O formoso tenor não desdenhára colher aquella flôr modesta.
Colhera-a e passára.
Não era homem para perder muito tempo em negocios de semelhante natureza.
Apesar d'isso Jacintha ficára singularmente lisongeada por contar, na
collecção dos seus admiradores, um _artista_, um verdadeiro artista, de
que grande quantidade de damas da primeira sociedade tinham disputado a
posse, segundo ella suppunha.
Em Saint-Malo, na numerosa creadagem das casas proximas, Jacintha,
sempre picante e attrahente, fôra muito cortejada.
E não tinham sido apenas os creados a darem-se a esse passatempo.
Os proprios patrões deram-se ao incommodo de render homenagens á creada
de Laura.
Afinal, na grande sociedade--está provado!--as cosinhas não recebem peor
gente que os salões.
Lembrar-se-hão sem duvida que, na manhã em que Laura resolvera abandonar
a casa de seu marido, encontrára vasio o quarto de Jacintha.
No dia seguinte, quando a creada se reuniu á cantora em Paris, Laura
admoestou-a com toda a severidade, como costumava.
Sem se incommodar com a torrente de lagrimas que corria pelas faces de
Jacintha, e com as quaes a creada tratava lavar a falta commettida,
Laura demonstrou-lhe quanto era indigno um procedimento d'aquella ordem.
Disse-lhe que a devia abandonar completamente.
Mais uma vez, porém, lhe perdoaria, sob condição de Jacintha lhe dar a
sua palavra de que não voltaria a praticar o menor desmando.
E affiançou-lhe que, no primeiro caso dado, a encontraria inflexivel.
Jacintha, desfeita em lagrimas, prestou todos os juramentos possiveis.
Tomou para testemunhas todas as virgens da côrte do ceu, promettendo
seguir os seus exemplos.
Antes quereria perder a vida do que ser abandonada por Laura.
A admoestação aproveitar-lhe-ia.
Jámais o demonio se apossaria dos seus sentidos.
Laura fingiu acreditar nas promessas de Jacintha, que, sem serem
solidas, eram com certeza sinceras.
Entretanto tomou algumas precauções.
Resolveu não admittir creados moços na sua modesta casa da rua
Boudreau.
Escolheu um casal já idoso.
O marido tinha cincoenta annos e a mulher quarenta e cinco.
Durante tres mezes Jacintha foi um verdadeiro modelo de honestidade.
Nunca sahia só, e quando acompanhava Laura ao theatro jámais transpunha
a porta do camarim.
Mas no momento da chegada do visconde a Paris, os seus remorsos
começavam a cicatrisar.
A installação mysteriosa no rez-do-chão da rua da Arcada produziu-lhe
terrivel effeito.
Laura, porém, percebeu sem perda de tempo que Jacintha começava
novamente a andar mais ligeira.
Aquella acceleração de movimento no corpo correspondia a movimentos,
accelerados tambem, no espirito.
Ao ver a felicidade que disfructava Laura, sentia extraordinaria
melancholia.
--Como o sr. visconde ama a senhora! murmurava ella. Ah! a senhora é bem
feliz!...
--Se continuares a portar-te bem, dizia-lhe Laura, acharás qualquer dia
um bom marido.
--A senhora achou, respondia Jacintha, mas eu, para o achar,
necessitarei procurar.
Uma busca d'este genero é sempre um perigo para uma natureza
inflammavel. Se Laura, n'aquella occasião, tivesse reparado,
comprehenderia o perigo, verificaria que a virtude começava a ser
demasiado pesada para Jacintha.
Uma noite, ao atravessar um corredor do theatro, a creada deu de cara
com Lauretto Mina.
O tenor pôz-lhe uma das mãos na fronte, levantou-lhe o queixo com a
outra, e disse-lhe:
--Sabes que estás cada vez mais bonita? Declaro-te que nunca te amei
tanto como agora.
Não se contentou com palavras.
Passou-lhe um braço em volta da cintura, levou-a para um canto pouco
alumiado, inclinou-lhe o corpo para traz e deu-lhe um demorado beijo na
bocca.
Jacintha voltou para o camarim muito perturbada.
O seu quarto na rua da Arcada era tão bonito!
Devia haver muitas senhoras que o invejassem!
Esta circumstancia foi mais uma tentação.
Pois só ella é que havia admirar aquella verdadeira belleza?
Era possivel que o tenor, mesmo em casa de duquezas, não tivesse visto
um quarto tão encantador como aquelle.
Jacintha por coisa alguma trahiria Laura.
Em tempo, Lauretto Mina tinha tido a prova d'essa verdade.
Não se arriscou, por isso, a fazer-lhe perguntas directas sobre o
visconde ou sobre a Linda.
Mas, depois d'uma scena de seducção admiravelmente bem desempenhada
pelo tenor, uma noite, durante um entre-acto, Jacintha foi forçada a
dar-lhe todas as indicações necessarias, para que elle podesse entrar
n'aquelle delicioso quarto, que para ella era um verdadeiro ninho d'amor.
Pela uma hora da manhã, em quanto Antonino e Laura estivessem á mesa,
ceiando, ella iria abrir-lhe a porta da rua, e, pelo longo corredor,
para o qual abriam todas as portas interiores, introduzil-o-hia no
quarto. Depois iria ter com elle, logo que os dois esposos se deitassem.
O tenor sahiria, entre as quatro e as cinco horas da manhã, quando o
visconde tivesse partido.
Nada era mais simples, mais facil, mais seguro.
Foi assim que, na noite de que já fallámos, Lauretto Mina estava ás tres
horas e meia da madrugada no quarto de Jacintha.
Áquella hora a creada dormia profundamente.
Lauretto levantou-se sem fazer ruido.
Sobre a meza da cabeceira estava acceso um candieiro.
O tenor tirou uma navalha da algibeira, abriu-a, e cortou os cordões
d'um reposteiro.
Em seguida voltou ao leito, pegou na mão direita de Jacintha e
approximou-a levemente da esquerda.
Ella descerrou vagamente as palpebras e perguntou:
--Já te levantaste?
--Não, não, respondeu o tenor. Ainda é cedo.
Reuniu bruscamente as duas mãos e, n'um segundo, ligou os pulsos de
Jacintha com tres ou quatro voltas do cordão, que atou n'um nó rapido.
Ella accordou sobresaltada e tentou gritar.
Mas o tenor applicou-lhe sobre a bocca uma mordaça que levava,
prendendo-lh'a solidamente atraz do pescoço.
Jacintha deu com os pés na roupa da cama, tentando saltar do leito.
O tenor ligou-lhe os pés com o cordão, como lhe ligara as mãos.
Em seguida verificou se todos os nós estavam bem dados.
Assim presa, Jacintha apenas podia fazer alguns movimentos quasi
imperceptiveis, que Lauretto impossibilitou ainda comprimindo-a com a
roupa da cama.
Depois, o tenor vestiu-se lentamente.
Entreabriu a porta do quarto, e escutou.
Voltou para junto do leito, e vendo que Jacintha não se movia,
destapou-a, inquieto, e tirou-lhe a mordaça.
A infeliz estava desmaiada.
O ar livre que respirou, reanimou-a um pouco.
Antes que a creada recuperasse completamente os sentidos, Lauretto
tornou-lhe a pôr a mordaça, mas apertando-lh'a menos, e deixando-lhe as
narinas a descoberto.
Depois voltou novamente para junto da porta.
Sentiu o visconde sahir, sendo acompanhado por Laura até á escada.
Ouviu as palavras de despedida que ambos trocaram.
Então transpôz o corredor, abriu a porta do quarto de Laura, e entrou.
Jacintha, que recuperara os sentidos, viu e comprehendeu tudo.
O miseravel armara ardilosamente aquelle laço á sua fraqueza, e ella
cahira estupidamente, como uma ingenua.
Não era por ella, mas por Laura, que elle ali fôra.
A Linda, é claro, não tornara a sua creada de quarto confidente das
impertinencias de Lauretto.
Jacintha, porém, recordava-se agora de certas circumstancias e d'algumas
palavras pronunciadas pelo tenor.
Não podia duvidar.
Era Laura quem elle desejava.
A Linda estava n'esse momento á discrição do insolente.
E fôra ella, Jacintha, ella, que teria dado a vida pela cantora, que a
entregara áquelle miseravel!
Ao ter este pensamento a infeliz sentiu-se gelada de pavor.
Deixaria ella commetter um tão infame crime?
Apenas podia soltar alguns gemidos inarticulados.
As mãos e os pés ligados paralysavam-lhe todos os movimentos. Como
arrancar a mordaça?
Como cortar os cordões que a atavam?
O tempo passava, e ella não achava que responder áquellas perguntas.
As lagrimas corriam-lhe pelas faces.
Olhou para o candieiro acceso.
Lauretto achara desnecessario apagal-o. Para que?
Subitamente accudiu-lhe ao espirito uma idéa.
Nem um instante hesitou.
Encolheu-se, torceu-se, rebolou-se, e, lentamente, firmando-se nos
cotovellos e nos joelhos, conseguiu elevar-se pouco a pouco, acima do
travesseiro.
Esta operação difficultosa durou dez minutos.
Quando chegou com as mãos ligadas até ao angulo do leito, agarrou-se a
elle, e, com um esforço acabou de se elevar.
Então, com um movimento decidido, chegou á luz do candieiro os cordões
que lhe prendiam os pulsos, que foram tambem attingidos pela chamma.
A dôr era insupportavel.
Por vezes, sentindo-se prestes a soltar um grito, retirava os pulsos da
luz.
Mas em seguida, considerando aquelle facto como uma indesculpavel
cobardia, chegava novamente á chamma a carne já queimada.
Uma das voltas do cordão quebrou por fim.
Mas não era a que formava o nó.
Foi indispensavel continuar a tortura, com todas as precauções e cuidados.
E sentia-se feliz por poder dizer de si para comsigo:
--Soffre, leviana, soffre o castigo da tua falta!
O cordão cedeu emfim.
Então, com um movimento rapido, desembaraçou-se dos bocados que ainda a
prendiam, e, sem reparar para o misero estado em que tinha os
pulsos--porque o tempo urgia--sentou-se na cama, e desligou os pés,
ainda que com bastante custo.
Levantou-se, procurou uma tesoura, e cortou os cordões da mordaça.
Estava livre!
Vestiu-se sem perda d'um segundo.
As mãos, tremulas ainda pelo supplicio supportado, difficilmente
cumpriam a sua missão.
Sentia-se banhada em suor frio.
Não prestou attenção á fórma pela qual se vestia.
Pensava.
O que deveria fazer? Acordar o porteiro? Esse meio poderia ser bom meia
hora antes. N'aquelle momento, como era possivel que o crime
estivesse consumado, era necessario não fazer escandalo. N'aquelle
negocio não devia intervir qualquer pessoa estranha.
Logo que se apromptou, metteu na algibeira o dinheiro que pozera sobre a
meza, e seguiu pelo corredor, abafando o ruido dos passos.
Parou em frente da porta do quarto de Laura e escutou.
Não duviu o menor rumor.
Aquelle silencio seria de bom ou de mau presagio?
Não se atrevia a decidir.
Continuou pelo corredor, desceu a escada, abriu cautellosamente a porta
e achou-se na rua, deserta áquella hora.
XXV
O infame
Se não fosse fatuo e mau como era, Lauretto Mina, ao entrar no quarto de
Laura, teria apagado a lampada que o alumiava.
Depois, quando a cantora voltasse, soprando a chamma do candieiro que
ella trazia, tel-a-hia tomado por surpreza na sombra, e a Linda
podia então considerar-se perdida.
Mas elle quiz saborear o seu triumpho, divertir-se com o temor e mesmo
com a colera da cantora.
Portanto mostrou-se, apresentou-se.
--Boa noite, minha querida Linda, disse elle levantando-se logo que
Laura entrou. Não te admires nem te assustes por me veres em tua casa a
hora tão adiantada da noite. As minhas intenções são tudo o que ha de
mais amigaveis, e estou certo que havemos de nos entender.
Laura olhava-o petreficada, sentindo como que fugir-lhe a razão.
O tenor proseguiu:
--Se entrei aqui, empregando meios menos usados e algum tanto violentos,
a culpa foi tua. Estou, como muitos outros, loucamente apaixonado por
ti. Mas isso não é uma razão para me escarneceres, para me tornares
ridiculo para com os nossos collegas, e para mofares de mim com o
visconde, teu amante. Tens procedido commigo imprudentemente. Resolvi
desforrar-me. Para o conseguir conquistei um coração mais sensivel que o
teu, o da Jacintha. Ella introduziu-me na praça--e eis-me aqui!
--Foi bem combinado o assalto, respondeu Laura fazendo um gesto de
resignação.
Voltára-lhe a presença d'espirito.
Como se conservasse no limiar da porta, passou resolutamente em frente
do tenor e entrou no quarto.
--Estimo que acceites a situação com essa desenvoltura! disse Lauretto
sorrindo victoriosamente.
Como ella não respondesse, o tenor continuou:
--Para que me havias de receber com ares tragicos? Tens razão. Jámais se
devem desprezar estas palavras: amo-te!
Laura encostára-se a uma secretária Riesener.
O tenor estava na frente d'ella. Elle proseguiu:
--Pois não é verdade que é absurdo fazer barulho por causa d'um beijo?
Caminhou para ella ao acabar de pronunciar aquellas palavras.
Laura abriu rapidamente com a mão esquerda a gaveta da secretaria,
pegando, com a direita, n'um objecto que estava dentro.
E repentinamente, como Lauretto se approximasse mais, visou-o com um
revolver que acabava de engatilhar.
--Se dá um só passo mais, mato-o! gritou ella.
Lauretto empallideceu horrivelmente.
Mas replicou, tentando sorrir-se:
--Suppunha-te mais sensata. A menos que não estejas brincando...
--Prohibo-o de me tratar por tu, disse Laura ameaçando-o novamente com o
revolver.
--Perdão, sr.ª viscondessa, respondeu o miseravel inclinando-se com
afectação, para dissimular o estremecimento que lhe percorreu todo o
corpo. Não considero de bom gosto ameaçar com um revolver um homem
desarmado, entretanto...
E ia dar mais um passo.
Laura, porém, fel-o parar, dizendo com energia:
--Não se mecha, ou disparo! E previno-o de que não repetirei o aviso.
Acautelle-se! Tenho na mão uma arma admiravel, de precisão
extraordinaria. Comprei-a no Mexico, quando nos internamos na região dos
_pampas_. Ao dar um passo terá quatro balas no corpo.
Ella fallava n'um tom firme e resoluto, tanto mais para admirar, quanto
era certo que omittia um pormenor importante.
O revolver estava descarregado.
Suppozera, e com razão, que um homem capaz de proceder como Lauretto
Mina, não podia deixar de ser cobarde.
Ao ouvir Laura, o tenor teve uma idéa, que mais o assustou.
Lembrou-se que o tiro podia partir, mesmo sem que a cantora puxasse pelo
gatilho.
Entretanto, fazendo-se forte, disse:
--Acautelle-se tambem, porque ao primeiro tiro precipitar-me-hei, e
então...
--Socegue, interrompeu a Linda. Sei servir-me bem d'este revolver. Tinha
o direito, se quisesse, mesmo sem que o senhor chegasse a vias de facto,
de o matar como se mata um cão hydrophobo. Mas a vista do sangue
horrorisa-me. Conserve-se quieto, e nada terá a temer.
Um pouco mais socegado, o tenor disse, ao cabo d'alguns minutos de
silencio, com riso forçado:
--Nada d'isto tem senso commum! Ficaremos aqui toda a noite, a olhar um
para o outro, como dois cães de faiança?
Laura não respondeu.
Conservava-se immovel como uma estatua.
--Permitte-me, ao menos, que me sente? perguntou elle.
Ella replicou:
--Pode sentar-se. Tem ahi proximo uma cadeira. Mas previno-o de que, uma
vez sentado, o prohibirei de se levantar.
--Percebo, ficaria com uma vantagem a mais. Pois conservar-me-hei de pé.
--Faria melhor sahindo d'esta casa. Deve seguir o conselho, que é bom.
--Devéras?... disse Lauretto indiciso.
Perguntou a si proprio se, realmente, o mais prudente não seria bater em
retirada.
Aquelle revolver imprevisto mudára a situação.
O negocio falhára, decididamente.
Mas deveria fugir cobardemente d'uma mulher?
No dia seguinte ella contaria a aventura ao amante, e talvez aos
collegas, que com razão o escarneceriam. Fugir, era, pois, impossivel.
Era indispensavel sustentar a situação até ao fim, custasse o que custasse.
Depois d'alguns minutos de reflexão, Lauretto disse com voz um pouco
mais firme:
--Não partirei. Tenho ainda pelo meu lado uma probabilidade.
--Qual?
--Ha vinte minutos que nos olhamos fixamente; eu, que não tenho uma arma
na mão, sinto-me já fatigado. Pesa-me a cabeça e cerram-se-me as
palpebras. O relogio marca quatro horas e trinta e cinco minutos. Só
amanhecerá d'aqui a hora e meia. Quando nos tivermos hypnotisado
mutuamente, veremos se o seu olhar não se turbará, se os seus joelhos
não se dobrarão, se o braço não se baixará por si proprio. Veremos se a
gallinha não acabará fatalmente por ser magnetisada, immobilisada... e
tomada pela raposa!
--Veremos! respondeu Laura apertando com mais força a coronha do revolver.
Desde esse momento guardaram ambos o mais absoluto silencio.
No quarto ouvia-se apenas o tic-tac monotono da pendula.
O relogio deu os tres quartos para as cinco horas.
Os minutos passavam com uma lentidão mortal.
Laura sentia, com temor crescente, que o miseravel dissera a verdade.
A tensão enorme em que desejava conservar o espirito fazia-lhe diminuir
as forças do corpo.
Via como que sombras passarem-lhe pela frente; sentia nos ouvidos um
ruido extranho, as pernas dobravam-se-lhe, e a custo conservava o braço
meio estendido, empunhando o revolver.
O que mais a angustiava era a arma estar descarregada.
Se assim não fôra, mesmo dada a hypothese do desfallecimento, poderia
defender-se contra uma aggressão subita, ferindo ou pelo menos
assustando o seu inimigo.
Emfim, haveria lucta, em que o maior numero de probabilidades estaria do
seu lado.
Mas se, aproveitando um momento de torpor, Lauretto se precipitasse
sobre ella, e a agarrasse, a Linda nada mais tinha na mão do que um
bocado d'aço e de madeira, não poderia defender-se.
E como que ouvia o grito de triumpho soltado por Lauretto, e o rir
infame d'aquelle miseravel.
O relogio deu cinco horas.
Laura sentiu necessidade de interromper aquelle silencio pesado e
d'ouvir uma voz humana, ainda que não fosse senão a propria.
Disse portanto em voz alta:
--Cinco horas!
Lauretto replicou, e ella escutou-o quasi satisfeita:
--Faço-lhe os meus cumprimentos. Possue energia rara em mulher. É triste
que não empregue essa energia ao serviço de melhor causa. Admittindo
mesmo,--o que é duvidoso,--que consiga sustentar até ao fim esse
magnanimo esforço para preservar a sua honra, nem por isso ficará menos
deshonrada. Quer saber como?
Laura não respondeu.
O tenor proseguiu:
--O meu amor é muito sincero e ardente. Se não fosse para a possuir não
poria em pratica esta tentativa arrojada, ou criminosa, segundo o modo
de ver de cada um de nós. Mas o meu amor proprio está agora comprometido
n'esta empreza tambem. A sr.ª, ha muito tempo, tem-me despresado,
motejado, ridicularisado; eu, declarei, jurei publicamente, que
mereceria todo o seu desprezo se não conseguisse tel-a um dia nos meus
braços. Por emquanto ainda não perdi a esperança, e espero, até,
conseguir em breve o fim desejado. Em todo o caso, mesmo na peor das
hypotheses, deve concordar que as apparencias são por mim. Por
agora pouco importa que eu seja ou não seu amante. O essencial é que,
para os espectadores, o pareça. Ora parecel-o-hei, evidentemente...
Laura sorriu com desdem.
Elle continuou:
--Deixe-me acabar e ria depois. Medite,--porque ainda é tempo,--e verá
que o que mais lhe convém é baixar o revolver e entregar-se á minha
generosidade. Procederei como um perfeito cavalheiro, desde já o
declaro. Mas reservar-me-hei o direito de fallar, e previno-a de que
fallarei. Será essa a minha compensação e a minha desforra.
O tenor fez uma pausa.
A Linda deu aos hombros despresadoramente.
--Imagina que não me acreditarão? Ouça: limitar-me-hei a affirmar que a
tive esta noite nos meus braços. Estamos sós: quem poderá
contradizer-me? É de suppor que o visconde de Bizeux me peça
explicações; espero mesmo que isso succeda. Recusar-me-hei a dar-lh'as.
Elle esbofetear-me-ha e eu matal-o-hei, porque desgraçadamente
succede-me esse precalço sempre que me bato. Não será em virtude d'esse
duello em perspectiva e da morte do visconde que as minhas palavras
deixarão de ser acreditadas, ao contrario. Mas haverá mais do que as
minhas palavras, haverá provas e testemunhas. A prova eil-a: ao entrar
vi sobre aquella mesa o seu retrato em miniatura, ao lado do
retrato do visconde. Dei-me pressa em guardal-o--para possuir uma
recordação sua. Eis o testemunho: pela manhã sahirei, não pela porta que
deita para a rua, mas pela que abre para o vestibulo. O porteiro, ao
ver-me, perguntar-me-ha sem duvida quem eu sou e d'onde venho a hora tão
matinal, e eu responder-lhe-hei que me chamo Lauretto Mina, que sou
tenor da Opera, e que saio de casa da sr.ª Laura Linda, amante do sr.
visconde de Bizeux...
--É engenhoso, mas um pouco cobarde! disse uma voz por detraz de Lauretto.
A cantora soltou um grito d'alegria.
--Antonino! disse ella.
O tenor voltou-se admirado, e viu na sua frente Antonino de Bizeux, de
braços cruzados sobre o peito, dominando-o, com a alta estatura do seu
corpo herculeo.
Na sombra do corredor, Lauretto viu Jacintha, pela porta entreaberta.
Lançou em volta um olhar assustado, como que procurando por onde fugir.
Antonino bateu-lhe pesadamente com a mão no hombro.
Laura, deitando fóra o revolver inutil, correu para o marido.
O visconde disse, dirigindo-se ao tenor:
--É triste que eu venha desmanchar as suas combinações infames.
Graças á coragem e á dedicação d'aquella pobre rapariga que me foi
chamar, eil-o preso no proprio laço que armou. Ao que parece é forte em
violentar e insultar mulheres, mas defronte d'um homem não faz tão boa
figura.
Lauretto respirava a custo sob o peso da mão de Antonino.
Apenas teve força para balbuciar:
--Senhor... estarei ás suas ordens... quando quizer...
--Na realidade? Consente em dar-me razão? Pois não sabe, miseravel, que
quando se apanha um patife da sua especie em flagrante delicto
d'attentado nocturno e de roubo... (com a mão que tinha livre procurou
na algibeira de Lauretto e tirou d'ella a miniatura de Laura, que lançou
sobre a mesa) só ha a escolher entre entregar o mariola á policia ou de
lhe pegar pelas orelhas e lançal-o pela porta fóra a ponta-pés? Não
sabe? Pois fique sabendo que n'um caso d'esta ordem o infame nunca
offende. Teria graça considerar-me eu offendido e bater-me com o gatuno
que me roubasse a bolsa!
--Ouça-me, senhor, replicou Lauretto tremendo-lhe a voz de medo, de
vergonha e de colera. Ouça-me: n'este momento estou á sua discrição, é
verdade, mas aconselho-o a que não abuse da sua vantagem.
Deixe-me sahir d'aqui sem ruido nem escandalo. Asseguro-lhe que
isso será mais conveniente não só para mim, como tambem para o senhor e
para esta senhora.
--Concede-lhe o que elle pede, meu amigo, disse Laura intervindo. Que
parta, com a raiva de ver abortado o seu crime, e que não ouçamos mais
fallar d'elle.
--Sim, sr. visconde, deixe-o partir! repetiu Jacintha do corredor, com
voz timida.
--Pois quê! Este homem fez-te passar, Laura, por angustias mortaes, fez
soffrer a essa rapariga a mais horrivel tortura moral e physica, e ha de
sahir d'aqui socegadamente para acabar na cama a noite que tão mal
começou? Ah! eu considerar-me-ia tão cobarde como elle, se lhe
concedesse a impunidade que pedem. Dizes, Laura: que parta, e que não
ouçamos mais fallar d'elle? Mas não ouves as ameaças que o biltre acaba
de pronunciar? Elle irá ámanhã dizer por toda a parte que passou a noite
aqui, que eu cheguei muito tarde! Sinto ferver-me o sangue, pensando em
tal. Se não estivesses presente, tosal-o-hia por fórma que jámais se
esqueceria d'esta noite!
E ao mesmo tempo que fallava, sacudia violentamente Lauretto, que tremia.
--Não estarei eu em frente d'um homem bem educado?... atreveu-se elle a
dizer.
--Está em frente d'um justiceiro!
--Como?... O que vae fazer?...
--O que o senhor proprio projectava.
Antonino largou o hombro de tenor, e agarrou-o pelo casaco.
--Vamos... venha!...
--Não quero!... deixe-me!... murmurou Lauretto debatendo-se em vão.
Protesto contra as suas indignas violencias!
O visconde apenas respondeu sorrindo desdenhosamente.
--Não lhe faças mal! aconselhou Laura em voz baixa.
Mas Antonino nada escutava.
Estava possuido da mais profunda colera, colera fria, que é a mais
terrivel.
Repetiu
--Vamos!... venha!...
E accrescentou, dirigindo-se á creada:
--Jacintha, alumia-nos. Sahimos pela porta do vestibulo.
Arrastou pelo corredor fóra o tenor, que empregava inoffensiva
resistencia, e chegou assim á porta que dava para o vestibulo do predio.
Jacintha seguia-o, tendo um candieiro na mão tremula.
Laura, anciosa, caminhava alguns passos mais atraz.
Desceram ao vestibulo.
Em frente do cubiculo do porteiro, o visconde gritou com voz forte:
--Sr. Durandeau! peço-lhe que se levante e abra-nos a porta.
Segurava Lauretto apenas com uma das mãos.
O tenor, de labios trementes, pronunciava ameaças e palavras indistinctas.