Entre o imperador e o povo estava a Dieta, que era o grande conselho do

imperio, e se compunha de tres camaras, ou collegios: I Seis principes

eleitoraes, tres dos quaes leigos, e tres clerigos (não entrava o rei da

Bohemia); II Os principes, ou gran-barões, seculares e ecclesiasticos;

III Os representantes das cidades livres, que eram as que gozavam de

privilegios concedidos directamente pelo imperador. Como havia quasi

tantos principes clericaes como seculares, o poder que a egreja tinha

na Dieta era muito forte, e facilmente poderia ser empregado como

instrumento para abafar qualquer reforma religiosa. A Dieta, comtudo,

tinha pouca força no paiz. A Allemanha estava tão dividida que cada um

dos principes independentes podia fazer o que muito bem quizesse. As

cidades, formando ligas entre si, podiam offerecer uma certa resistencia

á tyrannia dos principes; mas os aldeãos, incapazes de similhante

combinação, eram acossados de todos os lados pela egreja, pelos principes

e pelos barões.

A situação dos camponezes allemães era, na verdade, pouco de invejar.

Houve tempo em que viveram desafogadamente, cultivando as suas terras,

mas os senhores feudaes foram, pouco a pouco, cerceando-lhes direitos,

chegando ao ponto de lhes prohibirem a entrada nos baldios, de não lhes

permitir que se abastecessem de lenha, que pescassem nos rios, etc.

Não tinham a quem pedir protecção, e não podiam contar com as leis. A

sua unica esperança estava na revolução, e sentiam um desejo ardente

de imitar os suissos, isto é, de se libertarem, de acabarem com o

feudalismo, de se tornarem proprietarios.

O joven imperador, quando pela primeira vez foi á Allemanha, deparou com

muitas questões graves que estavam á espera de solução; o povo estava

ancioso por um governo central, as cidades queriam que se pozesse termo

ás constantes contendas que havia entre os barões, os poderes, civil

e ecclesiastico, accusavam-se mutuamente, e, por ultimo, a questão de

Luthero continuava agitando os espiritos.

=Luthero e a dieta de Worms.=—A Dieta foi aberta por Carlos V em Janeiro

de 1521, e o nuncio do papa tratou logo de instar com os principes

reunidos em assembléa para que pozessem termo ás heresias de Luthero, não

sendo, na sua opinião, necessario que este fosse ouvido. Os principes,

porém, que tambem tinham as suas razões de queixa de Roma, declararam que

era uma injustiça, um acto indigno, condemnar um homem sem o ouvir e sem

elle estar presente. Por fim o imperador intimou Luthero a apresentar-se,

e forneceu-lhe um salvo-conducto. Um arauto foi, pois, procural-o da

parte do seu imperial amo, e em abril Luthero partiu para Worms. Ia

resolvido a não se retractar, posto que o animasse a convicção de não

voltar com vida. A Spalatin escreveu elle o seguinte: «Não tenho intenção

de fugir, nem de crear embaraços á Palavra; emquanto a graça de Christo

me sustiver, hei de confessar a verdade, não recuando mesmo deante da

morte». E a Melanchthon: «Se eu não voltar, se os meus inimigos me

assassinarem, continúa tu, de todo o coração te imploro, a ensinar e a

dar testemunho da verdade». Antes de deixar Wittenberg, havia preparado,

de collaboração com Lucas Cranach, «um bom livro para o povo», e que se

compunha de uma serie de gravuras em madeira representando contrastes

entre Christo e o papa, e tendo debaixo de cada uma a respectiva

explicação, n’um grande vigor de linguagem; n’uma pagina apparecia

Christo lavando os pés aos discipulos, n’outra o papa estendendo o pé

para que lh’o beijassem; a Christo levando a cruz contrapunha-se o papa

levado em procissão pelas ruas de Roma, aos hombros dos homens; a Christo

expulsando os vendilhões do templo, o papa vendendo indulgencias, e tendo

junto de si um monte de dinheiro.

Os amigos de Luthero consideravam-n’o perdido. Quando lhe chegou aos

ouvidos o boato de que o duque Jorge da Saxonia lhe preparava uma

emboscada, a resposta que deu foi: «Não deixaria de me pôr a caminho,

ainda mesmo que houvesse uma chuva de duques da Saxonia». E quando lhe

disseram que o diabo se havia de apoderar d’elle por qualquer fórma,

replicou: «Não deixaria de comparecer em Worms, ainda mesmo que lá

houvesse tantos demonios como telhas nos telhados». A sua jornada teve

o aspecto de uma marcha triumphal; o povo vinha, em grandes multidões,

ao seu encontro, soltando enthusiasticos vivas. Chegou, por fim a Worms,

e logo no dia immediato foi apresentado á Dieta. O imperador tinha a

seu lado o arquiduque de Austria, seu irmão, e a assembléa compunha-se

de seis eleitores, vinte e oito duques, trinta prelados, e um grande

numero de outras personagens de menor cathegoria, ao todo uns duzentos

principes. Era deante de toda aquella gente que Luthero tinha de

confessar a sua fé em Christo. Pouco depois d’elle entrar, foi collocada

na sua frente uma grande rima de livros, e perguntaram-lhe se os havia

escripto, e se estava disposto a retractar-se. Pediu algum tempo para

reflectir, e, sendo-lhe concedido o prazo de vinte e quatro horas, foi

reconduzido á casa onde se hospedára.

Quando, no dia seguinte, se dirigiu de novo á Dieta, teve de abrir

caminho atravez de uma grande multidão de gente, que o animava e lhe

recommendava firmeza; e, ao entrar na sala, o velho general Frunsberg

bateu-lhe no hombro e disse-lhe: «Nada receies, fradinho!» Na vespera

havia-se mostrado um tanto confuso, havia denotado uma certa timidez,

mas n’aquelle segundo dia estava de posse da sua coragem habitual. O

chanceller do arcebispo de Trier começou a interrogal-o em nome do

imperador. «Reconheceis estes livros como vossos, e estaes disposto a

retirar o que escrevestes?» Luthero respondeu que n’alguns dos seus

livros se encontravam coisas que haviam merecido a approvação até dos

proprios adversarios, e que não se podia esperar d’elle uma retractação

no tocante a essas coisas; havia tambem protestado contra manifestos

abusos, e seria, decerto, um hypocrita e um cobarde se n’aquella occasião

affirmasse ser falso o que elle e todos os homens de bem sabiam que era

verdadeiro; n’uma parte, finalmente, do que havia escripto, alvejava

os seus antagonistas, e, como o fizera um pouco precipitadamente, era

possivel que n’alguns pontos não tivesse razão, estando, portanto,

prompto a desdizer qualquer asseveração cuja injustiça lhe fosse provada.

«Esse vosso arrazoado é inopportuno», replicou Eck; «o que o imperador

quer é uma resposta definitiva. Estaes prompto a retirar o que dissestes

contra a Egreja, e especialmente o que disseste contra o concilio de

Constança?» «Quereis uma resposta definitiva?» disse Luthero. «Vou

dar-vol-a, pois. (_Vou dar uma resposta sem pontas nem dentes, diz o

original_). Não me retracto de coisa alguma, a não ser que me convençam

pela Escriptura ou por meio de argumentos irrefutaveis. É claro como a

luz do dia que tanto papas como concilios teem algumas vezes errado. A

minha consciencia tem de submetter-se á Palavra de Deus; proceder contra

a consciencia é impio e perigoso; e, portanto, não posso nem quero

retractar-me. Assim Deus me ajude. Amen.» O representante da lei chegou a

crer que os seus ouvidos o tivessem enganado. «Affirmaes, realmente, que

um concilio é susceptivel de errar?», perguntou elle, por fim. «Affirmo»,

retorquiu Luthero, «e affirmal-o-hei sempre. Assim Deus me ajude. Amen».

Aquella sua firmeza tornou furiosos os hespanhoes e os italianos; queriam

que o imperador lhe cassasse o salvo-conducto e o condemnasse á morte,

sem mais preambulos. Os allemães, reconhecendo que elle, ao mesmo tempo

que combatia pela consciencia, combatia tambem pela Allemanha, pozeram-se

do seu lado. Conseguiram que o imperador addiasse a sentença, e instaram

depois com Luthero para que se retractasse, sendo, porém, baldados todos

os seus esforços.

Por fim o imperador tomou uma resolução. Não querendo tomar o partido

de Luthero e da Allemanha, para não quebrar relações com o papa, não

desejava, comtudo, annullar o salvo-conducto, faltando assim á sua

palavra. Ordenou, pois, a Luthero que se retirasse, mas fez publicar um

edicto, condemnando os livros do Reformador e collocando-o a elle proprio

sob o anathema do imperio. Ora, ser collocado sob o anathema do imperio

era ser collocado n’uma gravissima situação. De ali em deante ninguem

podia dar de comer ou de beber a Luthero, nem recebel-o em sua casa:

quem quer que o encontrasse era obrigado a deitar-lhe a mão e entregal-o

aos guardas do imperador, que ficavam com plenos poderes para o matarem.

Tudo isto, porém, só podia ter logar depois de expirado o prazo que o

salvo-conducto mencionava.

=Luthero em Wartburgo.=—Os amigos de Luthero foram de parecer que, depois

do edicto de Worms, a vida d’elle corria perigo, até mesmo em Wittenberg;

e o eleitor da Saxonia encarregou uns tantos soldados de o irem esperar

ao caminho, apoderarem-se d’elle, e levarem-n’o para o castello de

Wartburgo, que ficava perto de Eisenach, e onde elle poderia esconder-se,

sem lhe succeder mal algum. Nenhum dos seus amigos sabia, ao principio,

onde elle se encontrava. Emquanto esteve em Wartburgo, submetteu-se a

uma vida de isolamento, e para maior precaução deixou crescer a barba,

vestiu-se de cavalleiro, e adoptou o nome de Junker Jorge. Permaneceu dez

mezes n’aquelle seu esconderijo.

Foi lá que começou a mais importante das suas obras, a traducção da

Biblia, dos textos originaes grego e hebraico. Conseguiu tornar conhecido

dos amigos o seu paradeiro, e Melanchthon mandava-lhe de Wittenberg todos

os livros de que elle necessitava. Começou com o Novo Testamento, e

traduziu-o quasi todo sem auxilio alheio. A ajudal-o no Velho Testamento

teve o que um dos seus biographos chama «um synhedrio privado, composto

de homens eruditos». Estes homens reuniam-se uma vez por semana em

casa de Luthero, para confronto de notas e mutuo auxilio nas passagens

difficeis.

Luthero estava empenhado em fazer da sua traducção da Biblia um livro

para o povo allemão. Não quiz introduzir n’ella phrases finas, phrases

palacianas; desejava tornal-a um livro que fosse comprehendido por todos,

homens, mulheres e creanças, e dedicou a esse trabalho todo o seu talento

e actividade. Ainda se conservam alguns dos seus manuscriptos, em que

se vê o grande numero de emendas por que muitas das orações passaram,

chegando algumas a serem emendadas quinze vezes. «Estamos trabalhando com

todas as nossas forças», escreveu elle em certa occasião, «para que os

prophetas fallem na nossa lingua. Que grande e difficil tarefa é esta,

de fazer com que os escriptores hebreus se exprimam em allemão! Elles

offerecem uma enorme resistencia. Não querem trocar o seu hebreu por uma

lingua barbara».

A tarefa tornava-se ainda mais difficultosa pela razão de quasi se poder

dizer que não existia a lingua allemã. O allemão antes do tempo de

Luthero, assim como o inglez antes do tempo de Chaucer, era um aggregado

de dialectos; e, de facto, a Biblia de Luthero é que fez a lingua allemã,

pois que tem servido desde então como que de modelo, e o seu estylo tem

sido imitado por todos os auctores allemães; a prosa foi, portanto,

tornando-se gradualmente uniforme, os dialectos foram ficando para traz,

e a linguagem adquiriu uma unidade que resistiu áquella onda de separação

que passou depois por toda a Allemanha.

=Regresso de Luthero a Wittenberg.=—Emquanto Luthero esteve em Wartburgo,

andaram os seus amigos prégando o Evangelho por toda a Allemanha, sem

soffrerem o minimo incommodo, e os seus livros eram lidos por toda a

parte. Dir-se-hia que toda a Allemanha se tornava protestante, a despeito

do edicto do imperador. Havia de todos os lados um grande movimento a

favor das doutrinas evangelicas, e contra a superstição e a idolatria.

Acontece muitas vezes, em epocas como aquella, de despertamento

religioso, que algumas pessoas perdem, por assim dizer, a cabeça e querem

que as coisas caminhem muitissimo depressa ou vão até demasiadamente

longe; foi o que succedeu na Allemanha.

Ha na fronteira bohemio-saxonia, no meio da cordilheira de Erzgebirge,

ou Montanhas de Ferro, uma pequena cidade chamada Zwickau. Os habitantes

d’essa cidade acceitaram a Reforma. Entre elles havia um tecelão, Claus

Storch, homem excitavel, que a abraçou com mais zelo do que sensatez, e

que reuniu em volta de si um certo numero de partidarios, creaturas de

muito pouco juizo tambem. Na sua opinião, não lhes eram precisos padres

nem ministros evangelicos, pois que Deus os instruia directamente; a

Biblia era inutil, pois que todos elles eram inspirados. Metteram-se

a limpar a sua terra de todos os indicios da antiga religião—as

ornamentações das egrejas, os altares, as cruzes, o clero, etc.—e deram

logar a alguns tumultos, levantando-se, por fim, contra elles os seus

conterraneos, que os pozeram fóra.

Expulsos de Zwickau, foram para Wittenberg, e expozeram as suas idéas

ao impetuoso Carlstadt e ao condescendente Melanchthon, que eram ali os

dirigentes espirituaes na ausencia de Luthero. Carlstadt adoptou por

completo o seu modo de pensar, Melanchthon deixou-se persuadir até a um

certo ponto, e a agitação começou a lavrar entre as massas populares. As

imagens foram derrubadas dos logares que occupavam nas egrejas; Carlstadt

prégou contra a instrucção, contra o estudo, contra as universidades; a

Reforma correu o perigo de uma rapida destruição.

Luthero teve conhecimento do que se passava na sua solidão de Wartburgo,

e resolveu sair de aquella especie de sequestração em que se encontrava.

Correu a Wittenberg, e o povo tornou a ouvir a sua voz, com que tanto se

familiarisara, trovejando do pulpito contra a violencia, o fanatismo e a

falta de caridade. Luctou contra os fanaticos durante oito dias, e por

fim triumphou. A auctoridade da Escriptura ficou de novo estabelecida, e

o movimento lutherano mostrou que nada tinha de commum com os excessos de

Storch, e do seu companheiro Münzer.

Do curto reinado dos fanaticos em Wittenberg resultou uma coisa

boa. Produziu uma reforma de culto. Desappareceram as ceremonias do

catholicismo romano, que foram substituidas por um serviço religioso mais

em conformidade com as Escripturas.

=A Dieta de Nürnberg.=—O anathema do imperio ainda estava sobre Luthero,

pois que não havia sido revogado; mas ninguem pensava em o pôr em

execução. Luthero prégava, escrevia, e editava os seus trabalhos, sem que

pessoa alguma na Allemanha o tivesse na conta de um proscripto. Ainda

mais, alguns dos principes allemães eram de parecer que o edicto de

Worms devia ser annullado. O imperador tinha-se retirado para Hespanha,

deixando em seu logar um Conselho Regente, cujos membros conheciam bem o

estado da Allemanha e os sentimentos do povo, e não se sentiam inclinados

a desposar a causa do papa.

Foi assim que, quando a Dieta se reuniu em Nürnberg, em 1522 e 1524,

o nuncio do papa viu que os principes allemães não eram de modo algum

favoraveis á sua proposta para que Luthero soffresse a pena de morte.

Em vez de discutirem esse ponto, apresentaram differentes reclamações,

insistindo muito com o nuncio para que chamasse para ellas a attenção do

papa; e muitas d’essas reclamações eram relativas a assumptos sobre os

quaes se baseou a condemnação de Luthero.

Por fim, depois de uma prolongada controversia entre os principes

allemães e o nuncio do papa, a Dieta declarou que era necessario nomear

uma Junta Geral da Egreja, afim de que certos abusos fossem abolidos e

se esclarecessem certos pontos duvidosos de doutrina que tinham surgido,

annunciando, ao mesmo tempo, que toda essa questão de differenças

religiosas havia de ser liquidada n’um outro concilio que ia reunir-se

em Spira. Toda a Allemanha, em summa, parecia estar do lado de Luthero;

e alguns estados—como, por exemplo, o de Brandenburgo—, proclamavam

abertamente quaes as reformas por que a religião devia passar. Pediam a

abolição dos cinco falsos sacramentos, da missa, do culto dos santos e

da supremacia pontificia. A Reforma havia-se espalhado tambem para além

da Allemanha, e já em 1524 havia discipulos de Luthero em França, na

Dinamarca e nos Paizes Baixos.

=A revolta dos nobres= foi o primeiro dos grandes revezes que o movimento

da Reforma soffreu. Até 1524, as doutrinas de Luthero tinham-se espalhado

sem obstaculo de maior pela Allemanha e pelo estrangeiro. De toda a parte

se protestava contra os cinco pretensos sacramentos, as indulgencias, a

confissão auricular, o culto dos santos e das reliquias, o celibato do

clero, a negação do calix aos leigos, o sacrificio da missa, a usurpação

episcopal e a supremacia do papa. O que todos ambicionavam era uma fórma

de culto mais simples e mais concorde com as Escripturas, e uma fórma

de governo que tornasse manifesto o sacerdocio espiritual de todos os

crentes. A Dieta tinha repetidamente, na sua lista de aggravos, chamado

a attenção do papa para os abusos que se observavam na egreja, e propoz,

por fim, que se convocasse um concilio geral para tratar das necessarias

reformas.

Mas não era só ecclesiasticamente que a Allemanha precisava de ser

reorganizada. A posição dos cavalleiros imperiaes era cada vez

mais insustentavel; os principes, mais poderosos do que elles,

supplantavam-n’os e opprimiam-n’os. Os camponezes viviam, pela maior

parte, cruelmente escravisados, e preparavam-se em segredo para uma

revolução. Tanto de um lado como do outro contava-se com a Reforma

como com um poderoso auxiliar. Os tempos corriam mal; tinha-se visto

a inutilidade dos velhos systemas, e todos proclamavam abertamente a

necessidade de uma mudança radical; não deveriam aproveitar-se d’este

estado geral de descontentamento? As duas classes desgostosas assim o

entenderam, e, porque assim o entendessem, entraram no caminho da revolta.

A revolta dos nobres foi logo reprimida; nunca teve, mesmo,

probabilidades de bom exito. Os homens que se envolveram n’ella estavam,

realmente, luctando contra a orientação da epoca e contra a corrente

da historia. Viam todo o territorio allemão caindo nas mãos de meia

duzia de familias principescas, e todo o povo das cidades enriquecendo

por meio do commercio e pondo-se ao abrigo de qualquer ataque. Previam

que a Allemanha não tardaria a estar dividida pelos principes, a quem

elles odiavam, e pelos cidadãos, a quem desprezavam, e queriam voltar

aos velhos tempos, em que os nobres germanicos não reconheciam outra

auctoridade que não fosse a do imperador. Tinham por cabecilha Francisco

von Sickingen, homem muito notavel, de grande valor militar, e a quem

se não podia negar um certo patriotismo. A revolta mallogrou-se, e os

principes aproveitaram a opportunidade para reduzirem ainda mais o poder

dos nobres e compellirem-n’os a reconhecer a sua auctoridade.

O movimento revolucionario não tinha ligação alguma com a Reforma, mas

muita gente julgava que sim, e começou a antipathizar com a Reforma por

causa do seu odio aos nobres revoltados. Sickingen tinha de muitos modos

tentado fazer com que parecesse que a causa que defendia era a causa da

liberdade religiosa. Quando a vida de Luthero corria perigo em Worms,

Sickingen reuniu algumas tropas e ameaçou atacar a cidade e a dieta.

Quando alguns dos secretarios de Luthero foram ameaçados de perseguição

depois da dieta de Worms, Sickingen prometteu proteger todos aquelles que

se acolhessem a elle; e, ao levantar o estandarte da revolta contra os

principes, declarou que o seu fim era combater pela Reforma e estabelecer

as novas doutrinas. E assim, quando elle ficou vencido, alguns dos

principes apressaram-se em accusar Luthero e os prégadores de terem

ajudado e instigado esta guerra civil.

De todos estes acontecimentos proveiu a chamada Convenção de Ratisbonna,

ou Regensburgo, que era uma confederação, ou liga, dos principes

catholicos romanos contra a Reforma; e assim a Allemanha, que até ali

se tinha mantido n’uma união propicia ás reformas, dividiu-se em duas

partes, o que tornou o trabalho muito mais difficil. Os confederados de

Regensburgo diligenciaram chegar a accordo com o partido papista de Roma.

O papa prometteu que não tornaria a haver indulgencias, que cessaria

aquella grande drenagem de dinheiro da Allemanha para Roma, e que seriam

escolhidos homens melhores para bispos e abbades; e os confederados

comprometteram-se a contrariar todas as tentativas de reforma, oppondo-se

tenazmente a qualquer modificação de culto ou de doutrina. A Baviera, a

Austria e as grandes provincias ecclesiasticas do sul da Allemanha iam

pôr-se ao lado de Roma na lucta que estava imminente. A Convenção de

Regensburgo veiu, pois, dividir a Allemanha, e fez prever os episodios

horrorosos da Guerra dos Trinta Annos.

=A revolta dos camponezes= teve consequencias mais serias. Não fez

sómente tremer os principes com a idéa de uma proxima reformação;

deu motivo a que Luthero hesitasse, e mudasse, por fim, de opinião a

muitos respeitos. O movimento rural não tinha por objecto a Reforma;

a sua origem foi a miseria profunda em que a gente do campo vivia. O

soffrimento d’essa gente não podia ser maior, e havia chegado a tal ponto

que a morte não lhes mettia medo algum. Desde o meiado do seculo quinze

que de quando em quando se levantava uma sedição de camponezes n’um ou

n’outro ponto da Europa, e todas essas revoltas haviam sido suffocadas,

sem que fossem concedidas as almejadas reformas, de modo que as causas

da rebellião continuavam ainda inalteraveis. Os camponezes viviam do que

as terras que traziam arrendadas produziam, e as rendas que pagavam eram

as mais das vezes exhorbitantes, isto é, não estavam em harmonia com o

valor do terreno. Além das rendas, eram tambem obrigados a prestar aos

proprietarios certos serviços de que não recebiam remuneração alguma;

esses serviços variavam segundo as localidades, mas em todas ellas o

senhorio tinha garantido o arroteamento dos seus campos sem lhe ser

preciso metter a mão á bolsa.

A tornar-lhes ainda mais duras as condições da vida, era-lhes prohibido,

sob pena de um severo castigo, o entregarem-se ao exercicio da caça

ou da pesca. Não podiam cortar lenha nos bosques, era-lhes vedada uma

grande parte dos baldios, e de todos os modos se viam embaraçados no seu

trabalho e na sua actividade. Quando um rendeiro fallecia, o dono da

propriedade tinha o direito de arrebatar do poder da viuva e dos orphãos

qualquer coisa que lhe agradasse, como por exemplo, uma vacca, uma

ovelha, ou até a propria cama.

A egreja tambem tinha as suas imposições. Reivindicava os dizimos: uma

decima parte da colheita, que era chamada o grande dizimo; e uma decima

parte do producto dos animaes, que era chamada o pequeno dizimo. Tinham

de ser pagos depois de se haver satisfeito ao senhorio; e depois de se

ter pago a renda e o salario dos serviçaes, e de se ter dado á egreja a

decima parte do trigo, das ovelhas, dos porcos e dos ovos, pouco ficava

para o pobre camponez e sua familia.

Mas ainda havia mais. Pode-se viver nas peiores circumstancias, pode-se

supportar as maiores agruras da vida, quando ha a certeza de que se não

corre o risco de peiorar, e de que justiça será feita quando aquelles

que occupam posições superiores quizerem tirar partido da pobreza e

fraqueza dos seus similhantes. O camponez allemão, porém, não tinha

essa certeza. O velho codigo romano havia substituido gradualmente a

legislação allemã, e nós sabemos que no imperio de Roma os camponezes não

eram homens livres. Os proprietarios tinham escravos, ou servos, para

amanhar as suas terras, para trabalhar nos seus dominios, e quando as

leis romanas começaram a ser applicadas na Allemanha viu-se logo que o

camponez ficava, pouco mais ou menos, na condição de escravo.

Os pobres, compenetrados de que a lei lhes era adversa, não ousavam

recorrer aos tribunaes. Eram castigados quando o seu amo entendia que

deviam sêl-o. A lei não lhes conferia direito algum; o proprietario podia

tornar-lhes mais pesados os trabalhos, augmentar-lhes a renda, podia, em

summa, exigir d’elles o que quizesse.

A Reforma · 第 2 / 27 段