Os auctores da _Crania ethnica_ vêem o mesmo typo de Canstadt, posto

que extremamente modificado, n’outros craneos fosseis descobertos em

Hespanha e Portugal. Na raça que habitava o Cabeço da Arruda, e que

deixou n’este logar tão abundantes vestigios que se calcula teriam

pertencido a uns quarenta e cinco individuos, observa-se o contraste

dos caracteres do typo de Canstadt com os de outro typo menos antigo.

Assim, á proeminencia das arcadas supraciliares, á larga depressão que

as separa, ao desenvolvimento dos seios e á pequena elevação das bossas

frontaes correspondem nos mesmos craneos a altura da região frontal, a

brachycephalia e a maior capacidade interior, de certo proporcionada a

cerebros mais volumosos que os da antiga raça de Forbes e Néanderthal.

Os caracteres da face, porém, relacionam outra vez a raça do Cabeço

da Arruda com outras mais imperfeitas. Os caracteres dos maxillares

demonstram notavel prognathismo e grande largura dos buracos nasaes.

Nos maxillares inferiores observam-se tambem signaes de prognathismo;

além d’isto alguns dos caracteres da celebre maxilla de Moulin-Quignon,

e por fim a saliencia triangular do mento[175].

Dissemos n’um dos capitulos anteriores as razões por que se ha de

attribuir a raça do Cabeço da Arruda á epoca da pedra polida e

provavelmente ao tempo dos kiokkenmoddings. Á mesma epoca da pedra

polida se reportam os vestigios encontrados nas cavernas de Cesareda.

Aqui, posto que os caracteres ethnicos de alguns individuos diffiram

muito d’aquelles que ultimamente analysámos, outros ha todavia que

se lhes assimilham. Parece ter havido n’esta estação prehistorica a

sotoposição de varios depositos correspondentes a varias epocas. Não

é muito pois, que juntamente com os vestigios da epoca do Cabeço da

Arruda appareçam outros differentes, mais ou menos antigos e até de

raças diversas.

Nos dentes das maxillas da Casa da Moura, uma das cavernas de Cesareda,

nota-se tamanho desgaste, que a face de trituração de todos elles

deveria formar uma superficie concava. O prognathismo é maior n’estes

maxillares que nos do Cabeço da Arruda. Tanto nas maxillas superiores

como nas inferiores se notam, se bem que pouco distinctas, as suturas

inter-maxillares, o que, junctamente com o excessivo alongamento

de traz para diante, demonstra o grau inferior d’aquella raça na

escala dos seres humanos. Os auctores da _Crania ethnica_, depois de

descreverem os principaes caracteres dos ossos maxillares de Cesareda,

convem em que, pela sua fórma, são muito analogos aos do homem fossil

de la Naulette ou d’Arcy, pertencente á primeira raça que denominaram

de Canstadt.

N’um dos craneos de Cesareda a fronte é pequena, achatada de ambos

os lados e muito inclinada de diante para traz. As dimensões d’este

coronal coincidem com as do osso correspondente do craneo de Forbes

ou de Néanderthal. Os caracteres dos parietaes são tambem os mesmos

n’estes e n’aquelle; mas, apezar da depressão da sutura sagital,

commum a todos, no craneo de Cesareda ha mais alguma elevação na

parte media. Este e outros craneos de Cesareda são dolichocephalos ou

sub-dolichocephalos, caracter que só por si importa differença grande

entre os seus habitantes e os do Cabeço da Arruda[176].

O frontal da _Cueva de la Mujer_, caverna proxima da Alhama de Granada,

offerece, posto que menos salientes, os caracteres da parte analoga do

craneo da pedreira de Forbes. O craneo a que pertencia aquelle frontal

deveria ser extremamente dolichocephalo, e conter um cerebro pouco

desenvolvido na parte correspondente ás faculdades intellectuaes. Com

este osso encontraram-se outros do esqueleto, e entre elles um femur,

a cujas altas proeminencias se apegariam musculos de grande força.

Tambem, pela sua grande curvatura, differe da fórma que tem actualmente

nas raças europeas, e até d’aquella que outr’ora teve nas raças antigas

da mesma região[177].

Todos os observadores tem sido conformes em considerar analogas as

maxillas fosseis da Peninsula e a de Moulin-Quignon. Áquellas que já

mencionámos convirá accrescentar outra que appareceu em Gibraltar

juntamente com instrumentos de pedra polida e de bronze, e que Falconer

e Pruner-Bey acharam tambem similhante á celebre maxilla descoberta em

Abbeville em 1863[178].

Auctorisará este facto a suppôr que os habitantes primitivos

da Peninsula, excepto os de Forbes’-Quarry e porventura outros

contemporaneos de que se não descobrissem ainda vestigios, pertenceriam

á mesma raça ou antes á mesma familia de Moulin-Quignon? Não. Porque

esta era brachycephala; ora a brachycephalia não se tem verificado

senão nos craneos do Cabeço da Arruda. Os outros, entre elles o

da Genista de Gibraltar, são dolichocephalos. Além d’aquelles que

já mencionámos, ha os da Andaluzia, que Gongora affirma serem

dolichocephalos, por ter examinado muitos, achados em varios sitios

d’esta provincia[179]. Logo, se os craneos fosseis da Peninsula são

pela maior parte dolichocephalos e não se podem classificar entre os do

typo de Canstadt, ao que obstam não sómente os caracteres anatomicos,

mas tambem o terem apparecido juntos com ossos de animaes domesticos,

haveremos de referil-os á segunda raça dolichocephala de Quatrefages e

Hamy, isto é ao typo de Cro-Magnon.

É cedo ainda para bem definir e classificar as raças prehistoricas,

e muito mais para delinear com exacto rigor a sua distribuição

geographica. Não resta duvida nenhuma de que o homem foi contemporaneo

dos grandes mammaes desapparecidos; parece incontestavel que tambem o

seriam alguns d’aquelles restos fosseis, dos quaes se fez resaltar o

typo da primeira raça; mas do craneo de Canstadt que lhes deu o nome,

ha quem affirme não ter essa antiguidade. Virchow cita um escripto de

Hælder que torna o caso duvidoso[180]. Por outra parte, os diversos

typos humanos, até hoje determinados, não se succederam uns aos outros

em epocas egualmente successivas. Os typos mais antigos continuaram a

apparecer por entre os menos antigos, e, por virtude da lei atavismo,

ainda hoje se reproduzem alguns dos seus caracteres em certos

individuos contemporaneos.

Da raça de Cro-Magnon conhecem-se melhor os caracteres anatomicos,

por terem apparecido restos mais completos e mais numerosos; mas a

sua distribuição geographica, fóra da França, não está perfeitamente

demarcada. Quatrefages e Hamy affirmam haver-se encontrado o typo

de Cro-Magnon em Hamoir, na Belgica; em Léry, no Eure; em Grenelle;

em Lozére; nas landes de Bordeaux; em Sordes, na Gascunha; nas

Vascongadas, nos craneos dos vasconços primitivos; em Zaraus; nos

tumulos megalithicos da Africa, explorados pelo general Faidherbe;

no paiz dos Kabylas de Djurjura, na Roknia; e finalmente nos craneos

dos guanchos das Canarias[181]. Accrescentemos a estas regiões, pelos

motivos ponderados, Portugal e Andaluzia, e as Asturias por se ter

descoberto um craneo do mesmo typo na mina de cobre del Milagro.

É obvia a importancia fundamental d’este roteiro para a ethnologia

da Peninsula. Faça-se corresponder o centro da raça de Cro-Magnon

ao sudoéste da França, e mais em particular ao valle de Vezére, a

um territorio aproximadamente circumscripto pelos limites da antiga

Aquitania, e admitta-se a existencia de vestigios d’esta raça nas

regiões habitadas pelos vasconços, nas terras litoraes de Hespanha e

Portugal, e finalmente, além do Estreito, na Africa do norte. Ficará

assim resolvido, em parte, o problema das origens autochtonicas da

peninsula Iberica. Quem ignora que os povos da Aquitania passavam

por iberos, que estes occuparam uma grande parte da Peninsula, a que

deram o proprio nome, se não o receberam d’ella ou de um dos seus

rios; que os vasconços são considerados ainda hoje commumente como os

ultimos restos d’essa gente notavel, que, mais pela prehistoria do

que pela propria historia, se conhece; e finalmente que a proximidade

geographica, as analogias ethnicas, as da fauna e da flora estão

indicando a antiga existencia de povos irmãos nas costas meridionaes

da Peninsula e nas septemtrionaes da Africa? A raça de Cro-Magnon, já

de per si resultante do cruzamento de uma raça mais com outras menos

imperfeitas, sería pois o fundo geral, onde, pelo decurso dos tempos,

viriam misturar-se e dissolver-se os elementos ethnicos de outros

povos, emigrantes de varios logares da superficie da terra, e mui

differentes entre si pelos caracteres physicos e moraes.

Será porém a presupposta distribuição geographica da raça de

Cro-Magnon, na parte respectiva á Peninsula, um facto real e positivo

ou apenas uma hypothese que algumas circumstancias fortuitas fazem

parecer provavel? Em que argumentos se estriba tal opinião?

Já vimos que os logares, onde os auctores da _Crania ethnica_

suppõem ter existido a raça de Cro-Magnon, concordam exactamente com

a hypothese, quando se applica fóra da Peninsula, e ainda aqui na

parte correspondente ás Vascongadas. E, se não referiram ao typo de

Cro-Magnon outros craneos fosseis achados em Hespanha e Portugal, os da

Alhama e de Cesareda, disseram todavia bastante para se conhecer que

tambem não os poderiam classificar entre os de Néanderthal, d’Engis ou

de Forbes. Pela nossa parte entendemos que, á falta de mais minuciosa

investigação, aquelles craneos pelas suas fórmas menos imperfeitas,

por serem dolichocephalos e finalmente por terem apparecido juntos

com ossos de animaes domesticos, só á raça de Cro-Magnon se hão de

reportar. Os caracteres notaveis do femur de Alhama parece confirmarem

esta mesma conjunctura; e tambem a analogia dos vestigios da industria

humana achados n’esta caverna com aquelles que se encontraram em

França, n’outra caverna de Dijon[182]. Assim pois admittiremos, como

extremamente provavel, que a raça de Cro-Magnon habitaria nos tempos

prehistoricos uma parte da França, a peninsula Iberica e a Africa

septemtrional. E para que a nossa opinião não corra desacompanhada de

toda a auctoridade que lhe faça boa sombra, lembraremos em fim que

anthropologos taes como Busk, Broca e Falconer, referiram ao typo de

Cro-Magnon o craneo da Genista em Gibraltar, e o da mina de cobre del

Milagro nas Asturias.

Mas, por outra parte, sabe-se que nos mais antigos dos tempos de que

ha memoria, a raça berébere povoava já uma zona extensissima da Africa

septemtrional desde as praias do Mediterraneo até ao oceano Atlantico,

a Libya, a Numidia, a Mauritania e outros paizes, que os egypcios,

os gregos e romanos variamente denominaram. Ora, se os kabylas

representam ainda hoje e os guanchos representavam ha poucos seculos

a raça de Cro-Magnon, se os primeiros são beréberes e os segundos o

foram tambem, natural parecerá perguntar se os beréberes actuaes não

representarão hoje em dia aquella velha raça de Cro-Magnon? Se, nos

tempos prehistoricos não occupariam, portanto, uma parte da França, a

peninsula Iberica e a Africa septemtrional, onde, por fim, mais livres

de cruzamentos ou da acção expulsora de outros povos, se perpetuariam

até hoje?

Broca e Hamy em França inclinam-se para esta hypothese que ultimamente

foi tratada em Hespanha com grande desenvolvimento por D. Francisco

Tubino[183]. Topinard não a demonstra, para o que será ainda cedo, mas

affirma que fortes presumpções a tornam muito provavel[184].

Broca examinou innumeros craneos vasconços e julgou-os analogos aos

dos beréberes[185]. Pruner-Bey tambem reconheceu nos maxillares,

encontrados nas cavernas da Cesareda e no Cabeço da Arruda os

caracteres do typo do berébere do continente africano[186]. Cita-se,

além d’isto, em favor da hypothese a grande similhança da fauna e da

flora, em geral, e mais em particular dos typos humanos, nos visinhos

litoraes europeu e africano, das serras da Ronda e da cordilheira do

Riff, por exemplo. Cita-se mais a união possivel em epocas remotas

entre a Africa e a Europa em sitios correspondentes ao Estreito.

Finalmente, admittindo este facto geologico, suppõe Quatrefages a raça

de Cro-Magnon oriunda da Africa d’onde emigraria para a Europa com a

hyena, o leão, o hippopotamo e outros animaes africanos[187].

Em França, onde, se têem descoberto e estudado muitos craneos e outros

ossos humanos fosseis, conhecem-se já os caracteres anatomicos da raça

de Cro-Magnon e a sua distribuição geographica. Sabe-se, por exemplo,

com certeza que era ao sudoeste a parte por ella mais povoada. Na

Peninsula faltam-nos os estudos necessarios para affirmar com certeza

qualquer opinião. Em vista das razões ponderadas, é provavel que á

raça de Canstadt, representada pelo craneo de Forbes, e talvez pelos

instrumentos de silex de San Isidro, se seguisse a de Cro-Magnon,

á qual se reportam os outros craneos da Genista de Gibraltar, e

os de Alhama, da mina del Milagro e de Cesareda. Mas, depois do

muito que n’estes ultimos annos tem progredido a paleontologia

humana, e particularmente depois da publicação da _Crania ethnica_,

obra abundante de subsidios para os estudos comparativos, importa

rever todos esses vestigios peninsulares, medil-os com exactidão,

classifical-os e comparal-os entre si e com os typos conhecidos.

Importa mais buscar outros vestigios, porque os de quatro ou cinco

estações em toda a extensão da Peninsula não bastam para sanccionar

qualquer conclusão positiva. Convirá finalmente passar além do

Estreito, e determinar as relações de similhança ou de differença, que

por ventura existam entre a paleontologia humana da Europa meridional e

a das regiões septemtrionaes do continente africano.

A archeologia e a historia revelam-nos outros factos, que, posto que

não cheguem a demonstrar cabalmente o predominio da raça berébere

na Peninsula, dão todavia a esta hypothese mais alguns graus de

probabilidade. Ha mais de tres mil annos os egypcios estavam em

relações com os libycos, a quem chamavam _lebu_, d’onde se derivaria

talvez a fórma grega _libues_. Os tumulos reaes das dynastias XVIII,

XIX e XX, em Biban-el-Moluk, estão adornados de notaveis pinturas,

entre as quaes se vêem representadas quatro raças que deveriam ser

partes constituintes do vasto imperio dos pharaós. Em primeiro logar

os rot ou egypcios, pintados de vermelho e parecidos com os paizanos

actuaes das margens do Nilo; em segundo logar os _namu_ de côr amarella

e de nariz aquilino, correspondentes aos povos asiaticos que viviam ao

oriente do Egypto; depois os _nashu_ ou negros prognatas de cabello

crespo; e finalmente os _tamahou_ brancos, de olhos azues e cabellos

louros[188].

Não falta quem supponha significar _tamahou_ em egypcio _homem do

norte_; e serem, portanto, os homens brancos e louros, em quem

imperavam os pharaós, procedentes da Europa septemtrional. Mas o

general Faidherbe impugna tal etymologia, e assevera que a lingua

berébere ainda hoje se chama _tamahoug_ no Sahara, onde mais pura se

tem conservado[189].

Por outra parte, consta de uma grande inscripção de setenta e sete

columnas, conservada em Karnak e interpretada pelo visconde de Rougé,

que os _tamahu_ capitaneados por Mormuiu, foram derrotados pelos

pharaós Ramsés e Merenptah. Em fim, na Argelia appareceram monumentos

de Tutmés III, em cujo tempo, consequentemente, se dilataria o imperio

egypcio até áquella região extrema da Africa septemtrional[190].

Para combinar, harmonisar e explicar todos esses factos é mister

referir os _tamahu_ á Africa do norte, e por tanto suppôr que seriam

beréberes, os quaes ora fariam parte do vasto imperio egypcio, ora

tentariam libertar-se do jugo pouco toleravel de um povo distante e de

raça differente. É verdade que o typo do berébere de hoje não parece

muito conforme ao do _tamahu_ de ha tres mil e tantos annos. A maior

parte dos beréberes tem olhos, pelle e cabello escuros. Mas este typo

contemporaneo póde não ser já o mesmo do tempo dos pharaós, por se ter

alterado, por effeito de influencias estranhas, que não deixariam de

transformal-o no espaço de tantos seculos. Muitos dos habitantes das

montanhas de Marrocos e da Argelia, e os touaregs do Sahara, logares

aonde era mais difficil chegar a influencia dos cruzamentos, são de

alta estatura, claros, de olhos azues e cabello louro. Assim o attesta

o general Faidherbe, que estudou as regiões da Africa septemtrional,

e o confirma F. M. Tubino, accrescentando haver tambem observado com

frequencia o mesmo typo nas serranias da Ronda áquem do Estreito.

Encontrar-se-hão, porém, por todos os logares, aonde menos poderiam

chegar influencias estranhas, beréberes brancos e de olhos azues,

com quem se pareçam ainda hoje os retratos pintados ha trinta e mais

seculos nos tumulos reaes de Biban-el-Moluk?

Mas a influencia da civilisação egypcia dilatava-se ainda para

áquem dos limites do continente africano, e chegava muito perto

da Peninsula, senão a algumas das proprias gentes que a povoavam.

Quinze seculos antes da era christã já os sardos possuiam marinha

militar, e duzentos annos antes, no seculo XVII, já o Egypto nomeava

funccionarios especiaes para tractarem, em nome dos pharaós, as

questões internacionaes com os povos pelasgicos do Mediterraneo,

taes como os tuscos, dardanios e gregos[191]. A inscripção de Karnak

menciona entre os homens do mar, alliados com os libycos, os _sárdainá_

ou sardos, os _turs’a_ ou etruscos e os _mas’uas_ ou amazirghas[192]. É

provavel que a todos tivesse applicação o nome generico de _tamahou_.

Os _rebu_ ou _lebu_ (libycos) e os _ma’suas_ que habitavam tambem a

Africa septemtrional, apparecem adornados com o mesmo singular toucado;

e vem a ser uma larga trança enroscada que passa por deante da orelha

e cahe sobre a espadua, recurvando-se á maneira do chifre inferior de

alguns carneiros. O mais notavel é que um dos pharaós, Ramsés II, se

adorna com toucado similhante. Por este facto, e porque se vê gravado

nos braços e pernas dos tamahou o symbolo conhecido da deusa Neith, se

provam as relações intimas que em epocas remotas ligavam estes povos

aos habitantes do Egypto.

Os povos confederados, segundo a citada inscripção, invadiram o

Egypto e chegaram até Memphis. Foram porém derrotados pelo pharaó ou

pelos seus generaes. O principe Mormuiu perdeu o arco, a aljava e as

sandalias juntamente com as suas joias de ouro e prata e utensilios

de bronze. Os povos do mar deixaram tambem objectos de ouro e prata,

espadas, facas, couraças e cnemides. Pela importancia e qualidade

dos despojos se avaliará o subido grau de civilisação a que tinham

chegado, ha mais de tres mil annos, todas estas gentes convisinhas do

Mediterraneo[193].

Os povos da Peninsula, pelo menos os das regiões meridionaes e

orientaes, acompanharam de certo os seus visinhos das ilhas do

Mediterraneo e do norte da Africa nos estadios da civilisação que

successivamente percorreram. Por aquellas mesmas regiões se encontram

vestigios das construcções cyclopeas dos povos pelasgicos. Nas ilhas

Baleares abundam os _talayots_ analogos ás _nuraghas_ da Sardenha. A

par com estas construcções de fórma pyramidal vêem-se outras á maneira

de barcos com as quilhas voltadas para cima, e que não são senão as

_mapalia_ ou _magalia_, que os getulos ou numidas do tempo de Sallustio

construiam no seu paiz: «_ædificia oblonga incurvis lateribus tecta

quasi navium carinœ sunt_»[194]. Os sardos e os iberos usavam a longa

tunica negra e roçagante á moda dos médas, que, por este costume, se

differençavam dos outros povos nomadas, celtas, scythas e germanos,

cujos vestidos se lhes cingiam aos corpos e apenas lhes cobriam as

pernas. Finalmente o _cetra_ ou escudo pequeno redondo era usado pelos

libycos, iberos e bretões[195].

De quanto deixamos ponderado parece-nos concluir-se com grande

probabilidade: 1.º Que na epoca da pedra polida a Peninsula sería

habitada pela raça de Cro-Magnon, pelo mesmo tempo existente na parte

meridional da França e na septemtrional da Africa; 2.º Que esta raça

é ainda hoje representada pelos beréberes; 3.º Que ha tres mil e

mais annos os povos libycos e pelasgicos estavam já tão civilisados

que podiam invadir o Egypto e medir-se com os exercitos dos pharaós;

4.º Que os habitantes da peninsula Iberica, pelo menos os de certas

regiões, deveriam estar tambem similhantemente civilisados, e ter

portanto ultrapassado a idade da pedra.

NOTAS DE RODAPÉ:

[165] _Dictionaire universel du_ XIX _siècle_ par P. Larousse, verb.

BASQUE.

[166] _Ethnologische Schriften._

_Dolichocephalo_, de _dolichos_, longo, e _kephalê_, cabeça.

_Brachycephalo_, de _brachus_, curto, e _kephalê_, cabeça.

_Orthognata_, de _ortho_, direito, e _gnathos_, maxilla. _Prognatha_,

de _pro_, para diante, e de _gnathos_, maxilla.

[167] Thucydides, VI, 2.

[168] Virchow. _Les peuples primitifs de l’Europe. La revue

scientifique de la France et de l’étranger_, 2.ᵉ série, 4.ᵉ année, n.º

1, juillet 1874, pag. 12. Vej. tambem Steur, _Ethnographie des peuples

de l’Europe_, verb. LIGURES.

[169] _La vie du langage._ Pariz, 1875, pag. 213.

[170] _La linguistique._ Pariz, 1876, pag. 87 a 106.

[171] _Dictionnaire universel du_ XIX _siècle_, verb. LANGAGE.

[172] _Bulletins de la Société d’Anthropologie de Paris_, tom. IV, pag.

314 a 323.

[173] _Crania ethnica_, pag. 7.

[174] _Crania ethnica_, pag. 21 e 22.

[175] Pereira da Costa, _Noticia sobre os esqueletos descobertos no

Cabeço da Arruda_, Lisboa, 1865.

[176] Delgado, _Noticia ácerca das grutas de Cesareda_. Lisboa 1869.

[177] Mac-Pherson, _La Cueva de la Mujer_, 1.ª e 2.ª parte, Cadiz,

1870-1871.

[178] _Bulletins de la Société d’Anthropologie de Paris_, tom. V, pag.

62.

[179] _Antigüedades prehistoricas de Andalucia._

[180] _Les peuples primitifs de l’Europe. La revue scientifique de la

France et de l’étranger_, 2.ᵉ série, 4.ᵉ année, n.º 1, juillet, 1874,

pag. 12.

[181] _Crania ethnica. L’espèce humaine._ Pariz, 1877, pag. 248.

[182] Vej. cap. IV, pag. 61. O femur de Alhama parece ser um _femur

de pilastra_ como os dos esqueletos dos guanchos e dos outros da raça

de Cro-Magnon. As _tibias achatadas_ ou _platycnemicas_, os _peroneos

clausteados_ e os _cubitos arqueados_ caracterisam tambem a raça do

Cro-Magnon.

[183] F. M. Tubino, _Los monumentos megaliticos de Andalucia,

Extremadura y Portugal, Museo español de antigüedades_, tom. VII, pag.

353. Esta Memoria sahiu depois na _Revista de Anthropologia_ de Madrid

com o titulo; _Los aborigenes ibericos ó los beréberes en la Peninsula._

[184] _L’anthropologie._ Pariz, 1876, pag. 486.

[185] _Bulletins de la Société d’Anthropologie de Paris_, tom. IV, pag.

38 a 62.

[186] _Congrès internacional d’Anthropologie et d’Archeologie

prehistoriques_, 2.ᵉ session, 1867.

[187] _L’espèce humaine._ Pariz, 1877, pag. 240. Depois dos tempos

geologicos, mas ainda nos prehistoricos, a passagem dos beréberes da

Africa para a Europa não era impossivel pelas aguas do Estreito, pelo

Mediterraneo ou pelo Atlantico. Entre as conchas fosseis, achadas em

França na estação de Laugerie-Basse, algumas ha que não poderiam ter

sido trazidas senão da ilha Wight. Ora durante a epoca do rangifer não

havia communicação por terra entre a França e a Inglaterra. Idem, pag.

242.

[188] Topinard, _L’anthropol._, 451.

[189] Anatole Roujou, _Recherches sur les races humaines de la France_.

Pariz, 1874, pag. 86.

[190] Tubino, Mem. cit.

[191] Steur, _Ethnographie des peuples de l’Europe avant Jesus-Christ_.

Bruxelles, 1873, tom. III, pag. 193.

[192] Tubino, Mem. cit.

[193] Tubino, Mem. cit.

[194] Sallust. Bell. Jugurth. in princip. Ácerca dos talayots e das

navêtas ou casas com a fórma de barcos ás avessas, da ilha de Menorca,

veja-se o artigo do sr. Fernandez Duro, no jornal _La Academia_, n.º

12, que deu motivo a uma carta do auctor, publicada no mesmo jornal,

tom. II, n.º 10.

[195] Steur, op. cit., tom. II, pag. 118. Rougemont, _L’âge de

bronze_, pag. 286.

CAPITULO X

ORIGENS ETHNICAS

(CONTINUAÇÃO)

Introdução á archeologia da peninsula Iberica · 第 13 / 18 段