O porteiro appareceu pouco depois á porta do cubiculo, em mangas de

camisa e de chinellas.

--O que suceedeu? perguntou elle vendo Lauretto. É um ladrão?

--Peor do que isso, respondeu Antonino. Este biltre introduziu-se em

minha casa com intenção de violentar a creada de quarto!

--Oh! que patife! disse o porteiro!

Depois, reparando para o rosto apavorado de Lauretto, submettido ao

pulso nervoso d'Antonino, ajuntou:

--Que cara de velhaco! Sabe quem elle é, sr. visconde?

--Sei. Chama-se Lauretto Mina, e é cantor da Opera.

O porteiro abriu a porta.

Antonino, pegando no tenor pelas espaduas, arremeçou-o para a rua.

Em seguida lançou para o passeio o chapéu e o sobretudo do tenor,

objectos que Jacintha trouxera na mão, cuidadosamente.

A porta foi fechada quasi immediatamente depois.

Lauretto, pallido pela colera, rangendo os dentes, voltou-se, e

estendendo o punho cerrado para a porta, murmurou enraivecido:

--Chegar-me-ha a vez!

E distanciou-se com passo rapido.

XXVI

O desafio

Ao entrar no quarto de sua mulher, Antonino encontrou Jacintha ajoelhada

aos pés de Laura, dizendo-lhe arrependida:

--Oh! minha senhora, perdôe-me!

Levantou a creada e contou o que ella fizera, a sua presença d'espirito,

a sua coragem.

--Sahiu, metteu-se n'uma carruagem que encontrou no _boulevard_

Malesherbes, e foi chamar-me a casa. Felizmente eu não me deitára ainda,

e vim immediatamente. Foi ella que causou todo o mal, mas devemos

confessar que foi ella tambem que tudo remediou.

Laura socegou Jacintha, consolou-a.

Pelas suas proprias mãos envolveu em algodão em rama os pulsos queimados

da creada de quarto, emquanto não podesse ser feito outro tratamento,

acompanhou-a ao quarto, deitou-a, e só a deixou quando a viu adormecida.

Voltou para junto d'Antonino.

Até então podéra conter-se, mas a reacção veiu, por fim.

Cahiu sobre um _fauteuil_ e chorou, murmurando:

--Ah! que noite! que scena!...

--Socega, minha querida Laura, disse-lhe Antonino pegando-lhe nas mãos.

Passaste uma hora terrivel, que felizmente não se repetirá. Acabou-se!

--Acabou-se! repetiu Laura abanando a cabeça. Se tudo estivesse

terminado não me sentiria eu inquieta. Comprehendo que pelo espantoso

perigo que corri tu não podesses suffocar a tua indignação. Insultaste

terrivelmente esse miseravel. Conheço-o. Lauretto não possue apenas uma

alma vil, possue tambem uma alma má. Vingar-se-ha com certeza.

--Pois suppões?... Estás enganada. Eu puni-o justamente para não ter que

o provocar. Verás que, elle tambem, não se atreverá a ser o provocador.

--E se fôr?

--Dão-se explicações d'um insulto e não d'um castigo. Recusarei bater-me

com esse homem.

--Promettes, Antonino? juras? Necessito ter a certeza... A duvida

incommoda-me sobremaneira; Tinha razão teu pae na ultima carta que te

escreveu, e me mostraste. O muito que me amas fez com que quizesses

agradar á minha phantasia d'artista, collocando-me n'um meio romanesco e

poetico, que tinha muitos encantos, mas que não era isempto de perigos.

Seriamos felizes se não houvesse invejosos e maus. Estou convencida que

foi a nossa situação equivoca que causou todo o mal.

Calou-se por instantes, como que absorvida por occulto pensamento.

Depois proseguiu:

--Lauretto ter-me-ia respeitado se estivesse certo de que eu era tua

mulher. Porque será que, amando-nos tanto, não podemos pôr d'accordo as

nossas existencias, como puzemos os nossos corações?

Novas lagrimas rolaram-lhe pelas faces.

Antonino seccou-as com beijos, esforçando-se por tranquillisar a esposa

com phrases ternas.

--Escuta, disse ella, tenho o presentimento que atravessamos uma

hora terrivel, e quero fallar-te com toda a gravidade. Tenho a

annunciar-te uma resolução seria que tomei, e uma noticia agradavel a

dar-te. A resolução é que, decididamente, renuncio ao theatro. A

noticia...--fallemos baixo!--desejava esperar alguns dias para te fallar

nisso... Mas não... não posso esperar... tenho a certeza!... A noticia é

que, o meu constante sonho de mezes e annos, vae realisar-se emfim!

Antonino, no meu ser havia duas partes distinctas: tinha, por meu pae, o

sentimento artistico, e por minha mãe o sentimento maternal. Até hoje

pareci-me com meu pae, d'hoje para o futuro parecer-me-hei com minha

mãe!

Antonino ajoelhou aos pés de sua mulher, envolvendo-a nos braços, louco

d'alegria.

--Um filho!... O nosso filho!... murmurou elle.

E cobriu-lhe de beijos as mãos.

Ella retribuiu-lhe as caricias, e continuou:

--És feliz, não é verdade? Pois bem: procede de fórma a dissipar a nuvem

sombria que, n'este momento, escurece a minha felicidade. Tens agora

novos deveres. A tua vida não te pertence unicamente, é tambem minha, é

nossa. Peço ao pae um juramento sagrado: peço-te, sob tua palavra

d'honra, que em caso algum, nem mesmo provocado por Lauretto Mina,

exporás a tua vida contra a d'esse miseravel.

Antonino hesitou.

--Sob minha palavra d'honra?... Nem mesmo provocado?... repetiu elle.

--Ah! hesitas!... disse Laura.

Elle percebeu a profunda anciedade de Laura.

Reflectiu n'um instante que uma mulher póde acreditar n'um compromisso

tomado por aquella fórma, mas que em taes circunstancias esse

compromisso não obriga um homem.

Portanto replicou:

--Não hesito. Dou-te a palavra que me pedes.

--Ah! obrigada!...

Tomou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-o na fronte.

Seguidamente começaram, cheios de confiança e de fé, a traçar o plano da

sua nova vida.

Laura desejava deixar Paris immediatamente, mas concordou que a partida,

assim precipitada, semelhava a fuga.

Demorarar-se-iam ainda quatro ou cinco dias, para regular os seus negocios.

Como estava escripturada por espectaculo, a Linda não tihha de pagar

multa na Opera.

Partiriam, depois, para Italia, onde o conde de Bizeux se lhes juntaria.

Em regra, passariam o inverno nos paizes do sul, Italia, Hespanha,

Grecia, Egypto, Algeria, e os estios em Saint-Pol-de-Léon.

Conversaram até ás sete horas da manhã.

A essa hora Antonino deixou Laura, para que ella dormisse um pouco.

Ficou resolvido que elle não voltaria mais áquella casa. O visconde

procuraria Laura, de tarde, na rua Boudreau.

Até ao dia da partida, jantariam e dormiriam ali, devendo Antonino

voltar á casa do _boulevard_ Haussmann apenas para tratar de pormenores

materiaes.

Laura adormeceu em breve, esperançosa e feliz.

Antonino, chegado que foi aos seus aposentos de rapaz, estirou-se sobre

um canapé.

Não podia conciliar o nome.

Previa, preoccupado, o que se ia passar.

Desejava lavar, com uma execução summaria, a offensa recebida,

principalmente para que o nome de sua mulher não fosse envolvido na

questão.

Entretanto, percebia que se descobrira ante Lauretto Mina, e que entre

elles o insulto e o conflicto não podia deixar de terminar por duello.

Ás onze horas o creado foi levar-lhe os cartões de Nobillet, o pianista,

e de Gressier, o baritono.

Não poude deixar d'estremecer, dando ordem para que fosse introduzidas

as visitas.

Laura tinha razão: a vida para elle duplicára de valor, desde a vespera.

Lauretto Mina escolhera aquellas testemunhas, porque tanto Nobillet como

Gressier, tinham assistido á scena de Remissy no concerto de Saint-Malo,

e conheciam um pouco os incidentes e o visconde.

Foi Nobillet quem fallou.

--Vimos da parte, do sr. Lauretto Mina, sr. visconde, disse elle. O

nosso collega assegura que vossa ex.ª o insultou esta noite,

gravemente. O nosso primeiro dever era procurar o sr. visconde para

vereficarmos se as suas explicações condizem com as do nosso

constituinte. Disse-nos o sr. Lauretto Mina que em tempo tivera relações

com uma rapariga ao serviço da sr.ª viscondessa de Bizeux; parece que

essas relações foram agora reatadas, e que elle passou a noite anterior

no quarto d'essa rapariga. Por acaso vossa ex.ª encontrou-o, e sem

razão, sem provocação da parte d'elle, agarrou-o pelo casaco como se

fôra um gatuno vil, arrastou-o para o vestibulo, indicando o nome

d'elle, por entre injurias, ao porteiro do predio, e arremessando-o

depois para a rua, com violencia. São verdadeiras estas declarações, sr.

visconde?

--Completamente...

--Vossa ex.ª pode naturalmente interpretal-as e explical-as, e nós

estamos ás suas ordens para acceitar os esclarecimentos com que quizer

honrar-nos.

--Nada tenho que explicar, replicou Antonino. Encontrei o sr. Lauretto

Mina sahindo do quarto da creada da minha mulher, na casa que ella

habita. Irritei-me e pul-o fóra.

--Vossa ex.ª disse em voz alta que elle tinha violentado a rapariga. O

sr. Lauretto Mina affiança que não houve a menor violencia.

--Ignorava e ignoro esse facto.

Nobillet proseguiu:

--Ser encontrado no quarto d'uma mulher, ainda que ella seja creada, não

é deshonra para um homem. Para que vossa ex.ª se irritasse até á

indignação e á violencia, por um facto que realmente não tem gravidade,

de certo houve razões estranhas a esse mesmo facto. Somos homens

honrados fallando com um homem honrado, sr. visconde; esperamos, pois,

que nos julgue capazes d'apreciar e comprehender essas razões.

Nobillet e Gressier adivinhavam que havia um mysterio em todo aquelle

negocio.

Nem um nem outro tinha grande consideração pelo caracter de Lauretto

Mina, de quem conheciam os terriveis antecedentes de duellista.

Comtudo não tinham podido recusar-se a servir-lhe de intermediarios na

conclusão do conflicto.

Entretanto esperavam que o visconde lhes fornecesse uma razão ou ao

menos um pretexto para declinar a sua penosa missão.

Desejavam pois que Antonino pronunciasse uma só palavra n'esse sentido.

O visconde, porém, limitou-se a responder:

--Agradeço-lhes os termos delicados com que expozeram a questão. Sinto a

mais alta consideração por vossas ex.as, mas não só posso dar do meu

procedimento outras razões além das que já conhecem, porque não

existem.

As duas testemunhas olharam-se consternadas.

Depois Gressier disse:

--Observar-lhe-hei, sr. visconde, que se o sr. Lauretto Mina o não

offendeu tambem, é elle que deve considerar-se offendido, tendo,

portanto, o direito de exigir ou desculpas ou uma reparação pelas armas.

--Não estou disposto a pedir desculpas, disse Antonino com voz firme. De

resto supponho que não seriam acceites.

--É claro que, reconhecendo-lhe a qualidade d'offendido, deixa-lhe a

escolha das armas... disse Gressier.

--E sei antecipadamente que elle escolherá o sabre, respondeu Antonino,

sorrindo.

E levantando-se, accrescentou:

--Mais uma vez lhes agradeço, meus senhores, a sua delicada intervenção,

e a fórma correctissima do seu procedimento. Terei a honra de os pôr em

relações com dois dos meus amigos, os srs. conde de Bauriac e barão de

Chazeuil. Procural-o-hão esta tarde em sua casa, sr. Nobillet.

Os tres cumprimentaram-se com silencio.

O visconde acompanhou-os até á escada.

Cumprimentaram-se novamente, e as duas testemunhas desceram, mais

inquietas que o proprio visconde.

XXVII

Preliminares

Antonino, voltando para o interior da casa, disse apenas de si para

comsigo:

--Era fatal este resultado!

E principiou immediatamente, com a mais perfeita tranquillidade, a tomar

as suas disposições.

Em primeiro logar expediu um telegramma a seu pae, dizendo-lhe que

tinha, no dia seguinte, um duello grave, e pedindo-lhe para tomar o

expresso da noite, que o devia trazer á capital pelas oito da manhã.

A essa mesma hora deixaria sua mulher na casa da rua Boudreau, e

encontrar-se-ia com o conde, nos seus aposentos do _boulevard_ Hausmann

ás nove horas.

Desejava que, em caso de fatalidade, o conde estivesse junto de Laura.

Em seguida foi para casa do conde de Bauriac, d'onde mandou chamar o

barão de Chazeuil, que morava proximo, na rua dos Campos Elyseus.

Os tres conferenciaram em seguida sobre o duello em perspectiva.

O conde de Bauriac, entendedor na materia, disse, movendo a cabeça com

ar preoccupado:

--Um duello com Lauretto Mina tem um caracter extremamente excepcional.

Esse homem, em dois duellos que teve, matou um dos adversarios, e feriu

gravemente o outro, que só escapou por milagre. Jámais foi possivel

explicar e justificar os botes que lhe valeram esta dupla e sangrenta

victoria. Em virtude da rapidez do ataque, ninguem viu como os botes

tinham sido vibrados. Conheço a sua força ao sabre, meu caro visconde, e

vel-o-ia, sem inquietação, bater-se com os melhores esgrimistas. Mas

considerando a fórma... italiana de Lauretto, todas as cautellas são

poucas. A nossa responsabilidade, como testemunhas d'este duello é

duplamente seria. Não se trata de regular o negocio, ou de apresentar

desculpas; mas, emfim, deve haver, e ha com certeza, no conflicto

apparente, razões occultas, que eu não lhe perguntarei. Nós sabemos,

Chazeuil e eu, que o meu amigo é corajoso como poucos. Encarregue-nos de

dizer ás testemunhas de Lauretto Mina que se recusa a dar-lhe

explicações, e nós acceitaremos a missão satisfeitissimos, não é

verdade, barão?

Chazeuil respondeu com um gesto affirmativo.

--Agradeço-lhes a confiança que em mim depositam, replicou Antonino, mas

não posso nem devo acceitar o seu offerecimento. Insultei esse homem,

sabendo bem quem elle era, e conhecendo o risco que corria. Se eu

recusasse a bater-me hoje, elle ámanhã offender-me-hia por fórma que

fosse então inevitavel o duello. Minha mulher não desconfia agora que eu

fui desafiado, e podia ser informada do novo conflicto que se daria de

futuro. Peço-lhes, pois, que me deixem terminar este negocio sem perda

de tempo.

--Estamos á sua disposição, disse o conde de Bauriac. Tem algumas

instrucções a dar-nos?

--Não. Desejo apenas que o duello se realise, sem falta, ámanhã ás onze

horas. Meu pae só chega ás oito, e eu tenho que fallar-lhe.

Ficou combinado que os dois iriam buscar Antonino, á casa do _boulevard_

Hausmann, pelas dez horas da manhã.

Pouco depois d'Antonino sahir, entraram as testemunhas de Lauretto Mina.

Estavam ainda mais perplexos do que de manhã.

Gressier, sobretudo, não podia occultar a inquietação de que estava

possuido.

Quando o conde de Bauriac lhe disse que era inevitavel o duello, o

baritono fez um gesto de profundo desgosto.

É que Lauretto rira diabolicamente quando elles lhe tinham dito que o

visconde acceitava o desafio.

Gressier lembrou-lhe o que o tenor d'uma vez dissera no _foyer_ dos

artistas:

--N'um duello eu não arranho nem firo, mato. E ajuntou:

--Aquella sua phrase de certo foi simples modo de fallar, meu caro. Sem

duvida não teremos que temer ámanhã um resultado tão tragico.

--Está enganado! replicou Lauretto, com sorriso feroz. Hei de matar o

visconde! Hei de matal-o!

Gressier estremecera violentamente, por tal fórma Lauretto pronunciára

as ultimas palavras.

Quando entrou em casa do conde de Bauriac, o baritono estava ainda sob o

peso d'aquella desagradavel impressão.

O barão de Chazeuil reparou para o gesto de Gresnier, e disse:

--Não me parece que seja caso para temores. O sr. Lauretto Mina é um

adversario para respeitar... como esgrimista, bem entendido, mas o sr.

visconde de Bizeux saberá defender-se, com certeza.

Os infelizes artistas temiam as responsabilidades que pesam sobre as

testemunhas de duellos que occasionam a morte, e desejavam encontrar um

meio que os levasse a não continuar com as negociações.

Quando se tratou de resolver que sabres serviriam o conde de Bauriac

disse, segundo o costume, que a sorte decediria.

Nós acceitamos sem o mais leve inconveniente os sabres do sr. visconde

de Bizeux, disse Nobillet.

--O sr. Lauretto Mina não ratificaria a sua concessão, observou o conde.

--N'esse caso retirar-nos-iamos, replicou Gressier apressadamente.

O conde viu-se obrigado a conter aquelle ardor... d'abstenção,

affirmando que não poderiam ser censurados por tomar a sorte como arbitro.

Foi resolvido que o duello se efectuaria no bosque de Bolonha.

O barão de Chazeuil indicou uma clareira, sobre o mappa.

Encontrar-se-iam n'aquelle sitio pelas onze horas do dia seguinte.

Gressier e Nobillet retiraram-se, porque nada mais tinha que ser combinado.

Durante esse tempo Antonino fôra a casa do dr. Despujolles, que deu um

salto ao saber que o visconde se batia com Lauretto.

Depois, readquirindo a presença d'espirito, disse:

--Lá estarei com os meus instrumentos, mas, não sei porque, estou

convencido que elles não servirão ao meu amigo. Já o vi de sabre em

punho; ia affiançar em como dará uma lição ao ajudante do professor

d'esgrima. O que é necessario é que não se distraia.

Antonino quiz que o doutor o acompanhasse a jantar em casa de Linda.

Despujolles, porém, pretextando affazeres, mas na realidade por temer

não estar sempre de bom humor, desculpou-se de não acceitar o convite.

O visconde, que não desejava estar só com sua mulher, ao sahir de casa

de Despujolles procurou e convidou dois amigos para jantar.

Chegando a casa, disse a Laura:

--Encontrei Heitor e Linage; jantarão comnosco.

--Desejava antes jantar só comtigo.

E depois, olhando fixamente para o marido, perguntou:

--Nada de novo sobre Lauretto Mina?

--Nada. O biltre nem bulio, respondeu Antonino.

O jantar correu alegremente.

A fatalidade, porém, quiz que, pelas dez horas da noite, quando o

visconde acompanhava os dois amigos até á porta, Jacintha lhe entregasse

um telegramma.

Antonino voltou para junto da esposa.

Ella viu o carimbo de Saint-Malo, e estremeceu.

--É um telegramma de teu pae? perguntou.

--Ah! sim, é verdade. Escrevi-lhe sobre a nossa proxima mudança de vida.

Elle ficou satisfeitissimo e participa-me que vem ver-nos. Chega ámanhã,

talvez...

--Deixa ver... disse Laura estendendo a mão para o telegramma.

--Curiosa!... respondeu elle, rindo.

Fez uma bola com o papel, e lançou-o ao fogão.

Laura pensou immediatamente:

--Bate-se ámanhã com Lauretto Mina.

Mas ao mesmo tempo reflectiu que coisa alguma impediria, que os seus

pedidos e as suas lagrimas podiam dessocegar Antonino, e resolveu calar-se.

--Em que pensas? perguntou-lhe elle.

--Penso que teu pae será um magnifico avô.

E não fallaram mais senão no pae e no filho.

No dia seguinte o visconde levantou-se cedo.

Ás oito horas estava prompto para sahir.

Laura deu-lhe um beijo tranquillo, e limitou-se a recommendar-lhe:

--Volta depressa, pensa em mim e n'elle!...

O visconde calculou:

--Não desconfia de nada!

E Laura dizia para comsigo:

--Não suppõe que eu adivinhei tudo!

XXVIII

O duello

A entrevista entre o pae e o filho foi grave e terna.

Antonino não dissimulou o perigo que corria, batendo-se com um

adversario tão habil como pouco escrupuloso.

O conde disse-lhe com toda a energia viril:

--Como conheces o perigo e conservas, apesar da imminencia d'elle, toda

a tua presença de espirito, tens por ti o maior numero de probabilidades.

Antonino não necessitava recommendar Laura a seu pae.

Participou-lhe apenas a feliz nova da gravidez da sua mulher.

O conde abraçou o filho, dizendo:

--Mais uma probabilidade a teu favor.

O visconde entregou-lhe uma carta volumosa, especie de testamento de

coração, que dirigia a sua mulher.

O primeiro a chegar, um pouco antes das dez horas, foi Despujolles.

O dr. não podia occultar a sua inquietação.

Pouco depois chegaram as duas testemunhas e o seu aspecto socegado

reanimou um pouco Despujolles.

Antonino subiu para uma carruagem com seu pae.

As testemunhas e o medico subiram para outra.

O conde desejava assistir ao duello, ainda que conservando-se

completamente estranho a elle.

O dia estava ennevoado, e, para a estação, um pouco frio.

Ligeira neblina envolvia as arvores. No espaço passava como que uma

nuvem de melancholia.

As duas carruagens chegaram á clareira destinada ao duello um pouco

antes das onze horas.

As testemunhas e o adversario d'Antonino não tinham chegado ainda. O

conde não se apeiou.

Apertou com força a mão do filho, quando Antonino desceu, e não

pronunciou uma só palavra.

Pouco depois, porém, quando o conde de Bauriac foi buscar os sabres, o

velho, que tremia, não conseguiu entregar as armas á testemunha de seu

filho, tanta era a sua commoção.

A carruagem conduzindo Lauretto Mina, as testemunhas e o medico do

theatro não se fez esperar.

As quatro testemunhas approximaram-se com os chapeus nas mãos.

Os dois adversarios olharam-se sem se cumprimentar.

No rosto de Lauretto percebia-se uma alegria arrogante.

O d'Antonino conservava-se impassivel e digno.

Nobillet e Gressier, noviços e quasi incorrectos em assumptos d'aquella

natureza, deixaram que Bauriac e Chazeuil fizessem o que entendessem.

A escolha das armas foi tirada á sorte, conforme tinham convencionado.

A sorte designou os sabres de Lauretto Mina.

Depois de procederem á medição das laminas, o conde de Bauriac disse

para os dois adversarios:

--Podem conservar as luvas de passeio, se quizerem.

Mas tanto Antonino como Lauretto tinham já descalçado as luvas.

Despiram os sobretudos e os casacos.

As quatro testemunhas tomaram os respectivos logares.

--Vamos, meus senhores, disse Bauriac.

Os dois adversarios cumprimentaram-se com os sabres, e cahiram em guarda.

Nos primeiros minutos como que se tactearam indecisos.

Depois deram a conhecer o jogo.

Antonino, solido e como que de bronze, conservava-se evidentemente n'uma

calculada defensiva.

Prudente e desconfiado, seguia e vigiava o jogo de Lauretto,

contentando-se com _parar_, rapido, mas tranquillo e frio, os botes do

adversario.

O brilho do seu olhar implacavel causava perturbações ao tenor.

Lauretto, ao contrario do visconde, esgremia com extraordinaria presteza.

Parecia desconcertar-se, e até por vezes se descobria.

Simulava ataques imprudentes, mas coisa alguma fazia com que o visconde

mudasse de tactica.

O tenor, pouco depois, estava visivelmente cançado.

Gotas de suor perlavam-lhe a fronte larga, onde os cabellos, d'um loiro

pallido, ondeavam.

O assalto durava já por vinte minutos, quando Bauriac disse:

--Podem descançar, meus senhores.

Lauretto vestiu o sobretudo.

O visconde conservou-se em mangas de camisa, com os braços cruzados

sobre o peito.

Ao cabo de sete ou oito minutos, o barão de Chazeuil, olhando para

Lauretto, disse-lhe:

--Quando quizer.

Ao segundo assalto, o tenor continuou não tendo vantagens sobre o visconde.

Perguntava a si proprio se o plano d'Antonino não seria esgotar-lhe as

forças, sem duvida menos resistentes do que as do athletico bretão. Mas

se assim fosse o duello devia prolongar-se por muito tempo sem resultado

definitivo, porque os momentos do descanço que as testemunhas

concederiam aos combatentes bastavam para Lauretto se refazer.

Depois de muitos minutos passados, foi ainda Bauriac quem disse:

--Podem descançar.

O segundo descanço foi apenas de cinco minutos.

Lauretto tinha quasi a certeza que Antonino atacaria n'aquelle terceiro

assalto, para pôr fim ao duello.

Portanto começou a esgrimir com toda a presteza, como fizera ao principio.

Dirigiu um bote ao visconde, mas Antonino _parou-o_ e _ripostou_ com

energia.

Depois conservaram-se por alguns segundos immoveis, espiando-se,

tacteando os ferros, com sensivel crescimento d'irritação mutua.

Repentinamente Antonino fez um movimento e cahiu a fundo, com a rapidez

do raio.

Lauretto _parou em prima_ e _ripostou_.

Foi tão rapido o jogo do tenor que o visconde não teve tempo de _parar_

e foi _tocado_..

Ao mesmo tempo, porém, com um bote fortissimo, Antonino attingiu

Lauretto, trespassando-o.

O visconde cahiu desmaiado, e o tenor cahiu morto.

Despujolles precipitou-se para Antonino, e descobriu-lhe o ferimento.

--Justamente a duas polegadas da cicatriz feita por Pozzoli! disse o dr.

O conde de Bizeux correu, afflicto, mas Despujolles gritou-lhe:

--Socegue! d'esta vez o ferimento não é grave! D'aqui a oito dias está

curado!

Durante esse tempo o medico do theatro constatava a morte de Lauretto

Mina, que Nobillet e Gressier, aterrados, transportaram para a carruagem

que os conduzira.

Duas horas depois a carruagem d'Antonino parava á porta da casa da rua

de Boudreau.

Despujolles foi o primeiro a descer, para prevenir Laura. Logo que

abriram a porta, ella correu para o medico.

Felizmente, porém, o aspecto de Despujolles indicava uma alegria

extraordinaria.

O Romance d'uma cantora · 第 13 / 14 段