N’uma epoca pouco anterior á da Reforma tinham sido transportadas para

a Europa enormes riquezas. A America, a terra da prata e do oiro, tinha

sido descoberta, e o commercio augmentara consideravelmente. Estas

riquezas tinham sido ganhas por mercadores e negociantes aventureiros, e

a classe commercial havia começado, por esse motivo, a viver desafogada e

luxuosamente.

Ora os possuidores de terras não queriam fazer má figura ao pé dos

negociantes, mas faltava-lhes dinheiro para sustentarem o mesmo fausto,

e só poderiam conseguil-o á custa dos pobres camponezes, cujo viver era

cada vez mais miseravel, ao passo que a gente das cidades se rodeiava

de commodidades que n’outro tempo desconhecia. O resultado foi serem

augmentados os trabalhos, augmentadas as rendas, aggravados todos os

impostos.

Estas oppresões deram logar a bastantes tumultos muito antes do tempo

de Luthero. Nos Paizes Baixos, na Franconia, no Main e no Rheno os

camponezes levantaram-se contra os seus tyrannos, e as associações

secretas organizadas durante essas insurreições continuaram permanecendo

até muito depois d’ellas haverem sido reprimidas. A mais poderosa d’essas

associações era a de Bundschuh, isto é, a _do sapato atado_. A liga de

Bundschuh havia-se formado em 1423, e nunca fôra possivel extinguil-a de

todo; e durante a agitação produzida pela estada de Luthero em Worms,

quando todos os allemães receiavam pela vida do seu reformador, a

sinistra palavra Bundschuh appareceu escripta a giz pelas paredes.

A revolta dos camponezes em 1524 foi uma legitima successora das

anteriores, foi mais um fructo das sociedades secretas, e podemos

affirmar que os seus promotores contavam com que o Evangelho prégado por

Luthero lhes proporcionasse um bom exito. Thomaz Münzer, o discipulo de

Claus Storch, que havia sido expulso tanto de Wittenberg como de Zwickau,

mettera-se a prégar aos aldeãos da Thuringia e da Saxonia, e a sua

inflammada eloquencia havia-os animado para uma nova lucta. A Bundschuh

reapparecera em Würtemberg, devido á cruel oppressão do duque Ulrico. Em

1524 os camponios do Rheno ergueram o estandarte da revolta, e a chamma

propagou-se em todas as direcções.

Estas insurreições não foram, ao principio, effectuadas por meio das

armas. Se os camponezes tivessem começado por uma acção violenta, teriam,

talvez, sido mais bem succedidos. A sua idéa era convocar grandes

comicios onde fossem expostas as suas reclamações, pois julgavam que por

esse meio viriam a conseguir tudo. Teem-se conservado até hoje algumas

das listas de reformas que elles reputavam indispensaveis. A mais

importante é a dos Doze Artigos. Os camponezes começaram por dizer que só

pediam aquillo que os principios do Evangelho os auctorizavam a pedir, e

que não desejavam entrar em lucta, porque o Evangelho os mandava viver em

paz e amor. Pediam a todos os christãos que lessem os seguintes artigos,

e vissem se havia n’elles alguma coisa que estivesse em desaccordo com o

ensino da Palavra de Deus:

1. A congregação deve ter poder para eleger o seu ministro, e para o

demittir no caso do seu procedimento ser censuravel; e o ministro deve

prégar o Evangelho puro, sem lhe accrescentar mais nada.

2. Promettem pagar o dizimo do trigo para a sustentação dos ministros,

comtanto que o que ficar, depois de pagos os respectivos estipendios,

seja applicado no soccorro dos pobres; mas recusam pagar o pequeno

dizimo, isto é, o dos porcos, dos ovos, etc., porque, dizem elles, Deus

creou os animaes para uso do homem.

3. A servidão deve ser abolida. A Escriptura declara que os homens são

livres.

4 Deve haver inteira liberdade para caçar e para pescar, pois que Deus

creou as aves e os peixes para uso de todos.

5. As florestas que não pertençam a alguem por direito de compra devem

ser restituidas á communa, ou municipio; e todos os habitantes devem ter

liberdade para cortar madeira de que necessitarem para combustivel ou

para trabalhos de carpinteria, devendo haver guardas, pagos pela communa,

que impeçam qualquer acto de vandalismo.

6. Os serviços obrigatorios devem ficar restrictos ao que era permittido

pelos antigos costumes.

7. Tudo o mais que se fizer deve ser condignamente pago.

8. As rendas estão muito elevadas; as terras devem ser avaliadas de novo,

e pagar-se pelo seu aluguer uma quantia razoavel.

9. A lei deve determinar as penas que correspondem aos diversos crimes,

ficando defezo a quem quer que seja a applicação de um castigo arbitrario.

10. Os campos de pastagem e outros baldios de que os proprietarios se

teem apoderado devem ser restituidos ao logradouro publico.

11. Deve ser abolido o direito de morte (A faculdade que tem o senhorio

de levar qualquer objecto da casa do rendeiro fallecido).

12. Todas estas proposições devem passar pelo cadinho da Escriptura, e

serão retiradas as que fôrem susceptiveis de refutação.

Estes artigos eram, quasi todos elles, assaz equitativos, e estão agora

incluidos na legislação allemã. Se as reivindicações dos camponezes

fossem recebidas como elles esperavam, e como tinham direito a esperar,

ter-se-hia chegado a um accordo. Os seus adversarios fingiram que se

interessavam por ellas, para ganharem tempo; e os camponezes, por fim,

vendo-se atraiçoados, pegaram em armas.

Recorreram a Luthero. Elle era filho de camponez; tinha conhecido

a necessidade. E Luthero, respondendo ao appello que lhe fizeram,

intercedeu por elles, dirigindo-se d’este modo aos proprietarios: «Posso

agora fazer causa commum com os camponezes, porque vós attribuis esta

insurreição ao Evangelho e ao meu ensino, quando a verdade é que nunca

cessei de intimar obediencia á auctoridade, mesmo quando ella seja tão

tyrannica e tão intoleravel como a vossa. Não quero, porém, envenenar

a ferida; e, portanto, meus senhores, quer me sejaes benevolos quer me

sejaes hostis, não desprezeis os conselhos de um pobre homem como eu, e

não tenhaes em pouca conta esta sedição; não quero dizer com isto que

temaes os insurgentes, mas que temaes a Deus, que está irritado contra

vós. Elle póde punir-vos, e converter todas as pedras em camponezas, sem

que nem as vossas couraças nem todo o poder de que dispondes vos possam

livrar. Ponde, pois, limites ás vossas exacções, deixae de exercer uma

deshumana tyrannia, e passae a tratar essa gente com bondade, para que

Deus não incendeie toda a Allemanha com um fogo que ninguem será capaz

de extinguir. O que n’esta occasião, porventura, perderdes, ser-vos-ha

centuplicado mediante a paz futura.

«Ha tanta equidade n’alguns dos doze artigos dos camponezes, que

constituem uma deshonra para vós deante de Deus e do mundo; cobrem os

principes de vergonha, como diz o Psalmo 108. Tinha outras coisas ainda

mais graves a dizer-vos, com respeito ao governo da Allemanha, e já me

referi a vós no meu livro dedicado á nobreza allemã. Não vos importastes,

porém, com as minhas palavras, e agora chovem sobre vós todas estas

reclamações. Não deveis desattender o seu pedido de auctorização para

escolherem pastores que lhes preguem o Evangelho; compete sómente ao

governo o obstar a que sejam prégadas a insurreição e a rebellião; mas

deve haver perfeita liberdade para prégar tanto o verdadeiro como o

falso Evangelho. Os restantes artigos, que tratam do estado social do

camponez, são egualmente justos. Os governos não se estabelecem para seu

proprio interesse, nem para tornarem o povo subserviente aos caprichos e

ás más paixões, mas para zelarem o interesse do povo. As vossas exacções

são intoleraveis; arrancaes ao camponez o fructo do seu trabalho para

poderdes sustentar o vosso luxo e os vossos prazeres. E é tudo quanto vos

tinha a dizer.

«Agora, com respeito a vós, meus queridos amigos camponezes. Quereis que

vos seja garantida a livre prégação do Evangelho. Deus ha de defender a

vossa causa, se procederdes sempre com justiça e rectidão. Se o fizerdes,

haveis de triumphar por fim. Aquelles de entre vós que succumbirem na

lucta serão salvos. Se, porém, o vosso modo de proceder fôr outro, não

podereis salvar nem a alma nem o corpo, ainda mesmo que sejaes bem

succedidos e derroteis os principes e os senhores. Não acrediteis nos

falsos prophetas que se teem introduzido no meio de vós, ainda mesmo

que elles invoquem o santo nome do Evangelho. Pode ser que elles me

chamem hypocrita, mas isso pouco se me dá. O que eu quero é salvar os

que entre vós fôrem fieis e honrados. Temo a Deus e a ninguem mais.

Temei-o vós tambem, e não useis o Seu nome em vão, para que Elle vos não

castigue. Não diz a Palavra de Deus: «Aquelle que lançar mão da espada

á espada morrerá,» e «Todos se submettam aos poderes superiores?» Não

deveis fazer justiça por vossas proprias mãos; seria isso obedecer a um

outro dictame da lei natural. Não vêdes que vos fica mal a rebellião? O

governo tira-vos parte do que vos pertence, mas destruindo os principios

estabelecidos tiraes aos outros tudo o que lhes pertence. Christo, no

Gethsemane, reprehendeu S. Pedro por se ter servido da espada, ainda que

em defeza do seu Mestre; e quando já estava pregado na cruz orou pelos

Seus perseguidores. E o Seu reino não tem triumphado? Porque é que o Papa

e o imperador me não teem feito calar? Porque é que o Evangelho progride

á proporção que elles se esforçam para lhe pôrem obstaculos e para o

destruir? Porque eu nunca recorri á fôrça, prégando, antes, a obediencia,

até mesmo áquelles que me perseguem, fazendo depender exclusivamente de

Deus a minha defeza. Façaes o que fizerdes, nunca tenteis cobrir a vossa

empreza com o manto do Evangelho e o nome de Christo. Será uma guerra de

pagãos, a que, porventura, vier a ter logar, porque os christãos fazem

uso de outras armas: o seu General soffreu a cruz, e o triumpho d’elles

é a humildade. Supplico-vos, queridos amigos, que vos detenhaes, e que

considereis antes de dardes outro passo. O que citastes da Biblia não é

applicavel ao vosso caso».

E conclue assim: «Como vêdes, estaes procedendo mal, tanto de um lado

como do outro, e estaes attrahindo o castigo divino sobre vós e sobre

a Allemanha, vossa patria commum. O meu conselho é que se escolham

arbitros, sendo alguns nomeados pela nobreza e outros pelas cidades. É

preciso que ambos os adversarios transijam n’alguma coisa: o negocio tem

de ser equitativamente liquidado por um tribunal.»

O seu alvitre não foi acatado.

Os camponezes romperam hostilidades, tornando impossivel qualquer

mediação. O proprio Luthero, logo que as coisas tomaram este caminho,

deixou de se interessar pelos revoltosos.

Os principes ligaram-se entre si, e fizeram sobre os camponezes uma

verdadeira chacina. Calcula-se que chegasse a cincoenta mil o numero dos

massacrados.

Esta espantosa catastrophe prejudicou immenso a Reforma.

Alguns dos nobres attribuiram a Luthero tudo quanto tinha acontecido,

e moveram-lhe uma feroz opposição. A Reforma perdeu a influencia que

tinha sobre as classes pobres, que se deixaram dominar pela idéa de que

Luthero as havia abandonado; e entregaram-se com facilidade aos excessos

anabaptistas, que tanto damno causaram á religião n’aquelles tempos. O

proprio Luthero perdeu algum tanto da sua firmeza e da sua coragem, e

repudiou algumas das suas antigas opiniões. Todas estas coisas foram um

atrazo para a Reforma. Ha quem tenha, mesmo, pensado que a revolta dos

camponezes e a falta de coragem que Luthero mostrou n’essa occasião e

depois d’ella tiveram por effeito o ser a obra evangelica tirada das mãos

de Luthero e da Allemanha e confiada ás de Zwinglio e da Suissa.

Luthero perdeu, durante a revolução, o seu protector e a Allemanha o

maior dos seus principes. Frederico o magnanimo, eleitor da Saxonia,

havia morrido.

Havia pedido ao irmão, que era o seu successor, e que havia partido para

a guerra, que usasse de benevolencia com os camponezes; e os seus ultimos

pensamentos foram para os maltratados servos. «Nós, os principes, fazemos

muitas coisas aos pobres que não deviamos fazer.» exclamou elle, e pouco

depois, tendo sido sacramentado, falleceu.

=As Dietas de Spira, em 1526 e 1529.=—O imperador ainda não havia voltado

á Allemanha desde que se ausentara d’ella depois da Dieta de Worms.

Estava em Hespanha, constantemente occupado com a sua idéa de abater

o poder da França. Em 1525 esteve quasi a ver os seus planos coroados

de bom exito. Deu-se a batalha de Pavia, e Francisco I de França,

desbaratado o seu exercito, caiu prisioneiro nas mãos do imperador seu

rival. A Confederação de Madrid, que se seguiu a isto, punha Francisco

na obrigação de auxiliar Carlos a reprimir a revolta que contra a Egreja

se havia excitado na Allemanha; e os termos em que essa obrigação estava

formulada mostravam o quão attentamente havia observado os progressos

da Reforma e o quão empenhado estava em subjugal-a. Deu ordem para

que fossem postas em pratica as disposições da Dieta de Worms, dando

assim claramente a entender que não consentia que dentro do imperio se

propagassem as doutrinas de Luthero, e para reforçar essa sua intimativa

propoz que ella fosse perfilhada por uma Dieta que se reuniria em Spira.

As intrigas politicas mais uma vez o impediram de voltar á Allemanha. O

papa que dominava em Roma era Clemente VII, da familia dos Medicis, e em

toda esta questão zelou mais os interesses do seu principado italiano

do que os da egreja de que era chefe. O papa não queria que Francisco

e Carlos se reconciliassem. Receiava que os pequenos estados italianos

ficassem prejudicados com a approximação dos dois grandes monarcas, e por

esse motivo acariciava o plano de uma outra guerra europea. O imperador

ainda não tinha conseguido o descanço de que necessitava para poder ir em

seguida liquidar pessoalmente os negocios da Allemanha. E assim o proprio

papa estava n’aquella occasião favorecendo a Reforma.

Quando os principes allemães se reuniram em Spira, tornou-se logo bem

manifesto que um grande numero d’elles não desejava que Luthero e

as suas doutrinas fossem banidos da Allemanha; e a Dieta, de que se

esperava a aniquilação da Reforma, promulgou um decreto tolerando-a. Este

famoso edicto, que foi n’aquelle tempo considerado como uma garantia

de tolerancia quanto á religião evangelica, declarava que em materia

de religião todos os estados se deviam comportar por tal fórma que

estivessem promptos a responder por si deante de Deus e de sua Magestade

Imperial. Assim ficou cada um dos estados auctorizado a declarar que

religião se professaria dentro dos seus limites, e aquelle edicto foi

como que uma predicção da paz de Augsburgo, que determinou praticamente a

religião official da Allemanha, essa religião que ella ainda hoje mantem.

Os estados que abraçaram as doutrinas evangelicas ficaram, segundo a lei

imperial allemã, com a liberdade de reorganizar a egreja dentro dos seus

dominios, e levar a effeito as necessarias reformas.

O edicto auctorizava cada um dos estados a tomar as decisões que

entendesse, e d’esse modo tornou-se impossivel qualquer tentativa de

introduzir nas provincias evangelicas um systema uniforme de governo da

egreja e do culto; cada uma d’ellas estabeleceu os seus regulamentos. O

primeiro a estabelecel-os, em conformidade com os verdadeiros principios

da Reforma, foi Filippe, Landgrave de Hesse. Pediu a Martinho Lambert que

lhe redigisse os artigos de uma constituição ecclesiastica para uso nos

seus dominios. E estes artigos são interessantes, porque reconhecem, até

certo ponto, a auctoridade do povo christão dentro da egreja; e confiam

tambem a disciplina das congregações a homens de seriedade, cujos deveres

são parecidos com os dos anciãos presbyteriannos.

Luthero, n’outro tempo, teria recebido com enthusiasmo todas estas

indicações do reconhecimento dos direitos do povo christão, e do

sacerdocio espiritual de todos os crentes, mas a Guerra dos Camponezes

tinha-o predisposto contra a auctoridade do povo. Era de opinião que o

povo não tinha competencia para governar a egreja, e escreveu a Filippe,

mostrando-lhe os inconvenientes de similhante plano de organização

ecclesiastica.

Luthero preferia entregar o governo da egreja nas mãos do poder

secular—dos principes quando se tratasse de principados, e das camaras

municipaes nas cidades livres. Esta sua idéa deu logar ao que se chama o

systema _Consistorial_ do governo da Egreja—systema peculiar da Egreja

Lutherana, e de que, não obstante só mais tarde ter sido posto em

pratica, cabe fazer aqui uma descripção resumida.

Em todas as egrejas christãs tem sido considerado da mais alta

importancia o guardar-se a chamada _disciplina_ da egreja. Deus quer

que todos os seus filhos tenham uma vida honesta, uma vida decente, e

é do dever da Egreja cuidar que todos os seus membros procedam de uma

maneira condigna com a sua profissão de fé. Quando qualquer membro sae do

bom caminho deve ser reprehendido, e, se persiste no mal, deve soffrer

os castigos que a egreja tem decretado, consistindo um d’elles em ser

excluido da communhão dos irmãos. Na Allemanha eram, na edade media, os

bispos responsaveis pela conducta dos membros das egrejas que constituiam

as suas respectivas dioceses; e, como estas dioceses eram geralmente

grandes, e os bispos não podiam estar ao facto de tudo quanto acontecia,

encarregavam d’isso umas especies de comités, compostos de clerigos e

jurisconsultos. Estas commissões de vigilancia chamavam-se consistorios,

e, além de zelarem a disciplina das dioceses, eram tambem encarregadas da

execução de testamentos e doações, e julgavam certos casos de calumnia

e de maledicencia que os tribunaes ordinarios lhes enviavam. Quando os

bispos, nos estados evangelicos, foram expulsos, esses consistorios

continuaram gerindo os negocios da Egreja. Luthero, que só alterava o que

era indispensavel alterar, propoz ao eleitor da Saxonia a conservação

dos comités episcopaes, e essa sua proposta foi acceite. Passaram a

chamar-se consistorios lutheranos, e a sua nomeação ficou dependendo da

suprema auctoridade civil, em cujo nome governavam. Com o tempo foram

introduzidas algumas mudanças, cuja necessidade se reconheceu; mas ainda

assim pode-se dizer que o governo da egreja lutherana actual em nada

differe do da egreja allemã medieval, a não ser que a auctoridade civil

substituiu os bispos. Estas mudanças tiveram logar em toda a Allemanha

depois da Dieta de 1526, nos estados que abraçaram a Reforma.

Luthero escreveu alguns hymnos, e publicou uma serie d’elles para serem

cantados nas egrejas; escreveu um catecismo para uso da infancia; e

assim em toda a Allemanha, onde quer que as doutrinas evangelicas

prevalecessem, eram organizadas egrejas, onde se rendia a Deus um culto

simples mas sincero, e tratava-se de instruir e catequizar a juventude.

Ainda não havia uma confissão de fé, ou credo commum, mas o povo sabia

perfeitamente no que devia crer, devido aos opusculos de Luthero,

Melanchthon e outros, opusculos estes que andavam de mão em mão.

Emquanto estas coisas se passavam na Allemanha, tinha logar uma coisa

que bastante contrariou o imperador: uma alliança entre a França e os

Estados Pontificios. Não esperava que o papa o abandonasse, e menos

esperava ainda que elle o abandonasse na propria occasião em que elle se

preparava para submetter a Allemanha ao seu dominio (do papa), e resolveu

punil-o d’essa traição. Formou-se um numeroso exercito, reforçado por um

grande numero de soldados allemães lutheranos, sob o commando de aquelle

general Frundsberg que em Worms animou Luthero, e, levando á frente o

condestavel de Bourbon, esse exercito penetrou na Italia, devastando tudo

por onde quer que passasse. Em 6 de maio de 1527 o general conduziu as

suas tropas até junto da cidade de Roma. Esta foi tomada de assalto. O

papa e os cardeaes fugiram para a fortaleza de St.º Angelo, e a cidade

foi horrivelmente posta a saque. Os habitantes foram maltratados e

mortos, as egrejas foram despojadas das suas riquezas, e os rudes e

mofadores allemães proclamaram papa a Luthero. Os francezes não poderam

prestar grande auxilio aos seus alliados, e em 1529 fez-se a paz entre o

imperador e o papa, ficando Carlos novamente livre, segundo elle pensava,

para esmagar a heresia na Allemanha.

Na Allemanha parecia que as coisas iam caminhando mal para a Reforma. O

edicto de Spira havia concedido tolerancia aos lutheranos, mas tambem

tornou evidente, de uma maneira até então desconhecida, a separação entre

os dois partidos. Isto viu-se bem quando a Dieta se reuniu de novo em

Spira em 1529. O imperador não estava presente, mas o seu commissario

disse aos principes que o amo se recusava a reconhecer o decreto de 1526,

e que sustentava que o decreto de Worms estava ainda em vigor e se lhe

devia dar força. Pela primeira vez pareceu que a maioria da Dieta estava

disposta a obedecer á ordem do imperador e a dar força ao edicto contra

Luthero. O decreto final intimava quem quer que tivesse posto o edicto em

execução a continuar a fazel-o, e que nos districtos onde não se tivesse

executado não se fizessem ulteriores innovações e ninguem fosse impedido

de celebrar missa.

Por mais brando que isto parecesse, significava que o edicto de Spira

estava posto de parte, e a minoria evangelica resolveu protestar contra a

decisão. Fizeram-n’o sobre o fundamento de que as questões religiosas só

podiam ser decididas pela consciencia, e que não deviam ser submettidas

á Dieta para ficarem sob a decisão de uma maioria. «Em questões que

dizem respeito á gloria de Deus e á salvação da alma de cada um de nós, é

nosso imperioso dever, segundo o preceito divino, e por causa das nossas

proprias consciencias, respeitar, antes de tudo, ao Senhor nosso Deus.»

«Em questões que se relacionam com a gloria de Deus e com a salvação das

nossas almas, devemos pôr-nos deante de Deus e dar-lhe contas de nós

mesmos». O protesto, em que se punha como coisa inadiavel a liberdade de

consciencia, era assignado por João da Saxonia, Jorge de Brandenburgo,

Ernesto de Lüneburgo, Filippe de Hesse, Wolfgang de Anhalt, e pelos

representantes das cidades imperiaes de Nürnberg, Ulm, Constancia,

Lindau, Memmingen, Kempten, Nordlingen, Heilbronn, Reutlingen, Isny, St.

Gall, Weissenburgo e Windsheim.

Foi d’este protesto que se originou o termo _protestantes_.

=O imperador pretende subjugar a Reforma.=—Este protesto tornou ainda

mais saliente, mais definida, a linha de separação entre os principes

reformados e os seus visinhos. Ficavam como que marcados por ella

aquelles a quem o imperador, para restabelecer o imperio medieval, tinha

de subjugar; e parecia agora ter chegado uma occasião propicia para

elle o fazer. Na verdade, entre elle e a realização dos seus planos

só existia aquelle punhado de principes. Tinha humilhado por completo

a França, obrigára o papa a submetter-se-lhe, e os turcos haviam sido

derrotados; unicamente a Reforma se oppunha ao restabelecimento de um

imperio medieval. Os principes protestantes reconheceram a gravidade da

sua situação. Deveriam resistir ao imperador, e, no caso affirmativo,

conservar-se-hiam firmemente unidos? Luthero, que tinha até então

dirigido o movimento, servia agora de obstaculo a uma acção collectiva.

Elle, ao principio, era contrario a toda e qualquer resistencia.

Reprovava, mesmo, a alliança dos principes. Chegou a dissuadir o eleitor

da Saxonia de mandar delegados á assembléa de Schmalkald, e, quando esses

delegados voltaram e deram noticia de que não se tinha chegado a decidir

coisa alguma, mostrou-se excessivamente satisfeito. Se Filippe de Hesse

não tivesse trabalhado incessantemente para uma união e para um esforço

collectivo, a Reforma teria soffrido muito.

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