Depois o infante visitou as egrejas da Sé, de Santa Cruz e de Santa

Clara, com as quaes tinha particular devoção, e, recolhendo ao

paço, deu ordem para que estivessem prestes os seus seis mil homens, e

para que n'essa noite se abrissem e illuminassem os salões do solar.

Tendo cumprido os deveres de bom christão, queria despedir-se do mundo,

na hypothese de ser vencido, se não era presentimento, como bom cavalleiro.

E elle, que tão modesto vivera sempre, deu ao sarau d'essa noite um

esplendor verdadeiramente principesco.

«La veille de son départ pour Santarem, une fête fut donnée aux dames;

et il y brilla de cette grâce de langage, de cette noblesse toute

chevaleresque, qui l'avaient rendu maintes fois l'admiration des cours

de l'Allemagne et de l'Aragon»[59].

Como que está a gente a vêr o amavel donaire d'esses dous

cavalleiros, o infante e D. Alvaro, fallando ás damas, pisando

gentilmente tapetes macios que encobriam a cratera de um vulcão ameaçador.

Ao romper da manhã, quando o sol da primavera aclarava docemente a

paizagem formosissima de Coimbra, a cavallaria, a infanteria, a

carriagem de bois e bestas, principiaram a mover-se, desfraldando duas

bandeiras, cujos lemmas diziam, n'uma, _Lealdade_, na outra, _Justiça e

vingança_.

O infante D. Pedro, tendo abraçado sua esposa, seguira o exercito que

abalava em som de guerra.

* * * * *

Esta Jornada, a mais curta e ao mesmo passo a mais longa que o infante

fizera, porque não regressou jámais, lembra até certo ponto a

attracção da chamma sobre a borboleta. Tambem o infante e o seu fiel

companheiro D. Alvaro pareciam attrahidos pela morte.

Iam procurando os templos famosos como para encommendar sua alma a Deus.

Estiveram na Batalha, onde D. Pedro ajoelhou diante do tumulo de seus

pais, quedando-se tambem algum tempo diante do jazigo que elle proprio

devia ir povoar. Estiveram em Alcobaça, e d'alli seguiram para Rio

Maior, onde o infante reuniu o conselho.

Todos, á excepção de D. Alvaro, aconselhavam D. Pedro a que não

avançasse mais; diziam-lhe que, feita aquella demonstração de força,

retrocedesse para Coimbra.

O infante ouvia-os engolphado n'uma abstracção melancolica. Mas deu

ordem para que o exercito marchasse na direcção de Alcoentre: para

a morte é que era o caminho.

Cbegados ahi, D. Alvaro Vaz de Almada pratíca um novo acto de bravura,

de fogoso ardor militar.

Ayres Gomes da Silva, a quem coube a guarda das forragens, fôra cercado

pelos esclarecedores do exercito real.

Mal que isto se soube em Alcoentre, no acampamento do infante, «o conde

de Abranches com grande trigança logo sahiu, e com elle quasi todos os

do arraial não guardando alguma regra em sua sahida, antes com muita

desordem e desmando romperam por muitas partes o palanque, e deram com

muita força nos corredores, de que alguns d'elles achando-se atalhados,

querendo-se salvar cairam em um grande tremedal e lagoa, de que não

poderam sahir, onde entre mortos e presos ficaram logo até trinta, e os

vivos levaram logo ante o infante, entre os quaes o principal era

um Pero de Castro, fidalgo e criado do infante D. Henrique»[60].

Impellido por este acontecimento, o exercito de D. Pedro avançou.

Sahiu-lhe ao caminho a noticia de que D. Affonso V havia partido de

Santarem ao seu encontro. Sabido isto, o infante mandou fazer alto, a

pequena distancia de Alverca, junto ao ribeiro de Alfarrobeira.

O conde de Avranches, que era sempre o primeiro, foi observar o exercito

do rei, que se aproximava.

Fez-lhe impressão a grandeza d'esse exercito. Mas, voltando, occultou a

toda a gente a sua impressão, menos ao infante.

«... e alguns disseram que o Conde pedira e requerera ao infante, visto

a desigual comparação que havia de uns a outros, que só se fosse e

salvasse, e o deixasse com sua gente alli onde folgaria acabar por

seu serviço»[61].

Se isto assim foi, o infante recusou o offerecimento. Lembrou porventura

a D. Alvaro que o voto feito por ambos era de morrerem um pelo outro.

«Mas o que mais verdadeiramente ácerca d'isto se deve crêr, é que o

Conde pela certa sabedoria que tinha do proposito do infante, que era

morrer, e pelo consagramento que ambos por isso tinham feito, não lhe

commetteria nem ousaria commetter tal cousa, em que ao menos ficava o

infante por ser perjuro e fraco»[62].

Foi ahi, junto ao ribeiro de Alfarrobeira, que n'esse dia, uma

terça-feira, 20 de maio, o infante D. Pedro esperou o exercito do rei.

O conflicto, rapido e decisivo, devia comtudo ficar memoravel na

historia de Portugal. Uma setta, certeiramente despedida, fôra cravar-se

no peito do infante, que pouco tempo sobreviveu.

Luiz de Azevedo[63], poeta do _Cancioneiro_ de Rezende, põe

na bocca do infante moribundo lastimas que talvez lhe atravessassem o

pensamento n'essa angustiada hora final:

Nam ha rreynos em Cristãos

que em todos nam andasse,

e que sempre nom achasse

nos rreys d'eles doces mãos;

Fydalguos e cydadaõs

me seruiam lealmente,

e agora cruelmente

me matarom meus yrmãos.

Eu andey per muytas partes

e por outras boas terras,

muyta paz e tam bem guerras

vy tratar per muytas artes.

Mas aqueste dia Martes

foy jnfeles pera mym;

o meu sangue me deu fim

e rrompeu meus estandartes.

Vamos, na confusão do rapido combate, procurar o conde de Avranches. O

infante é morto. D. Alvaro ha de cumprir o seu juramento como o mais

leal dos cavalleiros portuguezes.

Ruy de Pina escreve:

«O conde d'Abranches andando a cavallo em outra parte do arraial,

provendo e resistindo em sua estancia, como bom e ardido cavalleiro, a

muitas affrontas que o perseguiam, um moço chegou a elle e chorando lhe

disse--_Senhor conde, que fazeis? porque o infante D. Pedro é morto._--E

o conde com quanto esta embaixada era de morte, que sem escusa nem

dilação desafiou logo sua vida, elle com a cara segura e o coração

esforçado disse ao moço--_Cala-te e aqui o não digas a ninguem._--E

com isto feriu rijamente o cavallo das esporas, e foi-se descer em seu

alojamentor onde sem alguma turvação pediu pão e vinho, de que por

esfoçar mais seu esforço comeu e bebeu alguns bocados, e tomou suas

armas para com ellas honrar sua sepultura, que era a terra em que havia

de cair, e saiu a pé pelo arraial, que de todas as partes era já entrado

e vencido, e como foi conhecido, logo os d'el-rei uns sobre os outros

carregaram sobre elle acommettendo de todas as partes para o matar, mas

elle logo com uma lança que cortaram, e depois com sua espada os feria,

e escarmentava de maneira, que os que a primeira vez o acommettiam, de

mortos ou feridos não volviam a elle a segunda, e assim pelejou um

grande pedaço como mui valente e accordado cavalleiro, não sem grande

espanto dos que o viam trazendo as mãos, e todas suas armas cheias não

de seu sangue, mas de muito alheio que espargiu; porque em quanto

andou em pé e se poude revolver, nunca sua carne recebeu golpe que a

cortasse. E emfim vencido já de muito trabalho, e longo cansaço, disse

em altas vozes: _Ó corpo, já sinto que não podes mais, e tu minha alma

já tardas._ E com isto se deixou cair estendido no chão, e uns dizem que

disse, _ora fartar, rapazes_, e outros _ora vingar, villanagem_. Cujo

corpo que já não resistia, foi logo de tantos golpes ferido, que em

breve despediu a alma de si para ir acompanhar a do infante como lhe

tinha promettido, e alli um seu amigo, que não usou do que devia, lhe

cortou e levou a cabeça com que a el-rei foi pedir acrescentamento e

honra de cavallaria, e o tronco ficou no chão feito em pedaços, até que

por requerimento de João Vaz d'Almada seu irmão bastardo, que era valor

d'el-rei, houve logo enterramento no campo, e depois sepultura honrada.

E os outros fidalgos e nobre gente que eram com o infante, vendo

tão caro seu destroço, cada um desamparou a defeza das estancias, que

lhe foram encommendadas, e como desesperados das vidas não lhe

fallecendo o coração e accordo para vingarem suas mortes, se soltaram

pelo arraial á aventura que se lhes offerecesse, e emfim de mortos,

feridos, ou presos não escapou algum».

Realmente, um frémito de enthusiasmo põe no nosso organismo uma vibração

violenta, ao chegarmos a esta pagina, a ultima, da biographia de Alvaro

Vaz de Almada. Os heroes da epopéa costumam cair assim. Na morte, esse

homem extraordinario parece ainda sobrepujar a grandeza de toda a sua

vida. Para os livros de educação popular, nenhum exemplo de valor

militar e de leal amizade poderá ser mais apropriado do que este.

Os nobiliarios da Torre do Tombo referem entre as phrases finaes de

Alvaro Vaz uma que o chronista aliás não cita. Contam que,

embravecido em vingar a morte do seu amigo, o conde de Avranches, na

vertigem do combate, pronunciára: «_Jantar aqui, ceiar no inferno_». Era

um leão que se vingava, cego de colera, imponente de magestade.

Estes acontecimentos causaram uma profunda impressão em toda a Europa.

D. Affonso V procurou attenual-a enviando embaixadores ás principaes

côrtes, encarregando-os de explicarem os motivos do seu procedimento.

Mas a impressão foi tanto maior, quanto é certo que a vingança do rei

ultrapassou o respeito devido aos mortos.

O cadaver do infante ficou insepulto sobre o campo, durante tres dias.

Depois levaram-n'o sobre um escudo para a egreja de Alverca. Aquelle

desgraçado principe, de quem o povo conta que, em vida, andou as sete

partidas do mundo[64], ainda depois da morte errou n'uma longa

peregrinação, porque os seus ossos foram successivamente trasladados de

Alverca (onde o rei receiou que os fossem roubar) para o castello de

Abrantes, de Abrantes para o mosteiro de Santo Eloy em Lisboa, e de Lisboa,

finalmente, para a Batalha, a instancias da infeliz rainha D. Isabel.

Ao cadaver do conde de Avranches foi, como diz Pina, cortada a cabeça

por um dos adversarios, aliás seu antigo amigo, que a levou a el-rei na

esperança de obter mercê[65]. Feito pedaços, retalhado de

golpes, o corpo de D. Alvaro ficou tambem insepulto sobre o campo de

Alfarrobeira, até que a requerimento de seu irmão bastardo, João

Vaz de Almada[66], e não sem difficuldade, foi enterrado

honradamente na capella de familia.

Esta capella, que confinava com a casa do Capitulo em S. Francisco de

Lisboa, era chamada _dos Abranches_ (corrupção de Avranches), por n'ella

ter sido sepultado D. Alvaro Vaz.

«Está sepultado--descrevia no seculo XVII o auctor da _Historia

serafica_--no meio d'esta capella, debaixo de uma pedra, na qual se vêem

estas letras: _Aqui jaz um Christão._ Na parede sustentavam dous leões

uma arca pequena, ennobrecida com as armas dos Almadas, em que estavam

os ossos de seu pai João Vaz de Almada, e de seu irmão Pero Vaz de

Almada, os quaes ausentando-se do reino por razões, que para isso

tiveram, fóra d'elle fizeram celebre seu nome com muitos feitos

cavalleirosos[67]. E por quanto uma ruina do tecto a tem

feito em pedaços, e a mesma capella se ha de incorporar em a Casa

do Capitulo, com mais gosto deixamos escripta esta memoria».

Por carta de D. Affonso V, de 10 de outubro d'aquelle anno de 1449,

foram privados de todos os seus beneficios, dignidades, officios,

honras, prerogativas, isenções, privilegios, liberdades, etc., os

partidarios do infante que se acharam em Alfarrobeira.

O conde de Avranches não escapou a esta medida geral, que abrangia tanto

os vivos como os mortos.

«Morto o conde de Avranches, foram-lhe logo os bens confiscados como de

reo de alta traição: a casa da actual rua do _Almada_, sobre o Calhariz,

campo então, e afastado, e mais uns terrenos em Caparica. Tudo se doou

em 25 de agosto de 1449 a Alvaro Pires de Tavora, chamado o velho, filho

de Lourenço Pires de Tavora e de Alda Gonçalves, e do conselho d'elrei

D. Affonso V. Esses bens conservam-se ainda, na sua maior parte, em

poder do actual representante dos Tavoras, o sr. marquez de Vallada,

etc.»[68]

Quantos lisboetas ignorarão ainda hoje que foi o famoso conde de

Avranches, espelho da cavallaria portugueza, como muitos escriptores lhe

chamam, que deu o nome a essa aliás modesta rua, proxima do Calhariz!

Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de Avranches, casou duas vezes.

A primeira com D. Isabel da Cunha, filha de Alvaro da Cunha, quinto

senhor de Pombeiro, o qual era filho de João Lourenço da Cunha e de sua

mulher a celeberrima D. Leonor Telles[69].

A lista dos filhos de Alvaro Vaz de Almada, publicada nos _Retratos dos

varões e donas_, é deficiente. Nos nobiliarios da Torre do Tombo

encontra-se a seguinte noticia genealogica, que deve completar a sua

biographia:

Do primeiro casamento, nasceram cinco filhos, a saber:

1.º D. João de Almada, cuja geração se extinguiu.

2.º D. Leonor, solteira.

3.º D. Violante da Cunha, primeira mulher de Fernam Martins Mascarenhas,

capitão de ginetes, do qual se apartou.

4.º D. Isabel da Cunha, mulher de Alvaro Pessanha, filho de micer

Carlos Pessanha, almirante[70].

5.º Dona V... da Cunha, que casou em Inglaterra.

Em segundas nupcias casou D. Alvaro Vaz de Almada com D. Catharina de

Castro, filha de D. Fernando de Castro (casa Monsanto) e de sua mulher

D. Isabel de Athayde.

D'este segundo cazamento nasceu D. Fernando de Almada, que veio a herdar

o titulo de conde de Avranches, confirmado em França por Luiz XI.

D. Catharina não teve pela memoria de D. Alvaro o respeito que era de

esperar, visto que não podia encontrar outro marido, que excedesse

em gloria o primeiro.

Casou outra vez. Casou, depois da morte do conde de Avranches, com D.

Martinho de Athayde, conde de Athouguia, seu primo co-irmão.

É triste recordar esta pagina de fragilidade feminina.

Mas a patria, essa, ficou eternamente viuva do grande cavalleiro.

* * * * *

De proposito deixei para o final d'esta carta um assumpto, vago e

confuso, que anda lendariamente relacionado com a vida de D. Alvaro Vaz

de Almada.

Os chronistas fazem d'este famoso capitão um dos _doze de Inglaterra_,

emparceirando-o alguns, n'esta cavalheiresca aventura, com seu pai.

Não póde ser mais completa a confusão de datas e de nomes, que obscurece

esta lenda em si mesma e na sua referencia á familia Almada.

Dêmos desde já um exemplo.

Ferdinand Denis, que com tanto cuidado estudava a historia de Portugal,

diz a respeito de Alvaro Vaz de Almada:

«Il faisait partie, dit-on, des douze preux qui allèrent venger

l'honneur outragé des dames anglaises; et Camoens l'a celebré en cette

occasion, en alterant toutefois son nom»[71].

Ora, no episodio _dos doze de Inglaterra_, Camões apenas nomeia um só,

que «Magriço se dizia». Onde o poeta falla do conde de Avranches é

no canto IV, quando descreve a batalha de Aljubarrota. E ahi é que lhe

troca o nome. Vejamos:

E da outra ála que a esta corresponde,

Antão Vasques de Almada[72] é capitão,

Que depois d'Abranches nobre conde,

Das gentes vai regendo a sestra mão.

Logo na rectaguarda não se esconde,

Das quinas e castellos o pendão,

Com Joanne rei forte em toda a parte,

Que escurecendo o preço vai de Marte.

Quem esteve em Aljubarrota não foi Alvaro Vaz de Almada, nem podia

estar, porque, sendo aproximadamente da mesma idade do infante D. Pedro,

não teria ainda nascido: mas foi seu pai, João Vaz de Almada,--ahi

armado cavalleiro.

Effectivamente, um cavalleiro, chamado Antão Vasques, de Almada

acrescentam alguns, commandava a ala esquerda do exercito com o gascão

Guilherme de Montferrant[73].

E este mesmo Antão Vasques, depois da batalha, cobriu os pés do Mestre

de Aviz com a bandeira real de Castella.

Não se póde confundir este cavalleiro com João Vaz de Almada, a quem,

antes de ser armado cavalleiro, não dariam o commando da ála esquerda do

exercito. Já sabemos que João Vaz foi armado ahi, em Aljubarrota, o que

prova que era muito novo então.

Assim, temos que Ferdinand Denis se equivocou dizendo que Camões altera

o nome do conde de Avranches quando descreve o episodio dos _doze

de Inglaterra_; e que Camões se enganou tambem dizendo que Antão Vasques

de Almada foi depois conde de Avranches.

Vamos agora á lenda dos _doze_.

Será acaso nos _Lusiadas_ que pela primeira vez apparece noticia d'esta

lenda?

Não é. A primeira edição do poema de Camões foi estampada em Lisboa no

anno de 1572. Em 1567 imprimia-se em Evora o _Palmeirim de Inglaterra_,

por Francisco de Moraes, e no capitulo CLXIII da segunda parte d'esta

obra, faz-se menção de um combate cavalheiresco, que envolve o fundo da

lenda dos _Doze_.

Mas o _Palmeirim de Inglaterra_ será uma obra original, uma traducção

fiel ou apenas uma imitação? Moraes, que acompanhou em 1540 a França o

embaixador portuguez, o segundo conde de Linhares, diz na dedicatoria á

infanta D. Maria que trasladára a sua chronica de outra de Albert

de Rennes, em Paris. Innocencio Francisco da Silva julga, porém, que

Francisco de Moraes não traduziu servilmente, antes introduziu cousas de

sua lavra.

No mesmo anno de 1567 imprimia-se em Coimbra o _Memorial das proezas da

segunda tavola redonda_, de Jorge Ferreira de Vasconcellos, e ahi, no

capitulo XLVII se lê: «Porque não se nega aos lusitanos, dês o tempo dos

romanos que fizeram memoria dos feitos heroicos, um abalisado e raro

grau de cavallaria. E em tempo d'elrei D. João de _Boa Memoria_ sabemos

que seus vassallos no cêrco de Guimarães se nomeavam por cavalleiros da

tavola redonda; e elle por rei Arthur. E de sua côrte mandou treze

cavalleiros portuguezes a Londres, que se desafiaram em campo cerrado

com outros tantos inglezes, nobres e esforçados, por respeito das damas

do duque de Alencastro».

Aqui nos apparece a lenda já apropriada a Portugal, com a só differença

de serem treze os cavalleiros em vez de doze.

O que se vê claramente do que fica exposto é que em 1567 a lenda a que

nos vimos referindo andava em moda em Portugal. E talvez por estar muito

viva a fama gloriosa do reinado cavalheiresco de D. João I, seria Jorge

Ferreira de Vasconcellos o primeiro que a localisou n'aquella época.

Alguns escriptores nossos, e entre elles o auctor dos _Retratos dos varões

e donas_, precisam a data da ida dos cavalleiros portuguezes a Inglaterra,

collocando-a no anno 1390. Com effeito, esta era a época mais propria, por

amor da verosimilhança, porque foi depois do casamento de D. João I com D.

Filippa de Lancaster na Sé do Porto (1387) que se estreitaram as relações

de Portugal com a Inglaterra[74], e foi depois da batalha de Aljubarrota

(1385) que o espirito cavalheiresco se accendeu entre nós. Mas Fernam

Lopes, a melhor auctoridade que podia fazer fé, não se refere ao caso.

Prosigamos. Mariz, nos _Dialogos da varia historia_, publicados em 1594,

referindo-se a uma relação antiga, _Chronica antigua hujus

temporis_, publíca uma narrativa do feito dos _Doze_, occorrido, segundo

elle, no reinado de D. João I. Cita, entre os _Doze_, apenas quatro,

mencionando o nome de _um que se chamava Alvaro de Almada_.

Faria e Sousa, commentando os _Lusiadas_, em 1639, tambem se refere a um

_papel antiguo_, em que _toscamente_ se historiava o episodio dos _Doze_.

Ora, o velho chronista francez João Froissart, que falleceu em 1410, falla

de uma ordem de cavallaria, a ordem da _Dama Branca_, que foi organisada

para defeza das damas ultrajadas, _plusieurs dames et damoiselles, veufves

et autres, estoyent oppressées d'aucuns puissants hommes_[75], e publíca o

texto das cartas de armas pelas quaes _treze_ cavalleiros francezes,

messire Charles d'Albret, messire Bouciquaut, marechal de França,

Bouciquaut, seu irmão, Francisco de Aubrecicourt, João de Lignères,

Chambrillac, Castelbayac, Gaucourt, Chasteaumorant, Betas, Bonnebaut,

Colleville e Torsay, se comprometteram a defender as damas no anno da graça

de 1399.

Em face do texto de Froissart, a prioridade seria dos portuguezes,

porque a sua ida a Inglaterra é collocada por uns no anno de 1390, e por

outros no de 1396. O duque de Lancaster, que para este feito

cavalleiresco teria pedido o auxilio de D. João I, falleceu em 1399.

Mas nós abstemo-nos de reivindicar a prioridade dos portuguezes e,

portanto, a filiação portugueza da lenda. Contentamo-nos com dizer

apenas que esta lenda se tinha generalisado na Europa, querendo cada

paiz aproprial-a a cavalleiros seus.

O catalogo completo dos _Doze_ portuguezes appareceu pela primeira vez

no opusculo de Ignacio Rodrigues Védouro, _Desafio dos Doze de

Inglaterra_, publicado em 1732[76].

Ora, segundo a tradição recolhida por Védouro, esses cavalleiros seriam:

Alvaro de Almada, o _Justador_; Alvaro Gonçalves Coutinho, o _Magriço_;

Alvaro Mendes Cerveira; Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de

Avranches; João Pereira Agostinho, Lopo Fernandes Pacheco, Luiz

Gonçalves Malafaia, Martim Lopes de Azevedo, Pedro Homem, Ruy Gomes da

Silva, Ruy Mendes Cerveira e Soeiro da Costa. Como supranumerarios, João

Fernandes Pacheco e Vasco Annes Côrte Real.

Este catalogo tem para nós muito pouco valor. Os nossos antigos

chronistas não se preoccupavam com a chronologia. Assim é, por exemplo,

que Luiz Goçalves Malafaia e Soeiro da Costa são incompativeis,

chronologicamente, com a época dos _Doze de Inglaterra_[77].

Além d'isto, a vaidade das familias mais illustres de Portugal não

deixaria de collaborar no catalogo, fazendo supprimir uns nomes para os

substituir pelos de representantes seus.

Quanto ao primeiro cavalleiro do catalogo de Védouro, Alvaro de Almada,

o _Justador_, não deixa de inspirar certa desconfiança a coincidencia de

existirem na mesma época dois homens do mesmo nome e do mesmo vulto

cavalheiresco.

Não será acaso Alvaro de Almada, o _Justador_, um desdobramento da

individualidade de Alvaro de Almada, o conde de Avranches, por

errada repetição de algum códice, nobiliario principalmente?

Talvez por descobrir este equivoco seria que José da Fonseca, na edição

dos _Lusiadas_, feita em Paris em 1846, substituiu Alvaro de Almada, o

designado _Justador_, por João Fernandes Pacheco, que no catalogo de

Védouro figura como primeiro supranumerario.

A ter-se como certa a ida dos _Doze_ cavalleiros portuguezes a

Inglaterra, o que não póde ter-se como certo, parece-me, é que Alvaro

Vaz de Almada fosse um d'esses cavalleiros.

Elle, que foi armado cavalleiro em Ceuta em 1415, e que pela primeira

vez estivera na Inglaterra em Janeiro d'esse anno, quando alli fôra

levantar as trezentas e cincoenta lanças, não poderia tomar parte n'um

torneio, que se teria realisado no fim do seculo anterior.

A sua inclusão na lenda dos _Doze_ explica-se, decerto, por ter

sido um dos mais famosos cavalleiros portuguezes do seu tempo.

Sobretudo, as suas viagens e a sua morte em Alfarrobeira, que tanta

impressão causou pelas circumstancias cavalheirescas que a revestiram,

despertariam, na imaginação popular, o sentimento do maravilhoso. D'aqui

talvez o associarem-n'o á lenda.

Mas Alvaro Vaz de Almada não precisa d'essa gloria, aliás duvidosa,

porque sobeja gloria lhe adveio dos seus brilhantes feitos e singulares

aventuras.

Na _Chronica_ de Monstrelet falla-se de um combate que, no anno de 1414,

houve em França entre tres cavalleiros portuguezes e tres gascões: sendo

o pretexto o amor das damas, comquanto o verdadeiro mobil fosse o odio

que existia entre os francezes e os inglezes, de que os portuguezes eram

então alliados.

Os portuguezes foram D. Alvares, D. João e D. Pedro Gonçalves[78]; e os

gascões François de Grignols, Archambaud de la Roque e Maurignon.

O combate ter-se-ia realisado em Saint-Ouen, na presença do rei: Os

portuguezes portaram-se com bravura, mas foram vencidos. Pudera! ou a

versão não fosse franceza...

Desculpe, meu caro snr. Lugan. O orgulho das nações chega a ser uma

cousa respeitavel.

Para fazer justiça ao valor dos seis campeões, foram passeiados, todos,

pelas ruas de Paris, em triumpho, ao som de trombetas e acclamações

enthusiasticas.

Ora estes tres nomes, mudado Alvares para Alvaro, correspondem

justamente aos dos tres cavalleiros da familia Almada: o pai e os

dous filhos.

E o appellido de Gonçalves poderá talvez explicar-se por confusão com o

do _Magriço_, que, como sabemos, se chamava Alvaro Gonçalves (Coutinho).

Vimos como Alvaro Vaz de Almada fôra com seu pai a Inglaterra levantar

armas para a guerra de Ceuta. Naturalmente tambem iria Pedro de Almada.

O pai estava na côrte de Henrique V em setembro de 1414, como consta do

_Quadro diplomatico_, e Alvaro ainda alli estava em Janeiro de 1415.

Um contemporaneo do Infante D. Henrique · 第 3 / 5 段