E depois a egreja, que, com as suas idéas, com os seus actos

A REFORMA

A REFORMA

POR

T. M. LINDSAY

DOUTOR EM THEOLOGIA E PROFESSOR DE HISTORIA

ECLESIASTICA

TRADUCÇÃO DE J. S. CANUTO

(AUCTORISADA)

[Illustration]

LIVRARIA EVANGELICA

RUA DAS JANELLAS VERDES, 32

LISBOA

LISBOA

TYP. ROSA, LIMITADA

29, Rua da Magdalena, 31

PREFACIO

As primeiras tres partes d’este livrinho são simplesmente uma compilação

das melhores e mais accessiveis historias da Reforma, e de modo algum são

apresentadas como uma dissertação original sobre o vasto e complicado

movimento religioso que descrevem. Sou da opinião do dr. Merle d’Aubigné:

a Reforma foi uma revivificação da religião, e não pode ser descripta com

bom exito se não tivermos sempre deante de nós, e bem distinctamente,

este seu caracter essencial. Os reformadores foram homens que, sob o

impulso de um grande movimento religioso que se levantou n’uma occasião

em que eram bem particulares as circumstancias intellectuaes, sociaes e

politicas, se sentiram animados pelo desejo de que lhes fosse permittido

dar culto a Deus segundo as direcções da Escriptura e os dictames da

razão e da consciencia. Mas este desejo, apparentemente simples, envolvia

uma tal mudança nas condições sociaes e politicas, não sómente em cada

provincia e em cada nação, mas em toda a Europa, tomada no seu conjuncto,

que não se pode escrever a historia da revivificação religiosa sem

apresentar uma grande parte da historia politica e social de aquella

epoca.

O dr. Leopoldo von Ranke tratou com tanta proficiencia da historia

politica do periodo em questão, que o auctor até do mais humilde dos

manuaes deve collocar-se quasi exclusivamente debaixo da sua direcção.

Foi o que eu fiz, e em quasi todas as paginas me aproveito, com

reconhecimento, das suas magistraes descripções do movimento politico e

social.

Escusado seria mencionar toda a longa lista de auctores consultados na

preparação d’este pequeno livrinho; como, porém, não se faz referencia

alguma ás auctoridades citadas, cumpre-me dizer que, além de d’Aubigné

e de Ranke, as pessoas que teem conhecimento do assumpto hão de notar

um continuo uso das _Historias da Egreja_ de Hagenbach e Henke, do

_Periodo da Reforma_ de Haüsser, dos _Huguenotes_ de Baird, de dois

volumes das _Epocas da Historia Moderna_ de Longman, da _Era da Revolução

Protestante_ de Seebohm, e do _Seculo de Isabel_ de Creighton. Refiro-me

frequentemente á _Historia dos Credos do Christianismo_ ao tratar das

Confissões, e á inapreciavel collecção de _Livros de Disciplina_, de

Richter, ao tratar da organização ecclesiastica das varias egrejas

reformadas.

A quarta parte, que se occupa summariamente dos principios fundamentaes

do movimento da Reforma, deveria talvez ter ido em primeiro logar,

servindo de introducção, mas preferi collocal-a no fim; em parte, porque

similhante introducção poderia assustar os leitores jovens, e em parte

porque os principios do movimento podem ser mais bem apreciados depois do

leitor ter algum conhecimento da sua historia. A quarta parte é a unica

porção d’este pequeno manual que se pode dizer com verdade que pertence

exclusivamente ao auctor, e que apresenta opiniões sobre o assumpto de

que só elle é responsavel.

O summario chronologico foi extraido quasi inteiramente das admiraveis

tabellas de Weingarten.

T. M. LINDSAY.

INDICE

PARTE I

A REFORMA ALLEMÃ, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS LUTHERANAS PAG. 1-53

CAPITULO I

A REFORMA NA ALLEMANHA PAG. 1-48

O principio da Reforma, pag. 3.—As indulgencias, e as theses

que Luthero escreveu contra as mesmas, pag. 5.—As theses

de Luthero não atacavam sómente as indulgencias, pag. 6.—A

historia de Luthero, desde o principio, pag. 7.—Partidarios

e adversarios de Luthero, pag. 9.—A disputa de Leipzig, pag.

10.—A bulla do papa, e a queima da mesma, pag. 12.—O Imperador

e a Reforma, pag. 14.—O estado politico da Allemanha, pag.

15.—Luthero e a dieta de Worms, pag. 16.—Luthero em Wartburgo,

pag. 18.—Regresso de Luthero a Wittenberg, pag. 19.—A dieta de

Nürnberg, pag. 20.—A revolta dos nobres, pag. 21.—A revolta

dos camponezes, pag. 23.—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529,

pag. 28.—O imperador pretende subjugar a Reforma, pag.

32.—A Conferencia de Marburgo, pag. 33.—Divergencia entre

Luthero e os suissos, pag. 33.—A Dieta de Augsburgo, pag.

36.—_A Confissão de Augsburgo_, pag. 38.—A Liga Protestante

de Schmalkald, pag. 39.—A morte de Luthero, e a guerra

de Schmalkald, pag. 42.—O imperador e o Concilio Geral,

pag. 43.—Loyola e os jesuitas, pag. 45.—A paz religiosa de

Augsburgo, pag. 47.

CAPITULO II

A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA PAG. 49-53

O lutheranismo fóra da Allemanha, pag. 49.—Na Dinamarca, pag.

50.—Na Suecia, pag. 51.

PARTE II

A REFORMA SUISSA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS REFORMADAS PAG. 55-154

CAPITULO I

A REFORMA SUISSA SOB ZWINGLIO PAG. 57-66

As reformas suissa e allemã, pag. 57.—A situação politica

da Suissa, pag. 58.—Ulrico Zwinglio, pag. 60.—As theses de

Zwinglio, pag. 62.—A Reforma em Zurich, pag. 63.—Basiléa,

pag. 64.—Berne, pag. 64.—Os cantões florestaes, pag.

64.—Caracteristicos da Reforma de Zwinglio, pag. 65.

CAPITULO II

A REFORMA EM GENEBRA SOB CALVINO PAG. 67-85

Genebra antes da Reforma, pag. 67.—Farel em Genebra, pag. 68.—A

mocidade de Calvino, pag. 69.—_Institutos da Religião Christã_,

pag. 71.—Calvino em Genebra, pag. 73.—A sua expulsão, pag.

75.—Genebra não pode passar sem elle, pag. 76.—_As Ordenanças

Eclesiasticas_, pag. 77.—Como differem dos _Institutos_,

pag. 79.—O seu effeito sobre uma reforma de costumes, pag.

81.—A morte de Calvino, pag. 82.—Succede-lhe Beza, pag. 83.—A

influencia de Calvino sobre a theologia da Reforma, pag. 83.—_A

Confissão de Zurich_, pag. 84.

CAPITULO III

A REFORMA EM FRANÇA PAG. 87-111

Os principios da Reforma em França, pag. 87.—Francisco I, pag.

89.—A _Concordata_ de 1516, e a feição que ella deu á Reforma,

pag. 89.—«Uma egreja debaixo da cruz», pag. 90.—O anno dos

placards, pag. 92.—O Vaudois de Durance, pag. 92.—Henrique II

e os Guises, pag. 93.—Organização da egreja reformada, pag.

95.—Os huguenotes: Coligny e os irmãos Bourbon, pag. 96.—O

primeiro _Synodo Nacional_, pag. 97.—Anne de Bourg, pag.

98.—A carnificina de Amboise, pag. 99.—Coligny na Assembléa

dos Notaveis, pag. 100.—Catharina de Medicis, pag. 100.—A

Conferencia de Poissy, pag. 102.—O massacre de Vassy, e outros,

pag. 103.—A guerra civil, os iconoclastas, pag. 103.—Coligny e

Carlos IX, pag. 106.—O massacre de S. Bartholomeu, pag. 107.—A

Santa Liga, pag. 109.—Henrique de Navarra, pag. 110.—O edicto

de Nantes, pag. 110.

CAPITULO IV

A REFORMA NOS PAIZES BAIXOS PAG. 113-116

Os Paizes Baixos, pag. 113.—A politica de Carlos V, pag.

114.—Os principios da Reforma, pag. 115.—Filippe II e os

Paizes Baixos, pag. 115.—A inquisição, pag. 117.—Os novos

bispados, pag. 118.—Tornar-se-ha hespanhol o paiz? pag. 119.—Os

_mendicantes_, pag. 120.—Prégações ruraes, pag. 120.—O duque de

Alba nos Paizes Baixos, pag. 121.—A prisão do conde Egmont e

do conde Horn, pag. 122.—A guerra civil. O principe de Orange,

pag. 124.—Os mendigos do mar, pag. 124.—A tomada de Brill, pag.

126.—Requescens y Zuniga, pag. 128.—O cerco de Leyden, pag.

129. Negociações entre as provincias do sul e as do norte, pag.

130.—D. João de Austria, pag. 131.—Alexandre de Parma, pag.

132.—O tratado de Utrecht, pag. 132.—A Egreja hollandeza, sua

organização e confissão, pag. 133.—O _Confessio Belgica_, pag.

134.—A constituição da Egreja hollandeza, pag. 134.—A força da

Egreja na Hollanda, pag. 136.

CAPITULO V

A REFORMA NA ESCOCIA PAG. 137-154

Preparação para a Reforma, pag. 137.—A antiga Egreja celtica e

a Educação, pag. 137.—A Escocia e o lollardismo, pag. 138.—A

Escocia e Huss, pag. 138.—A Egreja romana na Escocia e a

situação politica, pag. 139.—João Knox, pag. 141.—A Congregação

e a Primeira Convenção, pag. 142.—A _Confissão escoceza_,

pag. 144.—A rainha Maria e a Reforma, pag. 145.— O _Livro de

Disciplina e a Primeira Assembléa Geral_, pag. 147.—A educação,

pag. 148.—A morte de Knox, pag. 149.—Os bispos tulchanos, pag.

150.—André Melville, pag. 152.—O Segundo Livro de Disciplina,

pag. 152.

PARTE III

A REFORMA ANGLICANA PAG. 155-201

CAPITULO I

A EGREJA DE INGLATERRA DURANTE O REINADO DE HENRIQUE VIII PAG. 137-174

O caracter excepcional do principio da Reforma ingleza, pag.

157.—Antecipações da Reforma em Inglaterra, pag. 158.—O

estado ecclesiastico de Inglaterra no principio da Reforma,

pag. 159.—As relações de Inglaterra com o pontificado, pag.

160.—As antigas relações de Henrique VIII com o pontificado,

pag. 161.—Henrique muda de opinião, pag. 163.—Henrique VIII,

Francisco I, Carlos V, e a rivalidade que havia entre elles,

pag. 164.—A submissão do clero, pag. 165.—O progresso da

separação de Roma, pag. 166.—Separação de Roma e Reforma: duas

coisas differentes, pag. 168.—Execução de sir Thomas More, pag.

169.—Suppressão dos conventos e confiscação das propriedades

da Egreja, pag. 170.—_Os dez Artigos_, pag. 171.—_O Estatuto

Sanguinario_, pag. 173.—A Egreja de Inglaterra em 1547, pag.

173.

CAPITULO II

A REFORMA NO TEMPO DE EDUARDO VI, E A REACÇÃO NO TEMPO DE

MARIA PAG. 175-188

Será adoptada a Reforma? pag. 175.—A visita real, o _Livro de

Homilias_ e o _Livro de Oração Commum_, pag. 176.—A alliança

com o protestantismo continental, pag. 178.—Os _Quarenta e

Dois Artigos_, pag. 178.—Os principios do puritanismo, pag.

179.—A morte de Eduardo VI, pag. 181.—O estado da Inglaterra

por occasião da acclamação de Maria, pag. 182.—A Hespanha

necessitava do auxilio da Inglaterra, pag. 183.—Como Maria se

firmou no throno, pag. 183.—A alliança hespanhola, pag. 184.—A

reconciliação com Roma, pag. 184.—Porque não foi bem succedida

a reacção papal? pag. 185.—As perseguições durante o reinado

de Maria, pag. 186.—A questão dos bens de raiz da Egreja, pag.

186.—Os fructos do ensino no reinado de Eduardo, pag. 187.—A

morte de Maria, pag. 187.

CAPITULO III

A REFORMA NO TEMPO DE ISABEL PAG. 189-201

A successão de Isabel, pag. 189.—Como se liquidou a questão

religiosa, pag. 190.—_Os trinta e nove artigos_, pag.

192.—O puritanismo e as vestimentas ministeriaes, pag.

192.—A Inglaterra e o protestantismo de fóra do reino, pag.

194.—A lucta interna com o catholicismo romano, pag. 195.—A

Armada hespanhola, pag. 196.—As prophecias, pag. 197.—_Os

conventiculos_, pag. 198.—_Os pamphletos anti-prelaticios_,

pag. 198.—A Reforma ingleza, pag. 198.

PARTE IV

OS PRINCIPIOS DA REFORMA PAG. 203-236

CAPITULO I

A REFORMA FOI UMA REVIVIFICAÇÃO RELIGIOSA PAG. 205-214

A Reforma foi uma revivificação da religião no meio de

particulares condições sociaes, pag. 205.—Uma revivificação

da religião e uma approximação de Deus, pag. 206.—Como a

Egreja medieval chegara a impedir o caminho para Deus, pag.

208.—Revoltas medievaes em favor de uma religião espiritual,

pag. 209.—A imitação de Christo, pag. 209.—Francisco de Assis,

pag. 210.—Os mysticos da Edade Media, pag. 211.—A significação

do perdão, segundo a Reforma, pag. 212.—Previsões de uma

revivificação religiosa operada pela Reforma, pag. 213.

CAPITULO II

COMO A REFORMA SE POZ EM CONTACTO COM A POLITICA PAG. 215-219

O velho systema ecclesiastico estava profundamente arraigado

na vida social da epoca, pag. 215.—A Reforma desfez a noção

medieval de uma sociedade politica, pag. 216.—Revolta contra

o mediavelismo, anteriormente á Reforma, pag. 217.—O _De

Monarchia de Dante_ e o _Defensor Pacis_ de Marcello de Padua,

pag. 218.

CAPITULO III

A CATHOLICIDADE DOS REFORMADORES PAG. 221-224

Os Reformadores não tinham em mente crear uma nova Egreja,

pag. 221.—Reivindicaram a sua posição por meio de um apello á

Constituição do Imperio medieval, pag. 221.—A catholicidade da

Reforma, segundo Luthero e Calvino, pag. 222.—A sua posição

reivindicada pelo Credo dos Apostolos, pag. 223.

CAPITULO IV

OS PRINCIPIOS DOUTRINARIOS DA REFORMA PAG. 225-236

Os principios _formaes e materiaes_ da Reforma, pag. 225.—O

sacerdocio de todos os crentes: o grande principio da Reforma,

pag. 226.—Explica a _Doutrina da Escriptura_, pag. 227, e da

_Justificação pela Fé_, pag. 228.—A _Doutrina da Escriptura_

da Reforma em contraste com a medieval, pag. 228.—A Doutrina

medieval da Escriptura, pag. 229.—O quadruplo sentido da

Escriptura, pag. 229.—A definição medieval de _fé salvadora_.

Interpretação infallivel, pag. 230.—Os reformadores e a Biblia,

pag. 231.—A doutrina da _justificação pela fé_ da Reforma em

contraste com a medieval, pag. 232.—A absolvição clerical

e justificação pela fé, pag. 233.—Justificação pela fé e

justificação pelas obras, pag. 234.—Conclusão, pag. 235.

SUMMARIO CHRONOLOGICO PAG. 237-255

INDICE DE PERSONAGENS, LOCALIDADES, ETC PAG. 257-261

I PARTE

A REFORMA NA ALLEMANHA, QUE DEU ORIGEM ÁS EGREJAS LUTHERANAS

CAPITULOS:

I—A REFORMA NA ALLEMANHA.

II—A REFORMA LUTHERANA FÓRA DA ALLEMANHA.

CAPITULO I

A REFORMA NA ALLEMANHA

O principio da Reforma, pag. 3.—As Indulgencias, e as Theses

que Luthero escreveu contra as mesmas, pag. 5.—As Theses

de Luthero não atacavam sómente as Indulgencias, pag. 6.—A

historia de Luthero, desde o principio, pag. 7.—Partidarios

e adversarios de Luthero, pag. 9.—A disputa de Leipzig, pag.

10.—A bulla do papa, e a queima da mesma, pag. 12.—O imperador

e a Reforma, pag. 14.—O estado politico da Allemanha, pag.

15.—Luthero e a dieta de Worms, pag. 16.—Luthero em Wartburgo,

pag. 18.—Regresso de Luthero a Wittenberg, pag. 19.—A dieta de

Nürnberg, pag. 20.—A revolta dos nobres, pag. 21.—A revolta

dos camponezes, pag. 23.—As Dietas de Spira, em 1526 e 1529,

pag. 28.—O imperador pretende subjugar a Reforma, pag.

32.—A Conferencia de Marburgo, pag. 33.—Divergencia entre

Luthero e os suissos, pag. 33.—A Dieta de Augsburgo, pag.

36.—_A Confissão de Augsburgo_, pag. 38.—A Liga Protestante

de Schmalkald, pag. 39.—A morte de Luthero, e a guerra

de Schmalkald, pag. 42.—O imperador e o Concilio Geral,

pag. 43.—Loyola e os jesuitas, pag. 45.—A paz religiosa de

Augsburgo, pag. 47.

=O principio da Reforma.=—A reforma principiou, se é que similhante

movimento, cujos estimulos vieram de uma epoca remotissima, teve

realmente um principio, quando Martinho Luthero pregou as noventa e

nove theses contra as indulgencias na porta da egreja da pequena cidade

de Wittenberg, na Saxonia. João Tetzel, frade dominicano, havia sido

enviado á Allemanha pelo papa Leão X com o fim de colher dinheiro para

o serviço da egreja; para ajudar a pagar as despezas da guerra com os

turcos, dizia-se, mas o verdadeiro intuito era angariar fundos para serem

dispendidos pelo papa em quadros e outras obras de arte para a sumptuosa

egreja de S. Pedro, em Roma. O dinheiro obtinha-se em troca de uma

especie de recibos, em que se declarava que o comprador havia recebido

perdão da perpetração dos peccados que mencionara e pago a respectiva

importancia.

O vendedor de indulgencias viajava sob a protecção do arcebispo de

Mayença, um dos sete eleitores da Allemanha. Atravessou durante o outomno

de 1517 o centro da Allemanha, e chegou em outubro a Leipzig, na Saxonia.

A sua presença não tinha sido bem acolhida, nem pelos principes, nem

pelos clerigos mais zelosos dos seus deveres, nem pelas pessoas do povo

mais bem intencionadas. Os principes não gostavam d’elle pelo facto de

extrair do povo tanta somma de dinheiro e mandal-o todo para o papa;

estava empobrecendo o paiz; e alguns d’elles não lhe deram licença para

entrar nos seus territorios senão depois d’elle prometter que lhes dava

uma parte do que adquirisse.

A classe mais escolhida do clero paroquial não gostava d’elle pelo facto

de, por onde quer que elle passasse, o povo se tornar peior; vendia por

sete ducados o direito de assassinar um inimigo; aquelles que desejavam

roubar uma egreja eram perdoados se pagassem nove ducados; e o assassinio

de pae, mãe, irmão ou irmã custava apenas quatro ducados. Os homens e

mulheres que compravam estas indulgencias queriam, como é natural, tirar

algum lucro de aquillo que lhes custara o seu dinheiro, e por isso o

crime abundava onde quer que o vendedor do perdão apparecesse.

As pessoas amigas do socego tambem lhe eram adversas, pelo facto do

tumulto e dos escandalos a que a sua presença dava origem. Enviava

adeante de si homens extravagantemente vestidos, que fixavam annuncios

pelas paredes, e que apregoavam pelas ruas e pelas estradas a sua proxima

chegada, encarecendo a excellencia das cedulas de perdão que elle trazia

á venda. Eis algumas d’estas proclamações: «O perdão torna aquelles que

o comprarem mais limpos do que o baptismo, mais puros do que Adão no

seu estado de innocencia no paraiso»; «Assim que o dinheiro tilintar no

fundo do cofre, o comprador fica perdoado, e livre de todos os peccados».

Em seguida a estes charlatães, apparecia o vendedor do perdão e o seu

ajudante, n’uma pesada carroça, que era conduzida para o meio da praça

do mercado. Tetzel, tendo de um lado uma gaiola de ferro de cujas grades

pendiam os celebres papelinhos, e do outro um cofre em que o dinheiro era

lançado, offerecia ao publico a sua mercadoria, á maneira dos vendedores

de elixires que costumam apparecer pelas feiras.

Luthero não o perdia de vista desde havia muito tempo, e a sua alma justa

sentia-se indignada com o facto dos bispos, apezar de todas as suas

cartas e protestos, permittirem que elle andasse de diocese em diocese.

Não obstante haver prégado contra Tetzel e contra as indulgencias, o

traficante do perdão ia-se approximando. Tetzel chegou, por fim, a

Jüterbogk, perto de Wittenberg, e Luthero, que já se havia tornado famoso

como prégador e como professor da universidade, não poude conter-se por

mais tempo. Escreveu noventa e nove theses contra as indulgencias, e

pregou-as na porta da egreja: declarava elle, n’essas suas proposições,

que, se havia na Egreja logar para Tetzel e para os seus bilhetes de

perdão, não o haveria para elle, Luthero, nem para as idéas que elle

tinha relativamente ao peccado e ao modo como Deus concede o perdão.

Roma e as indulgencias estavam produzindo uma forte indignação em toda a

Allemanha. Bastaria uma faulha para ateiar o incendio; foram as theses

que o ateiaram, dando principio á Reforma.

=As indulgencias, e as theses que Luthero escreveu contra ellas.=—As

indulgencias que Luthero denunciou não constituiam uma coisa nova na

Egreja, e, posto que Luthero não o imaginasse, formavam um elemento

tão preponderante da vida exterior da Egreja n’aquella epoca que seria

dificil censural-as sem ir de encontro a muitas outras coisas. A Egreja

da Edade Media preoccupava-se muito com a representação visivel dos

factos e forças espirituaes, e tornou-se um caso vulgarissimo dar tanta

importancia a essa manifestação externa que se chegava a perder de vista

o verdadeiro sentido espiritual, e d’esta fórma muitas e excellentes

verdades evangelicas se acharam envolvidas por uma espessa camada

de formulas estereis que não permittiam que se desenvolvesse a vida

espiritual.

É uma verdade evangelica que quando um homem se sente triste por causa

dos seus peccados ha de mostrar a sua tristeza d’este ou d’aquelle modo;

o verdadeiro arrependimento torna-se sempre manifesto. A Egreja da Edade

Media pegou n’este axioma e incrustou-lhe a idéa de que o arrependimento

deve manifestar-se sempre em certos e determinados modos prescriptos pela

Egreja; e esses meios exteriores de mostrar arrependimento, taes como, o

dizer um grande numero de rezas, o jejuar em certos dias, ou o praticar

outras penitencias mais ou menos dolorosas, vieram a ser consideradas

como o verdadeiro arrependimento e a serem chamados por esse nome.

No decurso do tempo, quando a Egreja se tornou mais corrupta, ficou

estabelecido que o pagamento de umas determinadas sommas de dinheiro

dispensasse os signaes exteriores do arrependimento, comtanto que o

peccador penitente se sentisse compungido no seu coração por haver

peccado. Quando a Egreja attingiu um estado ainda peior, decidiu-se,

como coisa assente, que o desembolso do dinheiro alcançaria o perdão—o

perdão de Deus—tanto dos peccados commettidos, como de aquelles que

se commettessem depois. Foi de ahi que proveiu o indigno trafico das

indulgencias. Os papas e os seus dependentes acharam esta doutrina muito

lucrativa, e, como foi abertamente proclamado, diligenciaram extrair

todo o dinheiro que lhes fosse possivel «dos peccados dos allemães». A

indulgencia contra a qual Luthero protestou era a quinta das que nos

ultimos dezesete annos tinham sido publicadas.

As noventa e nove theses de Luthero constituem um discurso encadeado

contra a doutrina e pratica das indulgencias. E torna evidentes estas

tres coisas: (1) É, de algum modo, digna de approvação a indulgencia

quando significa simplesmente um dos muitos meios de proclamar o perdão

do peccado, _concedido por Deus_; mas uma tal proclamação deve ser sempre

gratuita. (2) Os signaes exteriores do arrependimento não equivalem

á dôr intima que se sente por haver peccado, isto é, ao verdadeiro

arrependimento, e a auctorisação para deixar de os pôr em pratica não

pode, de maneira alguma, garantir que Deus tenha realmente perdoado.

(3) Qualquer cristão que se sinta verdadeiramente arrependido recebe um

pleno perdão, e é participante de todas as riquezas de Christo, por um

dom directo de Deus, sem ser necessaria uma carta de indulgencia ou outra

intervenção humana. E, n’um sermão que publicou para explicar melhor

as suas theses, declara que o arrependimento consiste na contricção,

na confissão e na absolvição, e que a mais importante das tres coisas

é a contricção. Se a dôr, ou contricção, fôr verdadeira, sincera,

seguir-se-lhe-hão naturalmente a confissão e a absolvição. Assim, para

Luthero, a coisa essencial é o facto intimo, espiritual, da dôr produzida

pelo sentimento do peccado; a manifestação do pezar é uma coisa boa,

mas para o que Deus olha é para o estado espiritual, e não para a

exteriorisação d’esse estado.

=As theses de Luthero não atacavam sómente as indulgencias.=—Luthero, nas

suas theses e no seu sermão, declarou que os factos intimos, espirituaes,

experimentados pelo homem, eram de um infinito valor, comparados com a

expressão d’esses factos mediante formulas esteriotypadas que a Egreja

reconhecia; e tornou, outrosim, bem claro que no tocante a um tão solemne

assumpto como é o perdão dos peccados o homem podia ir ter directamente

com Deus, sem qualquer mediação humana. Dizendo isto, fez muito mais do

que atacar as indulgencias; protestou contra as mais enraizadas noções da

Egreja medieval.

A sua opinião tem sido partilhada por muitos christãos desde o dia

de Pentecoste, e atravez de todas as epocas de superstição homens e

mulheres, cheios de confiança em Christo, se teem dirigido humildemente

a Deus, rogando-lhe o perdão. Foi-lhes concedido esse perdão que

solicitavam, e a sua simples experiencia christã foi cantada nos

grandiosos e velhos hymnos da egreja medieval; encontrou expressão nas

orações da Egreja; constituiu a alma da prégação evangelica da Egreja,

e agitou as multidões nos muitos despertamentos da Edade Media. Como

quer que fosse, porém, esses piedosos prégadores e auctores de hymnos

não viram quão inteiramente essa sua preciosa experiencia era opposta ao

maquinismo ecclesiastico do seu tempo. A Egreja accumulava de tal fórma

as coisas exteriores, que a vida espiritual ficou sepultada debaixo

d’ellas, e na linguagem corrente da epoca havia-se mudado a verdadeira

significação dos termos «espiritual» e «santo». Dizia-se que um homem

era «espiritual» quando havia sido ordenado para officiar na egreja; o

dinheiro tornava-se «espiritual» quando era dado á egreja; a um dominio,

com as suas estradas, bosques e campos, chamava-se «espiritual», ou

«santo» se pertencia a um bispo ou a um abbade.

E depois a egreja, que, com as suas idéas, com os seus actos, com a

sua linguagem, tanto tinha aviltado as coisas espirituaes, e tão cega

tinha sido para ellas, interpozera-se entre Deus e o homem, proclamando

que ninguem se podia chegar a Deus senão por meio d’ella, e que Deus

não poderia jámais fallar ao coração do homem senão egualmente por seu

intermedio. A confissão dos peccados tinha de ser feita ao padre, e o

perdão era concedido mediante a absolvição. Luthero havia fallado contra

tudo isto n’aquellas suas theses, mas elle proprio quasi que o não

sabia. A sua devota natureza havia-se revoltado perante a profanidade de

se suppôr e se dizer que se podia obter de Deus o perdão dos peccados

comprando um papel, e que o peccado e a ira de Deus eram coisas que

desappareciam mediante o desembolso de uma certa quantia. Ao dar saida á

sua indignação, referia-se apenas ao sacrilegio que via deante de si; e,

comtudo, atacou, não simplesmente a peior parte de um systema mau, mas o

systema todo. A Reforma tinha começado.

=A historia de Luthero, desde o principio.=—O homem que se oppoz a Tetzel

tinha, apoz um longo e encarniçado combate, chegado ao conhecimento do

que o perdão dos peccados significa realmente. Recorrera a todos os meios

que a Egreja poz ao dispôr dos espiritos attribulados, mas nenhum d’elles

lhe proporcionara conforto: por fim, dirigiu-se elle proprio a Deus, e

achou a paz que procurava. Sabia por experiencia propria que o perdão

de Deus não se alcança mediante a compra de um bilhete estampado com as

armas pontificias, e lavrou o seu protesto em nome de todos aquelles que,

em todos os seculos da egreja, sentindo-se vergados ao peso do peccado,

tinham encontrado em Deus a paz e o perdão. A historia espiritual d’elle

torna isto bem evidente, como vamos ver.

Luthero nasceu em Eisleben, em 10 de Novembro de 1483. «Sou camponez,

e filho de camponez», costumava elle dizer. O pae era mineiro, e a mãe

uma camponeza com fama de muita austeridade. Teve uma infancia muito

pouco risonha, e, apezar do modo prazenteiro que constituia um dos seus

caracteristicos, notava-se-lhe de quando em quando um certo ar triste

que elle proprio attribuia ao que tinha soffrido nos primeiros annos

da sua vida. O pae tinha resolvido fazer d’elle um homem. Como todos

os homens de trabalho, tinha em desprezo os indolentes frades, e toda

a sua idéa era que o filho fosse advogado; queria que elle se formasse

em direito, conhecesse todas as engrenagens da lei, d’esse terrivel

tyranno do camponez allemão, que o tratava como a um servo, quasi como

a um proscripto. Luthero frequentou, pois, as escolas de Mansfeld,

de Magdeburgo, de Eisenach. A vida do estudante pobre era, n’aquelle

tempo, bem custosa. Passou fome, levou pancadas, não houve mal que não

experimentasse. Para ter um bocado de pão era-lhe, muitas vezes, forçoso

cantar pelas ruas. Foi em Eisenach que o attingiu o primeiro lampejo da

caridade humana, quando Frau Cotta, attraida pela triste solidão em que

elle vivia e pela sua melodiosa voz, o introduziu em sua casa e lhe fez

todo o bem que poude. De Eisenach foi para Erfurt, para a Universidade,

onde não tardou a fazer rapidos progressos. Aprendeu muita coisa, além

da jurisprudencia. Leu Cicero, Platão, Terencio e Tito Livio. Leu as

grandes obras theologicas da egreja medieval; e, acima de tudo, leu e

tornou a ler, até os saber de cór, os escriptos do bravo franciscano

inglez Guilherme de Occam, que resistiu denodadamente aos papas no seculo

quatorze, e que ensinou Wycliffe e Huss a fazerem o mesmo. Luthero

chamava-lhe com todo o carinho: «Occam, o meu querido mestre». Em 1503

recebeu o grau de bacharel, e em 1505 o de doutor. Tornou-se notado

pela sua viva intelligencia e pela sua pasmosa eloquencia. Estava,

pois, no caminho da posição em que o pae desejava vêl-o: a de um grande

jurisconsulto.

Durante todo esse tempo, comtudo, a sua consciencia não tinha estado

ociosa; os seus peccados atormentavam-n’o; a ira de Deus tinha caido

pesadamente sobre elle. O amor de Deus era uma coisa que para elle não

existia. O pae terrestre tinha-o tratado sempre com severidade, com

dureza, e no Pae celestial via apenas um senhor que exigia d’elle esta e

aquella coisa. No dia 17 de Julho de 1505, tendo elle 21 annos, os seus

sentimentos religiosos poderam mais do que elle; entrou para o convento

dos agostinhos de Erfurt, fugindo á sociedade de parentes e amigos, e

desprezando todas as honrarias humanas. O seu Platão e o seu Virgilio, de

que se fez acompanhar, ficaram sendo as unicas recordações da sua vida

passada.

No convento poz-se a trabalhar para achar o caminho da salvação.

Leu obras theologicas, jejuou, orou, submetteu-se a toda a sorte de

privações, mas nunca logrou encontrar a paz. Não tardou em adquirir

uma Biblia _completa_, coisa para elle inteiramente nova, e poz-se a

estudal-a com todo o afan; o terror do peccado estava, porém, sobre

elle, e não lhe deixava ver o Evangelho. Foi ter com o vigario geral da

ordem, Staupitz, que era um homem muito fervoroso, e este encaminhou-o

para Agostinho e para os mysticos allemães, em que encontrou um grande

auxilio. Aquelle mostrou-lhe o que era o peccado, e o que era a graça

soberana; e estes convenceram-n’o de que a verdadeira religião era a

religião do coração. No emtanto continuava a faltar-lhe a paz.

No meio d’este conflicto, foi-lhe confiado um encargo especial. Frederico

o magnanimo, eleitor da Saxonia, e o mais eminente dos principes

allemães, fundou uma nova universidade em Wittenberg, e pediu a Staupitz

que indicasse os respectivos lentes. Luthero foi então nomeado professor

de philosophia, e começou logo a fazer prelecções. Em 1512 doutorou-se

em theologia biblica, versando as suas conferencias sobre os Psalmos e

as Epistolas de S. Paulo aos Romanos e aos Galatas. Como estudo, leu os

Mysticos, os _Sermões_ de Teulez, e aquelle pequeno mas importante livro,

_A Theologia Allemã_. Chegou, porém, a crise da sua vida. Em 1511 foi

enviado a Roma para tratar de negocios. Á ida era um theologo medieval; á

volta era um protestante; á ida cria na justificação pelas obras, á volta

cria na justificação pela fé.

Roma era, havia muitos seculos, um amontoado de corrupção moral, e

Luthero descobriu isso immediatamente. Entrou n’aquella cidade como um

judeu entraria em Jerusalem. Elle proprio nos conta que ao avistal-a caiu

de joelhos e exclamou: «Eu te saudo, cidade santa, tres vezes santificada

pelo sangue dos martyres que se tem derramado em ti». Viu que os monges

e padres eram homens maus, que faziam zombaria dos serviços religiosos

em que tomavam parte. Viu que havia no povo muita deslealdade e cubiça,

e que até o papa pouco melhor era do que um pagão. Luthero havia-se

dirigido a Roma com a idéa de achar na cidade santa, como elle lhe

chamava lá na Allemanha, algum meio seguro de promover a sua salvação, e,

caso estranho, foi o proprio Christo que elle achou. Foi em Roma, no meio

da corrupção e da blasphemia, que de subito se compenetrou de que não

havia outro meio de salvação senão procurar Christo e entregar tudo ao

cuidado d’Elle; de que o perdão é gratuitamente concedido por Deus e dá

principio á vida christã, em vez de ser penosamente ganho no fim della.

Ao regressar a Wittenberg, era outro homem. Era já afamado como prégador;

mas depois da sua visita a Roma prégava como nenhum outro poderia

prégar. Tornou-se a primeira figura da universidade, e tinha como amigos

Staupitz, o seu geral, e Frederico, o seu principe. Foi então que

appareceram as famosas indulgencias.

=Partidarios e adversarios de Luthero.=—Ao principio parecia que toda a

Allemanha estava ao lado de Luthero. O trafico das indulgencias tinha

sido tão escandaloso que as pessoas de bons sentimentos e todos os

patriotas allemães se sentiam indignados. O golpe, porém, que Luthero

vibrara ás indulgencias havia attingido outros pontos, e não tardaram a

levantar-se antagonistas. Conrado Wimpina em Frankfort, Hogstraten em

Colonia, Silvestre Prierias em Roma, e, acima de todos, João Eck, um seu

antigo condiscipulo, em Ingolstadt, todos elles atacaram as theses, e

descobriram heresias nas mesmas.

Resultou de ahi que Luthero foi citado a comparecer, em Roma, na

presença do papa; mas o eleitor da Saxonia conseguiu uma modificação,

recebendo, por fim, Luthero ordem para partir para Augsburgo, a fim de

ser interrogado pelo cardeal Caetano, legado do papa na dieta allemã.

O papa queria evitar uma desintelligencia com o eleitor da Saxonia, e

recommendou a Caetano que se mostrasse conciliativo. Luthero foi, mas a

entrevista não teve bom exito. O cardeal começou por reprehender Luthero,

mas acabou por se sentir dominado por um certo mêdo d’elle. «Não posso

discutir mais com este animal», disse elle; «tem um olhar maligno, e

povoam-lhe o cerebro uns pensamentos estupendos». Luthero, por seu

lado, dizia abertamente que o legado era tão competente para julgar de

assumptos espirituaes como um burro para tocar harpa.

Ao deixar Augsburgo, levava sobre si a condemnação, mas havia appellado

para o proprio papa, rogando-lhe que se informasse melhor do seu caso.

O papa não queria indispôr-se com a Allemanha, porque a parte mais

importante da nação parecia estar a favor de Luthero, e enviou o cardeal

Miltitz a promover a paz. Este não chamou o moço frade á sua presença,

mas teve com elle uma conversação amigavel em casa de Spalatin, o

capellão do eleitor. Antes d’esta entrevista Luthero havia appellado para

um concilio geral. O cardeal Miltitz declarou estar em desaccordo com

Tetzel, reprovou as indulgencias, e concordou com muitas das asserções de

Luthero; mas lembrou-lhe que não tinha sido bastante respeitoso para com

o papa, e que estava enfraquecendo o poder e a auctoridade da egreja. O

seu argumento era, em summa, o seguinte: «O senhor pode ter razão; mas

para que ha de ser rude? Escreva ao papa, e peça-lhe desculpa». Luthero

prometteu fazel-o, e entre elle e Miltitz ficou estabelecido um convenio,

que, como elle depois referiu ao eleitor, continha duas clausulas:

1. Ambas as partes cessariam de prégar ou escrever sobre as

materias em controversia.

2. Miltitz informaria o papa do exacto estado dos negocios, e o

papa nomearia para as necessarias investigações uma commissão

de theologos illustrados.

No entretanto, Luthero escreveu ao papa, confessando espontaneamente que

a auctoridade da egreja era superior a tudo, e que a coisa alguma, quer

na terra quer no céu, se devia dar a prioridade, com excepção de Jesus

Christo, que tudo governa. Isto foi em Março de 1519.

=A disputa de Leipzig.=—Luthero tinha promettido conservar-se quieto

se os seus adversarios se conservassem quietos—era este o seu ajuste

com o cardeal Miltitz; os seus inimigos, porém, não se conservaram

quietos, e Luthero considerou-se livre para os atacar. O indiscreto

amigo da egreja era João Eck. Desafiou Carlstadt, amigo de Luthero,

para uma discussão publica, e no entretanto publicou treze theses que

atacavam as noventa e cinco de Luthero. Luthero replicou promptamente,

e a polemica publica entre Carlstadt e Eck foi seguida de uma outra

entre Eck e Luthero. N’esta disputa de Leipzig a controversia attingiu

um grau mais elevado. Não foi já uma discussão theologica, mas, sim, a

opposição de duas series de principios em conflicto, affectando todo o

circulo da vida ecclesiastica. Aqui, pela primeira vez, a christandade

allemã desprendeu-se da christandade romana, insistindo no sacerdocio de

todos os crentes e no direito de cada christão julgar em todas as coisas

segundo a sua consciencia, esclarecido pela palavra de Deus e pelo Seu

Santo Espirito.

Luthero e Eck começaram com as indulgencias e com as penitencias, mas o

debate em breve mudou para a auctoridade da Egreja romana e do papa. Eck

mantinha a suprema auctoridade do bispo de Roma, como successor de S.

Pedro e Vigario geral de Christo. Luthero negou a superioridade da egreja

romana sobre as outras egrejas, e baseou a sua negativa no testemunho

da historia de onze seculos, no dos decretos de Nicéa, no dos mais

santos concilios, e no da Escriptura Sagrada. Isto originou uma grande

contestação. «Sem papa não ha egreja», exclamou Eck. «A egreja grega tem

existido sem papa, e vós sois o primeiro a negar-lhe o nome de Egreja»

respondeu Luthero. «Athanasio, Basilio e os dois Gregorios estavam fóra

da egreja? O papa tem mais necessidade da egreja do que a egreja do

papa». «Sois tão mau como Wycliffe e Huss», disse Eck, «e elles foram

condemnados em Constança». «Nem todas as opiniões de Huss eram erroneas»

disse Luthero. «Se recusaes apoiar as decisões dos concilios, eu recuso

discutir comvosco», disse Eck, e por aqui se ficou. Immediatamente

depois, porém, Luthero completou e publicou a sua argumentação. Declara,

pela primeira vez, o que pensa da egreja. Não nega a primazia do papa,

mas o que não admitte é que o papa volte as costas á egreja. Se o papa se

mantiver no seu logar de servo da egreja, de «servo dos servos de Deus»,

elle, Luthero, dar-lhe-ha toda a honra. Mas a egreja é a communhão dos

fieis—é constituida pelos verdadeiros crentes, pelos eleitos. Á egreja

nunca falta o Espirito Santo, e aos papas e concilios falta muitas vezes.

Esta egreja, que tem sempre o Espirito Santo, é invisivel; e, portanto,

um leigo que possua as Escripturas e se guie por ellas é mais digno de

credito do que um papa ou um concilio que o não faça.

Esta disputa de Leipzig produziu importantissimos resultados. De um

lado, Eck e os demais adversarios eram de opinião que Luthero devia ser

violentamente posto fóra de combate, e insistiram n’uma bulla papal que o

condemnasse; e do outro, Luthero viu, pela primeira vez, até onde tinha

chegado com a sua opposição ás indulgencias. Viu que a sua theologia

agostiniana, com o conhecimento que ella proporcionava da odiosidade

moral do peccado, e da necessidade da soberana graça de Deus, feria, em

todas as suas peripecias, a vida ceremonial da edade media: mostrava

que era impossivel a qualquer homem o ter uma vida perfeitamente pura e

santa, e, por consequencia, não podia haver santos, e o culto dado aos

santos era um absurdo; tornava inuteis as reliquias e as peregrinações,

assim como a vida monastica, com as suas vigilias, jejuns e flagellações.

Todas estas coisas eram, em vez de auxilios, obstaculos á verdadeira vida

religiosa. Seguia-se tambem que, não podendo haver mediador entre Deus e

os homens, com excepção de Jesus Christo, a mediação do papa para nada

servia.

A disputa de Leipzig convenceu Luthero de que se havia separado de Roma,

e a Allemanha convenceu-se tambem d’isso, chegando o seu enthusiasmo a

um ponto extremo. O povo das cidades manifestou a sua sympathia pelo

arrojado frade. Ulrico von Hutten e os outros homens de letras viram

n’elle, desde então, o seu guia. Francisco von Sickingen e os outros

cavalleiros livres viram n’elle, desde então, um poderoso alliado. Os

pobres e sobrecarregados camponezes alimentavam a esperança de que elle

os libertasse das miserrimas circumstancias em que se encontravam.

Luthero tornou-se, por assim dizer, o chefe do povo allemão. Isto teve

logar em 1519.

=A bulla do papa e a queima da mesma.=—Eck e os demais adversarios

de Luthero reconheciam que alguma coisa se devia pôr em pratica para

reduzir ao silencio o audacioso monge, e instaram com o papa para que

publicasse uma bulla condemnando as suas opiniões. Luthero, por seu lado,

não estava ocioso. Sabia que se tinha desligado de Roma, e, com a sua

habitual actividade e coragem, tornou esse facto conhecido, e pediu ao

povo allemão que o ajudasse. A Allemanha era um paiz pobre, e, comtudo,

mandava todos os annos uma consideravel quantia de dinheiro para Roma.

N’aquelles dias a egreja era um grande imperio ecclesiastico, tendo

Roma como capital. Toda a Europa estava dividida em bispados, e o clero

era muito rico. Possuia extensos dominios, que arrendava; tinha tambem

direito aos dizimos (a decima parte) de todas as outras propriedades;

além d’isso, fazia dinheiro com os baptismos, com os casamentos, com as

absolvições, com a assistencia espiritual aos enfermos, com os enterros,

e com as missas. As varias ordens de frades tinham-se tambem tornado

muito opulentas, sendo a sua maior riqueza constituida por terras que

lhes haviam sido doadas ou legadas em testamento por pessoas devotas.

Em quasi todos os paizes da Europa se haviam promulgado leis com o fim

de impedir ou limitar estas doações, mas essas leis tinham sido tão

inefficazes que ao tempo da Reforma as ordens religiosas eram senhoras

de quasi um terço do territorio europeu. E, apezar de ricas, andavam

continuamente esmolando. Parte dos seus bens ia todos os annos para

Roma. Quando um bispado vagava, as receitas eram recolhidas pelo papa,

que demorava sempre a nomeação de outro bispo. O papa diligenciava

frequentemente que os bispos ou abbades fossem italianos, pois que estes

ficavam residindo em Roma, e o dinheiro era-lhes remettido para lá.

Quando um novo bispo era nomeado, tinha de mandar ao papa o rendimento

do primeiro anno (_os annatas_). Todo este dinheiro que era exportado

para Roma fazia falta nos paizes de onde sahia; e no tempo de Luthero

ainda estava extorquindo mais, por meio das indulgencias. Luthero, no

seu opusculo _Á nobreza da nação allemã_ tornava tudo isto saliente, e

perguntava por quanto tempo se estaria disposto a tolerar similhante

coisa. Referia aos nobres que a doutrina romanista dos dois estados

distinctos, um espiritual, incluindo o papa, os bispos, os padres, os

frades e as freiras, e o outro temporal, constituido por todas as outras

individualidades, era um muro levantado pelos romanistas para defenderem

as oppressões da egreja. Dizia-lhes, outrosim, que _todos_ os christãos

são espirituaes, e que todos deviam ser obedientes ao poder secular. E

perguntava, finalmente, como é que os allemães consentiam que do seu

depauperado paiz fossem enviados annualmente para Roma 300.000 florins.

Escreveu tambem outro tratado, _O captiveiro babylonico da egreja de

Christo_, para mostrar que elle não desejava destruir mas purificar a

verdadeira egreja de Christo. O titulo é bem explicito. Luthero opinava

que o papa e os romanistas tinham conduzido a egreja a um captiveiro,

muito comparavel ao dos judeus em Babylonia. E dá exemplos d’isso. O

Senhor disse por occasião da ultima ceia, quando deu o calix aos Seus

discipulos, «Bebei d’elle todos», mas os romanistas dizem «Não bebaes

d’elle se não fordes padres». E parecia-lhe que todos os verdadeiros

christãos tinham o dever de libertar a egreja da sua escravidão. E

concluia de um modo caracteristico. «Consta-me que estão sendo preparadas

bullas e outras coisas papistas, em que me é exigida uma retractação, sob

pena de ser proclamado hereje. Se é verdade, desejo que este livrinho

fique constituindo uma parte da minha futura retractação».

Foram enviados milhares d’estes livros para todos os pontos da Allemanha,

e o povo ficou á espera da bulla. Esta veiu, por fim, em 15 de Julho de

1520. Accusava Luthero de sustentar as opiniões de Huss, e condemnava-o.

Eck levou-a para Leipzig em Outubro. Foi affixada em varias cidades

allemãs, e em geral os cidadãos e os estudantes arrancavam-n’a. Chegou,

por fim, ás mãos de Luthero. Respondeu ás suas accusações n’um pamphleto,

em que lhe chamava a execravel bulla do anti-christo, e por fim annunciou

em Wittenberg que ia queimal-a. No dia 10 de Dezembro, á frente de um

cortejo de professores e estudantes, Luthero saiu da universidade e

dirigiu-se para o mercado. Um dos lentes accendeu a fogueira, e Luthero

lançou a bulla ás chammas. Estava consummada a affronta. Foi tambem

queimado um exemplar da lei canonica, pois que a Allemanha ia de ali

em deante ser governada pelas leis do paiz, e não pelas leis de Roma.

A noticia espalhou-se por toda a Allemanha, dando logar a um enorme

regozijo. Roma tinha arremessado o seu ultimo dardo; só o imperador é que

tinha poder agora para reprimir Luthero.

=O imperador e a Reforma.=—O imperador era, por esse tempo, Carlos V.

Havia sido eleito em 1519, e ainda não tinha estado na Allemanha, nem

era tão poderoso como o seu titulo indicava. N’aquelles dias ainda

predominavam as idéas medievaes de governo, e Carlos V tinha resolvido

restabelecer o velho poder imperial com todos os seus attributos.

No principio da edade media os homens colhiam as suas idéas de governo

do velho imperio romano—não do imperio pagão de Augusto Cesar e dos seus

successores, mas do imperio christão de Constantino e de aquelles que

vieram apoz elle. Posto que aquelle velho imperio tivesse sido destruido

pelas invasões das selvaticas tribus teutonicas, depois da epoca das

conquistas ter passado os novos povos que habitavam a Europa adoptaram o

governo e as leis da nação que haviam derrubado.

Segundo os pensadores medievaes, o governo civil e a ordem social eram

coisas impossiveis quando todo o poder não estivesse concentrado n’um

foco e identificado n’uma só pessoa—o monarca universal; e quando todo

o governo ecclesiastico e communhão religiosa não obedecessem, da mesma

fórma, ao arbitrio de uma unica pessoa—o sacerdote universal. O monarca

universal era o imperador, que dominava _circa civilia_ como vigario, ou

representante, de Deus; e o sacerdote universal era o papa, que dominava

_circa sacra_, como vigario, ou representante, de Deus. Um dominava nos

corpos, o outro dominava nas almas, dos homens; e o dominio de ambos era

universal. Um tinha o poderio da espada, e o outro tinha o poderio das

chaves. Este sonho medieval ainda não se havia tornado em realidade,

até então; mas o sonho continuava, e a Europa, no alvorecer da Reforma,

estava sob o olhar cubiçoso de duas entidades: o imperador e o papa.

No fim do seculo quinze, Fernando, o Prudente, rei de Aragão, concebeu

o plano de, mediante um elaborado systema de enlaces matrimoniaes,

restituir ao imperio a sua primitiva grandeza. Tinha tres filhas. A mais

velha casou com o rei de Portugal, o que daria logar a que este paiz e

Hespanha ficassem constituindo um só reino. A segunda casou com Filippe

de Austria, chefe da casa de Hapsburgo, e por direito materno senhor

da Borgonha e dos Paizes Baixos. A terceira desposou Henrique VIII

de Inglaterra. Do primeiro d’estes consorcios nasceu Isabel, herdeira

do throno de Hespanha. Do segundo Carlos de Austria e de Borgonha. Do

terceiro Maria, rainha de Inglaterra. Carlos casou com sua prima Isabel,

e ficou, portanto, reinando em Hespanha, Austria, Borgonha e Paizes

Baixos. E mais tarde foi tambem imperador e rei de Italia.

Carlos V foi, pois, um imperador poderosissimo, como não tinha havido

outro durante muitos seculos; e a sua ambição era ver-se investido

da mesma auctoridade que tinham tido Carlos Magno e Otto I. Tinha os

olhos constantemente fitos no passado; e lá no seu intimo arquitectava

a maneira de restabelecer na Europa aquella unidade politica que

desapparecera quando começaram a organizar-se as nações modernas. Esta

velha unidade, porém, exigia, não sómente um imperio unido, como tambem

uma egreja intacta, e esse sonho de Carlos tornava-o intolerante para

com qualquer perturbador da paz da egreja, como Luthero era por elle

considerado. Posto que tivesse sido acclamado imperador, o seu imperio

não estava muito firme. Era poderoso, não por ser imperador, mas por

ter sob o seu dominio a Hespanha, a Borgonha, e a Austria; as luctas

intestinas de que a Allemanha era theatro, e as muitas questões que

surgiam, a que era necessario dar uma prompta solução, enfraqueciam-lhe

algum tanto o poder.

=O estado politico da Allemanha.=—A Allemanha, no tempo da Reforma, não

tinha uma unidade politica. Estava nominalmente unida sob o imperio, e

era governada pela Dieta; mas o poder, tanto do imperador como da Dieta,

era, praticamente, fraquissimo. O imperio era electivo, e desde o anno de

1356 a eleição havia estado nas mãos de sete principes-eleitores, tres

na região do Elba, e quatro na do Rheno. Na região do Elba eram o rei da

Bohemia, o Eleitor da Saxonia e o Eleitor de Brandenburgo; na do Rheno

eram o Conde Palatino do Rheno, e os arcebispos de Mayença, Trier e Köln.

As successivas concessões que os principes obtinham á custa das eleições

iam diminuindo o poder imperial.

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