_Se os vasconços descenderão dos beréberes.--Insufficencia das provas

allegadas.--Hypotheses da unidade e da pluralidade iberica.--Razões

favoraveis a esta ultima.--A philologia e a historia.--A Iberia do

Caucaso comparada com a peninsula Iberica.--Os iberos e os povos com

quem estavam relacionados.--Difficuldade de determinar os antigos

povos peninsulares.--Asserções vagas dos auctores.--Necessidade

de resolver o problema por methodos novos.--Até que ponto as

invasões historicas esclarecem as prehistoricas.--O Mediterraneo

e o Atlantico, vias principaes por onde vieram as civilisações á

Peninsula.--Relacionam-se estas vias com as duas correntes das

emigrações asiaticas.--A distribuição geographica dos dolmens

peninsulares caracterisa uma das civilisações, vindas pelo

Atlantico.--Os monumentos pelasgicos caracterisam outra, vinda pelo

Mediterraneo.--Antinomia d’estas duas civilisações.--Outras antinomias

entre o occidente e o oriente já nos tempos historicos.--As mais

antigas das minas de cobre.--Analogias entre os povos antigos da

Iberia e os da America.--A civilisação da epoca do cobre.--Os ciganos

e os antigos fundidores do cobre e do bronze._

Broca e outros dos modernos propendem, já o dissemos, para classificar

os vasconços entre os representantes actuaes da raça de Cro-Magnon,

que, nos tempos prehistoricos povoara o sudoeste da França, a peninsula

Iberica e o norte da Africa. N’esta hypothese os vasconços seriam

pois os ultimos restos dos antigos beréberes, que em epocas remotas

passariam da Africa á Europa. A dolichocephalia dos craneos dos antigos

e modernos habitantes das provincias vascongadas é o unico facto até

hoje conhecido e allegado em favor de tal idêa. Ora a insufficiencia

d’esta prova demonstra-se claramente, porque, se os vasconços, por

serem dolichocephalos, descendessem dos antigos beréberes ou da raça de

Cro-Magnon, seguir-se-hia que todos e quaesquer craneos dolichocephalos

pertenceriam á mesma raça: o que seria absurdo. Por outra parte sabe-se

hoje que os vasconços francezes são brachycephalos. Por consequencia

tão licito parecerá suppôr que os vasconços, primitivamente

dolichocephalos, se tornariam, em parte, brachycephalos por effeito

dos cruzamentos, como affirmar a inversa, isto é, que os vasconços

primitivos teriam sido brachycephalos, e que, por influencia de

raças estranhas, se tornariam depois, na região mais sujeita a essas

influencias, dolichocephalos[196]. A esta consideração accresce outra

não menos ponderosa, e vem a ser que a similhança da lingua vasconça é

com idiomas asiaticos e americanos e não com os da Africa septemtrional.

A opinião mais geralmente seguida é ser o euskara a lingua ou antes um

dos idiomas dos antigos iberos, que se conservaria entre os vasconços

pela resistencia maior que estes povos offereceram á dominação romana,

e por serem aquelles em quem menos sensivel se tornou a sua influencia

modificadora[197].

Tomando por fundamento as provaveis analogias entre os modernos

vasconços e os antigos iberos, pretendeu Guilherme de Humboldt reduzir

ao euskara de hoje as designações locativas das regiões da Peninsula

que suppunha haverem sido habitadas por estes povos. Este systema,

segundo o qual os antigos iberos constituiriam um povo unico e com uma

só lingua, teve numerosos sectarios durante muitos annos. O _iberismo_

oppunha-se ao _celticismo_, pois affirmava que na Peninsula, depois da

invasão dos celtas, prevalecera a lingua e o caracter iberico.

Mas recentemente Charnock, Van-Eys e outros têem provado o muito que

Humboldt se afastara da verdade nas suas interpretações[198]. Em

vista dos interessantes resultados da critica moderna, a hypothese da

unidade cede o passo á hypothese da pluralidade dos povos ibericos. Os

resultados obtidos pelos philologos estão concordes com as indicações

da historia. Com effeito, escriptores de todas as epocas descrevem-nos

os iberos, os habitantes das varias regiões da Iberia, com costumes,

nomes, idiomas e alphabetos differentes[199]. As tradições restantes

representam-os divididos em tribus, sem grandes relações entre si, ao

que obstava a diversidade de sangue e de linguagem. Quando os celtas

invadiram a Peninsula, a maior parte d’essas tribus não chegaram a

confederar-se contra o inimigo commum. Algumas até se alliaram com elle

contra os povos visinhos; outras permaneceram solitarias e impassiveis

no meio da conflagração geral.

Apezar do influxo de sangue estranho, já de celtas, já de phenicios,

já de carthaginezes nos povos peninsulares, os romanos encontram

tamanhas difficuldades para subjugar a Iberia, como para unifical-a sob

o imperio das mesmas leis. Ora vencedores, ora vencidos, luctam por

espaço de dois seculos, e, sómente Julio Cesar consegue em fim fazer

aceitar as leis romanas e o mesmo governo aos povos subjugados.

Durante quatro seculos mantem-se a união da Peninsula pela força das

armas, e mais ainda pelo commum interesse dos seus habitantes em

conservar a civilisação que Roma lhes impozera e ao mundo antigo.

Mas, depois da destruição do imperio, rotos os laços que estreitavam

os povos, renovam-se as sub-divisões da Hespanha em pequenos estados,

differentes uns dos outros pelas religiões, leis e costumes. Mais

tarde, estabelecida a unidade religiosa, o elemento monarchico chega

a ligar por vezes n’um só todo as varias partes desaggregadas. Mas a

esta força oppõem-se sempre mais ou menos, por uma ou por outra fórma,

as resistencias derivadas das differenças originaes. Ainda hoje a

Hespanha se esforça para conservar unidas as suas provincias, e para

obrigal-as a se regularem pelos mesmos codigos, e a se organisarem

pelos mesmos principios administrativos. Difficil empreza! Hoje, como

em epocas passadas, resistem poderosamente a esse grande esforço os

sangues diversos que gyram nas veias dos peninsulares. A pluralidade

das origens dos velhos iberos ainda agora se patentêa nos ultimos dos

seus descendentes!

Demonstrada, em opposição á unidade, a pluralidade iberica, segue-se

naturalmente investigar que povos seriam esses collectivamente

designados pelo nome de iberos. E primeiro que tudo vejamos até onde

se póde determinar a origem da palavra Iberia.

Junto do Caucaso, na lingua de terra que separa o mar Negro do mar

Caspio, no logar actualmente occupado pela Georgia, houve um paiz

homonymo com a Peninsula. Chamavam-lhe os latinos _Iberia_ e _iberes_

ou _iberi_ aos seus habitantes. Muitos rios a regavam, em cujos areaes,

bem como nos dos rios de Hespanha, diziam antigos auctores abundarem

palhetas de ouro. A um d’elles, o rio Arak, chamavam _Arago_, nome

commum ao affluente do Ebro na Hespanha. Em correspondencia a este

ultimo, citava Strabão o rio Ibero. Finalmente ambas as Iberias, ricas

de metaes, foram exploradas em eras remotas.

Acham interpretadores da Biblia que a Iberia do Caucaso, e não a

nossa, como erradamente escreveram auctores portuguezes e hespanhoes,

teria sido povoada por Tubal e Mesec, filhos de Japhet e netos de

Noé. Nos dois irmãos personificava Ezechiel os scythas que em tempo

de Cyaxara reinavam na Asia Anterior, e tinham por berço a Scythia

iberica, e concorriam com vasos de bronze aos mercados de Tyro.

Alguns dos antigos, desde Homero, qualificam de grandes exploradores

e fabricantes de metaes os povos da Iberia Caucasica ou das regiões

proximas, abundantes de minas de prata, cobre, ferro, etc. Os chalybes,

habitantes do paiz de Thermodoon, inventaram o processo de temperar o

aço, designado entre os gregos usualmente pelo nome dos inventores[200].

Taes analogias suscitam naturalmente a idêa de que um povo, emigrado

da Iberia do Caucaso, estabelecendo-se nas regiões do nordeste da

Hespanha, ahi continuaria a explorar os metaes, applicando a certos

rios, e porventura a outros logares, os nomes dos rios e logares que

tinha deixado, e designando todo o paiz que viera occupar, ou antes

explorar, com o de Iberia, por se chamar assim o seu proprio paiz

natal. A preponderancia d’este povo faria depois com que se extendesse

a toda a Peninsula e ainda mais além o nome da parte onde elle dominava.

Na antiguidade havia já quem seguisse esta opinião. Outros eram porém

pela contraria, sustentando que os iberos da Europa teriam colonisado

e denominado a Iberia da Asia. Outros, finalmente, julgavam que entre

os iberos da Asia e os da Europa não havia similhança nenhuma nem

na linguagem nem nos costumes, e só o nome seria commum. Appiano,

contemporaneo de Trajano e de Marco Aurelio, menciona todas estas

tres opiniões[201]. A primeira é a mais geralmente seguida; porém não

falta quem prefira a ultima, estribando-se nos caracteres iranios

dos iberos asiaticos, e na falta de taes caracteres entre os iberos

occidentaes, que pertenceriam a uma raça estranha ao grande tronco

indo-europeu[202]. A verdade é que, na actualidade, a anthropologia

não sabe ainda com certeza classificar estes povos. Ha razões para crer

que seriam formados pela mistura da raça turania e da irania. Em fim

os argumentos philologicos até hoje apresentados não têem mais força

que todas as analogias que mencionámos, como provas da procedencia

caucasica dos iberos europeus, e particularmente quando se pretende

substituir aquella origem pela incertissima Atlantida de Platão[203].

A Iberia e os iberos apparecem-nos na transição da prehistoria para a

historia sem que se lhes possa rastrear as origens. Os mais antigos dos

geographos gregos chamavam Iberia ás regiões para áquem do Rhodano.

Assim o declara Strabão[204]. Com effeito, Eschylo, escriptor do seculo

V antes de Jesus Christo, e Avieno, que escreveu a _Ora maritima_

no seculo IV da nossa era, porém com documentos pouco posteriores

á fundação de Marselha pelos annos de seiscentos antes de Christo,

indicam o Rhodano como limite da Iberia.

Mas, por outra parte, não faltam egualmente razões para crer que

os antigos chamavam em particular iberos aos habitantes do litoral

mediterraneo desde o Segura até aos Pyreneus[205]. Parece portanto

que o nome de iberos, pertencendo primitivamente a estes povos, se

extenderia depois a outros que no resto da Peninsula, e ainda para além

dos Pyreneus, se alliariam com elles, e mais por interesses commerciaes

ou outros, do que por similhanças ethnicas.

No tempo da guerra de Troia, onze ou doze seculos antes de Christo,

os siculos invadiam a Sicilia e expulsavam os sicanos. Ora a origem

iberica dos sicanos é attestada por Thucydides, Philisto de Syracusa,

Ephoro, Dyonisio de Halicarnaso e outros[206]. Os primeiros d’estes

auctores concordam em que os sicanos habitavam nas margens de um rio

chamado Sicano, que, segundo a opinião geral, sería o Jucar, que

desemboca no Mediterraneo ao sul de Valencia. Avieno e Hecateu fallam

de certa cidade chamada Sicana, que no seculo VI antes de Jesus Christo

existiria nas margens de um rio[207].

Alguns dos nomes dos povos antigos parece derivarem dos rios, cujas

margens elles habitavam. Assim é que os _tartessos_ tomariam o nome

do rio _Tartesso_, hoje Guadalquivir; os _sordos_, _sordones_ ou

_sardones_ do rio Sordo da Gallia Meridional, perto dos Pyreneus: os

_sicanos_ do rio _Sicano_, e finalmente os _iberos_ do rio _Ibero_,

hoje _Ebro_, que percorre as provincias hespanholas de Aragão e da

Catalunha.

Induzidos pelas similhanças onomasticas, pretendem alguns que os

sardos seriam tambem iberos. Dos sordones ou sordos das costas do

Mediterraneo, ao norte dos Pyreneus, procederiam os sardos. Estes,

com o nome de _Shardana_ apparecem já mencionados nos monumentos

egypcios do seculo XIV antes de Jesus Christo, ao que nos referimos no

capitulo antecedente. Na Corsega menciona Seneca os iberos que fallavam

e trajavam á moda dos cantabros da Hespanha[208]. Como hespanhol que

era por nascimento, Seneca não deveria enganar-se em tal observação.

Comtudo, na opinião de outros, os sardos antes pertenceriam á familia

dos liguros.

Aqui temos outros povos, antigos como os iberos, com elles relacionados

e cujas origens são egualmente obscuras. Muito antes da guerra de

Troia, alguns dois mil annos talvez antes do nascimento de Christo,

os liguros, segundo Thucydides, expulsavam os sicanos das margens do

rio Sicano da Iberia e os obrigavam a refugiar-se na Sicilia[209].

Avieno refere as fontes do Tartesso ou Betis ou Guadalquivir á lagôa

ligustica[210]. Ora, as fontes d’este rio correspondem ás abas das

serras que pelo oriente limitam a provincia de Jaen, ao norte das

quaes, na provincia antiga de Murcia, passa o rio Jucar, em direcção

ao Mediterraneo, onde desagúa ao sul de Valencia. Concordam portanto

os dois textos, seis seculos anteriores a Jesus Christo, na região da

Peninsula que os liguros habitavam. Accrescente-se ainda que Estevam

de Byzancio, compilador do seculo VI da era christã, soccorrendo-se

provavelmente de documentos muito anteriores, põe não longe do mesmo

rio Tartesso a cidade de _Ligustina_, cujos habitantes diz serem

_liguros_[211], e ter-se-ha a convicção de que estes povos occuparam

uma parte determinada da Peninsula.

O imperio dos liguros dilatou-se pela Gallia e pela Italia,

particularmente pelas regiões litoraes mediterraneas até ao rio Arno.

No periplo que chamam de Scylax, anterior a Aristoteles, distinguem-se

os liguros propriamente ditos, que habitavam a leste do Rhodano, dos

liguros e iberos misturados, que habitavam para a parte do occidente,

entre o Rhodano e Ampurias, cidade da provincia hespanhola da

Catalunha[212].

Tacito no primeiro seculo da era christã classificava os siluros da

Grã-Bretanha entre os povos ibericos, por terem a côr morena e os

cabellos crespos dos iberos. Suppunha-os oriundos da Hespanha. A _Ora

maritima_ confirma até certo ponto o parecer de Tacito, mencionando na

Hespanha o monte Siluro[213]. A côr morena, o cabello farto e crespo

eram geralmente considerados como caracteres ethnicos dos iberos. N’um

epigramma que o ciume inspirara a Catullo, apostropha este poeta a um

celtibero nos termos seguintes: «... Ó filho cabelludo da Celtiberia,

Ignacio, que não tens outro merito senão o de possuires uma barba

espessa e uns dentes que fazes alvos á força de fricções de urina.

...»[214].

Se attendermos a que os liguros são geralmente havidos como iranios,

e á presupposta origem caucasica dos iberos, acharemos grande

difficuldade em separar completamente do tronco iranio ou indo-europeu

os iberos. Por outra parte não se póde tambem negar a existencia dos

caracteres ethnicos referidos e de outros, que differençam os iberos

dos povos decididamente iranios, em meio dos quaes viviam. Mais adiante

se verá que taes factos se explicarão plausivelmente, admittindo que os

iberos resultariam da fusão das raças mongolica e caucasica, para o que

estavam adequadamente situadas as regiões que separam o mar Caspio do

Mar Negro, berço provavel dos iberos occidentaes.

Mas estes povos ninguem hoje poderá sustentar que fossem os primitivos

da peninsula Iberica, habitada já na idade da pedra, como se prova pela

paleontologia humana e pela archeologia prehistorica. Os homens de San

Isidro e da Cesareda não seriam por certo iberos, e já na idade dos

metaes é possivel que tambem o não fossem os primeiros dos exploradores

do cobre, como adiante veremos. Quaes seriam pois os predecessores

dos iberos? É muito para notar-se que, na epoca da pedra polida, no

tempo em que as cavernas serviam de habitações ou de sepulturas, a

analogia dos objectos encontrados n’uma caverna da Alhama de Granada,

na Andaluzia, e n’outra caverna de Dijon, em França, auctorise a

suppôr que povos da mesma raça ou representantes da mesma civilisação

habitariam estas duas partes remotas, mas comprehendidas na região

que mais tarde foi conhecida pelo nome de Iberia, tomada esta palavra

na mais lata das accepções. Catão o antigo, pretende que os medas,

persas e armenios fossem os primitivos dos habitantes da Peninsula.

Na opinião de Herodoto seriam os syginnos. Mas a verdade é que todo o

exame e discussão dos textos dos auctores não chegarão a dar-nos outras

indicações mais que as que deixámos expostas com relação aos iberos.

As memorias escriptas, só por si, não bastam pois para a determinação

dos povos que em epocas remotas, anteriormente aos iberos, habitaram a

Peninsula. A solução do problema ficará reservada á critica moderna,

que, pela interpretação racional dos factos, achará a luz que nos falta

em tantas trevas. Á philologia sobre tudo compete subministrar-nos os

principaes dos elementos para a historia verdadeira e positiva das

origens ethnicas. Mas o atrazo d’esta sciencia, na parte respectiva

á Peninsula, priva-nos por ora dos seus poderosos recursos. Egual

importancia tem n’este ponto a archeologia. São poucos tambem os

subsidios que ella nos presta, mas ainda assim os unicos de que podemos

lançar mão n’este estudo interessante.

Primeira e previamente, para fazer idêa do numero, importancia e

procedencia das invasões prehistoricas, importa-nos considerar aquellas

que se effeituaram já nos tempos historicos[215]. Ora, estas ultimas

foram de povos que se distribuem naturalmente por tres classes: 1.ª

Africanos (phenicios, carthaginezes e mouros); 2.ª Asiaticos (iberos,

celtas, arabes e alguns dos barbaros da idade media); 3.ª Europeus

(gregos, romanos, outros dos barbaros da idade media e normandos).

Effeituaram-se tantas invasões no espaço de trinta seculos, pouco mais

o menos. Por tres vias differentes entravam os invasores na Peninsula.

Pelo Mediterraneo, a mais frequentada de todas, viriam os iberos, os

phenicios, os carthaginezes, os gregos, e algumas vezes os romanos e

os normandos. Pelo Atlantico, celtas, normandos e outros dos povos

septemtrionaes. Pelo Atlantico e pelo Mediterraneo, por uma e por outra

parte do Estreito de Gibraltar, arabes e mouros. Em fim pelos Pyreneus

entrariam por algumas vezes os celtas, romanos e barbaros.

Pelas invasões historicas impossivel será especificar as prehistoricas.

Mas o que das primeiras se conclue relativamente ás segundas é que

deverão ter sido frequentes e effeituadas, pela maior parte, pelas duas

vias maritimas: pelo Mediterraneo e pelo Atlantico. Ora estas duas

vias relacionam-se naturalmente com as duas correntes principaes das

emigrações dos povos, que directa ou indirectamente vieram da Asia para

a Europa. As regiões da Asia, d’onde em geral se suppõem terem partido

as antigas emigrações, formam um vasto espaço circumscripto por duas

grandes cordilheiras, a do Altal ao norte e a do Himalaya ao sul. Pondo

de parte, por divergentes em relação á Europa, as irradiações para o

nordeste e para o sueste da Asia, restam aquellas que se effeituaram

para as partes de oeste ou para a Asia Menor, Egypto e Africa

septemtrional; e para as partes de noroeste ou litoraes do Baltico e

do mar do Norte. Ora d’estas duas vias a primeira foi por certo a das

mais antigas das emigrações. Tudo as favorecia por este lado. Eram

muito menos os obstaculos naturaes, as distancias tambem menores, e

finalmente muito mais doce o clima e a terra mais fertil, além de

outras condições, todas conformes ao desenvolvimento da civilisação.

Por isso os paizes, onde primeiramente se manifestou, e até com grande

antecipação relativamente á Europa, foi na Assyria, Babylonia e Egypto.

As emigrações dos africanos ou beréberes e dos asiaticos, vindos

pelo Mediterraneo, devem pois ter precedido quaesquer outras. A dos

beréberes póde até reportar-se a epocas anteriores á descoberta da

navegação, ao tempo em que a Europa estaria ainda unida á Africa, pela

Sicilia ou pelo estreito de Gibraltar. D’esta sorte se explicaria a

distribuição geographica da antiga raça de Cro-Magnon e de especies de

animaes africanos desde o meio da França até ao deserto do Sahara[216].

Os povos emigrados da Asia pela parte de noroeste occupariam

primeiramente as costas do Baltico ou do mar do Norte. Depois

dilatar-se-hiam pelas costas occidentaes da Europa, pelas ilhas

Britannicas, pela França, e afinal pela peninsula Iberica. A via

dos Pyreneus sería menos frequentada, porque ás difficuldades,

resultantes dos obstaculos naturaes, accresceriam as resistencias

offerecidas por povos da mesma raça, que habitassem áquem e álem da

cordilheira. A arte, auxiliada pela natureza, deveria formar por

aquella parte uma barreira fortissima a quaesquer invasores, que,

vindos de longe, intentassem penetrar na Peninsula. Mas da parte do mar

não havia taes difficuldades. Na epoca da pedra polida praticava-se

já a navegação entre o norte da Africa ou o meio-dia da Europa e

as regiões septemtrionaes d’este continente[217]. A distribuição

geographica dos dolmens, que pela maior parte occupam os litoraes e as

margens dos rios, prova-nos que a civilisação que elles representam

se propagaria essencialmente pela navegação. Na Peninsula formam uma

longa faxa semi-circular, uma cintura megalithica, estendida desde a

parte mais interna do golfo de Biscaia até ao cabo de Gata, occupando

as provincias de Alava, Santander, Galiza, o reino de Portugal e a

Andaluzia. A largura d’esta faxa extensa, n’umas partes será pouco

maior, n’outras, pouco menor que a largura maxima do reino de Portugal,

tomada, como é costume, entre Campo-Maior e o cabo da Roca.

Bastará, portanto, a consideração da cintura megalithica da Peninsula

para provar que a civilisação dolmenica deve ter vindo pelo mar. Mas

a cintura não é completa. Interrompe-se desde o cabo de Gata ate ao

cabo de Creus, isto é nas regiões orientaes, nas provincias de Murcia,

Valencia e Catalunha. Qual sería pois o obstaculo á propagação dos

dolmens por tamanha extensão de terra, que, por ser banhada pelo mar,

estava em condições tão favoraveis como o restante litoral para receber

a nova civilisação? Foi uma civilisação anterior, que trouxeram pelo

Mediterraneo povos emigrados pelo oeste da Asia, em quanto a outra,

a dos dolmens, deve ter correspondido áquelles que emigraram pelo

noroeste e vieram á Peninsula pelo Atlantico.

D’esta sorte a civilisação dos dolmens caminharia do norte para o sul,

hypothese, contra a qual tem objectado a maior perfeição e variedade

dos objectos encontrados nos dolmens do norte em relação aos extrahidos

dos dolmens do sul. Mas este facto, apesar de verdadeiro, não constitue

prova evidente. Por quanto, havendo a idade da pedra, e em geral os

tempos prehistoricos, durado por mais tempo nos paizes septemtrionaes

que nos meridionaes, é claro que o costume de construir os dolmens

deveria tambem conservar-se até mais tarde. Por isso, tendo mais tempo

de progredir, a industria humana deixaria vestigios mais perfeitos,

correspondentes a uma epoca posterior da sua evolução.

Não faltam para contrapor aos dolmens outros vestigios materiaes das

antigas civilisações, vindas pelo Mediterraneo. São os monumentos

cyclopeos, cuja origem se encontra na Asia Menor, na Bithynia, segundo

a opinião de Mimaut[218]. Depois continuam pela Arcadia, Epiro,

Grecia, Italia, Sicilia, Sardenha e ilhas Baleares. Na Peninsula, diz

Rougemont, seguem-se por Tarragona, Sagunto e mais para o interior

até Toledo[219]. Mas o que melhor nos convence da incompatibilidade

das duas civilisações vem a ser a lei da antinomia dos seus vestigios

respectivos. Na Asia, da mesma sorte que na Europa, onde ha dolmens

faltam as construcções cyclopeas, onde restam vestigios das segundas

faltam os primeiros.

A esta, como a toda e qualquer regra geral, se descobrirão de certo

algumas excepções. Nas ilhas Baleares, por exemplo, vêem-se as

_mapalias_ ou _navetas_ e os _talayots_, monumentos cyclopeos, e a

par com elles os dolmens e os menhires. Na Andaluzia acham-se tambem

dolmens e muralhas cyclopeas, como as do Castello de Ibros em Jaen.

Mas estes dolmens, bem como os das Baleares, parecem menos antigos que

os de Portugal. Na _Cueva de la pastora_ ha uma galeria subterranea,

cuja camara circular é coberta á roda com pedras, dispostas á maneira

d’aquellas que formam a abobada de escalão (encorbellée), e por cima

e no centro acaba de cobril-a uma lage dolmenica[220]. Ora, se esta

singular construcção é, com effeito, uma abobada incompleta, mostraria

a fusão dos dois estylos, porque a abobada, inteiramente estranha á

architectura dolmenica, encontra-se muitas vezes pelos monumentos

cyclopeos. Na mesma região se operou em tempos muito posteriores uma

similhante fusão entre o estylo christão ogival e o estylo mahometano

egualmente incompativeis.

Introdução á archeologia da peninsula Iberica · 第 14 / 18 段