sahia, não se lembrava de experimentar uma tal intensidade de vida nem
tanta exhuberancia d'amor.
A sua vida e o seu amor tinham passado, na realidade, por uma terrivel
crise.
Mas a convalescença chegara.
Havia em todo o seu ser, e em todo o seu coração uma especie de
renascimento.
A força physica e o espirito augmentavam ao mesmo tempo.
Amava Laura com esperança e embriaguez, mais, muito mais, do que d'antes
a amara.
Chegando, como um provinciano, meia hora antes de começar o espectaculo,
admirou a escadaria, o _foyer_, as pinturas de Paulo Baudry, o salão!
Extasiou-se ante as _toilettes_ claras das senhoras, que sobresahiam do
vermelho do forro dos camarotes.
Maravilhou-se das columnas de marmore polychromo, do bronze dos
candelabros, do ouro dos lustres, do enorme panno de bocca purpurino,
que dentro em pouco se elevaria para lhe deixar ver Laura.
Um ruido confuso de conversação espalhou-se pela sala.
Os violinos e os baixos afinavam-se indistinctamente.
Antonino adorava aquelle sussurro, como adorava o do mar. O director da
orchestra levantou a batuta.
A opera começou.
Antonino, porém, conhecia a partitura de cór, escutava como em sonho,
apenas vagamente via passar Lauretto Mina.
Todo o seu ser esperava por Laura.
Quando, emfim, a Linda entrou, quando passou, velada, ao fundo da scena,
sentiu a louca tentação de se precipitar para o palco, e esteve prestes
a soltar um grito.
Quasi immediatamente depois, porém, voltando a si, olhou em volta para
ver se tinha chamado a attenção dos demais espectadores.
Mas não; mercê do instinctivo habito adquirido, conservára-se correcto.
A representação seguia como um encanto para o visconde.
No segundo acto a Linda foi admiravel no dueto com Marcel.
Disse a phrase
_A offensa mortal do ingrato..._
com um sentimento tão penetrante e tão meigo, que os olhos d'Antonino
marejaram-se de lagrimas.
A sua emoção, porém, foi elevada ao cumulo no recitativo de Valentina,
que abre o terceiro acto, e começa
_Estou só com a minha dor!_
Quando Laura soltou o grito doloroso:
_Meu Deus! afugentae esta lembrança fatal..._
a vibração da sua voz maravilhosa foi tão pungente e tão vivida, que não
podia deixar de ser palpavel para Antonino que era Laura quem se
lamentava e não Valentina.
O visconde sentiu, por isso, percorrer-lhe as veias uma especie de
terror gelado.
Pensou que Laura o vira na sala, que era exclusivamente para elle que
cantava, unicamente a elle que se dirigia.
Segundo as suas impressões, até então tudo se passara, por assim dizer,
entre ella e elle.
Todavia no quarto acto teve que passar por um outro genero de prova.
Depois da benção dos punhaes, Raul fica só com Valentina.
Raul, por substituição n'aquella noite, era Lauretto Mina.
O dueto sublime começou.
Aquelle trecho de musica produz o que não poderia produzir qualquer
outra arte, nem a pintura ou a poesia.
Explica, delinia, faz sentir o amor completo, o amor da alma e o amor
dos sentidos.
Ha n'aquelle dueto assombroso, com todas as dilacerações da paixão, com
todos os horrores do passado susto, todas as delicias e todos os extasis
da voluptuosidade!
E Raul era Lauretto! e Valentina era Laura!
Antonino ouvira muitas vezes a parte de Valentina cantada por Laura.
D'antes, a Linda cantava aquelle dueto com o superior talento e
_virtuosidade_ que possuia, com vigor e expressão.
Jámais, porém, a ouvira cantar com aquella paixão e embriaguez.
N'outro tempo ella comprehendia, adivinhava.
Agora sentia, recordava-se.
No espirito d'Antonino passou como que uma hallucinação extranha.
Quando viu Laura--porque, para elle, aquella mulher deixára de ser
Valentina--lançar-se, supplicante, aos pés de Lauretto--que já não
considerava como Raul--acerbo ciume se apossou d'elle.
Pouco a pouco, o admiravel jogo physionomico da Linda acabou por dar á
ficção uma realidade terrivel.
O salão, o publico, desappareceram.
Parecia-lhe que assistia, immovel e mudo, a uma verdadeira scena d'amor
entre sua mulher e aquelle homem detestado.
E no cerebro fervia-lhe, confusamente, este pensamento:
--Por grande tragica que seja, poderia Laura, se Lauretto lhe fosse
indifferente, envolvel-o em arrebatados abraços, dirigir-lhe tão
ardentes supplicas? Poderia, se não o amasse, attrahil-o e retel-o
contra o coração com tal accesso de ternura e de dôr?
Quando Laura dirigiu ao tenor o desesperado appello;
_Fica, Raul, eu amo-te!_
o visconde mordeu a mão para não gritar:
--Miseravel!
Raul parte e Valentina cae desmaiada.
Antonino, no seu _fauteil_, parecia ter desmaiado tambem.
Voltou a si aos primeiros compassos do terceto entre Valentina, Raul e
Marcial.
A presença d'um terceiro personagem bastou, caso extraordinario, para o
despertar d'aquelle terrivel pesadello, chamando-o á verdade da situação
theatral.
Os olhos viram claro.
Laura passou novamente a ser Valentina para elle.
Desempenhava superiormente o papel d'um drama, nada mais.
Se ella representava com tanto ardor e enthusiasmo, se cantava o
inegualavel dueto d'amor com tanta paixão pessoal, deixando n'elle, por
assim dizer, a sua alma, não era um tenor qualquer que ella escongurava,
que ella adorava com aquelle abandono e aquellas lagrimas, mas o homem
que amava, o homem que não via, mas que estava sempre presente á sua
imaginação, o homem que primeiro lhe revelára as alegrias celestes que
podem gosar duas almas irmãs.
E Antonino sentia agora vontade de rir da horrivel visão que tivera,
como se ri quando a luz do dia nos mostra os objectos sob as suas
verdadeiras formas, deturpadas pela illusão das trevas. Estava já
completamente senhor de si quando o panno caiu, no fim do espectaculo,
para de novo se levantar ás duas chamadas que o publico enthusiasmado
fez a Laura.
O visconde sentia-se satisfeito pela resolução que tomara, antes de
partir para Paris.
Sahiu, deu a volta ao edificio do theatro e entrou pela porta do palco,
perguntando ao porteiro onde era o camarim de _madame_ Laura Linda.
Entrou.
Ao atravessar um corredor, viu Lauretto Mina que sahia do _foyer_.
O tenor, ainda vestido de Raul, ia de certo para o seu camarim. Ao ver
Antonino, recuou admirado.
--O sr. de Bizeux! disse elle estupefacto.
Mas quasi immediatamente voltou-lhe a presença d'espirito, e
accrescentou no tom de cortezia que exasperava Antonino:
--O sr. visconde procura sem duvida _madame_ Laura Linda?... É a segunda
porta, n'esse corredor da direita. Creio que _madame_ Linda está só esta
noite.
Antonino inclinou ligeiramente a cabeça, e passou sem responder.
Logo que o viu desapparecer no corredor que lhe indicára, Lauretto
murmurou colerico:
--Delicadissimo, este neto de fidalgos! Bem, bem! Isto é para juntar ao
total!
Antonino parou em frente da segunda porta do corredor, e bateu.
Jacintha foi abrir.
Ao ver o visconde soltou um grito.
Deixou-o entrar para a especie de sala d'espera que antecedia o camarim,
para o qual correu, gritando:
--Minha senhora... minha senhora... é o sr. visconde!
Laura, de penteador de cachemira branca, entrançava o cabello diante
d'um espelho.
--O que dizes tu?... perguntou ella a Jacintha, voltando-se.
No limiar da porta viu Antonino, pallido, magro, d'olhos fundos,
phantasma de si proprio.
Conservaram-se por algum tempo contemplando-se, sem fazerem um só gesto
nem pronunciarem uma só palavra. Antonino disse por fim:
--Laura!
Depois caminhou para ella lentamente.
A Linda, indecisa, olhava-o estupefacta.
Ao chegar junto d'ella, disse-lhe em voz baixa e extraordinariamente terna.
--Minha Laura... amo-te!
Ella juntou as mãos, extasiada, e replicou:
--Meu Antonino!... És tu?... Ah! tambem eu te amo!
Lançou-lhe os braços em volta do pescoço, alegremente.
Foi longo o abraço.
Por fim Laura desprendeu-se d'Antonino, e perguntou-lhe:
--Mas porque estás n'este estado?
O visconde respondeu, sorrindo:
--Vou contar-te tudo em duas palavras. Estive, durante mez e meio, entre
a vida e a morte, mas mais proximo da morte que da vida. Ia-me matando
uma terrivel febre cerebral. Todos me suppozeram perdido. Meu pae,
afflictissimo, e de mais a mais illudido por uma abominavel denuncia
anonyma, escreveu-te uma carta, que sem duvida te magoou muito. Elle
está arrependido do que fez, e pede-te perdão. Eu, logo que estive em
estado de partir, vim procurar te. Eis-me aqui.
Quiz tomal-a nos braços.
Ella impediu-o de realisar a intenção.
Fez-o sentar n'um canapé e ajoelhou no tapete, contemplando-o com paixão.
--Estiveste quasi a morrer, meu querido Antonino, e eu estava longe de
ti! Porque não me chamaste?
--Estive muito tempo sem consciencia...
--Mas depois?
--Depois ias tu entrar para o theatro. Tinhas reclamado a minha palavra,
não quiz privar-te da liberdade promettida Não desejei ser um
impedimento, um obstaculo á vontade que tinhas de voltar para o theatro,
que é como o teu paiz natal. Álem disso, considerei-me obrigado a expiar
algumas culpas, Eras tu que tinhas rasão, Laura, n'aquella funesta noite
em que partiste. Que me importava a opinião d'estranhos? Não devia
inquietar-me com os prejuizos da sociedade. Existe, porventura, a
sociedade para o amor? A sociedade, para nós, somos nós proprios. Ama-me
como eu te amo, e nada mais te pedirei. Que me importa que ames tambem
Mozart, Beethoven e Meyerbeer? Não os amo eu tambem, principalmente por
tua causa?
--Ah! como és bondoso! disse Laura. Sim, amas-me, sinto-o! A proposito:
assististe ao espectaculo de hoje?
--Assisti.
--Não te vi, mas adivinhei-te!... Sentiste no meu canto que pensava em
ti, não é verdade? Nem por um momento me esqueces quando desempenho o
papel de Valentina, cheio de _phrases_ que parecem ter sido escriptas
para a situação d'espirito em que me encontro. Aquella musica faz-me
mal, especialmente depois que estou só, e comtudo sinto-me feliz quando
a canto! E o dueto do quarto acto? Não é verdade que o canto agora
melhor do que d'antes?
--Sim, sim, cem vezes melhor!
Laura ajuntou, collocando as mãos sobre os hombros, do marido:
--Foste tu que me ensinaste a cantar aquelle dueto!
Antonino sentiu o coração innundado d'alegria.
A segunda impressão que tivera durante o espectaculo, não o havia enganado.
Era o seu amor, que Laura cantara tão apaixonadamente.
Ella proseguiu:
--A partir d'hoje vou amar sem reserva esse afortunado papel que duas
vezes me trouxe a felicidade. Eis-te aqui, meu Antonino, és novamente
meu. Estão reunidas as duas partes da minha alma. Eu tinha, por vezes,
junto de ti, a nostalgia do theatro; mas, no theatro, tive sempre a
nostalgia do teu amor!
Em seguida contaram-se mutuamente tudo o que os interessava.
Laura estava completamente entregue á sua querida arte.
A casa da rua Boudreau era pequena demais para receber os seus amigos
d'outr'ora.
Apenas algumas vezes alli ia o dr. Despujolles, que a tratara d'uma
bronchite.
Remissy, terminado o contracto que o retinha em Vichy, partira para a
Italia, e devia passar o resto do inverno na Hungria.
Por sua parte, Antonino contava não receber ninguem nos seus
aposentos do _boulevard_ Haussmann.
Era possivel que o pae viesse vel-o, mas só muito mais tarde.
--Bem, disse Laura satisfeita, sorridente, qual é a vontade do meu
senhor e amo? Irei eu para sua casa, ou irá elle para a minha?
--Escuta, replicou Antonino, vou contar-te um sonho que tive durante os
longos dias de convalescença. É provavel que aches n'elle o quer que
seja de romanesco. Se te desagradar, dil-o com franqueza! Quebraste
bruscamente a nossa vida em commum, que talvez fosse um pouco monotona
para a tua alma d'artista. Se quizeres, viveremos agora d'outra forma.
Recuperaste a tua liberdade; como tenho plena confiança em ti,
deixo-t'a. Não serei mais teu marido, passarei a ser teu amante. Queres?
--Quero, sim, quero, porque é a verdade!
--Então nem eu irei para tua casa, nem tu te installarás na minha.
Concede-me oito dias d'espera. Durante esse tempo encontrarei e
prepararei em qualquer canto de Paris, um ninho, occulto, secreto,
apenas por nós conhecido, onde ninguem poderá surprehender-nos ou
incommodar-nos. Dar-nos-hemos entrevistas n'esse ninho, furtivamente,
clandestinamente, de noite, como quem teme a policia. De dia seremos
correctissimos. Eu irei visitar-te de tarde, e tu convidar-me-has
algumas vezes para jantar com Despujolles.
--Oh! mas isso é encantador! disse Laura.
--Agrada-te a minha idéa?
--Immenso!
--Bem! Havemos de ser muito felizes, verás. Está combinado. Chama
Jacintha. Vou deixar-te, para só te tornar a ver d'aqui a oito dias.
Necessito de todos os minutos d'esta semana para tratar da nossa
felicidade. O que me fará diminuir o pesar d'esta separação, será
lembrar-me que me occupo da minha querida Laura.
--E eu, durante esse tempo, só em ti pensarei!
Antonino levantou-se.
Laura, pegando-lhe nas mãos, disse:
--Troquemos, ao menos, o beijo dos esponsaes.
Beijaram-se longamente, ardentemente.
Depois, trocando um ultimo adeus, separaram-se.
XXIII
O amante legitimo
Em Paris, como em todas as grandes cidades, o dinheiro faz milagres.
No dia seguinte pela manhã, Antonino percorreu o bairro da Magdalena em
busca d'uma casa onde fizesse o _ninho_ promettido.
Encontrou o que desejava na rua da Arcada, a meio caminho da casa de
Laura e d'aquella em que elle vivia.
Era o rez-do-chão d'um predio de dois andares.
Ficava alguns degraus acima do nivel da rua, e tinha, além da entrada
principal, á esquerda do vestibulo, para o qual se entrava por largo
portão, uma entrada particular que abria para a rua.
A casa era composta d'um salão, d'uma sala de jantar, d'um quarto grande
e claro, cosinha e um outro quarto de menores dimensões.
Arrendado o rez-do-chão, Antonino chamou um estofador dos mais
conceituados de Paris, e depois de conferenciar com elle durante duas
horas, ficou assente que moveis e estofos guarneceriam a casa.
O estofador prometteu ter tudo concluido na tarde do setimo dia, tendo,
para isso, que trabalhar no domingo d'aquella semana. E cumpriu.
Era deliciosa a ornamentação, apesar de simples.
Na sala de jantar, forrada de coiro de Cordova, elevava-se, em dois
corpos, um aparador da Renascença, guarnecido de baixela de prata antiga
e de faianças de Ruen, Nevers e Marselha.
O fogão, de marmore de Nuremberg, era notavel pelo relevo das suas
figuras biblicas.
A mesa fôra coberta com um tapete de velludo de Gênes.
O movel principal do salão era um piano Erard, construido no esqueleto
d'um cravo do seculo XVIII, todo coberto de pinturas no genero das de
Boucher, representando a dansa d'amores e de nymphas, n'uma paisagem
celeste.
Ao fundo, as tres graças voavam para o Olympo.
A cór viva da tapeçaria que forrava o salão fazia sobresahir os quadros
que Antonino mandára vir da casa de Saint-Malo, duas paysagens de
Lancret, uma Venus de Fragonard, e um duplicado do Gilles, de Watteau,
assignado pelo mestre.
Um lago, de Julio Dupré, defrontava com um outro, visto á hora
crepuscular, de Corot.
O quarto de cama era a maior casa do rez-do-chão.
Dividiram-a, por tanto, fazendo-lhe aos lados, com divisorias, uns
gabinetesinhos de _toilette_.
O leito, do seculo XVIII, cinzento e dourado, de linhas simples, tinha
por unico ornamento, na cabeceira, dois amores sustentando um medalhão,
em que se viam dois LL entrelaçados e encimados por uma corôa.
Dizia-se que aquelle leito pertencera a Luiz XV; mas os dois LL, para
Antonino, queriam dizer Laura Linda.
Nas paredes, côr de perola e cereja, avultavam seis pannos chinezes,
bordados, representando paysagens com figuras finamente desenhadas
e admiravelmente coloridas.
Viam-se por todos os lados tapetes, da Persia do mais raro bom gosto.
Nem um só objecto que compunha a mobilia do rez do chão era de mediano
valor.
Mas, mais do que riqueza, impunha-se a elegancia e o fino gosto de quem
presidira á decoração das casas.
O estofador encarregára-se d'enviar da praça da Magdalena tudo o que
respeitasse a cosinha.
D'esta fórma apenas d'um creado necessitariam.
Jacintha estava naturalmente indicada para esse serviço.
Laura e Antonino podiam contar com a dedicação e a discrição da creada.
Ella bastaria para servir á meza e para vestir a cantora.
O visconde mandou mobilar para Jacintha o outro quarto da casa.
Como a ornamentação não destoasse da restante, Jacintha,
satisfeitissima, declarou que nunca tivera quarto mais bello.
Com um simples toque de campainha, ella estaria em tres segundos junto
de Laura, quando os seus serviços fossem necessarios.
A nova casa foi inaugurada á hora prefixa, precisamente oito dias
depois da representação dos _Huguenottes_.
N'essa noite a Linda cantava o _Roberto o Diabo_.
Antonino levou-a, com Jacintha, logo que o espectaculo terminou,
encantado,--tanto como ella, de resto,--da sua nova felicidade conjugal.
Combinaram, como regra geral, mas sem prejuiso de quaesquer outras
noites, que elles partiriam para o _ninho_ em seguida a cada
representação, quando Laura estivesse ainda vibrante da emoção que lhe
causassem os applausos, e duplamente palpitante da vida do papel que
desempenhára e da vida propria.
Antonino assignára um _fauteuil_ d'orchestra junto á scena.
Como d'antes, applaudia pouco a Linda, não juntava as suas ás
acclamações que a chamavam nos finaes d'acto.
Mas como d'antes, mais do que d'antes talvez, saboreava em silencio o
extasi em que o mergulhava a voz da mulher adorada.
Ella, pelo seu lado, não lhe sorria, não o olhava.
Mas sabia que o visconde estava proximo, conhecia a cadeira em que elle
se sentava, e como era para Antonino que cantava, jámais cantara melhor.
O visconde nunca mais sentiu ciumes de Lauretto Mina, ou de quem quer
que fosse.
Ambos se consideravam felicissimos por aquella encantadora vida,
alegre como a phantasia, doce como o habito.
O creado d'Antonino, de cada vez que o visconde não dormia em casa,
dizia que elle ficava em casa de Linda.
Os creados da cantora sempre que ella só de manhã voltava para casa,
pensavam que Laura tivesse passado a noite em casa do visconde.
Geralmente Antonino voltava para o _boulevard_ Haussmann ao amanhecer.
Laura, porém, só deixava o ninho a hora adiantada da manhã.
Sahiam e entravam sempre pela porta que abria para a rua.
O porteiro, que tinha o seu cubiculo no vestibulo do predio, nunca vira
a Linda.
De dia os dois esposos viam-se officialmente.
Passeavam de dia no Bosque, de carruagem, e á noite partiam juntos para
o theatro.
Antonino, uns dias por outros, mandava presentes a Laura: flores ou joias.
De tarde visitava-a, invariavelmente á mesma hora, e jantava com a
esposa muitas vezes.
Sempre, porém, que Laura não estava só, elle retirava-se conjuntamente
com as outras visitas, d'ordinario o dr. Despujolles, ou raros outros
amigos.
Laura recebia menos admiradores na casa da rua Boudreau, do que d'antes
na rua de Bolonha.
Reatára apenas relações com tres ou quatro admiradores mais intimos, e
que o eram tambem do visconde.
Todos elles tinham estado, n'outro tempo, mais ou menos apaixonados pela
Linda.
Mas como eram homens bem educados, e de mais a mais amigos d'Antonino,
que consideravam o amante official de Laura, não faziam a côrte á diva.
Apenas não tinham perdido completamente a coragem.
Pensavam que mais cedo ou mais tarde conseguiriam os seus fins, e
esperavam com paciencia digna de melhor sorte.
Lauretto Mina, mais indelicado que elles, não guardava a mesma reserva
nem possuia identica paciencia.
No mundo dos bastidores sabe-se tudo o que respeita a qualquer artista.
O tenor sabia portanto, a situação em que se encontravam Laura e o
visconde, e agourava bem d'essa situação.
Um dia disse á Linda, no _foyer_ dos artistas, motejando:
E então, minha querida, tinha ou não razão quando lhe dizia na ilha de
Cézambre,--lembra-se?--que o seu casamento não me parecia dos mais
serios? Os habitantes de Saint-Malo, que não primam pela finura, parece
que viram o demonio quando tiveram conhecimento de semelhante união. De
resto, acho que procedeu sensatamente definindo a sua situação. Vale
mais ter um amante certo, de que um marido duvidoso.
--Sinto-me satisfeitissima por merecer a sua approvação! respondeu Laura
no mesmo tom.
--Por esta fórma, proseguiu Lauretto, todos terão esperanças. Os que
estão apaixonados pela sua pessoa,--e eu creio que pelo menos conhece
um,--veem agora augmentar infinitamente o numero das probabilidades
favoraveis.
--Suppõe isso? Pois eu supponho que o numero de probabilidades não
augmenta nem diminue pelo facto do sr. de Bizeux ser meu marido ou meu
amante. O que influirá n'esse numero é que eu ame ou não o sr. de Bizeux.
--Perdão! o caso é diverso! insistiu o tenor.
E accrescentou, dirigindo-se ao baritono, que n'esse momento entrava no
_foyer_:
--Não é verdade, Gressier, que amando eu Laura Linda, tenho mais
probabilidades de conseguir os meus fins defrontando-me com um amante de
que tendo na frente o marido?
--Está enganado, sr. Lauretto Mina, apressou-se Laura a responder
sem dar tempo a que o baritono fallasse. Não é porque eu ame um outro
homem que não o amaria ao sr. Posso não amar ninguem, que nem por isso
lhe pertencera o meu amor.
E voltando as costas ao tenor, sahiu.
--Ah! ah! decididamente não avanças um passo, meu caro! disse Gressier,
rindo.
--Engano! respondeu seccamente Lauretto, que empallidecera
extraordinariamente. Estou quasi a attingir o meu fim, e em breve te
darei provas irrefutaveis do que avanço.
Laura, passado o primeiro momento, arrependeu-se de provocar a irritação
do tenor, respondendo-lhe por fórma a feril-o no seu amor proprio.
Agora mais do que nunca ella temia um possivel conflicto entre Antonino
e Lauretto.
Lembrava-se incessantemente das palavras, prefurantes como laminas, que
o tenor pronunciára uma noite, sentado tranquillamente junto ao fogão do
_foyer_.
Fallava-se d'um duello realisado n'aquelle dia, que tinha chamado a
attenção de toda a gente.
--Ora adeus! dissera Lauretto. As galerias facilmente se commovem pelos
duellos d'agora, que quasi sempre terminam por simples arranhaduras! Por
mim, estou resolvido a nunca provocar ninguem, e, mesmo quando
provocado, a só me bater se o insulto recebido fôr d'ordem a não
acceitar desculpas, porque eu, infelizmente, não arranho nem firo, mato.
Era por essa razão que Laura deligenciava não sentir-se offendida pelas
impertinencias que o tenor lhe dirigia por vezes.
Fingia não as comprehender, e até não as ouvir.
Ella era tão feliz!...
E aquella felicidade que gosava, prolongou-se por tres mezes, sem uma só
nuvem que a escurecel-a.
Antonino, pela sua parte, só tinha um desejo: tornar a ver seu pae.
Mas o conde, a quem o filho não quizera occultar o que elle chamava o
seu romance, não queria, por dignidade, ir a Paris emquanto durasse uma
tal situação.
--Acautella-te, escrevia elle ao visconde, occultas tua mulher como se
occulta uma amante. Acho perigoso esse teu procedimento. Não me parece
razoavel tentar o perigo, misturar o que ha de mais serio e de mais
sagrado no amor com o disfarce, com a mascara, com a aventura.
Seria isto um presentimento da fina intuição paterna?
Uma noite, pelas quatro horas da madrugada, Laura, envolvida n'um largo
manto, foi, segundo o costume, acompanhar e alumiar seu marido até á
escada que descia para a rua.
Demorou-se no patamar até que Antonino, sahindo, fechou a porta sobre si.
Ao entrar no quarto, a Linda soltou um grito.
Lauretto Mina estava sentado na cadeira de que pouco antes Antonino se
levantara.
XXIV
Jacintha
Jacintha, como já dissemos, tinha por Laura uma dedicação sem limites.
Far-se-ia matar pela cantora, e, se a diva morresse, ella não lhe
sobreviveria por muito tempo, com certeza.
O peor era que a creada não possuia apenas a fidelidade canina do
irracional.
As admoestações, as severidadese as irritações de Laura faziam-a chorar
deveras, porque possuia um bom coração.
Mas arrependia-se e não se emendava.
A Venus antiga divertia-se, ligando-se completamente áquella humilde presa.
Por infelicidade, a belleza picante de Jacintha, os seus grandes olhos
pretos e brilhantes, a tez morena e fresca d'andaluza, a cintura
delicada e o agradavel conjuncto de toda a sua pessoa, davam-lhe um
grande numero de cumplices.