=Na Suecia.=—Depois do massacre de Stockholmo, Gustavo Vasa, joven

fidalgo sueco, que havia perdido quasi todos os parentes n’aquella

carnificina, organisou a rebellião contra Christianno II, e trabalhou

muito para que ella tivesse bom exito. Em 1521 foi declarado regente

do reino, e em 1523 foi, pela voz do povo, chamado ao throno. Achou-se

em presença de difficuldades quasi invenciveis. Não tinha havido,

praticamente, um governo estabelecido na Suecia durante mais de um

seculo, e cada dono de terras era quasi um soberano independente. Dois

terços das terras pertenciam á Egreja: e o terço restante pertencia quasi

inteiramente á nobreza; os camponezes eram em toda a parte opprimidos;

o commercio estava nas mãos da Dinamarca ou da Liga Hanseatica; e não

havia classe media. Os nobres e os ecclesiasticos exigiam isenção de

contribuições, e os camponezes não podiam supportar novos encargos.

N’estas circumstancias Gustavo Vasa voltou os olhos para as terras da

egreja, e planeou a demolição da aristocracia ecclesiastica com o auxilio

da Reforma lutherana.

Parece não haver razão para crer que o rei não fosse um homem religioso,

perfeitamente compenetrado da verdade e do poder das doutrinas

evangelicas; mas o seu zelo pela Reforma obedecia tambem a outros

motivos. Precisava de dinheiro para as despezas publicas, queria

proporcionar aos camponezes uma situação mais desafogada, e ambicionava,

acima de tudo, demolir a poderosa aristocracia ecclesiastica, que se

arrogava direitos que só a elle pertenciam como rei. Teve de proceder

cautelosamente. A gente do campo não conhecia as doutrinas lutheranas,

nem queria mudar de religião; os nobres opinavam que o rei estava

atacando os direitos da propriedade, e que lhes chegaria a vez a elles,

se consentissem que os bens da egreja fossem arrebatados; e, quanto á

aristocracia ecclesiastica, essa dispunha de muita força.

É necessario tambem lembrar que, quando Gustavo se poz á frente do

movimento que tinha por fim derrubar a tyrannia da Dinamarca, essa

tyrannia foi abençoada pelo papa e recebeu o apoio dos bispos suecos.

Elle era um homem excommungado, um homem a quem a egreja havia

proscripto. Essa circumstancia pôl-o em contacto com os prégadores

lutheranos, que já andavam pela Suecia.

Dois irmãos, Olaf e Lourenço Petersen, que tinham estudado em

Wittenberg, e que no seu regresso á Suecia tinham prégado contra um

certo vendilhão de indulgencias que havia penetrado no seu paiz, foram

perseguidos pelos bispos e fugiram para Lubeck, onde Gustavo travou

conhecimento com elles. Elles e um outro lutherano sueco, Lourenço

Andersen, arcediago de Strengnäs, eram abertamente protegidos pelo rei,

e começaram a prégar contra o culto dos santos, contra as peregrinações,

contra a vida monastica e contra a confissão auricular. Olaf Petersen,

sobretudo, andava por uma parte e por outra prégando o Evangelho puro,

«que Ansgar, o apostolo do norte, annunciara na Suecia setecentos annos

antes.».

Os bispos protestaram contra as suas predicas, e em resposta o reformador

desafiou-os para uma polemica, que elles não acceitaram. O resultado

d’isso foi uma rapida propagação das doutrinas evangelicas. Gustavo

poz Olaf Petersen como prégador em Stockholmo, Lourenço Petersen foi

leccionar para Upsala, e Lourenço Andersen foi nomeado chanceller do

reino. Promoveram-se polemicas publicas, segundo o costume allemão, em

diversos pontos do reino; e por fim, em 1524, Olaf Petersen e o dr. Galle

de Upsala discutiram publicamente as doutrinas da justificação pela

fé, das indulgencias, da missa, do Purgatorio, do celibato e do poder

temporal do papa, o que foi assaz vantajoso para a causa da Reforma.

Em 1526 Andersen concluiu a traducção do Novo Testamento em sueco, e o

povo, em cujas mãos o livro foi entregue, poude então comparar o ensino

dos prégadores e dos bispos com o da palavra de Deus.

A falta de dinheiro para occorrer ás despezas publicas fazia-se sentir de

uma fórma assustadora, e em 1526 foram impostas, por duas Dietas, pesadas

contribuições sobre as propriedades da Egreja. O partido ecclesiastico,

com os bispos á frente, promoveu uma revolta, que foi suffocada, e

Gustavo conheceu que havia chegado a occasião de pôr em pratica os seus

planos. Na Dieta de Westeräs expoz a situação financeira do reino, e

propoz que uma parte da enorme riqueza da Egreja fosse applicada ao

pagamento da divida nacional, revertendo de ahi em deante as receitas

em favor do cofre da nação. Os nobres rejeitaram este alvitre; os

clerigos declararam que só á força cederiam. Vendo isto, Gustavo, apoz

um eloquente discurso, abdicou. Os diversos estados pozeram-se então

em contenda uns com os outros, e, depois de uma anarquia de alguns

dias, assentiu-se na proposta de Gustavo, a qual foi convertida em lei

e publicada n’um decreto da Dieta, que marca realmente o inicio da

historia moderna da Suecia. Ficou estabelecido, entre outras coisas,

que o rei tinha o direito de se apoderar dos castellos e cidadellas dos

bispos, e tomar posse de todos os bens ecclesiasticos; e ficou egualmente

reconhecida a existencia legal da egreja lutherana.

D’essa epoca em deante a obra da reformação progrediu rapidamente, e

dentro em pouco o lutheranismo tornou-se a religião official do paiz.

Os bens da Egreja foram confiscados para o Estado, deixando-se, porém,

ficar o sufficiente para a sustentação do culto. Conservou-se a fórma de

governo episcopal, mas ficou rigorosamente estabelecida a supremacia do

rei, como na egreja lutherana. Retiveram-se muitas ceremonias e costumes

papistas, taes como o uso da agua benta, dos retabulos e das velas, mas

tudo protestantemente interpretado. Lourenço Petersen foi o primeiro

arcebispo protestante de Upsala, cargo que começou a exercer em 1531.

Dez annos depois, isto é, em 1541, ficou completa uma nova traducção da

Biblia, feita pelos irmãos Petersen. Quando Gustavo morreu, todo o paiz

estava inteiramente consorciado com a egreja lutherana, e a sua affeição

ao severo lutheranismo demonstrou-a elle adoptando, em 1664, a Formula da

Concordata.

II PARTE

A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS

CAPITULOS:

I—A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO.

II—A REFORMA EM GENEBRA, SOB CALVINO.

III—A REFORMA EM FRANÇA.

IV—A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS.

V—A REFORMA NA ESCOCIA.

CAPITULO I

A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO

As reformas suissa e allemã, pag. 57.—A situação politica

da Suissa, pag. 58.—Ulrico Zwinglio, pag. 60.—As theses de

Zwinglio, pag. 62.—A Reforma em Zurich, pag. 63.—Basiléa,

pag. 64.—Berne, pag. 64.—Os Cantões Florestaes, pag.

64.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, pag. 65.

=As reformas suissa e allemã.=—A Reforma na Allemanha tem geralmente

chamado mais a attenção do que a revolta contra Roma na Suissa. O

conflicto com o imperador, que ella provocou, o seu rapido alastramento,

o numero de estados e reinos que adheriram a ella, a parte que as

universidades, onde estavam matriculados muitos estudantes estrangeiros,

tomaram no movimento, tudo isso contribuiu para que Luthero e a Allemanha

adquirissem mais conspicuidade do que Zwinglio e a Suissa; mas, se

devemos julgar uma Reforma mais pelas suas consequencias do que pelos

seus principios, o movimento começado na Suissa foi ainda mais importante

do que o que teve Wittenberg por centro. Com o decorrer do tempo, foi-se

reconhecendo que as idéas dos reformadores suissos, tanto pelo que lhes

dizia respeito como pelo que dizia respeito á organização da egreja,

podiam ser facilmente transplantadas para outros paizes, e de ahi veiu

que as egrejas de França, da Escocia, da Hungria e uma grande parte das

da Allemanha receberam melhor as tradições de Zwinglio e de Calvino do

que as de Luthero e de Melanchthon.

Isto é talvez devido ao facto de que os grandes theologos da Reforma no

sul da Europa eram menos inclinados a submetter-se ás tradições, tanto

doutrinaes como de qualquer outro genero, da egreja medieval, mesmo em

assumptos que para algumas pessoas pareciam ser de pouca importancia, sob

o ponto de vista da fé, e insistiram logo desde o principio em que se

devia seguir as claras instrucções da Escriptura, tanto as que se referem

aos pequenos casos como aos de muita importancia. Nem Zwinglio nem

Calvino queriam adoptar a doutrina da _presença real_ pela razão de a

egreja medieval a ter adoptado, e não experimentaram aquella dificuldade

que Luthero teve sempre em fazer uma coisa de um modo differente de

aquella em que os seus antepassados a faziam.

É provavel, comtudo, que houvesse uma outra razão que tivesse a mesma

força, e que essa razão se deva procurar nas idéas politicas e na

educação do povo suisso. Na egreja medieval os direitos dos christãos

tinham desaparecido inteiramente. Quando alguem fallava em egreja,

referia-se ao papa, aos bispos, aos abbades, aos frades, ás freiras e aos

padres; não se referia á grande corporação dos christãos piedosos, que

constituiam, realmente, a egreja de Deus.

Na Reforma de Luthero, posto que elle e os outros reformadores soubessem

perfeitamente que a verdadeira egreja visivel era constituida pelo povo

piedoso que professava a fé em Jesus Christo, não tinham podido dar

uma expressão pratica a esse sentimento, e o systema consistorial dos

lutheranos collocava os principes e as outras auctoridades civis no logar

que os bispos e as suas côrtes tinham occupado. Poderiam dizer que o

povo christão era a egreja; mas nunca diligenciaram dar a essa egreja

uma fórma tal que ella podesse pensar e agir por si propria, como os

christãos dos tempos apostolicos e postapostolicos tinham feito. Pode-se

quasi dizer que não trataram de incutir na vida da egreja reformada as

maximas de auto-governo que inspiraram a communidade christã do Novo

Testamento. Tinham a noção medieval de que a egreja tinha de ser dirigida

de fóra, que não podia dirigir-se a si mesma.

Na Suissa, logo desde o principio se tornou bem evidente que a egreja e o

povo christão eram uma e a mesma coisa, e os projectos de auto-governo,

que, se não foram sempre bem succedidos, eram, pelo menos, feitos

com boa intenção, faziam parte da Reforma proposta. Isto proveiu,

indubitavelmente, de um cuidadoso estudo do Novo Testamento; mas a

vida popular dos suissos, uma vida livre, ajudava-os a comprehender o

sentido do Novo Testamento, e assim poderam, logo de começo, enveredar

pelo bom caminho. Uma Reforma iniciada no amago da livre e democratica

vida suissa estava mais no caso de comprehender a democracia espiritual

do christianismo do Novo Testamento do que aquella que principiou nas

universidades e nas côrtes dos principes allemães.

=A situação politica da Suissa.=—A Suissa era, n’aquelle tempo, um paiz

como não havia outro na Europa. Estava tão dividido como a Italia ou a

Allemanha, e, comtudo, apresentava uma união que ellas não apresentavam.

Era uma confederação de estados, ou cantões, cada um dos quaes era

independente de aquelles com que confinava, mantendo, porém, com elles

uma perfeita alliança. Era uma confederação de republicas independentes,

ou, antes, «uma pequena republica de communas e cidades do primitivo typo

teutonico, em que o poder civil era exercido pela communidade», cada uma

d’ellas com um systema governativo differente.

Os camponezes suissos tinham-se revoltado contra os proprietarios no

principio do seculo quatorze; a batalha de Morgarten, onde 1.300 suissos

derrotaram 10.000 austriacos, teve logar em 1315. Cerca de dois seculos

mais tarde, os cantões florestaes formaram uma liga para defeza mutua, a

que pouco depois se aggregaram outras pequenas communidades de cidadãos

livres. A sua bandeira era vermelha com uma cruz branca ao centro, e

tinha a seguinte inscripção: «Um por todos, e todos por um.»

Os cantões florestaes eram communas independentes, e os seus habitantes,

todos elles proprietarios rusticos, residiam em valles quasi

inaccessiveis. Zurich pertencia a uma cidade que se havia formado em

redor de uma colonia ecclesiastica; Berne a um antigo logarejo que se

aninhava junto á base de um castello senhorial; e assim por deante. Os

cantões florestaes tinham um governo simples, patriarcal; em Zurich os

nobres tinham a mesma consideração que os commerciantes e artistas, e

a constituição era perfeitamente democratica; Berne era uma republica

aristocratica; e assim successivamente; mas em todas ellas o governo

estava nas mãos do povo, e todos os homens eram livres.

Uma outra coisa digna de nota é que na Suissa não houve, durante

umas poucas de gerações, nada que se parecesse com uma administração

episcopal. As suas communicações com o pontificado eram effectuadas por

meio de delegados, ou emissarios, e obedeciam apenas a motivos politicos.

O territorio estava sob a jurisdicção dos arcebispos de Mayença e de

Besançon; mas nem elles nem os prelados visinhos tinham em tempo algum

exercido qualquer pressão sobre o clero paroquial dos cantões suissos, e

d’este modo não havia tanta difficuldade em introduzir reformas na egreja.

No principio do seculo dezeseis a civilisação estrangeira e a convivencia

com os paizes adjacentes foram mudando os velhos e simples costumes

do povo suisso. Na Edade Media era crença geral que a força principal

de um exercito estava na sua cavallaria; mas as victorias que os

suissos alcançaram sobre as tropas austriacas e borgonhezas mostraram

a superioridade de uma boa infanteria, convenientemente adestrada.

As tropas suissas tinham fama de serem as melhores do mundo, sendo

muitas vezes solicitado o seu auxilio pelos estados visinhos quando

tinham de entrar em campanha, e entre os suissos havia-se desenvolvido

gradualmente o mau habito de alugar os seus soldados a quem maior somma

de dinheiro offerecesse. Era costume, quando um regimento suisso partia

para a guerra por conta de qualquer nação estrangeira, levar comsigo,

na qualidade de capellão, o paroco da localidade a que o dito regimento

pertencia; e alguns d’esses capellães, verificando que este serviço

mercenario tendia a desmoralizar o exercito, faziam todo o possivel, no

seu regresso á patria, para que esta perniciosa pratica fosse abolida.

=Ulrico Zwinglio.=—Um dos mais famosos d’estes patriotas foi Ulrico

Zwinglio, paroco de Glarus, e que mais tarde veiu a ser o Reformador da

Suissa.

Zwinglio nasceu em 1 de Janeiro de 1484, em Wildhaus, no Toggenburgo,

pequena região montanhosa, cuja altitude era tal que não produzia arvores

de fructo, sendo tambem impossivel cortal-a de estradas. O pae d’elle

era o chefe, ou magistrado, da communa, e um dos seus tios era o deão de

Wesen.

O pae resolvera destinal-o á carreira ecclesiastica, e como, em vista da

sua desafogada situação, estava no caso de proporcionar ao filho uma boa

educação, mandou-o estudar em Basiléa e em Berne, de onde passou para

a grande universidade de Vienna. Ahi seguiu elle com grande brilho os

estudos classicos, enchendo-se de enthusiasmo pela nova instrucção que

a Italia estava ministrando á Allemanha e á França, e sentindo orgulho

em pertencer á classe dos humanistas. De Vienna voltou para Basiléa,

e estudou theologia com Thomaz Wyttenbach, um de aquelles theologos

liberaes que reprovavam abertamente as indulgencias, sobre o fundamento

de que Christo resgatou, com a Sua morte, os peccados de todos os homens.

Foi pensando no seu velho professor que Zwinglio disse, muitos annos

depois: «Devemos ter consideração por Martinho Luthero; mas o que é certo

é que aquillo que temos em commum com elle já o conheciamos muito antes

de ouvir fallar no seu nome».

Recebeu o seu grau de Mestre de Artes em 1506, e em seguida foi nomeado

cura da pequena paroquia de Glarus. Viveu ahi dez annos, lendo e

estudando os auctores classicos latinos, e em especial Cicero, Seneca

e Horacio; começou tambem a aprender grego com muito afan, e a esse

respeito escreveu a um dos seus amigos: «Só se assim fôr da vontade de

Deus é que eu deixarei de me iniciar no grego; não o faço para adquirir

fama, mas para ter mais profundo conhecimento das Escripturas Sagradas.»

Os seus livros favoritos do Novo Testamento eram, diz-se, as Epistolas de

S. Paulo. Copiou-as com as suas proprias mãos de mais de um manuscripto,

e sabia-as, por fim, de cór. Os seus estudos biblicos impelliram-n’o a

declarar que o unico meio de chegar ás verdadeiras doutrinas era prestar

ouvidos á exposição que a Biblia fazia de si propria, e que o papado

havia feito com que a egreja se corrompesse. Era este o seu modo de

pensar em Glarus, quando Luthero era ainda um dedicado filho da egreja

medieval, torturando-se com jejuns e flagellações.

Em 1516 foi transferido para a paroquia de Einsiedeln, onde havia uma

abbadia que era, e ainda é, o santuario de uma celebre imagem da Virgem,

a que se attribuiam muitos milagres. As multidões vinham em peregrinação

a esta localidade, e Zwinglio sentia crescer a sua indignação perante

a idolatria e superstição de aquella gente, e perante o embuste e

sacrilegio do abbade e dos padres que estavam sob as suas ordens. Começou

a fazer prégações aos peregrinos, mostrando-lhes a loucura e o peccado

de dar culto ás imagens e aos santos. N’um dos seus sermões proferiu

o seguinte: «Na hora da vossa morte clamae só por Jesus Christo, que

vos comprou com o Seu sangue, e que é o unico Mediador entre Deus e

os homens.» Estas suas predicas produziram uma enorme excitação, e,

tendo constado em Roma, foi dada ordem ao legado do papa para reduzir

o prégador ao silencio, offerecendo-lhe uma promoção na egreja. Elle

recusou todos os offerecimentos de melhoria de situação que o dito legado

lhe fez, mas quando o conselho dos cidadãos de Zurich lhe pediu, em 1519,

para ir para lá como pastor, acceitou muito gostosamente, e não tardou em

ter uma grande influencia n’aquella importante cidade e capital de cantão.

Pouco depois de elle se installar em Zurich, um vendedor ambulante de

indulgencias, Bernardo Samson, appareceu a offerecer ao povo o artigo do

seu commercio. Zwinglio protestou contra o seu procedimento, e conseguiu

que as auctoridades o pozessem fóra. Começou tambem a fazer uma serie de

conferencias sobre o Novo Testamento, em que expoz as doutrinas da graça

e da justificação pela fé sómente. Estas conferencias eram feitas na

presença de centenares de pessoas, que ouviam o Evangelho com agrado.

A Suissa tinha, em virtude de antigos tratados, provido de infanteria o

papa nas suas guerras com o imperador; a influencia de Zwinglio, porém,

era tão grande que em 1521 o cantão de Zurich recusou alugar os seus

soldados, como até ali tinha feito. Esta patriotica resistencia a um

infame trafico de sangue levantou maior opposição do que todos os sermões

prégados por Zwinglio, e os clerigos papistas do cantão, assim como os

bispos das visinhas dioceses, empregaram todas as diligencias para que

a sua voz deixasse de ser ouvida. No anno anterior o legado do papa

tinha pedido á Dieta suissa que procurasse e destruisse todos os livros

lutheranos que haviam penetrado no paiz, e a Dieta passou ordens n’esse

sentido.

A junta da cidade de Zurich, influenciada por Zwinglio, posto que

obedecesse apparentemente á Dieta, intimou todos os curas, pastores

e prégadores a «prégarem os Santos Evangelhos e as Epistolas em

conformidade com o Espirito de Deus e com as Sagradas Escripturas do

Antigo e Novo Testamento.» Esta intimação deu um impulso ao movimento

evangelico, que já havia principiado. Zwinglio publicou o seu tratado

sobre o jejum em 1522, e muitos habitantes de Zurich começaram logo,

durante a quaresma, a fazer uso das comidas prohibidas pela egreja.

Prégou contra o celibato clerical, e o povo applaudiu-o. O papa, Adriano

II, queria a todo o transe evitar uma questão com os suissos, cujas

tropas lhe eram tão uteis, e tentou dissuadir Zwinglio por boas maneiras,

nada conseguindo, porém. Emquanto os legados percorriam leguas e leguas

para lhe transmittirem os lisongeiros recados de que eram portadores,

escrevia Zwinglio o seu _Apologeticus_, vigoroso ataque ás corrupções da

egreja.

O bispo de Constancia pediu aos habitantes de Zurich que impozessem

silencio ao reformador; Zwinglio solicitou d’elles licença para uma

discussão publica, e comprometteu-se a provar, na presença de todos, que

as suas opiniões se fundamentavam na Biblia. A junta accedeu, e fixou,

para essa discussão, o dia 23 de Janeiro de 1523.

=As theses de Zwinglio.=—A fim de separar convenientemente os assumptos

a discutir, Zwinglio compoz uma lista de sessenta theses, inscrevendo

por sua ordem os pontos em que a sua doutrinação differia da dos seus

accusadores, constituindo o conjuncto um bem elaborado resumo de

theologia protestante. As theses affirmavam, em poucas palavras, o

seguinte:—Jesus Christo, e só Elle, é o verdadeiro objecto do culto,

e é só Elle a quem se deve glorificar; e a unica coisa necessaria é

abraçal-O e abraçar o Seu Evangelho. Tudo quanto Roma apresenta para

intervir entre Christo e o Seu povo, ou para accrescentar ou tirar alguma

coisa do Evangelho, não passa, por consequencia, de meras pretensões,

com que insulta a Jesus Christo, nosso unico Summo Sacerdote. Christo

morreu na cruz, resgatando, de uma vez para sempre, os peccados do

Seu povo, e portanto a missa, que se assevera continuar, ou repetir,

esse sacrificio, constitue uma falsidade, e a eucaristia é apenas uma

ceremonia commemorativa. Jesus Christo é o unico Mediador entre Deus e o

homem, e, assim, o culto dos santos é uma idolatria. A Escriptura Sagrada

não contém uma palavra ácerca do purgatorio, e é coisa que não existe.

Nada desagrada mais a Deus do que a hypocrisia; segue-se, portanto, que

tudo quanto assume santidade aos olhos dos homens é loucura; e isto é uma

condemnação dos capuzes, dos symbolos, dos habitos e das tonsuras.—Por

similhante fórma, Zwinglio condemnou a ordenação, a confissão auricular,

a absolvição, o celibato clerical e todas as ordenanças exclusivamente

ecclesiasticas.

Ajuntou-se uma grande multidão de gente a ouvir a polemica, e, na opinião

dos assistentes, Zwinglio derrotou facilmente os seus antagonistas.

Esta polemica foi seguida por outra, em 1523, e por uma terceira, em

1524, e resultou das tres que o cantão de Zurich e os seus magistrados se

pozeram inteiramente ao lado de Zwinglio.

=A Reforma em Zurich.=—Ficou resolvida, em Zurich, uma reforma do culto

e de todo o systema ecclesiastico. Declarou-se que a missa não era tal

um sacrificio; que não se devia venerar as imagens; que a Ceia do Senhor

era uma simples commemoração da morte de Christo; que se devia ministrar

o calix aos seculares; e que todo o serviço religioso devia ser feito

na lingua corrente do povo. A procissão de Corpus Christi foi abolida,

e deixaram de ser pagas a extrema-uncção e a confissão. Em 1524, Leão

Judæus, amigo de Zwinglio, começou a traduzir o Velho Testamento, e antes

de decorridos dez annos tinha a Suissa cinco versões da Biblia.

Em Zurich havia uma cathedral, com deão e capitulo, sendo todas as

suas despezas custeadas com o rendimento de vastas propriedades. Os

conegos, reunidos em capitulo, desistiram dos seus beneficios. Uma

parte do dinheiro foi destinada ao sustento dos ministros da cidade, e

o resto ficou constituindo um fundo de instrucção. Era com este fundo

que a assembléa de Zurich, seguindo o conselho de Zwinglio, pagava ao

professorado das escolas. Foi tambem resolvido que se solicitasse em

todos os conventos, tanto de frades como de freiras, uma renuncia de bens

em beneficio da instrucção, e em muitos d’esses estabelecimentos assim

se fez, sob a condição de ficar garantida a sua subsistencia emquanto

vivessem.

A unica coisa que contrariou esta reformação foi a vinda, do norte da

Allemanha, de uns certos fanaticos anabaptistas. Os discipulos de Thomaz

Münzer não tardaram em causar perturbações. Conseguiram, com a sua

prégação, agregar a si alguns adherentes de entre a população de Zurich.

As suas doutrinas eram muito extravagantes. Diziam que todos os crentes,

constituindo um sacerdocio espiritual, eram especialmente ensinados de

Deus e não precisavam de leis que não fossem as que os seus corações e

consciencias lhes dictassem. E, para se mostrarem coherentes, queimaram

as suas Biblias em publico. Tinham idéas singularissimas. Como Christo

tivesse dito que os Seus discipulos se deviam tornar como creancinhas, os

enthusiastas anabaptistas, tomando esse preceito á letra, brincavam com

bonecos nas ruas de Zurich, e faziam outras coisas egualmente absurdas.

O enthusiasmo converteu-se por fim n’uma especie de loucura, de que

resultou haver sangue derramado. O conselho tolerou durante bastante

tempo as suas manias, mas viu-se por fim obrigado a mandal-os retirar,

proseguindo depois a obra da reforma com a mesma tranquillidade como

anteriormente.

A Reforma · 第 6 / 27 段