Berne, Schaffhausen e Appenzell.
=Basiléa= era a séde de uma famosa universidade, muito frequentada pelos
sabios; Erasmo fazia d’ella o seu quartel general. Era tambem o centro da
industria do papel, e a maquina de impressão de Froben deu-lhe uma grande
celebridade. Era muito visitada pelos artistas, e n’ella habitou o grande
Holbein durante o periodo tumultuoso da Reforma. Muitos dos lettrados
que n’ella residiam estavam sob a influencia de Wyttenbach, professor de
Zwinglio, e achavam-se predispostos para acolher benevolamente as novas
doutrinas. Capito, o futuro reformador de Strasburgo, Polyhistor, o
eminente hebraista e celebre physico, Œcolampadius, o sabio de Reuchlin
e futuro companheiro de Zwinglio, e Farel, joven francez natural do
Delphinado, que tanto insistiu mais tarde com Calvino para que não
deixasse de ser o campeão da Reforma, eram, todos elles, habitantes de
Basiléa.
A polemica de Zurich estimulou alguns d’elles, e Œcolampadius e Farel
começaram a prégar contra a superstição.
=Berne=, a mais aristocratica das pequenas republicas suissas, fez-se
tambem representar na polemica de Zurich, e dentro em pouco a Reforma
começou a palpitar no meio dos cidadãos que a compunham. O conselho foi
instigado a annunciar que na cidade só seria prégado o Evangelho puro, e
tres prégadores, Kolb, Haller e Sebastião Meyer, aproveitaram a permissão
para fallarem contra a missa e contra as ceremonias papistas.
Uma lucta similhante teve logar em quasi todos os outros cantões, durante
a qual a Reforma foi, ainda que lentamente, ganhando sempre terreno, e
por fim a Suissa ficou dividida em duas partes pela questão religiosa.
=Os cantões florestaes= foram os unicos que se conservaram aferrados
ás suas antigas tradições, constituindo um centro de opposição a toda
e qualquer mudança em materia de religião. Quando a Reforma começou a
mostrar um indiscutivel progresso, não só em Zurich como nos outros
cantões, e Berne e Basiléa a haviam adoptado por completo, produziu-se
uma tal exacerbação entre os estados catholicos romanos e os estados
protestantes que a guerra parecia inevitavel. Em 1529 estava, em ambos
os lados, tudo preparado para a lucta, e Zwinglio alimentava a esperança
de que tudo se liquidasse rapidamente e de uma maneira decisiva. Ao
primeiro recontro, porém, não se poude dar o nome de batalha, e os
cantões florestaes, sem terem combatido, assignaram o Tratado de Cappel
em 1529, cuja clausula principal era esta: «Como a palavra de Deus e a fé
não são coisas em que seja licito usar de compulsão, ambos os partidos
ficam com a liberdade de observar o que entenderem ser justo, e tanto nas
provincias communs como nos territorios independentes as congregações
determinarão se a missa e outras usanças devem ser conservadas ou
abolidas.»
Este tratado não foi rigorosamente observado por nenhum dos partidos,
e deu logar a novas contendas, que terminaram com a vinda subita dos
Cantões Florestaes sobre Zurich, cujo exercito derrotaram, ficando
Zwinglio morto. Esta victoria não deu um grande avanço á causa romanista.
O segundo Tratado de Cappel contém quasi as mesmas disposições que o
primeiro, e o resultado foi que, tanto na Suissa como na Allemanha, cada
estado ficou com a liberdade de escolher a sua religião.
=Caracteristicos da Reforma de Zwinglio.=—Com a morte de Zwinglio
termina a primeira phase da Reforma suissa, e, antes de elle morrer,
a conferencia de Marburgo, assim como a antipathia de Luthero por uma
constituição popular na egreja, mostrou claramente que na Reforma tinha
de haver dois movimentos distinctos, que jámais se poderia unificar.
Esta falta de união foi causa de um grande prejuizo, e as culpas não
devem ser atiradas para cima de Zwinglio, mas sim para cima de Luthero.
Ambos tinham o mesmo fim em vista; ambos criam nos mesmos principios
evangelicos; as suas divergencias eram insignificantes, em comparação
de tudo aquillo em que concordavam. O feitio caracteristico da Reforma
de Zwinglio, porém, torna-se muito mais manifesto na sua ultima fórma
sob Calvino, e é referindo-nos a esse periodo que a vamos comparar com o
movimento lutherano.
Zwinglio e os que com elle cooperaram na obra da reforma fizeram muito
pouco no sentido de resolver uma questão que em breve tomou na egreja
reformada uma importancia capital: a maneira como a egreja tinha de ser
governada. Para elle era um ponto indiscutivel a necessidade de ter
sempre presente no espirito de todos que não havia ordem ou classe alguma
de homens que podessem ser chamados _espirituaes_, simplesmente pelo
facto de exercerem certas funcções. O que elle desejava era que todos se
compenetrassem do sacerdocio espiritual de todos os crentes, ministros ou
leigos. Mostrou tambem que era dever de todos os magistrados administrar
em nome de Christo e obedecer ás Suas leis. D’estas inteiramente boas e
verdadeiras idéas passou a perfilhar a opinião de que na egreja não devia
haver um governo separado do que estivesse á testa dos negocios civis
da republica. N’essa conformidade, todos os regulamentos respectivos ao
culto publico, ás doutrinas e á disciplina da egreja foram feitos, no
tempo de Zwinglio, pelo Conselho de Zurich, que era, n’aquelle estado,
o supremo poder civil. Esta sua idéa, mesmo durante a vida d’elle,
apresentou muitos inconvenientes, sendo um dos mais manifestos a ligação
que se formou entre a Reforma protestante e certas emprezas puramente
politicas. Zwinglio entendia que as nações modernas deviam ter, como o
antigo reino de Israel, governos theocraticos. Se as idéas de Zwinglio
tivessem continuado a prevalecer, não é provavel que a Reforma suissa
tivesse exercido o poder que exerceu para além das fronteiras da
republica; posto que, sob a influencia directa de Zwinglio, se adaptassem
facilmente a um pequeno estado como o de Zurich, não se podiam ter
applicado a outros maiores, e de maneira alguma convinham a uma pequena
egreja protestante que tivesse de luctar pela sua existencia contra um
governo secular que lhe fosse hostil.
CAPITULO II
A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO
Genebra perante a Reforma, pag. 67.—Farel em Genebra, pag.
68.—A mocidade de Calvino, pag. 69.—_Institutos da Religião
Christã_, pag. 71.—Calvino em Genebra, pag. 73.—A sua
expulsão, pag. 75.—Genebra não pode passar sem elle, pag.
76.—As _Ordenanças ecclesiasticas_, pag. 77.—Em que differem
dos _Institutos_ pag. 79.—O seu effeito sobre uma reforma de
costumes, pag. 81.—A morte de Calvino, pag. 82.—Succede-lhe
Beza, pag. 83.—A influencia de Calvino sobre a theologia da
Reforma, pag. 83.—A _Confissão de Zurich_, pag. 84.
=Genebra perante a Reforma.=—Depois da morte de Zwinglio e da segunda
Paz de Cappel, em 1531, os incidentes mais notaveis da Reforma suissa
localisaram-se n’uma cidade que estava quasi desligada da confederação.
Genebra era, desde o seculo doze, a séde de um bispado, e os seus bispos
tinham, como muitos outros do Imperio Allemão, jurisdicção sobre os
negocios civis. Os duques de Saboya reivindicavam tambem os seus direitos
sobre a cidade, e os dois partidos, o do bispo e o do duque, andavam
quasi constantemente em guerra.
Durante o seculo quinze a população da cidade foi adquirindo gradualmente
o direito de se governar a si propria, podendo, por fim, eleger um
conselho constituido pelos seus concidadãos. Em 1513 o papa Leão X poz
á testa da diocese um bispo que pertencia á casa de Saboya, e d’este
modo os dois partidos oppostos fundiram-se n’um só. Temos, pois, que no
principio da Reforma estavam em frente uma da outra, em Genebra, duas
facções rivaes: a dos saboyannos e a dos habitantes da cidade. Um dos
partidos trabalhava para que a cidade ficasse por completo sob o dominio
da casa de Saboya; o outro pretendia tornal-a uma republica livre, como
os cantões da Suissa, e para conseguirem o fim que tinham em vista
contrairam uma alliança com Berne e com Freiburgo. Os saboyannos, que com
os seus modos atrevidos e licenciosos se haviam tornado muito mal vistos
pela pacifica população, eram conhecidos pelo nome de «mamelukos», ao
passo que os do partido republicano eram cognominados «Eidgenossen»,
isto é, confederados. Este ultimo nome desperta algum interesse, por ser
provavelmente d’elle que se originou o nome do grande partido protestante
francez, os huguenotes.
A erudição do periodo da Renascença havia penetrado na cidade, assim
como a devassidão italiana. O partido aristocratico tinha-se tornado
notorio pela sua má vida. O palacio do bispo e o castello do duque de
Saboya eram theatro dos mais impudentes excessos, e estes maus exemplos
tinham corrompido muito a gente da cidade. O clero seguia o exemplo do
seu superior, e consta que havia apenas uma casa religiosa, o convento
das freiras franciscanas, em que se observava uma certa pureza de vida.
Os republicanos não eram isentos dos vicios que deshonravam os seus
adversarios; o seu desejo de liberdade era muitas vezes um desejo de
licença, e o seu enthusiasmo republicano tinha em muitos casos uma origem
pagã. Eram filhos da Renascença, e possuiam todos os defeitos d’esse
estranho movimento. A cidade estava cheia de scepticismo, licenciosidade
e superstição. As indulgencias do papa tiveram sempre muito boa venda em
Genebra.
=Farel em Genebra.=—Estavam as coisas n’este pé quando, em 1532,
veiu residir para Genebra, começando a prégar violentos e impetuosos
sermões contra o «anti-christo romano» e a idolatria e superstições da
egreja romanista, um joven francez, Guilherme Farel, que fôra um dos
reformadores de Berne. As suas predicas produziram um grande alvoroço;
os partidarios do bispo denunciaram-n’o, e os burguezes tinham a seu
respeito opiniões desencontradas.
Em 1525 os «eidgenossen» estavam definitivamente alliados a Berne e
a Freiburgo. Berne era protestante, e havia enviado Farel a Genebra;
Freiburgo era romanista, e havia encarregado algumas pessoas de instarem
com os burguezes para que pozessem fóra da cidade o impetuoso orador.
Elles pensaram muito no caso, e por fim pediram a Farel que se retirasse.
Este assim fez. O conselho resolveu depois manter a alliança com Berne,
que era o cantão mais forte, e dar uma das egrejas á gente de Berne, para
celebrarem n’ella o culto protestante. Farel voltou para Genebra, e foi
nomeado pastor d’essa egreja. O povo vinha em grandes multidões ouvil-o
prégar, e a Reforma foi avançando.
O duque de Saboya e o cantão de Freiburgo fizeram causa commum contra
Genebra, atacaram-n’a, e foram repellidos. O Conselho declarou abolida a
diocese, concedeu a Farel plena liberdade para prégar, e os seus sermões
sobre liberdade civil e religiosa accenderam o enthusiasmo do povo. Em
1535 teve logar, por ordem do conselho, uma assembléa publica, em que
Farel e tres companheiros seus desafiaram todos os presentes, como os
cavalleiros faziam nos torneios, para discutirem com elles os pontos
sobre theologia e moral que estavam em debate entre a egreja de Roma e os
reformadores.
O povo de Genebra, impetuoso e desordenado, que não sabia conter-se,
nem comprehendia que as coisas tinham de ser feitas devagar e com a
devida legalidade, precipitou-se, depois da polemica, para as egrejas,
destruiu as reliquias, derrubou as imagens, rasgou os paramentos, e
commetteu muitos outros actos de violencia. Em 27 de agosto o conselho
declarou abolido o catholicismo romano, e ordenou a todos os cidadãos
que adoptassem a religião reformada. A conversão forçada de uma cidade
inteira, por mandado do conselho municipal, suprema auctoridade civil,
não poderia, decerto, melhorar o caracter do povo. Havia, sem duvida,
muita gente sobre quem a prégação de Farel produzira bom effeito, mas
o Evangelho não pode conquistar os corações quando é imposto d’aquella
fórma. O estado moral da cidade era tão mau como no tempo do bispo, e
tudo indicava uma mudança para peior. Uns certos enthusiastas devassos
começaram a apregoar doutrinas falsas e immoraes ácerca da natureza da
liberdade christã. Parecia não haver meio de suster o povo. Farel tinha
esgotado todos os recursos da sua intelligencia. Por fim teve mão n’um
moço estudante francez que, quasi accidentalmente, se encontrava na
cidade, e supplicou-lhe que se conservasse junto d’elle e o auxiliasse.
Esse moço estudante era João Calvino, e aquella visita casual foi o
inicio da obra de Calvino em Genebra, tão importante para todas as
egrejas reformadas da Europa.
=A mocidade de Calvino.=—João Calvino, ou Chauvin, nasceu em Noyon, na
Picardia, em 10 de Julho de 1509. Era, portanto, uma creança quando
Luthero e Zwinglio começaram a atacar a egreja romanista, e pode-se
dizer que pertence á segunda geração da Reforma. O pae exercia um cargo
publico em Noyon, e era, além d’isso, secretario do bispo; a mãe, uma
senhora muito religiosa, chamava-se Joanna Le Franc de Cambrai. As
relações que o pae mantinha com as familias nobres da região e com o
bispo habilitaram-n’o a dar ao filho a melhor educação que n’aquelle
tempo era possivel adquirir-se. O rapaz foi creado com os filhos da nobre
familia de Mommor, e havia-lhe sido destinada, desde os primeiros annos,
a carreira ecclesiastica.
Quando o joven Calvino contava apenas treze annos, o pae obteve para
elle a apresentação para um beneficio ecclesiastico, e mandou-o para a
universidade de Paris. Foi primeiro para o Collegio de La Marche, onde
teve por professor o celebre Mathurino Corderier,[1] e em seguida para o
Collegio Montaigu, que mais tarde recebeu um outro alumno que egualmente
se celebrizou, Ignacio de Loyola.
Consta que o joven Calvino era pouco sociavel, e que os seus
condiscipulos lhe pozeram a alcunha de «caso accusativo», pelo motivo de
estar sempre a queixar-se d’este ou de aquelle. Quando elle tinha dezoito
annos, o pae obteve-lhe outro beneficio, e, para receber o respectivo
estipendio, teve de sujeitar-se á tonsura, sendo esta a unica coisa
que elle teve em commum com os padres da egreja de Roma. Não chegou a
ordenar-se, nem fez voto de celibato.
Em 1528 o pae teve uma desintelligencia com o bispo, e resolveu que o
filho, em vez de padre, fosse advogado, mandando-o, com esse intuito,
estudar jurisprudencia em Orleans. O mancebo obedeceu; tornou-se um
applicado estudante de direito, posto que similhantes estudos não fossem
do seu gosto; e, trabalhando de dia e de noite, conseguiu cursar com
egual exito tanto aquella faculdade como a de theologia. Alcançou fama
de ser o estudante mais distincto do seu tempo, e era voz corrente que
com as suas aptidões podia aspirar á mais elevada posição na carreira
juridica.
Com a morte do pae, em 1531, Calvino adquiriu a liberdade para seguir a
vida que mais lhe agradasse. Abandonou os estudos de direito, voltou,
em 1532, para Paris, e aggregou-se socegadamente á pequena communidade
de protestantes que costumavam reunir-se n’essa cidade para lerem e
estudarem as Escripturas, e para fazerem oração. Elle não nos diz
porque deu esse passo. Fêl-o tão naturalmente que com certeza já havia
muito que andava pensando no caso. Calvino fugia sempre de fallar no
que se tinha passado com elle sob o ponto de vista religioso. Era, a
este respeito, muito differente de Luthero. Este contava a sua historia
com a maxima franqueza, a todos expunha as suas duvidas, os seus
temores, a sua fé. Cada um tinha a sua natureza especial. Só uma vez é
que Calvino tirou de cima de si o véu com que se cobria. No prefacio
ao assombroso _Commentario ao Livro dos Psalmos_ diz-nos que Deus o
attraiu a Si mediante uma «subita conversão». Devia ter acontecido isso
quando Calvino estava em Orleans. Desde esse momento renunciou a uma
brilhante carreira, não quiz acceitar mais os proventos ecclesiasticos,
e ajuntou-se á pequena communidade evangelica de Paris, disposto a
partilhar os perigos que ella corresse.
Entregou-se a uma tranquilla vida litteraria, e já tinha começado a
publicar algumas obras, quando teve de fugir de Paris a toda a pressa,
para não ser preso por causa da sua religião. Foi para Strasburgo, onde
travou conhecimento com o reformador Martinho Bucer, e de ahi para
Basiléa e varios outros pontos, levando uma vida de estudante nomada.
[1] Corderier, Corderius, ou Cordery era, ha cincoenta annos,
um nome bem conhecido nas escolas paroquiaes da Escocia, onde
se fazia uso dos seus exercicios em todas as aulas de latim.
Converteu-se á fé reformada mediante o seu famoso discipulo,
e fez tudo quanto estava ao seu alcance para espalhar as
doutrinas evangelicas, utilisando para esse fim as phrases
que nos seus exercicios deviam ser traduzidas em latim. Na
edição que publicou pouco depois da sua conversão, as referidas
phrases eram breves exposições das verdades evangelicas,
ou energicos, ainda que laconicos, ataques ás superstições
romanistas. Seguiu Calvino para Genebra, e falleceu ahi aos 88
annos.
=Os Institutos da Religião Christã.=—Na primavera de 1536 publicou em
Basiléa a primeira edição dos seus _Institutos da Religião Christã_. A
obra estava escripta em latim, e foi depois traduzida em francez, para
uso, como elle proprio disse, dos seus compatriotas. A primeira edição
era mais pequena, e a todos os respeitos inferior, ás edições revistas de
1539 e 1559; mas como producção de um rapaz de vinte e seis annos, que
era a edade que Calvino tinha quando a publicou, não tem talvez rival.
Grangeou para o seu auctor o titulo de «Aristoteles da Reforma», e, mais
do que qualquer outro trabalho theologico, influiu nas idéas e amoldou o
caracter da Reforma Protestante.
Calvino diz-nos, no seu prefacio, que escreveu este livro com um
duplo fim. Quiz, com elle, «preparar os estudantes de theologia para
a leitura da Palavra divina, fornecendo-lhes uma facil introducção, e
habilitando-os a vencer todos os embaraços». Mas tinha tambem em vista
justificar o ensino dos reformadores e desfazer as calumnias dos seus
inimigos, que haviam instado com o rei de França para que os perseguisse,
e os expulsasse de França. Tinha a seguinte dedicatoria: «_A Sua
Christianissima Magestade, Francisco, rei de França, e seu soberano, João
Calvino deseja paz e salvação em Christo_». E ajuntava: «Exponho-vos a
minha confissão, para que conheçaes a natureza d’essa doutrina que tem
provocado uma tão ilimitada raiva a esses desvairados que estão agora,
por meio do fogo e da espada, pondo o vosso reino em desasocego. Pois
não tenho receio algum de confessar que este tratado contém um summario
d’essa mesma doutrina que, segundo os clamores d’elles, merece ser
castigada com prisão, desterro, proscripção e fogueira, e exterminada da
superficie da terra».
Quiz, de um modo preciso, e com toda a brandura, mostrar o que os
protestantes queriam, e fêl-o tão habilmente que incitou logo á
comparação d’essas crenças com o ensino da egreja medieval. Luthero fez
grande ostentação do Credo dos Apostolos, e nunca se cançava de dizer
que elle e os seus correligionarios acceitavam aquella antiga e venerada
summula da fé christã, e que, portanto, os protestantes pertenciam á
Egreja Catholica de Christo. Calvino reivindicou o mesmo; mas não ficou
por ahi: mostrou que aquella asserção era verdadeira, ainda mesmo quando
se descesse aos mais pequenos detalhes, e que, postos á prova do Credo
dos Apostolos, os protestantes eram catholicos mais genuinos do que os
romanistas.
Para ver claramente o que Calvino tinha na idéa com a publicação dos seus
_Institutos_ é necessario lembrar o que era o Credo dos Apostolos. Nosso
Senhor, antes da Sua ascensão, disse aos Seus discipulos que fossem a
todas as nações, baptizando-as em nome do Pae, do Filho e do Espirito
Santo; e assim os pastores christãos da era apostolica e post-apostolica,
quando recebiam na Egreja as pessoas que se convertiam, exigiam d’ellas
que fizessem a seguinte profissão de fé: «_Creio em Deus Pae, e em Seu
Filho Jesus Christo, e no Espirito Santo_, sendo esta a mais antiga e
mais simples formula do Credo. Depois accrescentou-se-lhe mais estas
palavras: _e na Santa Egreja Catholica_. Estas quatro orações eram
proferidas por todos os neophytos por occasião do baptismo. O Credo
dos Apostolos e todos os outros credos primitivos são simplesmente
desenvolvimentos d’essas quatro phrases; e os primeiros livros
theologicos que explicavam todos os pontos referentes á doutrina christã
eram exposições do Credo, assim como o Credo era, por seu turno, uma
exposição da confissão baptismal. Isto mostra-nos, entre outras coisas,
que a verdadeira theologia nasceu da simples expressão de uma confiança
em Deus acompanhada de adoração.
Os _Institutos_ de Calvino são, na realidade, uma exposição do Credo, e
dividem-se em quatro partes, cada uma d’ellas explicando uma porção do
Credo. A primeira parte falla de Deus o Creador, ou, como o Credo diz:
«Deus, Pae Omnipotente, Creador do céu e da terra»; a segunda parte
de Deus Filho, o Redemptor, e da Sua redempção; a terceira parte, de
Deus Espirito Santo e dos Seus meios de graça; e a quarta, da Egreja
Catholica, e da sua natureza e distinctivos.
A disposição, pois, que elle deu á sua obra, seguindo passo a passo
o Credo dos Apostolos, mostra que Calvino mantinha ácerca da Reforma
aquella mesma opinião que Luthero diligenciou expôr nitidamente no seu
tratado sobre o _Captiveiro Babylonico da Egreja de Deus_. Nunca lhe
acudiu á mente que estivesse contribuindo para a fundação de uma nova
egreja, ou que estivesse elaborando um novo credo, ou escrevendo uma nova
theologia. Não cria que os protestantes fossem homens que mantivessem
opiniões originaes, até então desconhecidas. A theologia da Reforma era
a velha theologia da Egreja de Christo, e as opiniões dos protestantes
eram convicções da verdade que se baseiavam na Palavra de Deus, e que,
conforme constava da historia da Christandade, haviam sido partilhadas
por todo o povo religioso. A theologia em que elle cria e que elle
ensinava era a velha theologia dos primitivos credos, exposta com toda
a clareza, e despojada das supersticiosas e falsas noções que pelos
pensadores medievaes haviam sido copiadas dos ritos e philosophia do
paganismo. A Reforma, dizia-se nos _Institutos_, não engendra opiniões
novas, trata apenas de desmascarar as falsidades e apresentar, em toda a
sua pureza, as verdades antigas.
=Calvino em Genebra.=—A publicação dos _Institutos_ fez com que Calvino
se tornasse bem conhecido dos primeiros vultos da Reforma; e quando, nas
suas peregrinações, deu comsigo em Genebra, tencionando passar ali a
noite e abalar em seguida, Farel pediu-lhe que ficasse ali com elle e o
auxiliasse nas difficuldades em que se encontrava. Calvino não queria de
fórma alguma abandonar aquella sua vida de estudante, mas ao mesmo tempo
reconhecia que era um dever para elle deitar mãos ao trabalho que podia
executar em Genebra, e por fim resolveu ficar na companhia de Farel.
Diz elle no prefacio ao seu _Commentario sobre o Livro dos Psalmos_:
«Como o caminho mais direito para Strasburgo, para onde tencionava
retirar-me, estava impedido por causa da guerra, tinha resolvido passar
rapidamente por Genebra, demorando-me na cidade uma noite apenas....
Sabedor d’isto, Farel, que trabalhava com extraordinario zelo para que o
Evangelho progredisse, empregou logo os maiores esforços para me deter.
E, depois de lhe ter dito que toda a minha ambição era poder entregar-me
socegadamente aos meus estudos, não me encontrando, portanto, predisposto
para qualquer outro encargo, elle, perdida a esperança de conseguir
qualquer coisa por meio de rogos, começou com imprecações, invocando
a maldição de Deus sobre os estudos que eu desejava fazer com toda a
tranquilidade, se eu me retirasse, deixando de prestar o meu concurso
n’uma occasião de aquellas em que era tão necessario. Ouvindo estas
suas palavras, senti-me tão atterrorisado que desisti da viagem que
projectava.»