Contentára-se apenas com perguntar á porteira como estava Linda, sem

dizer nem deixar o nome.

Nos dois dias seguintes procedeu de forma identica.

Ao quarto, como os visitantes rareassem, a porteira respondeu á pergunta

d'Antonino:

--A senhora vae melhorando, mas não poderá receber ninguem antes de dois

ou tres dias.

E advertida por Jacintha, segundo instrucções de Laura, accrescentou:

--O sr. quer ter a bondade de me dizer o seu nome?

Antonino respondeu em tom breve.

--Visconde de Bizeux.

--N'esse caso, disse a porteira, o sr. visconde pode subir. Tinha ordem,

desde o primeiro dia, de dizer a vossa ex.ª que a senhora o recebe...

mas só ao sr. visconde.

Antonino interdicto, respondeu:

--Bem... mas hoje é impossivel... Tenho uma entrevista marcada... e já é

tarde... Transmitta á senhora os meus agradecimentos e os meus

respeitos... Eu voltarei.

E sahiu como se fugisse.

Alguns momentos depois Jacintha participava a Laura o que se passara.

--Singular indifferença essa! disse a cantora.

O que o coração d'Antonino sentia era justamente o contrario da

indifferença que Laura lhe suppunha.

Tanto de dia como de noite o visconde só pensava em Laura.

Tornar a vel-a era o seu mais ardente, o seu unico desejo.

Mas desejava tanto isso, que tremia.

Era como um barril repleto de polvora temendo uma faisca.

E não voltou á rua de Bolonha.

Quando Laura pôz Despujolles ao corrente da situação, e medico disse:

--Oh! oh! o caso é mais grave do que eu julgava. Como é que um valente,

que a arrancou ás chammas do incendio, treme diante da minha amiga?

Afinal, o caso comprehende-se. Elle percebe que o perigo, agora,

augmentou de intensidade. O infeliz está em um estado verdadeiramente

inquietante.

--Não mangue, dr., respondeu Laura que pensava justamente como o medico,

mas que entendeu conveniente não annuir ao que Despujolles dizia. Mas

emfim, eu não o tornarei a ver?

--Seria o melhor para ambos.

--Está enganado, doutor. Mesmo quando a sua observação fosse justa, é

necessario tornar a vel-o, para que o possa curar. O doutor trata dos

seus doentes a distancia? Não. O mesmo succede commigo. E como sabe, eu

tenho curas que me honram.

--Quer que a ajude a procurar o seu paciente? Seja! Tornarei a ser

generoso. Forcemol-o a sahir do covil. Escreva-lhe ámanhã ao meio dia um

bilhete. Uma hora depois estarei aqui com a fera.

No dia seguinte, ao meio dia preciso, o visconde, perturbado, lia, n'um

cartão de Laura, as seguintes linhas, escriptas pela cantora em

seguida ao nome:

«Permitte-se lembrar ao sr. de Bizeux que elle deve visita á que lhe

deve a vida.»

Um quarto de hora depois uma carruagem conduzia-o á gare d'Oeste.

Comprou bilhete para Saint-Malo e subiu para o comboio prestes a partir.

Quando Despujolles, ao meio dia e meia hora, chegou a casa d'Antonino,

disseram-lhe que o visconde tinha partido pouco antes, tendo deixado

dito que ia ver o pae.

O doutor dirigiu-se immediatamente para casa de Laura, a quem participou

o caso, ajuntando:

--Decididamente a doença torna-se alarmante! O visconde está apaixonado

até á indelicadeza!

Como não podia prever a visita de Despujolles que lhe dennunciaria a

fuga, Antonino julgou-se ao abrigo de censura enviando, no dia seguinte,

a Laura, este telegramma:

«Recebi, minha senhora, o seu gracioso convite em Saint-Malo, onde fui

subitamente chamado por meu pae, um pouco doente. Ámanhã volto a

Paris, terei então a honra de lhe apresentar os meus respeitos.»

Sahira de Paris para metter cem leguas entre elle e a Linda, mas, ao

contrario do que esperava, a distancia fazia com que se lembrasse ainda

mais da cantora.

Aquelle acto de energia apenas serviu para demonstrar a sua irremediavel

fraqueza.

Em Paris estava perto de Laura; fugia de a ver, mas tinha noticias

d'ella, e quando quizesse podia procural-a.

Considerou uma loucura o ter supposto que a ausencia o curava, porque

nunca soffrera tanto.

Chegou desgostoso a Saint-Malo, achou soturna a velha casa da familia,

onde vivia o pae e uma irmã mais velha, solteira ainda.

Tres dias depois, cançado de soffrer em silencio, Antonino resolveu-se a

tudo confessar a seu pae.

O confidente foi bem escolhido e bem exposta a confidencia.

Em novo, o pae d'Antonino passara por um desgosto semelhante.

Amára uma menina encantadora, por quem era amado tambem, mas que tinha o

defeito de ser pobre e plebea.

O conde de Bizeux, avô de Antonino, era um velho rigido, intractavel

em questões de nobreza e importancia patrimonial.

Não se contentou, d'accordo com o pae da donzella, com destruir aquelle

amor; obrigou o filho a casar com uma prima, de belleza duvidosa, mas de

fortuna avultada.

Aquelle enlace de conveniencia não podia fazer felizes os esposos.

Ella era feia e altiva, entregue sempre a praticas devotas; elle,

tristemente resignado, deixava-se absorver pelas recordações.

A filha mais velha parecia-se com a mãe, mais feia, mais orgulhosa, mais

devota ainda.

Recusára sempre casar-se, não querendo entregar-se a qualquer homem, que

apenas a tomaria pelo dote, o seu unico merito.

Depois d'enviuvar, o conde de Bizeux não tinha outra consolação além do

amor por Antonino.

Essa grande estima que tinha pelo filho não impediu que se separasse

d'elle emquanto o visconde viajou, e que não quizesse acompanhal-o a Paris.

Quiz ficar na sua Bretanha, vivendo melancholicamente das recordações do

passado.

A excessiva severidade dos paes produz muitas vezes nos filhos, paes por

sua vez tambem, a excessiva indulgencia.

Foi por essa razão que o conde de Bizeux recebeu a confidencia

d'Antonino com a simpathia terna d'um irmão.

O soffrimento do visconde diminuiu desde que teve com quem fallar de Laura.

Entretanto continuava triste e visivelmente inquieto.

Como percebia o estado em que o filho estava, o conde, ao fim d'uma

semana, chamou-o e disse-lhe:

--Tu soffres Antonino. Deixa-me dar-te um conselho: volta para Paris.

Parece-me que te falta um pouco de coragem e de dignidade. Amas uma

mulher que não te conhece e que só te viu quanto a salvaste. Não pode

ter-te amor, é certo; mas quem te diz que, conhecendo-te melhor, não

virá a amar-te? Pelo que sabes d'ella, a Linda só pensa em arte, não

amou nunca, não amará talvez. Mas approxima-te, não como uma creança que

teme, mas como um homem que não recua nem ante uma decepção, nem ante um

grande desgosto. Quem sabe se, quando a conheceres bem, não acharás que

Laura não corresponde ao teu sonho!

Antonio abraçou o pae com effusão, agradecendo-lhe reconhecido aquelle

conselho viril, e partiu de Saint-Malo quasi tão precipitadamente como

deixára Paris.

Ao partir telegraphou a Despujolles, dizendo-lhe que o procuraria no

dia seguinte, e pedindo-lhe para o acompanhar a casa de Laura.

Pelas duas horas da tarde do outro dia entraram ambos no salão da

cantora, prevenida antecipadamente pelo medico.

--Trago-lhe emfim o selvagem! disse o dr. ao entrar.

Laura estendeu a mão a Antonino, dizendo-lhe com a mais graciosa

simplicidade:

--Agradeço-lhe o ter vindo. Detesta a sociedade?... Tem rasão. Mas eu

não pertenço a essa sociedade, sou apenas uma mulher. Verá que sou

excellente camarada, muito sincera, que gosto muito d'alguns amigos, e

que me sentirei verdadeiramente feliz se o homem que me salvou a vida

quizer pertencer ao numero restricto d'esses amigos.

Em seguida fallou, a Antonino do proprio Antonino, como se fallasse

d'elle ao dr. Despujolles.

Lembrou-se, rindo, da noite em que o olhára da scena, com o que elle

indicára incommodar-se.

--E era justo que assim fosse, accrescentou ella, porque nós, ante o

publico, nem por um momento nos devemos esquecer do personagem que

representamos.

Fallando-lhe assim poz á vontade Antonino, que ao principio estava meio

compromettido.

Fallaram de musica, de theatro.

Ella disse-lhe que provavelmente ia para o theatro Italiano, visto

Pozzoli lhe ter proposto um bom contracto.

Confessou que não tinha a menor estima ou sympathia por aquelle

emprezario, mas como gostava de Paris, queria demorar-se na grande cidade.

De resto, não podia passar sem cantar,--por causa da sua bolsa e por

causa do seu espirito.

Cantar era para ella metade da vida.

--A proposito: Pozzoli, para celebrar o meu completo restabelecimento e

a minha entrada para os Italianos, offerece-me, na terça feira proxima,

uma especie de festa em S. Germano: almoço ajantarado na relva, passeio

aos Loges, etc. Devo-lhe enviar ámanhã a lista dos meus convidados. Na

cabeça do rol inscrevi o seu nome, sr. de Bizeux.... Oh! não recuse,

porque é caso para dizer: não haveria festa sem o sr.

Antonino fez um gesto d'assentimento.

Ficou combinado que iriam juntos a S. Germano, Despujolles e elle.

--Que adoravel mulher e que encantadora creança! Dizia o medico ao

visconde, descendo as escadas da casa de Linda. Verá: com ella começa a

gente por estar apaixonado, e acaba por se sentir feliz de ficar amigo.

--Assim será! respondeu Antonino.

A verdade é que elle sentia-se cada vez mais apaixonado, e pensava com

desespero que Laura não o amava, que não o amaria jamais.

VI

A festa

No dia fixado, um _mail-coach_, em que tinham tomado logar Antonino,

Despujolles e mais uns vinte convidados de Pozzoli, subia, ao trote

largo de quatro cavallos pretos, a avenida dos Campos Elyseus.

Era a primeira terça feira de setembro.

Ao longe os sinos de Santa Clotilde zumbiam, como enxame d'abelhas, sob

as agudas pontas das settas gothicas.

As mulheres riam estridentemente, empoleiradas no alto da carruagem.

Aquellas gargalhadas quebravam o silencio da avenida, deserta ainda

áquella hora.

Os guisos de bronze reteniam ao pescoço dos cavallos n'uma alegria matinal.

E em sorrisos de luz, as folhas altas dos platanos brilhavam, como

estrellas movediças, os castanheiros espessos formavam massiços largos,

ao fundo de _callidimos_ entrelaçados em ramos monstros sobre a relva

dos canteiros.

Os jardineiros municipaes assestavam as mangueiras dos tubos d'irrigação

articulados.

Uma chuva branca cahia sobre a relva, cortada quasi cerce, e por entre

as bambinellas do fino orvalho um arco iris dansava, radioso.

O _mail-coach_ que conduzia a S. Germano Antonino, Despujolles e os

convidados de Pozzoli, chegou ao pavilhão Henrique IV ao mesmo tempo que

o _coupé_ de Linda.

Laura vestia uma elegante _toilette_ de seda da India, cinzenta.

O corpo do vestido era enfeitado com fazenda de lã e ornado de laços

granade.

A saia, um pouco curta, deixava perceber a curva nascente d'uma perna

fina de parisiense ou de hespanhola.

Estava encantadora assim.

Apertou a mão a todos, mas em primeiro logar a Antonino, a quem

apresentou a Pozzoli, o amphytryão.

O emprezario do theatro dos Italianos era um homem de mãos largas, dedos

massiços, cabello grosso e espetado, barba em leque, olhos redondos,

nariz recurvo como o bico d'um abutre, bocca grande, de labios grossos,

libidiminosos.

Á primeira vista representava o typo completo da força bruta e dos

appetites sensuaes.

Melhor examinado, porém, notavam-se-lhe extraordinarios ridiculos.

Macaqueava com as mulheres, n'uns gestos afectados, como o tenor

Lauretto Mina. Fallava sempre com os labios quasi cerrados, e quando

pronunciava uma d'essas phrases equivocas, que as mulheres de que

habitualmente se rodeava achavam deliciosas, soltava gargalhadas

imprevistas casquinhando mechanicamente, para mostrar dentes

magnificos... mas postiços.

D'ordinario pintava o cabello e a barba, e nas _soirées_ apparecia

sempre com carmim nas faces e as sobrancelhas alongadas e carregadas por

uma pincelada negra.

Tal era Pozzoli.

O emprezario desagradou soberanamente a Antonino, que tambem não

sympathisou com Lauretto Mina, cujos gestos afeminados e maneiras

pretenciosas faziam um absoluto contraste com os modos viris e simples

do gentilhomem bretão.

Depois de trocados os cumprimentos e feitas as apresentações, os

excursionistas puzeram-se a caminho para a floresta, precedidos d'um

carro do pavilhão Henrique IV, que transportava o almoço.

--Não vejo Remissy, disse Laura. Entretanto elle deu-me a sua palavra de

que não faltaria.

--Elle virá, replicou o dr., mas provavelmente quando menos se esperar,

porque aquelle demonio tem grande tendencia para as surpresas.

Os _mails-coachs_, os _landaus_ e os _coupés_ embrenharam-se sob as

abobadas verdejantes, n'um turbilhão d'alegria ruidosa.

Ao atravessarem as pequeninas clareiras inundadas de luz, os raios das

rodas tinham brilhos vivos e vibrações agudas.

Falseamentos rutilavam nas nuvens de pó, com um bulicio de ruidos

multiplos: a ferradura d'um cavallo topando n'uma pedra, uma roda

gemendo na depressão do terreno, o estridulo das gargalhadas subindo no

ar perfumado de verdura humida, o estalo d'um pingalim assustando as

aves aterrorisadas, e por vezes, cortando os intervallos de silencio, o

relincho satisfeito d'um cavallo.

--Alto! gritou Lauretlo Mina com a sua voz de cigarra.

--Alto! vociferou Pozzoli, como um echo brutal.

As carruagens pararam.

--Chegamos, disse o dr. a Laura, indo abrir a portinhola do _coupé_.

--Eis a sala de jantar, a senhora está servida! annunciou Lauretto por

de traz do medico.

Sem esperar que lhe dessem a mão, Laura saltou com ligeiresa.

Pozzoli offereceu-lhe o braço.

--Qual! disse a cantora recusando. No campo caminha-se em liberdade, sem

cerimonias.

Em um minuto chegaram á verde clareira em que o almoço estava servido,

sobre uma elevação arrelvada.

Cada qual tomou logar em volta d'aquella toalha verdejante, manchada de

escuro por tres presuntos d'York, quatro travessas de _foie gras_, doze

lagostas, seis gallinhas, montanhas de doces, pecegos de Montreuil,

passas de Malaga em caixas.

Em volta da improvisada meza, como collocadas em atiradores,

alinhavam-se vinte quatro garrafas de _Bordeus_, e em torno d'um

carvalho secular, entre as anfractuosidades rugosas do tronco, trinta

garrafas de _moscatel_, de _Madeira_ e de _Champagne_, de gargalos

prateados, conservavam-se em reserva, meio occultas pela herva alta.

Massiços de verdura banhados de luz, cruzavam-se, como bayonetas

enfeixadas; extremidades de plantas queimadas pela geada balouçavam-se

levemente, e tres grillos corajosos entoavam uma marcha triumphante

por entre uns fetos proximos.

Laura sentara-se junto d'um freixo gigante, appoiando as costas ao tronco.

Um grupo d'aveleiras servia-lhe de guarda-sol.

Antonino de Bizeux e o dr. Despujolles tomaram logar á direita e á

esquerda da cantora.

Em frente d'elles, agrupados, estavam Pozzoli, Lauretto Mina e os

restantes convivas.

Eram uns quarenta ao todo.

O almoço foi pouco ruidoso ao principio.

O appetite é sempre silencioso.

Ouvia-se apenas o ranger dos garfos de prata na porcellana dos pratos.

A Linda comia com vontade, e molhava alegremente os labios finos no

liquido do copo.

Á sobremesa a conversação rebentou, viva e alegre, acompanhada pelo

tenir dos copos e pelo riso das mulheres, e entre a confusão das vozes,

misturadas com o _pizzicato_ dos garfos, um melro, pousado n'uma arvore

proxima, rythmava as suas cadencias aflautadas.

Lauretto Mina embriagou-se, como costumava.

De repente levantou-se, tendo na mão uma taça de _Champagne_, e disse

com voz entaramelada:

--Bebo á saude da rainha da festa, da divina Laura Linda!

Laura corou um pouco, e Antonino franziu as sobrancelhas.

Mas todos levantaram as taças, repetindo:

--Á saude de Laura Linda!

N'esse momento, na alléa que seguia ao lado d'aquella meza verdejante,

apparecia uma duzia de officiaes d'_hussards_, trotando nos seus cavallos.

Logo que viram os convivas d'aquella pittoresca festa, fizeram diminuir

o andamento dos animaes.

Despujolles disse algumas palavras ao ouvido de Pozzoli, e depois

caminhou para os officiaes e disse-lhes:

--Meus senhores, somos artistas e homens de sociedade: querem fazer-nos

a honra d'acceitar um copo do nosso magnifico vinho francez?

--Da melhor vontade! responderam os officiaes em coro.

E puzeram em linha os cavallos arabes.

Foram as damas que serviram o _Champagne_.

Beberam pela França e pelos francezes.

Em seguida os officiaes ofereceram charutos aos homens, cumprimentaram

as senhoras e partiram a galope.

A brilhante cavalgada desappareceu rapidamente, como uma phantasia, na

profundeza do bosque.

Deixaram as carruagens e as louças á guarda dos creados, e partiram a pé

para a feira das Loges.

Combinaram que caminhariam sem cerimonia, em debandada.

Mas como o caminho d'esta vez fosse mais longo, formaram-se,

naturalmente, grupos e pares.

Antonino estava, como por acaso, ao lado de Laura, que deu um passo em

falso, e, como por acaso tambem, tomou o braço do visconde, appoiando-se

a elle ligeiramente, com uma graça encantadora.

Caminharam assim por algum tempo, alegres e sonhadores, admirando coisas

vulgares que lhes pareciam tão interessantes como se nunca as tivessem

visto.

Um ruido confuso annunciou, de longe, a feira das Loges.

Sinetas, pandeiros, tambores, trompas, cornetins, produziam um baralho

ensurdecedor.

Aquella parte da floresta estava cheia de gente vestindo fatos

domingueiros, pares mais ou menos apaixonados, creanças saltando na

alegria da plena liberdade.

Appareceram as primeiras barracas ao fim da estrada.

Augmentava o ruido da symphonia discordante d'instrumentos diversos, de

_clowns_ esganiçando-se em falsetes, d'hercules soprando em enormes

porta-vozes os seus desafios burlescos aos amadores de luctas.

Antonino e Laura acharam-se, n'um instante, separados dos seus

companheiros.

Pararam deante das barracas, admirando, embasbacados como creanças, os

objectos n'ellas expostos.

Laura achou immensa graça á atabalhoada arenga berrada á porta d'uma

barraca de saltimbancos por uma especie de cigano, de cara serampintada,

cabellos crespos, com voz enrouquecida, que ainda assim não perdera o

tom accentuadamente marselhez.

O homem convidava o respeitavel publico a visitar a Mulher-Electrica.

--É entrar, meus senhores, é entrar, dizia elle. Por dois _sous_ podem

admirar a mais formosa e a mais gentil mulher do mundo. Só homens podem

entrar, porque se as senhoras viessem a esta barraca, sahiriam loucas de

inveja! Não quero dizer com isto que as senhoras presentes não sejam

novas e formosas, não! Mas, acreditem, nenhuma das que vejo, e das

ausentes, poderia dar a seu marido uma sensação semelhante á que esta

produz em todos os homens que lhe tocam!... É entrar, meus senhores, é

entrar! Não encontrarão outra occasião, como esta, para admirar uma

belleza sem rival! Tem pernas de Diana, braços de Venus... Parece a

esposa de Jupiter! Não ha uma só princeza que a não inveje!... É um ovo

por um real, contemplar uma maravilha d'esta ordem apenas por dez

centimos!... É entrar, meus senhores, é entrar!...

Proximo, um colosso, de braços musculosos e nús, abronzeados, ao lado

d'uma preta robusta, provocava á lucta os amadores mais valentes.

Um realejo moia a _Valsa das Rosas_, e ao lado, n'uma barraca de

balouços, um outro realejo gemia uma polka, emquanto que, por entre

gargalhadinhas de medo, mulheres cortavam o ar nos balouços, olhando

para os amantes, que as contemplavam satisfeitos.

Um pouco mais longe via-se um _carrousel_ de cavallos de pau, enfeitado

d'uma franja vermelha e azul em que scintillavam lantejoulas.

Creanças, sentadas n'aquelles animaes inoffensivos, sentiam-se felizes

por fazer concorrencia aos saltimbancos, chamando sobre si a attenção

embasbacada dos passeiantes.

De toda aquella multidão desprendia-se rumor confuso, onomatopeas sem

sentido, cortadas pelo som d'um pandeiro ou pelas notas estridentes d'um

cornetim.

No ar passavam odores acres de frituras rançosas, salchichas que ferviam

em gorduras velhas no fundo de largas frigideiras, vinho azedo que

bebiam pelo cangirão, café intoleravel feito do cosimento das borras e

de tintura de chicoria.

As tabernas regorgitavam de freguezes vorazes.

Muitos, como não tinham onde sentar-se, comiam de pé, ao sol, com o mais

invejavel appetite.

A alegria franceza resaltava de toda aquella multidão franca, ruidosa,

divertida.

Sentiam-se felizes por aquella excitação ardente, pelos movimentos

desordenados, pelos raios do sol que lhes alumiava as faces vermelhas,

pelas nuvens de pó amarellento, que se elevava até ao cimo das arvores

frondosas, em virtude do caminhar continuo d'aquelle formigueiro humano.

Pelas cinco horas da tarde, um homem que desempenhava as funcções de

pregoeiro, attrahiu a attenção de todos com o toque preliminar do seu

tambor.

Quando viu em volta um circulo espesso d'ouvintes, dos quaes faziam

parte grande numero de convivas de Pozzoli, desenrolou um largo papel e

leu esta especie de proclamação:

«O violinista hungaro Remissy, aqui presente, faz saber que offerece um

_punch_ aos seus amigos e amigas no proprio local em que foi servido o

almoço d'esta manhã, ao qual circumstancias imprevistas fizeram com que

não tivesse o prazer d'assistir. Que todos o saibam!»

Acabada a leitura, o pregoeiro affixou o papel no tronco d'uma

arvore e depôz tranquillamente no chão o tambor, onde um palhaço o foi

buscar.

Depois, abrindo caminho com os cotovellos, desappareceu entre a multidão.

O sol baixava, as sombras dos carvalhos alongavam-se d'instante a instante.

Os donos d'algumas barracas accenderam os lampeões.

A Linda e Antonino, que por vontade se tinham conservado perdidos dos

seus companheiros, voltaram sós para o local onde estavam as carruagens,

na meia luz crepuscular, sob a solemnidade grave das arvores.

O silencio augmentava á medida que avançavam.

Perdiam-se ao longe os clamores da feira e o ruido discordante da multidão.

A floresta parecia indemnisar-se da desordem que n'ella causavam, pelo

contraste de socego altivo, apenas quebrado pelo ultimo chilrear das aves.

A brisa fresca, impregnada de perfumes sadios, balanceava mollemente as

folhas humidas das arvores.

Pouco depois de partirem da feira, todos os convivas se achavam na

clareira onde os esperavam as carruagens.

Ao centro do terreno arrelvado onde fôra servido o almoço,

elevava-se uma enorme taça de prata cinzelada, em que chammejava um

_punch_ magistral!

Os reflexos do _punch_ lançavam, n'um largo raio, vibrações de luz azulada.

Remissy não apparecia.

--É necessario esperar, disse Laura, visto ter-nos convidado. Mas onde

estará elle?

No mesmo instante partiu d'uma matta proxima, como resposta melodiosa,

uma _phrase_ de violino, serena e lenta, n'um rythmo phantastico e velado.

O violino de Remissy respondia á voz de Laura.

E por entre a penumbra sentiu-se como que um formigamento d'insectos,

uma dança extravagante de grillos em hervas seccas, e no meio d'esse

acompanhamento de _pizzicato_ em surdina, a _phrase_ triste repetia-se

como um queixume atravez a noite!

Foi extraordinario, simples, idealmente puro!

Quando a ultima vibração melodiosa cessou, um bravo formidavel retumbou

na clareira.

Remissy appareceu por entre o clarão do _punch_, cabeça ao vento,

ostentando a sua fronte alta que prematura calvice tornava enorme, com o

seu magnifico _stradivarius_ debaixo do braço esquerdo.

--Hein! o que dizes a isto, Linda? que te parece a minha _Queen Mab_?

disse elle dirigindo-se á cantora. Tenho dedos, não é verdade?

--Bravo! bravissimo! respondeu Laura enthusiasmada. Mas isso não

impede que seja um homem sem palavra. Prometteu vir almoçar comnosco e

não appareceu.

--Não me falles em coisas tristes, minha filha!

Foi o maldito director do Palacio de Crystal de Londres que veiu

novamente importunar-me! Imagina que parto para a capital da Inglaterra

hoje mesmo, no expresso da noite. Antes de partir, porém, quiz que

ouvisses a minha melodiasita.

Creados de casaca serviam o _punch_ em copos de crystal.

Foram feitas saudes mais ou menos estravagantes.

Beberam um ultimo golo e dispozeram-se a subir para as carruagens.

Remissy despediu-se da diva, beijando-a, e subiu para o carro de posta

que o trouxera.

Quando viu todos prestes a partir, Pozzoli elevou a grossa voz e disse:

O Romance d'uma cantora · 第 2 / 14 段