«Mas o infante D. Henrique, vendo que o commettimento por aq

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UM CONTEMPORANEO

DO

INFANTE D. HENRIQUE

Carta a MR. MATHIEU LUGAN

POR

ALBERTO PIMENTEL

PORTO

_Livraria Internacional de Ernesto Chardron_

CASA EDITORA

M. LUGAN, Successor

1894

Todos os direitos reservados

UM CONTEMPORANEO

DO

INFANTE D. HENRIQUE

PORTO: TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA

Rua da Cancella Velha, 70

UM CONTEMPORANEO

DO

INFANTE D. HENRIQUE

Carta a MR. MATHIEU LUGAN

POR

ALBERTO PIMENTEL

PORTO

_Livraria Internacional de Ernesto Chardron_

CASA EDITORA

M. LUGAN, Successor

1894

Todos os direitos reservados

L'histoire d'Alvaro Vaz de Almada est généralement peu connue hors

du Portugal; et en Portugal même la biographie de ce grand homme est

environnée de details contradictoires.

FERDINAND DENIS--_Portugal_, pag. 85.

Meu prezado amigo:

Vivendo entre portuguezes ha muitos annos, quer v. corresponder á estima

e consideração que d'elles tem justamente recebido, associando-se, como

editor de obras litterarias, á commemoração solemne com que a cidade do

Porto vai celebrar o quinto centenario do nascimento do infante D.

Henrique, o Descobridor.

É nobre a acção, que v. se propõe praticar. E, procedendo assim, segue o

exemplo de muitos estrangeiros, a quem Portugal deve gratidão pelo

interesse que tem tornado em evidenciar á luz da verdade e da gloria os

feitos d'este pequeno povo, que tamanhos serviços prestou no seculo XV á

sciencia e ao commercio, á humanidade e á civilisação, especialmente no

momento historico em que o infante D. Henrique apparece em scena para

emprehender e estimular os descobrimentos maritimos.

Entre esses estrangeiros a quem devemos ser gratos, avulta, certamente,

um compatriota de v., o illustre Ferdinand Denis, que tanto amou, com

especial dedicação, o passado de Portugal nas suas gloriosas tradições e

nos seus triumphos por mar e por terra, na guerra ou na paz.

Estamos, pois, habituados á sympathia de estrangeiros, e não é, por

isso, de estranhar a deliberação de v. Mas é para agradecer e louvar.

Acceitando a missão de auxiliar o nobre alvitre de v., e achando-me

collocado em frente do periodo mais brilhante da historia de Portugal,

que o infante D. Henrique personifica, lembrei-me de que o assumpto,

comquanto vasto, ha de ser amplamente tratado por muitos escriptores

portuguezes, que mais ou menos se encontrarão n'um ponto de partida

commum: a vida do infante, e a sua influencia na successão dos nossos

descobrimentos maritimos.

Assim, pois, pensei que, sendo já conhecida, nas suas linhas geraes, a

biographia do infante, eu poderia, sem atraiçoar a intenção de v., tomar

outro rumo, estudando, dentro dos estreitos limites de uma carta, a

feição proeminente de uma época, de que D. Henrique foi a culminação,

mas que se assignalou pelo concurso de um grupo de homens colossalmente

prestigiosos.

Como na vida de todos os heroes, ha manchas, claro-escuro na vida do

infante Descobridor. Encarado em si mesmo o homem, teve defeitos,

commetteu erros, mas não é esta a hora propria para os relembrar. O

principe exerceu, e este é o ponto essencial e capital, uma acção

benefica na historia da humanidade, e marca o periodo que, elevando

Portugal, aproveitou ao mundo todo.

Mas, quanto á época, é justo, sem nunca perder de vista o infante,

procurar medir a estatura dos portuguezes do seculo XV, que com elle

collaboraram, nas viagens ou nas campanhas, e que constituem os

elementos de caracterisação do espirito arrojado, leal, cavalheiresco,

épico, dos inexcediveis heroes d'esse tempo.

A alma portugueza era então um mixto de poesia e valor, sobretudo de

poesia no valor. Feita de bronze, não conhecia perigos, difficuldades,

resistencias. O infante, estimulando a coragem para as emprezas

maritimas, era a expressão do sentir de heroes, que avançavam sempre,

contra o _Mar Tenebroso_, contra os moiros, os inimigos exteriores, ou

contra as agitações da politica interna, sem medirem os percalços do

commettimento.

A pureza dos costumes, nos homens e nas mulheres, dava um como perfume

de santidade impeccavel ás ideas e aos sentimentos da época. A religião

era mais alguma coisa do que o culto de Deus nos templos: era a lei por

onde cada um regia as suas palavras e acções, os seus pensamentos e

feitos, nas suas relações com Deus ou com os homens.

O fanatismo religioso levava a vêr inimigos n'aquelles que, não

commungando na mesma religião, não poderiam attingir o gráo de perfeição

moral em que todas as crenças se purificavam. Era um preconceito do

tempo, eram as idéas da época. Mas ha n'esse sentir, que hoje se nos

afigura barbaro, uma noção mal comprehendida, posto que sincera, de que

o catholicismo era a unica expressão possivel da civilisação dos costumes.

Alongados os descobrimentos maritimos pela costa occidental da Africa,

iniciado, com chave de oiro, o periodo dos factos gloriosos, que nos

deram farta participação nos progressos da civilisação universal,

fechava-se, simultaneamente, a porta do espirito cavalheiresco que

dominára o coração dos portuguezes da idade-média.

Depois d'isso fomos guerreiros, mas não eramos já cavalleiros. Fomos

ainda conquistadores, mas não eramos já impulsionados por um mobil limpo

de ambições mesquinhas.

O joven rei D. Sebastião, voltando da sua primeira jornada a Africa,

quiz desembarcar no cabo de S. Vicente, por uma noite de lua, e alli se

demorou nove ou dez dias, como elle proprio contou, meditando

ambiciosamente na grandeza de uma época, que dos rochedos do Algarve,

como uma águia, havia no tempo de D. Henrique arrancado vôo para ir

assombrar o mundo inteiro.

Tinha pena o joven e valoroso rei de não ser d'essa época. E com razão.

Mas Portugal havia começado a descer: Alcacerquibir, o abysmo cavado

pelas mãos do imprudente monarcha, breve se transformaria na sepultura

de um seculo de gloria.

Não trarei, meu amigo, novos subsidios á biographia do infante

Descobridor, de quem tantas pennas illustres se irão por certo occupar;

mas procurarei desenhar, na vasta tela da sua época famosa, o vulto de

um homem, que é um elemento importantissimo de caracterisação e de

synthese, de um homem sem o qual essa enorme e brilhante conjugação de

heroes, apostados em glorificar o nome da patria, ficaria incompleta.

Refiro-me a Alvaro Vaz de Almada, que foi contemporaneo do infante D.

Henrique, e que bem se póde chamar o ultimo cavalleiro portuguez.

Herculano escreveu d'elle no _Panorama_: «D. Alvaro, caindo morto, era o

symbolo da cavallaria expirando».

O proprio infante D. Henrique dizia de Alvaro Vaz de Almada que não

sómente Portugal, mas tambem toda a Hespanha, podiam ter grande gloria

de crear tão famoso cavalleiro.

E o rei Affonso de Napoles e seu irmão o infante D. Henrique de Aragão

diziam que tinham encontrado em Portugal _bom pão e bom capitão_. _Bom

capitão_: Alvaro Vaz.

Tal era o homem.

* * * * *

Resumirei, quanto me fôr possivel, o quadro genealogico de Alvaro Vaz de

Almada.

D. Sueiro Viegas Coelho, fidalgo de velha estirpe, teve dois irmãos e

uma irmã. D'elles, o mais velho foi frade; o outro, Gonçalo Magro,

continuou-se n'um filho bastardo, Lourenço Gonçalves, que casou com D.

Thereza Godins.

D'este casamento houve dois filhos, um dos quaes, Vasco Lourenço, teve

por successor João Annes de Almada, que foi chamado o _Grande_, e foi

védor da fazenda d'el-rei D. Pedro e d'el-rei D. Fernando.

É com este cavalleiro, que por seu bom conselho, reflectida experiencia,

alta posição politica e apparatosa apresentação[1] mereceu o cognome de

_Grande_, que principia, na sua familia, o appellido de _Almada_, pelo

facto d'elle ser natural d'aquella villa.

Diz D. Antonio de Lima, no _Nobiliario_, que João Annes fôra por duas

vezes enviado ao estrangeiro como embaixador, e que por lembrança sua

mandára o rei D. Fernando começar a cêrca nova de Lisboa[2].

Ferdinand Denis tambem se refere a este facto[3].

Casado com D. Urraca Moniz, deixou um filho, Vasco Lourenço de Almada,

que foi o instituidor do morgado da sua familia na villa do mesmo nome,

e que morava em Lisboa nos seus paços de Valverde[4], junto

ao Rocio.

Este Vasco Lourenço teve um filho e uma filha.

O filho, João Vaz de Almada, casou com D. Joanna Annes, de quem houve

uma filha, e dois filhos: Pedro Vaz de Almada, primogenito; Alvaro Vaz

de Almada, que por morte do irmão herdou o morgado instituido pelo

avô[5].

Merece chronica a vida de João Vaz de Almada, pai de Alvaro Vaz.

Foi feito cavalleiro por D. João I depois da batalha de Aljubarrota[6].

Em 1400 enviou-o D. João I a Castella, com o arcebispo de Lisboa e o

doutor Martim Docem para negociar um tratado de paz ou treguas, e em

1404 a Inglaterra, tambem com Martim Docem, para tratar do casamento de

D. Beatriz, filha natural do rei, e irmã do duque de Bragança, com o

conde de Arundel e de Surry[7].

Mais tarde, quando D. João I se apercebia para a conquista de Ceuta,

enviou João Vaz de Almada outra vez a Inglaterra para levantar

quatrocentas lanças ao serviço de Portugal.

Parece que João Vaz levou comsigo seu filho Alvaro, porquanto ha

noticia de uma carta de Henrique V, rei de Inglaterra, ás auctoridades

do porto de Londres, ordenando-lhes que deixem sahir livremente os

homens de armas e trezentas e cincoenta lanças que Alvaro Vaz havia

contratado para o rei de Portugal[8].

Não foram estes os unicos auxilios que D. João I mandou buscar a

Inglaterra com o mesmo fim. Tambem Pedro Lobato trouxe d'aquelle paiz

trezentas lanças «para o muito poderoso principe o infante D. Henrique,

filho do dito seu tio--diz Henrique V n'uma carta aos seus

almirantes,--_a fim de fazer a guerra aos incredulos e aos inimigos da

fé catholica_[9].

Pormenor interessante: Este mesmo Pedro Lobato trouxe n'essa occasião

uma armadura completa para o infante D. Henrique.

Vieram ainda mais sessenta lanças, com os respectivos cavallos e

armaduras, a bordo de dois navios portuguezes, de que eram mestres João

Affonso e Egydio João.

João Vaz de Almada acompanhou D. João I na viagem a Ceuta.

Conta Fernam Lopes que, tendo alguem visto um grande bando de pardaes

sobre o castello d'aquella cidade, dissera:

--Não vêdes como aquelles pardaes alli estão assocegados? Que me matem

se Salat-bem-Salat com todos os outros não é partido d'alli, e deixou o

castello vazio, cá se assi não fosse, não estariam alli aquelles pardaes

assi de assocego.

Foram dizer isto ao rei D. João, que respondeu:

--Pois que assi é, vão chamar João Vaz de Almada[10],

que traz a bandeira de S. Vicente, e digam-lhe de minha parte que a vá

logo poer sobre a mais alta torre.

Chamado immediatamente João Vaz, foi, com alguns outros, caminho do

castello, levando o estandarte de S. Vicente, padroeiro de Lisboa.

Tentavam forçar as portas da fortaleza, quando sobre o muro appareceram

dois homens, um biscainho e o outro genovez, que lhes disseram em

castelhano:

--Não filheis trabalho em quebrar as portas, cá não tendes nenhum

empacho em vossa entrada, cá os mouros são já partidos todos d'aqui e

sómente ficamos nós ambos que vos abriremos as portas quando quizerdes.

--Ora pois, respondeu João Vaz de Almada, filhai lá esta bandeira e

ponde-a sobre esse muro, até que nos vamos.

Este mesmo episodio é contado por mestre Matheus de Pisano[11],

estrangeiro erudito, que foi chamado a Lisboa para escrever

em latim a historia da guerra de Ceuta, como quer Herculano[12],

ou para ser professor de D. Affonso V.

João Vaz de Almada levou a Ceuta os seus dois filhos, Pedro e Alvaro,

que, depois da victoria, ahi foram armados cavalleiros: Pedro pela mão

do infante D. Duarte, herdeiro da corôa[13]; e Alvaro por

mão do infante D. Pedro.

Foi certamente n'esse dia que principiaram a estabelecer-se entre D.

Alvaro Vaz de Almada e o infante D. Pedro, como consequencia tradicional

d'essa cerimonia, os laços de lealissima amizade, que os uniu durante

toda a existencia, e que não deixou sobreviver um ao outro mais do

que alguns momentos.

D. João I deu a capitania e guarda da fortaleza de Ceuta a João Vaz de

Almada, que a teve até á partida d'el-rei para o reino, ficando depois a

cidade entregue a D. Pedro de Menezes, que foi o primeiro capitão d'ella.

Recolhendo a Portugal, João Vaz de Almada, malquistado, por motivos

desconhecidos, com Gonçalo Pires Malafaia, esperou-o ás portas da

Relação e maltratou-o corporalmente[14].

Malafaia, que já tinha sido escrivão da chancellaria de el-rei D.

Fernando, seguiu, por morte d'este rei, a causa do mestre de Aviz,

exercendo depois, e em annos successivos, os cargos de védor da

fazenda real, e o de regedor (presidente) da Casa do Civel, além de

receber por doação as propriedades confiscadas, no termo de Lisboa e

Santarem, a João Fernandes Pacheco e a Fernam Gomes da Silva.

Como Malafaia foi nomeado regedor do Civel em 1457, mais de vinte annos

depois da morte de D. João I, entende um escriptor moderno ser

inverosimil a noticia d'aquelle conflicto como causa determinante da

emigração de João Vaz de Almada, por isso que os codices dão Malafaia

como exercendo o referido cargo n'essa occasião[15].

O facto dos chronistas lhe declararem a qualidade de regedor do Civel

não invalida, a meu vêr, a noticia do conflicto, porque muitas vezes os

escriptores antigos, referindo-se a um acontecimento qualquer,

intromettem circumstancias que se deram antes ou depois, especialmente

quando mencionam titulos ou actos de um mesmo individuo.

O conflicto causou escandalo e irritou D. João I, que, collocado entre

dois homens a quem devia serviços e dedicações, cortou a direito, quiz

fazer justiça contra o aggressor.

João Vaz de Almada teve de fugir para Inglaterra, onde já era conhecido;

e levou comsigo os seus dois filhos, Pedro e Alvaro.

Fosse esta ou outra qualquer a causa determinate da sahida do fidalgo

portuguez e seus dois filhos legitimos para Inglaterra (o auctor da

_Historia Serafica_ limita-se a dizer: «os quaes ausentando-se do reino

por razões, que para isso tiveram», parecendo comtudo querer occultar

assim um motivo desagradavel), o que não padece duvida é que João

Vaz de Almada emigrou para aquelle paiz, d'onde, tendo fallecido, vieram

mais tarde os seus restos mortaes, bem como os de seu filho Pedro, para

a capella de familia, que possuiam em S. Francisco de Lisboa[16].

Duarte Nunes de Leão diz que João Vaz de Almada acompanhára o rei de

Inglaterra, que devia ser Henrique VI, até Rouen. Sendo assim,

assistiria ao sacrificio de Joanna d'Arc (30 de maio de 1431). E que

fôra agraciado com a ordem da Jarreteira__[17].

Pela minha parte não ouso confirmar estas noticias, mas apenas acceitar,

como authentica, a morte de João Vaz de Almada em Inglaterra.

* * * * *

Fallemos agora de Alvaro Vaz de Almada, o _bom capitão_, o heroe famoso

de um cyclo de heroes, que deu honra e gloria a Portugal.

O snr. Oliveira Martins figura Alvaro Vaz acompanhando o seu dilecto

amigo o infante D. Pedro de Alfarrobeira logo ao principio da sua

celebre viagem, logo que, como dizia o povo, começou a _correr as sete

partidas do mundo_.

Á sahida de Castella, onde o infante fôra visitar D. João II, galopava a

seu lado, segundo a expressão do snr. Oliveira Martins, o seu fiel

Achates, Alvaro Vaz de Almada, fadado para um destino igualmente cruel.

Outras affirmações faz ainda o snr. Oliveira Martins. Precisamos

conhecel-as.

«D'esta Jornada, agora começada, principia a amizade constante que

ligou em vida Alvaro Vaz a D. Pedro, etc.»

«Dois annos haveria apenas que Alvaro Vaz voltára ao reino coberto de

gloria. Batalhára pelos inglezes em Azincourt, no proprio anno da tomada

de Ceuta, e o rei Henrique V dera-lhe o condado de Avranches, na _marka_

franceza, com a ordem da Jarreteira. Essas guerras de França, começadas

havia tres annos, tinham de durar meio seculo, e talvez os viajantes

partissem com idéa de tambem intervir n'ellas. Alvaro Vaz, cavalgando ao

lado do infante, contar-lhe-hia os casos de bravura presenciados no dia

famoso de Azincourt; e D. Pedro, em volta, lhe diria como fôra a jornada

de Ceuta n'esse proprio anno»[18].

A amizade do infante e de Alvaro Vaz principiára antes da partida de

D. Pedro para o estrangeiro. _Elles eram irmãos de armas_, circumstancia

que, segundo o espirito da época, impunha deveres sagrados de reciproca

amizade e lealdade[19].

Quando, annos depois, o duque de Coimbra, vendo aproximar-se a hora do

combate com as tropas d'el-rei seu sobrinho, pergunta a Alvaro Vaz se

está disposto a todos os sacrificios, incluindo o da morte, tem em

resposta:--Não sou eu vosso irmão de armas?[20]

Eram. Porque ambos haviam sido armados cavalleiros no mesmo dia, em

Ceuta, depois da victoria.

Alvaro Vaz tinha estado em Inglaterra com o pai, mas devia regressar

pouco antes de partir D. João I para Africa.

Como já sabemos, João Vaz de Almada teve razões para refugiar-se mais

tarde em Inglaterra levando comsigo os dois filhos legitimos[21].

Isto passou-se depois da tomada de Ceuta, onde pelas chronicas sabemos que

estivera João Vaz de Almada, e onde seu filho, Alvaro Vaz, fôra armado

cavalleiro, por mão do infante D. Pedro[22], tendo ambos, o infante e

Alvaro Vaz[23], aproximadamente a mesma idade.

Não foi, como documentalmente provaremos, Henrique V que deu a

Alvaro Vaz o condado de Avranches.

Não poderia Alvaro Vaz contar ao infante os casos de bravura

presenciados no dia famoso de Azincourt.

E a razão é obvia. A batalha de Azincourt feriu-se em 1415, e n'este

mesmo anno, em agosto, se realisou a tomada de Ceuta. Antes, João Vaz e

Alvaro estiveram de passagem em Inglaterra, para levantar lanças; só

posteriormente á viagem a Africa com D. João I é que emigraram.

Henrique V reinou de 1413 a 1422.

Depois de Ceuta, o genio ardente e o animo valoroso de Alvaro Vaz não

lhe consentiram ficar indifferente á guerra que Henrique V movia contra

o desgraçado Carlos VI para fazer vingar as antigas pretenções dos

Plantagenets sobre a França.

Alvaro Vaz de Almada pagava assim, combatendo pela Inglaterra, a

hospitalidade que elle e a sua familia receberam da Inglaterra.

Henrique VI, como veremos por documentos, remunerou-lhe, mais tarde, os

serviços que elle havia prestado a Henrique V, e ainda as provas de

amor, obediencia e dedicação que já no seu reinado Alvaro Vaz havia dado

á corôa de Inglaterra.

D'aqui poderá inferir-se que Alvaro Vaz esteve ainda em Inglaterra

depois que Henrique VI, contando alguns mezes de idade, succedeu a seu

pai em 1422, e ahi prestou serviços, ou que, depois de ter regressado ao

reino, voltasse áquelle paiz, como parece suppôr um escriptor nosso

contemporaneo[24].

Pelo que deixamos dito, é mais que muito duvidoso que Alvaro Vaz

partisse de Castella cavalgando ao lado do infante D. Pedro.

Qualquer que fosse o anno em que o infante partiu, sabemos que já estava

na Allemanha em 1419, quando o imperador Sigismundo lhe concedeu a marka

ou ducado fronteiriço de Treviso.

Foi justamente n'esse anno ou pouco antes que Sigismundo, já rei da

Hungria, herdou de Wenceslau a corôa da Bohemia, e se achou a braços com

os Hussitas e os Turcos.

Duarte Nunes, o auctor dos _Retratos dos varoes e donas_[25],

e outros escriptores dão noticia de ter Alvaro Vaz de Almada

combatido pelo imperador Sigismundo contra os Turcos.

Não custa acredital-o. Sabendo que o seu grande amigo, o infante D.

Pedro, estava na Allemanha, decerto se daria pressa em avistar-se com

elle, indo immediatamente ao seu encontro. Como não era homem para estar

parado nem quieto, continuaria a ser alli «irmão de armas» do infante,

combatendo por algum tempo a seu lado.

Um escriptor moderno affirma este facto, sem hesitações: «Tambem Alvaro

Vaz de Almada militou nos exercitos do imperador Sigismundo da

Allemanha, e ahi se encontrou com o infante D. Pedro, estreitando os

laços de amizade que a elle o uniam, desde que fôra armado

cavalleiro»[26].

É mais natural que Alvaro Vaz se encontrasse com o infante D. Pedro na

Allemanha do que na Inglaterra, porque D. Pedro parece ter estado n'este

paiz pouco antes de recolher a Portugal em 1428, visto que a concessão

da Jarreteira, com que foi agraciado por Henrique VI, tem a data de 22

de abril de 1427, e Alvaro Vaz já em 1423 estava em Lisboa.

Ha um documento d'esta época, pelo qual Alvaro Vaz de Almada foi nomeado

capitão-mór da armada de D. João I.

É o seguinte:

«D. João, etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que nós querendo

fazer graça e mercê a Alvaro Vasques de Almada, cavalleiro nosso

vassallo, por serviços que d'elle recebemos e entendemos a receber ao

deante: Temos por bem e damol-o por nosso capitão-mór da nossa frota

pela guisa que o era Gonçalo Tenreiro em tempo d'el-rei D. Fernando,

nosso irmão, a quem Deus perdoe, e por a guisa que o foi Affonso Furtado

em nosso tempo, e porem mandamos aos patrões, alcaides, arraes e

pintitaes, comitres e bésteiros, galeotes, marcantes, marinheiros e a

todos os outros, a que esta carta fôr mostrada, que o hajam por nosso

capitão-mór, como dito é, e lhe obedeçam e façam todas as cousas que

lhes elle mandar fazer por nosso serviço, e segundo a seu officio

pertence, e que possa com elles fazer justiça, ou em cada um d'elles,

assim como a nós fariamos outrosim se presente estivessemos, e mandamos

a todas as nossas justiças que cumpram suas cartas e mandados, e lhe

ajudem a fazer e cumprir direito e justiça em todas as cousas que lhe

elle assim disser e mandar da nossa parte quando pertence a seu officio,

senão sejam certos quaesquer que o contrario d'isto fizerem, que lh'o

extranharemos gravemente nos corpos e haveres como aquelles que não

cumprem mandado de seu rei e senhor: em testemunho d'isto lhe mandamos

dar esta nossa carta, dada em Cintra a vinte e tres dias de junho.

El-rei o mandou. Martim Vasques a fez, éra do nascimento de Nosso Senhor

Jesus Christo de mil quatrocentos vinte tres»[27].

Este documento, publicado nas _Provas da Historia Genealogica_, põe um

limite preciso e seguro ás viagens de Alvaro Vaz. Por elle vêmos que o

_bom capitão_ recolheu ao reino muito primeiro que o seu amigo,

infante D. Pedro, isto é, cinco annos antes.

D. João I quiz certamente dar, com esta nomeação, uma indemnisação á

familia Almada: honrar o filho, visto que não pudéra perdoar ao pai.

Até ao anno da desgraçada expedição de Tanger (1437) não teve Alvaro Vaz

de Almada, na sua qualidade de capitão-mór da frota, motivo para se

assignalar por feitos de armas.

Mas em Tanger o vamos encontrar derramando o sangue pela patria, e

combatendo com o valor de que já havia dado sobejas provas em Ceuta ao

serviço de D. João I, e na Inglaterra ao serviço de Henrique V.

O infante D. Henrique, tendo chegado a Tanger, estabelece arraiaes n'um

outeiro que ficava contra o cabo d'Espartel, desviando-se das

instrucções que a este respeito lhe havia dado seu irmão o rei D.

Duarte.

«E em se começando a gente de alojar, sahiu uma voz, com um rumor sem

certidão, que as portas da cidade estavam abertas e os mouros fugiam; e

a este alvoroço acudiram muitos de cavallo contra a cidade, para

entrarem, e commetteram o feito mui ardidamente, e se metteram entre o

muro e a barreira, e combateram as portas tão rija e ousadamente, que de

tres juntas que eram, romperam duas; e a terceira, que se diz o Postigo

de Guyrer, commetteram com fogo: e, por ser forrada de ferro e sobrevir

a noite, não foi entrada; e tambem porque os mouros a defenderam mui

bravamente. E o conde de Arrayolos, por mandado do infante, foi recolher

a gente que, alli e na porta do castello e nas outras da cidade, estava

em combates repetidos: em que morreram muitos cavallos e alguns

christãos, e sahiram muitos feridos: entre os quaes foi o conde de

Arrayolos, de uma setta por uma perna, _e o capitão Alvaro Vaz d'outra

por um braço_»[28].

É o primeiro ferimento recebido, ao serviço de Portugal, por Alvaro Vaz.

Qualquer que fosse, porém, a sua gravidade, de novo o vemos a combater

esforçadamente logo no primeiro combate regular que o infante D.

Henrique ordenou contra os mouros.

«Mas o infante D. Henrique, vendo que o commettimento por aquella vez

não succedia como esperava, e que sua gente recebia dos mouros muito

damno, a fez recolher: de que ficaram até vinte christãos mortos e

quinhentos feridos: e mandou ficar as bombardas e engenhos em seus

alojamentos juntos com o muro d'onde tiravam, cuja guarda encommendou ao

recebel-a ao capitão Alvaro Vaz e a outros, que, por estarem afastadas

do arraial e pegadas ao muro, receberam dos inimigos muita affronta e

trabalho: e elles, na defensão d'ellas e offensão que aos mouros faziam,

deram de si claro testemunho de valentes cavalleiros»[29].

No segundo combate contra os mouros, o capitão Alvaro Vaz continua a

assignalar-se:

«E n'este mesmo dia era fóra D. Alvaro de Castro, e o _capitão_, e

Gonçalo Rodrigues de Sousa, e Fernam Lopes d'Azevedo, com setenta de

cavallo: e, topando com quinhentos mouros de cavallaria e muitos de pé,

pelejaram com elles e, a seu salvo, lhe mataram quarenta, e tornaram

victoriosos a recolher-se com o conde (de Arrayolos) e com os outros,

que dos mouros vinham bem perseguidos»[30].

Mas é sobretudo no tumultuoso embarque das tropas portuguezas, na

retirada de Tanger, que o capitão Alvaro Vaz, de par com o marechal

Vasco Fernandes Coutinho, que depois foi feito conde de Marialva,

pratica um acto de extremada cavallaria.

Oiçamos o chronista:

«... o infante com muito resguardo fez recolher a gente, e encommendou

ao marechal, e ao capitão Alvaro Vaz, que com alguma somma de bésteiros

ficassem sobre o atalhamento do palanque, em um arrife que ahi sobre o

mar se fazia, d'onde contrariassem os mouros por maneira, que os

christãos embarcassem com mór segurança, e depois se recolhessem com sua

ventura o melhor que podessem; e certamente assim como este encargo era

de grande perigo a estes dois nobres homens, assim n'elle como

esfoçados, se aproveitaram de muita honra e boa fama que n'elle

ganharam, e não sómente n'esta, mas em todas as outras affrontas n'este

feito passadas, elles por sua bondade d'armas, e grandeza de coração,

foram havidos por especiaes capitães, e notaveis cavalleiros. A gente

miuda, com desejo de salvar as vidas de que foram desesperados,

embarcavam com grande desordenança a que se não podia prover, cá se

lançavam ao mar soltamente, não esguardando se o batel era do navio, em

que vieram, se de outro algum, e muitos d'elles por fazerem os mareantes

em sua salvação mais attentos e diligentes tentavam-n'os com cubiça,

offerecendo-lhes logo nas mãos, alguma provesa que ainda escapara; e

isto começou de dar grande desaviamento á embarcação, e causar algum

damno; porque a todos os ministros do mar venceu tanto esta aborrecivel

cubiça, que suspendiam a entrada dos que alguma cousa lhe não peitavam,

e os dispunham por isso a grande perigo, do que el-rei houve, depois,

sabendo-o, gran desprazer, e segundo a mostrança de seu desejo,

certamente este erro não ficára sem grave punição, se d'elle pudéra

achar os certos auctores. O marechal, e o _capitão_, como a gente que

guardavam viram embarcada, começaram de se recolher na melhor ordenança

que puderam, mas os mouros, por acabarem de mostrar sua falsa concordia,

e verdadeira imisade, como os viram mover para embarcar, ordenaram dos

pavezes que achavam no palanque, uma forte pavezada, com que tão

rijamente os commetteram, que muitos dos christãos, especialmente os

bésteiros, não podendo soffrer um duvidoso perigo, tomaram para suas

vidas outro maior, e mais certo, lançando-se sem algum tento ao mar,

onde morreriam até quarenta. _E tanto era o primor da honra n'estes dois

cavalleiros, que em chegando ao batel, que para seu recolhimento os

esperava, e trazendo com a perseguição dos mouros a morte nas costas, á

entrada d'elles ambos se rogaram, affrontando um ao outro a primeira

entrada, procurando com palavras de muita cortezia e grande esforço, por

cada um ficar por derradeiro em guarda do outro; e porem com todos estes

revezes, ao domingo pela manhã eram já todos á frota recolhidos_»[31].

Este lance da biographia de Alvaro Vaz de Almada é, com effeito, de uma

galhardia cavalheirosa, que inflamma o espirito de quem n'elle

attenta, apesar de sermos chegados a um tempo em que estas proezas

guerreiras têm já todo o caracter de factos longinquos e semi-phantasticos.

Á volta de Tanger, Alvaro Vaz torna-se verdadeiramente notavel pela

superioridade com que sabe disfarçar a sua dôr pelo desastre soffrido.

D. Duarte estava em Carnide, quando «... chegaram em tanto a Lisboa dos

que vinham de Tanger, muitos navios que certificaram o caso como

finalmente passára, de que el-rei foi logo avisado, e certamente foi mui

aspero de ouvir, que o infante seu irmão ficava em poder de mouros; mas

por saber, que a mais da sua gente era em salvo, deu por isso muitas

graças a Deus, e como rei virtuoso, humano e agradecido, deteve-se

n'aquella aldeia, para vêr e agasalhar os que vinham do cêrco, dos

quaes muitos, ao tempo que iam fazer-lhe reverencia, em disformes

semelhanças e tristes vestidos, que para isso de industria vestiam, e

com palavras a desaventura conformes, se lhe mostravam, e d'elles

fingiam ser muito mais damnificados do que na verdade o foram, com

fundamento de carregarem mais na obrigação para o feito de seus

requerimentos, que alguns logo faziam e outros esperavam fazer, de que

el-rei recebia publica dôr e tristeza; mas a estes foi mui contrario, o

nobre e valente cavalleiro Alvaro Vaz de Almada, capitão-mór do mar, que

como quer que no cêrco de Tanger de sua fazenda perdesse muito, e da

honra por merecimentos d'armas não ganhasse pouca, como chegou a Lisboa,

antes de ir fallar a el-rei, logo de finos pannos e alegres côres se

vestiu, a si e a todos os seus, e com sua barba feita e o rosto cheio de

alegria, chegou a Carnide, onde el-rei andava passeiando fóra das

casas, e com elle o infante D. Pedro, e depois de lhe beijar as mãos e

lhe dizer palavras de grande conforto, el-rei o recebeu mui

graciosamente, e louvou muito sua ida n'aquella maneira, que não sómente

lhe apontou cousas e razões, para não dever por aquelle caso ter nojo

nem tristeza, mas ainda que por elle devia ser mui alegre e contente,

estimando em nada o captiveiro do infante seu irmão, que era um homem só

e mortal, em que haviam muitos remedios, em respeito da grande fama que

n'aquelle feito em seu nome se ganhára, aconselhando-lhe mais o repique

e alvoroço dos sinos, para honra e prazer dos vivos, que o dobrar

d'elles que ouvia, por tristeza e pelas almas dos mortos; pelo que

el-rei começou a mostrar que aquelle era o primeiro descanço que seu

coração recebia, e por isso e por seus bons merecimentos lhe prometteu

muita mercê, e grande acrescentamento; e sem duvida assim o fizera,

se sua antecipada morte o não tolhera»[32].

Ferdinand Denis, referindo-se a esta passagem da vida de Alvaro Vaz,

escreve: «Mostrou-se principalmente corajoso cavalleiro durante o cêrco

de Tanger, onde ficou prisioneiro o infante D. Fernando, que morreu em

Fez; se bem que quando voltou ao reino, o bom rei D. Duarte sahiu para o

receber pessoalmente, a pé, fóra de Carnide, onde estava. Fez-lhe taes

favores e mercês, como até então ninguem tinha recebido. Foi d'elle que

o rei Affonso de Napoles e seu irmão o infante D. Henrique d'Aragão

diziam que haviam encontrado em Portugal bom pão e bom capitão»[33].

Cumpre advertir que, segundo o testimunho do chronista Pina, o rei D.

Duarte não teve tempo de fazer a Alvaro Vaz as mercês que desejava, e

que as maiores que o famoso capitão recebeu não provieram de Portugal,

mas de Inglaterra.

Muitos escriptores suppozeram que Alvaro Vaz de Almada fôra feito conde

de Avranches pelo rei de França, e cavalleiro da ordem da Jarreteira

pelo de Inglaterra; mas não padece a menor duvida que ambas estas graças

lhe foram concedidas pelo monarcha inglez, Henrique VI, quando, como rei

de França, senhoreava o ducado de Normandia.

* * * * *

Dois annos depois do desastre de Tanger, principia a agitar-se em

Portugal a famosa questão da _regencia_, que havia de ter um tragico

desfecho no combate de Alfarrobeira.

Em agosto de 1439 a rainha D. Leonor passou-se de Santo Antonio do

Tojal, onde estava, para Sacavem, e o rei menino, Affonso V, tornou para

Lisboa, onde estava o infante D. Pedro.

Este infante fez reunir em sua casa as pessoas de maior confiança, e entre

ellas o «seu grande amigo Alvaro Vaz de Almada, capitão-mór do mar»[34], ás

quaes se queixou da pequena parte que do governo lhe coubera nas côrtes, e

communicou a resolução de abandonar por completo os negocios do Estado,

retirando-se para as suas terras.

N'essa reunião particular, de caracter intimo, distinguiu-se Alvaro

Vaz aconselhando o infante a que, se lhe não entregassem logo todo o

poder da regencia, se recolhesse aos seus dominios, «porque perdia muito

de sua auctoridade e estimação andando na côrte com tão pouca

auctoridade»[35].

Era este um meio, habilmente procurado por Alvaro Vaz de Almada, para

estimular o animo do povo, e apressar os acontecimentos no interesse do

infante.

A rainha, por sua parte, tomava represalias irritantes contra os amigos

e partidarios de D. Pedro.

Uma d'ellas foi despedir do seu serviço a irmã de Alvaro Vaz de Almada,

por desconfiar que ella communicava ao irmão o que se passava na côrte.

Este e outros actos, como, por exemplo, a mercê que D. Leonor fizera a

Nuno Martins da Silveira, aio do rei, dos varejos a que os mercadores de

Lisboa eram obrigados de sete em sete annos, irritaram profundamente os

partidarios do infante, entre os quaes eram numerosos os homens do povo.

Foram-se de parte a parte exaltando os animos, a ponto que a rainha

julgou conveniente á sua segurança transferir-se de Sacavem para Alemquer.

N'este lance da narrativa encontram-se Ruy de Pina e Gaspar Landim, se

bem que ambos elles se equivoquem, quando se referem a Alvaro Vaz de

Almada, em attribuir a mercê do condado de Avranches ao rei de França e

a da Jarreteira ao de Inglaterra, quando foram feitas, como sabemos,

pelo mesmo rei, que ao mesmo tempo se intitulava rei de Inglaterra e de

França.

«Os officiaes de Lisboa,--diz Ruy de Pina,--vendo esta mudança da rainha

fizeram logo seu ajuntamento, onde Vicente Egas Homem, cidadão velho,

entendido e de grave representação fez uma falla com largo recontamento,

cuja substancia foi avisar a cidade dos males e perigos, que por as

mudanças presentes se lhe apparelhavam; e como para terem por cabeça

alguma pessoa que por ella os resistisse, lhe era necessario elegerem e

tomarem alferes, _apontando logo o capitão Alvaro Vaz de Almada, que da

cidade fôra o derradeiro alferes, como por outros muitos e mui dignos

merecimentos e louvores, que d'elle com verdade recontou_; no que todos

consentiram, e por dois cidadãos o enviaram logo chamar por quanto era

fóra da cidade; e em chegando á Ribeira, sendo já sabida a determinação

sobre que vinha, se ajuntou com elle a mór parte da cidade e assim

acompanhado com grande honra foi levado á camara, onde por os

vereadores com certas cerimonias e largas palavras _de grande seu louvor

e muita confiança, lhe foi entregue a bandeira da cidade com suas

condições_; e elle a recebeu com palavras cortezes, e discretas, e de

grande esforço; porque era cavalleiro que _n'este reino e fóra d'elle

por experiencias mostrou_, que isto e muito _mais de louvor havia

n'elle_, cá em França por sua ardideza e bondades foi feito conde de

Abranches, e em Inglaterra por sua valentia foi recebido por companheiro

da ordem da Jarreteira, de que principes christãos, e pessoas de grande

merecimento são confrades; e em Portugal por todas estas, e mais por sua

linhagem e fidalguia mereceu ser como foi capitão-mór do mar»[36].

Ouçamos agora, na passagem parallela a esta, o testimunho de Gaspar de

Landim:

«E tanto que em Lisboa se soube a mudança da rainha (_de Sacavem para

Alemquer_), como não havia acto seu que não parecesse mal aos cidadãos e

povo d'ella, se ajuntaram com os vereadores, e entre elles o costumado

Vicente Egas como mais contrario das cousas da Rainha, e favorecedor das

do Infante lhe fez uma pratica mui larga toda em seu favor d'elle, em

qual encareceu grandemente os males e perigos que dizia estarem-lhes

apparelhados áquella cidade e a todo o reino por ordem da Rainha, pelo

que era necessario elegerem um capitão que lhe servisse de cabeça, e os

defendesse, a quem obedecessem, para o qual effeito, pois que o Infante

D. Pedro estava ausente (_em Camarate_), ninguem o podia melhor fazer

que o capitão Alvaro Vaz de Almada, grande amigo e familiar do

Infante, e para que não houvesse duvida na eleição d'elle recontou

grandes feitos seus, e de seu pai João Vaz de Almada, encarecendo sobre

modo seu valor e merecimentos; o qual logo de commum consentimento foi

nomeado e eleito por defensor da cidade, capitão e alferes-mór, e para

haver esta eleição effeito bastou saber que era mui contrario ás cousas

da Rainha e suas cousas, e mui affecto ás do Infante; o qual foi logo

mandado chamar a uma quinta onde estava, e em entrando na cidade,

chegando á Ribeira se juntou todo o povo e cidadãos com elle para o

acompanhar, e d'ahi o levaram á camara com grande alvoroço e muitas

exclamações de libertador e defensor d'aquella cidade, e entrando na

camara lhe foi entregue a bandeira com muitas condições e declarações

todas em favor do Infante D. Pedro, e contrarias á Rainha; com as quaes

elle a recebeu, e com palavras significadoras de grande

agradecimento prometteu tudo cumprir.

«Os cidadaos e povo muito satisfeitos, confiados e a seu parecer seguros

de todos os medos e destruições que sobre si fingiam haverem de vir, e

lh'o faziam crêr, e por taes se deram com a eleição do seu defensor.

«Era Alvaro Vaz de Almada cavalleiro que assim n'este reino, como em

outros, tinha feito grandes cousas por seu esforço em que cabiam

aquelles e outros maiores cargos, ainda que foi notado de temerario e

arrogante, e como tal deu muita cousa, e foi a principal parte da casa

do infante D. Pedro, de sua honra e vida; e por seu esforço foi feito

por el-rei de França conde de Abranches, e em Inglaterra por valorosos

feitos lhe foi dada a honra da Garrotea, da qual n'aquelle tempo se

honraram muitos principes, e em Portugal depois de tornado a elle

foi feito por el-rei D. Duarte capitão-mór do mar».

Aqui temos Alvaro Vaz de Almada lançado na accesa lucta travada entre o

infante e a rainha, e vel-o-hemos acompanhar sempre D. Pedro, até á

morte, com aquella cega dedicação, que já era antiga, porque datava de

Ceuta.

O povo de Lisboa, poucos dias depois da eleição de Alvaro Vaz, acclamára

o infante D. Pedro como unico governador do reino, n'um acto solemne

realisado na egreja de S. Domingos.

N'este momento, Alvaro Vaz é o braço direito do infante e o querido do

povo, o homem escolhido para todas as missões importantes.

Assim, foi designado para ir solicitar do infante D. João que viesse a

Lisboa, onde a sua presença se reputava necessaria.

O emissario logrou convencer o infante, que veio logo, hospedando-se

na casa da Moeda[37].

Novamente se tornou a reunir o povo, agora nos paços do concelho,

fallando por essa occasião o dr. Affonso Mangancha e Alvaro Vaz.

Ruy de Pina dá-nos a summula do discurso do famoso _Capitão_:

«encommendaram logo ao _Capitão_ que désse sobre o caso sua voz, que a

deu com cautelas e fundamentos de homem prudente, e mui avisado, em que

concluiu mais além, que era crime e aleijão elrei ser creado em

poder de mulheres; e não menos erro reger a rainha, não sem muitos

merecimentos e grandes louvores d'ella, que tambem apontou para ser

sempre servida e acatada: e que o infante D. Pedro devia reger»[38].

Como sabemos, o povo havia entregado a D. Alvaro a defeza e guarda da

cidade de Lisboa. O infante D. Pedro confirmou, por um diploma official,

a escolha que o povo fizera, nomeando D. Alvaro alcaide-mór do castello,

investindo-o officialmente nas funcções, que já exercia, de defensor dos

moradores de Lisboa.

«Dom Affonso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que vendo nós

e considerando os muitos e estremados serviços que o capitão-mór Alvaro

Vasques de Almada, Rico Homem e do nosso conselho, fez a ElRei meu

Senhor e Pai e a ElRei Dom João, meu Avô, e isso mesmo a nós e ao diante

entendemos receber, e os muitos trabalhos e perigos em que foi assim

fóra dos nossos reinos como em elles por honra d'elles, e querendo-lhe

galardoar e conhecer, como todo bom Rei e theudo, aquelles que bem e

lealmente servem, conhecendo sua grande lealdade, porém de nosso motu

proprio, livre vontade, certa sciencia, poder absoluto, temos por bem e

fazemol-o nosso alcaide mór do nosso castello da nossa mui nobre e leal

cidade de Lisboa, pelo que nos fez preito e menagem uma, duas e tres

vezes de nós em elle receber irado e pagado no alto e no baixo, segundo

mais cumpridamente é, contheudo na fórma de sua menagem, a qual é

escripta no livro das menagens que anda em a nossa camara é assignada

por elle. E porém mandamos a todos os fidalgos, cavalleiros, escudeiros,

corregedores, juizes, justiças, conselho e homens bons da dita

cidade, que d'aqui em diante o hajam por nosso alcaide em o dito

castello e outro nenhum não, não embargando que o até aqui tivesse D.

Affonso, o qual nos praz nem queremos que o mais seja pelo assim

entendermos por nosso serviço, aos quaes mandamos que lhe obedeçam assim

como alcaide e saiam com elle e sem elle cada vez que por elle ou da sua

parte forem requeridos em aquillo que a seu officio pertencer para se

fazer direito e justiça. Outrosim queremos que tenha e haja de nós todas

as rendas e direitos que á dita alcaideria pertencem segundo é contheudo

em nossa carta, que d'isso tem, e os possa arrecadar, tirar e arrendar

por si e por seus procuradores e homens como a elle mais prouver. E em

testimunho d'isso lhe mandamos dar esta nossa carta. Dante (?) em

Santarem cinco dias de abril por auctoridade do Senhor Infante Dom

Pedro, tutor e curador do dito Senhor Rei, Regedor defensor por elle

de seus Reinos e Senhorios. Martins Gil a fez, anno de Nosso Senhor

Jesus Christo de mil quatrocentos e quarenta[39].

Mas Alvaro Vaz chegava para tudo, e o infante encarregou-o de ir tomar o

castello da Ameeira, que estava por D. Leonor. A esse tempo a rainha

havia-se entrincheirado no Crato.

D. Alvaro deu-se pressa em partir para ir desempenhar esta nova commissão.

Vejamos o que diz Ruy de Pina; prefiro, sempre que seja isso possivel,

empregar a linguagem das chronicas, porque tem um sabor antigo, que se

conforma melhor com o assumpto, tambem antigo, do que a nossa

linguagem actual.

«O capitão Alvaro Vaz a que o cerco da Ameeira, como disse, era

encarregado, partiu de Lisboa por terra com sua gente d'armas e de pé,

que era muita e mui bem concertada, e assim com os artilheiros e

provisões, que para o cerco convinham, e todo posto em mui segura e

singular ordenança, _fazendo-o assim como homem que o vira, e passára em

outros reinos já muitas vezes_. E tambem folgou de o ordenar assim por

dar a entender n'este pequeno cerco, o que faria em outros maiores se

lh'os encommendassem».

O resultado da Jornada da Ameeira foi satisfatorio, como todos os

partidarios do infante esperavam, visto que a incumbencia tinha sido

confiada ao valoroso _Capitão_.

O castello rendeu-se pouco depois de D. Alvaro lhe ter posto cerco.

O joven Affonso V, que estava então em Alemquer, tanto tinha ouvido

fallar de Alvaro Vaz de Almada, que quiz vêl-o por força quando elle

passava para a Ameeira. A sua imaginação de creança estava exaltada pela

fama d'esse cavalleiro portentoso, que já tinha uma lenda de

heroicidade, com que regressára do estrangeiro, e que em Portugal

continuava a glorifical-o.

Referindo-se ao pequeno rei, diz Ruy de Pina: «desejou muito de vêr o

Capitão, e sua gente na ordenança de guerra em que vinham, e

sentindo-lhe Alvaro Gonçalves de Athayde, seu aio, este vivo orgulho e

desejo, louvou-lh'o muito. E disse que era bem que cumprisse: mas por

não errar em seu serviço e estado indo de proposito vêr uma sua cousa

tão pequena, seria bem que como d'acerto fosse a caça, ao campo d'entre

Castanheira e Villa Nova, e que ali como de recontro veria o

Capitão, e a gente que então havia de passar. E a outro dia andando alli

el-rei com seus galgos e gaviões, assomou o Capitão, e sabendo já que

el-rei o queria vêr apurou ainda muito mais sua ordenança, e de sua

pessoa com seus pagens armados se concertou com grande perfeição. Porque

n'aquelle acto de armas, _por seu braço e por experimentadas ardidezas

passadas, a elle n'este reino se dava muito louvor_, e tanto que foi

atravez d'onde o rei olhava, se apartou só da gente armado sobre uma

facanea, e com grande alegria e desenvoltura se lançou fóra d'ella, e a

pé foi beijar as mãos a el-rei, e lhe disse:--«Senhor, assim como eu sou

o primeiro que Vossa Senhoria vê n'estes habitos, assim, prazendo a

Deus, não serei eu n'elles o segundo, em todo o que cumprir por vosso

serviço, e por defensão de vossos reinos». El-rei folgou muito de o vêr,

e com palavras e contenenças lhe fez mais honra e mór acolhimento,

do que de sua pouca idade se esperava, e assim se despediu o Capitão, e

seguiu sua viagem até a Ameeira, que logo cercou e combateu até que a

tomou[40].

Um homem de tamanho vulto, como era D. Alvaro Vaz de Almada, por força

havia de ter inimigos, especialmente n'uma época em que os interesses

politicos da sociedade portugueza estavam profundamente divididos em

dous campos oppostos.

Uma carta regia, que se encontra no archivo da camara municipal de

Lisboa e é datada de 12 de maio de 1440, dá conhecimento de não ter sido

permittido que Alvaro Vaz de Almada, alcaide-mór, intentasse acção, para

se desaggravar do que contra a sua pessoa tinham dito e feito alguns

officiaes da cidade; e recommenda-lhes que reciprocamente usassem

d'aquella boa maneira e amizade, com que sempre se haviam tratado[41].

A reacção, por parte dos sequazes da rainha, decerto procuraria

amesquinhar e desprestigiar D. Alvaro, a alma do movimento em favor do

infante.

Parece que, entre outras accusações, lhe fizeram tambem a de haver

impedido a entrada de um navio carregado de trigo, que era preciso ao

consumo publico.

Mas, não obstante este e outros meios de reacção, a causa da rainha

naufragava: D. Leonor fugira para Castella, segundo parece, no dia 29 de

dezembro de 1440.

N'este momento desapparece-nos Alvaro Vaz de Almada do theatro dos

acontecimentos, sem que os chronistas nos dêem a chave do enygma.

Apenas se sabe, por uma phrase vaga de Ruy de Pina, e por outra phrase,

não menos vaga, do proprio infante D. Pedro, que elle estivera em Ceuta.

Julgaria D. Alvaro,--insaciavel de correr perigos e aventuras,--que a

sua presença não era já precisa em Portugal ao infante D. Pedro, cuja

causa estava ganha? Dar-se-ia em Ceuta algum acontecimento, que fizesse

com que o infante, como regente do reino, entendesse ser necessario

mandar alli o seu mais seguro e dedicado amigo?

Ficou em Ceuta D. Alvaro ou iria tambem ao estrangeiro, tentar novos

feitos de armas, hypothese a que se inclina o collaborador do

_Diccionario popular_?

* * * * *

Foi effectivamente durante esta sua ausencia que Henrique VI o encheu de

mercês importantissimas.

«D. Alvaro Vaz estava então militando em Ceuta, e esse homem de

nobilissimo caracter, que, emquanto D. Pedro foi feliz, se conservou

afastado, voltando até, segundo todas as probabilidades, ao estrangeiro,

porque não é natural que em 1445 Henrique VI de Inglaterra lhe

conferisse todas as graças que dissemos, na sua ausencia, D. Alvaro,

apenas soube o que se tramava contra o seu irmão de armas, veio logo

para Portugal...»[42]

Por minha parte pendo a acreditar que D. Alvaro não sahiu de Ceuta, mas

devo dizer, francamente, que caminho apenas por conjecturas.

É possivel que a morte do pai e do irmão mais velho, ignorando eu

comtudo a data certa em que falleceram, levasse Henrique VI a galardoar

em D. Alvaro os serviços que anteriormente havia recebido d'elle proprio

e da sua familia.

Mas é mais provavel que, «por esforço do infante D. Pedro», como diz

Landim, lhe fossem feitas aquellas mercês.

As duas phrases, de Ruy de Pina e do infante D. Pedro, que logo

citaremos, fallam apenas de Ceuta; supponho, por isso, que D. Alvaro Vaz

de Almada não iria mais longe n'essa segunda ausencia.

O que é certo é que as mercês de Henrique VI a D. Alvaro são do anno de

1445, em que o valoroso _Capitão_ estava fóra de Lisboa.

Um contemporaneo do Infante D. Henrique · 第 1 / 5 段