fidalgo sueco, que havia perdido quasi todos os parentes n’aquella
carnificina, organisou a rebellião contra Christianno II, e trabalhou
muito para que ella tivesse bom exito. Em 1521 foi declarado regente
do reino, e em 1523 foi, pela voz do povo, chamado ao throno. Achou-se
em presença de difficuldades quasi invenciveis. Não tinha havido,
praticamente, um governo estabelecido na Suecia durante mais de um
seculo, e cada dono de terras era quasi um soberano independente. Dois
terços das terras pertenciam á Egreja: e o terço restante pertencia quasi
inteiramente á nobreza; os camponezes eram em toda a parte opprimidos;
o commercio estava nas mãos da Dinamarca ou da Liga Hanseatica; e não
havia classe media. Os nobres e os ecclesiasticos exigiam isenção de
contribuições, e os camponezes não podiam supportar novos encargos.
N’estas circumstancias Gustavo Vasa voltou os olhos para as terras da
egreja, e planeou a demolição da aristocracia ecclesiastica com o auxilio
da Reforma lutherana.
Parece não haver razão para crer que o rei não fosse um homem religioso,
perfeitamente compenetrado da verdade e do poder das doutrinas
evangelicas; mas o seu zelo pela Reforma obedecia tambem a outros
motivos. Precisava de dinheiro para as despezas publicas, queria
proporcionar aos camponezes uma situação mais desafogada, e ambicionava,
acima de tudo, demolir a poderosa aristocracia ecclesiastica, que se
arrogava direitos que só a elle pertenciam como rei. Teve de proceder
cautelosamente. A gente do campo não conhecia as doutrinas lutheranas,
nem queria mudar de religião; os nobres opinavam que o rei estava
atacando os direitos da propriedade, e que lhes chegaria a vez a elles,
se consentissem que os bens da egreja fossem arrebatados; e, quanto á
aristocracia ecclesiastica, essa dispunha de muita força.
É necessario tambem lembrar que, quando Gustavo se poz á frente do
movimento que tinha por fim derrubar a tyrannia da Dinamarca, essa
tyrannia foi abençoada pelo papa e recebeu o apoio dos bispos suecos.
Elle era um homem excommungado, um homem a quem a egreja havia
proscripto. Essa circumstancia pôl-o em contacto com os prégadores
lutheranos, que já andavam pela Suecia.
Dois irmãos, Olaf e Lourenço Petersen, que tinham estudado em
Wittenberg, e que no seu regresso á Suecia tinham prégado contra um
certo vendilhão de indulgencias que havia penetrado no seu paiz, foram
perseguidos pelos bispos e fugiram para Lubeck, onde Gustavo travou
conhecimento com elles. Elles e um outro lutherano sueco, Lourenço
Andersen, arcediago de Strengnäs, eram abertamente protegidos pelo rei,
e começaram a prégar contra o culto dos santos, contra as peregrinações,
contra a vida monastica e contra a confissão auricular. Olaf Petersen,
sobretudo, andava por uma parte e por outra prégando o Evangelho puro,
«que Ansgar, o apostolo do norte, annunciara na Suecia setecentos annos
antes.».
Os bispos protestaram contra as suas predicas, e em resposta o reformador
desafiou-os para uma polemica, que elles não acceitaram. O resultado
d’isso foi uma rapida propagação das doutrinas evangelicas. Gustavo
poz Olaf Petersen como prégador em Stockholmo, Lourenço Petersen foi
leccionar para Upsala, e Lourenço Andersen foi nomeado chanceller do
reino. Promoveram-se polemicas publicas, segundo o costume allemão, em
diversos pontos do reino; e por fim, em 1524, Olaf Petersen e o dr. Galle
de Upsala discutiram publicamente as doutrinas da justificação pela
fé, das indulgencias, da missa, do Purgatorio, do celibato e do poder
temporal do papa, o que foi assaz vantajoso para a causa da Reforma.
Em 1526 Andersen concluiu a traducção do Novo Testamento em sueco, e o
povo, em cujas mãos o livro foi entregue, poude então comparar o ensino
dos prégadores e dos bispos com o da palavra de Deus.
A falta de dinheiro para occorrer ás despezas publicas fazia-se sentir de
uma fórma assustadora, e em 1526 foram impostas, por duas Dietas, pesadas
contribuições sobre as propriedades da Egreja. O partido ecclesiastico,
com os bispos á frente, promoveu uma revolta, que foi suffocada, e
Gustavo conheceu que havia chegado a occasião de pôr em pratica os seus
planos. Na Dieta de Westeräs expoz a situação financeira do reino, e
propoz que uma parte da enorme riqueza da Egreja fosse applicada ao
pagamento da divida nacional, revertendo de ahi em deante as receitas
em favor do cofre da nação. Os nobres rejeitaram este alvitre; os
clerigos declararam que só á força cederiam. Vendo isto, Gustavo, apoz
um eloquente discurso, abdicou. Os diversos estados pozeram-se então
em contenda uns com os outros, e, depois de uma anarquia de alguns
dias, assentiu-se na proposta de Gustavo, a qual foi convertida em lei
e publicada n’um decreto da Dieta, que marca realmente o inicio da
historia moderna da Suecia. Ficou estabelecido, entre outras coisas,
que o rei tinha o direito de se apoderar dos castellos e cidadellas dos
bispos, e tomar posse de todos os bens ecclesiasticos; e ficou egualmente
reconhecida a existencia legal da egreja lutherana.
D’essa epoca em deante a obra da reformação progrediu rapidamente, e
dentro em pouco o lutheranismo tornou-se a religião official do paiz.
Os bens da Egreja foram confiscados para o Estado, deixando-se, porém,
ficar o sufficiente para a sustentação do culto. Conservou-se a fórma de
governo episcopal, mas ficou rigorosamente estabelecida a supremacia do
rei, como na egreja lutherana. Retiveram-se muitas ceremonias e costumes
papistas, taes como o uso da agua benta, dos retabulos e das velas, mas
tudo protestantemente interpretado. Lourenço Petersen foi o primeiro
arcebispo protestante de Upsala, cargo que começou a exercer em 1531.
Dez annos depois, isto é, em 1541, ficou completa uma nova traducção da
Biblia, feita pelos irmãos Petersen. Quando Gustavo morreu, todo o paiz
estava inteiramente consorciado com a egreja lutherana, e a sua affeição
ao severo lutheranismo demonstrou-a elle adoptando, em 1664, a Formula da
Concordata.
II PARTE
A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS
CAPITULOS:
I—A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO.
II—A REFORMA EM GENEBRA, SOB CALVINO.
III—A REFORMA EM FRANÇA.
IV—A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS.
V—A REFORMA NA ESCOCIA.
CAPITULO I
A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO
As reformas suissa e allemã, pag. 57.—A situação politica
da Suissa, pag. 58.—Ulrico Zwinglio, pag. 60.—As theses de
Zwinglio, pag. 62.—A Reforma em Zurich, pag. 63.—Basiléa,
pag. 64.—Berne, pag. 64.—Os Cantões Florestaes, pag.
64.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, pag. 65.
=As reformas suissa e allemã.=—A Reforma na Allemanha tem geralmente
chamado mais a attenção do que a revolta contra Roma na Suissa. O
conflicto com o imperador, que ella provocou, o seu rapido alastramento,
o numero de estados e reinos que adheriram a ella, a parte que as
universidades, onde estavam matriculados muitos estudantes estrangeiros,
tomaram no movimento, tudo isso contribuiu para que Luthero e a Allemanha
adquirissem mais conspicuidade do que Zwinglio e a Suissa; mas, se
devemos julgar uma Reforma mais pelas suas consequencias do que pelos
seus principios, o movimento começado na Suissa foi ainda mais importante
do que o que teve Wittenberg por centro. Com o decorrer do tempo, foi-se
reconhecendo que as idéas dos reformadores suissos, tanto pelo que lhes
dizia respeito como pelo que dizia respeito á organização da egreja,
podiam ser facilmente transplantadas para outros paizes, e de ahi veiu
que as egrejas de França, da Escocia, da Hungria e uma grande parte das
da Allemanha receberam melhor as tradições de Zwinglio e de Calvino do
que as de Luthero e de Melanchthon.
Isto é talvez devido ao facto de que os grandes theologos da Reforma no
sul da Europa eram menos inclinados a submetter-se ás tradições, tanto
doutrinaes como de qualquer outro genero, da egreja medieval, mesmo em
assumptos que para algumas pessoas pareciam ser de pouca importancia, sob
o ponto de vista da fé, e insistiram logo desde o principio em que se
devia seguir as claras instrucções da Escriptura, tanto as que se referem
aos pequenos casos como aos de muita importancia. Nem Zwinglio nem
Calvino queriam adoptar a doutrina da _presença real_ pela razão de a
egreja medieval a ter adoptado, e não experimentaram aquella dificuldade
que Luthero teve sempre em fazer uma coisa de um modo differente de
aquella em que os seus antepassados a faziam.
É provavel, comtudo, que houvesse uma outra razão que tivesse a mesma
força, e que essa razão se deva procurar nas idéas politicas e na
educação do povo suisso. Na egreja medieval os direitos dos christãos
tinham desaparecido inteiramente. Quando alguem fallava em egreja,
referia-se ao papa, aos bispos, aos abbades, aos frades, ás freiras e aos
padres; não se referia á grande corporação dos christãos piedosos, que
constituiam, realmente, a egreja de Deus.
Na Reforma de Luthero, posto que elle e os outros reformadores soubessem
perfeitamente que a verdadeira egreja visivel era constituida pelo povo
piedoso que professava a fé em Jesus Christo, não tinham podido dar
uma expressão pratica a esse sentimento, e o systema consistorial dos
lutheranos collocava os principes e as outras auctoridades civis no logar
que os bispos e as suas côrtes tinham occupado. Poderiam dizer que o
povo christão era a egreja; mas nunca diligenciaram dar a essa egreja
uma fórma tal que ella podesse pensar e agir por si propria, como os
christãos dos tempos apostolicos e postapostolicos tinham feito. Pode-se
quasi dizer que não trataram de incutir na vida da egreja reformada as
maximas de auto-governo que inspiraram a communidade christã do Novo
Testamento. Tinham a noção medieval de que a egreja tinha de ser dirigida
de fóra, que não podia dirigir-se a si mesma.
Na Suissa, logo desde o principio se tornou bem evidente que a egreja e o
povo christão eram uma e a mesma coisa, e os projectos de auto-governo,
que, se não foram sempre bem succedidos, eram, pelo menos, feitos
com boa intenção, faziam parte da Reforma proposta. Isto proveiu,
indubitavelmente, de um cuidadoso estudo do Novo Testamento; mas a
vida popular dos suissos, uma vida livre, ajudava-os a comprehender o
sentido do Novo Testamento, e assim poderam, logo de começo, enveredar
pelo bom caminho. Uma Reforma iniciada no amago da livre e democratica
vida suissa estava mais no caso de comprehender a democracia espiritual
do christianismo do Novo Testamento do que aquella que principiou nas
universidades e nas côrtes dos principes allemães.
=A situação politica da Suissa.=—A Suissa era, n’aquelle tempo, um paiz
como não havia outro na Europa. Estava tão dividido como a Italia ou a
Allemanha, e, comtudo, apresentava uma união que ellas não apresentavam.
Era uma confederação de estados, ou cantões, cada um dos quaes era
independente de aquelles com que confinava, mantendo, porém, com elles
uma perfeita alliança. Era uma confederação de republicas independentes,
ou, antes, «uma pequena republica de communas e cidades do primitivo typo
teutonico, em que o poder civil era exercido pela communidade», cada uma
d’ellas com um systema governativo differente.
Os camponezes suissos tinham-se revoltado contra os proprietarios no
principio do seculo quatorze; a batalha de Morgarten, onde 1.300 suissos
derrotaram 10.000 austriacos, teve logar em 1315. Cerca de dois seculos
mais tarde, os cantões florestaes formaram uma liga para defeza mutua, a
que pouco depois se aggregaram outras pequenas communidades de cidadãos
livres. A sua bandeira era vermelha com uma cruz branca ao centro, e
tinha a seguinte inscripção: «Um por todos, e todos por um.»
Os cantões florestaes eram communas independentes, e os seus habitantes,
todos elles proprietarios rusticos, residiam em valles quasi
inaccessiveis. Zurich pertencia a uma cidade que se havia formado em
redor de uma colonia ecclesiastica; Berne a um antigo logarejo que se
aninhava junto á base de um castello senhorial; e assim por deante. Os
cantões florestaes tinham um governo simples, patriarcal; em Zurich os
nobres tinham a mesma consideração que os commerciantes e artistas, e
a constituição era perfeitamente democratica; Berne era uma republica
aristocratica; e assim successivamente; mas em todas ellas o governo
estava nas mãos do povo, e todos os homens eram livres.
Uma outra coisa digna de nota é que na Suissa não houve, durante
umas poucas de gerações, nada que se parecesse com uma administração
episcopal. As suas communicações com o pontificado eram effectuadas por
meio de delegados, ou emissarios, e obedeciam apenas a motivos politicos.
O territorio estava sob a jurisdicção dos arcebispos de Mayença e de
Besançon; mas nem elles nem os prelados visinhos tinham em tempo algum
exercido qualquer pressão sobre o clero paroquial dos cantões suissos, e
d’este modo não havia tanta difficuldade em introduzir reformas na egreja.
No principio do seculo dezeseis a civilisação estrangeira e a convivencia
com os paizes adjacentes foram mudando os velhos e simples costumes
do povo suisso. Na Edade Media era crença geral que a força principal
de um exercito estava na sua cavallaria; mas as victorias que os
suissos alcançaram sobre as tropas austriacas e borgonhezas mostraram
a superioridade de uma boa infanteria, convenientemente adestrada.
As tropas suissas tinham fama de serem as melhores do mundo, sendo
muitas vezes solicitado o seu auxilio pelos estados visinhos quando
tinham de entrar em campanha, e entre os suissos havia-se desenvolvido
gradualmente o mau habito de alugar os seus soldados a quem maior somma
de dinheiro offerecesse. Era costume, quando um regimento suisso partia
para a guerra por conta de qualquer nação estrangeira, levar comsigo,
na qualidade de capellão, o paroco da localidade a que o dito regimento
pertencia; e alguns d’esses capellães, verificando que este serviço
mercenario tendia a desmoralizar o exercito, faziam todo o possivel, no
seu regresso á patria, para que esta perniciosa pratica fosse abolida.
=Ulrico Zwinglio.=—Um dos mais famosos d’estes patriotas foi Ulrico
Zwinglio, paroco de Glarus, e que mais tarde veiu a ser o Reformador da
Suissa.
Zwinglio nasceu em 1 de Janeiro de 1484, em Wildhaus, no Toggenburgo,
pequena região montanhosa, cuja altitude era tal que não produzia arvores
de fructo, sendo tambem impossivel cortal-a de estradas. O pae d’elle
era o chefe, ou magistrado, da communa, e um dos seus tios era o deão de
Wesen.
O pae resolvera destinal-o á carreira ecclesiastica, e como, em vista da
sua desafogada situação, estava no caso de proporcionar ao filho uma boa
educação, mandou-o estudar em Basiléa e em Berne, de onde passou para
a grande universidade de Vienna. Ahi seguiu elle com grande brilho os
estudos classicos, enchendo-se de enthusiasmo pela nova instrucção que
a Italia estava ministrando á Allemanha e á França, e sentindo orgulho
em pertencer á classe dos humanistas. De Vienna voltou para Basiléa,
e estudou theologia com Thomaz Wyttenbach, um de aquelles theologos
liberaes que reprovavam abertamente as indulgencias, sobre o fundamento
de que Christo resgatou, com a Sua morte, os peccados de todos os homens.
Foi pensando no seu velho professor que Zwinglio disse, muitos annos
depois: «Devemos ter consideração por Martinho Luthero; mas o que é certo
é que aquillo que temos em commum com elle já o conheciamos muito antes
de ouvir fallar no seu nome».
Recebeu o seu grau de Mestre de Artes em 1506, e em seguida foi nomeado
cura da pequena paroquia de Glarus. Viveu ahi dez annos, lendo e
estudando os auctores classicos latinos, e em especial Cicero, Seneca
e Horacio; começou tambem a aprender grego com muito afan, e a esse
respeito escreveu a um dos seus amigos: «Só se assim fôr da vontade de
Deus é que eu deixarei de me iniciar no grego; não o faço para adquirir
fama, mas para ter mais profundo conhecimento das Escripturas Sagradas.»
Os seus livros favoritos do Novo Testamento eram, diz-se, as Epistolas de
S. Paulo. Copiou-as com as suas proprias mãos de mais de um manuscripto,
e sabia-as, por fim, de cór. Os seus estudos biblicos impelliram-n’o a
declarar que o unico meio de chegar ás verdadeiras doutrinas era prestar
ouvidos á exposição que a Biblia fazia de si propria, e que o papado
havia feito com que a egreja se corrompesse. Era este o seu modo de
pensar em Glarus, quando Luthero era ainda um dedicado filho da egreja
medieval, torturando-se com jejuns e flagellações.
Em 1516 foi transferido para a paroquia de Einsiedeln, onde havia uma
abbadia que era, e ainda é, o santuario de uma celebre imagem da Virgem,
a que se attribuiam muitos milagres. As multidões vinham em peregrinação
a esta localidade, e Zwinglio sentia crescer a sua indignação perante
a idolatria e superstição de aquella gente, e perante o embuste e
sacrilegio do abbade e dos padres que estavam sob as suas ordens. Começou
a fazer prégações aos peregrinos, mostrando-lhes a loucura e o peccado
de dar culto ás imagens e aos santos. N’um dos seus sermões proferiu
o seguinte: «Na hora da vossa morte clamae só por Jesus Christo, que
vos comprou com o Seu sangue, e que é o unico Mediador entre Deus e
os homens.» Estas suas predicas produziram uma enorme excitação, e,
tendo constado em Roma, foi dada ordem ao legado do papa para reduzir
o prégador ao silencio, offerecendo-lhe uma promoção na egreja. Elle
recusou todos os offerecimentos de melhoria de situação que o dito legado
lhe fez, mas quando o conselho dos cidadãos de Zurich lhe pediu, em 1519,
para ir para lá como pastor, acceitou muito gostosamente, e não tardou em
ter uma grande influencia n’aquella importante cidade e capital de cantão.
Pouco depois de elle se installar em Zurich, um vendedor ambulante de
indulgencias, Bernardo Samson, appareceu a offerecer ao povo o artigo do
seu commercio. Zwinglio protestou contra o seu procedimento, e conseguiu
que as auctoridades o pozessem fóra. Começou tambem a fazer uma serie de
conferencias sobre o Novo Testamento, em que expoz as doutrinas da graça
e da justificação pela fé sómente. Estas conferencias eram feitas na
presença de centenares de pessoas, que ouviam o Evangelho com agrado.
A Suissa tinha, em virtude de antigos tratados, provido de infanteria o
papa nas suas guerras com o imperador; a influencia de Zwinglio, porém,
era tão grande que em 1521 o cantão de Zurich recusou alugar os seus
soldados, como até ali tinha feito. Esta patriotica resistencia a um
infame trafico de sangue levantou maior opposição do que todos os sermões
prégados por Zwinglio, e os clerigos papistas do cantão, assim como os
bispos das visinhas dioceses, empregaram todas as diligencias para que
a sua voz deixasse de ser ouvida. No anno anterior o legado do papa
tinha pedido á Dieta suissa que procurasse e destruisse todos os livros
lutheranos que haviam penetrado no paiz, e a Dieta passou ordens n’esse
sentido.
A junta da cidade de Zurich, influenciada por Zwinglio, posto que
obedecesse apparentemente á Dieta, intimou todos os curas, pastores
e prégadores a «prégarem os Santos Evangelhos e as Epistolas em
conformidade com o Espirito de Deus e com as Sagradas Escripturas do
Antigo e Novo Testamento.» Esta intimação deu um impulso ao movimento
evangelico, que já havia principiado. Zwinglio publicou o seu tratado
sobre o jejum em 1522, e muitos habitantes de Zurich começaram logo,
durante a quaresma, a fazer uso das comidas prohibidas pela egreja.
Prégou contra o celibato clerical, e o povo applaudiu-o. O papa, Adriano
II, queria a todo o transe evitar uma questão com os suissos, cujas
tropas lhe eram tão uteis, e tentou dissuadir Zwinglio por boas maneiras,
nada conseguindo, porém. Emquanto os legados percorriam leguas e leguas
para lhe transmittirem os lisongeiros recados de que eram portadores,
escrevia Zwinglio o seu _Apologeticus_, vigoroso ataque ás corrupções da
egreja.
O bispo de Constancia pediu aos habitantes de Zurich que impozessem
silencio ao reformador; Zwinglio solicitou d’elles licença para uma
discussão publica, e comprometteu-se a provar, na presença de todos, que
as suas opiniões se fundamentavam na Biblia. A junta accedeu, e fixou,
para essa discussão, o dia 23 de Janeiro de 1523.
=As theses de Zwinglio.=—A fim de separar convenientemente os assumptos
a discutir, Zwinglio compoz uma lista de sessenta theses, inscrevendo
por sua ordem os pontos em que a sua doutrinação differia da dos seus
accusadores, constituindo o conjuncto um bem elaborado resumo de
theologia protestante. As theses affirmavam, em poucas palavras, o
seguinte:—Jesus Christo, e só Elle, é o verdadeiro objecto do culto,
e é só Elle a quem se deve glorificar; e a unica coisa necessaria é
abraçal-O e abraçar o Seu Evangelho. Tudo quanto Roma apresenta para
intervir entre Christo e o Seu povo, ou para accrescentar ou tirar alguma
coisa do Evangelho, não passa, por consequencia, de meras pretensões,
com que insulta a Jesus Christo, nosso unico Summo Sacerdote. Christo
morreu na cruz, resgatando, de uma vez para sempre, os peccados do
Seu povo, e portanto a missa, que se assevera continuar, ou repetir,
esse sacrificio, constitue uma falsidade, e a eucaristia é apenas uma
ceremonia commemorativa. Jesus Christo é o unico Mediador entre Deus e o
homem, e, assim, o culto dos santos é uma idolatria. A Escriptura Sagrada
não contém uma palavra ácerca do purgatorio, e é coisa que não existe.
Nada desagrada mais a Deus do que a hypocrisia; segue-se, portanto, que
tudo quanto assume santidade aos olhos dos homens é loucura; e isto é uma
condemnação dos capuzes, dos symbolos, dos habitos e das tonsuras.—Por
similhante fórma, Zwinglio condemnou a ordenação, a confissão auricular,
a absolvição, o celibato clerical e todas as ordenanças exclusivamente
ecclesiasticas.
Ajuntou-se uma grande multidão de gente a ouvir a polemica, e, na opinião
dos assistentes, Zwinglio derrotou facilmente os seus antagonistas.
Esta polemica foi seguida por outra, em 1523, e por uma terceira, em
1524, e resultou das tres que o cantão de Zurich e os seus magistrados se
pozeram inteiramente ao lado de Zwinglio.
=A Reforma em Zurich.=—Ficou resolvida, em Zurich, uma reforma do culto
e de todo o systema ecclesiastico. Declarou-se que a missa não era tal
um sacrificio; que não se devia venerar as imagens; que a Ceia do Senhor
era uma simples commemoração da morte de Christo; que se devia ministrar
o calix aos seculares; e que todo o serviço religioso devia ser feito
na lingua corrente do povo. A procissão de Corpus Christi foi abolida,
e deixaram de ser pagas a extrema-uncção e a confissão. Em 1524, Leão
Judæus, amigo de Zwinglio, começou a traduzir o Velho Testamento, e antes
de decorridos dez annos tinha a Suissa cinco versões da Biblia.
Em Zurich havia uma cathedral, com deão e capitulo, sendo todas as
suas despezas custeadas com o rendimento de vastas propriedades. Os
conegos, reunidos em capitulo, desistiram dos seus beneficios. Uma
parte do dinheiro foi destinada ao sustento dos ministros da cidade, e
o resto ficou constituindo um fundo de instrucção. Era com este fundo
que a assembléa de Zurich, seguindo o conselho de Zwinglio, pagava ao
professorado das escolas. Foi tambem resolvido que se solicitasse em
todos os conventos, tanto de frades como de freiras, uma renuncia de bens
em beneficio da instrucção, e em muitos d’esses estabelecimentos assim
se fez, sob a condição de ficar garantida a sua subsistencia emquanto
vivessem.
A unica coisa que contrariou esta reformação foi a vinda, do norte da
Allemanha, de uns certos fanaticos anabaptistas. Os discipulos de Thomaz
Münzer não tardaram em causar perturbações. Conseguiram, com a sua
prégação, agregar a si alguns adherentes de entre a população de Zurich.
As suas doutrinas eram muito extravagantes. Diziam que todos os crentes,
constituindo um sacerdocio espiritual, eram especialmente ensinados de
Deus e não precisavam de leis que não fossem as que os seus corações e
consciencias lhes dictassem. E, para se mostrarem coherentes, queimaram
as suas Biblias em publico. Tinham idéas singularissimas. Como Christo
tivesse dito que os Seus discipulos se deviam tornar como creancinhas, os
enthusiastas anabaptistas, tomando esse preceito á letra, brincavam com
bonecos nas ruas de Zurich, e faziam outras coisas egualmente absurdas.
O enthusiasmo converteu-se por fim n’uma especie de loucura, de que
resultou haver sangue derramado. O conselho tolerou durante bastante
tempo as suas manias, mas viu-se por fim obrigado a mandal-os retirar,
proseguindo depois a obra da reforma com a mesma tranquillidade como
anteriormente.