Alguns bispos do norte da Allemanha tinham-n’o feito já: a opportunidade

era de tentar: podiam, aproveitando-se d’este decreto, libertar-se da

obediencia a Roma, casar, e legar a seus filhos o que possuiam. Carlos

viu tambem o alcance de aquella opportunidade, mas durante muito tempo

foi-lhe impossivel intervir. Todas as vezes que tentou pôr em pratica os

seus planos via-se contrariado, ou pelo papa, ou pelo rei de França, ou

pelos turcos. Quando lhe constou que parecia estar proxima a conversão

de Hermann von Wied, reconheceu-se impotente para luctar com a Liga

de Schmalkald. Por fim, em 1544, conseguiu derrotar os francezes, com

os quaes tratou, depois, da paz em condições vantajosas para elles,

impondo-lhes, porém, a clausula de uma união dos dois exercitos

para combater os protestantes. Na Dieta de Spira, que se reuniu no

mesmo anno, mostrou-se contemporizador, propondo que se suspendessem

hostilidades até á convocação do Concilio Geral; isto ao passo que por

outro lado trabalhava para desviar da liga protestante o maior numero de

principes que lhe fosse possivel.

=A morte de Luthero, e a guerra de Schmalkald.=—No entretanto Luthero,

que soffria havia bastante tempo de uma doença do coração, morria

em Eisleben, em 18 de fevereiro de 1546, perecendo com elle aquella

forte reluctancia dos protestantes em tentarem a sorte das armas. Não

estavam, porém, tão bem preparados para a guerra como n’outro tempo. O

bom exito que a liga tivera ao principio fez com que elles confiassem

demasiadamente n’ella; além d’isso, surgiram rivalidades entre os estados

e as cidades, e entre os principes. Filippe de Hesse era o unico chefe

competente, mas tinha o defeito de ser um principe de pouco elevada

estirpe. Tinham ficado tambem muito prejudicados com o facto de Mauricio

ter succedido ao duque Jorge da Saxonia, o grande inimigo de Luthero e

da Reforma. Mauricio era sobrinho do duque Jorge, havia sido educado

no lutheranismo, e desposou a primeira filha de Filippe de Hesse.

Por occasião de elle assumir a chefia, a Saxonia Albertina, como era

chamada, confirmou o seu lutheranismo, que durante a vida do duque Jorge

se havia propagado clandestinamente, e que se havia tornado a religião

reconhecida do paiz quando o duque Henrique, pae de Mauricio, succedeu a

seu irmão. Todas estas coisas faziam com que os principes protestantes

não podessem prescindir do concurso de Mauricio, apezar do joven não lhes

inspirar muita confiança. De facto, Mauricio foi o primeiro de aquelles

principes allemães protestantes para quem a Reforma era simplesmente

uma arma politica de que lançassem mão quando lhes fosse vantajosa.

Mais tarde, durante a guerra dos Trinta Annos, o seu numero augmentou

consideravelmente, graças ás interminaveis disputas dos theologos, que,

interessados apenas em que as suas insignificantes doutrinas ácerca da

_ubiquidade_ e da _presença real_ fossem correctamente definidas, se

mostravam quasi indifferentes perante a grande quantidade de sangue

derramado e o grande numero de lares desgraçados. Nos primeiros tempos

da Reforma, porém, os principes protestantes eram homens sinceramente

christãos e que não obedeciam a fins interesseiros, não obstante a sua

forçada camaradagem com Mauricio.

O imperador quiz aproveitar a opportunidade, e com esse intuito fez

algumas propostas a Mauricio. Este começou por abandonar a liga. Era um

bom protestante, disse elle, e estava prompto a defender a religião,

mas não queria ajuntar-se com aquelles que se oppunham ao seu soberano.

O imperador, cobrando animo com esta declaração, deu os ultimos toques

aos seus preparativos. Antes, porém, de entrar em acção, proclamou que

a sua idéa não era combater a religião, mas, sim, castigar aquelles que

conspiravam contra a integridade do imperio.

Não vamos agora narrar pormenorisadamente o que teve logar em seguida.

Devido á traição de Mauricio, á hesitação dos outros, e á falta de mutua

confiança entre os caudilhos da liga, o imperador alcançou uma facil

e, apparentemente, decisiva victoria. A batalha de Mühlberg teve logar

a 24 de abril de 1547, e João Frederico, eleitor da Saxonia, ficou

ferido e foi feito prisioneiro, não tardando que Filippe de Hesse caisse

egualmente em poder dos inimigos.

Toda a Allemanha se prostrou deante do imperador, que declarou logo a sua

intenção de restabelecer a unidade religiosa. Ia redigir um documento

denominado o _Interim de Augsburgo_, especie de confissão de fé que os

allemães seriam obrigados a acceitar. Eram por meio d’elle reintegrados a

hierarquia e o culto catholicos romanos, com todas as suas festividades,

jejuns e ceremonias, sendo apenas tolerado o casamento dos clerigos e a

faculdade do povo commungar nas duas especies.

O Interim era, por assim dizer, um plano de reformação, e estava n’elle

incluido, segundo a opinião de Carlos, tudo quanto se devia conceder

aos protestantes. Em parte alguma o acceitaram de boa vontade. O

imperador não o remetteu aos districtos catholicos romanos, e em todos

os protestantes encontrou uma resistencia passiva. O proprio Mauricio

hesitou em o proclamar na Saxonia, publicando, em logar d’elle, o

_Interim de Leipzig_, que tendia a uma conciliação das ceremonias

papistas com as doutrinas protestantes.

Em breve se tornou evidente que o codigo religioso do imperador só

encontrava submissão da parte do povo nos pontos onde a presença

das tropas hespanholas obrigava a essa submissão. O imperador havia

triumphado, o seu exercito saira victorioso, parecia ter adquirido um

dominio na Allemanha como não succedera a nenhum outro soberano durante

muitos seculos, e, comtudo, lá no seu intimo, sentia-se derrotado, pois

não conseguira o fim principal que tinha em vista. A invisivel força da

consciencia, esse adversario com que elle não contara, estava erguida

contra elle, e havia de, por fim, inutilisar todos os seus bem elaborados

planos politicos.

=O imperador e o Concilio Geral.=—Emquanto o imperador estivera formando

e pondo em pratica os seus projectos para a conquista da Allemanha

protestante, a côrte pontificia vira-se forçada a convocar um Concilio

Geral. Este concilio reuniu-se em Trent, no Tyrol, e, emquanto o

imperador andou mettido na tarefa de subjugar os protestantes, esteve

tomando deliberações relativas á Egreja.

Nos primeiros periodos da controversia a que a Reforma deu origem, os

reformadores appellavam constantemente para um concilio livre, e os

concilios foram sempre os instrumentos favoritos do imperador para a

liquidação das contendas. Os papas, porém, procuravam, antes, evital-os.

No seculo quinze, os concilios geraes de Basiléa, Pisa e Constancia

foram os meios de que os ecclesiasticos e principes se serviram para

investir contra o poder da côrte de Roma. Um concilio geral era um ponto

de reunião para todos aquelles que eram adversos ao christianismo papal;

e a um politico como Carlos V affigurava-se ser um excellente meio de

engrandecer o imperador e humilhar o papa. Anteriormente á Reforma, os

concilios geraes eram olhados com muito respeito. Cria-se que o Espirito

Santo fallava mediante esses concilios, e muitos theologos medievaes, que

negavam a infallibilidade do papa, sustentavam que um concilio não era

susceptivel de errar.

Nos primeiros seculos da Egreja christã, um concilio geral, ou ecumenico,

significava simplesmente uma assembléa que se podia com justiça dizer

que representava a Egreja no seu conjuncto, de modo que as suas decisões

podiam ser chamadas as opiniões de todos os christãos. N’esses remotos

tempos os bispos eram eleitos pelo clero e pelo povo, e eram, portanto,

representantes das regiões de onde tinham vindo, e assim um concilio em

que todos os bispos christãos estivessem presentes achava-se realmente

no caso de fallar em nome de todo o povo christão. Mesmo nas epocas mais

puras da egreja primitiva, concilio algum se realisou a que concorressem

todos os bispos, e que fosse, por conseguinte, realmente ecumenico e

representativo de todos os christãos. No decurso da Edade Media a Egreja

perdeu inteiramente o seu antigo caracter popular, ou democratico, e os

bispos não podiam ser chamados, n’um sentido rigoroso, os representantes

do povo; eram, muitas vezes, apenas os delegados do papa, e iam aos

concilios para votar o que elle houvesse dictado.

Estas e outras considerações tinham feito com que os protestantes

respeitassem menos os concilios, e mostraram ao imperador que um

concilio, para ser util, devia estar quanto possivel fóra da influencia

do papa. Os allemães tinham pedido que se convocasse um concilio livre na

Allemanha, e o imperador tinha tambem ultimamente pedido o mesmo; o papa,

por outro lado, queria que o concilio se realisasse em Italia, onde elle

poderia mais facilmente ter mão nas suas deliberações e decisões. Depois

de muitas negociações entre o papa e o imperador, resolveu-se afinal que

o concilio se reunisse, não em Italia, onde o papa poderia ter demasiado

poder sobre elle, nem na Allemanha, onde o imperador e os principes

poderiam impôr a sua auctoridade, mas em Trent, no Tyrol, n’um ponto

equidistante da Allemanha e da Italia.

O imperador esperava grandes coisas d’este concilio. Sabia que havia

na egreja romana muitos homens competentes que se tinham preparado para

grandes reformas, que ao proprio papa, Paulo III, não eram indifferentes;

não tinha, porém, contado com a influencia de uma nova e poderosa

organisação que estava destinada a alcançar a sua primeira e grande

victoria n’esse mesmo concilio para cuja convocação elle havia trabalhado.

=Loyola e os jesuitas.=—Ignacio Loyola, joven fidalgo hespanhol, educado

no meio da cavallaria de Hespanha, onde as prolongadas guerras com

os moiros tinham tornado a dedicação ao papado um grande elemento de

patriotismo, ficou com uma perna esmigalhada no cerco de Pamplona. Duas

dolorosas operações tinham-n’o convencido, por fim, de que a sua carreira

militar tinha findado, e os seus pensamentos voltaram-se na direcção de

um novo mister. Votou que havia de ser um soldado da Egreja.

Nos accessos da febre produzidos pelo ferimento, tinha phantasticas

visões da Virgem; e, ao restabelecer-se, dedicou a sua vida, com todo o

ceremonial da cavallaria da Edade Media, a Deus, á Virgem e á Egreja.

Elle vivia alheiado da moderna erudição. Não sabia nada de theologia. A

sua religião era medieval, e o seu sonho era ser, no seculo dezeseis, um

novo Francisco de Assis.

É singular que este enthusiastico fidalgo hespanhol fosse excitado pela

mesma idéa que ditou a fria politica de Carlos V. Ambos queriam renovar

seculos que tinham desapparecido para sempre; e, emquanto um estava

planeando a restauração do Imperio do primeiro periodo da Edade Media,

o outro estava regalando a mente com uma nova ordem de frades, cujos

feitos missionarios haviam de rivalisar com os dos antigos franciscanos.

O imperador foi mal recebido; o solitario fidalgo teve um exito que

excedeu quasi os seus sonhos. Apoz alguns annos de estudo, de decepções,

de demoras, obteve permissão do papa para fundar a Companhia de Jesus.

A nova ordem tinha apenas cinco annos de existencia quando teve logar,

em 1545, o concilio de Trento, mas já se havia tornado famosa. Os

seus sucessos como sociedade missionaria, a sua devoção por Francisco

Xavier, e o enthusiasmo de seus membros, tudo contribuiu para a tornar

formidavel. Lainez, um dos primeiros discipulos de Loyola, e seu

successor como cabeça da companhia, cujo criterio deu á ordem o caracter

que lhe estava destinado, representou os seus companheiros no concilio de

Trento.

A maxima da Sociedade era uma inexoravel suppressão da heresia, e o

seu unico principio era a obediencia á Ordem e ao papa; e, n’essa

conformidade, Lainez tratou activamente de evitar que o concilio fizesse

quaesquer concessões aos protestantes. O seu modo de discursar, a sua

subtileza e a sua tenacidade deram-lhe grande influencia. Poude logo ao

principio levar de vencida os cardeaes Contarini e Pole, esses grandes

catholicos romanos liberaes, e conseguir que o concilio não auctorizasse

reformas doutrinaes.

As victorias de Carlos na Allemanha ajudaram os jesuitas. O papa não

podia jámais pensar ou obrar simplesmente como chefe da Egreja. Elle era

uma potencia politica, e as razões de estado influiram nas suas acções.

N’esta conjunctura, os interesses do principe italiano oppunham-se á

existencia de uma christandade una. O rei de França, Henrique II, chamou

a attenção para o facto de Carlos se tornar poderoso em demasia e de ser

provavel que assim continuasse se as concessões religiosas estabelecessem

a união na Allemanha. Quando Carlos venceu a Liga protestante, e procurou

obter de Roma concessões que satisfizessem os subditos que havia

submettido ao seu dominio, o papa recusou auxilial-o, afastou de Trento

o concilio, e installou-o em Bolonha, na Italia, de modo que os planos

do imperador foram novamente contrariados pelo cabeça da egreja que elle

se empenhava por conservar catholica. Na sua ira, virou-se para o papa e

compelliu-o a dissolver o concilio. Este dispersou para só se tornar a

reunir quando toda e qualquer esperança de reconciliar os protestantes

tinha desapparecido, e d’esta vez poude, sem a peia do protestantismo,

consolidar a organização externa de um dominio exclusivamente papal.

O imperador não foi mais bem succedido na Allemanha. As crueldades de que

os principes que tinha feito prisioneiros foram victimas, a infidelidade

de que deu prova na perseguição dos protestantes, a despeito de tudo

quanto tinha feito proclamar, e as extorsões commettidas pelas tropas

hespanholas—tudo isto contribuiu para tornar a Allemanha hostil, e

não faltavam indicios de que o paiz não supportaria por muito tempo a

tyrannia de Carlos. E a revolta teria rebentado mais cedo, se Mauricio, o

traidor, não fosse tão odiado, ou se tivessem confiança n’elle.

O imperador parecia não ter olhos para ver o que se estava passando.

Estava convencido de que Mauricio, a quem havia nomeado eleitor, estava

nas suas mãos, e de que sem elle, Mauricio, a Allemanha não podia

fazer coisa alguma. Entretanto, os principes procuravam reunir-se de

novo. Offereceram á França uma parte do territorio allemão em troca do

seu auxilio, e por fim organisou-se uma confederação, em que entrava

Mauricio, e os principes trataram de guarnecer as fronteiras do Tyrol,

para que estas não fossem transpostas pelas tropas imperiaes. Mauricio

avançou impetuosamente e tomou de assalto a fortaleza de Ehrenherg, que

era a chave do Tyrol; e o imperador para escapar teve de recorrer a

uma fuga subita, e achou-se em Steiermark, sem exercito, e expulso da

Allemanha. Foi a um tumulto que se levantou entre as tropas confederadas

que elle deveu não ser apanhado, pois que Mauricio fez todo o possivel

por agarrar «a velha raposa no covil», segundo a phrase d’elle.

=A paz religiosa de Augsburgo.=—Carlos V nunca se resarciu d’este

desastre. A Reforma tinha-o, por fim, vencido, e elle reconhecia esse

facto, sem, comtudo, o comprehender. Elle não quiz entrar directamente

em negociações com os principes victoriosos, encarregando d’isso o seu

irmão Fernando. Filippe de Hesse e João Frederico da Saxonia foram postos

em liberdade. Filippe reentrou na posse dos seus dominios; a João foram

tambem restituidas algumas das suas propriedades, mas Mauricio continuou

no logar de eleitor. Os preliminares de uma paz permanente foram vasados

nos velhos moldes de Nürnberg, pelo tratado de Passau, em 1552.

Por fim, apoz longas negociações, saiu da Dieta de Augsburgo, em

1555, uma paz religiosa, «a qual» dizia o decreto, «tem de ser

permanente, absoluta, e incondicional, e tem de durar para sempre».

Foi reconhecido aquelle principio que se estabeleceu em 1526, isto é,

que a suprema auctoridade civil de cada estado tinha liberdade para

escolher o respectivo credo, lutherano ou catholico romano. Esta paz,

por conseguinte, reconhecia o direito das egrejas com separadas crenças

existirem ao lado umas das outras na Allemanha, tornando assim legal a

existencia da Reforma.

O principio a que obedecia este regulamento, _cujus regio ejus religio_,

acarretava difficuldades que não podem ser aqui descriptas, e foi, na

verdade, uma das causas da guerra dos Trinta Annos, que tão calamitosa

foi para a Allemanha. Não concedia liberdade de consciencia; não fazia

provisão para qualquer outra fórma de protestantismo além da lutherana; e

todos aquelles que não tinham adherido á confissão de Augsburgo estavam

ainda fóra da lei, juridicamente fallando.

Aquelles que fizeram uso d’ella na Dieta tinham de modifical-a de um ou

de outro modo. Os protestantes viram que ella auctorizava os principes

catholicos romanos a perseguirem os subditos que o não fossem; e os

catholicos viram que ella permittia aos principes ecclesiasticos

secularizarem os seus estados. Assim os protestantes obtiveram a

inserção de uma clausula que declarava que os subditos protestantes de

principes ecclesiasticos, que de ha muito tivessem adoptado a confissão

de Augsburgo, não seriam obrigados a abandonar as suas idéas religiosas;

e os catholicos obtiveram a inserção do que se ficou chamando «a reserva

ecclesiastica», que preceituava que, se algum estado catholico romano se

separasse de Roma, fosse destituido de todas as prerogativas que as suas

dioceses disfructavam.

Com a paz de Augsburgo terminaram as luctas para o reconhecimento da

Reforma lutherana. A egreja protestante da Allemanha, que adheriu á

confissão de Augsburgo, tinha ainda que sustentar um grande combate para

se defender da contrareforma catholica romana, das intrigas jesuiticas,

e da força das armas durante a guerra dos Trinta Annos. Conservou a sua

integridade, mas foi só o que fez. A paz de Augsburgo foi a maré cheia da

egreja lutherana.

Na lucta que teve logar depois, foi a mais moderna e mais perseverante

fórma do protestantismo que arrostou com os impetos do ataque, e que se

tornou digna de receber os despojos da conquista. O lutheranismo reteve

a sua integridade, consolidou as suas organizações ecclesiasticas, e

aperfeiçoou a sua theologia; mas, como vigoroso movimento reformador, a

sua historia terminou com a paz de Augsburgo.

CAPITULO II

A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA

O lutheranismo fóra da Allemanha, pag. 49.—Na Dinamarca, pag.

50.—Na Suecia, pag. 51.

=O lutheranismo fóra da Allemanha.=—Durante os primeiros annos da

Reforma, a influencia de Luthero transpoz os limites da Allemanha. A

Universidade de Wittenberg attrahiu muitos estudantes estrangeiros,

os quaes, voltando para as suas terras, propagaram, clandestina ou

abertamente, as novas doutrinas.

Aconteceu d’esse modo que os preliminares da Reforma n’esses paizes, que

depois se separaram de Roma e formaram egrejas protestantes nacionaes,

foram quasi inteiramente lutheranos. Os primeiros reformadores e

martyres dos Paizes Baixos eram lutheranos, e os dogmas doutrinaes e

ecclesiasticos de Luthero foram durante muito tempo acatados na Hollanda.

Os movimentos reformadores na Hungria, na Polonia, na Bohemia e na

Escocia foram iniciados por homens que se apresentavam como discipulos de

Luthero, e mesmo na Inglaterra os principios lutheranos progrediram algum

tanto. Em todos esses paizes, porém, foi ganhando, por fim, terreno um

outro typo de doutrina protestante, o Calvinismo, e a Reforma lutherana

eclipsou-se.

Unicamente dois paizes, a Dinamarca e a Suecia, com as suas dependencias,

adoptaram de um modo permanente a confissão de Augsburgo e os principios

lutheranos do governo da egreja.

A Reforma estava n’estes paizes, mais do que em qualquer outra parte,

identificada com a revolução politica, e foi executada por governantes

que se haviam compenetrado de que não era possivel melhorar o estado das

coisas emquanto não fosse abatido o poder de que o clero romano dispunha.

A historia da Reforma n’esses paizes é a historia de uma revolução, e a

moderna vida politica da Dinamarca e da Suecia principia com a reforma

das suas egrejas.

No principio do seculo dezeseis, a Dinamarca, a Suecia e a Noruega

estavam sob a soberania de um rei que tinha a sua residencia no primeiro

d’estes paizes, e que tinha sobre os outros dois um poder apenas nominal.

Estes paizes estavam quasi n’um estado de anarquia. Duas grandes

aristocracias, a da nobreza e a da egreja, dividiam entre si a riqueza e

o poderio, sendo cada um dos barões e cada um dos bispos um verdadeiro

despota para com aquelles que estavam debaixo da sua auctoridade. A união

das tres nações, effectuada no fim do seculo quatorze, era puramente

dynastica, e vista com muito maus olhos pelo povo.

Em 1513 subiu ao throno Christiano II, cruel, voluvel e nescio monarca,

que grangeara em ambos os paizes a antipathia de todas as classes.

Um massacre de fidalgos suecos, que teve logar em Stockolmo, em

circumstancias as mais revoltantes, exgotou a paciencia do povo, e a

Dinamarca e a Suecia levantaram-se contra o tyranno. A revolução foi

bem succedida; Christianno II foi derrubado do throno, e as duas nações

ficaram de ahi em deante independentes uma da outra.

=Na Dinamarca.=—Os dinamarquezes offereceram a corôa a Frederico I,

duque de Schleswig-Holstein, que era um ardente lutherano, e chefe

d’um estado que já tinha acceite a Reforma. Acceitou-a, e por occasião

da sua coroação o clero obrigou-o a declarar por escripto que não

introduziria á força a religião reformada, nem atacaria a egreja de

Roma, nos seus novos dominios. Frederico cumpriu essa obrigação segundo

a letra, mas não segundo o espirito, da mesma. Favoreceu e protegeu

prégadores e evangelistas lutheranos, e em particular a João Jansen,

frade dinamarquez, que tinha estado em Wittenberg; e a nova fé fez

taes progressos que dentro em pouco quasi todos os nobres da Jütlandia

a tinham abraçado, e nas ilhas o numero de adeptos era consideravel.

Em fins de 1527 reuniu-se em Odensee uma Dieta, expressamente para

ser tratada a questão religiosa, e ficou assente a tolerancia do

lutheranismo. Durante os annos que immediatamente se seguiram, as novas

doutrinas espalharam-se com rapidez por entre o povo. Os catholicos

romanos intentaram readquirir o seu poder por occasião do fallecimento

de Frederico, em 1533, mas não o conseguiram, e a auctoridade dos

bispos foi desapparecendo a pouco e pouco, até se extinguir de todo. Os

nobres haviam cooperado com o rei na sua obra de demolir a aristocracia

ecclesiastica, e as terras que eram da egreja ficaram, na sua maioria,

pertencendo ao rei.

A Dinamarca ficou sendo, desde então, um paiz protestante. O seu credo

é a confissão de Augsburgo, porque os lutheranos nunca adoptaram, na

Dinamarca, a formula da concordata; o seu catecismo é o de Luthero;

e sua fórma de governo de egreja, posto que admitta um episcopado, é

consistorial. A constituição vem exposta no _Ordinatio ecclesiastica

regnorum Danicæ et Norwegeæ_, de Bugenhagen. O rei possuia o _jus

episcopale_, e era a suprema dignidade ecclesiastica; os nobres eram os

patronos; e a Egreja era governada por sete superintendentes com o titulo

de bispos. Na grande lucta entre o protestantismo e o catholicismo romano

no seculo dezessete, a chamada guerra dos Trinta Annos, a Dinamarca

enviou aos protestantes da Allemanha todo o auxilio de que o paiz podia

dispôr.

A Reforma · 第 5 / 27 段