indicou-os pela primeira vez no _Catalogo dos manuscriptos portuguezes
existentes no muzeu de Londres_ (Lisboa, 1853), por esta fórma;
«N.º 6.298. _Fol. 316_--Noticia de D. Alvaro Vaz de Almada, conde de
Abranches, cavalleiro da Jarreteira.
«_Fol. 317_--Cópia de um documento passado sob o sêllo privado (_copy of
Privy Seal_) em que contém a eleição de D. Alvaro de Almada, como
cavalleiro da Jarreteira, e creando-o conde de Abranches em Normandia.
Datado de Westminster a 4 de agosto do 23.º anno do reinado de Henrique
VI, rei de Inglaterra; isto é, de 1445.
«_Fol. 319 verso_--Cópia de outro semelhante documento, concedendo ao
mesmo D. Alvaro de Almada, conde de Abranches, a somma annual de 100
marcos. Datado de Westminster a 9 de agosto do mesmo anno.
«_Fol. 320 a 321_--Cópia de outro semelhante documento, dando ao mesmo
D. Alvaro de Almada uma taça de ouro do valor de 40 marcos, a qual
continha 100 marcos em dinheiro. Datado de 13 de agosto do já referido
anno.
«Os quatro precedentes documentos estão collocados em seguida uns dos
outros».
Eis o que dizia o _Catalogo_. Tres annos depois, no _Panorama_, o snr.
Figanière publicava na integra os documentos, cuja traducção vamos dar
em seguida:
«Nos Archivos da Torre de Londres, rotulo de França, anno 23, maço 6,
pergaminho 2.º
«Henrique, por Graça de Deus Rei de Inglaterra, de França e Senhor da
Irlanda, aos Arcebispos, Bispos & saude.
«De grandes louvores devem ser cumulados, e com singular gloria
exaltados os que com ardente zelo se empenham em sacrificar o seu
tempo e até a propria vida á salvação da Patria; que se expõem aos
perigos para assegurar a tranquillidade publica, e que acima de todas as
cousas d'este mundo ambicionam fama illustre e nome immortal, e se dão
por felizes quando julgam poder com os seus serviços e lealdade promover
o publico bem. Oh benemerita classe de homens! sem os quaes não poderiam
gozar de segurança as cidades, as fortalezas, os reinos, os dominios, os
Principes da terra, nem mesmo a propria Terra. Oh muito illustres e
justos varões! sob cuja administração exemplar todas as virtudes se
avigoram e florecem, os máos são reprimidos e os criminosos castigados.
Ninguem ha, certamente, que com digno louvor possa celebrar por escripto
ou de palavra almas tão nobres. N'este numero se deve contar e celebrar
o insigne e preclaro varão, o bravo e glorioso militar, D. Alvaro de
Almada, que desde _tenra idade, apenas saido da infancia_, apaixonado de
gloria militar e ambicionando os premios dos valentes e a salvação
commum, com todo o esforço e zelo se applicou aos exercicios militares,
e logo que chegou á idade mais propria para a guerra, cresceu-lhe o
esforço com a idade, e em defeza do Estado se portou com tão superior
coragem que nada lhe parecia agradavel, digno de estima ou de apreço se
não se encaminhasse ao bem commum; e tal valor mostrou nos perigos da
guerra, e tal prudencia no remanso da paz, que com toda a justiça se
devem premios ao seu trabalho. Por estas razões considerando nós a
nobreza d'este varão, e as eminentes qualidades que, unidas a seus
feitos, lhes dão grande realce, e outrosim as gloriosas façanhas por
elle praticadas no _tempo do Christianissimo Rei de gloriosa memoria
nosso Antecessor, realçadas ainda pelas provas de amor, obediencia e
dedicação que a nós e nossos reinos elle tem dado_; o nomeamos
cavalleiro socio e irmão da ordem da Jarreteira por voto unanime d'esta
Ordem; e em testimunho de nossa Real Munificencia e das suas virtudes o
nomeamos e estabelecemos Conde de Avranches no nosso Ducado de
Normandia; e cingindo-lhe a espada o investimos n'este nome, dignidade e
titulo e com elle effectivamente o honramos. Queremos e mandamos por nós
e por nossos herdeiros que o dito nosso leal Dom Alvaro conserve
perpetuamente para si e seus herdeiros varões, seus descendentes havidos
em legitimo matrimonio, o nome e dignidade de Conde de Avranches. Foram
testimunhas os veneraveis Padres: I. arcebispo de Cantuaria; I.
arcebispo de Yorck; Thomaz, de Norwich; Will, de Sarum; I. Bathon e
Wellen, bispo de Gloucester, tio materno do nosso carissimo Duque
Humfredo; e os nossos carissimos parentes os duques João Exon, e
Humfredo Buck; e Wilhelmo, marquez de Suffolk; João, visconde de
Beaumont e seus amados e fieis soldados Radulpho Cromwell e Radulpho
Bottler, thesoureiros de Inglaterra, e o chanceller Mestre Adam Moleyns
e outros. Dado por nossa mão em Westminster a 4 de agosto. Por carta de
sello privado passada n'esta mesma data»[43].
«Nos Archivos da Torre de Londres, rotulo de França, anno 23.º, maço
6.º, pergaminho 2.º
«Eu El-Rei aos que esta virem & saude.
«Tomando em consideração a lealdade, intelligencia, circumspecção,
affecto, serviços e todas as mais cousas dignas de menção que _a nosso
amantissimo Pae de feliz memoria, e tambem a nós_ com singular desvelo
prestou o nosso leal D. Alvaro de Almada, Conde de Avranches, do
conselho do nosso Parente o muito excellente Principe e
poderosissimo Senhor Rei de Portugal, e capitão mór em todos os seus
reinos e dominios, e Alcaide mór da cidade de Lisboa, e querendo
outrosim que taes serviços não fiquem em esquecimento e sem
recompensa: por nosso motu proprio concedemos ao mesmo D. Alvaro em
quanto viver cem marcos de pensão annual, a receber do nosso Erario de
Inglaterra por mão do nosso thesoureiro e officiaes que então alli
servirem, e a vencer em porções eguaes pela Paschoa e pelo S. Miguel. Em
fé do que é. Testimunha R.»
«Westminster 9 de agosto»[44].
«Sello particular do Governo, 13 de agosto 23 H. 6.--Nós, tomando em
consideração os bons serviços, grande zelo, e bom amor que nosso fiel e bem
amado Alvaro de Almada, cavalleiro de Portugal, nos tem feito e prestado e
aos nossos muito nobres antepassados, o temos feito e creado ha pouco tempo
conde de Avranches, e além d'isso temos concedido ao dito Alvaro uma pensão
de 100 marcos por anno durante a sua vida. Nós vos ordenamos de lhe
entregar uma taça de ouro do valor de quarenta marcos[45] e a somma de cem
marcos contidos na dita taça»[46].
Estas mercês foram feitas por Henrique VI na sua dupla qualidade de rei
de Inglaterra e duque de Normandia em França. Insistimos n'este ponto
para combater o erro em que tantos escriptores nacionaes e estrangeiros
têm cahido, de suppor que Alvaro Vaz recebera do rei de Inglaterra a
ordem da Jarreteira, e do rei de França o condado de Avranches, que
estava incluido no antigo ducado de Normandia. O rei era um só. A este
respeito com inteira razão nota o snr. Oliveira Martins que nem se
concebe que, estando em guerra os dous reinos, o mesmo homem fosse feito
conde de Avranches pelo rei de França e cavalleiro da Jarreteira pelo
rei de Inglaterra[47].
Em 1447, o joven rei D. Affonso V pede a seu tio o infante D. Pedro
que lhe entregue as redeas do governo, o que immediatamente consegue.
É então que principia a agitar-se em torno do infante ex-regente a
intriga atiçada pelo duque de Bragança.
Os conselheiros de D. Affonso V diziam-lhe, segundo conta Pina, que «por
segurança não sómente de sua vida, mas da justiça e fazenda tirasse,
como logo tirou, todos os officios, que os criados de seu tio na
côrte tinham de qualquer qualidade que fossem, pondo suspeições e
testimunhos falsos, a uns que erravam na justiça, e a outros que
roubavam a fazenda, e a outros que dariam peçonha a el-rei, segundo a
cada um em seus officios podia tocar, e para parecer que o queriam
provar, não falleciam logo pessoas induzidas, que com medo de pena, ou
com esperança de galardão, que lhe promettiam, na sua vontade o
testimunhavam»[48].
O que é certo é que, apesar de todas estas machinações dos inimigos do
infante D. Pedro, o joven rei Affonso não se mostrou severo, nem mesmo
reservado, com D. Alvaro Vaz de Almada quando elle recolheu a Lisboa.
É que, como logo veremos pelas palavras do infante D. Pedro, Alvaro Vaz
tinha augmentado a sua gloria militar, praticando _em Ceuta_ novos e
brilhantes feitos de armas.
N'este lance da narrativa, precisamos recorrer mais uma vez ao
testimunho de Ruy de Pina, transcrevendo um capitulo da sua _Chronica_:
«_A este tempo chegou tambem a Lisboa, que vinha de Ceuta_, o conde
d'Abranches, que sobre todos era grande servidor e muito amigo do
infante D. Pedro, e publico imigo do conde d'Ourem, e em sua chegada não
foi então d'el-rei e de sua côrte assim agasalhado e honrado, como seus
serviços presentes e merecimentos passados requeriam. Porém o conde
assim como era de nobre sangue, assim não fallecia n'elle uma graciosa
soltura de dizer, com mui esforçado coração e singular agradecimento,
com que ante el-rei e os de sua côrte, no publico e no secreto defendia
muito a honra e estado do infante D. Pedro, com claro exemplo e
vivas razões de sua mui louvada lealdade, afeando muito com grande
audacia os movimentos e maldades, que seus imigos tão sem causa contra
elle moviam. E como quer que el-rei fosse induzido, que não ouvisse o
conde e o mandasse ir fóra de sua côrte, pondo-lhe que em todas as
culpas do infante elle era muito culpado, porém porque el-rei era de
alto coração, accêso no ardor de actos cavalleirosos, suspirando para
grandes empresas, folgava muito de o ouvir, e começava dar-lhe de si
muita parte e acolhimento, especialmente porque o infante D. Henrique
ante el-rei muitas vezes por cousas muito assignaladas em que o vira,
dizia por elle, que não sómente Portugal, mas Hespanha toda se devia de
haver por honrada crear tal cavalleiro. E porque os imigos do infante
viram, que a vontade d'el-rei ácerca do conde não terçava por elles
como desejavam, lançaram-lhe amigos d'elle lançadiços, e pessoas de
credito que com resguardo de grande segredo o aconselhassem, que se
fosse fóra da côrte, e não entrasse em um conselho publico que se então
fazia, avisando-o manhosamente que n'elle por cousas do infante D. Pedro
o haviam de prender. Mas o conde com a cara cheia d'essa forçada
segurança, lhe disse--_Amigos, certamente pelos muitos e grandes
serviços que tenho feitos a esta casa de Portugal, eu lhe mereço mais
villas e castellos com que me acrecente, que prisões nem cadêas em que
sem causa me ponha, e por tanto com todo o que me dizeis, sabei que não
hei de fugir do conselho e serviço d'el-rei nosso senhor, pois leal e
verdadeiramente sempre o segui. E porém se tal cousa, e por tal causa se
move contra mim, sabei certo que em defender minha honra, e limpeza
d'aquelle senhor, eu me mostrarei hoje digno de ser confrade da
santa Garrotea que recebi, e espero em Deus que sem ociosidade de minhas
mãos, os que me quizerem visitar antes seja na sepultura, que nos
carceres nem cadêas, e por isso não hajaes dó nem compaixão de minha
vida porque minha morte honrada a fará com louvor viver mui viva, e
muito mais honrada nas memorias dos homens para sempre._ Pelo qual o
conde depois de com esta determinação despedir estes manhosos e dobrados
conselheiros; porque a hora do conselho se chegava, a que determinou ir,
se vestiu de pannos finos mui bem e muito melhor d'armas secretas, com
que entrou no paço, onde seus imigos, vendo a segurança de sua pessoa,
foram claramente certificados do esforço e bondade de seu coração. E
estando el-rei na casa do conselho, onde eram muitos senhores presentes
e os principaes imigos do infante, o conde e com cara que mais parecia
que ameaçava que temia, lhe tocou em sua prisão que lhe fora
revelada, e assim lhe fallou com muito repouso e grande auctoridade nas
cousas do infante e suas, approvando sua bondade e lealdade por termos,
e com razões a todos tão manifestas, que se não podiam contrariar;
concluindo, que quaesquer pessoas de qualquer estado e condição que
fossem, que do contrario tinham informado a El-Rei, eram com reverencia
e acatamento de sua real pessoa, a Deus e a elle e ao mundo máus e
traidores, e que com licença e consentimento de sua senhoria os
combateria por armas, _e em campo a tres d'elles os melhores
juntamente_[49]. A resposta d'el-rei para o conde foi então
graciosa e branda, e com mostrança que lhe pesara de o ouvir, que para o
mau fundamento dos que tratavam a morte do infante, foram mui tristes
signaes, e por arredarem el-rei do infante D. Henrique e do conde,
que começavam ser causa, que de todo impedia seu damnado proposito, o
levaram a Cintra aforrado».
Este ultimo periodo de Ruy de Pina tem sido interpretado por alguns
escriptores com manifesta confusão. Suppõem elles que Alvaro Vaz é que foi
levado para Cintra, e não o rei. Eu entendo o contrario. Em Major a
redacção póde suscitar duvidas; diz o erudito inglez: «Apesar da frieza,
que lhe mostraram (ao conde de Avranches) por sua amizade a D. Pedro, foi
sempre seu caloroso e perseverante defensor, e tal poder tinha sua
influencia, que os maus conselheiros de elrei julgaram conveniente fazel-o
retirar para Cintra»[50]. Soares da Sylva, deixando-se arrastar pelo
equivoco, escreve: «N'este mesmo tempo veio á Côrte o Conde de Abranches D.
Alvaro Vaz de Almada, que até alli estava _em Cintra_[51].
Ora, em face do texto de Pina, vê-se que Alvaro Vaz veio de _Ceuta_, e
que os cortezãos, para subtrairem D. Affonso V á influencia do conde,
levaram o rei _aforrado_ para Cintra.
D. Antonio de Lima, no _Nobiliario_, diz que Alvaro Vaz de Almada armou
tres navios contra os genovezes que andavam no Estreito, que lhes tomou
uma carraca, e praticou outros feitos valorosos. Não diz, porém, em que
época isto succedeu. Mas poderá talvez presumir-se que fosse n'esta
segunda ida a Ceuta, e que sejam estes os feitos a que o infante D.
Pedro se refere.
Os genovezes tinham n'aquelle tempo uma poderosa marinha, e póde bem ser
que affluissem ao estreito de Gibraltar com a mira em Ceuta, chegando a
fazer uma investida, que Alvaro Vaz teria repellido victoriosamente.
Os nossos chronistas guardam silencio sobre o assumpto. Mas não custa a
acreditar que o motivo que levou novamente a Ceuta Alvaro Vaz fosse a
ameaça dos genovezes, contra os quaes elle acudiria com tres navios
armados á sua custa.
Sendo assim, ficaria explicado o facto de ter abandonado temporariamente
o governo do castello de Lisboa, como explicadas ficariam tambem uma
phrase do infante D. Pedro e a admiração que o joven rei manifestou mais
uma vez pelo insigne capitão, a ponto dos cortezãos julgarem conveniente
retirar D. Affonso V para Cintra, para evitar a repetição de
entrevistas que davam vantagem ao conde de Avranches.
Acaso governaria já Affonso V quando o conde partiu para Ceuta? Parece
que não. Se esta viagem tivesse sido um meio de o tirar de ao pé do
infante D. Pedro, se tivesse sido «um castigo», como explicar que o rei
lhe conservasse o castello de Lisboa, que só lhe retirou quando D.
Alvaro Vaz voltou de Ceuta? E como explicar igualmente que recebesse o
_Capitão_ com tanto agrado?
Parece mais verosimil e provavel que Alvaro Vaz partisse para Ceuta
durante a regencia e por indicação do infante, em razão talvez do perigo
que offereciam alli os genovezes.
Por fim, como era natural que acontecesse, dada a idade impressionavel
de Affonso V e a insistencia dos inimigos do infante, o joven rei acabou
por ceder e tirar a D. Alvaro o governo do castello de Lisboa[52].
Durante a regencia, o infante D. Pedro não só havia conservado ao
_Capitão_ o cargo de alcaide-mór, mas tambem lhe fizera importantes
doações, como se póde vêr por documento existente no Archivo
National[53].
O infante magoou-se profundamente com o acto pelo qual seu sobrinho
tirára o governo do castello de Lisboa a D. Alvaro: não só o feriam
directa e pessoalmente, imputando-lhe crimes atrozes, mas tambem na
pessoa do seu mais dilecto amigo o queriam ferir.
Na celebre carta que o infante dirigiu de Coimbra, em 30 de
dezembro de 1448, ao conde de Arrayolos, que de Ceuta viera
expressamente para defendel-o, dizia D. Pedro:
«... por me fazerem deshonra tiraram o castello de Lisboa ao conde
d'Avranches, o qual se tinha feito serviços a estes Reynos e aos Reys
delles por que lhe esto devesse de ser feito vós sabees; deram-lhe
por elles _e em especial pollo que agora fez em Ceita_, ho gallardam que
dam a mim de meus serviços e trabalhos».
Este periodo da celebre carta mostra não só o profundo resentimento do
infante D. Pedro, mas tambem que D. Alvaro _viera de Ceuta_, onde
praticára novos e gloriosos feitos.
Não podemos precisar o anno em que o conde esteve pela segunda vez em
Ceuta. Mas, pelo dizer o infante, sabemos que no fim de 1448 já tinha
regressado, e por outra noticia sabemos tambem que em 1446 estava em
Lisboa.
Certamente n'este ultimo anno[54] veiu a Portugal Jacques de
Lalain, famoso cavalleiro da côrte do duque de Borgonha. Foi
recebido pelo joven rei Affonso V e pelo regente D. Pedro com grandes
honras e festas. Quando De Lalain se aproximava da cidade de Evora,
sahiram a recebel-o, em nome do rei, Alvaro Vaz de Almada e outros
senhores e cavalleiros portuguezes[55].
Não houve justas nem torneios, porque a De Lalain foi dito, em nome do
rei, que elle não podia consentir que nenhum cavalleiro portuguez
fizesse armas contra outro da casa de Borgonha, a que estava ligado por
estreitos laços de parentesco e affecto.
Perdeu-se assim uma excellente occasião de vêr o conde de Avranches
justar, em Portugal, com um cavalleiro estrangeiro dos mais
afamados, porque Alvaro Vaz de Almada não teria certamente prescindido
d'essa honra e gloria.
Vamos agora caminhando rapidamente para Alfarrobeira.
Depois de fallar ao rei, Alvaro Vaz correu ancioso a abraçar o infante
D. Pedro, que estava em Coimbra, nas suas terras.
O infante D. Henrique acampanhou-o.
Houve então alli um como conselho de familia para se deliberar sobre o
que cumpria fazer. O momento era angustioso; a resolução difficil. A
reunião do conselho repetiu-se quando se soube que o duque de Bragança
tinha sido chamado á côrte.
Alvaro Vaz de Almada opinou que a todo o custo o infante devia impedir a
passagem ao duque[56].
Este parecer foi acceito.
Para o executar, D. Pedro moveu a sua gente, que de Penella seguiu para
a Louzã, e da Louzã para a aldeia de Villarinho, sendo a vanguarda
confiada a D. Jayme, filho do ex-regente, e a D. Alvaro Vaz de Almada. O
proprio D. Pedro commandava a rectaguarda.
Quando chegaram ao logar de Serpiz, soube o infante que o duque de
Bragança estava apenas a meia legua de distancia.
Logo que isto constou a D. Alvaro, não lhe soffreu o animo mais
delongas. Sem dizer nada ao infante, metteu esporas ao cavallo, e foi
vêr o arraial do duque. Quando voltou, vinha radiante; mas D. Pedro
acolheu-o com tristeza, pesaroso de que elle o não tivesse consultado
primeiro.
Perguntou-lhe o infante o que tinha visto.
D. Alvaro respondeu com decisão:
--Senhor, venho de vêr vossos inimigos, de quem prazendo a Deus, e
ao bemaventurado S. Jorge, vos eu darei hoje se quizerdes mui boa
vingança, e peço-vos por mercê que a não dilateis para mais, e ahi logo
dar n'elles; porque na desordem e tristeza em que estão, dão já certos
signaes de serem cortados com medo e meio desbaratados, e não percaes
tão bom dia; porque já em vossa vida nunca havereis outro tal, e não
alongueis a vida a quem se lh'a hoje dais, sabei que a encurtára mui
cedo a vós, tendo por certo que o duque na maneira em que se repaira e
afortallesa não quer vir ávante, e ou se tornará para traz como veio, ou
escondido se salvará por outro caminho»[57].
O infante D. Pedro, querendo certamente adiar o derramamento de sangue,
não acceitou o conselho, nem acreditou a prophecia.
Mas D. Alvaro fôra n'essa occasião um vidente.
O duque de Bragança conseguiu atravessar furtivamente a serra da
Estrella, escapando-se d'este modo ás mãos do infante, e seguindo
jornada para Lisboa.
D. Pedro e os seus tornaram para Coimbra.
Ahi foi surprehender o infante uma carta de sua filha, a rainha.
Dizia-lhe ella que no dia 5 de maio (estava-se em 1449) D. Affonso V o
iria cercar, e que, se elle infante fosse vencido, seria morto,
encarcerado ou desterrado.
D. Pedro mostrou-se alegre e tranquillo perante o mensageiro, mas ficou
profundamente abatido.
Reuniu o conselho dos seus amigos. As opiniões dividiram-se. D. Alvaro,
sem fazer a menor allusão á boa occasião que o infante havia
perdido, disse com inabalavel firmeza:
--Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado.
Desenvolvendo esta these, aconselhou que, vestindo todos as suas armas,
fossem caminho de Santarem, onde a côrte estava, para que o infante
mandasse pedir a el-rei que ou lhe permittisse defender-se na presença
de seus inimigos ou haver pelas armas satisfação das injurias que
propalavam, e que se el-rei nenhuma d'estas concessões quizesse fazer, e
sobre elles viesse, que se defendessem no campo como bons e esforçados
cavalleiros[58].
_Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado_: estas
heroicas palavras calaram no animo, até ahi indeciso, do infante D.
Pedro.
Conheceu que a razão e a honra estavam do lado de D. Alvaro.
Acceitou-lhe o conselho. As duas almas entendiam-se, completavam-se.
Tinha chegado o momento decisivo: só restava apparelhar para elle.
_Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado._ Tal era
o dilemma. A voz da cavallaria portugueza fallára pela bocca de D. Alvaro.
Preparou-se o infante D. Pedro para a sorte das armas, qualquer que ella
fosse.
Ruy de Pina, que segue os moldes de Tito Livio, pondo longos discursos
na bocca dos personagens historicos, descreve d'este modo a scena
intima, que se déra entre D. Pedro e D. Alvaro:
«E passados alguns dias depois estes conselhos, o infante não se
esfriando em seu proposito, apartou só em uma camara o conde
d'Abranches, e lhe disse--_conde, sabe que eu sinto já minha alma
aborrecida de viver n'este corpo, como desejosa de se sair de suas
paixões e tristezas, e considerados os seus combates que minha vida,
honra, e estado cada dia recebem, com esperança de não minguarem, mas
cada vez crescerem mais, certo se as cousas n'esta viagem me não
succedem como eu desejo, e seria razão, eu todavia determino morrer e
acabar inteiro, e não em pedaços, e como quer que tenho outros bons
criados e servidores, que por suas bondades folgariam e não se
escusariam de morrer comigo, porém em vós sobre todos tomei esta
confiança, assim pela irmandade que comigo merecestes ter, na santa e
honrada ordem da Garrotea em que somos confrades, e como por creação que
vos fiz, e principalmente pela certidão que de vossa bondade e esforço
tenho muito ha conhecido, e por tanto quero saber de vós, se no dia que
d'este mundo me partir, querereis tambem ser meu companheiro, e com isso
lembre-vos para satisfazerdes aos primores de vossa honra, que
sendo vós tão conhecidamente meu criado e servidor, e tão publico imigo
do conde d'Ourem e arcebispo de Lisboa, depois de minha morte não podeis
ter vida, salvo reservada para com mãos d'algozes a perderdes em lugares
vis, e com pregões deshonrados. Senhor,_ respondeu o conde, _para caso
de tamanho contentamento, como foi sempre e é para mim viver e morrer
por vosso serviço, muitas palavras nem os encarecimentos não são
necessarios, eu vos tenho muito em mercê escolherdes-me para tal
serviço, e eu sou muito contente ter-vos essa companhia na morte, assim
como vol-a tive na vida, e se Deos ordenar que deste mundo vossa alma se
parta, sede certo que a minha seguirá logo a vossa, e se as almas no
outro mundo podem receber serviço umas das outras, a minha n'esse dia
irá acompanhar e servir para sempre a vossa_».
Ferdinand Denis torna esta scena mais rapida, e por isso mesmo
talvez mais verdadeira.
O infante teria perguntado a D. Alvaro, com uma simplicidade e rudeza
proprias do caracter de ambos, se estava disposto a morrer por sua causa.
D. Alvaro responderia com laconica firmeza:
--Acaso não sou eu vosso irmão de armas?
Esta concisa resposta vale bem, segundo as ideias d'aquelle tempo, o
discurso de Ruy de Pina.
Foi avisado um sacerdote, homem abalisado, o doutor Alvaro Affonso, para
comparecer na egreja de S. Thiago.
Por mão d'este sacerdote commungaram o infante e D. Alvaro, jurando
ambos, sobre a hostia consagrada, que juntos triumphariam ou morreriam.