imperio, e se compunha de tres camaras, ou collegios: I Seis principes
eleitoraes, tres dos quaes leigos, e tres clerigos (não entrava o rei da
Bohemia); II Os principes, ou gran-barões, seculares e ecclesiasticos;
III Os representantes das cidades livres, que eram as que gozavam de
privilegios concedidos directamente pelo imperador. Como havia quasi
tantos principes clericaes como seculares, o poder que a egreja tinha
na Dieta era muito forte, e facilmente poderia ser empregado como
instrumento para abafar qualquer reforma religiosa. A Dieta, comtudo,
tinha pouca força no paiz. A Allemanha estava tão dividida que cada um
dos principes independentes podia fazer o que muito bem quizesse. As
cidades, formando ligas entre si, podiam offerecer uma certa resistencia
á tyrannia dos principes; mas os aldeãos, incapazes de similhante
combinação, eram acossados de todos os lados pela egreja, pelos principes
e pelos barões.
A situação dos camponezes allemães era, na verdade, pouco de invejar.
Houve tempo em que viveram desafogadamente, cultivando as suas terras,
mas os senhores feudaes foram, pouco a pouco, cerceando-lhes direitos,
chegando ao ponto de lhes prohibirem a entrada nos baldios, de não lhes
permitir que se abastecessem de lenha, que pescassem nos rios, etc.
Não tinham a quem pedir protecção, e não podiam contar com as leis. A
sua unica esperança estava na revolução, e sentiam um desejo ardente
de imitar os suissos, isto é, de se libertarem, de acabarem com o
feudalismo, de se tornarem proprietarios.
O joven imperador, quando pela primeira vez foi á Allemanha, deparou com
muitas questões graves que estavam á espera de solução; o povo estava
ancioso por um governo central, as cidades queriam que se pozesse termo
ás constantes contendas que havia entre os barões, os poderes, civil
e ecclesiastico, accusavam-se mutuamente, e, por ultimo, a questão de
Luthero continuava agitando os espiritos.
=Luthero e a dieta de Worms.=—A Dieta foi aberta por Carlos V em Janeiro
de 1521, e o nuncio do papa tratou logo de instar com os principes
reunidos em assembléa para que pozessem termo ás heresias de Luthero, não
sendo, na sua opinião, necessario que este fosse ouvido. Os principes,
porém, que tambem tinham as suas razões de queixa de Roma, declararam que
era uma injustiça, um acto indigno, condemnar um homem sem o ouvir e sem
elle estar presente. Por fim o imperador intimou Luthero a apresentar-se,
e forneceu-lhe um salvo-conducto. Um arauto foi, pois, procural-o da
parte do seu imperial amo, e em abril Luthero partiu para Worms. Ia
resolvido a não se retractar, posto que o animasse a convicção de não
voltar com vida. A Spalatin escreveu elle o seguinte: «Não tenho intenção
de fugir, nem de crear embaraços á Palavra; emquanto a graça de Christo
me sustiver, hei de confessar a verdade, não recuando mesmo deante da
morte». E a Melanchthon: «Se eu não voltar, se os meus inimigos me
assassinarem, continúa tu, de todo o coração te imploro, a ensinar e a
dar testemunho da verdade». Antes de deixar Wittenberg, havia preparado,
de collaboração com Lucas Cranach, «um bom livro para o povo», e que se
compunha de uma serie de gravuras em madeira representando contrastes
entre Christo e o papa, e tendo debaixo de cada uma a respectiva
explicação, n’um grande vigor de linguagem; n’uma pagina apparecia
Christo lavando os pés aos discipulos, n’outra o papa estendendo o pé
para que lh’o beijassem; a Christo levando a cruz contrapunha-se o papa
levado em procissão pelas ruas de Roma, aos hombros dos homens; a Christo
expulsando os vendilhões do templo, o papa vendendo indulgencias, e tendo
junto de si um monte de dinheiro.
Os amigos de Luthero consideravam-n’o perdido. Quando lhe chegou aos
ouvidos o boato de que o duque Jorge da Saxonia lhe preparava uma
emboscada, a resposta que deu foi: «Não deixaria de me pôr a caminho,
ainda mesmo que houvesse uma chuva de duques da Saxonia». E quando lhe
disseram que o diabo se havia de apoderar d’elle por qualquer fórma,
replicou: «Não deixaria de comparecer em Worms, ainda mesmo que lá
houvesse tantos demonios como telhas nos telhados». A sua jornada teve
o aspecto de uma marcha triumphal; o povo vinha, em grandes multidões,
ao seu encontro, soltando enthusiasticos vivas. Chegou, por fim a Worms,
e logo no dia immediato foi apresentado á Dieta. O imperador tinha a
seu lado o arquiduque de Austria, seu irmão, e a assembléa compunha-se
de seis eleitores, vinte e oito duques, trinta prelados, e um grande
numero de outras personagens de menor cathegoria, ao todo uns duzentos
principes. Era deante de toda aquella gente que Luthero tinha de
confessar a sua fé em Christo. Pouco depois d’elle entrar, foi collocada
na sua frente uma grande rima de livros, e perguntaram-lhe se os havia
escripto, e se estava disposto a retractar-se. Pediu algum tempo para
reflectir, e, sendo-lhe concedido o prazo de vinte e quatro horas, foi
reconduzido á casa onde se hospedára.
Quando, no dia seguinte, se dirigiu de novo á Dieta, teve de abrir
caminho atravez de uma grande multidão de gente, que o animava e lhe
recommendava firmeza; e, ao entrar na sala, o velho general Frunsberg
bateu-lhe no hombro e disse-lhe: «Nada receies, fradinho!» Na vespera
havia-se mostrado um tanto confuso, havia denotado uma certa timidez,
mas n’aquelle segundo dia estava de posse da sua coragem habitual. O
chanceller do arcebispo de Trier começou a interrogal-o em nome do
imperador. «Reconheceis estes livros como vossos, e estaes disposto a
retirar o que escrevestes?» Luthero respondeu que n’alguns dos seus
livros se encontravam coisas que haviam merecido a approvação até dos
proprios adversarios, e que não se podia esperar d’elle uma retractação
no tocante a essas coisas; havia tambem protestado contra manifestos
abusos, e seria, decerto, um hypocrita e um cobarde se n’aquella occasião
affirmasse ser falso o que elle e todos os homens de bem sabiam que era
verdadeiro; n’uma parte, finalmente, do que havia escripto, alvejava
os seus antagonistas, e, como o fizera um pouco precipitadamente, era
possivel que n’alguns pontos não tivesse razão, estando, portanto,
prompto a desdizer qualquer asseveração cuja injustiça lhe fosse provada.
«Esse vosso arrazoado é inopportuno», replicou Eck; «o que o imperador
quer é uma resposta definitiva. Estaes prompto a retirar o que dissestes
contra a Egreja, e especialmente o que disseste contra o concilio de
Constança?» «Quereis uma resposta definitiva?» disse Luthero. «Vou
dar-vol-a, pois. (_Vou dar uma resposta sem pontas nem dentes, diz o
original_). Não me retracto de coisa alguma, a não ser que me convençam
pela Escriptura ou por meio de argumentos irrefutaveis. É claro como a
luz do dia que tanto papas como concilios teem algumas vezes errado. A
minha consciencia tem de submetter-se á Palavra de Deus; proceder contra
a consciencia é impio e perigoso; e, portanto, não posso nem quero
retractar-me. Assim Deus me ajude. Amen.» O representante da lei chegou a
crer que os seus ouvidos o tivessem enganado. «Affirmaes, realmente, que
um concilio é susceptivel de errar?», perguntou elle, por fim. «Affirmo»,
retorquiu Luthero, «e affirmal-o-hei sempre. Assim Deus me ajude. Amen».
Aquella sua firmeza tornou furiosos os hespanhoes e os italianos; queriam
que o imperador lhe cassasse o salvo-conducto e o condemnasse á morte,
sem mais preambulos. Os allemães, reconhecendo que elle, ao mesmo tempo
que combatia pela consciencia, combatia tambem pela Allemanha, pozeram-se
do seu lado. Conseguiram que o imperador addiasse a sentença, e instaram
depois com Luthero para que se retractasse, sendo, porém, baldados todos
os seus esforços.
Por fim o imperador tomou uma resolução. Não querendo tomar o partido
de Luthero e da Allemanha, para não quebrar relações com o papa, não
desejava, comtudo, annullar o salvo-conducto, faltando assim á sua
palavra. Ordenou, pois, a Luthero que se retirasse, mas fez publicar um
edicto, condemnando os livros do Reformador e collocando-o a elle proprio
sob o anathema do imperio. Ora, ser collocado sob o anathema do imperio
era ser collocado n’uma gravissima situação. De ali em deante ninguem
podia dar de comer ou de beber a Luthero, nem recebel-o em sua casa:
quem quer que o encontrasse era obrigado a deitar-lhe a mão e entregal-o
aos guardas do imperador, que ficavam com plenos poderes para o matarem.
Tudo isto, porém, só podia ter logar depois de expirado o prazo que o
salvo-conducto mencionava.
=Luthero em Wartburgo.=—Os amigos de Luthero foram de parecer que, depois
do edicto de Worms, a vida d’elle corria perigo, até mesmo em Wittenberg;
e o eleitor da Saxonia encarregou uns tantos soldados de o irem esperar
ao caminho, apoderarem-se d’elle, e levarem-n’o para o castello de
Wartburgo, que ficava perto de Eisenach, e onde elle poderia esconder-se,
sem lhe succeder mal algum. Nenhum dos seus amigos sabia, ao principio,
onde elle se encontrava. Emquanto esteve em Wartburgo, submetteu-se a
uma vida de isolamento, e para maior precaução deixou crescer a barba,
vestiu-se de cavalleiro, e adoptou o nome de Junker Jorge. Permaneceu dez
mezes n’aquelle seu esconderijo.
Foi lá que começou a mais importante das suas obras, a traducção da
Biblia, dos textos originaes grego e hebraico. Conseguiu tornar conhecido
dos amigos o seu paradeiro, e Melanchthon mandava-lhe de Wittenberg todos
os livros de que elle necessitava. Começou com o Novo Testamento, e
traduziu-o quasi todo sem auxilio alheio. A ajudal-o no Velho Testamento
teve o que um dos seus biographos chama «um synhedrio privado, composto
de homens eruditos». Estes homens reuniam-se uma vez por semana em
casa de Luthero, para confronto de notas e mutuo auxilio nas passagens
difficeis.
Luthero estava empenhado em fazer da sua traducção da Biblia um livro
para o povo allemão. Não quiz introduzir n’ella phrases finas, phrases
palacianas; desejava tornal-a um livro que fosse comprehendido por todos,
homens, mulheres e creanças, e dedicou a esse trabalho todo o seu talento
e actividade. Ainda se conservam alguns dos seus manuscriptos, em que
se vê o grande numero de emendas por que muitas das orações passaram,
chegando algumas a serem emendadas quinze vezes. «Estamos trabalhando com
todas as nossas forças», escreveu elle em certa occasião, «para que os
prophetas fallem na nossa lingua. Que grande e difficil tarefa é esta,
de fazer com que os escriptores hebreus se exprimam em allemão! Elles
offerecem uma enorme resistencia. Não querem trocar o seu hebreu por uma
lingua barbara».
A tarefa tornava-se ainda mais difficultosa pela razão de quasi se poder
dizer que não existia a lingua allemã. O allemão antes do tempo de
Luthero, assim como o inglez antes do tempo de Chaucer, era um aggregado
de dialectos; e, de facto, a Biblia de Luthero é que fez a lingua allemã,
pois que tem servido desde então como que de modelo, e o seu estylo tem
sido imitado por todos os auctores allemães; a prosa foi, portanto,
tornando-se gradualmente uniforme, os dialectos foram ficando para traz,
e a linguagem adquiriu uma unidade que resistiu áquella onda de separação
que passou depois por toda a Allemanha.
=Regresso de Luthero a Wittenberg.=—Emquanto Luthero esteve em Wartburgo,
andaram os seus amigos prégando o Evangelho por toda a Allemanha, sem
soffrerem o minimo incommodo, e os seus livros eram lidos por toda a
parte. Dir-se-hia que toda a Allemanha se tornava protestante, a despeito
do edicto do imperador. Havia de todos os lados um grande movimento a
favor das doutrinas evangelicas, e contra a superstição e a idolatria.
Acontece muitas vezes, em epocas como aquella, de despertamento
religioso, que algumas pessoas perdem, por assim dizer, a cabeça e querem
que as coisas caminhem muitissimo depressa ou vão até demasiadamente
longe; foi o que succedeu na Allemanha.
Ha na fronteira bohemio-saxonia, no meio da cordilheira de Erzgebirge,
ou Montanhas de Ferro, uma pequena cidade chamada Zwickau. Os habitantes
d’essa cidade acceitaram a Reforma. Entre elles havia um tecelão, Claus
Storch, homem excitavel, que a abraçou com mais zelo do que sensatez, e
que reuniu em volta de si um certo numero de partidarios, creaturas de
muito pouco juizo tambem. Na sua opinião, não lhes eram precisos padres
nem ministros evangelicos, pois que Deus os instruia directamente; a
Biblia era inutil, pois que todos elles eram inspirados. Metteram-se
a limpar a sua terra de todos os indicios da antiga religião—as
ornamentações das egrejas, os altares, as cruzes, o clero, etc.—e deram
logar a alguns tumultos, levantando-se, por fim, contra elles os seus
conterraneos, que os pozeram fóra.
Expulsos de Zwickau, foram para Wittenberg, e expozeram as suas idéas
ao impetuoso Carlstadt e ao condescendente Melanchthon, que eram ali os
dirigentes espirituaes na ausencia de Luthero. Carlstadt adoptou por
completo o seu modo de pensar, Melanchthon deixou-se persuadir até a um
certo ponto, e a agitação começou a lavrar entre as massas populares. As
imagens foram derrubadas dos logares que occupavam nas egrejas; Carlstadt
prégou contra a instrucção, contra o estudo, contra as universidades; a
Reforma correu o perigo de uma rapida destruição.
Luthero teve conhecimento do que se passava na sua solidão de Wartburgo,
e resolveu sair de aquella especie de sequestração em que se encontrava.
Correu a Wittenberg, e o povo tornou a ouvir a sua voz, com que tanto se
familiarisara, trovejando do pulpito contra a violencia, o fanatismo e a
falta de caridade. Luctou contra os fanaticos durante oito dias, e por
fim triumphou. A auctoridade da Escriptura ficou de novo estabelecida, e
o movimento lutherano mostrou que nada tinha de commum com os excessos de
Storch, e do seu companheiro Münzer.
Do curto reinado dos fanaticos em Wittenberg resultou uma coisa
boa. Produziu uma reforma de culto. Desappareceram as ceremonias do
catholicismo romano, que foram substituidas por um serviço religioso mais
em conformidade com as Escripturas.
=A Dieta de Nürnberg.=—O anathema do imperio ainda estava sobre Luthero,
pois que não havia sido revogado; mas ninguem pensava em o pôr em
execução. Luthero prégava, escrevia, e editava os seus trabalhos, sem que
pessoa alguma na Allemanha o tivesse na conta de um proscripto. Ainda
mais, alguns dos principes allemães eram de parecer que o edicto de
Worms devia ser annullado. O imperador tinha-se retirado para Hespanha,
deixando em seu logar um Conselho Regente, cujos membros conheciam bem o
estado da Allemanha e os sentimentos do povo, e não se sentiam inclinados
a desposar a causa do papa.
Foi assim que, quando a Dieta se reuniu em Nürnberg, em 1522 e 1524,
o nuncio do papa viu que os principes allemães não eram de modo algum
favoraveis á sua proposta para que Luthero soffresse a pena de morte.
Em vez de discutirem esse ponto, apresentaram differentes reclamações,
insistindo muito com o nuncio para que chamasse para ellas a attenção do
papa; e muitas d’essas reclamações eram relativas a assumptos sobre os
quaes se baseou a condemnação de Luthero.
Por fim, depois de uma prolongada controversia entre os principes
allemães e o nuncio do papa, a Dieta declarou que era necessario nomear
uma Junta Geral da Egreja, afim de que certos abusos fossem abolidos e
se esclarecessem certos pontos duvidosos de doutrina que tinham surgido,
annunciando, ao mesmo tempo, que toda essa questão de differenças
religiosas havia de ser liquidada n’um outro concilio que ia reunir-se
em Spira. Toda a Allemanha, em summa, parecia estar do lado de Luthero;
e alguns estados—como, por exemplo, o de Brandenburgo—, proclamavam
abertamente quaes as reformas por que a religião devia passar. Pediam a
abolição dos cinco falsos sacramentos, da missa, do culto dos santos e
da supremacia pontificia. A Reforma havia-se espalhado tambem para além
da Allemanha, e já em 1524 havia discipulos de Luthero em França, na
Dinamarca e nos Paizes Baixos.
=A revolta dos nobres= foi o primeiro dos grandes revezes que o movimento
da Reforma soffreu. Até 1524, as doutrinas de Luthero tinham-se espalhado
sem obstaculo de maior pela Allemanha e pelo estrangeiro. De toda a parte
se protestava contra os cinco pretensos sacramentos, as indulgencias, a
confissão auricular, o culto dos santos e das reliquias, o celibato do
clero, a negação do calix aos leigos, o sacrificio da missa, a usurpação
episcopal e a supremacia do papa. O que todos ambicionavam era uma fórma
de culto mais simples e mais concorde com as Escripturas, e uma fórma
de governo que tornasse manifesto o sacerdocio espiritual de todos os
crentes. A Dieta tinha repetidamente, na sua lista de aggravos, chamado
a attenção do papa para os abusos que se observavam na egreja, e propoz,
por fim, que se convocasse um concilio geral para tratar das necessarias
reformas.
Mas não era só ecclesiasticamente que a Allemanha precisava de ser
reorganizada. A posição dos cavalleiros imperiaes era cada vez
mais insustentavel; os principes, mais poderosos do que elles,
supplantavam-n’os e opprimiam-n’os. Os camponezes viviam, pela maior
parte, cruelmente escravisados, e preparavam-se em segredo para uma
revolução. Tanto de um lado como do outro contava-se com a Reforma
como com um poderoso auxiliar. Os tempos corriam mal; tinha-se visto
a inutilidade dos velhos systemas, e todos proclamavam abertamente a
necessidade de uma mudança radical; não deveriam aproveitar-se d’este
estado geral de descontentamento? As duas classes desgostosas assim o
entenderam, e, porque assim o entendessem, entraram no caminho da revolta.
A revolta dos nobres foi logo reprimida; nunca teve, mesmo,
probabilidades de bom exito. Os homens que se envolveram n’ella estavam,
realmente, luctando contra a orientação da epoca e contra a corrente
da historia. Viam todo o territorio allemão caindo nas mãos de meia
duzia de familias principescas, e todo o povo das cidades enriquecendo
por meio do commercio e pondo-se ao abrigo de qualquer ataque. Previam
que a Allemanha não tardaria a estar dividida pelos principes, a quem
elles odiavam, e pelos cidadãos, a quem desprezavam, e queriam voltar
aos velhos tempos, em que os nobres germanicos não reconheciam outra
auctoridade que não fosse a do imperador. Tinham por cabecilha Francisco
von Sickingen, homem muito notavel, de grande valor militar, e a quem
se não podia negar um certo patriotismo. A revolta mallogrou-se, e os
principes aproveitaram a opportunidade para reduzirem ainda mais o poder
dos nobres e compellirem-n’os a reconhecer a sua auctoridade.
O movimento revolucionario não tinha ligação alguma com a Reforma, mas
muita gente julgava que sim, e começou a antipathizar com a Reforma por
causa do seu odio aos nobres revoltados. Sickingen tinha de muitos modos
tentado fazer com que parecesse que a causa que defendia era a causa da
liberdade religiosa. Quando a vida de Luthero corria perigo em Worms,
Sickingen reuniu algumas tropas e ameaçou atacar a cidade e a dieta.
Quando alguns dos secretarios de Luthero foram ameaçados de perseguição
depois da dieta de Worms, Sickingen prometteu proteger todos aquelles que
se acolhessem a elle; e, ao levantar o estandarte da revolta contra os
principes, declarou que o seu fim era combater pela Reforma e estabelecer
as novas doutrinas. E assim, quando elle ficou vencido, alguns dos
principes apressaram-se em accusar Luthero e os prégadores de terem
ajudado e instigado esta guerra civil.
De todos estes acontecimentos proveiu a chamada Convenção de Ratisbonna,
ou Regensburgo, que era uma confederação, ou liga, dos principes
catholicos romanos contra a Reforma; e assim a Allemanha, que até ali
se tinha mantido n’uma união propicia ás reformas, dividiu-se em duas
partes, o que tornou o trabalho muito mais difficil. Os confederados de
Regensburgo diligenciaram chegar a accordo com o partido papista de Roma.
O papa prometteu que não tornaria a haver indulgencias, que cessaria
aquella grande drenagem de dinheiro da Allemanha para Roma, e que seriam
escolhidos homens melhores para bispos e abbades; e os confederados
comprometteram-se a contrariar todas as tentativas de reforma, oppondo-se
tenazmente a qualquer modificação de culto ou de doutrina. A Baviera, a
Austria e as grandes provincias ecclesiasticas do sul da Allemanha iam
pôr-se ao lado de Roma na lucta que estava imminente. A Convenção de
Regensburgo veiu, pois, dividir a Allemanha, e fez prever os episodios
horrorosos da Guerra dos Trinta Annos.
=A revolta dos camponezes= teve consequencias mais serias. Não fez
sómente tremer os principes com a idéa de uma proxima reformação;
deu motivo a que Luthero hesitasse, e mudasse, por fim, de opinião a
muitos respeitos. O movimento rural não tinha por objecto a Reforma;
a sua origem foi a miseria profunda em que a gente do campo vivia. O
soffrimento d’essa gente não podia ser maior, e havia chegado a tal ponto
que a morte não lhes mettia medo algum. Desde o meiado do seculo quinze
que de quando em quando se levantava uma sedição de camponezes n’um ou
n’outro ponto da Europa, e todas essas revoltas haviam sido suffocadas,
sem que fossem concedidas as almejadas reformas, de modo que as causas
da rebellião continuavam ainda inalteraveis. Os camponezes viviam do que
as terras que traziam arrendadas produziam, e as rendas que pagavam eram
as mais das vezes exhorbitantes, isto é, não estavam em harmonia com o
valor do terreno. Além das rendas, eram tambem obrigados a prestar aos
proprietarios certos serviços de que não recebiam remuneração alguma;
esses serviços variavam segundo as localidades, mas em todas ellas o
senhorio tinha garantido o arroteamento dos seus campos sem lhe ser
preciso metter a mão á bolsa.
A tornar-lhes ainda mais duras as condições da vida, era-lhes prohibido,
sob pena de um severo castigo, o entregarem-se ao exercicio da caça
ou da pesca. Não podiam cortar lenha nos bosques, era-lhes vedada uma
grande parte dos baldios, e de todos os modos se viam embaraçados no seu
trabalho e na sua actividade. Quando um rendeiro fallecia, o dono da
propriedade tinha o direito de arrebatar do poder da viuva e dos orphãos
qualquer coisa que lhe agradasse, como por exemplo, uma vacca, uma
ovelha, ou até a propria cama.
A egreja tambem tinha as suas imposições. Reivindicava os dizimos: uma
decima parte da colheita, que era chamada o grande dizimo; e uma decima
parte do producto dos animaes, que era chamada o pequeno dizimo. Tinham
de ser pagos depois de se haver satisfeito ao senhorio; e depois de se
ter pago a renda e o salario dos serviçaes, e de se ter dado á egreja a
decima parte do trigo, das ovelhas, dos porcos e dos ovos, pouco ficava
para o pobre camponez e sua familia.
Mas ainda havia mais. Pode-se viver nas peiores circumstancias, pode-se
supportar as maiores agruras da vida, quando ha a certeza de que se não
corre o risco de peiorar, e de que justiça será feita quando aquelles
que occupam posições superiores quizerem tirar partido da pobreza e
fraqueza dos seus similhantes. O camponez allemão, porém, não tinha
essa certeza. O velho codigo romano havia substituido gradualmente a
legislação allemã, e nós sabemos que no imperio de Roma os camponezes não
eram homens livres. Os proprietarios tinham escravos, ou servos, para
amanhar as suas terras, para trabalhar nos seus dominios, e quando as
leis romanas começaram a ser applicadas na Allemanha viu-se logo que o
camponez ficava, pouco mais ou menos, na condição de escravo.
Os pobres, compenetrados de que a lei lhes era adversa, não ousavam
recorrer aos tribunaes. Eram castigados quando o seu amo entendia que
deviam sêl-o. A lei não lhes conferia direito algum; o proprietario podia
tornar-lhes mais pesados os trabalhos, augmentar-lhes a renda, podia, em
summa, exigir d’elles o que quizesse.