Tomado um partido, abriu uma porta que dava para o escada de serviço, e,

pegando n'uma vela, subiu ao quarto de Jacintha.

O quarto estava vasio!

Jacintha nem mesmo abrira a roupa da cama.

Laura, ante este contratempo, ficou indecisa por momentos.

Depois, fazendo um gesto de resolução, desceu ao seu quarto novamente.

Davam quatro horas n'um relogio da casa.

Vestiu apressadamente uma _toilette_ de viagem.

Logo que terminou, sentou-se á mesa, e escreveu a seguinte carta,

precipitadamente:

_Antonino_

Reclamo de ti a palavra dada.

Volto para o theatro.

Parto sem te ver.

Temi a tua resistencia e a minha fraqueza.

Evito assim, a ambos nós o desgosto da despedida.

A vida, no seio d'uma familia que me repelle e d'uma sociedade que me

despresa, era para mim impossivel.

Aqui te deixo as ultimas palavras que o meu coração te envia:

Amo-te, Antonino, amo-te muito! Não posso continuar vivendo comtigo

uma vida que me incommodaria, mas espero e peço-te que me dês a

felicidade de viver commigo a minha vida passada.

Sou e serei sempre tua

_Laura._

XXI

A fuga

Laura perguntou a si mesma se fazia bem abandonando á sua sorte essa

louca inconsciente, Jacintha.

Pensou:

--Devo deixar aqui toda a especie d'affeição?

Lembrou-se da dedicação cega que Jacintha tinha por ella, dedicação que

a levaria a lançar-se ao mar, quando soubesse que Laura a tinha deixado.

Depois de reflectir, resolveu-se.

Escreveu em meia folha de papel algumas palavras a Jacintha, e foi ao

quarto da creada collocar o papel sobre uma mesa.

Recommendava-lhe que de manhã tomasse, o mais occultamente que lhe

fosse possivel, o comboio de Paris, que partia ás oito e meia.

Logo que chegasse á capital, procural-a-hia no Grande Hotel,

designando-a por _madame_ Linda.

A Marieta, a outra creada, recommendava Laura que lhe enviasse, para o

Grande Hotel tambem, os vestidos e de mais roupas do seu uso.

Ao escrever estas recommendações, Laura pensava:

--Por esta fórma saberá Antonino onde encontrar-me.

Isto feito, metteu n'uma pequena mala o dinheiro que possuia, joias,

cartas, alguns objectos insignificantes,--pura recordação,--e outros

essenciaes.

Depois olhou tristemente, correndo-lhe as lagrimas pelas faces, para

aquelle quarto, onde, apesar de tudo, passara horas tão felizes.

Foi appoiar a fronte, que abrasava, ao vidro frio da janella.

Uma claridade, baça ainda, envolvia a cidade e estendia-se sobre as

aguas da bahia.

As ondas tomavam reflexos cinzentos.

Os pharoes distantes picavam de pontos avermelhados a meia obscuridade,

e desappareciam pouco a pouco na claridade livida, em que as ultimas

estrellas se perdiam.

Os pombos voavam dos beiraes para as ruas.

No azul pardacento do ceu destacavam-se as velas dos barcos, que

manchavam a côr d'ardosia do mar.

Laura saccudiu bruscamente a cabeça.

Parecia querer, com aquelle movimento, afugentar os pensamentos que a

torturavam.

Retirou de sobre a mesa tudo o que n'ella havia, para que a sua carta

para Antonino ficasse bem em evidencia.

Poz um chapeu de côr escura, um veu espesso, e embrulhou-se n'uma capa

cinzenta.

A escada de serviço, que subia até ao quarto de Jacintha, descia para a

rua, do lado da casa opposto ao mar.

A porta estava sempre fechada por um ferrolho interior.

Laura abriu a porta do seu quarto com toda a precaução, caminhando na

ponta dos pés, para abafar o ruido dos passos, porque o quarto

d'Antonino, separado do d'ella apenas por um corredor, tinha tambem uma

porta para aquella escada.

No patamar parou por um minuto.

O coração batia-lhe apressadamente. Escutou.

Antonino não estava deitado.

Laura ouvia o ruido dos passos d'elle.

Passeiava vagarosamente.

A Linda esteve quasi a entrar no quarto do marido, lançando-se-lhe nos

braços.

Resistiu á tentação.

Enviou-lhe apenas, com as pontas dos dedos, um beijo silencioso, e

principiou a descer lentamente, sem fazer o menor ruido.

Um dos degraus gemeu sob o peso.

Teve medo.

Com um movimento ligeiro saltou os tres ultimos degraus, cahindo sobre o

tapete que havia ao fim da escada.

Levantou-se, abriu cautellosamente o ferrolho, descerrou a porta e sahiu

para a rua.

O ar frio da madrugada fez-lhe bem.

Dirigiu-se para o caes, atravessando as ruas estreitas e tortuosas da

velha cidade.

Um relogio dava cinco horas n'uma torre proxima.

Os carpinteiros, os pintores e os calafates, caminhavam em grupos,

dirigindo-se ao trabalho.

As mulheres das hortas proximas, sentadas sobre os burros carregados de

legumes e hortaliças, chegavam do campo, em cavalgadas alegres, rindo

alto, e dirigindo, umas ás outras, os velhos motejos gaulezes, para

attrahirem a attenção dos homens que encontravam.

Laura percebeu que todas aquellas mulheres a olhavam curiosamente, e

ouviu, ao passar, os seus commentarios licenciosos.

Quando chegou á _gare_ era dia.

O comboio expresso da manhã partia ás cinco e meia.

Tomou um compartimento completo, e foi sentar-se para a sala d'espera,

pensativamente.

Estava como que alheiada do que se passava em volta d'ella, quando o

silvo da locomotiva a chamou á realidade.

Faltavam apenas cinco minutos para a partida do comboio. Entrou

apressadamente na _gare_.

De repente estremeceu.

A primeira pessoa que viu foi Lauretto Mina, fumando no seu charuto.

Ao vel-a, o tenor dirigiu-se a Laura e disse-lhe, um pouco admirado:

--Parte para Paris, Linda?

--Parto, respondeu ella, continuando a caminhar para a sua carruagem.

Mas logo em seguida perguntou:

--Remissy não parte agora?

--Não, respondeu o tenor caminhando ao lado da sua interlocutora. Está

muito fatigado. Deve seguir no comboio do meio dia. Eu parto, porque

necessito fallar esta noite com o director da Opera, sem falta. Quer que

lhe falle de si, ou, como não podia dizer em Saint-Malo que a senhora

era a Linda, ser-me-ha interdicto dizer em Paris que a Linda é a

viscondessa de Bizeux?

--Proceda como entender...

Chegou ao compartimento que tomára.

Ao abrir a portinhola, o tenor disse-lhe:

--Mas diga-me, _cara mia_...

--Senhor, respondeu Laura com dignidade, já nos cumprimentámos. Como vê,

estou só e o senhor é um homem sufficientemente bem educado para não me

acompanhar por mais tempo.

E subiu lestamente para a carruagem.

Lauretto cumprimentou-a, mordendo os labios.

Deitou fóra o charuto e tomou logar n'outra carruagem, murmurando por

entre dentes:

--Tu me pagarás, vibora!

Quando o comboio estava proximo da estação de Dol, o tenor escreveu

algumas palavras a lapis n'uma folha da carteira, rasgou essa folha, e,

logo que o comboio parou na estação, apeiou-se, chamou um empregado a

quem entregou o papel e uma moeda de cinco francos, dizendo apenas:

--Para o telegrapho.

O telegramma era concebido da seguinte fórma:

_Visconde de Bizeux.--Saint-Malo._

Vi no expresso de Paris a Linda e Lauretto Mina.

_Um amigo._

Antonino, estendido sobre o divan do quarto, dormia um somno pesado,

respirando a custo.

Um pouco antes das nove horas, o criado entrou, apesar do visconde não

ter chamado.

Antonino acordou ao ruido feito pela porta ao abrir-se. O criado disse:

--Perdão; o sr. visconde não chamou, mas como este telegramma chegou ha

mais de uma hora, pareceu-me conveniente trazer-lh'o.

O marido de Laura esfregou os olhos injectados de sangue, e abriu o

telegramma.

Leu e soltou um grito estridente.

Depois, cambaleando como um ebrio, abriu a porta que dava para o

corredor de communicação que percorreu, entrando no quarto de sua mulher.

O leito estava intacto.

Sobre a mesa viu a carta que Laura deixára.

Pegou-lhe, quiz abril-a, mas o papel cahiu-lhe das mãos tremulas.

Agitou os braços no espaço, e cahiu como uma massa inerte, fulminado por

uma congestão cerebral.

XXII

Uma representação dos «Huguenottes»

O cartaz da Opera annunciava para aquella noite os _Huguenottes_,

cantando a Linda a parte de Valentina.

Lauretto Mina desempenhava o papel de Raul, em substituição do primeiro

tenor, que adoecera.

Pelas seis horas e meia da tarde, Antonino de Bizeux, um pouco pallido e

magro, apoiando-se á bengala, entrava n'uma das agencias theatraes então

recentemente abertas nos _boulevards_, e comprava um _fauteuil_

d'orchestra, que pagou por trinta francos, ou fosse o dobro do preço da

casa.

Tinham-se passado tres mezes menos alguns dias, desde que Laura

abandonara a casa do caes de Saint-Malo, e durante todo esse tempo, a

Linda só tivera noticias indirectas e incertas de seu marido.

Cinco dias depois de chegar a Paris recebera,--_enviados por Marieta

Dauvin_,--seis grandes volumes contendo, não só os vestidos e demais

roupa do seu uso, como tambem os moveis que guarneciam o seu quarto, e

que provinham, quasi todos, da sua antiga casa da rua de Bolonha.

Nem uma carta, nem uma só palavra, acompanhava a remessa. Laura sentiu

profunda anciedade.

O que significava aquelle silencio?

N'um primeiro movimento de inergia resolvera quebrar a cadeia que a

prendia e que achava pesada, e fizera-o immediatamente, sem hesitar, sem

reflectir.

Agora estava livre.

Todavia, essa liberdade, inquietava-a e consternava-a.

Em Saint-Malo tinha saudades da sua querida arte, em Paris recordava-se,

saudosa, do seu amor.

O director da Opera, prevenido por Lauretto da volta da Linda,

pedira-lhe uma entrevista.

Laura respondeu-lhe que esperasse por alguns dias.

Addiava, por instincto, a sua conversação com o emprezario, que de certo

a queria contractar.

Lia todas as manhãs o _Correio de Saint-Malo_, que mandava comprar á

agencia Havas.

Se qualquer facto se passasse em casa do conde de Bizeux,--uma partida,

um accidente imprevisto--encontraria a noticia n'aquella folha local.

Mas nada se passava, com certeza, porque o nome de Bizeux, que ella

procurava todos os dias com o olhar, avidamente, nem uma só vez foi

mencionado pelo jornal.

A quem devia dirigir-se? A quem escrever?

Na Bretanha vivera sempre retirada, pensando apenas em Antonino.

Essa circumstancia fez com que não se relacionasse intimamente com

pessoa alguma.

Ao cabo de dez dias não poude conter-se, e escreveu ao proprio Antonino.

Entre outras coisas dizia-lhe o seguinte:

«Porque guardas silencio? Não recebeste a carta que te deixei? Não

comprehendeste, por ventura, o grito d'amor com que a terminei?

Responde, peço-te! Responde, ainda que seja colerica ou desdenhosamente.»

Depois supplicava ao marido que só escrevesse uma palavra, uma só, que

podesse allivial-a da terrivel angustia em que vivia.

Dois dias depois recebeu uma carta com o carimbo do correio de Saint-Malo.

Rasgou o sobrescripto e procurou a assignatura.

A carta era do conde de Bizeux.

Escrevia o pae d'Antonino:

Minha senhora:

Não é o filho que lhe responde, é o pae, é o chefe da familia que a

senhora abandonou tão bruscamente, tão cruelmente, e na qual deixou a

desolação e o lucto.

Esse chefe de familia não lhe dirigirá, comtudo, a mais leve censura,

nem em seu nome, nem em nome do filho.

Desejou ser livre _para voltar para o theatro_. Satisfez o seu desejo,

está livre.

Nós desejamos, apenas, ter a liberdade de soffrer em silencio, sem que

nos importune quem quer que seja.

Só lhe pedimos uma coisa: é que nos deixe esquecer, e esqueça o passado.

_Augusto, conde de Bizeux._

Laura offendeu-se pela frieza e rispidez que d'aquella carta transparecia.

Nem Antonino se dera ao incommodo de lhe responder!

Era o pae que intimava á fugitiva aquella especie de sentença, com ares

de juiz justiceiro!

O que houvera no seu procedimento de tão reprehensivel e criminoso que

justificasse uma tal attitude?

Se ella na realidade fosse uma mulher culpada, se tivesse trahido e

deshonrado seu marido, d'accordo que a tratassem por aquella fórma!

Teria provocado a colera de toda a familia d'Antonino, e até o despreso

geral, se assim fosse.

Mas a verdade era que o seu procedimento, uma vez que estava dentro das

leis estabelecidas, não podia ser julgado com tanta severidade por seu

sogro ou por seu marido.

A injustiça, elevada ao excesso d'injuria, revoltou o espirito nobre e

altivo de Laura.

A sua consciencia e o seu coração diziam-lhe que não merecia ser tratada

de semelhante modo.

Resolveu, pois, por muito que a penalisasse uma tal abstenção, guardar o

mais completo silencio, para que a sua dignidade não soffresse a menor

quebra.

Foi então, e só então, que marcou o dia para a entrevista que o director

da Opera solicitára.

O emprezario queria escriptural-a.

Laura recusou em absoluto um contracto de longa duração, apezar das

magnificas condições que lhe offereciam.

Não desejava prender-se por muito tempo, e por isso só acceitou o

contracto por um limitado numero de representações.

O director da Opera, apesar d'uma escriptura n'aquellas condições ir

alterar o seu plano d'exploração theatral, curvou-se á imposição de

Laura, e acceitou.

A Linda arrendou então, na rua Boudreau, a dois passos da Opera, um rez

do chão modesto, que mobilou com simplicidade e bom gosto, aproveitando

os moveis que lhe tinham enviado de Saint-Malo.

Além de Jacintha, tomou, para a servirem, um creado, homem de cincoenta

annos, casado; a mulher do creado, velha tambem, passou a desempenhar as

funcções de cosinheira.

Tres dias depois de receber a carta do conde estava installada na sua

nova casa, satisfeita, na sua dôr e no seu isolamento, de sentir-se,

pelo menos, senhora absoluta das suas acções.

Ostensivamente parecia alegre, mas intimamente o desgosto minava-a.

Não lhe teria produzido tão doloroso effeito a carta do conde, se

soubesse em que circumstancias o velho fidalgo a escrevera.

Oito dias depois da congestão o ter prostrado, ainda Antonino não

percebia o estado em que se achava.

A doença aggravara-se dia a dia.

Nem um só dos muitos medicos chamados deixou d'opinar que elle estava

condemnado.

A robustez da sua constituição fazia augmentar a violencia da doença

D'hora para hora, de minuto para minuto, o pobre pae suppunha que ia

perder o filho unico, a quem tanto amava.

Foi n'este paroxismo de magua paterna que chegou a carta dirigida por

Laura a Antonino.

O conde, para estar ao facto do que succedera, tinha aberto a carta que

a nora deixára em casa, á partida.

Abriu, portanto, a que chegou de Paris, pela mesma razão.

D'aquellas duas cartas transpirava um affecto immenso.

Mas quem garantia ao fidalgo que Laura não mentia?

Lera tambem o telegramma de Lauretto Mina, que fôra como que um

punhal a enterrar-se no coração d'Antonino.

Seu filho acreditára no que dizia o telegramma.

Que razão tinha o conde para não acreditar tambem?

Mas, culpada ou não, Laura era a causadora unica da morte do seu filho.

O conde não era juiz, era pae.

Escrevera sem medir o alcance das palavras, respondera o que a sua

indignação lhe inspirára.

Laura matava-lhe o filho; não podia deixar de detestar, d'amaldiçoar

essa mulher.

A crise, que para todos era agonia, prolongou-se ainda por mais duas

semanas.

Durante todo esse tempo Antonino não reconheceu pessoa alguma.

O delirio não o abandonára um só instante.

Mas a prolongação da doença passou a significar esperança.

Ao vigessimo quinto dia os medicos disseram:

--É possivel salvar-se.

Quinze dias depois accrescentaram, emfim:

--Está salvo!

Effectivamente Antonino pareceu ter, n'esse dia, alguma consciencia de

si mesmo. Apertou ao de leve a mão da irmã, que estava sentada junto ao

leito.

Depois, olhando em torno ao quarto, murmurou com voz enfraquecida:

--Laura?...

Felizmente o pensamento era ainda vago e fraco.

Em seguida áquelle esforço, Antonino recahiu de novo n'uma somnolencia

pesada, que era a sua salvação.

A natureza, essa maravilhosa enfermeira, só lhe fez recuperar

completamente a razão, quando o doente estava em estado de já poder

supportar a verdade.

Recordou-se de tudo.

Laura, a sua Laura, que nos accessos febris nem um momento deixava de

chamar, não estava alli, abandonára-o.

Porque?

Quando?

Ah! sim, recordava-se... fôra uma manhã...

Mas ella fugira só?

Accudiu-lhe á memoria o fatal telegramma...

Mas ao mesmo tempo lembrou-se d'uma carta,--d'uma carta d'ella!--que não

tivera tempo d'abrir.

Interrogou seu pae.

O conde entregou-lhe então as duas cartas de Laura, cuja leitura só

podia fazer bem ao doente.

E com efeito assim foi.

Antonino poude chorar.

O correr das lagrimas diminuiu a profundeza do desgosto.

--Ah! meu pae! disse elle, Laura continua amando-me. Chama-me,

espera-me! Nunca deixára d'amar-me! E ha já dois mezes que ella me

espera? Mas como poude Laura estar tanto tempo longe de mim, sabendo-me

perigosamente enfermo? Ou ella ignora que eu estou doente? Não lhe deram

noticias minhas?

O conde teve de confessar-lhe que, n'um instante de desvairamento em que

lhe parecia inevitavel a morte do filho, escrevera a Laura aquella carta

implacavel que lhe interdizia qualquer pergunta, e lhe assegurava que

jámais teria noticias de seu marido.

De resto, o conde declarou que n'aquella resposta influira tambem o ter

acreditado no que dizia o telegramma desconfiando, por isso, que Laura

mentia nas duas cartas. Ao ouvir a explicação do conde, Antonino respondeu:

--Não, não!... Foi o telegramma que mentiu! Laura diz a verdade, porque

declara continuar amando-me! Ah! meu pae!... não a conhece! Ella possue

o mais sincero e leal coração que é possivel imaginar-se! Tenho a

certeza que Laura não sente despreso por esse Lauretto Mina, sente

tambem horror!

O conde de Bizeux, apesar de não estar convencido, não quiz contrariar o

filho, temendo que de tal contrariedade resultasse aggravamento da doença.

Antonino desejou escrever immediatamente a Laura, perdoando-lhe,

chamando-a para junto d'elle sem detença.

O medico, porém, impedia-o de realisar a intenção, declarando-lhe que

ainda não tinha forças sufficientes para escrever, e que, fazendo-o,

arriscava-se a peorar.

Como não o deixassem satisfazer aquelle desejo, o visconde, reflectindo,

resolveu não escrever a Laura dias depois, quando o medico entendesse

que o podia fazer.

Logo que estivesse restabelecido partiria para Paris, correria em procura

de Laura, fazendo-lhe assim mais surpreza.

Por essa occasião os jornaes da capital noticiaram as representações de

Linda na Opera.

Ao ter conhecimento d'esse facto, Antonino disse ao conde:

--Não a incommodemos. Deixemol-a satisfazer o seu desejo, realisar o seu

sonho doirado. Voltará depois mais socegada.

O conde, depois de ter perdido completamente as esperanças de que os

medicos salvassem Antonino, ao ter a certeza de que o filho não

morreria, estava louco de satisfação.

Cria em tudo que o visconde acreditava, e, como elle, tinha confiança no

futuro.

De resto, em consciencia, elle censurava-se pela fórma porque procedera

com Laura, respondendo desabridamente á carta que ella dirigira a

Antonino.

Fôra injusto, fôra cruel até, e desejava por isso tornar a vel-a para

nobremente lhe pedir perdão.

Comtudo, occasiões houve em que se inquietou.

Nas noticias dadas pelos jornaes sobre os espectaculos em que Laura

tomava parte, viu, por vezes, o nome de Lauretto Mina ao lado do nome da

Linda.

Entretanto cohibiu-se d'apontar o facto a Antonino.

Foi o proprio visconde que um dia lhe fallou nisso.

Com essa intuição que é como a segunda vista do amor, tinha a convicção

absoluta que esse homem, esse Lauretto insolente, nada era, nada podia

ser para Laura.

Não lhe restava a maior duvida.

Elle, tão concentrado e tão ciumento, como todos os que amam

verdadeiramente, sentia que era amado por Laura, que ella não podia amar

outro homem.

Lembrou-se dos ultimos dias que tinham passado juntos, das ultimas

caricias trocadas, d'algumas injustiças que Laura lhe censurára, e

percebia, interrogando o seu coração, que ella seria sempre d'elle, só

d'elle.

E tinha razão, porque não só a Linda não amava o tenor, como até o

despresava.

Não se limitava a detestal-o, fazia-lh'o sentir.

Laura suspeitava vagamente que Lauretto Mina influira de qualquer fórma

no que ella chamava ter sido abandonada por Antonino.

Na noite do concerto o tenor não estava longe de Remissy, podia ter

avisado o violinista de que a Linda não desejava ser reconhecida, e

Laura lembrava-se tambem do sorriso mau, vingativo, que entre-abria os

labios de Lauretto, quando, no dia da fuga, a cumprimentara em silencio,

pouco antes do comboio se pôr em marcha.

De tudo isto concluia a cantora que o tenor praticara qualquer

indignidade, o que, de resto, lhe estava nos habitos.

Todavia a fatuidade de Lauretto não lhe fazia perder as esperanças, e

quando viu Laura no theatro, pela primeira vez, tentou ainda, empregando

meios quasi respeitosos e reservados, fazer-lhe a côrte.

Não amava a Linda, apenas a desejava com violencia, como nunca desejara

qualquer outra mulher, segundo affiançava. D'uma vez exprimiu-lhe o seu

amor n'um tom serio que não lhe era habitual.

--Vejo-a, disse-lhe elle, isolada e como abandonada, Laura. Aquelle a

quem em Saint-Malo chamava seu marido parece despresal-a. Se necessitar

d'um amigo, deveras devotado, que com alegria se fará matar pela minha

amiga, bastar-lhe-ha fazer um gesto a este seu collega e respeitoso

admirador.

A prudencia ordenava que Laura recusasse o offerecimento do tenor com

uma certa brandura, sem o irritar, sem o ferir.

Mas a repugnancia que sentia por Lauretto foi mais forte do que a

prudencia com que estava resolvida a responder.

Portanto deixou transparecer nas suas palavras todo o despreso que

sentia por elle.

Desde esse dia Lauretto juntou ao seu amor um odio sem limites, e

tornou-se inimigo de Laura.

--Ah! ella despresa-me? dizia elle comsigo. Pois bem, juro que será minha!

Companheiros antigos, que com Lauretto tinham passado do theatro

Italiano para a Opera, recordaram-lhe, rindo, o que em tempo dissera:

--Não serei o primeiro, mas juro que serei o segundo!

Motejavam d'elle, diziam-lhe que não poderia cumprir o juramento feito,

porque, decididamente, a fórma pela qual a diva o tratava, os seus

cumprimentos frios, despresadores, não lhe deviam deixar esperança de

ser bem succedido.

--Veremos, veremos! respondia Lauretto aos companheiros mordendo os

labios com raiva contrahida. Quem espera, sempre alcança. O visconde

está ausente, portanto não tenho que temer o rival. Aposto o que

quizerem em como poderão verificar qualquer dia... ou qualquer noite, a

predicção do nosso antigo emprezario, Pozzoli, que dizia:--A Linda será

d'elle!

O odiento adorador da Linda estava n'estas disposições ameaçadoras na

occasião em que Antonino chegou a Paris.

O conde de Bizeux manifestara desejos d'acompanhar o filho á capital, em

primeiro logar para não se separar d'elle, e depois para velar por

Antonino, porque o visconde estava ainda convalescente da terrivel

doença que o ia matando.

Mas Antonino tinha a sua idéa.

Instou com o pae para que o deixasse partir só.

Para conseguir a annuencia paterna teve de fazer duas concessões: addiar

a partida para oito dias mais tarde, de modo que a convalescença

avançasse mais uma semana, e parar em Mans, dividindo a viagem em duas

partes, para evitar o cansaço que lhe adviria de uma viagem tão longa.

Pelas noticias dos jornaes elaborara o seu programma d'artista e de amante.

Logo que chegou a Paris, acompanhado por um só creado, installou-se na

sua antiga casa de solteiro, no _boulevard_ Haussmann.

Conservou-se deitado sobre um canapé até quasi ás seis horas da tarde,

descançando, sonhando.

Pouco depois sahiu, e comprou, como já dissemos, um _fauteuil_

d'orchestra n'uma agencia theatral dos _boulevards_.

Em seguida foi jantar ao _Café Inglez_, e ás sete horas e meia entrava

na Opera.

Tivera a phantasia, que se transformára em ideia fixa, de tornar a ver

sua mulher,--de tornar a ver a Linda,--cantando a parte de Valentina dos

_Huguenottes_, que era justamente o papel que ella representára a ultima

vez que a ouvira no theatro, na noite em que lhe salvara a vida.

Tornaria a vel-a, do seu _fauteuil_ d'orchestra, apenas como um simples

espectador, e sem que ella desconfiasse da presença d'elle.

Esperava sentir dupla alegria.

Tornaria a ver, simultaneamente, a sua artista predilecta e a sua

adorada mulher.

Sentiria as emoções do amador, e os estremecimentos do amante.

O Romance d'uma cantora · 第 10 / 14 段