claramente se deprehende o terem sido contemporaneos, porque duas
civilisações sómente poderiam repellir-se na mesma epoca e não em
epocas differentes. Prova-se porém, até certo ponto, mais directamente
esse facto, porque em excavações, feitas em nuraghas da Sardenha e em
talayots das Baleares têem apparecido armas de silex e de bronze[221].
Assim, ao tempo em que os introductores do estylo dolmenico abicavam
ás praias occidentaes da Peninsula, povos de outra raça, e ligados a
outro centro de civilisação, incompativel com o costume ou com o rito
dos dolmens, habitavam as regiões orientaes, banhadas pelo Mediterraneo.
A antinomia do occidente com o oriente, ou das civilisações vindas pelo
Atlantico á Peninsula, com aquellas que entraram pelo Mediterraneo, ou
finalmente dos povos das regiões septemtrionaes da Europa com os do
oeste da Asia e do norte da Africa, manifesta-se-nos, pela primeira
vez, na epoca da pedra polida, entre os constructores dos dolmens
e os constructores dos talayots ou dos muros cyclopeos. Depois, na
aurora dos tempos historicos, entre os celtas e os iberos. Mais tarde,
outra vez, entre os barbaros, procedentes das regiões septemtrionaes
da Europa e os arabes e mouros, vindos da Asia e da Africa. Hoje,
finalmente, como ha oito seculos, a resistencia invencivel á união
de Portugal e Castella é ainda um effeito d’esta grande e prolongada
antinomia do occidente com o oriente. A Galiza é uma excepção, porque,
ficando ao occidente, se uniu á Hespanha e não a Portugal. Mas todos
sabem que outr’ora o portuguez e o gallego fallaram a mesma lingua,
e que ainda hoje, pelo caracter, pelos costumes, pelas propensões
populares, Portugal e a Galiza se assimilham mais entre si do que com
quaesquer outros povos da peninsula Iberica.
Outros vestigios de uma civilisação primitiva, talvez mais ou menos
relacionada com os monumentos cyclopeos, estão nas antigas minas de
cobre del Milagro, nas Asturias; de Cerro-Muriano, em Cordova; de Odiel
e Riotinto, na Huelva; e finalmente de Ruy Gomes, no Alemtejo[222]. Os
machados de pedra com que trabalhavam n’estas explorações denotam uma
industria prehistorica, anterior ao uso de ferro e até provavelmente
ao do bronze. Ha certa variedade nas fórmas dos taes martellos. Uns
assimilham-se áquelles que se tem encontrado em varias estações
prehistoricas da Europa; em cavernas da França e lagos da Suissa:
outros, como os de Cerro-Muriano, parece terem antes mais analogia com
instrumentos congeneres, achados em minas de cobre do Lago Superior,
na America do Norte[223]. Aqui apparecem tambem vestigios notaveis de
construcções cyclopeas nas margens dos rios Colorado, Mancos, San Juan
e La Plata do Novo-Mexico. Tornam-se sobre tudo notaveis as grandes e
altas torres redondas, feitas de duas ou tres muralhas concentricas, as
habitações excavadas nas rochas, as quaes dizem similhantes a outras
da Asia Menor, e finalmente as inscripções entre cujos hieroglyphos
se distingue a figura do homem e de varios animaes. Algumas d’estas
inscripções foram gravadas na pedra, outras pintadas com argillas
vermelha e branca[224]. Ora todas ellas, pelo genero do desenho, e
algumas por serem coloridas e pelas substancias colorantes empregadas,
se assimilham extremamente a outras da Andaluzia, encontradas tambem em
nichos ou casas abertas nas rochas[225]. Por outra parte os philologos
aproximam os idiomas dos vasconços aos dos georgianos e aos de certos
povos da America, a ponto de os reunirem todos no mesmo grupo[226].
Estes factos estão indicando a existencia de uma antiga civilisação,
irradiante da Asia para a Europa e para a America, e caracterisada
pela exploração e fabríco do cobre. Os seus vestigios acham-se em
regiões extensas da Asia, na Russia scythica, no Caucaso, na Hungria
e Transylvania, na Iberia e na America. Tão mal se conhece ainda a
archeologia prehistorica d’estes povos, representantes da epoca do
cobre, que a maior parte dos archeologos tem chegado a negar a sua
existencia, admittindo sómente a da epoca do bronze. Entretanto os
estudos, apenas começados, das antiguidades tchoudes na Asia e na
Europa, os poucos conhecimentos adquiridos ácerca das minas de cobre
prehistoricas fazem já evidente a irradiação de uma antiga civilisação
do mesmo centro commum para varias partes do mundo.
A qual das raças humanas se ha de referir este grande movimento
prehistorico da exploração e fabríco do cobre? Os tchoudes, a quem
se attribuem as minas do noroeste da Asia, da Russia scythica e da
Hungria e Transylvania, são de raça turania. Os mais antigos dos povos
da America assimilham-se tambem mais aos turanios que aos iranios. Em
fim os proprios vasconços parece não serem inteiramente extranhos á
raça mongolica. Aristoteles refere que os iberos (de Hespanha), povo
bellicoso, erguiam á roda de cada tumulo tantos obeliscos, quantos
inimigos o defuncto matára em vida[227]. Os annaes chinezes de Tchéon
(567 a 579 depois de Jesus Christo) repetem _verbum ad verbum_ as
palavras de Aristoteles, mas a proposito de um povo tartaro. Dizem dos
_thoukiones_ ou turcos orientaes, restos dos hiongnon (hunos), que por
aquelle mesmo tempo figuraram entre os invasores da Europa meridional,
vindos do norte, «que elles põem uma pedra sobre a sepultura, e
levantam á roda tantas pedras, quantos homens o defuncto matára em
vida».
Á classificação dos vasconços ou dos antigos iberos entre os povos
da raça mongolica oppõem-se, bem o sabemos, razões ponderosas, taes
como a presupposta origem dos segundos e os caracteres ethnicos dos
primeiros. Porém nenhuma d’estas razões constitue uma difficuldade
insoluvel. O caracter ethnico dos vasconços não póde ter-se conservado
puro durante milhares de annos no meio de povos de raças differentes.
É por tanto admissivel que os mais antigos dos exploradores do cobre
fallassem algum idioma agglutinativo, hoje perdido, no tempo em
que foram construidas as nuraghas e os talayots, e anteriormente á
entrada dos iberos na Peninsula. Ainda assim não ha impossibilidade
em attribuir a estes ultimos as mais antigas das minas, suppondo
que n’elles predominariam os caracteres ethnicos da raça caucasica,
posto que, pela linguagem e pela civilisação que representavam, se
relacionassem antes com a raça mongolica. As regiões que separam o mar
Caspio do mar Negro eram exactamente aquellas, onde vinham encontrar-se
as raças caucasica e mongolica, para da Asia emigrar para outras partes
do mundo. Tudo são trevas em tão remota antiguidade. Ainda hoje uns
sustentam que o euskara fôra a linguagem dos iberos; outros affirmam
que as inscripções ibericas, achadas em varias regiões da Peninsula,
são inconciliaveis com a lingua dos vasconços. A philologia está
portanto tão atrazada, que não resolveu ainda este ponto fundamental.
A anthropologia diz-nos apenas haverem-se encontrado dois craneos,
um dolichocephalo e outro brachycephalo, cada um em sua mina. A
archeologia não sabe classificar os vestigios dos povos primitivos
da Peninsula, e nem ao menos, até hoje, demonstrára cabalmente a
differença capital entre os dolmens e os monumentos cyclopeos, e
as conclusões importantissimas que resaltam da sua antinomia e
distribuição geographica.
Quanto ao centro e extensão de uma antiga civilisação mongolica,
anterior á historia, recentes descobrimentos confirmam a asserção de
Justino, o historiador. Segundo esta asserção, que exprime antigas
tradições asiaticas, a Asia Anterior sería inteiramente senhoreada
durante quinze seculos pelos scythas, povo mais antigo que os proprios
egypcios. Ora os estudos assyriologicos demonstram este mesmo
desenvolvimento dos povos turanios na Asia Anterior ainda antes dos
aryos e dos semitas[228].
A incerteza do caracter ethnico, verificada nos iberos e n’outros dos
povos antigos da Peninsula e da Europa, é tambem commum ainda hoje a
uma raça muito notavel, cujas tribus, essencialmente nomadas, vaguêam
pela face da terra praticando a arte de fundir ou forjar os metaes.
Chamam-lhes _tzigeuners_ ou _ziguener_ na Allemanha, _tzigani_ na
Hungria, _zingaros_ na Italia, _bohemios_ na França, _gitanos_ em
Hespanha, e finalmente _ciganos_ em Portugal. No Alemtejo encontram-se
muitos individuos d’esta raça. Habitam em Evora as ruas de certo
bairro, e conservam os seus costumes proprios, entre os quaes se
notam sobre tudo as ceremonias e festejos dos casamentos. Vaguêam,
como nomadas, pelos campos e de povoação em povoação. Vivem da rapina
e de comprar, vender ou trocar cavalgaduras, distinguindo-se nas
feiras pela astucia com que enganam os compradores. Ha poucos annos
vagueava em Portugal uma tribu de ciganos, que tinha por industria o
concerto ou estanhadura de vasos e utensilios de cobre ou de bronze.
Estacionavam pelos arrabaldes das cidades, onde abarracavam, como
tropas em campanha, demorando-se com as suas forjas, em quanto os
moradores da povoação lhes davam trabalho. Durante a idade media estas
visitas dos ciganos fundidores ou caldeireiros eram mais frequentes,
e então, como hoje, praticavam sempre da mesma fórma que Herodoto já
notara. Mas é ainda mais extraordinario que as fundições até hoje
descobertas e pertencentes á epoca do bronze auctorisem a suppôr que já
n’esses tempos remotos a arte de fundir o bronze sería praticada por
estrangeiros que estabeleciam as suas officinas em raso campo, fóra das
povoações. Isto mesmo parece deduzir-se dos thesouros achados pelas
montanhas, onde teriam sido escondidos pelos fundidores vagabundos,
que por qualquer causa não teriam podido voltar em busca d’esses ricos
depositos.
Na opinião de alguns os ciganos constituem um povo moderno das margens
do Indus ou Sind, cujas primeiras emigrações datariam do tempo de
Tamerlan, que pol-os perseguir os obrigaria a expatriarem-se. Outros
porém attribuem-lhes muito maior antiguidade, e suppõem que os
actuaes ciganos descendem dos syginnos, que Herodoto diz terem sido
os primeiros habitantes da Hespanha, e que teriam vindo do Danubio:
Strabão é de parecer que os syginnos procederiam antes do Caucaso.
Tambem não falta quem tenha achado relações de parentesco entre os
syginnos e os sicanos, primeiros habitantes da Sicilia. Haverá apenas
uma similhança casual entre os nomes de syginnos, tzigeuners, tziganos,
sicanos e ciganos, ou serão com effeito fórmas differentes do nome
de uma antiga raça, que, vinda da Asia, diffundiria pela Europa a
industria do fabríco do bronze nos tempos prehistoricos?
Ainda outra circumstancia notavel. Diz Herodoto que os syginnos
trajavam largas vestes á maneira dos medas, d’onde conclue que os
primeiros seriam effectivamente d’estes ultimos povos, que em epocas
remotas viriam á Hespanha[229]. Strabão affirma que os habitantes das
Baleares eram optimos fundidores e os primeiros dos homens que, segundo
se dizia, usaram largas tunicas _tunicas late pretextas_[230].
NOTAS DE RODAPÉ:
[196] A dolichocephalia dos vasconços hespanhoes e a brachycephalia dos
vasconços francezes constam das tabellas publicadas por Topinard e por
Quatrefages nos livros _L’anthropologie_ e _L’espèce humaine_.
[197] Esta opinião tem sido em todos os tempos e pela maior parte
dos auctores geralmente seguida. Entretanto o atrazo da philologia
e da archeologia peninsulares não permitte ainda formular qualquer
demonstração rigorosa. O que por ora se sabe dos costumes e linguagens
dos povos que habitavam a Peninsula é tão incerto, que não ha que
estranhar vermos na actualidade uns, como Luchaire, sustentarem que
o euskara sería a lingua dos antigos iberos que povoavam a Peninsula
e a Aquitania, e outros, como Sayce, affirmarem que as inscripções
celtibericas não se parecem nada com aquelle mesmo idioma dos
vasconços. Vej. _La Academia_, tom. I, pag. 370 e 238.
[198] Tubino, _Los Aborigenes ibericos_.
[199] Strabão affirma que os iberos usavam não sómente de muitos
dialectos, mas tambem de alphabetos diversos.
Anteriormente aos povos da Peninsula dominados pelos romanos, seis
ou cinco seculos antes de Jesus Christo, os _tartessos_ habitavam ao
meio-dia, desde o Guadalquivir até ao Segura, ao norte de Carthagena.
Os _cunétos_, visinhos dos tartessos, habitavam ao occidente as margens
do Guadiana, e dilatavam-se pelo litoral até ao cabo de S. Vicente.
Ao norte dos cunétos habitavam os _kempsos_, dilatando-se até aos
Pyreneus, pelos arredores da provincia de Guipuscoa.
A leste os _gletos_ entre os Pyreneus e o Ebro. Perto dos gletos, no
interior das terras, os _vascões_ sobre o Ebro, e os _ceretos_ ao pé
dos Pyreneus.
No litoral do Mediterraneo, ao sul dos Pyreneus, os _indiketòs_.
No interior das terras, entre os tartessos ao meio-dia, os gletos ao
norte, e os kempsos a oeste, habitavam os _etmanei_ da _Ora maritima_,
talvez os mesmos que os _edetarios_ de Strabão, os quaes mais tarde
viriam ás praias do Mediterraneo.
No VI seculo antes de Christo os liguros occupavam os dois extremos
da cordilheira dos Pyreneus, a leste perto de Ampurias, a oeste
as cercanias de Bayona. Dilatar-se-hiam até ás fontes do Betis ou
Guadalquivir, onde era a lagôa ligustica. D’Arbois de Jubainville, _Les
premiers habitants de l’Europe_. Pariz, 1877.
Mais tarde, entre outros, acham-se mencionados pelos auctores os
povos seguintes, dos quaes alguns nomes manifestamente correspondem
aos anteriores: _arevacos_, _astures_, _ausetanos_, _autrigones_,
_bargusios_, _bastitanios_, _berones_, _caristios_, _carpetanos_,
_celtiberos_, _cerratanos_, _coniscos_, _contestanos_, _cosetanos_,
_cimeos_, _ilergetes_, _icarcitanos_, _indigetes_, _lacetanos_,
_laletanos_, _lusones_, _murgobos_, _obcades_, _pelendones_, _pesicos_,
_tartesios_, _turdetanos_, _turdulos_, _vacceos_, _vardulos_ e
_vettones_. Lafuente, _Hist. gen. de España_, tom. I, Apend.
[200] Rougemont, _L’âge du bronze_, pag. 168 e seg.
[201] Mithridates, 101, cit. por D’Arbois de Jubainville.
[202] D’Arbois de Jubainville, _Les premiers habitants de l’Europe_.
Pariz, 1877, pag. 304 a 307.
[203] Tal é o systema recentemente proposto e defendido por D’Arbois de
Jubainville no livro citado.
[204] Strabão, lib. III, cap. 4.º, § 19.º
[205] N’este systema os iberos differençar-se-hiam dos tartessos,
cunetos e kempsos, e comprehenderiam os glétos, os ceretos, os vascões
e os indiketos.
[206] Citados por Masdeu, _Historia critic. de España_, tom. II, pag.
303 e 304.
[207] D’Arbois de Jubainville op. cit.
[208] Seneca, _Consolatio ad Helviam_.
[209] Thucydides, I, VI, cap. 2.º
[210] Avieno, _Ora maritima_.
[211] Edição Westermann, pag. 184, cit. por D’Arbois de Jubainville,
pag. 242.
[212] D’Arbois de Jubainville, op. cit., pag. 241.
[213] Tacito, _Agricola_, cap. II. Avieno, _Ora maritima_, vers. 433.
[214] Ad Contubernales. Carm. XXXVII.
[215] Seguimos o mesmo methodo, que tão vantajosamente Lyell applicou
á geologia. Apesar da diversidade de condições em que operam as forças
physicas e o homem, ainda n’este caso se prova a analogia das invasões
historicas. Identidade não ha, como entre as causas geologicas actuaes
e as antigas. Mas essa mesma analogia nos basta para as conclusões a
que pretendemos chegar.
[216] Quatrefages, _L’espèce humaine_.
[217] Com factos, citados por Lyell e Quatrefages, se demonstra a
existencia da navegação atlantica na epoca da pedra polida. Já os
mencionámos a pag. 105 d’este livro.
[218] Mimaut, _Histoire de Sardaigne_, citado no _Bulletin de la
Société d’anthropologie de Paris_, tom. 5.º, pag. 22.
[219] Rougemont, _L’âge du bronze_, pag. 73.
[220] Tubino, _Los aborigenes ibericos_.
[221] _Revue d’anthropologie_, 1875, pag. 507. _La Academia_, 1877,
pag. 184 e 185. As explorações feitas nas nuraghas e talayots não
têem sido taes que próvem evidentemente a coincidencia da construcção
d’estes monumentos, ou dos mais antigos, dentro dos limites da idade
da pedra. As armas de silex até hoje encontradas não bastam, porque
muitas vezes acontece apparecerem taes vestigios misturados com os
do cobre ou do bronze, como ainda ha pouco tempo, nas explorações de
Schliemann no sitio de Troia. É possivel tambem que, ao tempo em que os
povos orientaes da Peninsula, mais avançados na estrada da civilisação
estivessem já na epoca do cobre ou do bronze, os occidentaes vivessem
ainda na idade da pedra. E assim se explicaria o achado de uma frecha
de cobre nas grutas da Cesareda, unico documento de uma civilisação,
posterior á de todos os outros vestigios encontrados.
Mas, para se dar como provada esta discordancia, isto é, que os povos
do oriente estariam já na epoca do cobre ou do bronze, quando os do
occidente não teriam ainda ultrapassado os limites da epoca neolithica,
sería mister emprehender mais numerosas e methodicas explorações, tanto
das construcções dolmenicas ao occidente como das cyclopeas ao oriente.
[222] Tubino, _Estudios prehistoricos_. Madrid, 1868, pag. 98 a 106.
Pereira da Costa. _Noticia de alguns martellos de pedra e outros
objectos que foram descobertos em trabalhos antigos da mina de cobre de
Ruy Gomes no Alemtejo._ No _Jornal de sciencias mathematicas, physicas
e naturaes_. Lisboa, 1868, n.º V.
[223] Tubino, op. cit.
[224] W. H. Holmes, _A notice of the ancient ruins of southwestern
Colorado, examined during the summer of 1875. United states geological
and geographical survey of territories_. Washington, March, 21, 1876.
[225] Gongora, _Antigüedades prehistoricas da Andalucia_.
[226] Vej. a classificação das linguas por Max-Müller no _Diction.
univers. du_ XIX _siècle_, verb. LANGAGE.
[227] _Fragm. histor. graecor._, tom. 2.º, pag. 180.
[228] Lenormant, _Les premières civilisations_, tom. 1.º, pag. 107.
[229] Herodot. _Histor._ lib. V.
[230] Strab. _Geograph._ lib. III.
NOTAS
1.ª
MACHADOS DE PEDRA
«A arma verdadeiramente significativa, que jámais se empregou depois do
fim da edade da pedra, ou quando muito depois do periodo de transição
da pedra para os metaes, é o machado polido. Marca um periodo, pelo
menos no occidente, porque na Chaldêa tem-se encontrado muitas
vezes nos tumulos do antigo Imperio e nos entulhos dos edificios
d’Abou-Schahrein. Por isso ao machado de pedra mais tarde se ligaram
tantas superstições; a sua origem humana estava inteiramente esquecida.
«A alta antiguidade, á qual se reportavam os instrumentos de pedra, foi
causa de que entre muitos povos lhes dessem caracter religioso, e se
conservasse o uso d’elles por muitas vezes no culto. Entre os egypcios
era com um instrumento de pedra que o paraschisto abria o ventre da
mumia, antes de submettel-a ás operações do embalsamento. Entre os
judeus a circumcisão praticava-se com uma faca de silex. Na Asia-Menor
os gallos ou sacerdotes de Cybêle retalhavam as proprias carnes com
uma pedra cortante ou com um caco de louça. Na Chaldêa a intenção
religiosa e ritual que fazia depositar facas e pontas de pedra nos
tumulos do antigo Imperio prova-se pelos modelos d’estes instrumentos
de pedra ou de barro cozido, moldados pelos originaes, que algumas
vezes os substituem. Entre os romanos um machado de pedra (_scena
pontificalis_) servia para o culto de Jupiter Latialis, e tambem para
os ritos dos Feciaes. Na China, onde se conhecem os metaes ha tantos
seculos, as armas de pedra, e sobre tudo as facas de silex, têem sido
religiosamente conservadas. Ainda hoje em dia entre os pallikares da
Albania, eu proprio o observei, com um calhau cortante e não com faca
de metal destacam as carnes da omoplata do carneiro, em cujas fibras
acreditam ler os segredos do futuro.
«A par com a conservação ritual do uso de certos instrumentos de
pedra nas ceremonias religiosas importa mencionar, terminando, as
superstições que se associaram ás pontas de frechas de pedra e
aos machados polidos que se encontravam no solo, depois de se ter
perdido a sua origem. Na maior parte dos povos do mundo antigo, nos
seculos pouco anteriores á era christã, recolhiam-os como objectos
preciosos, e attribuiam-lhes mil propriedades maravilhosas e magicas,
por accreditarem que do ceu cahiam com o raio. Conforme o testimunho
de Plinio, distinguiam-se as _ceraunias_, que, segundo a sua propria
descripção vem a ser as pontas de frechas, e os _betuli_, que são os
machados. Ha collares de ouro etruscos dos quaes pendem, á maneira
de amuletos, pontas de frechas de silex. Ao caracter talismanico que
suppozeram n’esta classe de objectos se hão de attribuir as inscripções
gnosticas e cabalisticas do seculo III ou IV da nossa era, gravadas
n’um pequeno machado polido descoberto no Peloponeso, e actualmente
no Museu Britannico. Seríam feitas de certo na epoca em que o machado
serviria de amuleto protectivo a quem o trouxesse comsigo. As crenças
supersticiosas ácerca das suppostas pedras de raio permaneceram
vigorosas ainda entre os sabios, até ao seculo XVI; e sómente no seculo
XVIII chegaram a desarraigar-se inteiramente na Europa illustrada. Em
muitos paizes, como na Italia, Alsacia e Grecia, subsistem ainda entre
os habitantes dos campos.»
Lenormant, _Les premières civilisations_, tom. I, pag. 169 a 172.
2.ª
A CITANIA DE BRITEIROS
No monte de S. Romão de Briteiros, entre Braga e Guimarães, em pequena
distancia das Taipas, jazem umas ruinas, mencionadas desde o seculo XVI
pelos nossos antiquarios, e recentemente exploradas pelo sr. Francisco
Martins Sarmento. Discutiram largamente, sem chegar a conclusões
decisivas, Brito, Estaço e Argote que povoação teria sido esta em tempo
dos romanos. Mas o atrazo da archeologia não lhes deixou entrevêr
que tal questão não sería de certo a mais importante d’aquellas que
o exame das ruinas poderia suscitar. Os problemas de maior interesse
apparecem agora á vista dos restos que o sr. Martins Sarmento, com
zelo e dedicação de que até hoje não houvera ainda exemplo em toda a
Peninsula, desentranhou da espessa camada de terra que os occultava.
A existencia da povoação na epoca romana demonstra-se com certeza pelas
moedas e inscripções ali encontradas. Mas, a par com esses vestigios,
têem apparecido outros, representantes de uma civilisação anterior que
na Peninsula, á falta de estudos e de explorações, não se destaca ainda
claramente das trevas prehistoricas. A promiscuidade dos caracteres
romanos com os de outros alphabetos ou com lavores esculpidos de outro
estylo, tudo conjuntamente nas mesmas pedras, provando mais com egual
evidencia que todos esses vestigios são contemporaneos, não se pode
explicar senão pela insufficiencia da civilisação romana para destruir
e substituir por outros os velhos costumes transmittidos de geração a
geração entre os habitantes d’esta parte da Peninsula.
Depois das grandes explorações ultimamente emprehendidas, vêem-se os
restos das quatro muralhas que defendiam a povoação pela parte do sul
e poente; percorrem-se as ruas e praças, algumas d’ellas lageadas com
losangos de granito perfeitamente apparelhados; entra-se nas casas,
em cujas paredes, conservadas de pé até certa altura, muito bem se
observam todas as particularidades da construcção.
A mais forte das primeiras impressões é a que produz no espirito a
vista das muralhas e das casas. Quem estiver habituado a observar
a regularidade do apparelho romano, a superficie liza dos grandes
silhares, a nitidez das linhas de união, a firmeza resultante
do endurecimento da argamassa pelos soes de muitos seculos,
necessariamente estranhará a falta de todo o apparelho nas muralhas e
o limitar-se unicamente á face externa nas paredes das casas mais bem
construidas, e da mesma sorte o não terem sido ligadas as pedras com
argamassa. Esta circumstancia e tambem o revestimento interior das
paredes das casas com pedras pequenas, faz lembrar as construcções
denominadas cyclopeas, que se encontram na Italia, Malta, Grecia, etc.
Porém o não se descobrirem vestigios correlativos da epoca remota de
taes construcções induz a crêr que a falta da cal sería a causa de
se conservar no monte de S. Romão o costume de construir com pedra
insossa, como ainda hoje acontece nas povoações ruraes circumvisinhas.
Não se explica da mesma sorte por circumstancias locaes uma singular
particularidade observada n’algumas casas, e vem a ser o formarem as
pedras maiores das paredes, series espiraes, que principiam junto do
solo e se prolongam com regularidade geometrica até á parte superior.