No dia seguinte, ao ouvir um amigo fallar de Linda, declarou

Produced by Pedro Saborano

Nova Bibliotheca Economica

Leitura para todos

Travessa da Queimada, N.º 35

LISBOA

Alfredo Sirven

O ROMANCE

D'UMA

CANTORA

TRAD. DE S. DE MENDONÇA

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Vai (em 1897) no seu 18.º anno.

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Cada linha, na respectiva secção, 40 réis fortes. Na 1.ª pagina, 200 réis.

Artigos e communicados contractam-se:

EM LISBOA--Travessa da Queimada, 135.

NO RIO DE JANEIRO--No escriptorio, Rua Sete de Setembro, n.º 89--1.º andar.

O ROMANCE D'UMA CANTORA

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ROMANCES PUBLICADOS

1--Luiz Noir--A Estalagem Maldita, trad. de C. Dantas.

2--Eugenio Chavette--Os companheiros do crime, trad. de A. Sarmento.

3--Visconde Henri de Bornier--Romance d'um auctor dramatico, trad. de

Portugal da Silva.

4--Mauricio Drack--A Mestra, trad. de N. de Bulhão Pato.

5--Edgar Montell--João das Galés--traducção de C. Dantas.

6--Eugenio Chavette--Lili, Tútú e Babette--trad. de A. Sarmento.

7--Arsenio Houssaye--Joanna d'Armaillac, trad. de H. de Oliveira.

8--Paulo Féval--A rainha dos estudantes, trad. de S. de Mendonça.

9--Mayne-Reid--Os rebeldes, trad. do inglez, por M. Leal.

10--Victor Perceval--Uma mulher perigosa, trad. de S. de Mendonça.

11--Mauricio Talmeyer--Um drama nas minas, trad. de A. Sarmento

12--Heitor Malot--Lua de mel, trad. de Antonio Bandeira.

13--Alfredo Sirven--O romance d'uma cantora, trad. de Segurado de Mendonça.

A SEGUIR:

14--F. Champsaur--Uma excentrica, trad. de Ruy da Cunha.

ESCRIPTORIO: TRAVESSA DA QUEIMADA, 35

LISBOA

ALFREDO SIRVEN

O ROMANCE

D'UMA

CANTORA

TRAD. DE S. DE MENDONÇA

LISBOA

1895

TYPOGRAPHIA DO «DIARIO ILLUSTRADO»

35--Travessa da Queimada--35

LISBOA

O ROMANCE D'UMA CANTORA

I

A catastrophe

--Apaixonado por uma cantora... por uma mulher do theatro... eu?!... Ora

adeus!... não pode ser!... Hei de ver isso!

Assim monologava o visconde Antonino de Bizeux, acabando de vestir-se.

E sorria desdenhosamente, tomando um aspecto arrogante, como se quizesse

illudir-se sobre o estado do seu coração, persuadindo-se estar curado da

paixão que sentira, nos ultimos tempos, despertar em si.

--Hei de ver isso... hei de ver isso!... repetia, procurando qualquer

coisa pelo quarto, destrahidamente, porque nada lhe faltava, a não ser

que chegasse a hora d'ir para a Opera.

Os labios diziam: _hei de ver_, mas o coração tinha visto já.

Amava Linda, a _estrella_ do dia, a diva que, do ceu da Opera,

scintillava sobre Paris fascinado.

O visconde obtivera-se d'assistir ás ultimas quinze representações,

fugindo assim á fascinação que a grande artista exercia sobre elle.

Tratava, pelo afastamento, o começo da paixão, que o assustava.

Durante esse tempo violentára-se, domára o coração com a grande força de

vontade que possuia, e julgava-se curado, por isso.

O theatro da rua Le Peletier annunciára, para aquella noite, um

magnifico espectaculo, em beneficio das victimas d'um sinistro recente.

Cantavam-se os _Huguenottes_, desempenhando Laura Linda, pela primeira

vez, a parte de Valentina.

Toda a primeira sociedade parisiense devia assistir á representação,

porque no camaroteiro não restava um só bilhete.

Antonino ia tornar a ver Linda triumphante, acclamada.

Se procurava uma occasião para experimentar-se, não podia encontral-a

melhor.

--Irei aos _Huguenottes_! resolvera elle, depois de curta discussão

comsigo mesmo. Sem duvida ficarei certo de que estou completamente

curado, mas se, por acaso, ao ver Linda sentir a mesma impressão,

simultaneamente dolorosa e suave, de que necessito defender-me, juro que

ámanhã de manhã partirei para Saint-Malo, e que só no começo do inverno

voltarei a Paris.

E foi para a Opera, onde o esperava a sua cadeira d'assignatura,

abandonada por mais de quinze dias.

Trocou apertos de mão e palavras de cumprimento com alguns conhecidos

que encontrou, e dois ou tres amigos disseram-lhe familiarmente:

--Adeus, formoso bretão!

Antonino era, efectivamente, um bello rapaz.

A sua estatura d'athleta, admiravelmente proporcionada, conservava a

mais completa linha d'elegancia.

Louro, olhos d'um verde escuro, que semelhavam ser castanhos, era o

verdadeiro modelo do celta moderno: alliava a força á distincção.

O espectaculo teve o brilhantismo ordinario das solemnidades da Opera.

Todos se recordam ainda d'aquella noite, que se tornou celebre por uma

d'essas catastrophes que gravam uma data com traços indeleveis, mesmo na

memoria d'esse grande esquecido que se chama Paris.

Quando Linda entrou em scena, Antonino estremeceu.

Não se fita impunemente uma pessoa, que se julga inimiga, depois de se

ter deixado de a ver por alguns dias.

Ella cantou, e o visconde sentiu-se arrebatado julgando, comtudo, que

fôra apenas a artista que o emocionára.

Applaudiu-a delirantemente, como de resto todos os espectadores, porque

Laura, afinal,--tinha de confessal-o,--possuia raro talento.

Durante a representação declarou a si proprio que não vira Linda, apenas

admirára Valentina.

O tempo que o espectaculo durou passou-se para elle como se fosse presa

de inconsciente embriaguez.

Por fim a grande ovação rebentou, imponente, com a furia da emoção que

trasborda.

Linda foi completamente coberta de flores, e chamada repetidas vezes,

apparecendo sempre sorridente, formosissima.

Antonino sentiu um mal estar indefinido, e uma alegria doida.

E conservava-se sentado na sua cadeira, n'uma immobilidade involuntaria,

incapaz de levantar-se, de seguir a multidão que sahia.

Passado algum tempo olhou em volta; a sala estava deserta.

Dos corredores chegava um ruido confuso, produzido pelos ultimos

espectadores, que sahiam.

Que fazia elle alli, diante do panno cahido; sob o lustre meio apagado?

Um porteiro foi convidal-o a retirar-se.

Como não recebesse resposta e julgasse o visconde a dormir, saccudi-o.

Antonino estremeceu novamente, e no primeiro momento sentiu desejos de

desancar o porteiro.

Depois, pensando melhor, levantou-se e dirigiu-se para a porta da sahida.

Antes de transpôr o limiar, olhou uma ultima vez para o lado do palco, e

retrocedeu, entrando novamente na platéa.

Parecera-lhe ter visto um tenue fio de fumo sahir do soalho.

Approximou-se, arrastando o porteiro, a quem disse, sobresaltado:

--Olhe!... alli!...

--Que desgraça!... Fujamos!...

Não havia que duvidar.

O fio de fumo engrossava progressivamente.

Antonino correu para o corredor, dando o grito de alarme.

Duas ou tres costureiras do theatro, que sahiam, suppuzeram-o doido, mas

atraz do visconde corria o porteiro, gritando:

--Fogo!... Fogo:!...

As costureiras, repetindo aquelle grito, correram para fóra do theatro.

Ao perceber que havia fogo no palco o visconde lembrou-se de Linda,

immediatamente.

A cantora devia estar ainda no seu camarim. Seria prevenida a tempo de

se poder salvar?

As portas que communicavam com o palco, estavam fechadas.

O visconde bateu a uma, infrutiferamente, meio desvairado, e respirando

já a muito custo por entre o espesso fumo, que augmentava, enchendo os

corredores.

Lembrou-se então da porta d'entrada para os artistas, que abria para a

rua Drouot, na outra extremidade do edificio.

Sahiu do theatro e deu volta, empurrando, na passagem, os bombeiros que

chegavam.

Chegado á porta, subiu, a dois e dois, os degraus da escada que conduzia

aos camarins dos artistas.

O fumo era ainda mais espesso d'aquelle lado.

Um bico de gaz, conservado acceso por acaso, rompia a custo, com

claridade amarellada, a densidade baça d'aquella especie de felpa

cinzenta, que enchia os corredores, pouco a pouco.

Sombras corriam para todos os lados, espavoridas, sem responder ás

perguntas afflictas de Antonino, sem as ouvir.

Como nunca entrara no palco da Opera, o visconde não sabia onde ficavam

os camarins.

Bateu á primeira porta que encontrou, forçou-a violentamente, sem dar

tempo a que lhe respondessem, e entrou.

Uma mulher atravessava n'esse momento o corredor, gritando com desespero:

--Soccorro!... soccorro!... A senhora está incommodada!

--Quem?... Linda?... perguntou anciosamente Antonino.

--Sim!... O medico... onde está o medico?

--O camarim?... Diga-me onde é o camarim!

Mas a mulher não ouviu a pergunta; desapparecera por entre o fumo, cada

vez mais espesso.

Repentinamente apagou-se o unico bico de gaz, que ainda ardia.

O visconde ficou mergulhado n'uma escuridão pesada, completa, em que se

desenvolvia um calor violento.

Caminhou ás apalpadellas, batendo com as mãos nas paredes e chamando com

voz forte:

--Linda!... Linda!... Onde está?

Mas ninguem lhe respondia.

Continuou a caminhar, gritando sempre, cada vez com mais força, e

arrombando, enraivecido, todas as portas que encontrava.

Repentinamente, pareceu-lhe ouvir um gemido fraco.

Procurou nas algibeiras uma caixa de phosphoros, e, encontrando-a,

accendeu um.

A alguns passos de distancia viu uma porta aberta.

Entrou por ella precipitadamente.

Era o camarim de Linda. A cantora estava caida por terra, pallida, meio

desmaiada.

O phosphoro que Antonino tinha na mão, apagou-se.

Com um outro, tentou accender o gaz, não conseguindo, felizmente o seu

designio.

--Onde estou eu? perguntou Laura de repente.

--Venha, venha! respondeu o visconde com voz imperiosa.

Guiado pela voz de Linda, approximou-se d'ella, tentando tomal-a nos

braços para a conduzir.

--Deixe-me, senhor, eu posso caminhar... Basta que me dê a mão.

Pela porta aberta entrou no camarim uma claridade sinistra.

Fumo azulado sahia por entre as fendas do soalho e subia até ao tecto,

onde se immobilisava em camadas cinzentas.

Antonino e Laura sahiram do camarim e embrenharam-se nos corredores,

onde dançavam já as chammas do incendio.

Apesar da natural turbação que o sinistro lhe causava, Antonino

experimentava deliciosa sensação por ter na sua a mão de Laura.

Subitamente uma lingua de fogo subiu verticalmente pela escada que dava

sahida para a rua Drouot, lambendo, com poderosa tranquillidade, o tecto

que lhe ficava superior. O calor abrazava.

--É muito tarde para sahirmos por aqui, disse Antonino sem perder a

presença de espirito. Necessitamos passar á platéa, atravessando o palco.

--Vamos por aqui, respondeu Laura. Desceremos a escada que conduz á scena.

O visconde seguiu a cantora.

Dirigiram-se para a escada de serviço.

Por entre a claridade avermelhada, viram os bombeiros correndo em todas

as direcções, d'archotes em punho, dando indicações uns aos outros, em

voz breve.

Fumo espesso, vindo de baixo, attingia toda a altura das abobadas, pela

potencia do jacto, dilatando-se em silencio, como sopros quentes

vomitados por boccas invisiveis.

Do palco partia um ruido continuo de fornalha bem alimentada, que solta

crepitamentos seccos.

O incendio, que fomentava havia duas horas, invadiu, repentina e

invencivelmente, a nave immensa da platéa.

A chamara que sahiu pelo buraco do ponto inflammou o panno de bocca, que

pouco depois misturava as suas cinzas ao fumo.

O fogo chegou ás torrinhas, lambendo, na sua passagem, as decorações do

salão, cujo hemicyclo dentro em pouco foi tomado.

--Saiam todos! gritou um chefe de bombeiros aos seus homens; saiam

todos! Nada temos que fazer aqui... O incendio é mais forte que nós!

O soalho do palco queimava os pés dos que sobre elle caminhavam.

--Venha depressa, minha senhora! supplicou Antonino. Necessitamos saltar

para o espaço destinado á orchestra, e d'aqui a dois minutos será tarde.

--Ainda cá está alguem? perguntou o chefe dos bombeiros, que ficara para

traz.

--Aqui, estão aqui duas pessoas, respondeu o visconde. Ajude-me a salvar

uma mulher.

O bombeiro saltou da platéa para o palco e disse a Antonino:

--Eleve-se a pulso até esse camarote de bocca; logo que lá esteja, eu

levantarei esta senhora, por fórma que possa agarral-a.

O visconde seguiu o conselho, e depois, encostando o peito na borda

do camarote, estendeu os braços para Laura, que, elevada pelo bombeiro,

poude agarrar-se ao seu salvador.

Logo que os viu no camarote, o bombeiro disse-lhes:

--Agora fujam depressa, porque...

O desgraçado não acabou.

O soalho, completamente carbonisado, cedeu ao peso do corpo do homem,

que repentinamente se sentiu envolvido pelas chammas.

--Soccorro!... gritou elle. Quem me acode!...

Como as taboas não tinham quebrado completamente, conseguiu depois de

muitos esforços, retirar o corpo d'aquella solução de continuidade em

que cahira, e muito queimado, approximou-se do camarote onde ainda

estavam Laura e o visconde, a quem estendeu os braços, implorando salvação.

Mas a chamma seguiu-o, incendiando-lhe o fato.

Antonino inclinou-se novamente para o palco, estendendo-lhe as mãos.

--Ajude-me!... não me abandone!... dizia o infeliz.

E deligenciava chegar até á mão do visconde, que por fim logrou agarrar.

De repente, a taboa em que se firmava, quebrou e á perda inesperada

d'aquelle appoio fez com que Antonino perdesse o equilibrio.

Laura percebeu o perigo; lançou os braços, tornados fortes pela

imminencia do perigo, em volta do tronco do visconde, puchando por elle

com força.

Apesar das queimaduras o fazerem soffrer bastante, Bizeux esforçou-se

por puchar para o camarote o infeliz bombeiro, que soltava gritos roucos.

Subitamente o homem fez um movimento brusco, e o visconde sentiu

escorregar-lhe da mão o pulso do desditoso, que cahiu no meio d'aquella

fornalha monstro.

O desgraçado soltou ainda estas palavras: Meus queridos filhos!

E mais nada!

Tomado d'espantoso horror, Antonino voltou-se para Laura.

A cantora perdera os sentidos.

O visconde estava meio asphixiado.

Parecia-lhe que respirava fogo.

Nas pupillas dilatadas e quasi sem vista, sentia milhares de picadas

d'agulhas.

Envolveu a bocca de Laura com uma mantilha, e elle proprio tomou entre

os dentes o lenço d'assoar, cerrando os labios como que para preservar

do oxido de carbone, desenvolvido pelo incendio, os seus robustos pulmões.

Em seguida, chamando a si toda a sua energia, levantou nos braços a

cantora, como se ella fosse uma creança, e sahiu do camarote,

percorrendo o corredor.

Aquella parte do theatro era-lhe conhecida.

O incendio desenvolvia-se no salão, com toda a intensidade.

O lustre abateu, produzindo ruido enorme.

A grande escadaria estava ainda praticavel.

O visconde desceu por ella apressadamente, com as sobrancelhas e os

cabellos queimados.

Um minuto depois chegava á rua, acclamado pela multidão enthusiasmada.

N'esse instante abateu o tecto do salão.

Pelo espaço espalhou-se infinita quantidade de faulhas.

O incendio pavoroso, sacudindo o seu pennacho de fumo ardente,

polvorisado de faiscas, alumiou sinistramente a cidade.

A claridade da lua extinguiu-se ante a intensa vermelhidão das chammas.

Ao longe, sobre os telhados, o ondeado das labaredas, que se

distanciavam em espiraes phantasticas, fazia dançar as chaminés uma

dança macabra, no espaço afogueado.

II

Antonino de Bizeux

Antonino de Bizeux residia em Paris havia apenas dezoito mezes.

Até então vivera sempre na Bretanha, com seu pae, no seu palacio de

Saint-Malo, ou, na epoca da caça, no castello que possuia proximo de

Rascoff.

O visconde viajára muito.

Conhecia toda a Europa e as costas mediterraneas da Asia e da Africa.

Entrára na vida parisiense conservando todas as suas illusões, mas

possuido do ardente desejo de se humanisar, como elle dizia, de se

tornar distincto na distincta sociedade, de que passava a fazer parte.

Caracter firme, sincero, honrado--honrado até á ingenuidade--os seus

pensamentos eram purissimos, e na physionomia transparecia-lhe sempre o

que pensava.

Na sociedade que frequentava, o visconde produzira primeiro o effeito

d'um phenomeno, prestando-se ao desfructe, sem dar por isso.

Depois, pouco a pouco, fôra-se limpando da sua simplicidade primitiva e

tomando pé na encapellada torrente parisiense.

Comtudo conservava o fundo de lhaneza natural, que lhe dava um certo

cunho d'originalidade, e lhe valia um verdadeiro successo junto das

mulheres, as eternas curiosas.

Tinha poucos ou nenhuns amigos.

O seu nome e a sua fortuna, porém, fizeram com que adquirisse innumeros

conhecimentos na alta roda, onde zombavam, apesar de o estimarem, d'esse

retardado da civilisação, a quem chamavam _formoso bretão_ e _selvagem_.

Selvagem era elle seguramente, não porque lhe repugnasse o prazer, mas

porque, entregando-se aos gosos que constituem meros passatempos,

conservava puro o coração.

Sobre o ponto _mulheres_, absolutamente sem importancia para homens que

frequentavam a sociedade em que elle vivia, o visconde pensava e

procedia contrariamente aos seus companheiros, porque elles tinham

os seus amores, e Antonino só poderia ter um amor.

Em poucos mezes saboreára todos os prazeres possiveis sem se embriagar;

estivera exposto a todas as seducções sem ser seduzido.

Não pertencia ao numero infinito de inactivos, que, segundo a phrase do

seu compatriota Chateaubriand, atravessam a vida bocejando, e no seu

dolente aborrecimento só teem uma ambição e um sonho: divertirem-se.

O visconde possuia solida instrucção, fallava duas ou tres linguas; era

um litterato e um _dilettante_.

Amava a arte sob todas as suas variadas fórmas, mas sobretudo era

apaixonado pela musica.

Por essa razão tornou-se dentro em pouco um dos mais assiduos _habitués_

da Opera.

A sua cadeira raras vezes ficava vazia.

N'essa epoca, como já dissemos, brilhava na Opera Laura Linda, estrella

de primeira grandeza que eclipsava todas as outras.

Antonino era ardente admirador da diva.

Adorava-lhe a voz e a expressão maravilhosa do canto.

Mas, coisa extraordinaria, passára muito tempo sem reparar que Laura era

formosissima.

Poderia passar dias inteiros a admirar a grande artista

interpretando as obras dos mestres, que, se a encontrasse na rua, não

voltaria a cabeça para a seguir com o olhar um minuto mais do que a

qualquer outra mulher.

De resto, a sua admiração pela cantora jámais se manifestára de fórma a

dar nas vistas.

Nem um _bouquet_ offerecido, nem o menor transporte de enthusiasmo.

Limitava-se a applaudil-a, semelhando ser egoista do seu enlevo.

Os conhecidos commentavam a seu modo a assiduidade do visconde nas

representações em que Laura tomava parte, e o recolhimento quasi

extatico d'elle a partir do momento em que a cantora entrava em scena.

Todos consideravam Antonino apaixonado pela diva.

A primeira vez que uns amigos, por brincadeira, lhe disseram que o

julgavam louco por Laura, elle admirou-se, mas nem tentou defender-se,

convencido de que os seus interlocutores não comprehendiam a que

sentimento obedecia.

Limitou-se a concordar, sorrindo, que as apparencias justificavam as

suspeitas.

Mas a brincadeira produziu no visconde o effeito d'uma revelação.

A datar d'esse dia consultou o coração, espiando todos os variados

sentimentos que experimentava, perguntando a si proprio se os amigos não

tinham, antes d'elle e sem que de tal desconfiasse, dado o nome exacto á

attracção que Laura Linda exercia sobre elle.

A diva, pelo seu lado, reparára n'aquelle espectador que todas as

noites, da sua cadeira, a seguia com olhar ardente.

De resto, tinham-lhe apontado o visconde como uma das suas victimas.

Deixára que lhe contassem tudo que constava do caracter do seu adorador,

da reputação de selvageria de que elle gosava, mas não admittira que

Antonino estivesse apaixonado por ella.

Fosse intenção ou simples desejo de ser admirada por aquella fórma,

Laura quasi adivinhava o que o visconde sentia, e agradecia-lhe

intimamente a reserva em que elle se conservava, reserva que

desagradaria a qualquer outra.

Uma noite,--é possivel que acabasse d'ouvir fallar d'elle,--como tinha

d'entrar em scena lentamente e em silencio, Laura fixou o visconde por

muito tempo.

Áquelle olhar, todos os admiradores da diva se sentiram supplantados

pelo formoso bretão.

O visconde, porém, longe de ficar satisfeito, parecia contrariado.

É provavel que a cantora percebesse isso, porque muitas vezes durante a

noite olhou para o visconde, constatando sempre que o seu olhar, apesar

d'inoffensivo, produzia n'elle a mesma impressão desagradavel.

Até d'uma occasião o visconde levantou os hombros n'um movimento rapido,

como irritado por ella se esquecer por momentos do papel que

desempenhava.

Ao voltar ao seu camarim, Laura riu quando uma amiga lhe fallou

d'Antonino.

--Apaixonado, aquelle?... Está enganada, disse ella. Será, quando muito,

um amador, e com certeza um homem extraordinario. Ha bocado olhei

algumas vezes para elle, que quasi protestou por eu me desviar do meu

papel!

N'essa noite Antonino sahiu do theatro descontente comsigo e com a diva.

Parecera-lhe que ella se mostrara inferior ao talento que possuia, e

zangou-se comsigo proprio: por julgar ter sido a causa das distracções

em que a cantora incorrera.

Entrevira pela primeira vez a mulher através da artista.

Entrou em casa mal humorado, e por muitas horas a imagem de Laura passou

ante o seu olhar sonhador, brilhante como em scena e fixando-o sempre.

E os olhos fecharam-se-lhe, ao adormecer, suppondo estar ainda admirando

a diva.

Pela manhã assaltou-o uma preoccupação.

Porque olhara Laura para elle?

Porque infringira a arte, porque commettera uma falta, a Linda, a

impeccavel?

Á medida que reflectia, o ser palpavel, a belleza material, a mulher,

absorvia-lhe imaginação.

Quando deu por isso encolerisou-se, e, só no seu quarto, disse alto,

despeitado, quasi furioso:

--Não quero!

No dia seguinte foi para Opera como de costume, mas inquieto, perplexo,

e pensando não voltar lá se, á entrada de Laura, sentisse a mais ligeira

commoção.

A diva entrou, saudada pelos applausos dos seus adoradores.

Depois do primeiro acto Antonino sorriu dos seus terrores.

Por mais que se interrogasse durante todo o tempo que o acto durára, só

encontrara em si o simples melómano.

Comtudo a sua tranquilidade não era obsoluta.

Apesar de tudo tremia a cada instante que ella o fixasse.

A Linda não tivera a mais ligeira distracção, conservara-se sempre a

artista superior que nem um segundo se esquece da personagem que

desempenha, e nem de passagem o seu olhar encontrara o do visconde.

Esta ultima circumstancia não passou despercebida a Antonino, e muitas

vezes lhe occorreu, primeiro sem o impressionar, e depois produzindo-lhe

uma sensação desagradavel, que não estava longe do despeito. A diva

n'essa noite foi surprehendente.

Quando, no fim do ultimo acto, o applauso irrompeu, unanime, só Antonino

não deu o seu contingente de palmas ou flores.

Assistiu á ovação contrariado, franzindo as sobrancelhas descontente,

como se soffresse com aquelle ligitimo triumpho da cantora.

Entre outros ramos, cahiu aos pés da diva um, de lilazes brancos,

lançado ao proscenio por um espectador que estava proximo d'Antonino.

Porque apanhou Laura aquelle ramo, primeiro que qualquer outro?

E porque, ao apanhal-o, olhou e sorriu para o espectador que lh'o

offerecera?

Qualquer explicaria o caso, dizendo comsigo que o lilaz seria a flor

preferida pela diva.

O visconde, porem, é que não considerou explicavel o facto, e

levantou-se da sua cadeira, bruscamente, sahindo apressado para os

corredores e seguindo para casa sem demora.

N'aquella noite teve febre.

No dia seguinte, ao ouvir um amigo fallar de Linda, declarou que ella

declinava, que dera já o que tinha a dar, e que não tardaria em chegar a

estado de só poder ser contratada para theatros d'operetta.

Por si, resolvera passar as noites na Comedia Franceza, porque, afinal,

a musica, era uma arte secundaria.

Com effeito o visconde não appareceu na Opera durante duas semanas.

Amava Laura.

Como nunca amára, não comprehendia a razão do seu mal estar.

Amava-a; os proprios esforços que fazia para estrangular a voz do

coração eram d'isso prova irrefutavel.

Amava-a, e sentia-se ingenuo, pateta, simples.

Pois não praticára a tolice de estremecer de raiva por um estranho

lançar á diva um ramo de que ella gostara?

Amava-a... mas, em summa, tinha ainda força de vontade.

Saberia asphixiar o mal que apenas despontava!

Estava resolvido: não iria mais á Opera, não tornaria a ver a Linda,

porque, custasse o que custasse, tinha de vencer aquella paixão estupida!

Quinze dias depois de proceder pela fórma que a si mesmo impozera,

convenceu-se de que podia voltar á Opera sem perigo.

Tinha a convicção de que se vencera; nada o impedia de voltar a assistir

ao seu divertimento predilecto.

De resto, desejava colher a prova evidente da cura.

Nem um só doente ha que, depois de estar por muito tempo preso no

quarto, não se sinta impaciente d'affrontar o ar livre, d'experimentar

as suas forças.

Foi n'essas disposição confiantes que o visconde assistiu ao espectaculo

da Opera, depois do qual se deu o fatal sinistro que narrámos no

capitulo anterior.

III

Laura Linda

Na lucta contra o amor nascente, que se travava no coração d'Antonino, o

maior perigo, mas ao mesmo tempo o maior attractivo, era, mais do que o

talento de Laura e até mais do que a peregrina belleza da cantora, o que

o visconde sabia, porque todos o diziam, da vida e do passado da diva.

Tinha então vinte e seis annos e havia sete que cantava em theatros.

No apogeu da gloria, envolta n'uma atmosphera d'adorações e de

sollicitações de toda a natureza, a Linda regeitara vinte propostas de

casamento, e ninguem jamais lhe conhecera amante.

A historia simples da sua vida explicava esse caso pouco vulgar.

Laura era hespanhola.

Seu pae, o celebre violinista José Marcia, descendia d'uma familia

illustre porque era o ultimo representante dos condes de Marcia.

Nunca usara o titulo, do qual raramente fallava e sempre com uma especie

de despreso.

Para elle só existia a arte, e considerava um grande artista superior a

um rei.

De resto, era á arte que tudo devia, porque a antiga casa dos Marcias,

era, desde muito tempo, uma casa arruinada.

O pae de José Marcia colhera os ultimos restos da fortuna patrimonial,

mas a grande paixão que tivera pela musica tudo lhe levára.

O conde de Marcia suppunha-se um verdadeiro genio para a composição. O

pouco dinheiro que possuia gastava-o na publicação das suas obras.

Vendeu a ultima quinta para fazer representar com luzimento, na Opera de

Madrid, uma partitura de que era auctor, e com a qual contava assegurar

a sua reputação e refazer a sua fortuna.

A opera, porém, cahiu desastradamente na primeira noite em que subiu á

scena.

Por felicidade seu filho José, a quem elle communicára o amor pela

musica, tinha n'essa epocha vinte e cinco annos e gosava já de grande e

merecida reputação de violinista.

Foi o filho que velou pela sustentação do pae.

O velho melomano apenas tinha uma idéa fixa: desforrar-se.

Compoz ainda duas ou tres operas; e a muito custo conseguiu o filho que

elle as guardasse n'uma gaveta, para que a apresentação d'ellas ao

publico não lhes levasse mais algum dinheiro.

Comtudo José Marcia fingia admirar as composições paternas, por fórma

que o pobre velho morreu cheio d'illusões, legando-lhe confiadamente a

realisação da sua gloria posthuma.

Não foi, porém, o pae, mas o filho quem conquistou a gloria dia a dia, a

que poderia ter junto a riqueza, se não houvesse uma coisa que elle

despresasse mais do que a nobreza: o dinheiro.

Ganhou quantias importantissimas, mas como de ordinario as suas despezas

egualavam as receitas, quando não as ultrapassavam, é claro que jamais

poderia juntar um pequeno capital.

E comtudo não esbanjava o dinheiro; apenas, como elle dizia rindo, não

sabia tratar dos seus negocios.

Dava concertos em extremo lucrativos, mas deixava que o emprezario

embolsasse a maior parte dos ganhos.

Era auctor d'um methodo celebre e gosava d'incontestada e incontestavel

reputação como professor, mas os seus discipulos predilectos não era os

que pagavam melhor, eram os que possuiam mais habilidade, e que

d'ordinario não lhe pagavam.

Vem a proposito, contar uma historia de que riu toda a gente em Madrid.

Um banqueiro riquissimo incumbiu José Marcia de leccionar

particularmente um filho, retribuindo-o principescamente.

Por infelicidade não só o rapaz não tinha tendencia para a musica, como

tambem era um preguiçoso de primeira ordem, que só pegava no violino

durante o tempo das lições.

Ao cabo d'um mez, José Marcia, impacientado, participou ao pae do seu

discipulo que as suas occupações não lhe promettiam continuar com a

leccionação. O banqueiro, ao receber este aviso, limitou-se a duplicar a

remuneração das lições.

Marcia, tentado pelo lucro, continuou.

Mas a tentação durou apenas uma semana.

Finda ella, o distincto violinista escreveu o seguinte ao banqueiro:

«Termino de vez com as lições, porque seu filho é extraordinariamente

estupido.»

Vivia ainda o pae quando Marcia casou com a que devia ser mãe de Laura.

Era filha d'um relojoeiro que vivia no mesmo predio.

Á falta de dote possuia rara belleza.

Elle estava longe de ser bello, e fortuna não a tinha tambem, mas, como

o rouxinol na primavera, conquistou o amor da que devia ser sua mulher

com o canto surprehendente do seu violino.

A joven passava horas a escutal-o, embevecida.

O artista pediu em casamento aquella sua sincera admiradora, que foi

esposa dedicada, e a melhor e a mais terna das mães.

Laura foi creada pela mãe na adoração do pae, e pelo pae na adoração da

arte.

Possuindo raros dotes vocaes, o pae fez d'ella uma artista completa.

Quiz tambem ensinar-lhe a tocar violino, mas ella tinha um outro

instrumento melhor: a voz.

A mãe jamais consentiu que Laura entrasse para o theatro.

A sua prudencia inquieta, que o marido alcunhava de burguezismo,

considerava o palco como um logar de perdição.

Parecia-lhe que a filha, a quem transmittira toda a sua bellesa,

renunciaria, apparecendo no proscenio, a tudo o que havia de honesto e

feliz na vida d'ella: o amor ao lar domestico, o amor d'esposa e o amor

de mãe.

Mas antes de Laura completar desoito annos, falleceu a mãe extremosa,

acontecimento que por muito tempo acabrunhou o violinista e a filha.

Alguns mezes depois da morte da mãe, Laura foi convidada a cantar n'um

concerto de beneficencia.

Obteve um verdadeiro successo.

Mas os applausos de que foi alvo, não lhe causaram tanto enthusiasmo

como ao pae.

José Marcia procurou e encontrou occasião de renovar o triumpho obtido

por Laura.

A fina intuição de que era dotado deixava-lhe antever que a filha e

discipula seria uma artista de primeira ordem.

Aos desanove annos, Laura debutou na Opera de Madrid.

A sua voz, porém, não attingira ainda o completo desenvolvimento.

O pae assim o comprehendeu, e durante dois annos não consentiu que a

filha cantasse, senão raras vezes.

Findos esses dois annos Laura partiu para a Italia, acompanhada do seu

natural emprezario.

Conservou-se tres annos no Scala, de Milão, onde, sob a direcção de

Pozzoli, aperfeiçoou o methodo de canto, adquirindo, sobre o seu nome de

theatro, a Linda, uma enorme reputação, que augmentava todos os dias.

Do Scala foi contractada para a Opera de Paris, porque Laura fallava

e cantava, com a mesma pureza d'accentuação e a mesma nitidez

d'articulação, o hespanhol, o italiano e o francez.

Havia já dois annos que ella estava em Paris, e o seu talento e a sua

formosura tinham encantado por completo os frequentadores da Opera.

O pae, que a acompanhára á capital da França, morreu tres mezes depois

de chegarem.

Felizmente deixava a filha no apogeu da gloria.

E só gloria, porque dinheiro não tinha Laura quando o pae falleceu, nem

elle lh'o deixou.

José Marcia legara á filha o perfeito abandono pelas coisas praticas que

durante a vida sempre tivera.

Por mais vantajosos que fossem os contractos que assignava, Laura apenas

conseguia não ter dividas.

E não era ella quem gastava as suas receitas, mas consentia que os

creados gastassem como lhes aprouvesse.

--Sei contar o meu tempo, dizia a Linda rindo, mas nunca saberei contar

o meu dinheiro!

Comtudo, se no seu orçamento não havia ordem, a sua vida era ordenadissima.

A recordação da mãe adorada estava sempre presente a Laura, e

guardava-a, como se fosse a propria mãe em pessoa.

Resolvera seguir á justa uma vida irreprehensivel, e cumpriu o

compromisso tomado.

De resto, Laura possuia a verdadeira honestidade, a que é indulgente

mesmo com as fraquezas que repudia.

Era jovial com os seus companheiros de theatro, mas sabia fazer-se

respeitar.

Fôra cortejada por muitos homens; soubera, porém, com rara habilidade,

repellir suavemente tanto os que lhe fallavam de casamento, como os que

só lhe fallavam d'amor.

Jamais dissera que não se casaria, mas a primeira condição que estava

resolvida a impor ao noivo, se um dia o tivesse, era conservar-se no

theatro, o que fazia diminuir as probabilidades d'encontrar marido rico.

Pozzoli, o director do Scala de Milão, que na epoca em que se passa esta

historia dirigia a Opera Italiana em Paris, pedira a mão de Laura ao pae

da cantora.

Mas, além de ter uma reputação equivoca, Pozzoli contava evidentemente,

casando com a Linda, possuir sem concorrencia e sem despendio, uma

_primadona_ de primeira ordem.

Dizia-se até que seguia esse systema de ha muito, amancebando-se com

varias das suas contractadas.

Casando com Laura, Pozzoli faria diminuir as difficuldades com que

luctava como emprezario.

Em Milão, um compositor de talento apaixonou-se doidamente pela

diva, e, ainda que fosse pobre, não era de certo o interesse que o movia

a dar-lhe o seu nome e a sua vida.

Laura, porém, não sentia a mais insignificante parcella d'amor pelo que

tanto a adorava, e como elle comprehendesse essa triste verdade, sahiu

de Milão para Florença.

O numero dos que apenas procuravam o amor de Laura era superior aos que

desejavam casar com ella.

Mas perdiam o tempo e o trabalho.

Um d'elles, o tenor ligeiro Lauretto Mina, era um bello homem, muito

infactuado, mas a quem poucas mulheres resistiam.

Fôra ajudante d'um professor d'esgrima.

Estava escripturado por Pozzoli na Opera Italiana.

Possuia voz extensa e bem timbrada, mas não sabia servir-se d'ella, e

era sufficientemente preguiçoso para poder modificar-se, estudando.

Entretanto considerava-se o primeiro tenor do mundo, e dizia-o

imperturbavelmente.

Desde a primeira vez que viu a Linda, declarou-se apaixonado por ella.

Mas Linda, com a natural finura de mulher, percebeu dentro em pouco que

especie d'homem era Lauretto e passou a tratal-o, contrariamente á

forma pela qual procedia com todos os outros collegas, com uma

frieza que bem se podia alcunhar de desdem.

Este procedimento de Linda fez com que Lauretto, vaidoso em extremo, se

possuisse d'occulta irritação, que mesclava d'odio o amor, ou antes o

desejo, que sentia pela cantora.

Entretanto teve a força de vontade sufficiente para não manifestar o seu

descontentamento, declarando até aos amigos, com ironico despreso, que

se inclinava ante a virtude de Laura, a quem elle chamava _Casta diva_.

--Sou tão preguiçoso! dizia o tenor no _foyer_ dos artistas. Não tenho

paciencia para sustentar um prolongado cerco a uma mulher tão bem

defendida. Cedo o logar a qualquer outro assaltante de mais solida

perseverança. Renuncio a ser o primeiro, mas juro por Venus e pelo Amor,

que serei o segundo.

Um outro apaixonado, mais amoldavel, foi Remissy, violinista hungaro, um

original, segundo uns, e um doido segundo outros, mas um grande, um

verdadeiro artista.

Remissy foi a Milão para ouvir José Marcia, de quem elle admirava o

talento, apesar de deferir muito do que possuia o violinista hungaro.

Viu Laura, e, como era facilmente impressionavel, inflammou-se

d'enthusiasmo pelo talento e pela belleza da cantora, simultaneamente.

A Linda, porém, tratou-o com meiguice e alegria, a que não era estranho

um certo desdem, e todo o fogo de Remissy extinguiu-se subitamente.

--Tem cem vezes razão! dizia-lhe elle. Não pode tomar a serio um maluco

como eu. Além d'isso, eu não estou perfeitamente certo de que não me

enganasse, e não adore apenas a sua voz, o que é muito possivel. Andaria

duzentas leguas para a ouvir! A sua voz transporta-me ao setimo ceu!

Convencionemos o seguinte: não serei seu amigo, serei seu idolatra. E

desde já te peço licença para te tratar por tu, como á divindade!

De todos os seus apaixonados que eram bons e sinceros, Laura fazia amigos.

Na primeira plana d'esses convertidos estava, em Paris, o dr.

Despujolles, o medico considerado como a verdadeira providencia dos

theatros, sobre tudo dos theatros de canto.

Quem estivesse rouco pela manhã podia cantar á noite como um rouxinol,

mercê das magias homoeopathicas do dr. Despujolles.

Foi um pouco mais recalcitrante que Remissy, á cura, homoeopathica

tambem, do amor pela amisade, mas como além d'intelligente era honesto,

acabou não só por se resignar, como tambem por estimar o papel que Laura

lhe confiava.

Todas estas informações sobre a Linda foram colhidas por Antonino de

Bizeux dia a dia, d'este e d'aquelle, affectando indifferença, mas

sentindo na realidade um interesse e emoção de que elle não se

apercebia, e temendo e desejando ao mesmo tempo que lhe apontassem

qualquer nodoa no passado da diva, porque n'esse caso Laura passaria a

ser menos perigosa para elle.

IV

O dia seguinte

Era quasi meio dia.

Laura acabára de se levantar, e recostara-se languida e como magoada

ainda, sobre o canapé do seu salão, remexendo, distrahidamente, n'um

montão de cartas e de folhas rasgadas de carteiras, que cobriam o

marmore d'um velador.

Por entre os nomes do que vulgarmente se chama _todo Paris_, procurava

um que não encontrava, e lia com indefferencia as palavras escriptas a

lapis sobre os papeis que folheava.

Entretanto um bilhete houve que lhe prendeu a attenção por mais tempo.

Era de Pozzoli.

Dizia o antigo emprezario de Laura:

«Morreu a Opera, viva o theatro dos Italianos! Pozzoli irá ámanhã a casa

da distinctissima diva, levando um contracto em branco á sua ex e futura

escripturada».

Ao ver o cartão de Lauretto Mina, a Linda franziu as sobrancelhas.

O tenor escrevera:

«Enforca-te Lauretto! Laura esteve prestes a ser queimada viva, e tu não

estavas junto d'ella para a salvar».

Em compensação, sorriu-se ao ler um outro bilhete.

«Compuz hoje de manhã um cantico d'acção de graças, uma _alleluia_

triumphante, que irei executar-te no meu violino, logo que possas

receber o teu mais humilde admirador.

_Remissy_».

A diva resolveu responder sem perda de tempo ao violinista, convidando-o

a almoçar no dia seguinte.

Chamou para isso Jacintha, a sua creada de quarto, pedindo-lhe o

necessario para escrever.

Jacintha, collaça de Laura, tinha poucos mezes mais que a cantora.

Era uma formosa rapariga, d'um trigueiro assetinado e quente, olhos e

cabellos pretos, labios vermelhos e sensuaes.

Nunca abandonára a cantora, a quem estimava muito, mas a quem servia mal.

--Mais cartas, minha senhora, disse ella ao entrar, quasi todas

entregues pelos proprios, que não subiram porque o porteiro não consentiu.

--Que deixe subir o dr. Despujolles quando elle chegar.

--Sim, minha senhora. E o sujeito que lhe salvou a vida?

--O sr. Antonino de Bizeux? Tambem! Há bocado disse-te o mesmo.

--Já se vê... Se não fosse elle estaria a senhora morta a estas horas. E

eu tambem, porque se a senhora morresse, não lhe sobreviveria.

--É um homem deveras corajoso! disse Laura, pensativa.

--E bonito!

--Jacintha!...

--Perdão, minha senhora!... jurei-lhe que nunca mais chamaria bonito a

qualquer homem, ainda que elle fosse como S. Miguel Archanjo, e

faltei ao meu juramento!... Mas não está mais na minha mão!

--Cala-te! interrompeu Laura, que não poude deixar de sorrir, e manda

entregar immediatamente esta carta ao sr. Remissy, rua Favart.

Alguns minutos depois, Jacintha annunciava o dr. Despujolles.

--Eil-a! disse o medico ao entrar. Eil-a, a esta salamandra que

atravessou impunemente as chammas!

--Infeliz da salamandra, respondeu Laura, que ficaria frita como uma

carpa se não tivesse quem a ajudasse.

--Vejamos o pulso. Sabe que vim cá ás oito horas da manhã?

--Sei.

--Como me disseram que dormia, cedi o logar ao melhor dos medicos, o somno.

--Só consegui adormecer ás seis horas da madrugada.

--Pudera! Depois d'um tal abalo não admira. Hum! Está com febre, como

era de prever. Vou receitar-lhe um calmante.

E chamou.

Appareceu Jacintha.

--Manda sem demora esta receita a uma pharmacia.

--Sim, sr. doutor.

--E então? Há mais juizo agora?

Jacintha tornou-se purpurina.

--De certo, sr. doutor.

--Hein? Isso é verdade? Toma cuidado! Á primeira escorregadella, tens

d'haver-te commigo!

Jacintha pegou na receita, e sahiu apressadamente.

--É necessario, disse o doutor a Laura, que a minha amiga possua uma

solida reputação, para ter junto de si uma rapariga d'este quilate!

--Coitada! É tão bondosa e dedicada! Quer que a abandone?

--De certo que não! Estudo em Jacintha a força do instincto. É um

precioso _sujet_ physiologico para observar--desculpe-me o termo--o

animal na mulher.

--Oh! doutor!

--Posso-lhe fallar assim, porque a minha amiga é toda espirito. Em si o

animal não existe.

--Trata de desculpar-se com um cumprimento! Pois dir-lhe-hei que, em

momento de perigo, o instincto é superior ao que o doutor chama

espirito. A noite passada, quando na Opera se ouviu o primeiro grito de

fogo, acabava eu de me vestir. Jacintha--o instincto--que estava no meu

camarim, fugiu immediatamente, e eu--o espirito--que temo o fogo mais do

que qualquer outra coisa no mundo, comecei a tremer, dobraram-se-me os

joelhos, fiquei impossibilitada de fazer o menor movimento.

Jacintha, que ainda não tinha sahido, sacudia-me, queria arrastar-me.

Tentei caminhar, e cahi desfallecida. Então ella sahiu, dizendo-me que

ia buscar quem me soccoresse.

--Ah! a Jacintha fugiu? E pretende que ella é dedicada! Bonita

dedicação, não haja duvida!

--Ouça o resto. Logo que chegou á rua e se viu livre de perigo, Jacintha

lembrou-se de mim immediatamente. Entrou de novo no theatro, soluçando,

querendo procurar-me atravez as chammas. E gritava: «Fui eu que a matei!

quero morrer com ella!» Foram necessarios tres homens para a segurar,

levando-a á força para um posto policial. Chegada lá, Jacintha cahiu

n'um mutismo feroz. Como não podia salvar-me do fogo, tinha resolvido

lançar-se ao Sena.

--Mas, afinal, como e por quem foi salva? Corre já sobre o caso, uma

verdadeira lenda.

--E parece lenda, com effeito.

Seguidamente contou ao doutor as peripecias do seu salvamento até ao

momento da morte tragica do bombeiro, em que ella de novo tinha perdido

os sentidos.

--Quando voltei a mim, continuou Laura, estava n'uma pharmacia da rua de

Peletier. Jacintha, que me tinha encontrado, soltava gritos d'alegria

por me ver abrir os olhos. O meu salvador estava ali tambem, com o

fato, as barbas e os cabellos queimados, pallido, mas satisfeito por ver

que eu voltava á vida. Reconheci-o como um dos _habitués_ dos

_fauteuils_ d'orchestra. Exprimi-lhe o meu reconhecimento, e pedi-lhe

que me dissesse como se chamava. Sabe o doutor o que elle me respondeu?

Isto: «Sou alguem que passava, e que a salvou, salvando-se.» Foi a custo

que obtive, ao subir para a carruagem que me conduziu a casa, que elle

me desse o seu cartão.

--E conserva o cartão de tão modesto homem?

--Eil-o aqui... O doutor leu:

--ANTONINO DE BIZEUX.

--Conhece-o?

--De vista, apenas. Tenho-o encontrado em varios salões. É considerado

como um original, meio selvagem. Lembro-me de o ver muitas vezes na

Opera, e, se bem me recordo, dizia-se que elle estava apaixonado pela

minha querida Laura.

--Engano! Quando muito estaria apaixonado pela minha voz. Se arriscou a

vida, para salvar a minha, estou certa que foi unicamente por suppôr que

não ha outra cantora que lhe faça sentir as mesmas emoções de _dilettante_.

--Parece-me isso inverosimil, observou o medico. Verá que, como

recompensa, elle não se contentará com a promessa d'uma nova

escriptura na Opera. Já a veiu ver, sem duvida?

--Pedi-lhe que viesse, e assegurou-me que viria saber como eu estava.

Julguei que tivesse vindo de manhã, emquanto dormi, mas não encontrei o

cartão d'elle entre os outros.

--Se suppõe que será recebido, como merece, só se apresentará depois do

meio dia. Entretanto lembre-se que não lhe receito só o que mandei

buscar á pharmacia: é necessario que guarde um repouso absoluto.

Prohibo-a de receber quem quer que seja.

--Tem de abrir uma excepção para o meu salvador, replicou Laura com

vivacidade. A ingratidão não é droga que o doutor receite a ninguem, com

certeza.

--Bem! Farei a excepção pedida! disse Despujolles sorrindo. Registo,

comtudo, que a minha amiga desobedece ás prescripções do seu medico, o

que é grave.

E retomando o tom serio do clinico, accrescentou:

--Asseguro-lhe que necessita do mais absoluto repouso durante muitos

dias. N'este momento é a febre que lhe conserva as forças, mas em breve

cahirá n'uma grande prostração nervosa, e sentirá a necessidade d'uma

completa tranquillidade d'espirito.

--Comtudo... disse Laura.

--Não ha comtudos...

--Não lhe fallarei de Pozzoli, que me propõe escriptura...

--Eu me encarrego de mandar Pozzoli para o inferno! D'aqui a oito dias

tratará d'esse negocio.

--Ou quinze; isso é o menos. O peor é que escrevi a Remissy,

convidando-o para almoçar ámanhã. Elle quer que eu ouça uma _alleluia_

que compôz em minha honra...

--Então convide-me tambem, disse o doutor n'outro tom. Como estarei

presente, não consentirei que falle. Remissy e eu a entreteremos.

--E o meu salvador? perguntou Laura. Se vier hoje não posso convidal-o

para o almoço?

--Mau! Isso já é outro genero de distracção. Como serei do rancho,

tratarei de vigiar, porque, na verdade, começo a ter ciumes do visconde.

--Que idéa!

--Pois sim! A verdade é que elle está apaixonado e é bretão. E um

apaixonado que salva a vida da sua bella...

--O senhor sabe que eu sou sincera... interrompeu Laura.

--Sei. É a mulher mais franca que eu conheço. Direi até: a unica, em que

pese á minha numerosa clientela feminina.

--Consola tanto nada ter que dissimular ou occultar! Pois bem;

affianço-lhe, doutor, que, pensando no sr. de Bizeux, não sinto a

menor commoção indicativa d'amor; nem sombra d'ella! Que elle esteja ou

não apaixonado por mim, confesso-lhe e declaro-lhe que nunca desejei

tanto fazer de qualquer homem um amigo.

V

Perplexidades

A Linda não recebeu n'esse dia a visita ou o cartão d'Antonino.

Outro tanto succedeu no dia seguinte até á hora do almoço, ao qual

Remissy e Despujolles fizeram as devidas honras, sem conseguirem, apesar

dos esforços empregados para esse fim, distrahir a cantora d'uma especie

de preoccupação que se apossára d'ella.

Nada de novas do meu salvador! disse Linda a Despujolles quando o doutor

se despediu. Tenho perguntado a mim mesma se não serei eu quem deva

mandar saber noticias d'elle. Quem nos assegura que o visconde não está

mal?

--Vamos, serei generoso mais uma vez! replicou o medico. Irei saber do

seu heroe. Está satisfeita? Onde mora elle? Não tem indicação de morada,

no bilhete de visita? Parece-me que é no _boulevard_ Hausmann, mas

ignoro o numero. Sabel-o-hei por um dos meus clientes, que é primo do

visconde, e dentro em pouco lhe mandarei dizer como elle está.

Ás tres horas da tarde Laura recebeu o seguinte bilhete:

«Fui a casa do nosso homem. Está no mais invejavel estado phisico. O

moral nãe me diz respeito.

_Despujolles._»

Entretanto Antonino, cumprindo a promessa feita á cantora na noite do

incendio, fôra no dia seguinte saber como estava Laura.

O Romance d'uma cantora · 第 1 / 14 段