rebellião, fosse qual fosse a natureza d’esta, e não acreditava que as
batalhas do reino dos céus se podessem vencer com as armas carnaes.
Depois, tambem, havia n’elle uma grande somma de quietismo, ou, por
outra, de fatalismo, em parte hereditario, e em parte devido á sua
adhesão ás idéas de Tauler e ás dos mysticos allemães. Filippe de Hesse
tinha, porém, sem duvida razão ao attribuir uma grande parte d’esta
obstinação de Luthero a uma polemica theologica. Tinha sido proposto
reunir todos os protestantes n’uma liga offensiva e defensiva, e havia
protestantes que não reconheciam em Luthero o seu chefe religioso.
Assim como havia uma reforma allemã, havia tambem uma reforma suissa,
com o seu particular typo de doutrina—typo de que Luthero não gostava,
e que, com immenso desagrado da sua parte, se estava propagando pelo
sul da Allemanha. Filippe notou esse facto, e, com aquella decisão que
o caracterizava, tentou extrair a difficuldade pela raiz. Propoz uma
conferencia. Tinha a convicção de que, se pozesse na presença uns dos
outros aquelles cujas idéas divergiam, elles haviam de comprehender-se
melhor, e acabariam, por consequencia, todas as differenças. Com esse
intuito, pois, promoveu em Marburgo, em 1529, uma conferencia entre os
primeiros theologos da Allemanha e da Suissa.
=A Conferencia de Marburgo.=—Pode-se imaginar o que seria aquella
reunião, em que ia tratar-se de um assumpto tão palpitante. Zwinglio e
Œcolampadius tinham vindo, com risco das suas vidas, da Suissa; Bucer
tinha vindo de Strasburgo; e Luthero e Melanchthon tinham vindo de
Wittenberg. Consultaram-se sobre os grandes artigos da fé christã, e os
allemães ficaram convencidos de que os suissos tinham idéas perfeitamente
evangelicas. Foram redigidos quatorze artigos em que se encerravam todos
os principaes pontos da verdade evangelica, sem que alguem discordasse
d’elles, e em seguida os theologos passaram a tratar do quinquagessimo e
ultimo, que se occupava da doutrina da Ceia do Senhor. Era esse o artigo
ácerca do qual os que desejavam uma união de todos os protestantes se
mostravam mais inquietos.
Anteriormente, antes da revolta dos camponezes o ter inclinado a evitar
mudanças, é muito possivel que Luthero apresentasse qualquer asserção
sobre pontos de doutrina que fosse acceite pelos suissos; e muitos teem
supposto, com bom fundamento, que, se Calvino estivesse presente, e
tivesse fallado antes de Luthero, poder-se-hia ter chegado a uma união.
Luthero, porém, não tinha confiança nos suissos; tinha-os na conta de
irreflectidos e irreverentes theologos, e, a despeito das anciedades dos
principes allemães, tinha ido á conferencia resolvido a não ceder em
coisa alguma.
=A controversia entre Luthero e os suissos.=—O thema do debate era este.
Todos os reformadores, tanto allemães como suissos, haviam rejeitado a
doutrina catholica romana do sacramento da Ceia do Senhor.
Os theologos catholicos romanos dividem este sacramento em duas partes
distinctas: a Eucaristia e a missa. A missa é mais um sacrificio do
que um sacramento. É a prolongação, atravez do tempo, do sacrificio de
Christo na cruz; o pão e o vinho são, diz-se, os verdadeiros corpo e
sangue de Christo, e quando estes são saboreados pelo padre, no acto
de comer e beber, Christo soffre com esse acto aquillo que soffreu na
cruz. D’esta maneira os catholicos romanos ensinam que os christãos vêem
Christo realmente no seu meio—vêem-n’o supportando os tormentos por sua
causa, na sua propria presença. Assim, segundo esta theoria, não ha a
distancia de longos seculos entre o crente e os soffrimentos de Christo
por sua causa. Christo soffrendo e o crente prestando culto estão em face
um do outro durante um momento, mediante a missa.
Os protestantes de todas as denominações rejeitaram a doutrina da missa
por a considerarem idolatra e supersticiosa, e ensinaram os christãos a
retrocederem, pela fé, até ao verdadeiro sacrificio de Christo na cruz
do Calvario por sua causa e para resgate dos seus peccados. O debate
entre os protestantes é exclusivamente sobre aquillo a que os catholicos
romanos chamam a Eucaristia, ou sacramento do altar.
A doutrina catholica romana da missa e a sua doutrina da Eucaristia teem
um ponto em commum; ambas affirmam que o verdadeiro corpo e o verdadeiro
sangue de Christo estão presentes no pão e no vinho, de modo que estes
elementos já não são o que parecem ser, mas sim o verdadeiro corpo e o
verdadeiro sangue de Christo. Ensinam que o padre, porque é padre, e
porque foi ordenado por um bispo, pode, mediante a oração e a ceremonia,
operar o milagre de transformar o pão e o vinho no verdadeiro corpo e
sangue de Christo, com a Sua alma racional e a Sua natureza divina; e
que pode, outrosim, operar o milagre de O trazer do céu e de O mostrar
ao povo, a fim de ser adorado e partilhado por todos. Ensinam, ainda,
posto que esta parte do seu ensino não seja sempre muito clara, que os
beneficios de Christo são communicados ao Seu povo quando este come o
pão, que já não é pão, mas Christo. A graça, dizem elles, é concedida a
todos aquelles que participam, quer tenham quer não tenham fé.
Todos os protestantes, tanto suissos como lutheranos, recusaram acceitar
pelo menos dois, e os dois principaes, pontos d’esta doutrina catholica
romana. Não quizeram crer que um padre podesse operar o milagre que os
catholicos romanos asseveram que é operado; e foram tambem todos de
opinião de que é necessaria mais alguma coisa do que a participação para
que o sacramento tenha efficacia. Ao descreverem a connexão entre o
sacramento e o que o administra, negaram que tenha logar a operação de um
milagre; e, ao descreverem o effeito nos participantes, asseveraram que a
fé era indispensavel.
Tiraram o milagre d’uma parte da descripção do sacramento e do seu
effeito e inseriram a fé na outra. N’isto todos elles concordaram. Todos
elles sustentaram que, ainda que Christo esteja presente no sacramento,
não foi trazido para ali mediante um milagre operado por um padre, e
que, ainda que Christo soccorresse o Seu povo, o fazia n’um sentido
espiritual, mediante a fé, e não pela simples participação do sacramento.
Posto, porém que Zwinglio e Luthero abundassem nas mesmas idéas com
respeito a estes dois importantes pontos, e assim podessem escrever
a primeira parte do artigo quinze de tal maneira que podessem ambos
acceitar cabalmente a asserção, differiam no modo em que descreviam a
entrada de Christo no sacramento, e a maneira em que o crente sentia a
Sua presença e tirava o beneficio inherente.
Zwinglio dizia que Christo não estava realmente no sacramento sob uma
fórma corporea. O pão e o vinho, affirmava elle, eram apenas signaes da
Sua presença, quasi da mesma maneira como uma carta é o signal da pessoa
ausente que a escreveu, e, quando os christãos participam do sacramento,
colhem um beneficio, porque os signaes, pão e vinho, lhes reavivam a
memoria e os fazem pensar em Christo e em tudo quanto Elle fez e soffreu
sobre a cruz.
Luthero entendia que no sacramento havia mais alguma coisa. Elle
tinha, anteriormente, ensinado que o pão e o vinho eram promessas, ou
sellos, assim como signaes, e essa idéa podia têl-o levado, como mais
tarde aconteceu a Calvino, a encarar a questão com maior clareza e
simplicidade. No seu modo de vêr, o pão e o vinho eram, de uma maneira
real, o genuino corpo e sangue de Christo, e isto porque o Senhor disse
ácerca do pão «Isto é o meu corpo», e ácerca do vinho «Isto é o meu
sangue». E, como não gostava de fazer alterações em pontos doutrinaes,
fez reviver uma velha theoria sustentada na Edade Media.
Os philosophos medievaes, que eram muito amigos de fazer distincções
muito delicadas e muito subtis entre os sentidos de umas e outras
palavras, ensinaram que a palavra _presença_ significava duas coisas
differentes; um corpo estava presente n’uma certa porção de espaço quando
occupava essa porção de espaço de tal fórma que nenhum outro corpo
podesse estar lá ao mesmo tempo, e um corpo podia tambem estar presente
quando occupasse o mesmo espaço juntamente com outra qualquer coisa.
A alma do homem estava, diziam elles, no mesmo espaço em que o corpo
estava, e ao mesmo tempo. Um d’estes escolasticos, como eram chamados,
empregava esta segunda especie de presença para descrever a presença do
corpo de Christo nos elementos. Estava presente no mesmo logar e ao mesmo
tempo. O pão não era transformado no corpo de Christo; as duas coisas,
o pão e o corpo de Christo, podiam estar, e estavam, ao mesmo tempo
no mesmo espaço, ou, para usar a phrase corrente, o corpo de Christo
estava, na Ceia do Senhor, no pão, com o pão e sob a fórma de pão. Isto,
porém, não explicava a presença do corpo de Christo, nem como elle era
transportado da dextra de Deus para os elementos.
Para o explicar, Luthero serviu-se de uma outra idéa dos theologos
medievaes. Diziam elles que pelo facto de Christo ser Deus e homem, duas
naturezas n’uma pessoa, todos os attributos da natureza divina de Christo
se tornavam tambem propriedades da Sua natureza humana. Um dos attributos
de Deus é a omnipresença. A natureza humana de Christo adquiriu da
natureza divina este attributo, e pode estar tambem em toda a parte. Se
o corpo de Christo está em toda a parte, deve estar nos elementos, sobre
a mesa do Senhor, sem que ocorra milagre algum. Luthero serviu-se d’esta
ubiquidade do corpo de Christo para explicar como, sem a intervenção do
milagre, elle podia estar em, com e sob os elementos do pão e do vinho.
Quando lhe perguntaram porque é que havia uma virtude especial n’este
caso da presença de Christo—a Sua presença no Sacramento—estando Elle,
segundo a sua theoria, presente em toda a parte, replicou que Deus tinha
promettido, na Biblia, abençoar o Seu povo mediante a presença do corpo e
sangue de Christo nos elementos do sacramento.
E assim Luthero tecia uma complicadissima doutrina da presença de Christo
no pão e no vinho; desembaraçava-se, certamente, da transubstanciação e
do milagre sacerdotal, mas introduzia, em seu logar, inverosimeis idéas
escolasticas. Podia, comtudo, d’esta fórma, dizer que o corpo de Christo
estava realmente presente, em figura corporea, no pão e no vinho, e isso
dava-lhe grande satisfação. Quando, pois, se encontrou com Zwinglio para
discutirem a doutrina da Ceia do Senhor, diz-se que pegou n’um pedaço de
giz e escreveu em cima da mesa que estava no meio da sala as palavras HOC
EST CORPUS MEUM (Isto é o meu corpo).
Não acceitava explicação alguma d’estas palavras que affirmasse que o
corpo e o sangue de nosso Senhor não estavam corporalmente presentes
nos elementos, e accusava os seus antagonistas de interpretarem mal a
Escriptura quando se referiam a metaphoras e a symbolos. Foi debalde que
Zwinglio contestou que a palavra «é» nem sempre significa identidade de
substancia; que quando nosso Senhor disse «Eu sou a videira verdadeira»,
«Eu sou a porta», não queria dizer que fosse uma vinha ou uma porta no
sentido litteral da palavra. Luthero não se demoveu, e a conferencia
terminou sem aquella unidade de coração e de proposito que o pio e
affectuoso Landgrave esperava que resultasse d’ella.
=A Dieta de Augsburgo.=—O imperador tinha sido victorioso em toda a
parte fóra da Allemanha, e estava prestes a vir subjugar a Reforma, isto
emquanto os protestantes, devido á obstinação de Luthero, se encontravam
divididos e desalentados. O Landgrave Filippe fez tudo quanto estava ao
seu alcance para conservar unido o partido evangelico, e alguma coisa
conseguiu n’esse sentido.
O imperador entrou em Augsburgo com grande apparato, e ao principio
recebeu muito cordealmente os principes protestantes. Luthero achava-se
ausente da cidade. Considerou-se que a sua presença daria logar a uma
desnecessaria irritação, e permaneceu, portanto, em Coburgo, onde
facilmente poderia ser consultado. Melanchthon ficou a substituil-o como
conselheiro theologico.
Os chefes dos protestantes eram—João, eleitor da Saxonia, denominado
João o constante, em razão da sua fidelidade aos principios evangelicos;
Filippe o magnanimo, Landgrave de Hesse; e o edoso Margrave de
Brandenburgo, antepassado do ultimo imperador da Allemanha. Estes
principes foram recebidos pelo imperador com muita affabilidade.
Deprehender-se-hia de tudo isto que se tinha iniciado na Allemanha uma
era de paz e concordia.
Por detraz dos bastidores, porém, estava Fernando da Austria, irmão
do imperador, e cabeça do fanatico partido romanista, com os seus
conselheiros theologicos, protestando contra o incitamento á herezia.
Afim de o socegar, o imperador escreveu-lhe o seguinte: «Entrarei em
negocios, sem chegar a qualquer conclusão: mas, ainda que isso aconteça,
não ha motivo para receios da tua parte: nunca te faltarão pretextos para
castigar os rebeldes, e has de sempre deparar com quem, com muito gosto,
se preste a servir de instrumento á tua vingança.» As suas verdadeiras
intenções depressa se tornaram manifestas.
Os capellães dos principes protestantes celebravam o culto publico
segundo o rito evangelico: e o imperador deu ordem para que tal se não
continuasse a fazer. O Eleitor declarou: «Assim que tiver a certeza de
que o imperador tenciona suspender a prégação do Evangelho, retiro-me
para minha casa.» Quando Carlos, n’uma conferencia particular, pediu aos
principes que impozessem silencio aos seus capellães, o velho Margrave
de Brandenburgo avançou alguns passos, levou as mãos ao pescoço, e,
inclinando-se, disse: «Era mais facil a minha cabeça rolar aos pés de
Vossa Magestade do que eu privar-me da Palavra de Deus e negar o meu
Senhor». Carlos mostrou-se surprehendido. «Ninguem pensa em cortar
cabeças, meu caro Margrave», replicou elle. Comprehendia tão mal os
seus subditos protestantes que se encheu de ira quando elles recusaram
incorporar-se na procissão que teve logar por occasião da festa de
_Corpus Christi_. Seria condescender com a idolatria, seria prestar
adoração a uma particula de massa que a Egreja de Roma dizia ter-se
transformado na Divindade mediante um milagre operado por um padre, e
isso não podiam elles fazer. «Porque não hão de agradar ao imperador?
Porque não hão de mostrar respeito ao cardeal?» exclamou Fernando. «Não
podemos nem queremos adorar senão a Deus» declararam elles. E assim foram
passando os dias.
Entretanto os prégadores protestantes dirigiam todos os dias a palavra
a grandes concursos de gente na egreja dos franciscanos, e expunham
eloquentemente as doutrinas do Evangelho. Carlos resolveu pôr um termo
a este estado de coisas, e fêl-o por meio de um accordo cujas vantagens
ficaram todas do lado dos catholicos romanos. Melanchthon, sempre timido
e amigo da paz, insistiu para que se fizessem algumas concessões. Os
prégadores protestantes sairam angustiados da cidade, e Luthero, que
observava de longe os acontecimentos, convenceu-se de que Melanchthon,
apezar das suas boas intenções, estava traindo a causa.
Quando se abriu a Dieta, o imperador quiz que os protestantes expozessem
as suas opiniões. Essa exigencia era esperada, e assim Melanchthon
tinha, com a collaboração de Luthero, redigido uma Confissão de Fé, em
que estavam mencionados, com grande clareza de linguagem, os principaes
artigos da sua fé. Era esta a famosa _Confissão de Augsburgo_ (_Confessio
Augustana_), o credo que tem sido acceite por todos os lutheranos, embora
entre elles tenha havido divergencias n’outros pontos. Carlos queria
que elle fosse lido em latim. «Não», respondeu a isto João o Constante,
«nós somos allemães, e estamos em territorio allemão. Espero que vossa
magestade nos permittirá que fallemos na nossa lingua». E a Confissão
foi lida em allemão, não por um theologo, mas por uma outra pessoa que
recebeu dos principes esse encargo.
=A Confissão de Augsburgo.=—A primeira parte d’esta nobre confissão
expõe, um por um, todos os principios evangelicos da Reforma, e em
particular os grandes principios da justificação pela fé. Diz-se que,
quando o chanceller do Eleitor, Christiano Beyer, leu estas palavras «a
fé, que não é o mero conhecimento de um facto historico, mas aquillo que
crê, não sómente na historia, mas no effeito que essa historia produz
sobre o espirito», toda a assembléa se mostrou commovida. «Christo» disse
Justo Jonas, «está aqui na Dieta, e não Se conserva silencioso: a Palavra
de Deus não está presa».
Passou-se depois á segunda parte da Confissão, que denunciava os abusos
da Egreja de Roma. Começava assim: «Visto as egrejas que ha entre nós não
discordarem em artigo algum de fé das Sagradas Escripturas ou da Egreja
Catholica, e omittirem apenas uns certos abusos, umas certas innovações,
que em parte se teem insinuado, e em parte teem sido violentamente
introduzidas, sendo todas ellas contrarias ao sentido dos canones,
rogamos a Vossa Magestade Imperial se digne prestar ouvidos clementes ás
razões que o povo apresenta para que não deva ser forçado, contra as suas
consciencias, a observar estes abusos». Declara em seguida que o negar o
calix aos leigos é uma pratica que se oppõe, não só á Escriptura como
aos antigos canones e ao exemplo da Egreja: que o celibato dos clerigos
é uma transgressão do mandamento de Deus: que a missa é «uma profanação
do sacramento da Ceia do Senhor»: que a distincção das comidas e as
tradições «obscurecem as doutrinas da graça, e induzem o povo a crêr que
o christianismo é tão sómente uma observancia de determinadas festas,
ritos, jejuns e vestuarios»: que a vida e votos monasticos são altamente
perniciosos, e servem para desencaminhar homens e mulheres, pois que «se
deve servir a Deus segundo os preceitos que Elle promulgou, e não segundo
os que os homens inventam»: que o poder ecclesiastico não é senhoril, mas
ministerial.
A confissão continha tambem um pequeno artigo em que vinha exposta a
opinião lutherana ácerca da doutrina da Ceia do Senhor, e isso compelliu
os theologos suissos e os do sul da Allemanha a apresentarem confissões
separadas: mas a leitura da confissão de Augsburgo, pelos principes,
na Dieta produziu um maravilhoso effeito em toda a Allemanha, e os
protestantes adquiriram a animadora convicção de que estavam todos unidos.
O imperador viu que só por meio de uma guerra poderia destruir a Reforma,
e não se achava preparado para esse recurso. Lembrou-se então de
promover umas conferencias que fossem criando uma certa confusão entre
os protestantes. Era bem conhecido o caracter submisso de Melanchthon,
que n’essas conferencias propunha que, a bem da paz, se fosse cedendo em
todos os pontos. Luthero ficou indignadissimo quando, em Coburgo, soube
do caso. E escreveu: «A mestre Filippe Kleinmuth (Coração pequeno):
Segundo me parece, estaes fazendo uma obra prodigiosa, qual a de
reconciliar Luthero com o papa.... Advirto-vos, porém, de que, se é vossa
intenção metter n’um sacco essa aguia gloriosa que se chama o Evangelho,
Luthero, tão certo como Christo viver, ha-de, fazendo appello a todas
as suas forças, ir libertal-o.» Os principes e o povo ficaram tambem
pessimamente impressionados com a conducta de Melanchthon. «Antes morrer
com Jesus Christo», exclamavam, «do que alcançar, sem Elle, as boas
graças do mundo inteiro». Os catholicos romanos pediam, por fim, mais do
que Melanchthon podia conceder, e, com grande regozijo dos protestantes,
as conferencias cessaram.
=A liga protestante de Schmalkald.=—Os principes sabiam que o imperador
queria esmagal-os. Elle tornou o papa sciente da sua resolução, e
pediu-lhe que excitasse todos os principes catholicos a coadjuvarem-n’o
n’aquella obra. Formou-se uma liga catholica. A resposta dos protestantes
foi recusarem todos os subsidios emquanto os negocios da Allemanha
permanecessem por liquidar.
Os principes reuniram-se em Schmalkald, e formaram uma liga protestante,
de que Filippe de Hesse foi o membro mais activo. Os estados catholicos
romanos não desejavam entrar n’uma guerra civil com os seus visinhos
protestantes, e o imperador, atacado pelos francezes e pelos turcos,
viu-se na impossibilidade de suffocar a revolta.
O ultimo decreto da Dieta havia estabelecido um prazo, que se estendia
até á proxima primavera, durante o qual os protestantes podiam fazer
a sua submissão voluntaria, e accrescentava que aquelles que não se
submetessem durante esse prazo seriam exterminados. Ao chegar, porém,
a primavera, reconheceu-se impotente para exterminar os protestantes.
A Liga de Schmalkald havia-se tornado a mais poderosa aggremiação da
Allemanha. Assim, em 1532, apoz prolongadas negociações, firmou-se
um tratado de paz entre Carlos e os principes protestantes. A Paz de
Nürnberg, como ficou sendo chamada, permittia aos adherentes á Confissão
de Augsburgo o persistirem nas suas doutrinas, e concedia-lhes outros
privilegios. Em troca, os principes protestantes, e entre elles Filippe
de Hesse, offereceram-se, muito cordialmente, para auxiliar o imperador
nas suas campanhas contra os francezes, os turcos e os piratas da
Barbaria.
A Liga de Schmalkald continuou de pé, e outros estados, taes como o de
Würtemberg, deram-lhe a sua adhesão. O imperador não podia dissolvel-a,
e, comtudo, ardia em desejos de restabelecer na Allemanha a uniformidade
religiosa. O exame da sua correspondencia particular revelou a
perplexidade em que elle se encontrava. Tinha umas vezes a idéa da
exterminação, e outras a da conciliação. Um dos seus planos consistia em
promover na Allemanha um Concilio Geral da Egreja, sem consultar nem o
papa nem o rei de França.
Em 1538, Held, o seu vice-chanceller, formou em Nürnberg uma Liga
Catholica, com o expresso designio de acabar com o protestantismo pela
força das armas. Em 1540-41, o imperador diligenciou, por meio de
conferencias que se realisaram em Hagenau Worms, e Regensburgo, chegar
a um certo entendimento com os protestantes em materia de religião, e
chegou a ser proposta em Roma a reforma da Egreja. Foi, finalmente,
publicado, em 1541, um decreto da Dieta, estabelecendo que não se podia
prohibir, a quem quer que fosse, o adoptar a religião protestante.
D’estas victorias da Liga de Schmalkald resultou uma rapida propagação do
protestantismo. O Würtemberg, a Pomerania, o Anhalt, o Mecklemburgo, e
muitissimas cidades, tornaram-se protestantes; os bispados de Magdeburgo,
Halberstadt e Naumberg deixaram de reconhecer a supremacia de Roma;
e duas provincias eleitoraes, o Brandenburgo e a Saxonia Albertina,
uniram-se á Liga. Os unicos estados que se conservaram na opposição
foram a Austria, a Baviera, o Palatinado e as provincias ecclesiasticas
do Rheno. Mas mesmo estas regiões começavam a ser influenciadas. Na
Austria a religião evangelica ia ganhando terreno entre os proprietarios,
os camponezes e os habitantes das cidades. Os bavaros iam-se deixando
invadir rapidamente pelas novas idéas. Quanto ao Palatinado, a sua
aggregação á Liga de Schmalkald parecia ser apenas uma questão de tempo.
O imperador não podia ver com indifferença este rapido progresso do
protestantismo; contrariava-o immenso que os seus dominios nos Paizes
Baixos ficassem separados d’elle por uma faixa de paizes protestantes;
não queria ouvir fallar na possibilidade de uma maioria protestante
no Collegio Eleitoral, e de um sucessor do imperio protestante. O
procedimento do arcebispo-eleitor de Colonia mostrou-lhe que não havia
tempo a perder. Hermann von Wied estava havia muito convencido da
necessidade de reformas na Egreja, e depois da paz de Nürnberg, incitado
por um grande numero de clerigos, e correspondendo ao evidente desejo de
muitas outras pessoas, animou o ensino protestante na sua vasta diocese,
e mostrou-se disposto a converter aquella provincia arqui-episcopal n’um
estado secular protestante.
A posição dos arcebispos e bispos da Allemanha era, nos dias da Reforma,
um tanto singular. Não eram simplesmente bispos, mas tambem barões, e,
como todos os outros grandes barões sujeitos ao imperador na Allemanha,
eram principes soberanos. Os arcebispos de Kõln, Trier e Metz tinham
sobre alguns territorios um governo egual ao que João, o Constante, tinha
sobre a Saxonia eleitoral, e Filippe, o Magnanimo, sobre Hesse. Eram as
supremas auctoridades civicas, com os seus tribunaes, os seus exercitos,
os seus cobradores de impostos. O decreto de 1526 era-lhes tão applicavel
como aos principes seculares. Podiam fazer-se protestantes, dominar nos
seus territorios, como principes seculares, e declarar «que tomavam ante
Deus e sua magestade imperial a responsabilidade do seu modo de viver, do
seu systema de governo e das suas crenças».