle no prefacio ao seu _Commentario sobre o Livro dos Psalmos_:

«Como o caminho mais direito para Strasburgo, para onde tencionava

retirar-me, estava impedido por causa da guerra, tinha resolvido passar

rapidamente por Genebra, demorando-me na cidade uma noite apenas....

Sabedor d’isto, Farel, que trabalhava com extraordinario zelo para que o

Evangelho progredisse, empregou logo os maiores esforços para me deter.

E, depois de lhe ter dito que toda a minha ambição era poder entregar-me

socegadamente aos meus estudos, não me encontrando, portanto, predisposto

para qualquer outro encargo, elle, perdida a esperança de conseguir

qualquer coisa por meio de rogos, começou com imprecações, invocando

a maldição de Deus sobre os estudos que eu desejava fazer com toda a

tranquilidade, se eu me retirasse, deixando de prestar o meu concurso

n’uma occasião de aquellas em que era tão necessario. Ouvindo estas

suas palavras, senti-me tão atterrorisado que desisti da viagem que

projectava.»

A Reforma · 第 7 / 27 段