existencia de origens unicas do bronze. A composição d’esta liga é
a mesma por toda a parte. Os objectos encontrados, seja qual fôr o
logar onde o tenham sido, denotam tres periodos differentes da epoca
do bronze; 1.º aquelle em que apparece como raridade no meio de
gentes occupadas a polir a pedra: 2.º aquelle em que o metal chega
a substituir definitivamente a pedra para certos usos, em que lhe é
manifestamente superior: 3.º aquelle em fim em que o ferro vem fazer
concorrencia ao bronze e chega a supplantal-o. Allega-se tambem a
falta da exploração do cobre na Europa. E de tudo isto conclue o sr.
Burnouf, reproduzindo segundo cremos, a opinião do sr. Chantre, que a
origem do bronze sería estranha á Europa, e n’uma região indeterminada
da Asia. Admitte porém que, pelas differenças locaes, se ha de
distribuir a Europa em tres grupos: o do Oural; o do Danubio e o do
Mediterraneo[163]. Não reflectiu o auctor que ao primeiro d’aquelles
grupos correspondem antigas minas de cobre exploradas pelos tchoudes;
ao segundo as minas da Hungria e Transylvania; ao terceiro finalmente
as da peninsula Iberica. Cornwalls, e porventura alguma outra região
ignorada forneceriam o estanho aos fundidores do bronze.
Não será hoje facil, unicamente pelos vestigios encontrados, resolver
os problemas que nos offerece a metallurgia da epoca do bronze.
Entretanto ha certos factos conhecidos que, approximados e comparados
uns aos outros, deixam entrever a possibilidade de uma solução.
Herodoto falla de uma casta ou corporação de fundidores ambulantes,
provenientes da Asia[164]. Durante a idade media ainda a mesma raça
frequentava as villas e aldeias da Europa, odiada e perseguida por
todos. Com o desenvolvimento da industria cada vez se tornaram menos
frequentes as apparições d’estas tribus errantes. Comtudo ainda ha
poucos annos uma percorreu a Hespanha e Portugal, acampando fóra das
povoações e demorando-se em cada estação emquanto lhe davam trabalho.
Esta gente é da casta dos ciganos, e pelo mesmo nome ou pelos
correspondentes designada nos differentes paizes.
Segundo Herodoto, os _sigynnos_ seriam os mais antigos dos habitantes
da Peninsula e, na oppinião de alguns auctores, seriam tambem os
_ciganos_ da antiguidade. Com effeito _syginnos_, _tzigeuners_,
_ziguener_, em Allemanha, _tchingenés_, na Turquia, parecem variantes
do mesmo nome. Mas, se já entre os antigos iberos havia ciganos,
sel-o-hiam tambem os sicanos ou sequanos, iberos que na Sicilia
precederam os siculos? No ultimo capitulo d’este livro diremos algumas
palavras mais ácerca d’esta questão obscurissima da ethnologia
peninsular.
NOTAS DE RODAPÉ:
[139] Pelo menos Desor não os menciona, estampando e descrevendo
minuciosamente os instrumentos de bronze. Vej. _Les palaffittes ou
constructions lacustres du lac de Neuchatel_.--Pariz 1865.
[140] Lubbock, _L’homme préhistorique_, pag. 53.
[141] Idem, pag. 54.
[142] Lenormant, _Les premières civilisations_, tom. I, pag. 87 e 88.
[143] Vej. a pag. 27 d’este livro a classificação proposta.
[144] _L’âge du bronze_, pag. 179.
[145] Lubbock, op. cit. pag. 233.
[146] Rougemont, op. cit. pag. 32 e 33.
[147] Lubbock, op. cit. pag. 233.
[148] Lenormant, op. cit. pag. 106.
[149] Idem, pag. 86.
[150] _Los monumentos megaliticos de Andalucia, Extremadura y Portugal
y los aborigenes ibericos, Museu español de antigüedades_, tomo VII.
[151] _Lo preshistorico en España, Anales de la sociedad española de
historia natural_, tomo I, cuaderno 2.º pag. 210.
[152] _Armas, utensilios y adornos de bronce recogidos eu Galicia.
Museu español de antigüedades_, tomo IV, pag. 64.
[153] _Armas, utensilios y adornos de bronce recogidos en Galicia.
Museo español de antigüedades_, tomo IV, pag. 64.
[154] J. F. N. Delgado, _Noticia das grutas de Cesareda_.
[155] Op. cit.
[156] A cabra, encontrada no Redondo e pertencente hoje ao sr. Dr.
Sanches da Gama, appareceu juntamente com moedas romanas e vasos de
barro debaixo de uma pedra, perto da villa de Redondo, districto de
Evora. O possuidor da cabrinha conserva tambem algumas das moedas que
diz serem do imperador Filippe. O individuo que fez o achado insiste
em que todos estes objectos estavam juntos debaixo da mesma pedra.
Difficil parecerá attribuir á epoca romana a cabrinha do Redondo,
cujo lavor todavia é menos imperfeito que o das que se conservam na
Bibliotheca de Evora e as fig. 79 e 80 representam. O sitio do achado
foi junto de certo ribeiro, distante um kilometro de Montoito.
[157] _Antigüedades prehistoricas de Andalucia._
[158] Diz Lenormant que, no tempo em que os aryos e os semitas
eram ainda pastores, florescia na Asia anterior uma civilisação
exclusivamente turania e kuschita. A de Susiana sería anterior á de
Babylonia, pois que os chaldeus a denominavam por excellencia o _paiz
antigo_. As gentes turanias que a povoavam, já vinte e tres seculos
antes de Christo, emprehendiam remotas conquistas. _Les premiéres
civilisations_, tom. I, pag. 108.
[159] Rougemont, _L’âge de bronze_, pag. 121.
[160] _Revue d’anthropologie_, 1875, pag. 508.
[161] Strabão Geograph. lib. III. «... _funditores tamen sunt optimi,
aiuntque eam artem eos magnopere exercuisse, ex quo tempore Phœnices
eas insulas occuparunt. Hi primi hominum feruntur gestasse tunicas laté
pretextas._»
[162] Emile Burnouf, _L’âge du bronze, Revue des deux mondes_, 15 juin
1877, pag. 752 a 782.
[163] Ibidem.
[164] E. Burnouf, loc. cit.
CAPITULO IX
ORIGENS ETHNICAS
_Os finnicos e os vasconços.--Os seus idiomas agglutinativos.--Origem
turania dos finnicos.--Será commum aos vasconços?--Provas deduzidas
da philologia e da anthropologia.--Hypothese de Retzius e sua
classificação das raças humanas.--Refuta-se esta hypothese.--Opiniões
dos philologos ácerca da linguagem vasconça.--Os mais antigos dos
craneos da Peninsula e da Europa.--Craneos fosseis de Néanderthal
e de Gibraltar.--Outros do Cabeço da Arruda, Cesareda e Cueva
de la Mujer.--Maxillas.--Raça de Cro-Magnon.--Sua dístribuição
geographica.--Povoaria a peninsula Iberica?--Será representada
ainda hoje pelos beréberes?--Factos comprobativos.--Necessidade
de novas observações.--Os beréberes e os antigos egypcios.--Povos
mediterraneos.--Sua civilisação ha tres mil annos.--Extender-se-hia á
Peninsula?--Conclusões._
Nos extremos da Europa, entre os pantanos da Finlandia, no meio das
brenhas e fraguras dos Pyreneus, remanecem, com os nomes de _finnicos_
e _vasconços_, os ultimos representantes de duas raças estranhas.
Parece que outros povos mais civilisados, a quem teriam de ceder o
passo e de abandonar os logares amenos e apraziveis, onde em principio
habitariam, os foram de tempos a tempos repellindo e internando para
as suas vivendas actuaes. O insolito da linguagem, dos costumes, das
propensões, em summa do typo ethnico, em todas as epochas tem feito com
que lhes attribuam maior antiguidade que aos outros povos da Europa. A
linguagem, sobre tudo, torna-se por extremo notavel, pelo seu caracter
agglutinativo, entre idiomas, que, por serem flexivos, correspondem a
um grau superior de cultura e desenvolvimento intellectual.
Convém saber que os philologos modernos admittem tres phases distinctas
na evolução da linguagem: o monosyllabismo, a agglutinação e a flexão.
Ainda hoje alguns povos se conservam na primeira d’estas phases;
outros persistem na segunda; outros, em fim, mais perfectiveis, mais
dispostos a modificar-se, obedecendo á lei do progresso, elevaram-se
á terceira. Ora, assim como o chinez de Cantão ou de Fo-Kien (porque
n’outras provincias da China a linguagem offerece o curioso phenomeno
da transição da primeira para a segunda phase) assim como o chinez
de Cantão ou de Fo-Kien parece incapaz de passar do monosyllabismo
á agglutinação, e muito mais á flexão, assim tambem o finnico e o
vasconço têem conservado até hoje, no meio e em contacto de povos que
fallam idiomas flexivos, a sua antiga linguagem agglutinativa.
Com razão pois se tem considerado estes dois povos como subsidios
importantes para a solução do problema das origens ethnicas da
Europa. Porquanto, determinada a raça ou determinadas as raças d’onde
procederam os finnicos e os vasconços, conhecer-se-hiam desde logo
os predecessores dos mais antigos dos povos que a historia menciona.
Aos vasconços, isolados como estão, e distantes de outros povos com
idiomas agglutinativos, não se lhes póde rastejar a stirpe, mas quem
seguir attentamente os passos e vestigios dos povos finnicos para as
partes orientaes, lá irá encontrar a mesma raça na Asia; pela Siberia
occidental, dilatando-se até ao rio Jenessei e até aos montes Altai. E
pois se vê confinar ahi, da parte do nascente, com mongoes propriamente
ditos, e, da parte do sul, com turcos e tartaros, não é muito que
se tenham os finnicos como um ramo do grande tronco mongolico, e se
designem tanto a estes, como aos outros povos com que se emparentam,
pelo nome generico de _turanios_, da região que parece ter-lhes sido
berço, para os distinguir dos aryos ou _iranios_, povos oriundos não do
Turan, mas do Iran.
Procederiam, porém, os vasconços egualmente do Turan, e pertencerão por
conseguinte á raça mongolica? O caracter agglutinativo da linguagem,
só por si, não basta para demonstrar identidade de origem ou de raça.
Homens brancos, amarellos e negros fallam idiomas agglutinativos em
varias partes do mundo. Mas Luciano Bonaparte e Charancey julgaram
achar outras analogias particulares entre o finnico e o vasconço, e
entenderam que seriam ambos da grande familia das linguas turanias do
norte da Asia[165]. No campo da anthropologia cuidou Retzius ser commum
a finnicos e vasconços a mesma fórma do craneo. Assim a identidade
ethnica d’estes povos parecia provada por duas das sciencias que mais
competentemente o poderiam fazer.
Deixaremos aos philologos a analyse e discussão da prova philologica,
por exigir conhecimentos geraes de linguistica e especiaes dos idiomas
agglutinativos. Mas, para bem se avaliar a prova anthropologica,
importa-nos dizer algumas palavras ácerca da hypothese de Retzius.
A côr da pelle, da iris e do cabello, por uma parte, e por outra parte
a distribuição geographica, têem servido de elementos fundamentaes á
maior parte d’aquelles que tractaram de classificar as raças humanas.
Todavia nem Blumenbach, nem Cuvier, nem Morton, nem Agassiz, nem
qualquer dos auctores de classificações principalmente fundadas nos
caracteres referidos, deixaram de prestar a devida attenção aos da
fórma e capacidade do craneo. Tal é com effeito a importancia d’estes
caracteres, que, relativamente aos de outros orgãos, muito bem
poderemos consideral-os como subordinadores.
Retzius foi quem primeiro classificou as raças humanas sómente pelas
mais apparentes das differenças anatomicas observadas nos craneos.
A classificação do celebre medico sueco, ha poucos annos fallecido,
é tão simples como engenhosa. Todos os craneos humanos são ou
_dolichocephalos_ (alongados), ou _brachycephalos_ (arredondados).
Admittida esta divisão geral, as raças humanas, segundo o auctor,
dividir-se-hiam tambem em raças dolichocephalas e raças brachycephalas.
Cada uma d’estas classes se subdividiria em raças _orthognathas_ (com
maxillas verticaes) e em raças _prognathas_ (com maxillas inclinadas de
trás para diante e de cima para baixo)[166].
No tempo de Retzius os mais antigos dos craneos que na Scandinavia se
conheciam eram brachycephalos; e, como os dos finnicos o fossem tambem,
e se julgasse o mesmo dos vasconços, suppoz aquelle anthropologo que
a Europa, antes de ser habitada pelos povos actuaes da raça iranía, o
teria sido por outros da raça turania, dos quaes o maior numero sería
destruido pelos primeiros, e o resto afugentado para as vertentes dos
Pyreneus e para as regiões pantanosas da Finlandia.
Outro povo, não menos antigo, na opinião de alguns procedente da
Peninsula, e, portanto, aparentado com os vasconços, seriam os liguros.
No tempo de Herodoto e de Hecateu de Mileto habitavam uma parte da
Italia. Antecedentemente haviam fundado Genova, e em epoca ainda mais
remota, mil e trezentos ou mil e quatrocentos annos antes de Jesus
Christo, passavam á Sicilia com o nome de siculos; e expulsavam d’ahi
os sicanos, bem como, alguns seculos antes, os haviam já expulsado
das margens do rio Sicano da Iberia[167]. Os liguros tinham mediana
estatura, olhos e cabellos negros e a cabeça redonda. Como por estes
caracteres parecesse não pertencerem ás raças iranias, associaram-os
tambem aos vasconços e finnicos, reportando-os á raça mongolica e
constituindo com todos a população primitiva da Europa. Os liguros
seriam dos povos autochtonos totalmente destruidos, chegando a
perder-se a sua linguagem, que ninguem hoje sabe qual fosse, mas que,
segundo a hypothese, deveria pertencer ao grupo das agglutinativas, e
assimilhar-se, portanto, ás dos finnicos e dos vasconços[168].
Todas as apparencias pareciam pois em favor da hypothese. Povos de raça
mongolica, taes como os finnicos, liguros e vasconços, habitariam em
epocas remotissimas a Europa. Viriam depois os aryos que destruiriam
os liguros e porventura outros povos, cuja memoria se perdesse, e
deslocariam os finnicos e os vasconços para a Finlandia e para as
vertentes meridional e septemtrional dos Pyreneus.
A hypothese de Retzius importava necessariamente: 1.º A brachycephalia
dos mais antigos dos craneos humanos fosseis da Europa; 2.º A
brachycephalia das raças mongolicas ou turanias; 3.º A brachycephalia
dos finnicos, liguros e vasconços; 4.º finalmente, a dolichocephalia
das raças aryas, e portanto da maior parte dos actuaes europeos. Contra
a opinião de Retzius está hoje demonstrado: 1.º Que os mais antigos
dos craneos humanos fosseis encontrados na Europa são dolichocephalos;
2.º Que a brachycephalia não é caracter exclusivo da raça mongolica ou
de qualquer outra, mas que em cada raça ha uns craneos brachycephalos
e outros dolichocephalos, predominando porém uns mais outros menos
conforme os grupos ethnicos; 3.º Que os finnicos são brachycephalos,
mas os vasconços hespanhoes dolichocephalos; 4.º Que entre os aryos ha
tambem craneos redondos ou brachycephalos. Além d’isto a diversidade
dos typos ethnicos dos finnicos e dos vasconços não consiste unicamente
na fórma do craneo. Os primeiros têm grande estatura, cabello muito
louro e olhos azues: os segundos são morenos com olhos e cabellos de
côres escuras.
Destruida a prova anthropologica, resta-nos a prova philologica.
Já dissemos que reservariamos aos philologos a analyse e discussão
d’este ponto. Entretanto, limitando-nos aos argumentos de auctoridade,
poderemos ainda mostrar que a prova não tem o valor que alguns lhe
attribuiram. Com effeito, sendo extremamente communs na Asia, Africa e
America os idiomas agglutinativos, tanto se póde relacionar o euskara
(lingua dos vasconços) com o finnico da Europa, como com qualquer das
innumeras linguas da mesma classe d’aquelles tres continentes. E na
verdade todas essas hypotheses têm seus propugnadores. O atraso da
philologia comparada e a imperfeição dos methodos de demonstração fazem
possivel a defesa de todas as opiniões.
Modernamente porém vae prevalecendo a tendencia para reunir no mesmo
grupo o euskara e certas linguas da America. A analogia, segundo
Pruner-Bey, está na indole geral da linguagem euskara, na construcção
da grammatica, e finalmente no systema de numeração. Whitney,
sem affirmar decisivamente a analogia do vasconço com os idiomas
americanos, entende que no Velho-Mundo não ha nenhum que lhe seja
tão similhante[169]. Hovelacque, posto que censure aquelles que não
hesitam em suppôr intimo parentesco entre o chippeway e o lénâpé ou
outras linguas da America e o euskara, confessa comtudo haver certas
analogias de conjugação entre os verbos das primeiras e os da segunda.
Nota mais uma particularidade commum aos idiomas dos vascongados e
de alguns povos americanos e vem a ser a composição por syncope. O
vasconço faz, por exemplo, de _ortz_, nuvem, e de _azantz_, ruido,
_ortzanz_, trovão ou, litteralmente, ruido da nuvem[170]. Em fim
Max-Müller reune o vasconço, o georgiano e as linguas agglutinativas da
America no mesmo grupo que chama das linguas _holophrasticas_, terceiro
das agglutinativas, e colloca a lingua dos finnicos separadamente no
segundo grupo das linguas turanias[171].
Mais adiante veremos que não sómente a philologia, mas tambem a
archeologia propende a estabelecer interessantes relações entre os
habitantes prehistoricos da Iberia e os de certas regiões da America.
Por agora, inutilisado o fio que Retzius propozera, para servir de
guia no labyrintho das origens ethnicas da Europa em geral e mais em
particular da Peninsula, buscaremos outro que nos offerecem os ultimos
descobrimentos da paleontologia humana.
Dentro dos limites d’esta sciencia, que não passa ainda para além da
idade quaternaria, os vestigios dos primeiros habitantes da Peninsula
correspondem ás estações prehistoricas de San Isidro, perto de Madrid,
e da pedreira de Forbes em Gibraltar. Consistem os primeiros em
instrumentos de silex, os quaes, pelas fórmas e lascado, se assimilham
de tal sorte áquelles que se tem descoberto em Saint-Acheul, que mui
naturalmente se reportam á mesma epocha, isto é, aos primeiros tempos
da idade quaternaria, o que tambem se prova com a grande espessura do
deposito que é de vinte e um metros bem medidos. O craneo achado em
Gibraltar tem os caracteres anatomicos da mais antiga das raças até
hoje conhecidas. Importa-nos pois saber qual foi esse typo humano, e
quaes os elementos por onde os naturalistas fixaram os seus caracteres
fundamentaes.
No anno de 1857 o dr. Fuhlrott impressionou vivamente o mundo com uma
descoberta inesperada. Foi nem mais nem menos que o celebre craneo
de Néanderthal, na caverna d’este nome, perto de Hochdal, entre
Düsseldorf e Elberfeld, na Prussia. A extraordinaria proeminencia das
arcadas supraciliares que formam grosso rebordo na parte anterior, o
grande desenvolvimento dos seios frontaes, o angulo facial, calculado
aproximadamente no fragmento restante, entre 56° e 66°, o occiput
alongado, as suturas escamosas, a espessura dos ossos, a estreiteza
e pouca altura da fronte e outras estranhas particularidades tão
differente o fazem do typo normal, que, visto por qualquer das faces,
não parece o que em verdade é--um craneo de homem.
Alguns naturalistas que o estudaram, como Schaaffausen, Huxley, Vogt,
Lyell disseram francamente assimilhar-se ao do macaco o craneo humano
de Néanderthal muito mais que qualquer outro das raças contemporaneas.
Outros, porém, Busk e Barnard Davis, por exemplo, negaram tal
similhança, declarando aquelle craneo mui pouco differente do typo
actual. Á Sociedade anthropologica de Pariz apresentou Gratiolet o
craneo de um idiota contemporaneo para mostrar que era com este e não
com o do gorilla a similhança do craneo de Néanderthal. Em opposição
aos naturalistas primeiramente citados, e tambem a Gratiolet, appareceu
Pruner-Bey a sustentar que o volume do cerebro, outr’ora contido no
craneo descoberto por Fuhlrott, ultrapassaria o volume medio do
cerebro do homem moderno, e a attribuir, em conclusão, o mesmo craneo a
algum dos celtas, frequentadores das cavernas do valle do Rheno[172].
Os adversarios de Darwin e da hypothese transformista empenhavam-se
pois em attenuar o valor de uma prova, que se lhes afigurava
concludente para mostrar como a especie humana poderia proceder
de alguma outra especie inferior. Todavia Quatrefages, apezar de
adversario tambem d’esta idêa, não pretendeu aperfeiçoar a fórma nem
reduzir a antiguidade do craneo de Néanderthal. Incapaz de contradizer
ou alterar a verdade manifesta para acreditar as opiniões proprias e
mascabar as alheias, escreveu:
«Os achados muito recentes de Faudel no _lœhm_ de Eguisheim
(Baixo-Rheno), de Cocchi nas argilas post-pliocenas do Olmo, perto de
Arezzo (Italia), de Eugenio Bertrand nas alluviões quaternarias das
baixuras de Clichy (Sena), de Fitz, em fim, nas areias diluvianas de
Brux (Bohemia), ao mesmo tempo que demonstraram serem os caracteres
anatomicos do homem de Néanderthal characteres ethnicos, posto que
exaggerados, confirmaram tambem as primeiras idêas apresentadas ácerca
da sua antiguidade relativa. Com effeito quasi todas estas peças
osseas, ajuntando-lhes as maxillas de la Naulette, de Arcy, de Clichy,
de Goyet, parece agora poderem referir-se á mais antiga das idades
quaternarias, áquella em que abundantemente predominavam os grandes
mammaes desapparecidos da face da terra. O estudo anatomico d’estes
fragmentos parece attestar haverem pertencido a uma só e mesma raça
dolichoplatycephala e prognatha...»[173].
Os mais antigos dos restos fosseis da especie humana, até hoje
descobertos, remontam pois aos primeiros tempos da idade quaternaria,
quando o mammouth, as especies priscas do rhinoceronte, o megaceronte
hibernico e outras alimarias desapparecidas habitavam ainda a Europa,
e disputavam aos nossos infelizes antepassados a posse das cavernas, a
presa dos animaes ou a colheita dos fructos da terra. Na maior parte
d’esses restos humanos se observam, se bem que menos proeminentes, os
caracteres do craneo de Néanderthal. Á raça a que todos se attribuem
deu-se o nome generico de raça de Canstadt, por ter apparecido no campo
dos mammouths, perto d’essa cidade, no Wurtemberg, o primeiro dos
craneos em que se verificaram taes caracteres.
Pondo de parte a estação de San Isidro, onde até hoje não tem
apparecido nenhum craneo, resta-nos a pedreira de Forbes em Gibraltar,
cujo craneo Quatrefages comprehendeu entre os da velha e primitiva raça
de Canstadt. Com quanto faltassem no jazigo fosseis caracteristicos
para se determinar a epoca do homem a quem pertenceu este craneo,
é todavia certo que, pelas suas fórmas, se assimilha por extremo
áquelles entre os quaes foi classificado. Eis aqui os mais notaveis
dos seus caracteres: paredes grossas, capacidade pequena, occipital
alongado para traz, escama temporal com a fórma de curva abatida,
arcadas supraciliares muito proeminentes, apophyse orbitaria externa
extremamente desenvolvida, fronte muito obliquada para traz e separada,
por uma depressão, das enormes arcadas. As orbitas são tambem muito
grandes e muito distantes uma da outra. A sua largura, e ainda mais a
sua altura, são as maiores que Broca até hoje tem encontrado em craneos
de homem. Visto de face, os rebordos externos das orbitas sobresahem
tanto, que, bem como no de Néanderthal, encobrem inteiramente a região
temporal. Os ossos malares, deprimidos no angulo superior, descem quasi
verticalmente, de modo que, apezar da extensão do diametro bimalar,
mal se conhecem as maçãs do rosto. São muito largos os buracos das
fossas nasaes. Os ramos ascendentes dos maxillares superiores têem a
fórma quasi convexa por cima e aos lados d’estes buracos. A arcada
dentaria, robusta, alonga-se muito no sentido antero-posterior,
formando uma volta de ferradura, que se aperta notavelmente na parte de
traz. Huxley, Broca, Alix insistiram n’este caracter que lhes pareceu
particular da raça de Forbes’-Quarry. Em fim, a face é prognatha; e o
angulo facial de Camper, difficil de medir por causa do desenvolvimento
dos seios frontaes, parece de 75 graus, e de 70 graus o angulo facial
alveolar. A tamanho prognathismo da maxilla superior corresponderia
provavelmente certo gráu de projecção da parte media da arcada dentaria
inferior, d’onde resultaria a inserção obliqua dos incisivos, notada
por Spring[174].