--Minhas senhoras e meus senhores, tenho a dizer-lhes o seguinte: depois

do campo, a cidade; o almoço campestre d'hoje teve por fim celebrar a

promessa d'escriptura, no theatro dos Italianos, da diva Laura Linda;

quero dar uma _soirée_ em honra da realisação d'essa escriptura. Peço,

pois, a todas e a todos os presentes que queiram ir, d'hoje a quinze

dias, passar a noite em minha casa, na rua Pigolle. Cantar-se-ha,

dansar-se-ha, jogar-se-ha, beber-se-ha e rir-se-ha!

Uma triple acclamação victoriou o discurso do amphitryão.

Em seguida subiram para as carruagens, de volta a Paris.

--Onde está o sr. de Bizeux? perguntou Laura a Despujolles. Tenho que

fallar-lhe. Quero que me acompanhe a Paris no meu _coupé_.

--Não faça tal, minha querida, disse-lhe em voz baixa o doutor. Durante

a festa não se fallou senão na especie de monopolio que o visconde tinha

feito da diva.

--Se eu era a rainha de festa, quer-me parecer que elle era o heroe d'ella.

--Sem duvida, mas siga o conselho d'um amigo. Vou subir comsigo e com o

visconde para o _coupé_. Deixal-os-hei, se quizerem, em Verinet, d'onde

seguirei para Paris no comboio. Repito-lhe: não parta só com o visconde.

Lembre-se do que poderão dizer.

Laura levantou a cabeça com altivez e replicou:

--O que poderão dizer?... Que me importa?... O meu caro doutor conhece a

minha divisa: ser e não parecer. Repito-lhe que tenho de conversar

seriamente com o sr. de Bizeux, e não sei se, com a timidez de que elle

é dotado, acharei occasião tão propicia como esta. Supporá o dr. que

ha na minha intenção qualquer pensamento menos digno?

--Eu? não, seguramente, mas.

--Basta-me isso. Ah! Eis o sr. de Bizeux! ajuntou ella elevando a voz.

Senhor visconde, tenho que fallar-lhe. Quer subir para a minha carruagem

e acompanhar-me até Paris?

--Oh! minha senhora!... respondeu Antonino meio compromettido, meio alegre.

--Então venha. Subiram para o _coupé_ diante de todos.

--Bravo! disse Lauretto Mina a meia voz, mas por fórma que foi ouvido

por todos os que o rodeavam. Vejo com prazer esboçar-se o numero um...

porque eu quero ser o numero dois!

VII

Explicações

A palestra de Laura e de Antonino versou, ao principio, sobre assumptos

indiferentes, e quasi banaes.

Fallaram do almoço e dos convidados de Pozzoli.

O visconde não queria dizer o que pensava do emprezario e do tenor.

Fallou de Remissy, cuja familiaridade o incommodára por vezes, mas cujo

enthusiasmo exuberante fizera com que sympathisasse com elle.

--Que coração tão bondoso o d'elle! disse Laura. É meu verdadeiro amigo!

Meu pae dedicava-lhe grande affeição e profunda estima. Saberá quanto

vale em o conhecendo melhor. Em Remissy não ha só a admirar e a

applaudir o artista consumado: é tambem um valente e um patriota

sincero. Durante a guerra da insurreição da Hungria, elle foi um dos

primeiros que se apresentou, e não quiz nem espingarda nem sabre. «Tenho

horror de matar ou de ferir, disse Remissy; de resto, como não sei

servir-me d'essas armas, era capaz de dar cabo de mim com ellas». Em

compensação não largou o violino, e appareceu sempre onde mais accesa

era a lucta, ao lado de Kossuth, tocando admiravelmente o _Hymno de

Rakoçki_, por entre as ballas e a metralha, sem nunca falhar uma nota!

Depois d'um curto silencio, a cantora accrescentou:

--N'uma palavra: Remissy é um homem. Tem, superior a todas, a qualidade

que eu considero mais essencial ao caracter dos homens, a qualidade que

o sr. visconde possue: a lealdade.

--É virtude que as mulheres tambem possuem, replicou Antonino, e quem a

conhece, minha senhora, affiança que não lhe falta.

--Desejava possuir essa virtude viril, sem duvida. Entretanto esforço-me

o mais que posso para evitar os dois defeitos que a maior parte das

vezes perdem as mulheres: a galanteria e a vaidade. É precisamente por

essa razão que lhe desejei fallar hoje.

--Porque? perguntou Antonino surprehendido.

--N'este dia, em que o vi quasi pela primeira vez, occupei-me, sem

querer, e como por instincto, quasi exclusivamente do senhor, como o

senhor se occupou quasi exclusivamente de mim. Ha bocado, de subito, em

quanto Remissy tocava, acudiu-me ao espirito que tinha sido um pouco

leviana, que o sr. visconde não conhece a minha fórma de proceder,

talvez original, e que, por isso, interpretaria mal o que hoje se

passou. Portanto, disse commigo: é indespensavel que eu tenha com elle

uma explicação cabal, franca, em que lhe falle com o coração nas mãos...

--Não sei se deva regosijar-me por essa sua resolução, disse Antonino

com voz tremula. Sinto que estou enfeitiçado e desejava conservar-me assim.

--Mas eu não desejo que entre nós haja a menor sombra, a menor razão que

de futuro motive a mais leve surpreza. As mulheres, d'ordinario, esperam

a declaração dos homens para as acceitar ou rejeitar. Vae julgar talvez

que eu fujo ás conveniencias mais rudimentares, antecedendo-me á sua

declaração, mas é necessario, primeiro que tudo, que o sr. não soffra.

Sr. de Bizeux, tenho pensado muito no meu amigo desde o dia do incendio.

Não dou importancia ao que se diz, ao que se suppõe, ou ao que se

inventou, mas senti, de longe, nas suas acções, no seu silencio, na sua

fuga, e depois, quando o vi e lhe fallei, nas suas mais insignificantes

palavras, no seu aspecto, no seu metal de voz, senti... que o senhor

não estava longe de amar-me.

O visconde fez um movimento, e quiz fallar.

Mas Laura não lhe deu tempo, e continuou:

--Peço-lhe que me não declare ser isso um facto consumado... Não, não

quero ouvir-lhe dizer: amo-a!

--Comprehendo... sei... replicou Antonino. A senhora não me ama, o que é

natural, e--o que é triste,--não quer amar-me!

--Não o amo, nem o quero amar... disse bem, repetiu Laura.

Antonino fez um gesto de desgosto.

Laura ajuntou suavemente:

--Não se zangue commigo, e sobretudo não soffra. Sem duvida lhe disseram

o que tinha sido a minha vida até aqui, mas vista e julgada por

estranhos. Ouça-me agora.

E seguidamente contou-lhe a educação que recebera, as suas primeiras

impressões, e o duplo fluido de que ella era por assim dizer formada: o

pae transmittira-lhe o culto pela arte, a mãe guiara-a por forma a ter

sempre a consciencia tranquilla, e a vida pura.

Depois a cantora disse, pensativa:

--Portanto não me accuse, como teem feito varios, de frieza, de

sequidão. Sinto em mim instinctos de ternura e d'expansão, aos quaes não

basta a sincera affeição que tenho aos meus amigos. Creio que só o

amor pode encher completamente o coração. Olhe, para se consolar um

pouco, vou dar-lhe uma prova de confiança absoluta, dizendo-lhe o que só

se diz a um irmão: ha em mim, em gráu bastante elevado, um sentimento

que herdei de minha mãe, a mais estremosa das mães: o sentimento

maternal. Todas as creanças que vejo, produzem-me uma impressão

inexplicavel, tenho por ellas uma adoração completa: adoro-lhes os

gestos, os sorrisos, a voz balbuciante, a alma por definir. Ter uma

creança que fosse meu filho, é para mim um sonho delicioso; ter um filho

do homem que amasse, é outro sonho que considero impossivel de realisar-se!

--Porque?

--Porque? Sob a apparencia d'uma mulher phantastica, eu sou,

garanto-lhe, uma mulher seria. Não quereria, não poderia amar um homem

que não fosse meu marido.

Houve um silencio.

Antonino cortou-o dizendo com voz grave:

--Escute-me agora, Laura: sou absolutamente livre e senhor das minhas

acções, e da minha vida. Por coisa alguma d'este mundo affligiria ou

daria o menor desgosto a meu pae; mas o homem que me deu o ser possue

alma generosa e elevada como poucos, e tem por mim um amor sem limites.

Não me amará ainda, Laura, mas, se diligenciar amar-me, é possivel

que o consiga. Pois bem: prometta-me que no dia em que tal succeda,

consentirá em ser minha mulher!

--Sua mulher!... disse a cantora admirada.

Depois, com os olhos marejados de lagrimas, accrescentou:

--Ah! como lhe agradeço a grande prova d'estima que acaba de dar-me!

Como as suas palavras me commovem! Será por me ter salvo a vida? Não

sei, mas o que é certo,--e já ha bocado lh'o disse,--é que fui attrahida

para o senhor por um vivo sentimento de sympathia, e se o não amo ainda,

parece-me que não necessitaria fazer grande esforço para o conseguir.

Levanta-se apenas uma difficuldade, que de novo lhe aponto: não quero

amal-o!

--Mas porque?

--Porque o sr. visconde não póde nem deve casar commigo.

--E se os nossos desejos estiverem d'accordo, que obstaculo poderá

separar-nos?

--Um obstaculo insupperavel. É impossivel que o sr. visconde Antonino de

Bizeux case com uma mulher de theatro, que, mesmo depois de casada, não

renunciará á scena.

--É impossivel, disse?

--Disse e repito: é impossivel! Não devemos deixar-nos obcecar por uma

excitação de momento. Quando se prende o destino inteiro, deve-se

ter em vista não a alegria do instante presente, mas a felicidade de

todo o futuro: Com as aspirações honestas que minha mãe me legou, eu

tenho as aspirações d'espirito de meu pae. Nasci e morrerei artista. Se

fosse pintora, compositora ou escriptora, podia ter um logar na vida da

alta sociedade. Mas sou apenas cantora; o meu talento é a minha voz, e

para que esse talento se produza é necessario um publico, não o publico

indulgente dos salões, mas o grande publico, a multidão que enche um

theatro.

--E suppõe que o amor, o lar, as santas alegrias da familia não

substituirão vantajosamente o ruido das palmas e a gloriola dos bravos?

--Durante algum tempo... sim... é possivel, é até provavel. Mas estou

certa de que depois chegará o aborrecimento, a nostalgia do proscenio.

Na ultima epoca que cantei no theatro Scala, ha tres annos, adoeci ao

começar o inverno. A doença era ligeira e qualquer outra que não fosse

eu estaria completamente curada com um mez de tratamento e de socego.

Mas a impaciencia, o desgosto e a febre devoravam-me, por fórma que

estive de cama tres mezes. Pereceria longe do theatro, como uma planta a

que não chegam os raios do sol. Ah! se o senhor fosse um artista como

eu, pobre, desconhecido até! Mas possue um honrado titulo e uma grande

fortuna. Seu pae por mais condescente que seja, não acceitaria para

nora uma comediante, uma cantora, uma mulher que póde ser pateada e

assobiada! Se o senhor quizesse contrariar a vontade de seu pae,

desprezando os deveres que lhe impõem o seu nome e a sua posição social,

seria eu a primeira--ouve?--que recusaria semelhante sacrificio.

--Sacrificio, se vier a amar-me, será a senhora quem o fará um dia.

--É possivel, e por isso mesmo é que eu não quero amal-o.

--Mas eu que a amo, o que hei de fazer?

--Tornar-se meu amigo. Não diga que não; não supponha que é impossivel

d'operar a transformação do amor em amisade. Verá que hei de auxilial-o

fraternalmente. É necessario vontade e coragem, bem sei, mas estou certa

de que não lhe faltarão essas duas qualidades.

--Está-me fallando como me fallaria meu pae!

--Ah! confessa?... Ainda bem! Attenda-o e attenda-me. A um homem de

caracter fraco, eu diria: parta, faça uma longa viagem, e volte d'aqui a

alguns mezes, completamente curado. Ao meu amigo digo-lhe: fique em

Paris, vá ver-me quantas vezes desejar, e estará curado dentro em poucas

semanas.

--Seja! respondeu o visconde. Não partirei, tentarei a prova. Veremos o

que resulta d'ella.

Quando o _coupé_ parou na rua de Bolonha, á porta da casa de Laura,

Antonino despediu-se da cantora sem commoção apparente. Beijou-lhe a mão

e trocaram amigavelmente um:

--Até ámanhã.

O visconde desceu a pé a rua de Glichy e a calçada d'Antin até aos

_boulevards_.

Sentia uma especie de consolação ao ver-se perdido entre a multidão.

Caminhou até que os passeiantes rarearam.

Só depois disso entrou em casa, com o coração cheio d'incerteza e

d'angustia.

VIII

Mais perplexidades

Antonino executou com a mais perseverante firmeza a resolução que tomára.

No dia seguinte ao do almoço em S. Germano, e nos dez ou doze que se

seguiram, foi a casa da cantora, não a hora certa, e com demora

indeterminada, mas sem deixar de apparecer um unico dia.

Umas vezes encontrava Laura só, outras apparecia o dr. Despujolles,

sempre alegre, sempre espirituoso.

O visconde era como que uma pessoa da familia da cantora.

Fallavam d'arte, de qualquer assumpto em geral, da novidade do dia.

A Linda, por vezes, quando estavam sós, fallava d'ella propria, com

simplicidade, sem a menor affectação, sem se contrafazer, sem se macular.

Contava-lhe o seu passado, fallava-lhe do pae, do que tinha visto, das

suas luctas, dos seus successos, das suas dôres.

Antonino absorvia assim, dia a dia, por completo, as mais

insignificantes minucias da vida de Laura.

A cantora não dissimulava os seus defeitos ou os seus erros, mas não os

exagerava.

No dia em que participou a Antonino que assignára, de manhã, com

Pozzoli, uma escriptura d'um anno para cantar no Theatro Italiano, com a

multa de cincoenta mil francos para qualquer das partes contractantes,

que resolvesse rescindir o contracto, o visconde teve uma contracção

nervosa.

Estava escripto que deveria levantar-se entre elles mais aquella barreira.

Antonino não demonstrou descontentamento sobre o contracto propriamente

dito, mas ao mesmo tempo indicou uma profunda má vontade contra o

Theatro Italiano, contra Pozzoli e o _elenco_, que considerou muito

inferior ao do antigo salão Favart.

Sentiu ver Laura confundida com artistas de valor secundario, n'uma

companhia de que Lauretto Mina era primeiro tenor.

Lauretto Mina e Pozzoli!

Um, brigão e libertino; o outro, libertino e rufião!

Um, trapaceando ao jogo; o outro, explorando os duellos!

Na opinião d'Antonino aquelles dois homens representavam a escoria dos

italianos.

N'aquelle mesmo dia recebeu o visconde um convite de Pozzoli, para

assistir á _soirée_ que o emprezario dava, d'ali a algumas noites, na

sua casa da rua Pigolle.

Laura tencionava ir?

Emquanto a elle, estava resolvido a não pôr os pés n'aquelle bordel.

Perguntou á cantora se não sabia o que diziam de Pozzoli.

--Não é um italiano... é um grego!

Laura respondeu com meiguice.

Estava resolvida a ter com Pozzoli as relações indispensaveis que sempre

ligam a escripturada ao emprezario, unicamente.

Entretanto não podia deixar d'ir á _soirée_, que era dada em sua honra,

e na qual devia cantar um ou dois trechos de musica.

Ficaria muito reconhecida ao visconde, se elle annuisse a pôr de parte a

repugnancia que sentia, e assistisse á _soirée_ tambem.

Necessitava que Antonino estivesse presente, para velar por ella.

--Devo confessar-lhe um dos meus maiores vicios, accrescentou Laura,

rindo; sou jogadora. Não sei explicar nem me desculpo d'esta falta. O

jogo produz-me emoções tão extraordinarias, que as procuro e as adoro.

Não deixe d'ir, para que me contenha e afaste até, se eu, como costumo,

me deixar influenciar demais.

--A acreditar no que se diz, respondeu Antonino, não é para a minha

amiga que a minha attenção deve voltar-se, se jogar com Pozzoli.

--Bem sei. Diz-se que é muito feliz ao jogo, que principalmente os seus

escripturados não devem jogar contra elle, porque muitas vezes lhes tem

ganho um anno d'ordenados. Pela minha parte garanto-lhe que nunca vi

coisa alguma justificativa d'essa triste reputação de Pozzoli. Apenas

uma vez joguei contra elle, e levantei-me ganhando cento e cincoenta

_luizes_. Mas não importa; se é verdade o que se diz, isso é mais uma

razão para não deixar d'ir á _soirée_. Vae?

--Irei.

A cantora ficou satisfeita por fazer com que o visconde desempenhasse o

papel de seu protector e conselheiro.

Sentia immenso prazer pedindo-lhe que a guiasse e reprehendesse,

confessando-lhe as suas faltas e a sua ignorancia.

Interrogava-o sobre as viagens e estudos que elle tinha feito,

pedia-lhe a opinião sobre as coisas e sobre os homens, escutando-o

sempre com approvação e deferencia, como um irmão mais novo escuta o

irmão mais velho.

Nas palestras que tinham, cada vez mais intimas, nunca Laura deixou

entrever a menor parcella de galanteio ou de vaidade.

A mulher occultava-se, chegava mesmo a desapparecer, para só ficar a amiga.

Laura percebia que com a sua encantadora simplicidade e graciosa

modestia, ia contra o fim que tinha em vista, porque um homem com o

caracter d'Antonino, em vez de se affastar, approxima-se cada vez mais

da mulher que faz d'elle confidente da sua alma ingenua e sincera.

E effectivamente o visconde estava cada vez mais apaixonado.

Nem já conhecia o grau a que se tinha elevado a sua paixão.

Ao principio calculava o amor que sentira pela cantora, pelo ciume que

experimentava.

Inquietava-se por ver com Laura os amigos intimos, como que os

inseparaveis da Linda. De resto, o numero d'esses amigos era limitadissimo.

Tres ou quatro, contando com Despujolles, e Antonino conhecia-os a todos

antes de ter relações fraternaes com a cantora.

Quando os encontrou pela primeira vez em casa de Laura,

tranquillisou-se. A Linda fallou-lhe d'elles com um socego e uma

serenidade que não deixou no espirito do visconde a menor sombra de

suspeita.

Socegado pelos que via, Antonino sobresaltou-se por um que não via: o

tenor Lauretto Mina.

Ouvira dizer que o tenor fizera em tempo a côrte a Laura, e nem uma só

vez a Linda pronunciára o nome de Lauretto.

Porque?

A verdade era que Laura temia o tenor, não por ella, mas por Antonino.

Temia-o por causa das suas continuas fanfarrices, das suas

impertinencias, dos seus modos d'homem mal educado, e, emfim, pelas

varias narrações que lhe tinham feito da pericia com que Lauretto jogava

o sabre.

Como já dissemos, o tenor fôra ajudante d'um professor d'esgrima em Milão.

Dizia-se que conhecia dois botes ignorados, que consideravam incorrectos.

Na Italia matára um homem, e ferira gravemente um outro.

Além d'isso batera-se varias vezes, pondo sempre os adversarios fóra do

combate.

E vangloriava-se do facto, dizendo que estava precavido contra qualquer

acontecimento grave.

Uma especie d'instincto advertira Laura de que esse acontecimento podia

surgir da fatuidade do esgrimista emerito e da altivez do gentilhomem

bretão.

Era essa a razão que a levava a não fallar do tenor ao visconde.

Comtudo um dia Antonino interrogou-a.

--Esse tal Lauretto Mina, com quem vae cantar no Theatro Italiano, não

lhe fez a côrte em tempo?

A cantora respondeu, sorrindo e sem se perturbar, que Lauretto fazia a

côrte a todas as mulheres, mas que, a primeira vez que lhe dirigira

galanteios, ella respondera-lhe de fórma que elle não se atrevera a

continuar.

Era a verdade, e Laura disse-a de maneira que convenceu Antonino.

De resto, fallou d'aquelle homem sem escrupulos sem vergonha, tão

desdenhosamente, que o visconde arrependeu-se de ter, por um instante,

suspeitado que Laura poderia ter sympathia por um patife de tal especie.

Portanto deixou de ter ciumes.

Mas em compensação o amor augmentou.

IX

A confissão

Um dia,--na vespera da _soirée_ dada por Pozzoli,--Antonino foi a casa

de Laura á hora costumada, duas da tarde, e encontrou-a ao piano.

A pedido do visconde a Linda cantou duas ou tres canções populares

hespanholas, de que elle gostava muito, com uma graça e perfeição

inexcediveis.

Antonino escutava, como mergulhado n'uma especie d'adormecimento.

Ao contrario do que costumava, pouco a applaudiu.

Ella fechou o piano e approximou-se d'elle.

Fallou-lhe com a affabilidade e a franqueza habituaes.

Vendo, porém que o visconde não lhe respondia, disse-lhe:

--Está hoje muito triste! O que tem, meu amigo? Recebeu alguma má

noticia? Estará doente seu pae?

--Effectivamente recebi hoje de manhã uma carta de meu pae, que,

felizmente, está bom, assim como minha irmã. A carta só fallava de mim,

e em resposta a outras que lhe escrevi nos ultimos dias. Como lhe

disse, meu pae é o meu confidente e o meu melhor amigo.

--Se não é por elle, é pelo sr. que está triste? Teve algum desgosto?

Diga! Como sabe combinámos que eu seria tambem sua amiga.

--Combinamos, é verdade... respondeu Antonino em tom pungente.

--Então faça-me confidente dos seus desgostos; já confessou que estava

triste...

--Estou...

--E qual é a causa d'essa tristeza?... Vamos, falle...

--Se fallo, Laura, respondeu Antonino decidindo-se? falto ao compromisso

que tomei com a senhora. Mas é o mesmo, fallarei... Perdôe-me e escute-me.

--Acautelle-se, disse a cantora inquieta. Não venha turvar a profunda

satisfação que todos os dias me causa a sua visita. Ha apenas duas

semanas que o conheço, e parece-me que estamos relacionados ha mais de

dez annos. Acautelle-se... acautelle-se. De certo não me quer

entristecer tambem, e ainda menos offender-me.

--Não a entristecerei nem a offenderei, certamente. Mas não combinámos

tambem que seriamos sempre extremamente francos um com o outro, que nada

dissimulariamos, que o primeiro artigo da lei da nossa amisade seria a

mais absoluta confiança? Pois bem: vou ler no meu coração, vou

indicar-lhe tudo o que n'elle ha. Calou-se por instantes, e depois

continuou:

--Pediu-me, Laura, que não fosse mais do que seu amigo. Tentei, de boa

vontade e de boa fé, satisfazer o seu pedido, mas não o consegui. Quanto

mais vezes a vejo, mais augmenta em mim a estima e a admiração pela

senhora, e com a admiração e a estima, o amor. Não posso resistir-lhe,

não posso luctar por mais tempo, não posso conter-me! É indispensavel

que lhe diga bem alto: amo-a, Laura, amo-a!...

Ella soluçou.

--Escute-me... ainda não acabei. Se a phrase que me prohibiu de

pronunciar saltou dos meus labios, não foi com a intenção de a affligir

ou de lhe desobedecer. Não me esqueci d'uma só das palavras que trocamos

á volta de S. Germano. Consinta apenas que uma ultima vez lhe faça a

seguinta pergunta; se casasse com um homem que a amasse e cuja

posição e fortuna lhe permittissem abandonar o theatro, ser-lhe-ia

completamente impossivel renunciar á scena para sempre?

--Já lh'o disse, mas vou repetir-lhe que o theatro é para mim como uma

segunda vida, e que não devo nem quero renunciar a elle.

--Pois bem, Laura, eu é que não posso renunciar á sua mão. Talvez

soffresse menos não respirando do que deixando de a ver. A senhora é

para mim mais do que uma segunda vida, porque é a minha vida inteira!

Não quer ceder ao meu pedido? Cederei eu ao seu.

E accrescentou com voz firme:

--Continue no theatro, Laura, e no dia em que me amar, será minha mulher!

Ella levantou-se, estupefacta, e soltou um grito de surpreza.

--É possivel?... O que disse?... Pois consente?... Deixar-me-ha ficar no

theatro... depois de dar-me o seu nome?... Oh! meus Deus!...

Sentiu uma alegria enorme, inexplicavel, de que ella propria não

comprehendia a significação.

Elle ajoelhou-lhe aos pés e disse:

--Sim... tudo... tudo! Consisto em tudo, com tanto que seja minha!...

Laura pôz-lhe uma das mãos na frontes e respondeu:

--Não, meu amigo, é muito! Não devo consentir em tanta generosidade...

não quero acceitar um tão grande sacrificio... não quero!...

N'esse momento ouviu-se uma voz, alta e clara, na sala contigua áquella

em que estavam Antonino e Laura.

Era a voz de Lauretto Mina.

X

O supplicio do silencio

O tenor fallava com Jacintha, a creada de quarto.

Devemos declarar aqui que Lauretto pertencia ao numero d'aquelles a quem

a expansiva Jacintha chamava bonitos.

--Deixa-me, rapariga! dizia, ou antes, gritava o tenor. Um companheiro

nunca incommoda!

E entrou de subito na sala onde estavam Laura e Antonino.

A Linda empallideceu.

O visconde levantou-se, cerrando os labios, enraivecido.

Lauretto fingiu não ter visto Antonino ajoelhado.

Foi direito a Laura, e pegou-lhe na mão, que ella não lhe estendera.

--Bom dia, minha querida, disse elle. Senhor visconde, tenho a honra de

o cumprimentar... Esta Jacintha a não me querer deixar entrar!...

Nós só a estranhos não permittimos a entrada nos nossos camarins, mas,

que diabo! nas nossas casas os collegas teem sempre entrada franca!

Laura, interdicta, não achou uma só palavra que responder.

Elle não se incommodou por não obter resposta, e continuou:

--Com que então cantamos ámanhã juntos, na _soirée_ de Pozzoli, o dueto

da _Lucia_! É por essa razão que venho a tua casa. Se queres, vamos

ensaiar-nos, minha querida.

Antonino estava irritadissimo.

Aquelle homem atrevia-se a tratar Laura por tu!

Chamava-lhe _minha querida_, como se estivesse fallando com a creada de

quarto!

Deu um passo para Laura, interrogando-a com o olhar ancioso.

O Romance d'uma cantora · 第 3 / 14 段